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O Prog do Three Seasons e o estardalhaço sonoro de Grow

Essa semana me deparei com umas listas bem mal feitas, mas que me fizeram refletir sobre um ponto de vista que muitos de nós subestimamos. Quais seriam os 100 melhores discos dos anos 2000? Aposto que muitos dos senhores irão dar risada (à princípio) e pensarão: ''é fácil listar, acho até que nem chega a cem exemplares'', mas não é bem assim que a banda toca.


Achei a lista que li com meus próprios olhos uma absoluta demonstração de ignorância, mas como o post foi bem claro quando ressaltava de que tratava-se da opinião do resenhista, só pude lamentar, e comecei a pensar sobre os discos que estariam em uma possível lista de minha pessoa.

Só que pasmem senhores, nela tem até disco de 2014, e o representante deste ano é ''Grow'', o terceiro CD do (para variar Sueco) power trio, Three Seasons, lançado no dia 30 Maio de 2014. Aprecie o feeling da nata progressiva.

Line Up:
Sartez Faraj (guitarra/vocal)
Olle Risberg (baixo)
Christian Eriksson (bateria)



Track List:
''Which Way''
''Drowning''
''By The Book''
''Tablas Of Bahar''
''Food For The Day''
''No Shame''
''Home Is Waiting''
''Familiar Song''


Ouvi esse disco uma centena de vezes desde de seu lançamento,e logo depois já fui traçar o restante da discografia dos caras:

''Life's Road'' - 2011
''Understand The World'' - 2012


E a rara beleza das faixas, o clima analógico, as influências das mais diversas... Tudo isso me encheu os olhos, aliás, o fez com todos que já ouviram alguma coisa desse trio. O som dos caras agrega de tudo. Funk para fluir as melodias, um Folk nas partes ''A'' de determinadas faixas, Pysch nas jams, um toque de Jazz, e por último mas jamé menos relevante, o Blues, a fundação básica deste som.

Desde o primeiro disco, o já citado ''Life's Road'' (2011), noto que a sonoridade deles já veio pronta. Não notei essa pataquada de ''evolução e amadurecimento'', escutei uma discografia uniforme e que mantém um padrão de qualidade excepcional, um Hard-Prog com aquele toque de Jukebox-disco-pérola dos anos 70.


''Grow'' aparece com 8 faixas e resulta em mais de 50 minutos de viagem e uma viagem muito diferenciada. Gosto bastante do peso das faixas, sempre no tom do vocalista e nunca nada de ensurdecedor, inclusive, o dono da voz principal, quase me tirou o sono.

Ouvia os discos e lembrava de alguma voz famosa... Sartez Farai me lembrou o Paul do começo do Free, juro, não é exagero. E logo pelo abertura do disco com ''Which Way'', dá para fisgar isso. Riffs apoiando o órgão (''Drowning''), violas costurando os flancos vazios do instrumental (''By The Book'') e momentos de grande criatividade, como na passagem sublime de ''Tablas Of Bahar''.

Alto padrão musical, mas tudo dentro de uma atmosfera que aconchega todos os ouvidos, não só os virtuoses de plantão e ao som de temas como ''No Shame''  percebemos que mais do que o Prog, o Three Seasons nos faz passar por todas as sensações sonoras, até o feeling Soul que arrepia a vértebra L3!

Coisa linda de pretão com um furo no meio. Eis aqui um pedaço generoso de uma excelente alquimia melodiosa, vinda justamente de ouvidos que só pelo o que produzem, fica claro que manjam muito mais de música do que o resenhista. Todo mundo sola, todo mundo frita e a trip é grandiosa. Excelente.

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A nobreza do Renaissance no Prog de Grandine iI Vento

Para os mais conservadores, a música atual não presta e só tenta copiar tudo de bom que já foi feito. Creio que essa seja uma linha de pensamento ríspida demais, mas existem pontos que de fato são impossíveis de negar.

Aliás, acredito que a gama de qualidade entre o período áureo de criatividade sonora ('70), e a fase meio pluricelular dos Indie's e alternativos, não são capazes de sustentar um padrão consistente para negar essa tese ou pelo menos partir pra trocação de igual pra igual.


Por isso que para os mais conservadores a melhor coisa é quando uma banda dos anos setenta volta à ativa e ainda o faz com trabalhos excelentes. Não basta apenas voltar e ficar mantendo as atividades com tours de reunião, não, o que os fãs realmente querem é material novo e um bom material. E foi exatamente isso que o Renaissance fez, provando que os hiatos foram superados e que o futuro será próspero e belo, igual ao Rock Progressivo de ''Grandine iI Vento'', lançado em 2013.

Line Up:
Annie Haslam (vocal)
David J. Keyes (baixo)
Rave Tesar (teclado)
Frank Pagano (bateria/percussão)
Jason Hart (teclado)
Michael Dunford (guitarra)
Ian Anderson (flauta)
John Wetton (vocal)



Track List:
''Symphony Of Light''
''Waterfall''
''Grandine iI Vento''
''Porcelain''
''Cry To The World''
''Air Of Drama''
''Blood Silver Like Moonlight''
''The Mystic And The Muse''
''Carpet Sun'' (Live) - Japão


De 1969 até meados de 1987 tudo ia muito bem no front do Renaissance, depois rolou hiato até 1998. Quatro anos de trabalho seguidos, depois, um clássico "split up", como diriam os gringos. Mas de 2009 pra frente o Groove segue pulsando (renovadíssimo diga-se de passagem) e agora  sem data de validade, por que depois que a banda perdeu o guitarrista Michael Dunford (em virtude de uma hemorragia cerebral) e segue com as tours de maneira inabalável, fica difícil de projetar um fim, ainda mais depois desse CD.

Excelente e oportuno de cabo a rabo, ''Grandine iI Vento'' é um passeiio pra lá de sereno entre a bela ponte música Erudita-Rock Progressivo que a banda sempre destilou com maestria. Com temas longos como ''Symphony Of Light'', muito bem tocados e instrumentalmente exuberantes, ''Grandine Il Vento'' nos mostra como os detalhes são a alma do negócio.



Músicas sublimes como ''Waterfall'' invadem o ambiente e planam enquanto reverberam, tamanha a leveza da Jam. Talvez o mais absurdo disso tudo, além do óbvia complexidade deste enredo, é ver que Annie Haslam canta temas como a faixa título de maneira belíssima, sendo que a cidadã já passou da casa dos 60 anos! 

É realmente algo a ser estudado, mas enquanto você fecha os olhos para a voz da britânica, não se esqueça de aplaudir a participação do Jethro Tull ao som de ''Cry To The World''. A criatividade segue trilhando o caminho da banda com temas sinuosos como ''Air Of Drama'', ''Blood Silver Like Moonlight'' e ''The Mystic And The Muse''. Eis aqui um disco de fato surpreendente, e se você tiver contatos no Japão, ainda rola a trip aveludada de ''Carpet Sun'' como bônus. Coisa fina!

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All My Friends: Celebrating The Songs & Voice Of Gregg Allman

Sempre tive dificuldade em entender DVD's tributos, se bem que CD's também, em suma (até para evitar confusões) sempre tive problemas com tributos de uma maneira geral. Muitas pessoas tem uma mania horrível, só pensam em determinados músicos quando estes morrem, ou seja, ninguém acaba dando o valor real para certos nomes, como se não fosse ''necessário'', afinal de contas, o cara está lá, de carne e osso.

Parece que é tudo muito reciclado, a música perde sua alma frente a covers que na tentativa de elevar algo, cometem o pegado de em dado momento tornarem-se desnecessários, se bem que isso ai valeu para boa parte dos tributos que vi, menos o do tenor do marfim, o senhor Gregg Allman.


Montem o show e chamem o homenageado, All My Friends: Celebrating The Songs & Voice Of Gregg Allman é um dos melhores DVD's que vi em 2014. O time de convidados é fantástico e o comprometimento dos envolvidos é realmente louvável. De Warren Haynes à Robert Randolph, de Widespread Panic até Dr. John. Aqui só tem fera e ninguém subiu no palco pra tocar com o nome... O Crossroads devia aprender com esse registro.


Track List:
''Come And Go Blues'' - Warren Haynes
''End Of The Line'' - Warren Haynes/Derek Trucks
''Stand Back'' - Susan Tedeschi/Derek Trucks
''You Can't Loose What You Ain't Never Had - Devon Allman/Jimmy Hall/Robert Randolph
''Please Call Home'' - Sam Moore
''Just Another Rider'' - Keb' Mo
''Before The Bullets Fly'' - Brantly Gilbert
''Let This Be A Lesson To Ya'' - Dr. John
''Queen Of Hearts'' - Pat Monahan
''One Way Out'' - John Hiatt
''Statesboro Blues'' - Taj Mahal/Gregg Allman
''Just Ain't Easy'' - Widespread Panic
''Wasted Words'' - Widespread Panic/Derek Trucks
''I'm No Angel'' - Trace Adkins
''Multi-Colored Lady'' - Vince Gill
''All My Friends'' - Martina McBride
''Can You Fool'' - Pat Monahan/Martina McBride
''Ain't Wastin' Time No More'' - Eric Church
''Win, Lose Or Draw'' - Eric Church
''These Days'' - Jackson Browne/Gregg Allman
''Melissa'' - Jackson Browne/Gregg Allman
''Midnight Rider'' - Vince Gill/Zac Brown/Gregg Allman
''Dreams'' - The Allman Brothers Band
''Whipping Post'' - The Allman Brothers Band
''Will The Circle Be Unbroken'' - Full Cast


Gravado ao vivo no belíssimo Fox Theathre em Atlanta e lançado no dia 06 de maio de 2000 e catorze, esse minucioso trabalho cumpre com uma tarefa muito complicada: resumir a carreira, vida e obra, de um dos maiores músicos e compositores de nosso tempo. No recheio do groove temos todo o sentimento de Gregg Allman, dando um foco em sua carreira solo (o que tira as coisas do lugar comum, vulgo clichê) mas que ainda nos presenteia com faixas de sua banda, afinal de contas ninguém é de ferro.

São mais de duas horas e quarenta de puro Rock sulista completamente imersas numa das apresentações mais inspiradas que já vi recentemente, e também pudera, todos os envolvidos presam por uma bela Jam, aliás boa parte deles ficou conhecido por esse fraco por passagens instrumentais.


Fraco é uma palavra péssima, na realidade aqui de fraco não tem nada! Destaco a participação de Dr. John, a destreza absurda do Widespread Panic e a lindíssima apresentação de Sam Moore como meus momentos favoritos. Não tem UMA música ruim, a banda de apoio é enorme, detalhes não faltam e a qualidade de som é fenomenal.

Peguei a edição em DVD simples, até por que não me restou escolha, só tinha essa. Foram lançados uma simples em Blu-Ray, outro com qualidade convencional, e as edições com o disco duplo, afinal como já foi dito são quase três horas de show.

Acreditem, vale cada centavo, inclusive vem um bookzinho muito bacana no pacote, afinal de contas todos os participantes merecem ser devidamente creditados. O Jimmy Herring, definitivamente, foi um dos destaques da noite.

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Saudem o The Brecker Brothers e fritem com Heavy Metal Be-Bop

Depois que o Miles Davis começou a experimentar brinquedos novos na década de 70, mal sabia ele o rumo que toda essa bagunça tomaria. Talvez o negrão soubesse, mas tenho certeza que até ele se assustou com a marola Jazz que virou um tsunami Fusion.

Depois que o Jazz clássico de nomes como Wynton Marsalis ganhou novos contornos, a ideia ficou mais louca que uma session do Chet Baker com a Björk. A partir do momento que deu-se a criação de um novo gene Jazzístico, rapaz, as aventuras foram vertiginosas.


A revolução Fusion foi uma ruptura necessária e que resetou todos os parâmetros conhecidos para um mergulho profundo no desconhecido. Um celeiro de cozinhas que tinham o mesmo elo, mas que se difersificaram criando, talvez, a ramificação mais criativa que o cenário musical já viu.

O elemento Jazzy se fundia em qualquer estado. Podia ser Funkeado, experimental, eletrônico... A única regra era que não tinha nenhum limite, o foco era justamente quebrar padrões e mostrar a vitalidade de um estilo que estava mais conservador do que a igreja católica.


Por isso, na hora de colocar aquele som pulsante, transgressor, swingado e pesado na vitrola, não se esqueça de agradecer aos grandes mestres. Nomes primordias como os The Brecker Brothers, um dos grupos mais insanos que já povoaram o cenário e que, sem dúvida alguma, mudaram as regras do jogo quando chegaram no show com trampos como ''Heavy Metal Bep-Bop'' debaixo do braço. 1978... parecia que o gás ia chegar ao fim, doce engano!

Line Up:
Randy Brecker (trompete)
Roy Herring (vocal)
Bob Clearmountain (percussão)
Michael Brecker (saxofone)
Terry Bozzio (bateria/vocal)
Barry Finnerty (guitarra/vocal)
Neil Jason (baixo/vocal)
Sammy Figueroa (percussão)
Paul Schaeffer (Fender Rhodes)
Rafael Cruz (percussão)
Jeff Schoen (vocal)
Victoria (percussão)
Kash Monet (percussão/vocal)
Allan Schwartzberg (bateria)



Track List:
''East River''
''Inside Out''
''Some Skunk Funk''
''Sponge''
''Funk Sea, Funk Dew''
''Squids''


Para se entender toda a fritação que o Jazz-Fusion alcançou, creio que um dos grandes pilares para consumar essa compreensão seja o The Brecker Brothers. Primeiro por que os irmãos Randy e Michael Brecker são dois dos maiores nortes para a arte do trompete/saxofone, segundo por que a dupla não é tão celebrada quanto deveria e por último, mas jamais menos importante, por que esses caras provam por A+B como é possível fazer uma Jazzeira pesar mais que muito combo de roquenrou.

''Heavy Metal Be-Bop'' é o único disco ao vivo do The Brecker Brothers. Acredite, a força explosivo deste set é avassaladora e reunia apenas a nata para consolidar uma das cozinhas mais intensas dos anos 70.


Lançado pela Arista Records em 1978 e gravado em Nova York (no My Father's Place, localizado em Roslyn) essa apresentação cumpre a difícil tarefa de captar e sintetizar toda a importância e relevância do trabalho dos irmão Randy e Michael Brecker.

A banda que acompanha toda essa síncope também é formidável. Em todas as posições só existiam verdadeiros experts na cozinha Fusion, mas o trabalho dos irmãos Brecker nos metais e toda a dinâmica que essa abordagem dava ao som do grupo, são, inquestionavelmente, o maior destaque do disco.

Desconsiderando a apoteótica "East River", que foi um single gravado em estúdio, todas as outras 5 faixas restantes eternizam o combo num set ao vivo que mais parece uma sessão de estúdio. Não se engane com o set aparentemente enxuto, depois que os quase 10 minutos de "Inside Out" colam nos falantes, já dá pra se ligar que o improviso tira até a última gota de caldo deste groove.


São quase 45 minutos de embates épicos, uma verdadeira baixaria nas 4 cordas e 2 grandes visionários no controle disso tudo. Aliás, se esse disco fosse gravado no ano passado, não seria exagero nenhum afirmar que mesmo assim ele estaria completamente a frente de seu tempo. Até hoje tem muita gente que estuda sax e trompete que não se cansa de ficar perplexa com os timbres que os irmãos Brecker tiravam de seus metais.

Em faixas como a praticamente inflamável "Some Skunk Funk'', Neil Jason engrossa o slap, mas nem assim os metais sentem o baque, os vigorosos sons  de sax e trompete com efeitos advindos das primeiras experimentações eletônicas da época, chegam com partes que se cruzam como se os metais fossem 2 caças da NASA brincando numa competição da Red Bull.

Em estúdio eles foram fantásticos, mas depois de ouvir esse ao vivo você vai entender por que eu não escuto a versão de estúdio de "Some Skunk Funk" mais... Acredite, é muita eletricidade!

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Olha o Prince malhando o Jazz Funk nas Loring Park Sessions 77

Quando o Prince nos deixou, muita especulação começou a pipocar na mídia, algo relativamente comum quando um músico deste quilate, feeling e absoluta criatividade, abandona este plano. Mas entre dezenas de boatos e muito "mimimi", quando o assunto é música mesmo e não as doses de bafafá da revista Contigo, ocorreram 2 grandes acontecimentos positivos para o legado desse que foi, sem dúvida alguma, um dos maiores de sua espécie. 

1) A primeira coisa foi que a sua discografia chegou em peso aos serviços de streaming, mesmo depois que o americano, ainda em vida, afirmou e reafirmou que só entraria nesse jogo filiado ao Tidal, o serviço de streaming do Jay-Z que além dele tinha o Jack White como discípulo também.

2) A segunda coisa foi que logo depois que seus discos entraram no acervo dos serviços streaming (Spotify, Deezer, Apple Music e etc) uma certa Jam Session começou a circular pelos cantos mais obscuros da internet, junto de dezenas de bootlegs e gravações nunca antes lançadas.


É importante pontuar que no meio disso tudo existe muito material "duvidoso". Inclusive em muitos sons é até complicado afirmar se o músico esteve de fato presente, devido, primeiro a qualidade da gravação e segundo a veracidade dos fatos relatados.

Porém, se por um lado apareceu muita tralha, por outro, conseguiram desenterrar uma sessão de estúdio que mostra um Prince ainda bem jovem (com 19 anos) malhando o Jazz Funk numa gravação em trio que é o mais puro veneno. Senhoras e senhores, por favor apertem play nas fritações da Loring Park Sessions 77.

Line Up:
Prince (teclados/guitarra)
André Cymone (baixo)
Bobby Z (bateria)


  

Track List:
''Instrumental #1''
''Instrumental #2''
''Instrumental #3''
"Instrumental #4''
''Instrumental #5''
''Instrumental #6''
''Instrumental #7''
''Instrumental #8''

Sem nome de faixa, nenhum verso cantado e sustentando o mais puro groove, é assim que o Prince e 2 de seus mais célebres colaboradores eternizaram essa grande sessão, que, após o play, será cultuada pelos seus ouvidos.

Gravado um ano antes de "For You", lançado em 1978, essa sessão iria anteceder o primeiro (e competente) esforço criativo do músico que já mostrava, desde muito jovem, possuir um raro tato.


Essas sessões foram gravados na sala de ensaios do primeiro agente do Prince, Owen Husney, no Q.G. de operações da Loring Park, localizado em Minneapolis. O som é um Funk carnudo, bem na linha frita do que estava em voga na mente do Herbie Hancock com um toque meio Madhouse, o projeto de Jazz que o Prince criou no fim dos anos 80.

Coisa fina meu caro, isso definitivamente não poderia ficar ganhando poeira no estúdio!

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O nobre Sonny Rollins e o Gás no sax de Tenor Madness

Um gás nobre é um membro da família dos playboys da Tabela Periódica. O termo, ''gás nobre'', foi escolhido para deixar claro que essa seleta categoria não se mistura, citando a grande Dona Florinda: ''Com esta gentalha''.

Não, jamais, os comuns não tem chance com essa panelinha, o Hélio não dá rolê com qualquer um... A coisa simplesmente não flui, esse pessoal mais cult não combina com os demais elementos, a reatividade é baixa e o bom gosto é supremo.


Perceba que existe um paralelo em potencial, a música é perfeitamente comparável com este fenômeno científico. Tente requintar seus sentidos e perceba que os gêneros não tem um elo de ligação, a volatilidade de cada jam é bem diferente, tal qual a minha estapafúrdia comparação entre gases, e seus parâmetros químicos.

Mas ainda trabalhando com essa de ideia de improvisos gaseificados, qual seria o seu gás nobre preferido? O meu é o Jazz, algo como um Hélio para Miles Davis, doses de Xénon para Dizzy Gillespie e um Néon para Sonny Rollins e o seu laboratório Jazzístico. ''Tenor Madness'' é a personoficação de um gás nobre e apenas um dos clássicos que Sonny emplacou. É meu amigo, o ano de 1956 foi sem precedentes para a música.

Line Up:
Paul Chambers (baixo)
Red Garland (piano)
John Coltrane (saxofone)
Sonny Rollins (saxofone)
Philly Joe Jones (bateria)



Track List:
''Tenor Madness''
''When Your Lover Has Gone'' - (Einar Aaron Swan)
''Paul's Pal''
''My Reverie'' - (Larry Clinton/Debussy)
''The Most Beautiful Girl In The World'' - (Rodgers/Hart)


Sonny é conhecido principalmente por ser o criador do icônico ''Saxophone Colossus'', também lançado em 1956, mas quem conhece Jazz, e principalmente, quem já foi a fundo na discografia do americano, sabe que o mestre possui diversos trabalhos brilhantes, inclusive até a crítica se divide em relação a certas gravações, e ''Tenor Madness'' é um delas.

O primeiro registro que Sonny lançou em 1956 foi ''Sonny Rollins Plus 4'', depois tivemos o advento deste aqui, embalando o ''Saxophone Colossus'', além de ''Rollins Plays For Bird'', ''Tour De Force'' e ''Sonny Boy''. Essa é pra você que se acha workaholic... Parece loucura mas o saxofonista gravou seis discos em um ano. A Prestige Records (selo do cidadão de 1953 até 1956) nem se pronunciou sobre o assunto. Isso sim é que é ter crédito no sentido literal da palavra.

E o resultado é de uma proeza sonora que contou com uma banda de apoio fabulosa por trás e com direito até a participação de John Coltrane na abertura do disco (com a faixa título), reforçando ainda mais o impacto que seu Jazz teve na evolução do estilo.

Um Hard Bop fervoroso, quente, imponente e que sempre polarizado nas improvizações equilibra seu embriagante fraseado saxofonístico. Dessa maneira a cozinha consegue até abrir espaços para quebras de tempo completamente imersas numa estética que não seguia métricas, mas que ainda assim conseguia brincar com elas.

Com performances excelentes por parte do back up de apoio, as peças chaves são o piano e a bateria, tocados respectivamente por Red Garland e Philly Joe Jones. Como se não bastasse o sax e a cia de Red e Joe, os caras ainda são apadrinhados pelo baixo de Paulm Chambers... É quase uma poesia concreta, um disco importantíssimo, a nata dos gases Jazzísticos.


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Kamasi Washington revela o EP Harmony Of Difference com um filme para a suite Truth

Depois de lançar um dos discos mais aclamados do Jazz em tempos recentes, o saxofonista Kamasi Washington começa a arquitetar seus próximos passos para suceder o grande "The Epic", lançado em 2015 (leia a resenha aqui).


Pois bem, diferente do que muitos pensavam, a próxima cartada do músico não chegará na forma de um full lengh, muito pelo contrário. Dessa vez Kamasi irá dar prosseguimento a sua caminhada "Jazzpiritual" com um EP que será liberado pelo selo britânico The Young Turks.

O EP ainda não tem data oficial para sair, mas Kamasi liberou a faixa que virou filme pelas lentes de O.G Rojas para streaming em todas as plataformas digitais, afinal uma suíte com 6 movimentos não poderia perder espaço em nenhum canal sonoro.

Arte: Amani Washinton

São aproximadamente 14 minutos de som excelentemente bem complementados pelas filmagens. A cozinha pra variar evidencia a percepção musical apurado do negrão, que com levantes hora focados no Hard-Bop e muito improvisação com toque de Hip-Hop e um sublime acabamento nas cordas, blindam o Jazz com exatamente aquilo que ele precisa: grandiosidade.

Vale a pena ficar ligado nos próximos passos desse cidadão. Até a arte do EP não passa batido... Feita por Amani Washinton, irmã do músico, fica claro que o DNA artístico pulsa na família e ainda o faz com requintes de Basquiat.

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