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Rollins Plays For Bird: um tributo de Sonny para Charlie Parker

É engraçado como o mundo sempre será povoado por questionadores de mitos. Uma vez tive a oportunidade de ver uma entrevista muito interessante com o saxofonista Sonny Rollins. Nela, o repórter teve a audácia de perguntar sobre os dotes técnicos do endiabrado Charlie Parker. 

Sonny sacou a acidez das palavras e muito antes do cara terminar de falar, o próprio já começou a responder, como num improviso. ''Quando vi Charlie Parker, sabia que estava presenciando um contato com algo superior''. 



Foi bonito ver a grandeza com que Sonny falava sobre o amigo. Apesar de seu triste fim, é reconfortante saber que seu DNA sonora já era parte da história quando ainda estava entre nós. Ouvir Charlie Parker é um desafio aos ouvidos, seu feeling é desconcertante e as frases, uma síncope sofisticadamente incontrolável.

Infelizmente, Bird nos deixou no dia 12 de março de 1955, um momento que antecedeu passagens incomensuráveis para o Jazz. É aquela história: ''se ele tivesse ficado só mais um pouquinho...''.

A partícula ''se'' é um veneno em pensamentos como este, mas é fato, se o maestro tivesse ficado ''só mais um pouquinho'', teríamos no mínimo outra mão cheia de clássicos e talvez até colaborações com o próprio Sonny, cidadão que estava com tudo, justamente quando Parker estava transcendendo de mãos vazias.



O ano de 1956 foi um dos melhores para o mundo da música e o motivo foi Sonny Rollins. Foi neste ano, quando o globo rotativo ainda se recuperava da perda de Charlie, que uma conexão celestial entre as forças da natureza e o cordão umbilical do Jazz foi traçada, tendo Theodore Walter Rollins como meio intermediário.

Em 12 meses, Sonny foi responsável pela gravação de 6 discos, sendo que dois deles se transformaram em verdadeiros standards do Jazz, falo sobre a épica dobradinha entre ''Tenor Madness'' e ''Saxophone Colossus''. Reza a lenda que neste ano Sonny falou pouquíssimo, estima-se que o músico disse 10 palavras e que 7 delas foram saxofone!


O interessante é que dentro dessa gravações, um deles em particular nunca é cittada quando a crítica passa um pente fino pela vida & obra de Sonny. 

Listagem completa dos lançamentos de 1956:
"Sonny Rollins Plus 4" - março
"Tenor Madness" - maio
"Saxophone Colossus" - junho
"Rollins Plays For Bird" - outubro
"Tour de Force" - dezembro
"Sonny Boy" - outubro/dezembro


O elo entre Rollins & Parker, ''Rollins Plays For Bird'', foi a forma que Sonny e seu quarteto encontraram para agradecer Charlie, não só pelo Jazz. Gravado cerca de um ano após a trágica morte de um dos músicos mais autênticos de todos os tempos, esse disco mostra como  influencia de Bird é um sopro perpétuo de Hard Bop frente a história do Jazz. 

Line Up:
Sonny Rollins (saxofone)
Kenny Dorham (trompete)
Wade Legge (piano)
George Morrow (baixo)
Max Roach (bateria)



Track List:
''Bird Medley; I Remember You/My Melancholy Baby/Old Folks/The Can't Take That Away From Me/Just Friends/My Little Suede Shoes/Star Eyes''
''Kids Know''
''I've Grown Accustomed To Her Face''
''The House I Live In''


E mesmo que esse lançamento tenha recebido resenhas das mais variadas opiniões, hoje, trata-se de um disco muito interessante, pois Sonny, como um dos maiores expoentes de sua geração, possuía uma técnica singular, mas deixou a sua própria abordagem de lado pra prestar tributo ao Parker.


O interessante com isso é perceber a parte técnica do som de Charlie. As harmonias, as modulações... Sonny era um músico muito respeitado nos meandros do Jazz. Quer um exemplo? O John Coltrane gostava tanto do som do tenor do Sonny que fez até uma música em sua homenagem - "Like Sonny" quando gravou o seu sexto disco de estúdio, o excelente "Coltrane Jazz", lançado em 1961.


A maior dificuldade dessa gravação deve ter sido definir o repertório, pois Charlie já tinha definido certos standards quando se foi. A primeira fase compila isso ao condensar 6 faixas do mestre numa improvisação que supera os 26 minutos de duração.

Temas como "Kids Know", por exemplo, são faixas que poucas pessoas relembram. Sonny de certa maneira optou por mostrar um lado mais minucioso do trabalho de Charlie. Ao selecionar faixas como "I've Grown Accustomed To Her Face" e "The House I Live In" - presente apenas na versão da RVG Prestige - o saxofonista mostra grande sensibilidade e entrega um disco que, apensar de ter uma proposta bem clara, desafia os ouvintes por não entregar tudo de mão beijada e propor um track list no mínimo surpreendente.

O Sonny Rollins estava de fato muito confiante pra se meter num projeto desse porte. Coisa finíssima. A versatilidade é nítida.

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O Circles Around The Sun está pra jogo novamente

O que começou apenas como um projeto de trilha sonora para os intervalos dos shows da turnê de 50 anos do Grateful Dead, virou coisa séria, se transformou em banda. Quem iria imaginar que a ideia do diretor de vídeo, Justin Kreutzmann e do guitarrista Neal Casal Neal Casal iria deixar de ser apenas um projeto?


Demorou quase 4 anos, é bem verdade, mas o Circles Around The Sun voltou aos estúdios em 2018. Com o seu segundo lançamento, o pra variar muito bom "Let It Wander", lançado dia 17 de agosto de 2018 (pela Rhino), o grupo se firma como uma das bandas mais interessantes do cenário Psicodélico. Os boogie's da rapazeada voltaram e dessa vez o Rock 'N' Roll veio puxado no Funk.

Line Up:
Neal Casal (guitarra)
Dan Horne (baixo)
Adam MacDougall (teclados)
Mark Levy (bateria)  



Track List:
"On My Mind"
"One For Chuck"
"Immovable Object"
"Helicarnassus"
"Tacoma Narrows"
"Electric Chair (Don't Sit There)"
"Ticket To Helix NGC 7293"


Chega a ser um desrespeito chamar o Circles Around The Sun de projeto. Nós resenhamos o primeiro trabalho da banda, o excelente "Interludes For The Dead", mas muita coisa mudou desde então, por isso vamos recapitular o groove. 

O Circles Around The Sun nasceu a partir de uma ideia que o filho do Bill Kreutzmann deu para o Neal Casal, que na época era guitarrista do Chris Robinson Brotherhood. A ideia surgiu, pois os shows da Fare Thee Well - a turnê de 50 anos do Dead - eram demasiadamente longos.


O "problema" disso, é que como a banda faria pausas durante o espetáculo, o público não teria nada pra ouvir, tampouco ver. Foi por isso que Justin pensou em desenvolver projeções nos intervalos e é aí que o Neal Casal entra na história, pra rechear visões com texturas instrumentais influenciadas pelo próprio Dead.

Gosto de salientar essa questão, pois nesse primeiro disco o Phil Lesh até gravou algumas linhas de baixo, algo que explica por que a cozinha sempre remete àquelas guitarras chorosas do Jerry Garcia, algo que definitivamente sumiu nesse disco - pois como foi dito lá pra cima - agora os caras são uma banda.



Nesse disco fica claro como agora trata-se de um som que tomou vida própria. Esqueça aquela guitarra mais chorosa à la Jerry Garcia, agora o som virou a chave e o Rock é a moeda de troca pra manter o som Funkeado.

Nem é questão de groove, pois groove eles sempre tiveram, desde o primeiro disco, a questão é o Funk. Os timbres de teclas em "On My Mind" são tinhosos. O clima beira o Rock Sulista de vez em quando, mas o Funk veio pra ficar nessa gravação, "One For Chuck" surge novamente com o balanço, dessa vez com a guitarra de Neal aparecendo mais.

No entanto quem rouba a cena é o baixão do Dan Horne e o trampo de teclados e sintetizadores do Adam. Dan tem um som de baixo mais agressivo, no primeiro CD, ainda mais tocando ao lado do Phil Lesh, em outro contexto musical, faz sentido pensar no motivo pelo qual sua abordagem é mais contida.


Aqui não, agora o baixo é plenamente audível durante o disco todo e chama atenção pelo feeling melódico até em temas mais leves, como em "Immovable Objects", por exemplo. Os sintetizadores do Adam estão esparramados pelo disco todo. Uivando como um Hammond em "Immovable Object", o cidadão realmente fez miséria nessa gravação.

Foi até estranho ouvir um disco mais curso dessa vez, mas fique tranquilo que ainda teve espaço pra suítes. A primeira delas, "Helicarnassus" representa o equilíbrio entre Funk, Psicodelia e chapantes camadas de teclas, já a segunda, "Ticket To Helix NGC 7293", surge meio delirante pedindo pra você dançar, até mandar sua mente para o espaço no meio da sessão.

Só de ouvir o disco dá pra sentir o tesão dos caras tocando. Seja ao som de "Tacoma Narrows" ou "Electric Chair (Don't Sit Here)", o que fica é a naturalidade, a liberdade e o caráter orgânico de se fazer música. Aquele lance de improvisar horas a fio só pelo ato de improvisar, saca? 

Discasso. Querem um último conselho? Não se deixem enganar pela bateria do Mark Levy. Parece fácil, mas os acompanhamentos de batera que ele orquestrou pra sustentar o ritmo nos 2 discos são formidáveis. Com um toque bastante leve, mas ainda assim, sincopado, o cidadão mostra quem a bateria pode fazer bonito com um som mais enxuto. Uma aula de psicodelia (praticamente rs) instrumental.

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Brazilian Tsunami: Compilação brasileira reúne 63 gemas da Surf Music

O Brasil é um país de dimensões intercontinentais e isso é um "problema" até na hora de disseminar o groove. Fazer o som rodar pelas BR's é muito difícil, mas em contrapartida, também é primordial circular em novos estados. O underground é muito nichado em termos de eixos - como RJ-SP - mas também no quesito musical mesmo, quando o assunto é estilo.

A cena é completamente pulverizada e ninguém para se conectar, mesmo que o Facebook jure que essa galera toda se conhece. A cena do Jazz é restrita a alguns clubes e festivais, a galera da Psicodelia espera pelo Hype e quando se fala em Rock e música extrema, o cenário é ainda mais fragmentado. O pessoal do Stoner vai pra um lado, a galera do Trash vai pra outro... É assim no Blues, MPB, música instrumental e digo mais, sobra até pra Surf Music. 

Beach Combers (RJ) no Palco do Lago durante o Psicodália 2018 - Foto por Guilherme Espir

É difícil até de ler essa situação e saber como encurtar distâncias entre estados, ouvidos e vertentes musicais. Num país que pouco incentiva a cultura, cabe à produtoras como a Abraxas e a 78 Rotações, por exemplo, a difícil tarefa de articular o fluxo dos eixos e descentralizar o som, dando não só palco pra essas bandas, mas também experiência e um novo público.

É muito complicado colocar tudo isso em prática. Reclamar da falta dessa estrutura de logística não resolve nada, mas é nítido que existe esse problema e são ações como a Brazilian Tsunami que vão nos ajudar a mudar essa realidade. O conformismo nunca vendeu disco mesmo.

Arte: Henrique San

Bandas & Track List:
The Dead Rocks - "Surf Explosão"
Os Brutus - "Billy The Ghost"
Jubarte Ataca - "Chafurdo com a Gangue"
Joanatan Richard - "Silence and Thunder"
Kingargoolas - "Dirty Plexus"
Búfalos D'Água - "Mandíbula"
Mary O and The Pink Flamingos - "Little Coconuts"
Los Pollos Caipiras - "Surfando na Serra do Cipó"
Surfadelica - "Questionable Navigation"
Sex On The Beach - "Eldorado"
Jacaré Junkie - "Pirarucu Attack"
Esquivo Devoluto - "Pique-Nique Beibe"
Superguedes - "De Volta ao Banheiro"
Os Pontas - "Banana Boogie
Marcelo Callado - "Munheca"
The Raulis - "Chicken Haole"
Os Gatunos - "Onde Está o Wally?"
Quentin Brothers - "The Last Ride To Eldorado"
Reverba Trio - "Sibéria"
Beermudas - "Ode à Rainha Diaba"
Gasolines - "Cheira Carimbó"
The Mullet Monster Mafia - "Black Coffin Board"
Light Strucks - "Sábado Violento"
Baleia Mutante - "Organicool"
The Violentures - "Surfin' Lava"
Brian Oblivion e seus Raios Catódicos - "Tereza"
Drakula - "Death Surf"
Apicultores Clandestinos - "Tererê"
Maniáticos do Reverb - "Rubi's Valley Halpipe"
Buzz Driver - "Tutube"
Barbatanas - "Bico Liso na Quissassanha Medonha"
Surf Aliens - "Enigma de Nazca"
Los Prego - "Casa Cheia de Veneno"
The Old Jack - "Tsunami"
Moréia The Surf Monsters - "Boldró"
Beach Combers - "Rei da Praia"
Hitchcocks - "Duelo Surf"
Comanches - "Raulis CWB"
Os Aquamans - "Maracauípe"
Sangue de Androide - "Sangue de Androide"
Ted Boys Marinos - "Space Station"
Footstep Surf Music Band - "Sasha Stomp"
Intóxicos - "Disaster"
Trabajo Cubano - "Sunset vista"
O Boi Solitário - "Trágica Noite"
Wood Surfers - "Nice View Of Paradise"
Retrofoguetes - "Telemetria"
Movie Star Trash - "Granizo"
Paqueta - "Guanxuma Jamaicana"
Shark & Os Tubarões - "O Pingalada"
Terremotor - "Intacto"
Surfabats - "Big Wave Surfing"
Ivan Motoserra Surf&Trash - "A Misteriosa Lagoa do Abaeté"
Os Carburadores - "El (Santo) Mariachi"
The Pulltones - "Storm Fisherman"
Tartarugas de Patinetes - "A Terrível Perseguição Intergalática ao último Quilombo de Emme Ya"
The Almighty Devildogs - "Dizzy"
Robotron - "Regeneration Of Reptilicus"
Reverendo Frankenstein - "A Vingança de Frank"
Surinames - "Skapeta"
PROA - "Transilvânia"
Gabriel Thomaz Trio - "Babababa"
Capitão Parafina & Os Haoles - "Fugindo desesperadamente do helicóptero malvado na densa selva sombria e húmida e com muitos perigos"

Depois de descer a tela vocês devem ter notado a vasta quantidade de bandas relacionadas, certo? Pois bem, essa reunião de 63 grupos, dos mais diversos CEP's do país, do Oiapoque ao Chuí, representa o árduo trabalho de curadoria dos selos Orleone Records e Reverb Brasil. Juntos, eles arquitetaram a Brazilian Tsunami, uma compilação 100 % Surf Music, só com o melhor dos sons que estão longe de ser uma marolinha.


Lançada no dia 21 de janeiro de 2019 - via Bandcamp - essa iniciativa é o puro reflexo da falta de integração no corre de Produção Cultural no Brasil. É justamente por isso que uma ação desse porte merece ser valorizada, pois além de desmistificar alguns estereótipos da Surf Music - como sua falta de variação ou de novas bandas - acaba por escancarar o cenário e ainda mapeia os grooves pra você ouvir tudo sem tomar um caldo.

Mais do que ser um bom resumo do que está acontecendo no estilo, a Brazilian Tsunami promove uma aproximação entre essas bandas, estados e diferentes influências. Ao construir um plano de fundo tão rico como o que foi cunhado acima, essa compilação  é capaz de conduzir os ouvintes numa viagem surpreendente e que consegue traduzir a essência de um som que toma as contas das praias canarinho desde os anos 60.


É um levante frente a resistência de uma cena que nunca teve o respeito, tampouco a mídia necessária para divulgar seu som e os dotes de suas respectivas cozinhas. Por isso, reserve um tempo na sua agenda e prepara-se para pesquisar, conhecer e se impressionar com a riqueza e a força de vontade de uma galera que não larga o osso.

Seja minucioso mesmo, nós fizemos hiperlinks com o Facebook das bandas para que vocês já possam achar os conteúdos e ver o material diretamente pelo Macrocefalia Musical.

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A guitarra safada do Cory Wong

Nos últimos anos tenho ouvido um número consideravelmente menor de guitarristas. A razão pra isso nem é a falta de bons instrumentistas, afinal de contas, numa cena formada por caras como Mansur Brown, por exemplo, chega a ser ridículo falar que o problema é a oferta de grooves.

Mas a grande questão não é nem a forma, no caso o instrumento - a guitarra - mas sim o conteúdo, algo inerente ao formato. Julgo conteúdo, nesse caso, todo o conjunto de percepções sonoras que vai condensar e criar o approach do músico para com seu instrumento, e é exatamente aí que reside o problema.


Você já parou pra ver quais são os tipos de guitarristas que existem hoje em dia? Acredito que seja possível categorizá-los em duas frentes:

Fritadores (shredder) que tocam 1.000 notas por segundo da maneira mais mecânica possível e caras que sabem tirar som. Músicos como o Cory Wong, por exemplo, que foi capaz de gravar um disco (praticamente todo) instrumental e que mostra a beleza da guitarra rítmica, salientando seu papel de protagonismo, sem necessariamente precisar fritar. 

Line Up:
Cory Wong (guitarra/baixo/piano)
Ben Rector (piano/sintetizadores)
Kevin Gastonguay (teclados/sintetizadores)
Elliot Blaufuss (órgão)
Ryan Liestman (teclados)
Kevin Macintire (baixo)
Petar Sanjic (bateria)
Michael Nelson (trombone)
Kenni Holmen (saxofone)
Steve Strand (trompete)
Adam Meckler (trompete)
John Fields (teclados/sintetizadores)
Robbie Wulfsohn (vocal)
Cody Fry (teclado/sintetizadores)
Ricky Peterson (órgão)
Joe Savage (pedal steel)
Sonny Thompson (baixo)
Antwaum Stanley (vocal)
Marti Fisher (flauta/teclado/baixo)
Phoebe Katis (vocal)



Track List:
"Jax"
"Light As Anything"
"91' Maxima"
"Jumbotron Hype Song"
"Sitcom"
"Juke On Jelly"
"The Optimist"


"The Optimist" é o segundo disco solo da carreira do Cory Wong. Lançado no dia 08 de setembro de 2018, esse trabalho saiu neste que é, sem dúvida alguma, o auge da carreira do natural de Minneapolis.

Com lançamentos que ilustraram diversas listas de melhores discos do ano em 2018, Cory nem ligou para a agenda do Fearless Flyers, tampouco do Vulfpeck, e resolveu gravar um disco solo só pra manter a mão direita aquecida.

Já pela lista de músicos que figuram nessa gravação, nota-se que o som está longe de ser alguma brincadeira, apesar dos caras fazerem miséria com o Funk, sem, aparentemente, nenhum esforço.


Sucessor do também muito interessante "Cory Wong and The Greenscreen Band" - debutante solo que o músico lançou em 2017 - "The Optmist" chega para apresentar uma nova visão guitarrística, mas ainda apresentando elementos desse disco, por isso destaco sua importância. É interessante sacar alguns dos trampos citados, justamente para se ter uma ideia do que esse meliante registrou em estúdio.


O que me chamou a atenção para o som do Cory foi sua visão. Influenciado pelas maiores gemas do Funk/Soul/R&B setentão, as linhas que saem na forma de ácidos licks e riffs em sua strato, são inspiradas nos arranjos de sopro que rechearam o groove dos estilos citados.

Só que no lugar de optar pelo preenchimento e trabalhar essa abordagem do jeito virtuose - o mais comum - Cory impressiona justamente por deixar a plateia perplexa, priorizando sempre 4 elementos:  ritmo, groove, timbre e a guitarra base. (Acredite se quiser).

O cidadão plantou uma pulga atrás da orelha de muita gente. Pegue o swing de "Jax", faixa que abre o disco, por exemplo. Se liga no baixo marcando, os metais na pressão... Mesmo com tudo isso, o termômetro das ações é a guitarra base e aí que está o grande lance.


Ele sustenta o groove, mas a dinâmica é tão rica que isso passa desapercebido, enquanto você bate o pezinho. Um disco capaz de tocar na rádio, de cabo à rabo, "The Optimist" mostra um som com grande apelo Pop-radiofônico, sem necessariamente perder valor e qualidade. "Em Light As Anything", Robbie Wulfsohn chega com vocais cremosos, dignos de liderar a lista da Billboard.

Ao som de "91' Maxima, Cory relembra o lirismo que consagrou o Vulfpeck, enquanto "Jumbotron Hype Song" vem com um baixão na sua cara, patrocinado pelos dedos de Sonny T e os vocais à la Disco Music com Autwaun Stanley.

Impressionado com as capacidades de groove da guitarra base não é? Apesar de não ser o destaque em todas as faixas, essa estrutura coloca a guitarra de Cory sempre em evidência e nunca num papel repetitivo e monótono, duas palavras que com certeza já foram usadas para descrever a arte tocar guitarra rítmica.

O som é festivo, técnico e muito cristalino. Temas como "Sitcom" passam com tanta leveza que o ouvinte nem repara. "Juke On Jelly" e a faixa título do disco são simplesmente irresistíveis. Cadê a criançada falando que o sonho deles agora é virar guitarrista base? O grande público precisa conhecer esse cara. O bom humor dessa rapazeada é contagiante demais pra passar batido.

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Carlos Santana & Wayne Shorter ao vivo em Montreux

Quando se fala em guitarra, o nome de Carlos Santana tende a ser um dos primeiros a se escutar, e se isso tem diminuído com o passar do tempo, não é culpa do guitarrista. Os rumos musicais que o mundo vem tomando em tempos recentes, trataram de ''atrapalhar'', não só Carlitos, mas também outros grandes nomes da música em seu groove-e-âmbito geral.

Muitos que conhecem o som quente e swingado do "Devadip" acabam se tornando grandes fãs, isso por que se você desconsiderar o passado recente, precisa concordar que o que não falta em sua discografia são grandes trabalhos. Porém, é válido ressaltar que alguns deles não foram muito comentados pela crítica ou até mesmo considerado tão bons quanto realmente são, mas o tempo está ai pra isso, não é mesmo?!


Carlos Santana & Wayne Shorter - Live At The Montreux Jazz Festival, é um dos registros mais desconhecidos que o mexicano já gravou e um dos melhores, sem dúvida alguma. A apresentação é datada de 1988 e virou até DVD - mas só veio à público recentemente, mais especificamente em 2007 - e trata-se de um dos grandes momentos de Santana com o Jazz.

Wayne Shorter arrebenta, o fraseado do cidadão se mistura na guitarra e quando mergulha na Jam a coisa toma um corpo memorável. Que inveja dos suíços que puderam presenciar isso ai... 14 de Julho de 1988, um dia que definitivamente valeria a pena ter sido deste CEP.

Line Up:
Carlos Santana (guitarra)
Wayne Shorter (saxofone)
Alphonso Johnson (baixo)
José Chepito Areas (percussão)
Chester Thompson (teclado)
Patrice Rushen (teclado)
Leon ''Ndugu'' Chancler (bateria)
Armando Peraza (percussão)



Track List CD1:
''Spiritual''
''Peraza''
''Shhh''
''Incident At Neshabur''
''Elegant People''
''Goodness & Mercy - Sanctuary''


Track List CD 2:
''For Those Who Chant''
''Blues For Salvador''
''Fireball 2000''
''Ballroom In The Sky''
''Once It's Gotcha''
''Mandela''
''Deeper, Dig Deeper''
''Europa (Earth's Cry Heaven's Smile)''


O reverendo Santana possui 4 discos que são meio ocultos em sua sagrada discografia, mas o motivo para isso é completamente desconhecido até hoje. E não, não se tratam de bootlegs. Santana gravou, participou dos pitacos da direção e lançou os 4 oficialmente, porém, a pergunta que não quer calar é: por que tais discos acabaram na obscuridade dentro da carreira de um indivíduo paradoxalmente tão famoso?


Certas coisas não se explicam, apenas se lamentam. Creio que, infelizmente, este seja um dos casos. afinal de contas não existe outra justificativa que possa acalmar os ânimos de qualquer fã, deste que é, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da história da guitarra.

Agora, vamos aos fatos:

O primeiro bolachão que deveria ganhar mais linhas por aí é o excepcional disco ao vivo gravado com Buddy Miles no Hawaii. Carlos Santana & Buddy Miles! Live! (lançado em 1972), é um dos melhores LP's de todos os tempos, reunindo 2 mestres em seu auge, tocando ao vivo com uma bandaça e improvisando até o groove fazer bico.


O segundo disco vai pra um lado diferente. Ao lado de Alice Coltrane, Carlos eternizou um brainstorming espiritual que mostra como o Jazz é um recurso infinito. ''Illuminations'', lançado em 1974, revela dois seres humanos completamente focados na imensidão do equilíbrio criativo.


Sob a batuta de Sri Shinmoy - guru de Santana - os problemas terrenos eram inexistentes e é justamente por isso que a sonoridade do guitarrista se aproxima do divino durante esse período.

O terceiro disco conta com um plano de fundo histórico bastante parecido com os meandros que envolveram a gravação do ''Illuminations''. Ao lado de John McLaughlin - que também tinha Sri Shinmoy como seu guru - Santana colocou ternos brancos para enfrentar a fase racional e gravou o  ''Love Devotion Surrender'', um ano antes, em 1973.


Só que pra fechar a conta temos ainda essa jam com Wayne Shorter. Mais um live que talvez funcione como um resumo duplex de tudo que Carlos abordou com os LP's já citados, mas numa época completamente diferente de sua vida.

É claro que ele produziu algumas de suas maiores gravações nesse meio tempo, mas pouco depois dessa intensa transformação, ele se afastou de toda essa imersão espiritual, encerrando essa fase logo após concluir seus ensinamentos com o guru. *Nós falamos sobre isso com mais detalhes na resenha do "Love Devotion Surrender".


Gravado no dia 14 de março de 1988, esse projeto encontrava Carlos numa fase bem mais relaxada, chegando no fim da década de 80 como um músico já consagrado, mas ainda em busca de um novo respiro criativo.


Shorter também gozava de uma vida mais tranquila, ambos os músicos já faziam o mesmo sucesso de outrora, principalmente em estúdio, mas ao vivo, tanto ele quanto Carlos, ainda eram bastante requisitados. Ver os 2 juntos então, era um encontro imperdível.

E o resultado é fascinante. Santana reencontrou seu elo espiritual da fase jazzística, mas o utilizou com o equilíbrio que apenas o tempo pode prover. Shorter voltou a brilhar com uma apresentação notável e mostrou ao mundo como um homem pode chegar às estrelas quando fecha os olhos e encontra o Jazz.


Com uma sonoridade riquíssima, mesmo que num esquema enxuto, tocando na forma de octeto, perceba o nível dos instrumentistas envolvidos. A percussão de Armando Peraza e Chepito Areas mantém o Jazz sempre ritmado, principalmente em temas como "Peraza" e "Incident At Neshabur".

No baixo temos a icônica presença de Alphonso Johnson. Engrossando o caldo quando necessário, as quatro cordas do experiente Alphonso Johnson (Weather Report) fazem muito mais do que apenas fazer sala para a dupla de percussão e para o exímio baterista Leon Ndugu Chancler.


O primeiro CD é mais pesado que o primeiro. As jams são sempre muito longas e exploram diversas dinâmicas, muito em função do imenso repertório dos músicos. Já no segundo, temos um lance mais espiritual, mas que em nenhum momento perde o groove, vide as teclas de Chester Thompson e Patrice Rushen em "Ballroom In The Sky".

Sem aquele protagonista forçado, Santana e Wayne demonstram um imenso domínio de repertório e quando o Carlitos chama o jogo pra si o resultado surge com o sentimento cirúrgico de temas como "Fireball 2000" e "Europa".

Um disco digno de emocionar os ouvidos e marejar os olhos.

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O George Clinton (ainda) raciocinava na época do Computer Games

Quando o Parliament-Funkadelic decretou seu fim em 1981, o reverendo George Clinton estava na merda. Ele não só fumou, cheirou e comeu boa parte de seus grandes lucros com o grupo durante a criação, apogeu e declínio dos grooves, como também se viu de calça curta para segurar a onda e superar vários problemas que apareceram durante os anos 80.

Teve de tudo, tretas judiciais envolvendo processos de ex companheiros de banda, prejuízos financeiros já que os discos recentes não venderam e até mesmo dívidas com traficantes - algo que até Anthony Kiedis relatou em sua autobiografia - quando Clinton produziu o segundo disco do Red Hot Chilli Peppers (''Freakey Styley'') em 1982.


Coloque tudo isso na ponta do lápis ou faça uma planilha no excel - você escolhe - e o resultado virá. Foi uma década difícil para Clinton. Mas o que fazer depois do fim do Parliament-Funkadelic? Seria Clinton tão relevante musicalmente falando, dessa vez sem o apoio dos grandes músicos que já passaram pela Mothership Connection? 


Creio que ele nem pensou nisso na época, mas tão logo o fim da era P-Funk foi decretado - para graças a Jah - voltar poucos anos depois, o Uncle Jam já imbicou seu carro na viela da carreira solo e aproveitou o clima das boates e da Dance Music travestida de Techno para lançar sua competente estreia solo, ''Computer Games'', trabalho liberado em 1982 via Capitol Records.


Track List:
''Get Dressed''
''Mans's Best Friend/Loopzilla''
''Pot Sharing Tots''
''Computer Games''
''Atomic Dog''
''Free Alterations''
''One Fun At A Time''


Uma reunião das maiores personalidades do groove, o "Computer Games" reúne meliantes conhecidos. Nome como Bootsy Collins, Bernie Worrell e Garry Shider, estavam trampando num som que conseguisse subverter as guitarras do Funkadelic e os arranjos de metais do Parliament, mas dessa vez pensando nas batidas das pistas de dança de Nova York.

Deu muito certo e foi esse lançamento que segurou as finanças do vocalista por um tempo. Mas é claro que conhecendo a lenda, é quase desnecessário dizer que todos os problemas citados acima retornaram no meio da mesma década.


Dividindo o disco em duas abordagens bem claras, o swing surge latente desde o primeiro take, com "Get Dressed". Com um riff de baixo que coloca a casa pra dançar em 10 segundos, quando você vê já chegou a hora da suíte "Man's Best Friend/Loopzilla". Clinton e Shider mostraram a mesma sinergia dos anos 70 pra emplacar hits radiofônicos do calibre de "Computer Games" - single que nomeou o disco - e as batidas cibernéticas da clássica "Atomic Dog".

O debutante solo do George Clinton mostra que apesar da tecnologia, uma boa e velha festa sempre vai ser da mesma forma: sem groove não tem jeito e, quando chegamos nesse assunto, é desnecessário dizer que o cidadão é referência.

As texturas de guitarra em "Pot Sharing Tots" merecem um atenção especial. Se o meliante não chapasse tanto, poderíamos ter outras sequências pra esse projeto. A "Atomic Dog" deve pagar as contas até hoje. O Dr. Dre ouviu muito isso aqui.

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Kazumi Watanabe: Aperte play na trilogia do Mo' Bop

Existe um submundo de música japonesa dos anos 60 e 70 que mais parecem uma realidade paralela. A música asiática explorou e criou muita coisa diferente, partindo de um viés exploratório com um repertório muito grande.

Ao passo que você tem caras como o Stomu Yamashta, por exemplo, um percussionista, tecladista e compositor japonês que promoveu a fusão da tradição percussiva oriental com Rock Progressivo, você também tem nomes como o guitarrista Kazumi Watanabe, capaze de groovar o mais cabuloso Jazz-Funk sem fazer a menor cerimônia.


Contudo, o mais interessante é que apesar disso tudo, o músico oriental é visto como um instrumentista sem alma. É até patético ouvir isso, mas ainda é algo relativamente comum, ainda mais quando falamos sobre virtuoses do nível de uma Hiromi Uehara por, exemplo. Pianista japonesa das mais requisitadas no Jazz contemporâneo, seu fraseado impressionou caras como Chick Corea e Herbie Hancock...

Existe a necessidade de desconstruir esse estereótipo e também de pesquisar mais sobre a cultura japonesa e o seu impacto no Hard Rock, pré Heavy Metal, sua contribuição para a cultura psicodélica e principalmente a cena de Yacht Rock, AOR e City Pop japonês que conta com umas gemas maléficas.


E para começar a ressignificar esses grooves, o primeiro projeto escolhido foi o "Mo' Bop", uma trilogia do Kazumi Watanabe que lançou algum dos melhores discos de Fusion/Funk dos anos 2000 e tudo no formato de power trio.

Ao lado do talentosíssimo baixista camaronês, Richard Bona e o baterista e percussionista cubano Horacio Hernández, Kazumi lançou o seu trio e modulou o formato elétrico com 3 distintos lançamentos.


O primeiro deles, "Mo' Bop", primeiro volume lançado em 2003, não só inaugura o projeto como já apresenta a diretriz da cozinha de maneira contundente. Com um som que explora o lirismo do Jazz Rock e o balanço do Funk, Kazumi arquiteta um som sólido e vigoroso, muito em função do DNA rítmico no baixo de Bona e da percussão latina de Horacio.



É um groove globalizado e que apresenta diferentes perspectivas, disco após disco. Com "Mo' Bop II", o segundo lançamento do New Electric Trio - liberado em 2004 - a banda surge com a gravação mais pesadas das três, de longe.

Com uma abordagem que faz muita banda de Hard-Heavy parecer uma reunião de manicures, Kazumi, Richard e Horacio mostram um entrosamento azeitadíssimo e preparam o terreno para a sessão de estúdio que cumpre a difícil tarefa de fechar essa trilogia.



Com o terceiro volume a banda parece resumir toda a empreitada dos discos anteriores. Se no primeiro o som foi mais Fusion e menos Funky, o segundo disco já veio com o volume no máximo e com um Wah-Wah criminoso e pra fechar o terceiro vem mais sincopado na percussão, com Richard e Kazumi apenas explorando o Fusion com esse plano de fundo naturalmente Funkeado.


É bem interessante acompanhar esse projeto, pois mesmo num formato em tese "limitado", o trio entrega 3 visões muito diferentes, mas bastante completas entre si e entregam uma verdadeira aula de dinâmica e repertório Jazzístico.

Foto: Macrocefalia  Musical

A única parte triste nisso tudo é conseguir os discos. Como o Kazumi é japa, todos as edição ("Mo Bop I, II e III) saíram só no Japão e as edições custam uma fortuna, mas você ainda acha com relativa facilidade, pois os discos foram remasterizados em 2016.



O problema mesmo é o preço, inclusive tem até um DVD dos caras - lançado em 2005 - que apesar de ser complicado de achar, também é fantástico e se é pra se lascar, vamos fazer dívidas de maneira sábia e já comprar logo todo o espólio, não é mesmo? 

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