A Odisseia do Radio Moscow Pelas Veias Tupiniquins

Quando o Radio Moscow chegou em solo de terceiro mundo confesso que desacreditei. Não é todo dia que temos uma banda desse porte por aqui e ver como toda a tour se desenvolveu de forma grandiosa é simplesmente fantástico, é lindo viver todo esse grande momento, estado a estado, show a show, ressaca a ressaca.

Com o trio já plenamente instalado, começamos a ter um gosto dessa tour com a primeira data, afinal de contas a loucura precisava começar em algum lugar e o pico escolhido para abertura dos jogos foi o sul do pais, Porto Alegre sentiu a embutida logo de cara - 01 de outubro.


Chegando com a bomba do chimarrão como baqueta, o trio colou na grade do El Toro Pub as 20 horas e de lá não saiu até que o Abraxas Fest se desse por encerrado. Só que quem achou que a noite e toda essa tour iria ser apenas a base de bluesy Moscow, se enganou. A cada show, a cada nova cidade, a line up mudava e além de uma grande fermentação underground, nós também tivemos noites satânicas e que estimularam toda a loucura do cenário Stoner nacional, que é importante salientar, só está nesse nível (também) pelo grande trabalho feito pela Abraxas.

No frio sulista a ordem das canções de ninar demônio foi:

- Mar de Marte
- Quarto Astral
- Radio Moscow


O Mar de Marte fez o que foi pedido, comunicou toda a plateia que o uso de despositivos de segurança era necessário e depois que todos nós colocamos os capacetes o som instrumental dos caras varreu o Pub. No momento posterior em que o furacão deu um pause entrou o Quarto Astral e aí o peso sumiu, só que em seu lugar o LSD balsâmico do também trio (desta vez Pernambucano) inundou o ambiente e a letargia só saiu quando o reverendo Parker, vulgo guitarrista Griggs, apareceu no recinto.

Mais de uma hora com Mar de Marte, mais de uma hora com Quarto Astral... Muito? Quando o Radio chegou o tempo dobrou e tem gente surda até agora, faltou piteira, a escala subia, descia e no bend a pressão nos ouvidos era maior do que cabine de classe econômica despressurizada.


Depois que a Tour começou não teve tempo perdido, dia seguinte já tinha mais som e agora era hora de chegar no estado que mais se deu bem com o Radio Moscow, a bela Santa Catarina e suas datas para dois grandes shows. Primeiro o som chegou em Ibirama e lugar melhor pra isso não poderia ter, o Woodsrock fez a presa e ainda brincou com o nome do embrionário festival. O resultado foi simples de ser equacionado, também abrindo a roda as 20 horas:

Radio Moscow  + Quarto Astral +  Sabiá Preto + Six Six The Clown = casa embalada a vácuo.

Outro detalhe que precisa ser salientado é que em todos os shows o rolê foi independente. Cada maluco de cada estado que resolveu peitar essa missão e fazer a divulgação desses shows em cada CEP, fez isso sozinho. E aqui mais uma vez vemos o estímulo às bandas locais e, sinceramente, a vibe de ver um fest independente dando certo é inigualável.

Mais uma vez o Radio eletrocutou neurônios, o Quarto Astral deixou no banho maria e com o restinho que sobrou o Sabiá fez muqueca e o Six deu um teco na sobra (não necessariamente nesta ordem). Quase 5 horas de negociação e muito amônia debulhada.


Sem perder a conta de shots, passamos pela terra do Duque de Caxias, fizemos o primeiro show no estado do tenista Brasuca tricampeão de Roland Garros e agora continuamos na terra do esportista surfista para narrar os fatos do segundo show na terra santa, agora já na capital. Em suma nada mudou, tivemos mais estímulos sensoriais nacionais com o Mission Piots & The Dropkick Apollo, plus o denso instrumental do Space Chicken & The Eggs Of Disaster, que juntos tomaram outra dose do néctar de Peiote.

Porém uma vez mais o trio reinou absoluto, a pedaleira do reverendo Parker fez o pessoal sair da casa cantando o wah-wah, nem ressaltei os efeitos colateralmente auditivos por que achei que a essa altura do campeonato a sequela fosse universal, batia até eco e não era culpa da fumaça, talvez do baixo do Anthony ou da batera do Paul... Estamos averiguando, o pessoal do música ofensiva ficou mais 13 que o bar, treze.


A escopeta seguia descendo a madeira nas balas. Outro lance primordial dessa sucessão de eventos foi como tudo foi projetado. Maestria nos horários, qualidade de som, estrutura para abrigar as pessoas, tudo isso fora vários shows em lugares distantes com um itinerário praticamente Britânico, algo que em São Paulo também se manteve. Evento as 18:00 no papel e na realidade também, a casa lotou todos os espaços da Jam e quando os trabalhos foram inciado o pessoal começou a entender a grandiosidade desta noite, a atmosfera do Inferno estava nebulosa.

O Quarto Astral veio mais uma vez e aqui se faz necessário elogiar os caras, o trio do Yoga psicodélico foi pra Porto Alegre, Ibirama, veio pra cá e ainda fechou a viagem de xamã no Rio de Janeiro. E aqui (ainda em sampa), o som foi demencial, fora que ver a saída dos caras e despertar no choque térmico avassalador do Fuzzly não é pra qualquer um, Cuibá e Pernambuco representaram na tour e mais uma vez estavam compactuados com satã, eles e a Abraxas.

As 22 horas entrou o som das vias radiofônicas Russas e aí meu caro o que eu sei é que faltou imaginação... Todos nós que tanto fritamos já estávamos plenamente ''acostumados'' ao estrago do Radio Moscow, mas ao vivo é um coisa com a qual você não se prepara, é igual a morte. Teve baqueta pra plateia, Rickenbacker sem palheta diretamente na sua cara e mais som de Fender pra tirar toda e qualquer dúvida que o som deste instrumento só é ''frágil'' na mão de quem não manja. 

Foi outro show que fechou com duas horas e o dichavamento guitarristico foi frenético, poderia até citar mais detalhes só que devido ao exacerbado número de muquetas que tomei, receio que tenha perdido as lembranças no memory card. Sai do recinto querendo processar a Abraxas... Meus ouvidos estão em plena revolução de zumbidos...

Foi shangri-la, e no Rio foi a mesma coisa, talvez até pior por que a line up ainda incluia o Barizon! Viagem nostálgica de festival culminando com o mesmo estrago aqui já escrito-e-narrado nas outras sedes do caos... A praia carioca deu até um ar mais classudo para os apreciadores dessa jam, ouvi rumores de que até o Cristo Redentor aprovou essa goma no Leviano's.

A bateria final de shows foi um estilhaço de  feeling, um furacão de baquetas e grooves bailando no ar. Parker Griggs mostrou por que virou um dos grandes nomes da guitarra e ainda deixou claro que dentro do show da banda existem dois momentos:

1) Quando ele abre os olhos para fazer o vocal.
2) E quando embarca em trip mode on de olhos selados em puro frenesi de solos...


O Rock é assim, o verdadeiro, independência ou morte... Em todos os shows, mesmo com endereços diferentes, uma coisa foi padrão, a chiadeira na saída era a mesma: Abra... Xas... Abra... Xas... Abra...Xas... 

Foram cinco dias no talo, sem intervalo pra ficar grog ou de recuperação, era show atrás de show e antes do show tinha um esquenta na Jam. Os caras chegaram mostrando humildade e muito som, e retornam tranquilos sabendo que cumpriram seus respectivos deveres e finalizaram apreciando aquela soneca dos justos no carro até o triste (mas feliz), retorno para o aeroporto e depois para os States.

Até mais Radio, voltem logo e, você, gafanhoto que não viu isso ao vivo... Bom, não foi por falta de oportunidade, o Alvin Lee de Iowa saiu em forma de power trio fazendo um Moonwalk pelo mar vermelho do Blues-Rock Bíblico... Quem é seu Deus agora?

E por último mas jamais menos importante, gostaria de profetizar acá um agradecimento a todos os envolvidos em todos os shows. Muito obrigado pela atençã, o apoio dos senhores para o desenvolvimento e conclusão dessas linhas foi primordial e nada mais justo do que celebrar este trabalho relatando os fatos. Um brinde a essa Tour, tão fina e doce quanto o primeiro acorde da epopéia Fuzzlyiana.



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