Criolo: O Bombeiro da Babilônia - Studio Verona dia 13/12/14

Muitas pessoas gostariam de fugir da realidade. Muitos de nós, seres humanos, almejamos um revólver de escape para pregar o sumiço deste verdadeiro empório de exagero, que impera nossos batimentos em todos os campos da vida, nessa sociedade pós moderna. 

Não é por medo, é por falta de opção. Muitos afirmam que quem busca algo que vai além destes valores que nos são impostos, está apenas arrumando uma desculpa, está mascarando sua falta de capacidade de vencer, está assinando seu óbito de fraqueza. Mas isso não ocorre por medo e sim por falta de espaço. Sabendo que eu e você habitamos um todo com 7 bilhões de vidas e que, muitas delas pisam umas nas outras só para ter uma falsa sensação de ascenção, uma espécie de endorfina social que para ser concretizada precisa esmagar crânios, ideias e mentes.

Este que vos resenha realmente não recrimina quem foge, até porque também possuo ideais libertários neste sentido, só que como já disse na resenha do disco, quem convocou seu respectivo Buda, viu que, (se) a selva de pedra está em chamas, é só chamar o Criolo que ele apaga! Só que isso foi em estúdio e ao vivo o bombeiro da Babilônia chega armado de axé e ímãs de geladeira com Sartre e Nietzsche.



Quem esteve presente no Studio Verona viu algo que vai muito, mas muito além de uma performance de um músico que se encontra em seu apogeu artístico. Costumo dizer que quem vai a um show do Criolo assina o cartão de embarque para uma pregação, até por que acredito que ele não canta, ele vai além, ele prega, e ah se todo testemunho de Jeová fosse assim...

A missa no terreiro do Rap começou bem próximo da meia noite e só acabou quando estávamos nos aproximando das três horas da manhã. Cheguei em casa as quatro e minha mãe me perguntou: Filho, que cheiro é esse? Minha réplica foi simples: Realidade mãe, fui ver o Criolo mais uma vez, desta vez sozinho, sem a presença do Milton Nascimento, como quando fui com você.


Quem vai de mente aberta presenciar um show deste grande exemplar de filho de Cearense, não vai só uma vez, vai duas, três, quatro... A energia doce que alicia nossas crianças é absurda, ele dá valor para cada um que vai aos seus shows, só que o discurso não é piegas igual os gringos fazem só no ''I Love This Crowd'', aqui não violão, aqui a parada surge da combustão de energia interna.

Ele agradece a dá um valor realmente alto para a molecada que está fazendo o corre e que investe para ter esse momento fora da realidade. Ele te leva para a Babilônia com banda e tudo, com direito a carona na escada do corpo de bombeiros e ainda deixa você tocar a sirene. A música, a poesia desse cidadão, é para ser cantada com a mão no peito em pura sinergia utópica pé de breque, afinal de contas ele valoriza o encontro, e quem vai, retribui cantando seus hinos.

E é por amor a esta pátria que nós nos direcionamos ao local mais próximo para ver o que o messias possui para nós, como diria o grande saxofonista Pharoa Sanders: ''The Creator Has A Master Plan'' e quem esteve presente nos shows no Sesc, no Rio de Janeiro, Minas Gerais, tanto faz o pico, ou tanto fez... Quem foi queria saber qual seria sua missão.

E o que move este coletivo são as frases entre as faixas, o momento liberto da poesia do calor do momento (seja aplaudindo a hipocrisia corrupta do nosso País), ou agradecendo a presença de seus pais, afinal de contas Rap também é família, e toda missa da santa Criolescência é sempre mais um exemplo de evento familiar. Ele se sente protegido por quem comunga suas letras e quem canta exala pertencimento.



Seu novo disco foi tocado praticamente na íntegra, tiramos o nó da orelha e ainda revisitamos o submundo particular do seu debutante, o também muito competente ''Ainda Há Tempo'', lançado em 2006. Mais do que um show de lançamento, colocando em voga seu disco mais recente, todo e qualquer evento com o Criolo no meio, vai além de um show, é uma celebração, ele transcende o Rap, ele faz música de uma forma livre e traça distâncias tal qual Macunaíma: Vai de um estado ao outro com dois passos, é capaz de citar Sabota e vinho francês na mesma frase.

Passar pelo Grajaú e ainda fechar rolê com Neto (representante do Síntese), fora os costumeiros comparsas, Dj Dandan, Daniel Ganjaman e as surpresas que um show deste patamar de energia positiva sempre emanam quando o beat é solto.


A qualidade instrumental é de cair o queixo, tem banda de Jazz Funk que não tem um groove desse nível! E foi realmente fantástico ver que TUDO que se escuta no disco é completamente tocado pela banda de apoio do mestre de cerimônias. O guitarrista Guilherme Held acabou com o show, ele e sua Gibson ES-335 (de 1964) criaram cada textura e repetiram certos solos do disco e outros trechos, que inclusive me espantaram por serem de fato possíveis de serem extraídos de uma guitarra! E o time de metais que fechou com o quatro cordas do Marcelo Cabral também não é brinquedo não!

E digo mais, em matéria de show de luzes, qualidade de som e nível de fumaça, creio que não existam muitos eventos comparáveis com esse aqui. Hoje em dia ver um gig desse cara é um dos melhores eventos que o senhor pode assistir em solo canário. Impressiona pelo ecletismo, (teve até Bob Marley depois que o Neto arrepiou a nave celestial com ''Plano De Voo'' e fez a boa com ''Não Mais Problemas'', o clamor de ''No More Trouble''), fora a reencarnação de um Criolo Doido quando subiu o sangue e o volume da clássica ''Demorô''.


Teve chapoletada à lá Raiden do Mortal Kombat, relembrando o show no Lollapalooza, fatality a torto e a direito, canhoto e ambidestro, isso sem se esquecer de um cavaco que fechou a roda com ''Fermento Pra Massa'' e dificultou a ação dentro da missão do tradicional passeio da lagartixa. Só que não foi só isso, quem pensou que a sessão coquetel molotov estava no fim se enganou, afinal de contas o Criolo ainda ligou para o Lázaro Ramos e finalizou a baga do maior bioma do Rap nacional chamando os maiores representantes do gênero: Rael e Black Alien, o Babylon By Gus, pra um medley absurdo comprovando a força do nosso Rap com ''Pra Que Cerol'' e ''Tô Pra Vê''.

É bom sair de um show e se lembrar de sua origem, poucas vezes tive esse sentimento à lá Policarpo Quaresma, de puro e doentio nacionalismo, mas depois do show cheguei em casa com orgulho de ser made in Brazil, mesmo morando em um País cheio de Status Quo com sucrilhos no prato... Ainda bem que tem muito maloca com saber empírico pra salvar. Grande show, grande Criolo!

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Estilhaços de entrevista, Wah-Wah's de Magical Dirt e relatos de puro flashback auditivo

Quando a segunda tour brasuca do Radio Moscow foi anunciada em nosso país (a segunda em menos de três meses), fiz o que qualquer um faria, resolvi repetir a dose, ou melhor, repetir o estouro epiléticamente Blueseiro de ''Magical Dirt'', uma das pérolas lançadas este ano. Só que a logística foi tão homogênea que rolou até uma troca de verbos com Parker Griggs e cia, fora a costumeira resenha de mais um noite épica com um Drink no inferno, Inferno Club.

O que nos resta agora é iniciar a trinca de atos que essas linhas visam elencar, primeiro com o ponto ''Magical Dirt'' (com a resenha do disco), a entrevista com o trio e as memórias de uma noite realmente caótica, uma alquimia dissertativa plenamente inspirada no mestre Frank Zappa e os atos I, II e III do fantástico Joe's Garage.


O quinto disco dos americanos apresenta uma receita simples, porém elementar. Mais uma vez plenamente baseado nos estudos clássicos de mestres da física quântica dos anos sessenta e setenta, como Grand Funk Railroad, Cream e outros estudiosos com puro e complexo embasamento teórico, o ataque soviético de ''Aces High'' do Radio Moscow não se apresenta em atos tal qual este texto, ele é puramente kamikase e o vigor de seu tiroteio hardeiro é o que dá o gás para que minhas ideias fluam desta forma exacerbadamente rápida, tal qual um tiro.

O que esse trio apresenta é uma coisa simples teoricamente, mas que só grandes bandas possuem: pegada. Alguns combos fazem um show meia bomba, o Radio não, quando o trio sobe no palco percebe-se o grau de concentração devasso que a banda se insere, parece um culto budista, só que neste caso substitua os budas por velhos e moleques surdos fedendo cerveja e substâncias torráveis.

Line Up:
Anthony Meier (baixo)
Paul Marrone (bateria)
Parker Griggs (guitarra/vocal)



Track List:
''So Alone''
''Rancho Tehama Airport''
''Death Of A Queen''
''Sweet Lil Thing''
''These Days''
''Bridges''
''Gypsy Fast Woman''
''Got The Time''
''Before It Burns''
''Stinging''


A essência não só deste disco, mas da gênesis dessa banda é dialogar com todos os públicos. Ela conversa com o fã aposentado do Grand Funk e faz o moleque pentelho que idolatra o Cream chapar o côco de fone de ouvido e, o melhor, nota-se que a referência é antiga, é datada da máquina do tempo, mas além de fazer o ouvinte pesquisar, nutre o apreço pelo novo, pelo que está surgindo e se consolidando em sua PRÓPRIA época.

Esse ataque soviético, essa ode ao Comunismo e todo o peso que acompanha a caravana, trabalha com Blues-Rock e etc e tal, porém o mais importante é o material palpável. O senhor Parker Griggs trabalha com memórias, cria momentos que ficarão eternizados em nossa mente e é a prova concreta de que existe sim boa música e que ela vai aos poucos, sendo perpetuada no tempo. Riffs de cadeira elétrica.

Porrada que começa com ''So Alone'', peso que fecha o rolê com o feeling e cria ''Rancho Tehama Airport'', guitarra que exorciza o som cru de garagem eletrocutando cordas com ''Death Of A Queen'' e um som que apoia a revolução do engajamento musical. Cerca de 40 minutos de perda de neurônios em prol da fritação. Seja segurando a onda com um Blues mais raiz no estilo de ''Sweet Lil Thing ou voltando ao costumeiro caos de ''These Days''. o apogeu da Jam faiscante e suas companheiras.

A ponte de ''Bridges'', a radiação de ''Gypsy Fast Woman'' e toda a plenitude explosiva de um cometa que passa no Brasil de dois em dois meses exalando ''Got The Time'', ''Before It Burns'' e todo o néctar analógico de ''Stinging''.

E ter a oportunidade de entender melhor a atmosfera que o trio cria no palco, em todas suas camadas e nuances de barulho foi muito interessante, deu até mais profundidade para o show que presenciei, pertencimento em prol do Rock 'N' Roll. Hora da entrevista de emprego.

1) O som de vocês tem muita daquela atmosfera de disco ao vivo, mas é claro que ao vivo a coisa é ainda mais orgânica. Depois de 5 discos de estúdio vocês pensam em registrar um live, ou até mesmo um DVD? Conteúdo é o que não falta!


Parker: Obrigado, Guilherme! Nós sempre tentamos deixar o nosso som o mais orgânico possível e acredito que esse último álbum, ''Magical Dirt'', foi o mais perto dessa atmosfera ao vivo que conseguimos chegar até o momento com uma gravação de estúdio. Ao contrário do que ocorreu nos discos anteriores, com ''Magical Dirt'' a banda gravou como faziam nos anos 60 e 70, apenas fizemos dubs de vocais e algumas partes de guitarra posteriormente, mas a essência instrumental do disco foi captada com a banda tocando junta na sala de gravação e toda a mixagem e masterização foi feita em rolos e rolos de fita, de forma totalmente analógica.

Anthony: É claro que adoraríamos lançar um material ao vivo, sobretudo com vídeo em alta definição, até mesmo em DVD. Infelizmente não temos nada planejado nesse sentido, mas quem sabe o que pode surgir daqui pra frente?

2) Como vocês lidam com o fato de possuirem fãs de classic Rock mas ao mesmo tempo saberem que existe todo um novo público esperando por algo mais moderno, mesmo com o DNA clássico?


Parker: Nós somos aficionados pelo Heavy Psych sessentista e setentista, mas como crescemos nos anos 90 e 00 não podemos negar que há uma certa (e pequena) influência moderna no nosso som, um pouco subconsciente eu diria. Sobre o público, vemos esse com bons olhos, pois temos possibilidade de cultivar tanto uma base de fãs mais puristas como nós, como também curiosamente muitos fãs de Metal e outros gêneros posteriores. Amamos tocar para qualquer público que frite ouvindo nosso som!

3) Os brasileiros gostam muito dessa linha de som que vocês praticam, mas só a Abraxas que possui essa grade diferenciada, vocês sabem se mais alguma banda nessa pegada quer vir pra cá? Ouviu alguém falar alguma coisa? 


Paul: Sim nós conhecemos muitas bandas que são loucas para vir ao Brasil e algumas delas já estão até em contato com a galera da Abraxas. Nossos amigos do Samsara Blues Experiment e The Flying Eyes já conversaram com o Felipe ha bastante tempo sobre esse projeto e tenho certeza que estão planejando algo para 2015.

Parker: Algumas bandas locais da Califórnia também nos perguntaram sobre o trabalho que a Abraxas tem feito no Brasil, mas não sei se já combinaram algo com os caras. Espero que dê tudo certo e que o público brasileiro possa contar com mais shows de qualidade. Sabemos como é difícl agitar as coisas por aqui.

4) Hoje percebo que os públicos estão bem segmentados, logo, o Stoner abriga seus próprios festivais e etc, mais ainda não está do tamanho que merece. Como vocês mensuram a força desse movimento em tempos recentes (mesmo não tocando Stoner), mas fazendo parte da mesma cena?


Anthony: Apesar de não tocarmos objetivamente Stoner-Rock, a cena resgata toda essa cultura dos anos 60 e 70 e não por acaso, quando conversamos com nossos amigos de outras bandas observamos que nossas referências musicais basicamente confluem para grupos daquela época. É muito legal ver que na Europa a cena funciona praticamente de forma colaborativa, produtores de diversos países e regiões comunicando-se entre sí, ao menos um festival bom e com bandas de qualidade a cada mês e um público muito fiel que sempre comparece aos shows e não deixa a chama se apagar.

Paul: Obviamente ficamos felizes em fazer parte de tudo isso e acreditamos que com toda a positividade que emana e faz mover essa cena, a tendência é apenas melhorar.

5) O Alex Skolnick ficou famoso por tocar Trash Metal no Testament, mas fora isso ele também toca Jazz no The Alex Skolnick Trio. São dois extremos! Gostaria de saber se fora a linha Blues-Rock-Psych, vocês possuem outras aspirações.


Parker: Todos da banda gostamos de tocar outros instrumentos e temos projetos paralelos em outras bandas. Nosso baterista Paul toca em duas bandas que seguem uma linha mais Psych-Prog-Experimental, chamadas Astra e Psicomagia e também já tocou em outra banda local chamada Joy. O baixista Anthony também tem um projeto paralelo chamado Sacri Monti. Procurem pois são bandas de altíssimo nível, Fora isso estamos sempre fazendo jams em nossas casas em San Diego e onde mais houver uma bateria, um baixo e uma guitarra plugados.

6) Pelo estilo que vocês tocam o formato de Power Trio parece o melhor, mas vocês conseguem vislumbrar um quarteto, quem sabe até no estilo do Mondo Drag?


Parker: Estamos felizes sendo um Power Trio e não pretendemos mudar essa formação. Achamos que damos conta do recado.

7) Parker, toda vez que escuto você tocando, de alguma forma sempre penso no Alvin Lee, já vi em algumas entrevistas que quando o assunto é influência o nome que mais cita é o do Peter Green, mas o Alvin foi um cara que acabou lhe influenciado também?


Parker: Com certeza! Além dos clássicos guitarristas, também tenho muita influência das bandas mais obscuras do anos 60 e 70.

8) O processo de composição de vocês parece completamente baseado em jams, é assim mesmo ou vocês acabam sentando para escrever e etc? Como é o processo para gravar um novo disco, vocês escrevem no estúdio ou chegam com tudo na cabeça?


Paul: Normalmente o Parker já vem com as músicas estruturadas e arranjadas e Anthony e eu complementamos com o toque final nas respectivas áreas de atuação. Como passamos muito tempo juntos, em tour, viajando ou em jams em São Francisco, temos uma sinergia muito boa e o processo criativo flui com facilidade.

9) O que vocês andam ouvindo recentemente? De alguma forma acabou influenciando na gravação do ''Magical Dirt?


Parker: Nós somos verdadeiros nerds musicais, colecionadores de vinis e as raridades dos anos 60 e 70 certamente são as nossas inspirações. Podemos citar nomes como Bull Angus, Relax, Mad River, Blues Creation, Band, Pentagram, Blue Cheer, Fuzzy Duck, Road, Highway Robbery, apenas para vocês entenderem um pouco do que estamos falando.

10) Gostaria de agradecer pela atenção e pelo tempo reservado para a entrevista, e para finalizar gostaria de saber o que vocês conhecem de música brasileira e se isso acabou influenciando a banda de alguma maneira. Muito sucesso nessa tour e voltem logo!


Anthony: Muito obrigado, Guilherme! Nós é que agradecemos a oportunidade. Bom, como bons nerds musicais fizemos nosso dever de casa e ouvimos ao menos um pouco do que os nossos amigos e fãs do Brasil mandam para nossa apreciação. Nosso baterista Paul é um sedento colecionador de vinis e já conhecia bandas como Módulo 1000 e Ave Sangria. Conhecemos agora o som de Lula Cortes e fomos apresentados pela galera da Abraxas a algumas bandas brasileiras muito boas como Anjo Gabriel, Necro, The Galo Power, Muddy Brothers, Mar de Marte, Quarto Astral e Fuzzly (essas duas últimas com quem tocamos em outubro). Também estamos curiosos para ouvir as bandas com as quais tocaremos nessa próxima viagem, ouvimos falar muito bem de nomes como Muñoz, Rinoceronte e Quarto Ácido.


Entender o que é de fato o terremeto rifferamático de ''Magical Dirt'' foi elementar para poder conhecer os protagonistas via perguntas e respostas e, agora, já plenamente vacinado, falar de mais uma noite com os caras no palco. Só que não é só de Radio Moscow que se alimenta um Abraxas Fest, a noite do dia 12 começou torrencial e ao som dos locais do Grindhouse Hotel.


Houve um delay estratégico até por que a chuva foi tanta que o trânsito foi quase um complemento da zona que essa cidade fica quando chove, por isso os trabalhos começaram as 20:00 horas. O Grindhouse Hotel é mais uma banda de Stoner que está em puro processo de crescimento e mais uma vez comprova o papel da Abraxas dentro dessa cena. Em todas as tours poucas atrações se repetem, o leque dos caras é variado e isso nos mostra que estamos plenemente abastecidos de barulho, foi uma hora bem arrastado, no estilo perigrinação de peso.

O trio foi seco no EP ''Chosen One'' e a patada foi denso como é do feitio do quarteto. A levada do baixo ia dando uma desfibrilada na jam, a batera dava um delay estratégico entre ecos e pratadas, sempre esperando pra selar a ideia com a guitarra unindo o peso. Um show fino igual um viking bêbado, pura maciez com pílulas vermelhas pra dar barato.

Logo depois sem muita enrolação era hora de ver outro trio, uma verdadeira overdose da formação clássica do Rock 'N' Roll e saindo um pouco da aresta mais fixa do Stoner, os capixabas do Muddy Brothers, claros descendentes da dinastia negra de Muddy Waters, abriram a cozinha tramontina apresentando o som calcado no Blues raiz e no interessante trabalho de guitarras que Will Just elenca para fazer o Blues ter groove e a acidez correta dentro do Ph da hardeira.

Foi bem legal ver o Muddy em São Paulo, a banda cresce a cada dia e depois de ''Handmade'' (lançado em 2013), os caras mostram que o trabalho segue a todo vapor e ainda fritando com temas do já mencionado full lengh, os membros destilaram um pouco do som mais ousado do EP ''Seasick'', uma cozinha mais experimental e com uma pegada ainda mais solta com pinta de live.


O Delta Blues foi muito bem descarrilado, a banda se perdia em jams muito longas, muito bem arquitetadas e exploradas e o tato de cada membro com a parte técnica das faixas é bem alto, a banda é muito coesa e se mostrava muito concentrada em tocar cada nota exatamente como nós escutamos nos discos e o fez sem rodeios, um tema atrás do outro, exalando fluência e domínio de repertório, sempre com o vocal do João Lucas guiando a fritação e arrebentando com uma ótima voz.

Fora que como se não fosse suficiente eles ainda resolveram encerrar o show com dois covers num medley muito bem trampado e surpreendente, primeiro com King Crimson e a odisséia do Prog épico de ''21st Century Schizoid Man'' e depois um chá de memória regado a muito Blue Cheer e ''Summertime Blues''. Minha única ''queixa'' foi a falta da gaita por parte do reverendo João, por que de resto foi um baita show.


Mas ainda faltava o néctar do puro creme do som setentista, a apoteótica volta do Radio Moscow, para um palco que na primeira visita parecia uma miragem. Foram quase duas horas de quebra-quebra e, o que fica, além de me sentir um claro privilegiado por ter visto outro show fantástico, foi o ''amadurecimento'' que essa segundo tour trouxe tanto para mim, tanto para os presentes.

Parece viagem mas no primeiro show da tour a impressão que tive foi que todo o Inferno Club estava petrificado com o barulho e a forma como o Radio Moscow se apresenta também não ajudou a quebrar essa densa empatia, era sempre uma faixa atrás da outra, um solo mais chapante que o outro fora um elo de entrosamento absurdo, que no dia 12 atingiu um grau que honestamente, achei que só existia na minha cabeça de fã.


Acho que com duas belas tours nacionais no currículum o trio se acostumou com a energia insana que o pessoal da América do Sul carregada para os eventos. De fato, parece que cada show que vamos vai ser o último, por isso o exagero em cada celebração e acho que quando tivemos o primeiro contato com essa hecatombe Psych foi muito mais pela emoção do que pela razão, o show foi fantástico, mas o último foi bem melhor.

Durante mais de duas horas o que se viu e ouviu foi o puro som da época do Austin Powers com uma pitada mais atual e absolutamente contundente e voraz. A banda era uma só, o entrosamento beirou o ridículo. Em vários momentos olhava para Anthony e ele tocava olhando para cima, para o lado, para o chão... A tranquilidade era tanta que parecia que ele estava tocando no conforto do sofá da sala de sua casa, beirava o desleixo, mas o cara não saia do tom, as cordas entortavam a todo o momento e ele não olhava para ninguém, estava em sua própria viagem.


Olhei para o Parker e foi a mesma coisa. Pra não falar que ele não olhou para o lado nem uma vez, uma hora uma das cordas de sua Fender foi para o espaço e ele sinalizou para o Anthony segurar no groove até que ele arrumasse e foi aí que os presentes viram que se trata de um ser humano, mas declaro que ainda não estou plenamente convencido.

Ele subia e descia a escala, acelerava sem efeitos, fazia uma imersão de pedais que atrasava até a passagem do tempo... Era uma radiação Chernobyl que se expandiu para todos os corners da casa e foi se elevando até parecer que a coisa ia pelos ares, mas aí a corda do reverendo quebrou e aí a panela de pressão deu um relax.

Não tinha intervalo pra falar com a platéria, trocar de guitarra, era uma faixa atrás da outra e ver o grau de eloquência que os caras possuem foi devastador, era uma jam engatilhada na outra e a peteca não caiu, se eu acendesse um fósforo estaria soterrado nos escombros até agora! Foi uma sinergia absurda, dava pra converter em energia eólica.

Nunca vi uma performance onde os músicos ficassem sem ao menos se encarar durante tanto tempo, mas o mais assustador não era nem o Parker ficar solando ou arrebentando nos vocais ao mesmo, nem mesmo o nível de timing que o senhor Meier possui, a força motriz do Radio Moscow estava no fundo do palco. Ouso dizer que o baterista Paul Marrone nem mexeu a cabeça, tudo que se viu eram seus braços em pura explosão enquanto as madeixas ficavam pendendo para o lado positivo da gravidade e ele inaugurava uma fábrica de reboque na cozinha da banda, praticamente um filhote de Corky Laing. 

Muito mais intenso que no disco, muito mais surreal que solos no Youtube... Se você já descabela a escutando as gravações, meu amigo, mal sabes o que perdeu ao vivo e se foi na primeira tour e não foi nessa, rapaz, pensa numa banda que evolui a passo de gigante, um completo absurdo! Um brinde ao comunismo, fé no Gorbachev que ele é justo... Estou ouvindo o eco da guitarra do cidadão Griggs até agora, mentes zunindo e cérebros derretendo à rodo, no próximo show vou levar um balde.


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Paul McCartney Out There - 25/11/2014

Acordei as 10 horas da manhã. Cansado pacas diga-se de passagem. Ontem foi um dia bem corrido, acordei cedo, estudei para uma prova de Planejamento de Marketing, mas no fim das contas nem estudei. Cheguei na faculdade e fiquei só esperando as benditas 20:00 horas no relógio, por que as 21:00 precisava estar em outro lugar, e chovia... Ah como chovia.

Acho que nunca acabei uma prova tão rápido na vida. Fiz a mesma normalmente, mas sabia que teria que ser especialmente rápido, afinal de contas as nove horas da noite teria um encontro marcado com Paul Sir McCartney, e como não é sempre que isso acontece, jamé poderia me dar ao direito de chegar atrasado.

Dito e feito, acabei a prova em 20 minutos, sai correndo até o metrô na estação República e daí pra frente segui, (correndo) até a Barra Funda, sem antes correr novamente até a Allianz Parque, a popularmente conhecida ''Arena Ananias'', o estádio do Palmeiras, palco de minha reunião com o senhor Paulo. Afinal de contas tomar um chá era preciso para esquentar a mente na garoa de sampa.


Cheguei no estádio pingando, e ao me direcionar ao portão ''A'' percebi que já eram nove horas. Fiquei tenso pois estava em uma das maiores filas da história, e enquanto era parte daquele emaranhado fazendo cosplay de 25 de março, pensei que Paul tomaria chá sem mim.

Sei que as 21:20 estava dentro do estádio. Platéria superior, mais especificamente sentado em um degrau de escada, tirei meu chá da garrafa térmica, e brindei quando as 21:45 vi o próprio (''MacCa'') concluindo sua xícara de Twinings e pegando seu icônico Hofner.


E daí pra frente é história. Aliás você, cidadão que esteve presente no show de ontem, (ou que estará presente no show de hoje), tenha em mente que um show do Paul não serve só para sair nas redes sociais, serve para decidir uma vaga de emprego em uma grande empresa, rende décadas de histórias e simplesmente zera sua contagem de shows, afinal de contas quem consegue ver o Sir não precisa ver mais show nenhum na vida.

Ontem os mais de 45.000 presentes virama grandeza de um gênio. É bem clichê pegar um músico mais velhaco e dizer que ''Ele está com fôlego de menino''. Mas vejam o exemplar da Beatlemania, são 72 de idade e ontem ele pulou por 2 horas e 40 minutos. Meu avô tem a mesma idade que o mestre, e só de ir no mercado na esquina de casa o outro velhaco já sente o baque.

O Palmeiras anda tão bem das pernas que o show do Britânico foi uma das poucas alegrias que a torcida teve neste ano, inclusive a canção mais pedida foi ''Help'', só que Paul resolveu mudar e abriu os trabalhos, de forma elétrica, ao som de ''Eight Days A Week''.

Foi um show fantástico. Em vários momentos simplesmente parei de olhar para frente e fiquei admirando a reação das pessoas. Vários pais com seus filhos, outros na casa dos 70 tal qual o músico em ação... Foi uma energia absurda, e me senti especialmente feliz por fazer parte daquilo. E Paul uniu sua vasta gama de fãs dando uma bela geral por sua carreira.


Ouvimos sons de seu último disco de estúdio, (''New'' lançado em 2013) Wings (''Band On The Run'') e claro, Beatles, com temas da fase psicodélica e da Beatlemani ao som de ''Obladi Oblada'', fora uma versão instrumental de ''Foxy Lady'' em tenra homenagem ao mestre Hendrix.

Paul é imparável, é absurdo como o cara gosta do que faz, foram quase três horas de show e ele ia pra guitarra, pegava o baixo, corria para o piano, fazia vocal e ainda tirava onda de Ukelelê, ala George Harrison. Em diersos momentos sua banda nem precisava acompanhar... É normal ver um show e em certos momentos notar que o músico principal está fazendo os vocais e outro instrumento sozinho, sem apoio, mas igual esse cara eu nunca vi.

Ele simplesmente possui luz própria, um magnetismo que é inexplicável, e caso o senhor duvide, tente segurar um estádio lotado mandando ''Let It Be'' na viola, ou ''Something'' no Ukelelê. Fora que como se não bastasse o cara ainda ganha a multidão pela simpátia, citou a ''mulecada'', chamou os corinthianos em território inimigo falando ''Que é nóis''... Colocou 45 mil pessoas no bolso com a naturalidade de quem canta no chuveiro.

Seja yesterday, today ou até mesmo tomorrow, vai ser difícil ver um cara com esse arsenal de qualidades, fora além de sua genialidade sua banda (também) quebrou tudo. O baterista era um monstro, o kit balançava tanto que era visível pelo telão. Temos que fazer uma campanha pra naturalizar o cidadão, o ''menino'' vem tanto que até já fala nossa língua melhor do que muito nativo! Grande show, e Paul, não se esqueça: È nóis sempre, e fique frio, se eu pegar DP na faculdade foi por uma boa causa!

Set List:
''Eight Days A Week''
''Save Us''
''Foxy Lady''
''All My Loving''
''Listen To What The Man Said''
''Let Me Roll It''
''Paperback Writer''
''My Valentine''
''1985''
''The Long And Winding Road''
''Maybe, I'm Amazed''
''I've Just Seen A Face''
''We Can Work It Out''
''Another Day''
''And I Love Her''
''Blackbird''
''Here Today''
''New''
''Queenie Eye''
''Lady Madonna''
''All Together Now''
''Lovely Rita''
''Everybody Out There''
''Eleanor Rigby''
''For The Benefit Of Mr. Kite''
''Something''
''Obladi Oblada''
''Band On The Run''
''Back In The USSR''
''Let It Be''
''Live And Let Die''
''Hey Jude''
''Day Tripper'' - Bis
''Hi Hi Hi'' - Bis
''I Saw Her Standing There'' - Bis
''Yesterday'' - Bis
''Helter Skelter'' - Bis
''Golden Slumbers'' - Bis
''Carry That Weight'' - Bis
''The End'' - Bis



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Esperanza Spalding - Parque do Ibirapuera 23/11/2014

Nunca me senti incomodado em um show de graça, mas vejam só, para tudo existe uma primeira vez. Ontem fui ao Auditório do parque do Ibirapuera pronto para ver a grande Esperanza Spalding em ação. Cheguei exatamente no horário do evento, britanicamente as 18:00. Me sentei no gramado e daí pra frente o Jazz foi o que ''esteve tendo'', até mais ou menos nove horas da noite.

Teve uma garoinha, vento, chuva forte, mas não teve como, podia chover até mão francesa que de lá eu não sairia, afinal de contas estamos falando de Esperanza Spalding. Só que antes do groove da america o Jazz já estava comendo solto e quem esteve no comando da jam até mais ou menos as sete da noite foram dois brasileiros: Chico Pinheiro e Lourenço Rebetez.

Foi muito legal ver que o parque estava lotado. São momentos como esse que me fazem ter fé na humanidade. Com tanta merda tocando no rádio achei sinceramente que o show estaria meio vazio, mas ainda bem que estava errado, desde a hora que Chico começou a tocar, que o gramado do parque já estava muito bem preenchido. Depois o Rebetez pegou a guitarra e aí o pessoal sentiu o feeling de semi acústica.


Se o Jazz tivesse chegado ao fim só com a apresentação destes dois renomados músicos locais o pessoal poderia se retirar feliz da vida, mas não, ainda tinha ela, a musa do Black Power, a minha Esperanza por dias melhores na música, o baixo apaixonante e quase que made in Brazil da senhorita Spalding.

A mulher dos meus sonhos entrou no palco pouco depois das sete e com toda sua banda no palco, (incluindo metais), ela tocou por duas horas, duas longas e lindas horas... Saí de lá até meio envergonhado por não ter pago nada para presenciar tal performance.

Ver essa cidadã ao vivo foi fantástico. Primeiro que além dela falar português com a plateia e se fazer entender perante todo o público, a baixista ainda o fazia com excelentíssima boa vontade, solava o baixão subindo e descendo a escala, dava longos rolês pelo palco e se mostrava muito feliz por estar presente em um lugar que, mesmo com chuva, abraçou seu som ao ar livre e estava lotado de pessoas que realmente apreciam seu trabalho.

Fora os milhares de elogios plenamente obrigatórios que tenho que tecer para com essa musa do jazz contemporâneo, é realmente importante citar o papel do Ibirapuera nisso tudo. Primeiro por que além de trazer uma artísta deste nível eles ainda montaram um show de graça com qualidade de luz e som de uma casa fechada.

Ver o entardecer ao som da Esperanza... Ver as luzes mudando a atmosfera tal qual estações do ano, ouvir ''Ponta de Areia''... Se você quer ser fã de alguém seja fã dessa mulher. Ela manja mais de música brasileira do que muito brasileiro metido a besta por aí, adora nosso país e ainda faz questão de vir todo ano, fora que se for preciso ela troca de graça. Casa comigo mulher!


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Costa do Marfim - Acts I, II & III

São Paulo segue um ritmo frenético em tudo, absolutamente tudo. Vai desde o momento que trabalhadores atrasados começam a correr no meio da rua para não chegar no escritório depois do chefe, até o ambulante que fica ligeiro prestando atenção pra ver se o rappa não apareceu.

São muitas coisas e muitas inclusive ao mesmo tempo, no mesmo dia e as vezes até na mesma hora. Assim tem sido o calendário de shows da terra da garoa. Aliás está na hora de mudar esse apelido, últimamente não bate nem vento nessas bandas, mas enfim.

Enquanto a loucura cotidiana toma ares cada vez mais épicos, muitas bandas seguem em Tour pelo país, sejam elas nacionais ou internacionais. A semana toma curso para todos e enquanto somos bombardeados por informações, vale a pena ligar o Bluetooth mental e ver o que rola de distração.


E a minha distração do mês foi a Cachorro Grande. este ano, meu mês no novembro foi arquitetado em função da tão aguardada Tour pela Costa do Marfim de São Paulo. E o que era para ser apenas um show isolado, acabou virando matéria. Três eventos grandiosos, que assim como o ''Joe's Garage'' do grande mito Frank Zappa, ídolo mor de Beto Bruno, foi dividido em três atos... Coincidência? Acho que não. 


O primeiro ato se deu no Ozzie Pub dia 14 de outubro em plena terça-feira, pocket show nervoso com direito até a ES-335 lembrando dos mestres Alvin Lee e Chuck Berry, mas foi só o aperitivo, a imprensa paulista teve o privilégio de ver isso antes de todos, mas comparar o pocket com o estrago das duas noites de Sec Pompéia é sacanagem...


Sexta-feira chegou e com ela a Choperia do bairro mais Rock 'N' Roll de São Paulo começou a trabalhar. Foi em mais uma noite de calor causticante que o quinteto apertou start para começar a tour oficialmente e banhar o fino do Rock Psicodélico com uma camada caprichada de cerveja.

Foram dois atos na grandiosa Pompéia, onde o ato dois e três foram épicamente similares. A platéia lotou na sexta e muitos não satisfeitos com o primeiro estrago, resolveram fazer a dobradinha. Juntando os dois shows tivemos cerca de quatro horas de ótima música e um set list que dialogou com os dois tipos de fã que a banda possui:

1) O fanático pela fase British Blues de sempre.
2) O novo fã de Psych.


A atenção estava claramente voltada para a execução do Costa do Marfim, mas é claro que os velhos sucessos não poderiam faltar e, com essa nova faceta, acho que reencarnar os sons old schools foi ainda mais prazeroso para a banda, a atmosfera enérgica e revitalizada do show do Ozzie Pub se manteve nessas duas grandes apresentações.

A energia central de ver um show dos Gaúchos é a mesma de sempre, Beto levou um cálice para o Ozzie, mas nas duas noites de Raul (Pompéia) teve que carregar um litrão para o palco, Azambuja teve que tocar de forma cirúrgica novamente e, em prol do swing, o quatro cordas do Rodolfo Krieger trouxe toda a densidade necessária, fora a apelativa Les Paul do Marcelo Gross e os teclados meio Jazz de Pedro Pelotas.

Foram três shows excelentes e mais um trecho do quão bom este ano está sendo para a banda, no fim do espetáculo Beto foi elementar ao dizer para a platéia: ''É por causa de vocês que nós podemos tocar Rock 'N' Roll''. Teve até Mutantes!... Sinceramente, Voltem sempre!

Cachorro Grande's Garage:


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Cachorro Grande - Ozzie Pub 14/10/2014

Um novo disco não implica apenas em uma nova sonoridade, trata-se também de um novo direcionamento criativo. Existe muito mais coisas envolvidas neste processo, mesmo se a banda em questão mantenha uma fórmula já conhecida e estabelecida dentro de seu propósito sonoro.

O fato de desenvolver um novo repertório tem muita influência do aspecto referencial, pra quem escuta o som tendo como visão o âmbito da platéia, o sentimento tem um lado e, se você inverter essa ideia, verás que a banda sente e enxerga isso de outro ângulo, são diferentes perspectivas.


Porém mais do que isso, um novo conteúdo precisa ser incorporado, um novo repertório, mesmo quando dominado criativamente, precisa ser redomesticado pela banda, agora em tour, quase como se fosse um novo dialeto. E para tal o som precisa de fluência e isso só vem com a prática desta nova faceta.

E ontem, quem estava presente no show de imprensa que patrocina a nova viagem musical do Cachorro Grande, viu como o novo idioma fluente dos caras é o Costa Marfinense, a Tour de São Paulo não poderia começar melhor. O pontapé inicial foi com um showzaço na terra natal do quinteto, que exalou ácido no Bar Opinião (dia 09/10) e que depois de colocar o Ozzie Pub em ponto de ebulição, vem preparando o woodstock de Hoffmann para as duas datas no Sesc Pompéia, sexta e sábado (dia 17 e 18) respectivamente.


Sobre o show de ontem só tenho elogios a tecer. Notei que a banda se encontra absolutamente revigorada no palco, já vi o Cachorro em outras oportunidades, mas com este repertório eles estão sem coleira. E na hora da apresentação fica claro como uma gota de LSD, que mesmo não agradando alguns (não me incluo nessa), a mudança foi válida e acima de tudo, fez bem para a banda, que no fim das contas é o mais importante.

Agora que o lado psicodélico da força aflorou, o reflexo dos espectros de luz influenciam tudo que circunda a banda. As vestimentas das fotos para o novo disco agora são peças do dia-a-dia, o show de luzes foi a maior surpresa, parecia holograma de São Francisco, bem na Bay Area nos anos 60... Nostalgia digna de Winterland, esse novo disco virou estilo de vida.


Essa sopa psicodélica deu muita caldo e, digo mais , num futuro próximo disco o ramo psych tem tudo para extender esse reinado sonoro, o Edu K precisa ser sempre citado, mais do que isso, presente, assim como ele estava ontem no Pub. Esse flashback sonoro soou maravilhosamente bem ao vivo.

Eu particularmente estava bem pilhado para ver o produto final por que no disco escuta-se muitas pirações de efeitos e trabalhar com tudo isso ao vivo é bastante complicado, algo sempre se perde, mas na primeira música, ainda na introdução do disco, deu pra notar que a banda também deu muita atenção a este fato, a qualidade de som estava soberba e os caras estavam tocando como se estivéssemos ouvindo o disco.

Dava pra cortar a densidade sonora com uma faca de rocambole. O baixo do Rodolfo Krieger é o meu principal destaque, toca muito, sola e o grave é cristalino. A banda arrebentou, o Marcelo como sempre foi muito técnico e, mostrando sua classe Britânica em prol da elegância de um estilo econômico, foi muito bem. Beto, o grande admirador  da obra Zappiana foi elementar nos vocais e sempre com um cálice nas mãos, dava prosseguimento ao culto Rock 'N' Roll, fora os teclados bem timbrados do Pedro Pelotas e a batera nunca errática do senhor Azambuja.

A energia do Pub era um repeteco clássico da invasão Britânica, a acústica estava muito boa e mesmo em forma de pocket show o cachorro triturou sua ração. E se teve algum efeito colateral nós não sabemos, as fotos do digníssimo Leonardo Marmitt mantiveram a seriedade desta nova distorção da realidade, dessa viagem sob os elefantes da verdadeira arca da Costa do Marfim.

Cheguei em casa depois de 40 minutos de fritação e quando fechei os olhos só via feixes de luz... Bom, para a banda não tem contra indicação, mas para os fãs recomendo o uso de óculos 3D. Grande momento!

Set List:
''Costa do Marfim''
''Nuvens de Fumaça''
''Eu Não Vou Mudar''
''Crispian Mills''
''Use O Assento Para Flutuar''
''Como Era Bom''
''Eu Quis Jogar''
''O Que Vai Ser''


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A Odisseia do Radio Moscow Pelas Veias Tupiniquins

Quando o Radio Moscow chegou em solo de terceiro mundo confesso que desacreditei. Não é todo dia que temos uma banda desse porte por aqui e ver como toda a tour se desenvolveu de forma grandiosa é simplesmente fantástico, é lindo viver todo esse grande momento, estado a estado, show a show, ressaca a ressaca.

Com o trio já plenamente instalado, começamos a ter um gosto dessa tour com a primeira data, afinal de contas a loucura precisava começar em algum lugar e o pico escolhido para abertura dos jogos foi o sul do pais, Porto Alegre sentiu a embutida logo de cara - 01 de outubro.


Chegando com a bomba do chimarrão como baqueta, o trio colou na grade do El Toro Pub as 20 horas e de lá não saiu até que o Abraxas Fest se desse por encerrado. Só que quem achou que a noite e toda essa tour iria ser apenas a base de bluesy Moscow, se enganou. A cada show, a cada nova cidade, a line up mudava e além de uma grande fermentação underground, nós também tivemos noites satânicas e que estimularam toda a loucura do cenário Stoner nacional, que é importante salientar, só está nesse nível (também) pelo grande trabalho feito pela Abraxas.

No frio sulista a ordem das canções de ninar demônio foi:

- Mar de Marte
- Quarto Astral
- Radio Moscow


O Mar de Marte fez o que foi pedido, comunicou toda a plateia que o uso de despositivos de segurança era necessário e depois que todos nós colocamos os capacetes o som instrumental dos caras varreu o Pub. No momento posterior em que o furacão deu um pause entrou o Quarto Astral e aí o peso sumiu, só que em seu lugar o LSD balsâmico do também trio (desta vez Pernambucano) inundou o ambiente e a letargia só saiu quando o reverendo Parker, vulgo guitarrista Griggs, apareceu no recinto.

Mais de uma hora com Mar de Marte, mais de uma hora com Quarto Astral... Muito? Quando o Radio chegou o tempo dobrou e tem gente surda até agora, faltou piteira, a escala subia, descia e no bend a pressão nos ouvidos era maior do que cabine de classe econômica despressurizada.


Depois que a Tour começou não teve tempo perdido, dia seguinte já tinha mais som e agora era hora de chegar no estado que mais se deu bem com o Radio Moscow, a bela Santa Catarina e suas datas para dois grandes shows. Primeiro o som chegou em Ibirama e lugar melhor pra isso não poderia ter, o Woodsrock fez a presa e ainda brincou com o nome do embrionário festival. O resultado foi simples de ser equacionado, também abrindo a roda as 20 horas:

Radio Moscow  + Quarto Astral +  Sabiá Preto + Six Six The Clown = casa embalada a vácuo.

Outro detalhe que precisa ser salientado é que em todos os shows o rolê foi independente. Cada maluco de cada estado que resolveu peitar essa missão e fazer a divulgação desses shows em cada CEP, fez isso sozinho. E aqui mais uma vez vemos o estímulo às bandas locais e, sinceramente, a vibe de ver um fest independente dando certo é inigualável.

Mais uma vez o Radio eletrocutou neurônios, o Quarto Astral deixou no banho maria e com o restinho que sobrou o Sabiá fez muqueca e o Six deu um teco na sobra (não necessariamente nesta ordem). Quase 5 horas de negociação e muito amônia debulhada.


Sem perder a conta de shots, passamos pela terra do Duque de Caxias, fizemos o primeiro show no estado do tenista Brasuca tricampeão de Roland Garros e agora continuamos na terra do esportista surfista para narrar os fatos do segundo show na terra santa, agora já na capital. Em suma nada mudou, tivemos mais estímulos sensoriais nacionais com o Mission Piots & The Dropkick Apollo, plus o denso instrumental do Space Chicken & The Eggs Of Disaster, que juntos tomaram outra dose do néctar de Peiote.

Porém uma vez mais o trio reinou absoluto, a pedaleira do reverendo Parker fez o pessoal sair da casa cantando o wah-wah, nem ressaltei os efeitos colateralmente auditivos por que achei que a essa altura do campeonato a sequela fosse universal, batia até eco e não era culpa da fumaça, talvez do baixo do Anthony ou da batera do Paul... Estamos averiguando, o pessoal do música ofensiva ficou mais 13 que o bar, treze.


A escopeta seguia descendo a madeira nas balas. Outro lance primordial dessa sucessão de eventos foi como tudo foi projetado. Maestria nos horários, qualidade de som, estrutura para abrigar as pessoas, tudo isso fora vários shows em lugares distantes com um itinerário praticamente Britânico, algo que em São Paulo também se manteve. Evento as 18:00 no papel e na realidade também, a casa lotou todos os espaços da Jam e quando os trabalhos foram inciado o pessoal começou a entender a grandiosidade desta noite, a atmosfera do Inferno estava nebulosa.

O Quarto Astral veio mais uma vez e aqui se faz necessário elogiar os caras, o trio do Yoga psicodélico foi pra Porto Alegre, Ibirama, veio pra cá e ainda fechou a viagem de xamã no Rio de Janeiro. E aqui (ainda em sampa), o som foi demencial, fora que ver a saída dos caras e despertar no choque térmico avassalador do Fuzzly não é pra qualquer um, Cuibá e Pernambuco representaram na tour e mais uma vez estavam compactuados com satã, eles e a Abraxas.

As 22 horas entrou o som das vias radiofônicas Russas e aí meu caro o que eu sei é que faltou imaginação... Todos nós que tanto fritamos já estávamos plenamente ''acostumados'' ao estrago do Radio Moscow, mas ao vivo é um coisa com a qual você não se prepara, é igual a morte. Teve baqueta pra plateia, Rickenbacker sem palheta diretamente na sua cara e mais som de Fender pra tirar toda e qualquer dúvida que o som deste instrumento só é ''frágil'' na mão de quem não manja. 

Foi outro show que fechou com duas horas e o dichavamento guitarristico foi frenético, poderia até citar mais detalhes só que devido ao exacerbado número de muquetas que tomei, receio que tenha perdido as lembranças no memory card. Sai do recinto querendo processar a Abraxas... Meus ouvidos estão em plena revolução de zumbidos...

Foi shangri-la, e no Rio foi a mesma coisa, talvez até pior por que a line up ainda incluia o Barizon! Viagem nostálgica de festival culminando com o mesmo estrago aqui já escrito-e-narrado nas outras sedes do caos... A praia carioca deu até um ar mais classudo para os apreciadores dessa jam, ouvi rumores de que até o Cristo Redentor aprovou essa goma no Leviano's.

A bateria final de shows foi um estilhaço de  feeling, um furacão de baquetas e grooves bailando no ar. Parker Griggs mostrou por que virou um dos grandes nomes da guitarra e ainda deixou claro que dentro do show da banda existem dois momentos:

1) Quando ele abre os olhos para fazer o vocal.
2) E quando embarca em trip mode on de olhos selados em puro frenesi de solos...


O Rock é assim, o verdadeiro, independência ou morte... Em todos os shows, mesmo com endereços diferentes, uma coisa foi padrão, a chiadeira na saída era a mesma: Abra... Xas... Abra... Xas... Abra...Xas... 

Foram cinco dias no talo, sem intervalo pra ficar grog ou de recuperação, era show atrás de show e antes do show tinha um esquenta na Jam. Os caras chegaram mostrando humildade e muito som, e retornam tranquilos sabendo que cumpriram seus respectivos deveres e finalizaram apreciando aquela soneca dos justos no carro até o triste (mas feliz), retorno para o aeroporto e depois para os States.

Até mais Radio, voltem logo e, você, gafanhoto que não viu isso ao vivo... Bom, não foi por falta de oportunidade, o Alvin Lee de Iowa saiu em forma de power trio fazendo um Moonwalk pelo mar vermelho do Blues-Rock Bíblico... Quem é seu Deus agora?

E por último mas jamais menos importante, gostaria de profetizar acá um agradecimento a todos os envolvidos em todos os shows. Muito obrigado pela atençã, o apoio dos senhores para o desenvolvimento e conclusão dessas linhas foi primordial e nada mais justo do que celebrar este trabalho relatando os fatos. Um brinde a essa Tour, tão fina e doce quanto o primeiro acorde da epopéia Fuzzlyiana.



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Queens Of The Stone Age - Espaço das Américas 25/09/14

O barulho é algo que incita o caos, baderna, desordem... Barulho... Palavrinha feia, não? Prefiro chamar de melodia, riff, solo e no apogeu disso tudo, no pico de reverberações, de show. Um show é uma instituição onde um grande número de pessoas se unem para presenciar alguma apresentação. Nesta já citada performance o grupo surge e mostra aos seus seguidores todo o arsenal de bombas de efeito moral que incitam a multidão ao corredor polonês na trincheira da pista comum.

O volume se funde com o ritmo de atividade corporal e parece ditar um novo padrão aos batimentos de todos os presentes no recinto. Enquanto o barulho não chega ao fim, todas as almas presentes são alvejadas por uma sintonia cabalística que rege uma orquestra de maneira convergente, tal qual um flashmob em um exame antidoping.

A mesma energia é sintetizada e cada um tenta absorver e exalar aquilo da forma mais livre e natural possível. Alguns seres pulam, outros cantam-gritando, certos dementes se jogam no globo da morte do bate-cabeça e uma última categoria assiste ao show de forma hipnótica. São dezenas de padrões sonoros, de avatares em experimentação chapada dentro de um ambiente mitológico.

Deveria ser uma experiência de laboratório e hoje quem estava presente no Espaço das Américas serviu de mera cobaia para o que a trupe de cientísticas atômicos do Queens Of The Stone Age gostaria de tentar criar... Como diria o Cérebro do Pinky e o Cérebro: ''Pinky hoje nós vamos fazer a mesma coisa que fazemos todas as noites, dominar o mundo''. Hoje o Josh Homme tentou novamente... Ele provavelmente não dominou o mundo todo, mas teve a plateia de São Paulo na mão.


Tirando uma abertura de show que pareceu em nada combinar com o estilo do prato-banda-principal, o menino Alain Johannes (que inclusive é associado do QOTSA), foi colocado em fogo cruzado. Em seu repertório temas de viola, mas na sua frente uma platéia sedenta por sangue e Stoner. Aquele estouro de som arenoso, que deixa o ar rarefeito e o tempo mais lento, uma enxaqueca densa e tão digerível quanto um bochecho de superbonder com caco de vidro.

E após uma hora de um som mais Blues com camadas experimentais, eis que entram, as 22:00 em ponto (de ebulição), uma das grandes bandas que eu tive o prazer de ver crescer, disco após disco, de fuzz em fuzz, de sol a sol e com um repertório só pra fã dos caras. O show de ontem foi pra quem usa a discografia da banda como travesseiro de pedra.

Em cerca de duas horas de mastodônica densidade sonora, quem esteve presente no Espaço das Américas viu um show que poderia muito bem virar DVD. Todos os seis discos do Queens foram fragmentados para essa épica apresentação. O show de luzes estava impressionante, era de deixar qualquer um vesgo, o único problema foi o calor de 177 graus Farenheit e dois telões que não foram usados em momento algum.


De resto não tem nem o que reclamar, Josh Homme foi elementar com a platéia, se mostrou de fato feliz por estar ali e fez jus a isso com um show absurdo, a banda fez cada jam que muitos fizeram cosplay de Van Gogh chegando em casa com a orelha direita (ou as duas) deformadas. Meu ouvido está zumbindo um verdadeiro coletivo de marimbondos neste exato momento e a pegada absurda desse show amoleceu todo meu esqueleto, não teve UM ser vivo neste espetáculo que saiu da casa sem levar pelo menos um empurrão bem dado...

No fim das contas é tudo com ''Nicontin, Valium, Vicodin, Marijuana, Ecstasy and Alcohol. E lembre-se, não se esqueça da: ''co-co-co-co-co-cocaine''. Quando tocou ''Mexicola'' eu quase chorei, ou foi o excesso de moléculas de ar na panela de pressão Stoner dos americanos... Instrumentação climatizando flashbacks numa tempestade de areia... Essa é a frase que resume esse evento, excelente show (quebra-quebra). Na próxima adicionem a fritadeira de ''3's & 7's'' e de welcome drink um Irish Car Bomb.  

Set List:
''You Think I Ain't Worth A Dollar, But I Feel Like A Millionaire''
''No One Knows''
''My God Is The Sun''
''Smooth Sailling''
''Monsters In The Parasol''
''I'm Designer''
''I Sat By The Ocean''
''... Like Clockwork''
''Feel Good Hit Of The Summer/Never Let Me Down Again (Depeche mode)''
''The Lost Art Of Keeping A Secret''
''If I Had A Tail''
''Little Sister''
''Fairweather Friends''
''Make It Wit Chu''
''I Appear Missing''
''Sick, Sick, Sick''
''Mexicola''
''Go With The Flow''
''The Vampyre Of Time And Memory'' - Bis
''Do It Again'' - Bis
''A Song For The Dead'' - Bis



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Hiromi The Trio Project: Sesc Pompéia - 16/08/14

A Hiromi Uehara tem quatro discos sob o nome ''Hiromi''. Outros dois com a alcunha ''Hiromi's Sonicbloom''. Três com sua mais recente viagem criativa ''The Trio Project'', fora seu disco com o Stanley Clarke Trio, o ótimo ''Jazz In The Garden'' e ''Duet'', seu registro debutante-colaborativo com nada mais nada menos que Chick Corea no piano (do selo ''Chick And Hiromi''), gravado ao vivo no Blue Note de Tókio.

São onze CD's fora 4 DVD's que já ouvi e assiti durante anos, desde que conheci sua mistura atômica de feeling e virtuose. Mas se pudesse juntar o conteúdo desses 11 CD's plus a vibração crua dos 4 DVD's creio que nem assim igualaria o que puder ver hoje com meus próprios olhos e, sim, sou fanático o suficiente para ter tudo que a japinha já fez na vida.


Hoje, dia 17/08/14, vi algo histórico, a primeira passagem da pianista em solo Brasileiro, tudo via Sesc, que mais uma vez trouxe uma atração de primeira e montou um show do jeito perfeito, com os três indicadores básicos e sem exageros:

- Lugar pequeno
- Meia luz
- Som de qualidade


Daqui uns 10 anos vou poder falar que vi a maior musicista de meu tempo, isso é claro trata-se da minha opinião, mas creio que se mais pessoas puderam conhecer seu som eu não defenderei esta sentença sozinho, o que prova mais uma vez que a música segue produzindo nomes impactantes, outra que gosto de citar é a americana Esperanza Spalding.

O único problema dos shows no Sesc é que a divulgação é bem limitada, parece que só chega nos ouvidos de quem é sócio, ou que pode dar uma passada lá toda semana para ver o quadro de apresentações, Mas desta vez fiquei sabendo à tempo e pude me dirigir até a o local de mais uma iniciativa do projeto ''Jazz Na Fábrica''.

Inicialmente não sabia de fato o que esperar, até por que é muito diferente ouvir discos ou até mesmo ver shows na tela da TV. Mas desde que meu pai me ligou falando que os ingressos estavam garantidos fiquei apenas esperando pela surpresa, algo que se confirmou em certos aspectos. A maioria do Set List foi composto de faixas de seu novo disco (''Alive'', lançado e resenhado este ano) mas as palavras se fazem poucas para descrever um show que de tão grandioso (talvez no lugar menos provável para tal), fosse o melhor da minha vida e olha que eu já vi Iron, Sabbath, Scorpions, Clapton... Mas nunca vi nada parecido com o que vi ontem, as 21:00 (pontualmente) no Sesc da unidade Pompéia.

A qualidade sonora é absurda, é um nível técnico tão impressionante que eu saí de lá pensando à respeito de quantas horas por dia o simpaticíssimo baterista Simon Philiips, por exemplo, tocou para chegar em tamanha exatidão e perfeição no tempo de baquetas, isso fora o baixo veloz e intenso do mais reservado Anthony Jackson... Depois desse show esse trio devia mudar de nome: ''The Virtuose Project'' é a alcunha perfeita.


Mas acompanhar a pegada da Hiromi é impossível, em todas as faixas ela surgia com solos absolutamente abundantes, técnicos... Era marfim em pura síncope, aliás mal se via a mão da cidadã tamanha a velocidade. Mas ai alguns irão dizer: ''Tocar mil notas por minuto não quer dizer nada, onde está o feeling?'' 

Esta inundado em todas as faixas da praticamente poliglota pianista, que além de muito simpática, aplaudia sua própria banda, falou Português e se mostrou até tímida quando se dirigia a platéia, mas quando começava a tocar isso tudo sumia, ela levantava do teclado, sentava, batia, dava cotovelada, só faltou tocar plantando bananeira! Nunca vi um show com este nível técnico e nunca vi ninguém demonstrar tanta vontade e afinco tocando um instrumento.

Essa maluca com cabelo de Amy Winehouse tem 35 anos e dia após dia eleva seu patamar, era desconcertante, cansei de bater palma, nunca aplaudi alguém por tanto tempo e o sentimento e a quebradeira do trio foi realmente inexplicável.

Quando o show terminou ainda tentei conseguir um autógrafo na minha cópia de ''Beyond Standard'' mas não consegui, uma pena, mas shows acompanhados do senhor meu pai são assim, aqui foram duas horas de Jazz-clássico-hard-Bop e na última mais de 3 horas com o Bootsy Collins!

Desculpem pela falta de fotos... O Sesc não liberou credencial e confesso que até esqueci delas, meu pai que se lembrou e pegou alguns flashes... Só posso lamentar aos que não estiveram presentes, um dia histórico, até plastifiquei o ingresso! Duas horas de piano e teclado que ficarão para sempre em minha cabeça

Set List:
''Seeker''
''Alive''
''Wanderer''
''Dreamer''
''Player''
''Place To Be''
''Warrior''
''Rainmaker''
''Move''


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HBC Trio - Bourbon Street 13/08/14

Semana passada fui ao show do Marcus Miller e antes de sair achei um folheto no mesmo Bourbon Street com os próximos eventos da casa. No caminho para a minha residência estava passando os olhos pelas atrações até que me encontro absolutamente estupefato com um nome em especial: HBC Trio. Sem muitas delongas trata-se de uma das uniões mais estratosféricas dentro da música em tempos recentes, um tal de Scott Henderson na guitarra, Jeff Berlin no baixo e Dennis Chambers na bateria.

Esses três músicos são 3 das grandes mecas de seus respectivos instrumentos. O que Chambers faz em espaços curtos as vezes não parece anatomicamente possível, Henderson por outro lado é um cara que além da parte técnica estudiosa tem ideias que se não fazem dele um dos grandes malucos beleza da guitarra, no mínimo garantem seu nome para a posteridade e, Berlin, para resumir, desencoraja qualquer um a pegar um baixo para tocar.



Não fazia a mínima ideia do que essa reunião colocaria na pauta do set list para o show, nem de quanto tempo o mesmo levaria, a única certeza é que seria uma barulheira infernal da melhor qualidade e que eu não poderia perder este simpósio sonoro. É o tipo de banda que soaria absurda até se eles escolhessem tocar só músicas do Chaves!

Ainda antes de falar sobre o show, vale lembrar que Dennis Chambers não compareceu. O baterista anda bem frágil biologicamente e quem acompanha sua carreira notou que ele perdeu MUITO peso, culminando inclusive com um desmaio depois de um festival de Jazz na Europa. Só que o show já estava marcado e business é assim, o show nunca para, tem SEMPRE que continuar, logo, para substituir o último ''C'' do HBC Trio, Henderson e Berlin chamaram Billy Cobham.


Se você escrever bateria no Google e procurar no item ''imagens'', verás que Billy aparecerá em algum momento. Sim, sua Panamenha bateria de beat perfeito e incontrolavelmente não-errática, atingiu um patamar quase mítico, mas ontem pude ver com meus próprios olhos, é tudo verdade, e digo mais, POSSO COMPROVAR que os três monstros que estavam sob o palco são, (pasmem os senhores) HUMANOS, até erraram a entrada de uma música (por duas vezes), só até errando eles são bons... Ahh se todo mundo errasse desse jeito.

O show estava marcado para as 21:30 mas presumo que pelo tempo chuvoso o pessoal da organização optou por dar aquela segurada para garantir a lotação completa do recinto e quado bateu 22:00 no gongo da Swatch, o trio entrou e rapaz, se semana passada fiquei impressionado com o que o Marcus Miller fez em uma hora e quinze, ontem sai do Bourbon com princípios de um derrame depois de 2 horas de show.


E o que me deixou mais embasbacado, impressionado, estupefato, babando, chocado, deslumbrado (haja sinônimos para tanto), foi que esse show foi o PRIMEIRO que o trio fez junto, só que pela excelência parecia que a união já tinha mais de 30 anos!! Scott Henderson chegou lá com uma roupa de velho aposentado que vai pagar as contas de manhã bem no seu estilo, simples até o osso, mas tocando é um Lord Ingês. Berlim tem uma técnica tão apurada que em momentos parecia que tocar naquele cenário com nomes tão grandiosos era até fácil, tamanho seu relaxamento. 


E Billy Cobham, bom, para mim o septuagenário foi o destaque, SETENTA ANOS senhores e a bateria balançava à distância! Como esses caras sentem a música! O recém entrosamento dos caras foi posto à prova e nossa senhora, tem banda que toca junto por mais de vinte anos que não faz o que esses caras fizeram ontem.

Explorando o bom humor e fazendo piadas das mais variadas os caras arrancaram aplausos em todos os setores possíveis, simplicidade, técnica e humildade, rolou de tudo Weather Report, Beatles em versão Jazz com ''Come Together'' e uma apresentação de ''Tears In Heaven'' de Jeff Berlin que foi feita no ato, só o Groove, Scott foi olhar a guitarra, Billy deu uma respirada e ele improvisou uma linha com um feeling de marejar os olhos.

E pra fechar a noite ''Stratus'', as elevações de bateria mais absurdas da face terrestre, Berlin e Henderson olhavam para Billy como quem admira um Deus! O cara veio às pressas para substituir e abraçou todo mundo, bom humor, Jazz, e muita camaradagem, esse foi um dia que nunca me esquecerei, jamais imaginei que veria esses caras.

Cobham principalmente, a bateria do cara estava mais alta do que todos os outros instrumentos, o show era em função dele. Todos os envolvidos arrebentaram sem dúvida alguma, mas ele estava impossível, nem a pau que o negrão tem 70 anos, que forma física, como se diz na gíria do futebol: ''Deve ser gato'' QUE SHOW!


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Marcus Miller - Bourbon Street 06/08/2014

Um dos meus maiores arrependimentos é não ter visto o visionário Miles Davis em ação. O mestre nos deixou em 1991 e depois que conheci seu trompete, disse para todos que quisessem me escutar: um dia teria o prazer de prestigiar alguém que esteve em sua presença. E dentro do âmbito Jazzístico muitos poderiam ser citados, mas meu nome preferido é o do baixista Marcus Miller. 


Se o assunto é baixo, Jazz, ou Funk, pode chamar que o Marcus é de fato, O CARA. Responsável não somente por destilar um dos sons mais cristalinos no baixo, o multi instrumentista não fica só nessa aresta genial, sua musicalidade é imparável, assim como seu slap, movimento este que torce cérebros ao redor do globo.

Pode mandar saxofone, teclado, guitarra, vocal, Marcus entende do assunto e hoje, dia 06 de Agosto de 2014 pude ver toda essa tenacidade com meus próprios olhos e do jeito que sempre sonhei: com o baixão como principal destaque, uma humildade fora de série e uma genialidade que passa desapercebida pelo chapéu malandro e balanço de fácil acesso. Miller é um monstro da música, não foi tiro no escuro não, Miles chamou o carequinha por que sabia que ele era especial e  quem estava no Bourbon Street sentiu isso com notas graves.

Line Up:
Marcus Miller (baixo/saxofone)
Alex Han (saxofone)
Lee Hogans (trompete)
Louis Cato (bateria)
Brett Williams (teclado)
Adam Agati (guitarra)



Para começar que em um show de Jazz a coisa é naturalmente mais refinada, não só pelo som, mas pelo todo que envolve a apresentação. A casa, comida, bebidas, até o vestuário do espectador conta. Esse tipo de som não pode ser apreciado em qualquer lugar, é uma coisa para ouvidos reservados e tem que ser feita com o mínimo de atenção aos detalhes e, nesse quesito, a escolha da sede para o espetáculo não poderia ser melhor, o Bourbon Street acolheu o baixista e sua banda em um ambiente que além de absolutamente nostálgico só deixou a coisa ainda mais intimista.

Apresentação simples. O ''Bruce Buffer'' da casa anunciou o nome do mestre e ele já veio com a arma empunhada nos braços, deu boa noite e em menos de 30 segundos a casa já estava tendo aulas de groove. E aí foi tudo como imaginando (e acredito que na dos outros presentes também). Miller olhava para um integrante de sua MUITO JOVEM banda e quase que de forma telepática tinha seu pedido em processo,


Todos foram ótimos, o guitarrista Adam Agati  parecia ter saído direto do Half Pipe dos X-games, mas com a guitarra na mão, minha nossa! A dupla de metais mostrou o DNA Coltrane com o sax de Alex Han e o fator Davis com Lee Hogans no trompete, que juntos em prol da síncope de fraseados só apimentaram a cozinha ainda mais. No marfim teve um especialmente inspirado Brett Williams, e por último, o maior destaque do show (logo atrás de Marcus claro), o baterista Louis Cato e seus dreads de Living Colour Rastafari.


E meu amigo, para você que acha que o Jazz não pode ser pesado, parafraseando o ilustre compadre Washington: "Sabe de nada inocente". Todos os envolvidos levaram tudo com um feeling sublime, mas assim que o americano entrava no improviso o peso aumentava de uma forma absurda, era um deus nos acada fabuloso, faixas longas e solos inexplicáveis por parte de todos os envolvidos.


Slap Harmônico, double thoumb, quatro cordas normais, fretless, de dia, de noite, no seco, debaixo d'água, não tem essa de ''dia ideial'' ou momento de inspiração, o grau de técnica desse cidadão é absurdo, é sempre excelente, é sempre oportuno, é sempre no padrão Marcus Miller, qualquer lugar, qualquer hora, ELE VAI arrebentar e ponto final. Camisa lisa, calça, sapato e o chapéu para arrematar e não ficar formal demais.


Entoando clássicos como ''Power'' e ''Jean Pierre'', mas dando uma atenção especial ao seu registro mais recente, o ótimo ''Renaissance'' lançado em 2012. Foi um show relativamente curto, cerca de uma hora e dez, mas ninguém falou nada, sai absolutamente satisfeito e estupefato com o que tinha registrado em minha cabeça.

É impressionante como ele gosta do que ele faz no palco, teve um momento depois de uma ótima faixa em seu sax que a banda ficou fazendo a base e ele ficou no meio acompanhando o som sem instrumento algum, só no air drumming... E naqueles 15-20 segundos além de ter ficado impressionado com sua musicalidade enquanto acompanhava seu próprio baterista, notei algo inestimável, ele queria de fato estar ali e quando o público percebe isso, a conexão é indecritível.

E ele ali, em seu habitat natual tocando linhas complexas de forma absolutamente banal, sempre com as respostas, aquele cara descoladamente irritante, mostrando que não tem todo esse nome por sorte, e com uma banda que fez jus ao seu talento, passando o bastão como só os grandes nomes fazem. Encantando a Naja do braço do baixo, a meduza de slaps... Marcus colocou o Bourbon Street no bolso, no fundo do chapéu... A casa foi para o espaço, Jam blindada, show fantástico.

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