Marcus Miller - Bourbon Street 06/08/2014

Um dos meus maiores arrependimentos é não ter visto o visionário Miles Davis em ação. O mestre nos deixou em 1991 e depois que conheci seu trompete, disse para todos que quisessem me escutar: um dia teria o prazer de prestigiar alguém que esteve em sua presença. E dentro do âmbito Jazzístico muitos poderiam ser citados, mas meu nome preferido é o do baixista Marcus Miller. 


Se o assunto é baixo, Jazz, ou Funk, pode chamar que o Marcus é de fato, O CARA. Responsável não somente por destilar um dos sons mais cristalinos no baixo, o multi instrumentista não fica só nessa aresta genial, sua musicalidade é imparável, assim como seu slap, movimento este que torce cérebros ao redor do globo.

Pode mandar saxofone, teclado, guitarra, vocal, Marcus entende do assunto e hoje, dia 06 de Agosto de 2014 pude ver toda essa tenacidade com meus próprios olhos e do jeito que sempre sonhei: com o baixão como principal destaque, uma humildade fora de série e uma genialidade que passa desapercebida pelo chapéu malandro e balanço de fácil acesso. Miller é um monstro da música, não foi tiro no escuro não, Miles chamou o carequinha por que sabia que ele era especial e  quem estava no Bourbon Street sentiu isso com notas graves.

Line Up:
Marcus Miller (baixo/saxofone)
Alex Han (saxofone)
Lee Hogans (trompete)
Louis Cato (bateria)
Brett Williams (teclado)
Adam Agati (guitarra)



Para começar que em um show de Jazz a coisa é naturalmente mais refinada, não só pelo som, mas pelo todo que envolve a apresentação. A casa, comida, bebidas, até o vestuário do espectador conta. Esse tipo de som não pode ser apreciado em qualquer lugar, é uma coisa para ouvidos reservados e tem que ser feita com o mínimo de atenção aos detalhes e, nesse quesito, a escolha da sede para o espetáculo não poderia ser melhor, o Bourbon Street acolheu o baixista e sua banda em um ambiente que além de absolutamente nostálgico só deixou a coisa ainda mais intimista.

Apresentação simples. O ''Bruce Buffer'' da casa anunciou o nome do mestre e ele já veio com a arma empunhada nos braços, deu boa noite e em menos de 30 segundos a casa já estava tendo aulas de groove. E aí foi tudo como imaginando (e acredito que na dos outros presentes também). Miller olhava para um integrante de sua MUITO JOVEM banda e quase que de forma telepática tinha seu pedido em processo,


Todos foram ótimos, o guitarrista Adam Agati  parecia ter saído direto do Half Pipe dos X-games, mas com a guitarra na mão, minha nossa! A dupla de metais mostrou o DNA Coltrane com o sax de Alex Han e o fator Davis com Lee Hogans no trompete, que juntos em prol da síncope de fraseados só apimentaram a cozinha ainda mais. No marfim teve um especialmente inspirado Brett Williams, e por último, o maior destaque do show (logo atrás de Marcus claro), o baterista Louis Cato e seus dreads de Living Colour Rastafari.


E meu amigo, para você que acha que o Jazz não pode ser pesado, parafraseando o ilustre compadre Washington: "Sabe de nada inocente". Todos os envolvidos levaram tudo com um feeling sublime, mas assim que o americano entrava no improviso o peso aumentava de uma forma absurda, era um deus nos acada fabuloso, faixas longas e solos inexplicáveis por parte de todos os envolvidos.


Slap Harmônico, double thoumb, quatro cordas normais, fretless, de dia, de noite, no seco, debaixo d'água, não tem essa de ''dia ideial'' ou momento de inspiração, o grau de técnica desse cidadão é absurdo, é sempre excelente, é sempre oportuno, é sempre no padrão Marcus Miller, qualquer lugar, qualquer hora, ELE VAI arrebentar e ponto final. Camisa lisa, calça, sapato e o chapéu para arrematar e não ficar formal demais.


Entoando clássicos como ''Power'' e ''Jean Pierre'', mas dando uma atenção especial ao seu registro mais recente, o ótimo ''Renaissance'' lançado em 2012. Foi um show relativamente curto, cerca de uma hora e dez, mas ninguém falou nada, sai absolutamente satisfeito e estupefato com o que tinha registrado em minha cabeça.

É impressionante como ele gosta do que ele faz no palco, teve um momento depois de uma ótima faixa em seu sax que a banda ficou fazendo a base e ele ficou no meio acompanhando o som sem instrumento algum, só no air drumming... E naqueles 15-20 segundos além de ter ficado impressionado com sua musicalidade enquanto acompanhava seu próprio baterista, notei algo inestimável, ele queria de fato estar ali e quando o público percebe isso, a conexão é indecritível.

E ele ali, em seu habitat natual tocando linhas complexas de forma absolutamente banal, sempre com as respostas, aquele cara descoladamente irritante, mostrando que não tem todo esse nome por sorte, e com uma banda que fez jus ao seu talento, passando o bastão como só os grandes nomes fazem. Encantando a Naja do braço do baixo, a meduza de slaps... Marcus colocou o Bourbon Street no bolso, no fundo do chapéu... A casa foi para o espaço, Jam blindada, show fantástico.

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