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Nunca fiz uma playlist no Spotify #17 - Dr. John

Um dos maiores pilares da cultura do R&B de New Orleans, Dr. John foi um dos grandes pilares do groove. Um Lord quando ao piano, o Night Tripper conseguiu promover fusões primorosas entre a psicodelia e o swing do R&B, dentro de uma carreira com mais de 5 décadas de história.

Seja em carreira solo ou ao lado de nomes como Etta James, Johnny Winter e Mike Bloomfield, por exemplo, a música de Ben Rabenneck esteve nos ouvidos de algumas gerações de meliantes. Por isso, nada mais justo do que promover um epifania sob sua disco discografia e desvendar a essência de seu Vodoo.


Foi um desafio, mas o Macrocefalia Musical selecionou 30 takes que resumem um pouco da grande capacidade deste genial pianista, peculiar vocalista, criativo arranjador e também competente guitarrista.

São muitos discos, incontáveis clássicos - seja em estúdio ou ao vivo - e o resultado final é uma obra que resistiu ao maior teste de todos: o tempo. A contribuição e o impacto da música do Dr. John estão pra sempre eternizadas nos bálsamos da cultura popular mundial.

Uma voz que acalma a alma dos desesperados. Muito obrigado pela música, Doc.
   
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Psicodelia japonesa & Sonic Flower: a arte de ficar surdo

Quando o baixista do Church Of Misery (Tatsu Mikami) formou o Sonic Flower - como apenas um despretensioso projeto paralelo - acho que nem ele tinha noção do Blues-Rock que ele estava prestes a criar.

A única gravação da história do grupo é datada de 2003. O resultado é um EP que entrega uma cozinha poderosíssima e que funde elementos do Kraut-Rock setentão e da Psicodelia para chegar num resultado final avassalador.

Não se engane pelas 6 faixas e os poucos mais de 25 minutos de som. É de fato um trabalho curto, mas que ecoa até hoje nos falantes dos fãs de grupos como o Earthless, por exemplo. Lançado pelo selo japonês, Leaf Hound Records, esse trampo ganhou status de raridade e a prova de como ele transformou numa gravação fundamental no underground é que em 2019, quase 16 anos depois do lançamento, o grupo anunciou que vai voltar a gravar.

Line Up:
Tatsu Mikami (baixo)
Takenori Hoshi (guitarra)
Arisa (guitarra)
Junji J.J Narita (bateria)  



Track List:
"Cosmic Highway"
"Black Sunshine"
"Astroqueen"
"Indian Summer"
"Going Down"


Com uma formação em quarteto e uma dinâmica muito interessante, principalmente entre as duas guitarras, o instrumental é excelente e o jeito que o som foi tratado talvez seja a essência dessa gravação.

Com uma roupagem que transparece as vísceras e o teor orgânico dessa reunião - ainda que num contexto totalmente instrumental - o resultado é um disco homônimo que impressiona pelo peso estarrecedor, mas que também vai muito além disso.

É um blend de psicodelia bem groovado. Os músicos são claramente muito eloquentes tecnicamente falando e o resultado são temas que nunca parecem altos  o suficiente, como "Cosmic Highway", por exemplo.


O que mais impressiona no entanto é como eles conseguiram captar o som em estúdio e entregar essa energia de disco ao vivo. Temas como "Black Sunshine" - e suas chapantes texturas guitarristicas - parecem prover o plano de fundo perfeito para a criação de jams onde a sessão rítmica dá o tom.

A bateria e o baixo criam um verdadeiro refúgio antibombas. A cozinha é muito sólida e os andamentos intrincados fazem o som não ficar monótono, tampouco reto demais. O Funk chega com a acidez certa e contribui para que fritações como "Astroqueen" consigam entregar não só o som do Fuzz, mas também ritmo e variação para que o seu ouvido não seja engolido.

É claro que as influências dessa galera é muito diversificada e faz escala também no Blues. É impossível não escutar "Indian Summer" ou "Going Down" e não se lembrar de bandas como Cactus e Grand Funk Railroad.

Ainda assim, o resultado final está longe de soar datado e funciona melhor que glicose na veia. O único problema desse trampo é que o som nunca parece alto o suficiente. O Japão é foda... O feeling dessa galera é diferenciado até na hora de fazer barulho.

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Conheça o trampo mirabolante do FKJ

Nos últimos anos tem aparecido uma galera trampando no melhor estilo "banda de um homem só". Pode reparar. Está em todos os lugares, desde o Jazz, até o Pop, R&B e a música eletrônica. Pra vocês sacarem como é uma tendência, em 2010 o guitarrista de Jazz Pat Metheny lançou o "Orchestrion", disco de estúdio que contava apenas com ele nas guitarras, enquanto os outros instrumentos que fazem parte do disco foram programados para tocarem de maneira sincronizada, acompanhando a Ibanez do americano.

Mais recente, a australiana Tash Sultana também explodiu no cenário mainstream, com um show pautado em loops e diversas intervenções instrumentais que ela faz ao vivo, enquanto troca de instrumentos, passando da guitarra para o trompete, como quem vai na cozinha pegar um copo de água pra marinar a dentadura. 


Nem parece que ela se esforça. Autodidata, a moça entrega um espetáculo diferente toda noite - muito em função da proposta do seu show - mas é notável como tem surgido uma galera multitask, com cabeça de multi instrumentista e produtor.

Tanto o projeto do Pat quanto o som da Tash, são de fato muito interessantes. O Metheny lançou até um DVD mostrando como foi o processo. A Tash também tem dezenas de performances ao vivo no internet, mas ainda acho que tem um cara acima dessa galera toda e esse meliante é o FKJ.


Produtor e multi instrumentista francês, French Kiwi Juice é um workaholic natural da cidade de Tours, oeste da França. Amigo da galera mais hypada da cena, o talentoso músico colabora com nomes badalados como Masego, Alfa Mist e Tom Misch, sempre contribuindo de alguma maneira, seja na guitarra, saxofone ou tirando o puro néctar de seu Wurlitzer.

Dono de um set que funde a estética do Jazz, com elementos do R&B, Funk e climas com clara inspiração das trilhas sonoras francesas dos anos 70, o cara ainda consegue misturar instrumentação tocada com House e uma linha de beats açucaradas.

Em estúdio FKJ já conta com um trampo de inéditas, mas é ao vivo que a coisa pega. Seu debutante homônimo lançado em 2017 mostra sua imensa perícia na produção, mas acaba perdendo o lance orgânico que caracteriza suas performances.


E o mais interessante é como ele conseguiu se transformar num viral, principalmente pela forma inovadora e absolutamente original com a qual ele grava suas apresentações. Existem 2 shows que ilustram isso de maneira brilhante.

O primeiro é esse aqui, gravado diretamente do solar de Uyuni, na Bolívia. As imagens são belíssimas e é notável como a música casa com as imagens. A filmagem começa com o dia ainda claro e conforme o tempo passa, é muito massa ver o sol se pondo com o set do francês acompanhando as mudanças meteorológicas.

Imagina gravar uma live no maior e mais alto deserto do mundo? 



A principal mensagens desses trabalhos é muito clara. Não adianta apenas ser um bom instrumentista. É importante contar com propostas frescas para o show, pois esse é o carro chefe da vida de todo músico, ainda mais em tempos de streaming.

Essa piração começou em 20017 quando ele teve a ideia de tocar ao vivo no museu de arte moderna de Paris. Fazendo o set de frente para o quadro La Fée Electricité - do pintor fauvista Raoul Dufy - é impressionante como o ambiente do museu engrandece a proposta. Ele ainda disponibilizou headphones para o seleto grupo que aparece no vídeo e, aparentemente, o groove saia direto da fonte para os ouvidos da galera.


Acompanhar esse cara é garantia de boa música e uma oportunidade bem interessante de ver algumas ideias que comprovam a importância de se pensar fora da caixa. Coisa fina.

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Groove no Japão - Pacific Breeze: Japanese City Pop, AOR & Boogie 1976-1986

No universo do groove existe um submundo com praticamente uma realidade virtual de novas possibilidades musicais. Esse cosmos diz respeito à produção fonográfica japonesa dos anos 70 e 80 e o chamada City Pop, gênero que fez a cabeça da galera na terra do sol nascente, mas que virou uma verdadeira obsessão em diferentes partes do mundo.

Uma linha de música amplamente sofisticada, desde o trabalho gráfico dos discos até a magistral qualidade das prensagens e o grande poderio técnico dos músicos, o Japão levou o Smooth Jazz (e outras vertentes em alta na época) para outro patamar. 


Do AOR, passando pelo Yatch Rock, até o Jazz Fusion, pode ter certeza que pesquisar a produção japonesa - especialmente nesse período - é tiro certo se você busca gemas Funkeadas, arranjos épicos arranjos e uma abordagem bastante original para se pensar e fazer som. É claro que o cenário de música Pop japonesa cobre desde o Folk até o Rock Progressivo, mas o groove é algo que se mantém, tudo com um requinte no melhor estilo Steely Dan.

O maior problema pra desfrutar de tudo isso é o acesso. Os discos japoneses continuam caríssimos e na internet está cada vez mais difícil encontrar informações confiáveis sobre as bandas e os músicos, mas é aí que entram as coletâneas.

As coletâneas de fato possuem um papel muito importante quando bem feitas. Oferecem um plano de fundo mais generalista, porém bastante prudente sobre certos movimentos, além de ser uma importante ferramenta de resgate para que nomes como o das cantoras Taeko Ohnuki e Minako Yoshida recebam o devido reconhecimento, também fora do Japão.  


Track List:
Tomoko Soryo – "I Say Who"
Taeko Ohnuki – "Kusuri Wo Takusan"
Minako Yoshida – "Midnight Driver"
Nanako Sato – "Subterranean Futari Bocci "
Haruomi Hosono – "Sports Men"
Izumi Kobayashi – "Coffee Rumba"
F.O.E. – "In My Jungle"
Akira Inoue, Hiroshi Sato, Masataka Matsutoya – "Sun Bathing"
Hiroshi Satoh – "Say Goodbye"
Yukihiro Takahashi – "Drip Dry Eyes"
Masayoshi Takanaka – "Bamboo Vendor"
Shigeru Suzuki – "Lady Pink Panther"
Haruomi Hosono, Takahiko Ishikawa, Masataka Matsutoya – "Bride of Mykonos"
Yasuko Agawa – "L.A. Night"
Hitomi Tohyama – "Exotic Yokogao"
Tazumi Toyoshima– "Machibouke"


E para os ouvidos ansiosos para conhecer esse novo mundo, a compilação "Pacific Breeze: Japanese City Pop, AOR & Boogie 1976-1986", lançada no dia 03 de maio de 2019 - via Light In The Attic Records - é uma bela porta de entrada para começar a entender um pouco mais sobre o assunto.

Lançado como a terceira e última parte da série "Japan Archival Series", vale lembrar que a Light In The Attic conta com outros 2 lançamentos no catálogo, explorando contextos musicais diferentes, como a música ambiente, por exemplo. O primeiro deles, "Even a Tree Can Shed Tears: Japanese Folk & Rock 1969-1973" - foi o que inaugurou a série em 2017 - e ainda tem o segundo volume: "Kankyō Ongaku: Japanese Ambient, Environmental & New Age Music 1980-1990", que saiu em fevereiro desse ano.

Com as maravilhosas artes de Hiroshi Nagai - um dos principais ilustradores japoneses - referência na criação de capas de discos do gênero, esse belo lançamento chega com uma classe avassaladora e consegue cumprir a difícil tarefa de introduzir novos ouvidos ao submundo japonês com um conteúdo de fato de primeira. A qualidade das gravações é muito boa e agora basta apertar play.


Even a Tree Can Shed Tears: Japanese Folk & Rock 1969-1973:


Kankyō Ongaku: Japanese Ambient, Environmental & New Age Music 1980-1990:

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Groove: Kamal Williams ao vivo no Adult Swim

Depois que o Kamaal Williams apareceu em 2018 com um dos discos mais chapantes daquele ano debaixo do braço, muita gente está tentando prever o que sairá do seu cremoso sinth nos próximos meses.

Essa é uma missão dificílima, pois Kamaal está rodeado dos melhores Jazzístas da cena. E pensando num cenário tão prolífico e com imensa liberdade criativa, é praticamente impossível saber como que o groove vai pulsar num eventual sucessor para o excelente "The Return", lançado no dia 25 de maio de 2018.



Enquanto ele não grava nada de novo, o britânico segue em tour, mas desde o lançamento do disco até agora, algumas coisas já mudaram. A primeira foi que ele mudou a banda que o segue nas viagens. Adicionou um saxofone na configuração instrumental (Quinn Mason) e já não conta mais com a galera que gravou os takes no estúdio na época do "The Return".

Surgiram ainda outros rumores com relação ao retorno do épico Yussef Kamaal, projeto que o tecladista criou ao lado do brilhante baterista Yussef Dayes em 2016. O duo deixou a crítica em frangalhos quando anunciou sua separação depois de lançar o primoroso "Black Focus", mas parece que eles de fato estão ensaiando uma reconciliação.


Mas enquanto os discos não pipocam nos serviços de streaming, nos resta apenas acompanhar as redes sociais dessa galera e fisgar os vídeos ao vivo. E se tem uma coisa que o Kamaal está fazendo é gastar o groove em diversas apresentações ao vivo durante os últimos meses. Pra divulgar futuras gigs na europa, Japão e outros giros na América do Norte, o meliante de codinome Henry Wu segue divulgando as maravilhas terapêuticas do Wu-Funk.

Uma das mais recentes e mais interessantes empreitadas foi a participação que ele fez no tradicional Adult Swim, durante o mês de maio. O set foi tão cabuloso que ele soltou o vídeo em duas partes em seu canal oficial do Youtube. São pouco mais de 25 minutos de som e o resultado - com a ainda recente nova formação - deixa claro como, independente do estilo ou do músico que o acompanhe, o groove segue em boas mãos.

Parte I:


Parte II:

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O Tom Misch é cria do J Dilla

A cena de beatmakers dos anos 90 deixou uma marca indelével no cenário do Groove. Os beats do J Dilla romperam barreiras e saíram da East Coast pra se transformar no Lo-Fi Hip-Hop dos anos 2000. Slum Village, Erykah Badu, The Roots, Madlib, Common... A lista é gigante, mas todos esses grupos são e serão ainda mais importantes para explicar a cena moderna que está guiando o futuro da produção musical, desde o underground até o mainstream.

Só que essa vanguarda da música negra - Pós Motown e o auge da Black Music - ficou pequena para os impactos que essa cultura teve na música. O Jazz tem muito a agradecer essa galera toda. Se não fosse por esses caras, provavelmente o Tom Misch não tocaria guitarra. 


Nesse texto, o músico será apenas um instrumento para mostrar como essa linhagem sonora se perpetuará no futuro. Talvez o mais interessante seja perceber o impacto dessa linguagem e como ela ainda perdura na aura de discos como "Geography", a estréia solo do prodigioso guitarrista inglês, lançada - via Beyond The Groove - no dia 6 de abril de 2018. 

Line Up:
Tom Misch (vocal/guitarra)
GoldLink (vocal)
De La Soul (vocal)
Poppy Ajudha (vocal)
Loyle Carner (vocal)
Polly Misch (vocal)
Abbey Smith (vocal)
Jessica Carmody Nathan (vocal)
Jaz Kariz (vocal)
Roy Hargrove (vocal sample)
Jamie Houghton (bateria)
Tobie Tripp (violino)
Johnny Woodham (trompete)
Reuben James (piano)
Paul Castelluzo (guitarra)
Rob Araujo (teclados)



Track List:
"Before Paris"
"Lost In Paris"
"South Of The River"
"Movie"
"Tick Tock"
"It Runs Through Me" - feat. De La Soul
"Isn't She Lovely" - Stevie Wonder
"Disco Yes" - feat. Poppy Ajudha
"Man Like You"
"Water Baby" - feat. Loyle Carner
"You're On My Mind"
"Cos I Love You"
"We've Come So Far"


Amigo do Alfa Mist, FKJ - vulgo French Kiwi Juice - Tom Misch está envolvido apenas com a nata da cena inglesa. Natural de Londres, o guitarrista e produtor está no corre desde 2012 e chama atenção devido ao seu versátil talento e abordagem multidisciplinar.

Depois do play, Misch promove uma sinuosa mistura entre Jazz, Funk e os climas do A Tribe Called Quest, tudo batido no seu liquidificador com cérebro de beatmaker e charmosos sons de sinth na guitarra.


Quanto ao seu trabalho como beatmaker, vale ressaltar que Tom tem 2 trabalhos nesse front. Todos no formato Mixtape, "Beat Tape 1" e "Beat Tape 2" - lançados em 2014 e 2015 respectivamente - mostram de onde vêm suas referências e servem como um belo plano de fundo para entender sua lírica.

Em disco o clima é o mesmo. Detalhe para o sample do Roy Hargrove na intro de "Before Paris", inaugurando o disco com muita classe. A naturalidade para tirar ácidos licks e riffs de sua Strato chega a impressionar. A melodia de "Lost In Paris" ficará na sua mente por semanas.

Seu talento vocal é outro grande destaque do disco - principalmente em baladas como "Movie" - e a forma como ele entrega todas essas referências com um novo formato é bastante interessante. O violino do Tobie Tripp também é um detalhe que engrandece os arranjos e "South Of The River" é um exemplo disso. Não adianta, podem se passar 50 anos, mas as cordas sempre vão entregar um acabamento majestoso em qualquer gravação. A participação do violinista é muito interessante e vale ressaltar que ele também está presente nos shows.


A bateria com approach dos beats também funciona muito bem para ambientar as batidas e isso fica nítido, principalmente em temas como "Tick Tock", onde Tom trabalha com camadas de sinth. Em alguns momentos parece até Disco em função de certas timbragens.

Disco de audição leve e fácil, o guitarrista ainda convocou uma seleta roda de mestres para participar desse encontro. Tem De La Soul em "It Runs Through Me" - com uma levada ao melhor estilo brasilis - Poppy Ajudha em "Disco Yes" e Loyle Carner em "Water Baby".

É um som de sensibilidade grandiosa e que mostra como essa galera da cena atual pensa, não só como músico, mas com uma mentalidade de produtor/beatmaker na cabeça. É um trabalho muito completo e que circula em diversos estilos  livremente. Passei pelo Funk, Jazz, R&B, Hip-Hop e fala com a galera do underground ao mainstream.

Tem hora que ele chega a irritar pela aparente facilidade que desliza os braços da guitarra. Pode confiar, o inglês vai ganhar seus ouvidos com a majestosa versão de "Isn't She Lovely". Vem tranquilo que esse é tiro certo. O Stevie Wonder deve ter ficado orgulhoso.

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O trompete contemporâneo do Maurice Brown

O Jazz vive um grande momento, tanto no cenário mainstream, quanto no underground. E o interessante é que é possível observar que o som da nova cena caminha para 2 lados nessa nova renascença.

Se por um lado você tem - principalmente a cena de UK - com diversos grupos explorando o que existe de mais moderno no amplo espectro Jazzístico, pra contrapor esse ponto, tem uma série de instrumentistas americanos que apesar de também estarem na linha de frente do movimento, estão groovando com os olhos no futuro, mas com as raízes bem fincadas no Hip-Hop.


É claro que a produção do Jazz não fica à cargo apenas dessa galera. Tem muita gente desafiando a escola de Miles Davis, também na europa. Tem Jazz rolando em diversas partes do globo e o som pulsa até em Israel, terra do baixista Avishai Cohen.

E apesar de parecer até um pouco clichê - em função das diversas novas fórmulas Jazzísticas que vão da música eletrônica até o Rock Progressivo - o Hip-Hop está dando o que falar. Esqueça o Robert Glasper, Karriem Riggins, Thundercat e toda essa galera.

O trabalho dos músicos citados acima é de fato primoroso. Uma espécie de elo perdido entre o Jazz e o Hip-Hop, uma cultura que é muito desrespeitada frente ao academicismo que nomes como Wynton Marsalis pregam. Mas nos últimos anos essa fusão atingiu novos pontos de transgressão e resultou em sonoridades tão ímpares quanto a do Alfa Mist e do Maurice Brown, por exemplo.


Maurice "Mobetta" Brown que o diga. A cozinha que guia o seu trompete é completamente pautada no Jazz, mas a abordagem que consegue agregar tanto frescor ao timbre de seu trompete é o grande segredo por trás de seu sucesso.

Um dos maiores músicos de sua geração, o negrão nem chegou nos 40 ainda e já coleciona colaborações ao lado de nomes como Tedeschi Trucks Band, The Roots, Aretha Franklin e mais recentemente - no Coachella 2019 - Anderson .Paak & The Free Nationals.

Em carreira solo sua discografia é mais compacta. São apenas 3 discos. Primeiro veio o debutante "Hip to Bop" (2004), depois foi a vez do "The Cycle Of Love" (2010), mas foi com "The Mood", lançado em 2017, que o seu inventivo som conquistou os ouvidos do grande público.

Line Up:
Maurice Brown (vocal/trompete)
Kris Bowers (piano/teclados)
Solomon Dorsey (baixo)
Joe Blaxx (bateria)
Josh Connolly (guitarra)
Chelsea Baratz (saxofone/vocal)
Derek Douet (saxofone)
Weedie Braimah (percussão)
Saunders Sermons (trombone)
Talib Kweli (vocal)
Chris Turner (vocal)
J. Ivy (vocal)



Track List:
"The Mood"
"On My Way Home"
"Intimate Transitions (Jardin Le Sonn)"
"Stand Up (feat. Talib Kweli)"
"Moroccan Dancehall"
"Shenanigans"
"Capricorn Rising"
"Journey Exotique"
"Serendipity"
"Destination Hope (feat. Chris Turner & J. Ivy"


"The Mood", terceiro trabalho de estúdio do americano, foi lançado - via Ropeadope Records - no dia 24 de março de 2017 e cumpre a difícil tarefa de sintetizar sua abordagem. Com o Bebop na linha de frente, Maurice une o Jazz a uma visão de timbres que muito se assemelha ao minucioso trabalho de  um beatmaker.

Produtor, compositor e arranjador de mão cheia, o dono de um Grammy conta com um estilo econômico, mas que impressiona pelo rico blend de Blues, Soul e Funk. São linhas de grande eloquência e capacidade melódica que chegam a confundir o ouvinte em função da maneira como ele subverteu o Hip-Hop no meio do Bebop.


Logo na faixa título dá pra sacar isso. Os tempos espaçados na bateria, a guitarra, teclas e sax fazendo as texturas... É um sopro de ar fresco inebriante e o timbre do Maurice é de fato peculiar. Parece oldschool, mas nesse contexto chega até a confundir. "On My Way Home" é uma faixa que mostra o motivo dessas dúvidas.

Parece que o trompete virou um veludo e na hora dos improvisos o Dizzy Gillespie ficaria orgulhoso. É um trabalho muito leve, a sonoridade é muito descolada e os músicos que o acompanham fazem um trabalho primoroso.

As teclas de Kris Bowers são um dos grandes segredos desse disco. Em "Intimate Transitions" o marfim malhado surge com grande sensibilidade, já ambientando o Cool Jazz com um riff sutil, mas mortal. É um trabalho quase todo instrumental, salvo a colaboração de Talib Kweli para as vozes do single "Stand Up" e a não menos importante presença de Chris Turner e Ivy J, fazendo a poesia falada de "Destination Hope".


São temas longos, mas que em nenhum momento se tornam cansativos. Em "Moroccan Dancehall", por exemplo, o músico mostra influências que remetem ao trabalho do Shabaka Hutchings. Aquele sax com pegada de música africana, com fortes marcações. A dupla que ele fez com o sax da Chelsea Baratz merece uma menção honrosa... Em "Shenanigans", o som do naipe é tão forte - como num mantra - que beira o Afrobeat.

É até engraçado como as faixas acabam ficando na cabeça do ouvinte, tudo com a mesma naturalidade com que elas tomam conta dos falantes. Com abafador ou sem abafador, o som vem no seco, sem cuspe e sem massagem, apresentando desde intrincados andamentos - como acontece em "Shenanigans" - mas é com sensibilidade, classe e sutileza de temas como "Capricorn Rising", por exemplo, que esse disco conquista o ouvinte.


O maior trunfo do Maurice Brown nem é a fusão que ele promoveu, mas sim a forma como tudo isso foi feito. A estética leve e de grande lirismo abre espaço para uma instrumentação mais arrojada e que brinca com o tempo como se ele fosse apenas um detalhe. 

Dessa forma, Maurice consegue um instrumental sólido e que ganha vida própria graças a improvisação... Daí pra frente o seu trompete fica brincando de esconde-esconde e no fim do disco - mesmo após temas belíssimos como "Journey Exotique" e "Serendipity" - parece ainda fica uma dúvida no ar... É Hip-Bop? Hip-Hop? É essa dúvida cruel que chamamos de Jazz contemporâneo ou Jazz moderno. É esse apreço pelo novo que a crítica chama de Maurice Brown.

Um dos melhores sons de trompete da cena. É cremoso demais pra deixar passar batido. Fiquem atentos com os novos expoentes da música negra.

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