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A conexão espiritual do Maisha

A cena de Jazz do Reino Unido consegue absorver qualquer referência musical. Compreende o piano Jazz do Joe Armon-Jones, a guitarra do Mansur Brown e o clarinete do Shabaka Hutchings, mas ao mesmo tempo também carrega o DNA do Tenderlonious.

É interessante como o repertório do Jazz londrino é rico. Em 2018 o cenário mais uma vez rendeu discos primorosos e que provam não só como os jovens estão respeitando as tradições do groove em prol de sua resistência contemporânea, mas também como, apesar de uma cena em plena ebulição, tem espaço pra tudo, até para o Spiritual Jazz do Maisha.


Formado no ano de 2016, o sexteto liderado pelo baterista Jake Long trouxe um renovado approach para a densa escola de Alice Coltrane. Com o lançamento do primeiro trampo do grupo, o EP "Welcome to a New Welcome" (via Jazz re:freshed também em 2016) o que mais assustou os ouvintes foi o exímio domínio da linguagem que músicos como Nubya Garcia (saxofone) demonstraram, ainda que num contexto bastante diferente do que a cena está fazendo hoje, pensando num contexto geral.

Essa cozinha é uma prova de como a cultura do Jazz na Inglaterra não só é consumida, mas sim relevante em quase sua totalidade de subgêneros e ramificações. Passados quase 2 anos da estréia de um grupo que envolve os maiores expoentes da cena, a banda se reuniu para gravar seu primeiro full lengh e o resultado é "There Is a Place", disco lançado dia 9 de novembro de 2018 via Brownswood Recordings.

Line Up:
Jake Long (bateria)
Nubya Garcia (saxofone/flauta)
Shirley Tetteh (guitarra)
Amané Suganami (piano/wurlitzer)
Twm Dylan (baixo)
Tim Doyle (percussão)
Yahael Camara-Onono (percussão)
Axel Kaner-Lindstrom (trompete)
Barbara Bartz (violino)
Tom Oldfield (cello)
Johanna Burnheart (violino)
Madi Aafke Luimstra (viola)
Maria Zofia Osuchowska (harpa)



Track List:
"Osiris"
"Azure"
"Eaglehusrt/The Palace"
"Kaa"
"There Is a Place"


Logo depois do play fica claro que esse disco é especial. O link do Spiritual Jazz com a dupla de percussão (Tim Doyle e Yahael Camara-Onono) promove uma aproximação com o Afrobeat que é bastante interessante e inovadora nessa cozinha.

Não se engane pelos 5 temas, as faixas são longas e muito bem exploradas. A ambientação, os climas... Aquela aura que só o Spiritual Jazz consegue criar, perpetuando passagens de maneira ascendente que resultam numa indescritível sensação de plenitude após o fim do play.

"Osiris" reflete esse processo. O sax de Nubya servindo como norte, enquanto a cozinha mantém a percussão e espera pelo gancho melódico pra todo mundo voltar no groove.

Foto: Rodrigo Gianesi

O trabalho da Nubya Garcia é muito interessante, pois além de sua habitual destreza no sax, ela mostra um rico trabalho de flautas que é peça chave na ambientação de temas como "Azure", por exemplo.

Essa faixa ("Azure") é um relato de como todos os instrumentos tem lugar na jam. As teclas de Amané Suganami chegam com muito feeling e um wurlitzer envenenado. O acabamento de cordas idealizado pelo Jake Long dá uma roupagem muito classuda no instrumental.


O trabalho de percussão possibilita que temas como "Eaglehusrt/The Palace" tenham até mais swing. O Afrobeat aproxima a cozinha e o resultado é um baixo muito sincopado e uma dinâmica que liberta os solistas, como o guitarrista Shirley Tetteh, por exemplo que entrega uma das passagens de guitarras mais bonitas do disco todo. A frase do sax da Nubya Garcia nessa faixa também não é brinquedo não. A facilidade com que ela surge com frases amplamente melódicos é assustadora.

Em "Kaa" o instrumental é intenso e a cada tema o ideal de renovação cresce cada vez mais. É uma comunhão muito interessante e que mesmo num complexo contexto sonoro e estético, acaba criando um disco acessível e de agradabilíssima audição.

O maior problema é que pouco mais de 40 minutos depois o disco termina com a faixa título, o tilintar libertador de "There Is a Place". Depois do silêncio o sentimento de cura será uma realidade. Que disco. Até o Spiritual Jazz está apreciando novos ares.

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Flying Lotus: compilação celebra os 10 anos da Brainfeeder

Em 2008 o Flying Lotus criou algo que talvez fosse maior do que sua própria visão musical. Steven Ellison é o nome por trás da alcunha de um dos maiores produtores, DJ's e Rappers de Los Angeles. Com uma carreira no mínimo consolidada e uma percepção musical bastante peculiar, o sobrinho da Alice Coltrane resolveu tangibilizar o seu groove experimental e idealizou o Brainfeeder, um dos selos mais relevantes no cenário internacional nos últimos anos.

Com um vocabulário musical capaz de colocar o Madlib e o Miles Davis no mesmo contexto, o Flying Lotus resolveu abrir um espaço para sons tão revolucionários quanto os dele. Com a inauguração de um selo especializado em música eletrônica e Hip-Hop, talvez nem ele tivesse ideia das proporções que esse projeto tomaria.


Mas 10 anos depois o Brainfeeder não só conta com um cast interessantíssimo (e de mais de 35 artistas), como também é responsável por lançamentos que encabeçara diversas listas de melhores do ano nos últimos tempos.

Vale lembrar que o "Drunk", terceiro disco do Thundercat - liberado em 2017 - saiu via Brainfeeder. Outro discasso que saiu por aqui foi o "The Epic", do Kamasi Washington e pra falar que esse ano não teve nada, o selo americano ainda soltou o novo disco da Georgia Anne Muldrow, o interessante "Overload", liberado em outubro de 2018.

O groove segue rolando e compreende uma vasta gama de influências. Ao idealizar esse projeto, o Flying Lotus não só deu espaço pra que uma galera muito louca fizesse e lançasse música, o grande lance foi toda essa cena experimental/Jazzistica/Hip-Hop que ele ajudou não só a formar, mas a consolidar também.


E pra comemorar os 10 anos de muita correria no underground, o Flying Lotus ativou seu modo workaholic e arquitetou uma compilação duplex que cumpre a difícil tarefa de resumir toda a sua contribuição para o groove mundial, desde 2008.


Track List CD1:
"Why Like This" - Teebs
"$easons" - Jeremiah Jae
"Without You" - Lapalux/Kerry Leatham
"Bug Thief" - Iglooghost
"Fallen Arches" - TOKiMONSTA
"Phemy" - Miguel Baptista Benedict
"Group Tea" - Matthew David/Flying Lotus
"Masks" - Martyn
"Ham" - Mr. Oizo
"Order Of The Golden Dawn" - Daedelus
"Flake" - Jameszoo
"Place In My Heart" - Taylor McFerrin/RYAT
"Needs Deodorant" - Mono/Poly
"Them Changes" - Thundercat
"Slim Trak VIP" - DJ Paypal
"Friend Zone - Ross From Friends" - Thundercat/Ross From Friends
"Walk Free - Flying Lotus Remix" - Brandon Coleman/Flying Lotus


Track List CD2:
"King Of The Hill" - Thundercat/BADBADNOTGOOD/Flying Lotus
"Opilio" - Lapalux
"Squaz" - Ross From Friends
"Myrrh Song"
"Eigendynamik" - Dorian Concept
"Thinking" - Louis Cole
"Yellow Gum" - Iglooghost
"The Lavishments Of Light Looking" - WOKE/George Clinton
"Bring  Me Down" - PBDY/Salami Rose/Joe Louis
"Black Salt" - Jeremiah Jae
"Ain't No Coming  Back" - Flying Lotus/Busdriver
"Kazaru" - Miguel Atwood-Ferguson
"Goku" - Taylor Graves
"Delusions" - Little Snake
"Beautiful Undertow - Strange Loop
"Funkzilla" - Mono/Polo/Seven Davis Jr.
"Birthday Beat" - Teebs
"Lisbon" - Moiré
"Otravine" - Locust Toybox


São 36 faixas e mais de 2 horas e 10 minutos de muito som. É um prato cheio pra quem almeja entender um pouco mais sobre as possibilidades da produção musical hoje em dia. A música eletrônica, o Hip-Hop e até mesmo o Jazz são indivisíveis nesse contexto que a Brainfeeder cria e atua.

São dezenas de bandas com influências das mais tortas. É um mapeamento bastante interessante do cenário e esse disco é como se fosse um retrato de tudo que acontece na cena. Tem BADBADNOTGOOD tocando com o Thundercat, participação do George Clinton, beats em camadas com o Teebs e é claro, Flying Lotus em tudo, afinal ele é o chefe.

Essa é pra você indicar pra quem fala que não tem nada de novo groovando por aí. Inocentes.

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The Miseducation Of Eunice Waymon

Algumas semanas atrás nós trouxemos um mashup para o Macrocefalia Musical. O David Begun conseguiu promover um cruzamento entre 2 dos maiores nomes da música de Detroit. Com a mixtape intitulada "J Dilla X Marvin Gaye", David Begun mostrou como até o groove se beneficiou da tecnologia.


Mas se você achou que o encontro entre Dilla e Gaye fosse o ultimato para esse "modelo de negócio", espere até você ver o que o Americo Gazaway, preparou pra você. Quando seus ouvidos pensam que já sacaram de tudo, vem um xarope e coloca o o groove da Lauryn Hill pra inflamar o ativismo virtuoso da Nina Simone.

Sim, depois de juntar Fela Kuti com De La Soul em "Fela Soul", Mos Deaf e Marvin Gaye com "Yasiin Gaye" e Stevie Wonder com Common, ao som de "Common Wonder", o beatmaker resolveu emular uma colaboração entre a amiga do Martin Luther King e a idealizadora do "The Miseducation Of Lauryn Hill". O resultado? Plugue os fones e sintonize as frequências com "The Miseducation Of Eunice Waymon".


Track List:
"Feeling Good"
"Ready Or Not feat. The Fugees"
"Doo Wop (That Thing)"
"To Zion feat. Carlos Santana"
"Fu-Gee-La feat. The Fugees"
"The Sweetest Thing feat. John Forté"
"Take It Easy"
"Peace Of Mind"
"Lost Ones"
"Killing Me Softly"
"If I Ruled The World feat. Nas"
"How Many Mics feat. The Fugees"
"So High feat. John Legend"
"Care For What"
"Angel Of The Morning"
"The Miseducation Of Eunice Waymon"
"Fu-Gee-La (Refugee Camp Remix)"


É muito loco como o trabalho da Nina Simone e da Lauryn Hill seguem relevantes, apesar de tantos anos. Se você ignorar os diferentes períodos históricos em que ambas nasceram, juntá-las não seria algo impensável e esse contexto talvez seja o ponto de convergência perfeito para explorar a força do movimento negro (Nina) e a relevância de sua luta até hoje (Lauryn Hill).


Esse pontos ficaram muito bem amarrados na mixtape. É justamente essa união entre o novo e o velho, mas imersa numa abordagem contemporânea, que faz com que distâncias incalculáveis como essa, possa ser superadas ou conectadas por um beat.

Se liga no Bandcamp do cara e se puder, escute as outras mixtapes que foram citadas. Vale a pena desconstruir alguns valores sonoros de vez em quando.

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O Prog Jazz do Absurdo lançou 8 discos em 2018

O ano de 2018 foi excelente para os ouvidos mais atentos. Do Jazz ao Axé, pode acreditar que se você procurar, vai ter groove, tanto internacionalmente - com levantes expressivos como a nova renascença Jazzística em UK - quanto (principalmente) nacionalmente, com diversos projetos interessantíssimos para a música independente.

Arte: Welder Rodrigues

E se tratando em groove em terra brasilis, talvez nenhuma banda tenha lançado tantos discos como o Prog Jazz do Absurdo. Combo paulista de Jazz radicado nos mais cavernosos improvisos do Funk ao Free, o quarteto lançou 6 discos de estúdio e 2 trampos ao vivo em menos de 12 meses.

Reza a lenda que enquanto batuco as teclas uma nova sessão está sendo mixada... Trocadinhos à parte, o projeto que a banda concretizou no BTG Studio mereceu uma análise mais profunda. Nós resenhamos um dos discos (o visionário "Peppa Prog") - uma excêntrica mistura de King Crimson com Peppa Pig - mas seria injusto não falar dos outros registros.

Foto: Emanuel Coutinho

Do Gospel até o Funk, passando pelo baião, Rock Progressivo, Fusion ou Free Jazz, pode confiar que o grupo formado por Rob Ashtoffen (baixo), Conrado Vieira (teclados/sintetizadores), Vitor Coimbra (bateria) e Victor "TED" Prado (trompa) sabe como subverter a linguagem do Jazz para ressignificar o conceito da improvisação livre.

Os 6 discos listados abaixo são da sessão realizada em julho ao lado de Zeca Leme (mixagem/masterização) do BTG Studio. Com tudo registrado em take único, sem ensaio e puro improviso, o grupo fez uma jam que compreendeu 4 horas e 33 minutos, mas antes disso a banda já tinha lançado o "Água de Xuca" e o ácido "Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas", os trampos que plantaram a semente para essa verdadeira odisseia Jazzística.

Sessão - BTG Studio


"Prog Jazz Para Baixinhos"


Line Up:
Conrado Viera (teclados/sintetizadores)
Sintia Piccin Fermino (saxofone)
Richard Fermino (saxofone/trompete)
Mariana Fermino (flauta/voz)
Gabriel Fermino (saxofone)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)
Tahyná Oliveira (flauta/piccolo)
Victor "TED" Prado (trompa)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"Chavez Sai da Vila Prog (Parte 1)"
"Chavez Sai da Vila Prog (Parte 2)"
"Despontando Rumo ao Anonimato"
"A Volta da Vila Prog"
"Groove do Chavez"
"Suco de Tamarindo"
"Uma Tira da Pesada"
"Nossa Turma"
"Vem Ser Feliz Com o Prog Jazz do Absurdo"
"The Real Kenny G"


Gravado com o intuito de criar um plano de fundo orientado ao repertório infantil, o Prog Jazz Para Baixinhos" foi resultado de uma sessão de improvisos que, mais do que mostrar a beleza dos arranjos da trilha sonora do Chavez, primam por propor visões completamente novas para sons que fizeram parte da sua infância.

Um dos trabalhos mais ácidos que foram gravados ao lado de Zeca Leme no BTG Studio, o "Prog Jazz Para Baixinhos" mostra por que o Jazz é tão complexo e profundo. Até Kenny G fica interessante quando o grupo mostra a liberdade da improvisação livre que o estilo agrega às releituras e passagens autorais. O baixo e o teclado para as suítes "Chavez Sai da Vila Prog" (Parte 1 e 2) são o mais puro veneno.


"Dedo no Cu e Gritaria"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Sintia Piccin Fermino (saxofone/voz)
Richard Fermino (trompete)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)



Track List:
"Jardim Romano"
"Brisa Garotinho"
"Vamo ET"
"Dedo no Cu"
"Gritaria"
"K.Y"
"Dedo no Cu é Vanguarda"
"E Gritaria Também É"
"A Patifaria"
"Acabou a Patifaria"
"Prog Jazz Não é Bagunça"


O Free Jazz foi um movimento que nasceu nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos. Um dos catalizadores para que essa nova filosofia sonora se firmasse foi a insatisfação de músicos como Charlie Haden (baixo) e Pharoah Sanders (saxofone), por exemplo, com as limitações de linguagem do Bebop, o Hard Bop e o Jazz Modal dos anos 40 e 50.

Chamado também de Avant-Garde, o Free Jazz também estimulou a criação de uma linguagem Progressiva ligada ao Jazz. Esse levante buscou trazer o estilo de volta a suas origens, sempre com ênfase na improvisação.

Foi isso que o Prog Jazz fez com o interessante "Dedo no Cu e Gritaria". Um registro que vai do Baião ao Funk com a mesma naturalidade com a qual seu vô vai pegar água pra dentadura, o Prog Jazz mostra que apesar de oferecer uma proposta difícil, o Free Jazz ainda é vanguarda.


"Deus é Inacreditável"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Lucas Coimbra (teclados)
Victor "TED" Prado (trompa)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"O Hino (Cor 618)"
"Alegrem-se Sempre no Senhor. Novamente Direi Alegrem-se (Fil 44)
"Como é Bom Cantar Louvores ao Nosso Deus (Sal 1471)"
"O Homem Natural Não Aceita as Coisas do Espírito de Deus, pois para Ele são Loucura (Cor 1 214)"
"E O que Vivo e Fui Morto Mas eis Aqui Estou Vivo Para Todo Sempre. Amém (Apo 118)"
"Segura na Mão de Deus e Vai (Ose 46)"
"E Conhecereis a Verdade E a Verdade vos Libertará (Joa 832)"


Inspirado na música Gospel de péssima qualidade que figura no canal de TV do Edir Macedo, isso sem dizer nos ridículos arranjos que as igrejas de São Paulo estão oferecendo aos seus respectivos casórios, que o Prog Jazz do Absurdo gravou o intrigante "Deus é Inacreditável".

O grande destaque dessa gravação é a dupla de teclas. Com um duplex de marfim malhado e sintetizadores, Conrado Viera e Lucas Coimbra (Samuca e a Selva) entregam a maior overdose de tecladores que o grupo gravou durante a sessão.

Com um approach bastante espiritual e amplamente melódico, esse disco explora uma dinâmica que, em função do rico trabalho do Conrado e do Lucas, deixa os músicos ainda mais livres para alterarem os andamentos e apresentarem novos ideias de improviso. Em breve em alguma igreja perto de você.


"Hu1000mildade Acima de Todos"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Tahyná Oliveira (flauta/piccolo)
Victor "TED" Prado (trompa)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)


Foto: Emanuel Coutinho

Track List:
"Intro"
"Muita Orelha para pouco Van Gogh"
"Ferve Frevo"
"Cheguei na Humilda e sem querer fui Foda"
"A Maquininha do Dentista (Parte 1)"
"A Maquininha do Dentista (Parte 2)"
"A Anestesia do Dentista (Parte 1)"
"A Anestesia do Dentista (Parte 2)"


Um dos registros de maior cadência no Funk, "Hu1000mildade Acima de Todos" continua a odisseia de improvisos do Prog Jazz do Absurdo com temas muito centrados na sessão rítmica de Rob Ashtoffen (baixo) e Vitor Coimbra (bateria).

Com mais uma dose cavalar de intervenções espacias, vide os sintetizadores de Conrado Vieira, esse registro oferece um olhar interessante para a dinâmica dos instrumentos de sopro. As frases doces de Tahyná Oliveira (flauta/piccolo) e as texturas de Victor Prado (trompa) oferecem uma tela em branco bastante propícia aos improvisos do grupo. As suítes "A Maquininha do Dentista" e "A Anestesia do Dentista" merecem até clipe.


"Pobre Star (Não deixe o Fracasso Subir à Cabeça)"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Lucas Coimbra (teclados/sintetizadores)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo/guitarra)
Vinicius Nicoletti (baixo/guitarra)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"Prog Jazz do Absurdo - Minha Jacuzzi é uma caixa d'água"
"Pegando um Bronze na Laje de Casa"
"Só andamos de Mercedes e Scania"
"4h40"
"Não Deixe o Fracasso Subir à Cabeça"
"O Prazer é Todo Seu"
"Bag Rasgado"
"X-Músico"
"O Rob Quer Tocar Ainda"


O registro mais cavernoso de todos os 6 trabalhos que foram gravados, "Pobre Star" merece uma menção honrosa. Único disco a não contar com sólidas contribuições de metais e sopros, esse Jazz foi todo improvisado no Jazz Rock, Fusion para os bilíngues.

Com passagens instrumentais que remetem aos maiores dramas no cotidiano de qualquer músico, o grupo aparece em mais uma sessão com a dupla de teclas (Conrado Veira & Lucas Coimbra) e ainda conta com a presença de Vinicius Nicoletti, peça chave nesse trabalho.

Guitarrista e também baixista, Vinicius ainda tocou baixo (fretless) e se alternou nas guitarras com Rob Ashtoffen. Dessa vez mostrando uma faceta mais agressiva na guitarra, foi bastante interessante observar a abordagem do Rob no instrumento. Caminhando pra quase 4 horas e 40 de sessão os músicos estavam visivelmente cansados, mas o Jazz Progressivo desse take é vigoroso e repleto de precisas intervenções por parte dos solistas. Talvez o prazer seja de fato todo seu.



Sessões ao vivo


"Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo fretless)
Richard Fermino (clarinete/trompa)



Track List:
"Igor, o terrível"
"Vitas Theme"
"God Is Alanis"
"Baby, desce mais uma"
"I Am Stefhany"
"Everything está no seu lugar certo"


Gravado no Estudio Aurora no dia 16 de fevereiro de 2018, "Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas" mostra o entrosamento dos músicos, além de evidenciar como o groove é latente, mesmo em diferentes configurações sonoras.

Nesse trabalho quem faz as texturas de trompa e trompete - pra suprir o Vitor "TED" Prado - é Richard Fermino (Culto ao Rim). A abordagem praticamente interdisciplinar do requisitado músico entrega um trabalho riquíssimo e que mostra sua grande técnica e capacidade musical que compreende do sax até uma tuba. 

O groove é o prato principal, Conrado Vieira e Rob Ashtoffen fazem miséria com "Vitas Theme" e provam que é possível coexistir sobre o mesmo teto que a Alanis Morissette com "God Is Alanis". É tão desafiador quanto parece. O timbre do baixo fretless deixa o grave com outra classe.


"Água de Xuca"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)
Richard Fermino (trompete/saxofone)
Victor "TED" Prado (trompa)



Track List:
"O Encontro de Ted e Mia"
"Absurda Parte 1"
"Absurda Parte 2"
"Alanis Is God"
"Vem Malandra"
"Camaleão Saracura"
"Ascensão aos céus por um pau de sebo"


Mas é com "Água de Xuca" que a tampa fecha. Banda completa e devaneios dos mais absurdos, o disco gravado ao vivo no Boteco Akikinoisbebe é a síntese de toda a overdose de sarcasmo e polirritmia que essa banda traduz em música.

As releituras beiram a demência e o trabalho de Richard Fermino em "Vem Malandra" consegue desconstruir o pancadão de tal forma que aqui estamos, citando até a Anitta. Essa talvez seja a maior lição do Prog Jazz do Absurdo.

Ao gravar 8 discos em menos de 365 dias o grupo mostra como as convenções da indústria e da própria produção hoje em dia são desnecessárias. O som permeia tudo que o forma e está em todos os lugares, sem esse mimimi de barreiras estéticas e problemas com processo criativo, muito pelo contrário.

É tudo questão de apertar play e gravar. O improviso é o caminho. O Prog Jazz não é bagunça não, mas é inegável que apesar da banda ter feito o trampo na humildade, sem querer eles foram foda. 

Não deixem o fracasso subir à cabeça e sigam os caras no Bandcamp.

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O Naxatras continua expandindo seu ideal psicodélico

Quando o Naxatras, trio formado por John Delias (guitarra), Kostas Harizani (bateria) e John Vagenas (baixo/vocal) lançou seu excelente debutante solo, em 2015, o grupo grego foi notícia no cenário Heavy-Psych.

Foto: Dan Deutsch

Gravado de maneira 100% analógica, independente, com um feeeling supimpa no instrumental e aquele groove encadeado na psicodelia... O primeiro disco da banda foi um dos destaques daquele ano, sem dúvida alguma.

Arte: Chris RW

No ano seguinte a banda voltou para o estúdio e o processo criativo foi o mesmo. Outra gravação 100% analógica gravada ao vivo e direto pra master. Mantendo a identidade visual que o grupo conquistou com as artes de Chris RW, o segundo disco (II) continuou explorando as chapantes texturas do grupo, mostrando um entrosamento telepático, mas evidenciando também os bons trabalhos vocais.

Arte: Chris RW

Mas foi em fevereiro de 2018 que a discografia de estúdio do projeto atingiu um novo patamar. Na mesma pegada que o Led foi nomeando seus discos, o Naxatras chegou com o volume 3 no dia 16 de fevereiro de 2018.

Mantendo a mesma formação desde a primeira gravação, esse disco é o ponto alto da discografia de estúdio do grupo, justamente por reunir tudo que deu certo nos trabalhos anteriores, além de contar com uma banda que agora de fato domina seu analógico processo de gravação e encontra-se num de seus picos criativos.

Line Up:
John Delias (guitarra)
Kostas Harizanis (bateria)
John Vagenas (baixo/vocal)


Arte: Chris RW

Track List:
"You Won't Be Left Alone"
"On The Silver Line"
"Land Of Infinite Time"
"Machine"
"Prophet"
"White Morining"
"Spring Song"


A palavra chave pra definir o trabalho do Naxatras é sensibilidade. É importante salientar o oportuno trabalho dos gregos, pois dentro do cenário existem dezenas de bandas nesse mesmo formato e o pior, muitas deles estão apostando no mesmo som.

Nesse estilo mais psicodélico-espacial, a única banda que talvez faça frente a esse projeto são os dinamarqueses da Causa Sui, mas no geral, hoje eles podem se orgulhar de ocupar um lugar praticamente único no cenário.


O som é equilibrado, é pesado, mas tem feeling, variação... Não aquela jam quadrada que fica no mesmo tempo. Pode-se dizer que, do jeito deles, o Naxatras até faz um groove. Em temas como "You Won't Be Left Alone" esse equilíbrio fica claro.

É interessante como a banda é praticamente um combo instrumental, em função das longas passagens, mas quando presente, os vocais de John Vagenas são muito bem conduzidos. A fluência do som atingiu níveis estratosféricos.

Esse terceiro volume mostra uma banda pronta, já concebida. A confiança é tanta que "On The Silver Line" já começa com um solo, mas sem aquela overdose de Fuzz que parece que você está ouvindo música com a cabeça dentro do vaso, não, aqui o lance é puramente sonoro, musical mesmo.


Apesar das faixas serem bem longas, o que chama atenção é como o som não fica cansativo em momento algum. O trampo de timbres do grupo é bem interessante também, o baixo de "Land Of Infinite Time" dá o tom durante todo o tema, enquanto o guitarrista costura linhas que remetem bastante ao trapo do Jerry Garcia no Grateful Dead.

A menor faixa do disco tem pouco mais de 5 minutos. "Machine" quase chega aos 11 e entrega uma passagem belíssima, algo que sintetiza o raro equilíbrio de feeling e psicodelia dessa reunião. Um disco que prima justamente por fazer o ouvinte conseguir atingir uma maior imersão sonora, esse terceiro volume é um convite lisérgico e sinestésico rumo a plenitude de "White Morning" e "Spring Time".


Tem muita banda da cena que precisa escutar isso aqui, aliás, vale ressaltar que o grupo já lançou outro trabalho depois desse. No dia 21 de setembro o trio liberou seu quarto lançamento, o primeiro ao vivo, intitulado "Live Rituals At Gagarin".

Mostrando a banda em seu habitat natural, o trio eternizou a performance que marcou o lançamento do terceiro disco do grupo, em Atenas. Saiu uma versão em CD, junto com a Metal Hammer grega, mas agora a banda já mandou prensar em vinil, o único problema é que não tem no Spotify, apenas Bandcamp.

Line Up:
John Delias (guitarra)
Kostas Harizani (bateria)
John Vagenas (guitarra/vocal)


Arte: Chris RW

Track List:
"You Won't Be Left Alone"
"Downer"
"Machine"
"Waves"
"On The Silver Line"
"Garden Of The Senses"
"I am the Beyonder"
"The Great Attractor"


Bom, nem dá pra reclamar desses jovens. 4 discos em 4 anos. 2 discos só em 2018... É pra fazer a alegria de qualquer jornalista.

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Os novos eixos do Coquetel Molotov

Os festivais de música independente possuem um papel essencial na descentralização dos eixos da cena. Aquela história de Rio-São Paulo não comporta mais o underground, e é por isso que eventos como o Coquetel Molotov são importantes para a difusão de grooves de todos os CEP's do país.

No ar há 15 anos em Recife, a nave pernambucana pousou em São Paulo pra fazer sua estréia na The Week, na última sexta-feira, dia 30 de novembro. Com um leque de atrações que percorrem do Oiapoque ao Chuí, o festival que também já passou por Minas Gerais, Salvador e Belo Jardim mostra que a essência da música continua sendo o encontro de pessoas, artistas, sons e diferentes influências. É esse Axé que oxigena a cena.

Foto: Drico Galdino

E foi com ingressos esgotados que o Boogarins realizou seu último show do ano em São Paulo, abrindo o palco Coquetel Molotov. Com um repertório baseado principalmente no "Lá Vem a Morte" (2017), o grupo optou por uma abordagem instrumental calcada nas texturas do disco ao vivo "Desvio Onírico", liberado no mesmo ano.  

Foi um show fluente, muito bem roteirizado, mas ainda com espaço para intervenções de todos os envolvidos. Detalhe para a dinâmica do baterista Ynaiã Benthroldo, que entrega um som técnico e sincopado, tudo sem perder o peso e cadência no instrumental. Os goianos seguem expandindo sua orgânica visão do Rock Psicodélico.

Foto: Drico Galdino

Abrindo o palco Monkeybuzz, foi a vez do  Tuyo, trio paranaense formado por Jean Machado, Lilian e Layane Soares, reafirmar sua relevância sob um dos mais importantes palcos do Brasil.

Foto: Drico Galdino

Com uma proposta minimalista, uma estética de beats muito interessante, além de um criativo violão base e um soberbo trabalho de vocais, o quê Low-Fi do grupo conquistou os ouvintes com um lirismo impecável. No palco, a música fruto dessa união nos faz questionar os limites dessa cozinha Folk... Foi inevitável ver esse show e não imaginá-los com uma banda maior, produzindo algo ainda mais rico.

A plateia, atenta, cantava cada sílaba das letras do grupo numa conexão sublime, resultado de todo o acalanto e leveza de um projeto que conta com uma sensibilidade inspiradora.
Foto: Drico Galdino

Novamente no palco Molotov, o próximo show do itinerário veio com outra filosofia. Com a reunião de Alessandra Leão, Karina Buhr e Isaar França (Comadre Fulôzinha), o grupo fez um set repleto de ritmos, num rico blend de Maracatu e Baião que mostrou a importância da valorização dos ritmos regionais na música brasileira.

Foto: Drico Galdino

A essa altura do campeonato o relógio marcava 22:00 horas e o sentido dos ponteiros levaram o público para o laboratório de Maria Beraldo. Clarinetista e vocalista do grupo de Arrigo Barnabé, a multi instrumentista que ainda conta com colaborações ao lado de nomes como Elza Soares e Rodrigo Campos, ofereceu uma verdadeira performance ao público.

Foto: Drico Galdino

Com um show orientado pelo direcionamento criativo de seu primeiro trabalho solo, "Cavala", lançado no dia 30 de maio de 2018 pelo selo RISCO, a musicista emulou um repertório capaz de colocar o Jazz e a música eletrônica na mesma página. Tocando guitarra e clarinete num conceito de vanguarda muito doido e genuíno, sua maior virtude foi oferecer uma nova perspectiva para a música experimental.

Foto: Drico Galdino

E se depois desse show teve gente que já tinha pensado ter visto de tudo, bom, essa galera aí não conhecia o Edgar. Com a levada futurista de "ultrassom", primeiro disco do Rapper, lançado pela DeckDisc em setembro de 2018, o novíssimo Edgar - para os íntimos - abriu o Palco Sonic com sua arte interdisciplinar.

Adentrando o recinto como uma celestial entidade africana, Edgar fez do palco o quintal de sua casa. Com um repertório que vai de Guarulhos até o Funk, passando por Paris e pelos beats do centro de São Paulo, o meliante desafiou as convenções de seu público. 

Foto: Drico Galdino

O intérprete promoveu uma epifania frente ao calabouço tecnológico que a nossa sociedade se aprisionou. Com faixas como "Print" e "Go Pro", o músico mostrou o conceito sonoro de um disco que parece o resultado de uma inteligência artificial com vida própria.

Foto: Drico Galdino

Um delírio ludista como numa ode ao fim de um modis operandi enraizado na revolução industrial, "Ultrassom" revela que o seu sinal de Wi-Fi é só a ponta do Iceberg. Navegando pelos mais diversos meios, o flow do poeta é capaz de ocupar todos os lugares, com uma diplomacia experimental que traduz um dos sons mais originais que apareceram no Brasil nos últimos anos.

O trabalho de produção do Papaleo é de fato muito interessante. O conceito sonoro idealizado pelos caras merece bastante atenção, principalmente em função dos timbres que foram criados. Conversamos com o Edgar antes dele subir no palco e sintonizamos algumas frequências para desbravar o processo criativo do compositor.

1) Edgar, obrigado pela atenção. Pra começar gostaria de perguntar pra você sobre o Mama Festival em Paris. Você tocou lá recentemente e eu queria saber como foi a recepção do público europeu, ainda mais frente um som tão orgânico.

Era um festival aberto mais parecido com o acontece na SIM, a feira, sabe? Você comprava o seu ingresso e podia assistir, era um esquema de show cases bem interessantes e isso contribuiu pra levar um público bem diversificado.

Tinha um grupo de brasileiros que moravam na europa e flagravam o nosso trampo, foi bem legal de ver, mas essa galera era mais do bafafá que pegou, tipo "vai ter tal pessoa lá, vamo lá vê". Foi um feedback bem legal, a gente traduziu duas letras pra francês então a galera estava meio ciente do que ia rolar e o apoio jornalístico foi bem bacana, os jornalistas pesquisaram bastante e saiu bastante coisa sobre a nossa passagem por Paris.

2) E o que você percebeu quanto a relevância da música brasileira, também fora daqui? Grupos como Metá Metá e o Bixiga 70, por exemplo estão sempre rodando o circuito europeu e eu queria saber a sua impressão quanto as possibilidades de atingir esse mercado também.

Cara, ir pra lá foi romper uma película. A gente tava na expectativa de conseguir um representante e nós de fato conseguimos. Eu acho que é muito importante, acho que tinha que ter algum plano de governo, sabe? Alguma coisa que fizesse essa imigração do brasileiro para a europa, nem que seja por uma semana, até pra ele ver vários choques de cultura em diversos países e ver que ele precisa sim aprender alguma outra língua e se comunicar de várias formas..

Eu acho que mano, romper isso é o primeiro passo. Você vê, eu trombei a galera do Bixiga na europa, fiz participação no show deles, foi bem rápido por que eles estavam a milhão, mas ter essa vivência, isso é muito importante.

3) E pensando na cena experimental nacional, nomes como Negro Leo, Guizado... Você acha que o publico brasileiro está abrindo a mente pra trabalhos tão diferentes quanto o seu? É tempo de viabilizar novos ultrassons?

Eu acho que sim mano, acho que tem um galera que tá com umas sacadas bem interessantes. O Makalister produziu um disco gravando no Iphone...

Essa galera mais vaporwave né? do selo do Nill (o Sound Food Gang), tem o Yung Buda nessa pegada mais Lo-Fi também... 

Isso, é uma galera que tá no Tech, mas também chega no Low, sabe? Tem a Maria Beraldo fazendo as parada tudo sozinha, Ava Rocha... Tem uma galera, até mais antigos que eu que estão vindo pra esse caminho também.

4) E falando sobre música, Edgar, o que você gosta de ouvir, quais são suas referências musicais? 

Mano, eu gosto bastante de música étnica, tá ligado?

E Frank Zappa cara, já escutou?

Nunca ouvi Frank Zappa mano, acho que nunca peguei pra escutar. Eu acho que vou adorar quando escutar cara, vi uma foto dele que eu achei fantástica. A privada do quarto dava direto na televisão no andar de cima... Genial, já me entendi pra caralho. Nem escutei ele, mas é exatamente isso, já pensei: "tamo junto".

Mas o que eu curto, mano? É difícil falar assim... Hoje eu acordei de manhã e coloquei 3 horas de cuencos tibetanos, barulho de chuva... Varia demais.

5) Cara, uma das coisas que chamou minha atenção no seu som, foi essa característica interdisciplinar, por que vai muito além da questão musical. É cênico, expressivo... Como que é esse processo pra você, na hora de criar você considera o todo?

Eu comecei a viajar nisso no final de 2015. Agora, no segundo semestre de 2018 eu ainda ajo totalmente natural. Um exemplo disso foi quando eu cheguei no festival do Sol no Rio Grande Norte e estava sem máscara por que ela tinha rasgado..

Cheguei no outro show e fiquei pensando: e agora, o que eu faço? Ai eu olhei uma lamparina do festival que era toda feita de madeira jogada no chão. Eu peguei ela do chão, botei na cara e como a voz passava pelo microfone, ficou perfeito. Ainda é muito intrínseco, sabe? Eu uso, tudo é recurso, tá ligado?

Só que agora eu to meio que adquirindo um olhar e eu to começando a saber que eu sei. É um processo né cara, meio que uma brincadeira que envolve um exercício múltiplo de várias áreas da arte. O Renan fala que o Protetora dos Bêbados e Mal Amados que é um disco que eu tenho, ele fala que é um disco livro. O novíssimo que é todo visual já é um disco roupa então você consegue vestir toda aquela linguagem.

Logo depois, era a vez do Baco Exu do Blues encerrar o cronograma do palco Monkeybuzz com um dos shows mais aguardados da noite.

Foto: Drico Galdino

"Bluesman" é o trabalho mais recente do Baco Exu do Blues. Liberado no dia 23 de novembro, o segundo disco do Rapper baiano chegou ao mainstream com a mesma delicadeza de um Coquetel Molotov. Destruindo as chagas que impedem o empoderamento da pele preta, o cantor e compositor criou um conceito só pra ressignificar suas raízes.

Com o mesmo etílico teor subversivo da música negra, Baco buscou a estética do som dos escravos no campo de algodão para encontrar referências que vão desde Basquiat ("Bluesman") até o Delta e os bends do Chicaco Blues.

Foto: Drico Galdino

Ao estabelecer que tudo é Blues, Baco mostra domínio de uma nova linguagem. Ao partir do ponto em que tudo que envolve a estética de seu novo trabalho contém o DNA negro em absoluto, ele mostra que seu povo não precisa partir de ponto algum para se provar original, tampouco relevante. Ele por si só já é a meca do som, tu não precisa pagar pau pra gringo.

O Soul, Funk, Jazz, Blues... Tudo isso carrega o sangue dessa sofrida história e no repertório do novo disco essa é uma máxima constante. Com o repertório do novo registro na íntegra e surpreendendo o público com uma angelical participação da Tuyo na faixa "Flamingos", o artista gozou de uma liberdade poética invejável no cenário do Rap nacional.

Ao requisitar o papel principal numa sociedade que limita a luta das minorias como atores coadjuvante num filme do Spike Lee, que trabalhos como "Bluesman" são grandes feixes de luz nos escombros do abismo social no Brasil. A coisa tá ficando preta e isso é um bom sinal.

Foto: Drico Galdino

E pra fechar a noite ainda teve Coletividade Namibia com os DJ's Dany Bany e Valentina Luz, bem como intervenções de Ana Giselle, Paulet Lindacelva e Euvira.

Vida longa ao Coquetel Molotov. Vamos começar uma petição pra levar uma edição do festival pra cada estado do Brasil. Seria no mínimo justo rs.

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BlacKkKlansman: esqueceram da trilha sonora do Terence Blanchard

O Spike Lee gosta muito de Jazz. Shelton Jackson Lee na verdade é filho de um jazzista. Seu pai, William James Edwards - ou Bill Lee para os íntimos - gravou linhas de baixo ao lado de nomes como Aretha Franklin, Duke Ellington e Simon & Garfunkel.

Sua mãe, Jacqueline Carroll, por sua vez, foi professora de artes e literatura negra. Juntos, esses 2 criaram um dos maiores diretores, produtores, escritores e atores de toda a história, não só do cinema americano, mas sim mundial. São mais de 35 filmes produzidos desde 1983 numa carreira que compreende pouco mais de 30 anos de muito trabalho.


No entanto, apesar de todo o reconhecimento de sua obra, o criador de clássicos como "Malcom-X" (1992) e "Do The Right Thing", nunca teve o seu trabalho de trilha sonora (ao lado de Terence Blanchard) mencionado. Bom, acredito que o lançamento de "BlacKkKlansman" isso seja revisto, pois, mais uma vez, o trabalho de Terence Blanchard é tão bom e audacioso quanto a película que retrata a ideia maluca do policial Ron Stallworth.


Track List:
"Gone With The Wind"
"Hatred At It's Best"
"Main Theme"
"Ron's Theme"
"Firing Range"
"No Cross Burning Tonight"
"Patrice Library"
"Ron Meets FBI Agent"
"Connie and the Bomb"
"Guarding David Duke"
"Tale Of Two Powers 1"
"Tale Of Two Powers 2"
"Tale Of Two Powers 3"
"Woodrow Wilson"
"Klan Cavalry"
"Ron's Search"
"Patrice Followed"
"Here Comes Ron"
"White Power Theme"
"Partner Funk Theme"
"Main Theme - Ron"
"Blut Und Boden (Blood and Soil)"
"Photo Opps"


Terence Blanchard trabalha ao lado do Spike há 3 décadas. O que começou como uma pequena colaboração em "Mo' Better Blues" em 1990, acabou virando coisa séria quando o diretor ligou para Terence 1 ano depois para trabalhar na trilha de "Jungle Fever". Daí pra frente a dupla não parou mais.

Vale lembrar que além de sua vasta experiência trabalhando com cinema, Terence Blanchard, trompetista natural de New Orleans, ainda conta com belos trabalhos lançados por selos como Blue Note e Columbia. Tocando em projetos como a Lionel Hampton Orchestra e o icônico Art Blakey and the Jazz Messengers, o músico conseguiu conquistar ouvintes nos seus 2 habitats naturais, os clubes e as salas de cinema, algo de fato formidável.


Idealizada a partir da mesma estética R&B que permeou a trilha de Malcom-X, Spike pensou num contexto bastante melódico para a trilha de "BlacKkKlansman". Dessa forma, Terence poderia engrandecer a luta negra e utilizar o Jazz como instrumento para mostrar a resistência do movimento Black Power.

Em teoria isso é muito bonito, mas colocar essa estética em prática não deve ter sido simples. São 23 composições que formam o disco e acompanham o filme com uma precisão cirúrgica. É impressionante como Terence conseguiu sintetizar a música negra dos anos 70 para compor um score que trouxesse um blend de tudo o que nomes como Sly & The Family Stone, James Brown e Nina Simone representaram, não só para a música negra, mas também para o movimento dos direitos civis.


Numa época tão facilmente inflamável, tanto politicamente quanto musicalmente, os Estados Unidos nos anos 70 (época da investigação que inspirou o filme) era um lugar no mínimo pitoresco. De um lado você tinha o Jimi Hendrix tocando o hino com sua guitarra, e do outro os pouco dotados de neurônios da Ku Klux Klan.

Num dos períodos mais ricos de todos os tempos para a música, grandes gênios - como o próprio Hendrix - precisavam subir ao palco toda noite para provar que, apesar da descendência cherokee, ele era americano de nascimento.


Toda essa dualidade serviu de munição para o trabalho de Blanchard e o resultado é um riquíssimo compilado de texturas que vão do Jazz ao Funk com muita classe, groove e uma acidez tão necessária quanto o trote que o Ron Stallworth passou para o David Duke no final do filme.

História real. Contexto histórico dos anos 70... Você é negro e mora no Colorado. Está liso, precisando de grana e em busca de uma profissão, por isso nada mais lógico que pleitear uma posição no departamento de polícia local, certo?


Ron Stallworth achou que sim e acabou se transformando no primeiro detetive negro da história do departamento de Polícia de Colorado Springs. Como se isso já não bastasse, o negrão ainda teve a brilhante ideia de se infiltrar na Kux Klux Klan.

O problema é que em virtude de seu autêntico Black Power, ele ainda teve que convencer seu colega (judeu) Flip Zimmerman, interpretado por Adam Driver, a ir em seu lugar enquanto ele mesmo gerenciava a comunicação por telefone.

O Spike Lee é foda e o Terence Blanchard também. Um dos grandes filmes do ano ao lado de um dos melhores discos que abrilhantaram o cenário do groove em 2018. Que dupla. Quem é Bebeto e Romário?
  
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