Hiromi The Trio Project: Sesc Pompéia - 16/08/14

A Hiromi Uehara tem quatro discos sob o nome ''Hiromi''. Outros dois com a alcunha ''Hiromi's Sonicbloom''. Três com sua mais recente viagem criativa ''The Trio Project'', fora seu disco com o Stanley Clarke Trio, o ótimo ''Jazz In The Garden'' e ''Duet'', seu registro debutante-colaborativo com nada mais nada menos que Chick Corea no piano (do selo ''Chick And Hiromi''), gravado ao vivo no Blue Note de Tókio.

São onze CD's fora 4 DVD's que já ouvi e assiti durante anos, desde que conheci sua mistura atômica de feeling e virtuose. Mas se pudesse juntar o conteúdo desses 11 CD's plus a vibração crua dos 4 DVD's creio que nem assim igualaria o que puder ver hoje com meus próprios olhos e, sim, sou fanático o suficiente para ter tudo que a japinha já fez na vida.


Hoje, dia 17/08/14, vi algo histórico, a primeira passagem da pianista em solo Brasileiro, tudo via Sesc, que mais uma vez trouxe uma atração de primeira e montou um show do jeito perfeito, com os três indicadores básicos e sem exageros:

- Lugar pequeno
- Meia luz
- Som de qualidade


Daqui uns 10 anos vou poder falar que vi a maior musicista de meu tempo, isso é claro trata-se da minha opinião, mas creio que se mais pessoas puderam conhecer seu som eu não defenderei esta sentença sozinho, o que prova mais uma vez que a música segue produzindo nomes impactantes, outra que gosto de citar é a americana Esperanza Spalding.

O único problema dos shows no Sesc é que a divulgação é bem limitada, parece que só chega nos ouvidos de quem é sócio, ou que pode dar uma passada lá toda semana para ver o quadro de apresentações, Mas desta vez fiquei sabendo à tempo e pude me dirigir até a o local de mais uma iniciativa do projeto ''Jazz Na Fábrica''.

Inicialmente não sabia de fato o que esperar, até por que é muito diferente ouvir discos ou até mesmo ver shows na tela da TV. Mas desde que meu pai me ligou falando que os ingressos estavam garantidos fiquei apenas esperando pela surpresa, algo que se confirmou em certos aspectos. A maioria do Set List foi composto de faixas de seu novo disco (''Alive'', lançado e resenhado este ano) mas as palavras se fazem poucas para descrever um show que de tão grandioso (talvez no lugar menos provável para tal), fosse o melhor da minha vida e olha que eu já vi Iron, Sabbath, Scorpions, Clapton... Mas nunca vi nada parecido com o que vi ontem, as 21:00 (pontualmente) no Sesc da unidade Pompéia.

A qualidade sonora é absurda, é um nível técnico tão impressionante que eu saí de lá pensando à respeito de quantas horas por dia o simpaticíssimo baterista Simon Philiips, por exemplo, tocou para chegar em tamanha exatidão e perfeição no tempo de baquetas, isso fora o baixo veloz e intenso do mais reservado Anthony Jackson... Depois desse show esse trio devia mudar de nome: ''The Virtuose Project'' é a alcunha perfeita.


Mas acompanhar a pegada da Hiromi é impossível, em todas as faixas ela surgia com solos absolutamente abundantes, técnicos... Era marfim em pura síncope, aliás mal se via a mão da cidadã tamanha a velocidade. Mas ai alguns irão dizer: ''Tocar mil notas por minuto não quer dizer nada, onde está o feeling?'' 

Esta inundado em todas as faixas da praticamente poliglota pianista, que além de muito simpática, aplaudia sua própria banda, falou Português e se mostrou até tímida quando se dirigia a platéia, mas quando começava a tocar isso tudo sumia, ela levantava do teclado, sentava, batia, dava cotovelada, só faltou tocar plantando bananeira! Nunca vi um show com este nível técnico e nunca vi ninguém demonstrar tanta vontade e afinco tocando um instrumento.

Essa maluca com cabelo de Amy Winehouse tem 35 anos e dia após dia eleva seu patamar, era desconcertante, cansei de bater palma, nunca aplaudi alguém por tanto tempo e o sentimento e a quebradeira do trio foi realmente inexplicável.

Quando o show terminou ainda tentei conseguir um autógrafo na minha cópia de ''Beyond Standard'' mas não consegui, uma pena, mas shows acompanhados do senhor meu pai são assim, aqui foram duas horas de Jazz-clássico-hard-Bop e na última mais de 3 horas com o Bootsy Collins!

Desculpem pela falta de fotos... O Sesc não liberou credencial e confesso que até esqueci delas, meu pai que se lembrou e pegou alguns flashes... Só posso lamentar aos que não estiveram presentes, um dia histórico, até plastifiquei o ingresso! Duas horas de piano e teclado que ficarão para sempre em minha cabeça

Set List:
''Seeker''
''Alive''
''Wanderer''
''Dreamer''
''Player''
''Place To Be''
''Warrior''
''Rainmaker''
''Move''


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HBC Trio - Bourbon Street 13/08/14

Semana passada fui ao show do Marcus Miller e antes de sair achei um folheto no mesmo Bourbon Street com os próximos eventos da casa. No caminho para a minha residência estava passando os olhos pelas atrações até que me encontro absolutamente estupefato com um nome em especial: HBC Trio. Sem muitas delongas trata-se de uma das uniões mais estratosféricas dentro da música em tempos recentes, um tal de Scott Henderson na guitarra, Jeff Berlin no baixo e Dennis Chambers na bateria.

Esses três músicos são 3 das grandes mecas de seus respectivos instrumentos. O que Chambers faz em espaços curtos as vezes não parece anatomicamente possível, Henderson por outro lado é um cara que além da parte técnica estudiosa tem ideias que se não fazem dele um dos grandes malucos beleza da guitarra, no mínimo garantem seu nome para a posteridade e, Berlin, para resumir, desencoraja qualquer um a pegar um baixo para tocar.



Não fazia a mínima ideia do que essa reunião colocaria na pauta do set list para o show, nem de quanto tempo o mesmo levaria, a única certeza é que seria uma barulheira infernal da melhor qualidade e que eu não poderia perder este simpósio sonoro. É o tipo de banda que soaria absurda até se eles escolhessem tocar só músicas do Chaves!

Ainda antes de falar sobre o show, vale lembrar que Dennis Chambers não compareceu. O baterista anda bem frágil biologicamente e quem acompanha sua carreira notou que ele perdeu MUITO peso, culminando inclusive com um desmaio depois de um festival de Jazz na Europa. Só que o show já estava marcado e business é assim, o show nunca para, tem SEMPRE que continuar, logo, para substituir o último ''C'' do HBC Trio, Henderson e Berlin chamaram Billy Cobham.


Se você escrever bateria no Google e procurar no item ''imagens'', verás que Billy aparecerá em algum momento. Sim, sua Panamenha bateria de beat perfeito e incontrolavelmente não-errática, atingiu um patamar quase mítico, mas ontem pude ver com meus próprios olhos, é tudo verdade, e digo mais, POSSO COMPROVAR que os três monstros que estavam sob o palco são, (pasmem os senhores) HUMANOS, até erraram a entrada de uma música (por duas vezes), só até errando eles são bons... Ahh se todo mundo errasse desse jeito.

O show estava marcado para as 21:30 mas presumo que pelo tempo chuvoso o pessoal da organização optou por dar aquela segurada para garantir a lotação completa do recinto e quado bateu 22:00 no gongo da Swatch, o trio entrou e rapaz, se semana passada fiquei impressionado com o que o Marcus Miller fez em uma hora e quinze, ontem sai do Bourbon com princípios de um derrame depois de 2 horas de show.


E o que me deixou mais embasbacado, impressionado, estupefato, babando, chocado, deslumbrado (haja sinônimos para tanto), foi que esse show foi o PRIMEIRO que o trio fez junto, só que pela excelência parecia que a união já tinha mais de 30 anos!! Scott Henderson chegou lá com uma roupa de velho aposentado que vai pagar as contas de manhã bem no seu estilo, simples até o osso, mas tocando é um Lord Ingês. Berlim tem uma técnica tão apurada que em momentos parecia que tocar naquele cenário com nomes tão grandiosos era até fácil, tamanho seu relaxamento. 


E Billy Cobham, bom, para mim o septuagenário foi o destaque, SETENTA ANOS senhores e a bateria balançava à distância! Como esses caras sentem a música! O recém entrosamento dos caras foi posto à prova e nossa senhora, tem banda que toca junto por mais de vinte anos que não faz o que esses caras fizeram ontem.

Explorando o bom humor e fazendo piadas das mais variadas os caras arrancaram aplausos em todos os setores possíveis, simplicidade, técnica e humildade, rolou de tudo Weather Report, Beatles em versão Jazz com ''Come Together'' e uma apresentação de ''Tears In Heaven'' de Jeff Berlin que foi feita no ato, só o Groove, Scott foi olhar a guitarra, Billy deu uma respirada e ele improvisou uma linha com um feeling de marejar os olhos.

E pra fechar a noite ''Stratus'', as elevações de bateria mais absurdas da face terrestre, Berlin e Henderson olhavam para Billy como quem admira um Deus! O cara veio às pressas para substituir e abraçou todo mundo, bom humor, Jazz, e muita camaradagem, esse foi um dia que nunca me esquecerei, jamais imaginei que veria esses caras.

Cobham principalmente, a bateria do cara estava mais alta do que todos os outros instrumentos, o show era em função dele. Todos os envolvidos arrebentaram sem dúvida alguma, mas ele estava impossível, nem a pau que o negrão tem 70 anos, que forma física, como se diz na gíria do futebol: ''Deve ser gato'' QUE SHOW!


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Marcus Miller - Bourbon Street 06/08/2014

Um dos meus maiores arrependimentos é não ter visto o visionário Miles Davis em ação. O mestre nos deixou em 1991 e depois que conheci seu trompete, disse para todos que quisessem me escutar: um dia teria o prazer de prestigiar alguém que esteve em sua presença. E dentro do âmbito Jazzístico muitos poderiam ser citados, mas meu nome preferido é o do baixista Marcus Miller. 


Se o assunto é baixo, Jazz, ou Funk, pode chamar que o Marcus é de fato, O CARA. Responsável não somente por destilar um dos sons mais cristalinos no baixo, o multi instrumentista não fica só nessa aresta genial, sua musicalidade é imparável, assim como seu slap, movimento este que torce cérebros ao redor do globo.

Pode mandar saxofone, teclado, guitarra, vocal, Marcus entende do assunto e hoje, dia 06 de Agosto de 2014 pude ver toda essa tenacidade com meus próprios olhos e do jeito que sempre sonhei: com o baixão como principal destaque, uma humildade fora de série e uma genialidade que passa desapercebida pelo chapéu malandro e balanço de fácil acesso. Miller é um monstro da música, não foi tiro no escuro não, Miles chamou o carequinha por que sabia que ele era especial e  quem estava no Bourbon Street sentiu isso com notas graves.

Line Up:
Marcus Miller (baixo/saxofone)
Alex Han (saxofone)
Lee Hogans (trompete)
Louis Cato (bateria)
Brett Williams (teclado)
Adam Agati (guitarra)



Para começar que em um show de Jazz a coisa é naturalmente mais refinada, não só pelo som, mas pelo todo que envolve a apresentação. A casa, comida, bebidas, até o vestuário do espectador conta. Esse tipo de som não pode ser apreciado em qualquer lugar, é uma coisa para ouvidos reservados e tem que ser feita com o mínimo de atenção aos detalhes e, nesse quesito, a escolha da sede para o espetáculo não poderia ser melhor, o Bourbon Street acolheu o baixista e sua banda em um ambiente que além de absolutamente nostálgico só deixou a coisa ainda mais intimista.

Apresentação simples. O ''Bruce Buffer'' da casa anunciou o nome do mestre e ele já veio com a arma empunhada nos braços, deu boa noite e em menos de 30 segundos a casa já estava tendo aulas de groove. E aí foi tudo como imaginando (e acredito que na dos outros presentes também). Miller olhava para um integrante de sua MUITO JOVEM banda e quase que de forma telepática tinha seu pedido em processo,


Todos foram ótimos, o guitarrista Adam Agati  parecia ter saído direto do Half Pipe dos X-games, mas com a guitarra na mão, minha nossa! A dupla de metais mostrou o DNA Coltrane com o sax de Alex Han e o fator Davis com Lee Hogans no trompete, que juntos em prol da síncope de fraseados só apimentaram a cozinha ainda mais. No marfim teve um especialmente inspirado Brett Williams, e por último, o maior destaque do show (logo atrás de Marcus claro), o baterista Louis Cato e seus dreads de Living Colour Rastafari.


E meu amigo, para você que acha que o Jazz não pode ser pesado, parafraseando o ilustre compadre Washington: "Sabe de nada inocente". Todos os envolvidos levaram tudo com um feeling sublime, mas assim que o americano entrava no improviso o peso aumentava de uma forma absurda, era um deus nos acada fabuloso, faixas longas e solos inexplicáveis por parte de todos os envolvidos.


Slap Harmônico, double thoumb, quatro cordas normais, fretless, de dia, de noite, no seco, debaixo d'água, não tem essa de ''dia ideial'' ou momento de inspiração, o grau de técnica desse cidadão é absurdo, é sempre excelente, é sempre oportuno, é sempre no padrão Marcus Miller, qualquer lugar, qualquer hora, ELE VAI arrebentar e ponto final. Camisa lisa, calça, sapato e o chapéu para arrematar e não ficar formal demais.


Entoando clássicos como ''Power'' e ''Jean Pierre'', mas dando uma atenção especial ao seu registro mais recente, o ótimo ''Renaissance'' lançado em 2012. Foi um show relativamente curto, cerca de uma hora e dez, mas ninguém falou nada, sai absolutamente satisfeito e estupefato com o que tinha registrado em minha cabeça.

É impressionante como ele gosta do que ele faz no palco, teve um momento depois de uma ótima faixa em seu sax que a banda ficou fazendo a base e ele ficou no meio acompanhando o som sem instrumento algum, só no air drumming... E naqueles 15-20 segundos além de ter ficado impressionado com sua musicalidade enquanto acompanhava seu próprio baterista, notei algo inestimável, ele queria de fato estar ali e quando o público percebe isso, a conexão é indecritível.

E ele ali, em seu habitat natual tocando linhas complexas de forma absolutamente banal, sempre com as respostas, aquele cara descoladamente irritante, mostrando que não tem todo esse nome por sorte, e com uma banda que fez jus ao seu talento, passando o bastão como só os grandes nomes fazem. Encantando a Naja do braço do baixo, a meduza de slaps... Marcus colocou o Bourbon Street no bolso, no fundo do chapéu... A casa foi para o espaço, Jam blindada, show fantástico.

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