Costa do Marfim - Acts I, II & III

São Paulo segue um ritmo frenético em tudo, absolutamente tudo. Vai desde o momento que trabalhadores atrasados começam a correr no meio da rua para não chegar no escritório depois do chefe, até o ambulante que fica ligeiro prestando atenção pra ver se o rappa não apareceu.

São muitas coisas e muitas inclusive ao mesmo tempo, no mesmo dia e as vezes até na mesma hora. Assim tem sido o calendário de shows da terra da garoa. Aliás está na hora de mudar esse apelido, últimamente não bate nem vento nessas bandas, mas enfim.

Enquanto a loucura cotidiana toma ares cada vez mais épicos, muitas bandas seguem em Tour pelo país, sejam elas nacionais ou internacionais. A semana toma curso para todos e enquanto somos bombardeados por informações, vale a pena ligar o Bluetooth mental e ver o que rola de distração.


E a minha distração do mês foi a Cachorro Grande. este ano, meu mês no novembro foi arquitetado em função da tão aguardada Tour pela Costa do Marfim de São Paulo. E o que era para ser apenas um show isolado, acabou virando matéria. Três eventos grandiosos, que assim como o ''Joe's Garage'' do grande mito Frank Zappa, ídolo mor de Beto Bruno, foi dividido em três atos... Coincidência? Acho que não. 


O primeiro ato se deu no Ozzie Pub dia 14 de outubro em plena terça-feira, pocket show nervoso com direito até a ES-335 lembrando dos mestres Alvin Lee e Chuck Berry, mas foi só o aperitivo, a imprensa paulista teve o privilégio de ver isso antes de todos, mas comparar o pocket com o estrago das duas noites de Sec Pompéia é sacanagem...


Sexta-feira chegou e com ela a Choperia do bairro mais Rock 'N' Roll de São Paulo começou a trabalhar. Foi em mais uma noite de calor causticante que o quinteto apertou start para começar a tour oficialmente e banhar o fino do Rock Psicodélico com uma camada caprichada de cerveja.

Foram dois atos na grandiosa Pompéia, onde o ato dois e três foram épicamente similares. A platéia lotou na sexta e muitos não satisfeitos com o primeiro estrago, resolveram fazer a dobradinha. Juntando os dois shows tivemos cerca de quatro horas de ótima música e um set list que dialogou com os dois tipos de fã que a banda possui:

1) O fanático pela fase British Blues de sempre.
2) O novo fã de Psych.


A atenção estava claramente voltada para a execução do Costa do Marfim, mas é claro que os velhos sucessos não poderiam faltar e, com essa nova faceta, acho que reencarnar os sons old schools foi ainda mais prazeroso para a banda, a atmosfera enérgica e revitalizada do show do Ozzie Pub se manteve nessas duas grandes apresentações.

A energia central de ver um show dos Gaúchos é a mesma de sempre, Beto levou um cálice para o Ozzie, mas nas duas noites de Raul (Pompéia) teve que carregar um litrão para o palco, Azambuja teve que tocar de forma cirúrgica novamente e, em prol do swing, o quatro cordas do Rodolfo Krieger trouxe toda a densidade necessária, fora a apelativa Les Paul do Marcelo Gross e os teclados meio Jazz de Pedro Pelotas.

Foram três shows excelentes e mais um trecho do quão bom este ano está sendo para a banda, no fim do espetáculo Beto foi elementar ao dizer para a platéia: ''É por causa de vocês que nós podemos tocar Rock 'N' Roll''. Teve até Mutantes!... Sinceramente, Voltem sempre!

Cachorro Grande's Garage:


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Cachorro Grande - Ozzie Pub 14/10/2014

Um novo disco não implica apenas em uma nova sonoridade, trata-se também de um novo direcionamento criativo. Existe muito mais coisas envolvidas neste processo, mesmo se a banda em questão mantenha uma fórmula já conhecida e estabelecida dentro de seu propósito sonoro.

O fato de desenvolver um novo repertório tem muita influência do aspecto referencial, pra quem escuta o som tendo como visão o âmbito da platéia, o sentimento tem um lado e, se você inverter essa ideia, verás que a banda sente e enxerga isso de outro ângulo, são diferentes perspectivas.


Porém mais do que isso, um novo conteúdo precisa ser incorporado, um novo repertório, mesmo quando dominado criativamente, precisa ser redomesticado pela banda, agora em tour, quase como se fosse um novo dialeto. E para tal o som precisa de fluência e isso só vem com a prática desta nova faceta.

E ontem, quem estava presente no show de imprensa que patrocina a nova viagem musical do Cachorro Grande, viu como o novo idioma fluente dos caras é o Costa Marfinense, a Tour de São Paulo não poderia começar melhor. O pontapé inicial foi com um showzaço na terra natal do quinteto, que exalou ácido no Bar Opinião (dia 09/10) e que depois de colocar o Ozzie Pub em ponto de ebulição, vem preparando o woodstock de Hoffmann para as duas datas no Sesc Pompéia, sexta e sábado (dia 17 e 18) respectivamente.


Sobre o show de ontem só tenho elogios a tecer. Notei que a banda se encontra absolutamente revigorada no palco, já vi o Cachorro em outras oportunidades, mas com este repertório eles estão sem coleira. E na hora da apresentação fica claro como uma gota de LSD, que mesmo não agradando alguns (não me incluo nessa), a mudança foi válida e acima de tudo, fez bem para a banda, que no fim das contas é o mais importante.

Agora que o lado psicodélico da força aflorou, o reflexo dos espectros de luz influenciam tudo que circunda a banda. As vestimentas das fotos para o novo disco agora são peças do dia-a-dia, o show de luzes foi a maior surpresa, parecia holograma de São Francisco, bem na Bay Area nos anos 60... Nostalgia digna de Winterland, esse novo disco virou estilo de vida.


Essa sopa psicodélica deu muita caldo e, digo mais , num futuro próximo disco o ramo psych tem tudo para extender esse reinado sonoro, o Edu K precisa ser sempre citado, mais do que isso, presente, assim como ele estava ontem no Pub. Esse flashback sonoro soou maravilhosamente bem ao vivo.

Eu particularmente estava bem pilhado para ver o produto final por que no disco escuta-se muitas pirações de efeitos e trabalhar com tudo isso ao vivo é bastante complicado, algo sempre se perde, mas na primeira música, ainda na introdução do disco, deu pra notar que a banda também deu muita atenção a este fato, a qualidade de som estava soberba e os caras estavam tocando como se estivéssemos ouvindo o disco.

Dava pra cortar a densidade sonora com uma faca de rocambole. O baixo do Rodolfo Krieger é o meu principal destaque, toca muito, sola e o grave é cristalino. A banda arrebentou, o Marcelo como sempre foi muito técnico e, mostrando sua classe Britânica em prol da elegância de um estilo econômico, foi muito bem. Beto, o grande admirador  da obra Zappiana foi elementar nos vocais e sempre com um cálice nas mãos, dava prosseguimento ao culto Rock 'N' Roll, fora os teclados bem timbrados do Pedro Pelotas e a batera nunca errática do senhor Azambuja.

A energia do Pub era um repeteco clássico da invasão Britânica, a acústica estava muito boa e mesmo em forma de pocket show o cachorro triturou sua ração. E se teve algum efeito colateral nós não sabemos, as fotos do digníssimo Leonardo Marmitt mantiveram a seriedade desta nova distorção da realidade, dessa viagem sob os elefantes da verdadeira arca da Costa do Marfim.

Cheguei em casa depois de 40 minutos de fritação e quando fechei os olhos só via feixes de luz... Bom, para a banda não tem contra indicação, mas para os fãs recomendo o uso de óculos 3D. Grande momento!

Set List:
''Costa do Marfim''
''Nuvens de Fumaça''
''Eu Não Vou Mudar''
''Crispian Mills''
''Use O Assento Para Flutuar''
''Como Era Bom''
''Eu Quis Jogar''
''O Que Vai Ser''


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A Odisseia do Radio Moscow Pelas Veias Tupiniquins

Quando o Radio Moscow chegou em solo de terceiro mundo confesso que desacreditei. Não é todo dia que temos uma banda desse porte por aqui e ver como toda a tour se desenvolveu de forma grandiosa é simplesmente fantástico, é lindo viver todo esse grande momento, estado a estado, show a show, ressaca a ressaca.

Com o trio já plenamente instalado, começamos a ter um gosto dessa tour com a primeira data, afinal de contas a loucura precisava começar em algum lugar e o pico escolhido para abertura dos jogos foi o sul do pais, Porto Alegre sentiu a embutida logo de cara - 01 de outubro.


Chegando com a bomba do chimarrão como baqueta, o trio colou na grade do El Toro Pub as 20 horas e de lá não saiu até que o Abraxas Fest se desse por encerrado. Só que quem achou que a noite e toda essa tour iria ser apenas a base de bluesy Moscow, se enganou. A cada show, a cada nova cidade, a line up mudava e além de uma grande fermentação underground, nós também tivemos noites satânicas e que estimularam toda a loucura do cenário Stoner nacional, que é importante salientar, só está nesse nível (também) pelo grande trabalho feito pela Abraxas.

No frio sulista a ordem das canções de ninar demônio foi:

- Mar de Marte
- Quarto Astral
- Radio Moscow


O Mar de Marte fez o que foi pedido, comunicou toda a plateia que o uso de despositivos de segurança era necessário e depois que todos nós colocamos os capacetes o som instrumental dos caras varreu o Pub. No momento posterior em que o furacão deu um pause entrou o Quarto Astral e aí o peso sumiu, só que em seu lugar o LSD balsâmico do também trio (desta vez Pernambucano) inundou o ambiente e a letargia só saiu quando o reverendo Parker, vulgo guitarrista Griggs, apareceu no recinto.

Mais de uma hora com Mar de Marte, mais de uma hora com Quarto Astral... Muito? Quando o Radio chegou o tempo dobrou e tem gente surda até agora, faltou piteira, a escala subia, descia e no bend a pressão nos ouvidos era maior do que cabine de classe econômica despressurizada.


Depois que a Tour começou não teve tempo perdido, dia seguinte já tinha mais som e agora era hora de chegar no estado que mais se deu bem com o Radio Moscow, a bela Santa Catarina e suas datas para dois grandes shows. Primeiro o som chegou em Ibirama e lugar melhor pra isso não poderia ter, o Woodsrock fez a presa e ainda brincou com o nome do embrionário festival. O resultado foi simples de ser equacionado, também abrindo a roda as 20 horas:

Radio Moscow  + Quarto Astral +  Sabiá Preto + Six Six The Clown = casa embalada a vácuo.

Outro detalhe que precisa ser salientado é que em todos os shows o rolê foi independente. Cada maluco de cada estado que resolveu peitar essa missão e fazer a divulgação desses shows em cada CEP, fez isso sozinho. E aqui mais uma vez vemos o estímulo às bandas locais e, sinceramente, a vibe de ver um fest independente dando certo é inigualável.

Mais uma vez o Radio eletrocutou neurônios, o Quarto Astral deixou no banho maria e com o restinho que sobrou o Sabiá fez muqueca e o Six deu um teco na sobra (não necessariamente nesta ordem). Quase 5 horas de negociação e muito amônia debulhada.


Sem perder a conta de shots, passamos pela terra do Duque de Caxias, fizemos o primeiro show no estado do tenista Brasuca tricampeão de Roland Garros e agora continuamos na terra do esportista surfista para narrar os fatos do segundo show na terra santa, agora já na capital. Em suma nada mudou, tivemos mais estímulos sensoriais nacionais com o Mission Piots & The Dropkick Apollo, plus o denso instrumental do Space Chicken & The Eggs Of Disaster, que juntos tomaram outra dose do néctar de Peiote.

Porém uma vez mais o trio reinou absoluto, a pedaleira do reverendo Parker fez o pessoal sair da casa cantando o wah-wah, nem ressaltei os efeitos colateralmente auditivos por que achei que a essa altura do campeonato a sequela fosse universal, batia até eco e não era culpa da fumaça, talvez do baixo do Anthony ou da batera do Paul... Estamos averiguando, o pessoal do música ofensiva ficou mais 13 que o bar, treze.


A escopeta seguia descendo a madeira nas balas. Outro lance primordial dessa sucessão de eventos foi como tudo foi projetado. Maestria nos horários, qualidade de som, estrutura para abrigar as pessoas, tudo isso fora vários shows em lugares distantes com um itinerário praticamente Britânico, algo que em São Paulo também se manteve. Evento as 18:00 no papel e na realidade também, a casa lotou todos os espaços da Jam e quando os trabalhos foram inciado o pessoal começou a entender a grandiosidade desta noite, a atmosfera do Inferno estava nebulosa.

O Quarto Astral veio mais uma vez e aqui se faz necessário elogiar os caras, o trio do Yoga psicodélico foi pra Porto Alegre, Ibirama, veio pra cá e ainda fechou a viagem de xamã no Rio de Janeiro. E aqui (ainda em sampa), o som foi demencial, fora que ver a saída dos caras e despertar no choque térmico avassalador do Fuzzly não é pra qualquer um, Cuibá e Pernambuco representaram na tour e mais uma vez estavam compactuados com satã, eles e a Abraxas.

As 22 horas entrou o som das vias radiofônicas Russas e aí meu caro o que eu sei é que faltou imaginação... Todos nós que tanto fritamos já estávamos plenamente ''acostumados'' ao estrago do Radio Moscow, mas ao vivo é um coisa com a qual você não se prepara, é igual a morte. Teve baqueta pra plateia, Rickenbacker sem palheta diretamente na sua cara e mais som de Fender pra tirar toda e qualquer dúvida que o som deste instrumento só é ''frágil'' na mão de quem não manja. 

Foi outro show que fechou com duas horas e o dichavamento guitarristico foi frenético, poderia até citar mais detalhes só que devido ao exacerbado número de muquetas que tomei, receio que tenha perdido as lembranças no memory card. Sai do recinto querendo processar a Abraxas... Meus ouvidos estão em plena revolução de zumbidos...

Foi shangri-la, e no Rio foi a mesma coisa, talvez até pior por que a line up ainda incluia o Barizon! Viagem nostálgica de festival culminando com o mesmo estrago aqui já escrito-e-narrado nas outras sedes do caos... A praia carioca deu até um ar mais classudo para os apreciadores dessa jam, ouvi rumores de que até o Cristo Redentor aprovou essa goma no Leviano's.

A bateria final de shows foi um estilhaço de  feeling, um furacão de baquetas e grooves bailando no ar. Parker Griggs mostrou por que virou um dos grandes nomes da guitarra e ainda deixou claro que dentro do show da banda existem dois momentos:

1) Quando ele abre os olhos para fazer o vocal.
2) E quando embarca em trip mode on de olhos selados em puro frenesi de solos...


O Rock é assim, o verdadeiro, independência ou morte... Em todos os shows, mesmo com endereços diferentes, uma coisa foi padrão, a chiadeira na saída era a mesma: Abra... Xas... Abra... Xas... Abra...Xas... 

Foram cinco dias no talo, sem intervalo pra ficar grog ou de recuperação, era show atrás de show e antes do show tinha um esquenta na Jam. Os caras chegaram mostrando humildade e muito som, e retornam tranquilos sabendo que cumpriram seus respectivos deveres e finalizaram apreciando aquela soneca dos justos no carro até o triste (mas feliz), retorno para o aeroporto e depois para os States.

Até mais Radio, voltem logo e, você, gafanhoto que não viu isso ao vivo... Bom, não foi por falta de oportunidade, o Alvin Lee de Iowa saiu em forma de power trio fazendo um Moonwalk pelo mar vermelho do Blues-Rock Bíblico... Quem é seu Deus agora?

E por último mas jamais menos importante, gostaria de profetizar acá um agradecimento a todos os envolvidos em todos os shows. Muito obrigado pela atençã, o apoio dos senhores para o desenvolvimento e conclusão dessas linhas foi primordial e nada mais justo do que celebrar este trabalho relatando os fatos. Um brinde a essa Tour, tão fina e doce quanto o primeiro acorde da epopéia Fuzzlyiana.



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