Saturndust - Saturndust

A música é uma mensagem que sempre me fez mais sentido quando ela simplesmente não falava a ''língua dos homens'', como diria Renato Russo, fã de Vodka. Lendo isso parece que o escritor precisa (e muito) de ajuda psiquiátrica, mas creio que a história não seja bem assim. O som pesado sempre foi uma paixão, só que minha devoção sempre foi centrada no lado não intelectual das notas, sempre fui viciado nas reverberações que nos fazem viajar, nas trips que creio eu, fazem o mundo girar.

Pegando um tradicional Iron Maiden por exemplo, nós conseguimos entender a parte intelectual da coisa, o som é vibrante, eloquente, bem feito e muito criativo, só que se você quer algo para sair de órbita, algo que você simplesmente não precise entender, o som da donzela não é a melhor opção. O propósito é a viagem, é aquela sensação de que tudo vai virar fumaça. A imersão no underground do barulho.

O que também não quer dizer que muitos adeptos da fuga sonora não gostem de conteúdo, não, o lance definitivamente é a forma que a transmissão dessa ideologia acontece. Prefiro ouvir relatos coesos por meio de insights, com passagens que mudem minha mente e que quando retornem me façam pensar... Gosto de ser racional nos intervalos.


E hoje em dia esse pensamento filosófico vive uma de suas melhores fases, milhões de pessoas adotaram essa forma de pensamento, logo, várias bandas começaram a ser reconhecidas pela criatividade lúdica. Só que o lance agora chegou no nível que nós gostaríamos, esses sons alteradores de percepção não são feitos apenas na gringa. Temos toneladas de sons nessa linha que são feitos fora daqui, claro, mas muita coisa boa também reside em vosso CEP. 

E o que não falta para o brasileiro é motivo para querer sumir no groove, falta até água quando a boca está seca e só tem fumaça no ar. O Doom, o peso que busca expandir o ambiente, o farelo de pólvora que explode miolos por aí, também reside no nosso quintal. E quando você busca entender alguma coisa, só que almeja fazê-lo requisitando a imunização de forma lenta, densa e aérea, creio que nada seja mais promissor e oportuno do que a estréia do Saturndust, o debutante auto intitulado (lançado dia 26 de janeiro), teletransporta seu corpo e deixa suas mente planando por aí como uma session psicografada pelo Chico Xavier.

Line Up:
Felipe Dalam (guitarra/vocal/sintetizadores)
Marlon Marinho (bateria)
Frank Dantas (baixo/vocal)



Track List:
''Gravitation Of A Hollow Body''
''All Transmitions Have Been Lost''
''Realm Of Nothing''
''Enceladus''
''Hyperion''
''Cryptic/Endless''


Demorou, mas depois de alguns singles e cinco anos de muito trabalho, creio que o debutante dos paulistas do Saturndust pagou todo a espera com juros e correção, o trio deu vida a um dos discos mais coesos do cenário nacional. Além de sair em diversos sites gringos e outra dezena de Blogs do mais conceituada gabarito, essa prensagem caótica e seus 45 minutos de corrosivas visões de Doom, conseguem criar um som que tal qual a capa, te manda para o espaço.

Sua mente parece uma sonda que vai em busca de sinais de ocupação MST alienígena, se assemelha a uma cápsula que quando entra em contato com o território do E.T, é expandida, comprimida e esmagada pelos altos índices de pressão. São 6 etapas, a primeira, ''Gravitation Of A Hollow Body'', já mostra a conexão com os forasteiros e abre os trabalhos com uma timbragem que deve esfarelar satélites com a mesma fúria de um buraco negro.

O peso é realmente absurdo, mas chover no molhado é algo que o Saturndust não fez. Nota-se que esse disco possui essa proposta mais panorâmica, logo, se fosse uma quebradeira de início ao fim seria maçante, o que não é o caso. Rola uma abordagem mais puxada para o Space uma energia levemente Progressiva e um vocal que não é abafado pela ogiva nuclear desse teorema sideral, que já na abertura chega a quase 8 minutos e faz cosplay de suite em ''All Transmitions Have Been Lost''.



Todos os envolvidos fazem um trabalho excelente, sempre destaco o papel do Felipe Dalam pois as linhas da guitarra do cidadão estão bastante potentes, e a prova disso é que não temos guitarra base, isso sem falar no vocal, que sem se perder na viagem, faz partipações elementares de uma forma muito realista com o contexto do disco. Parece que ele esbraveja as letras em meio a um furacão supersônico. Além disso ainda temos o feeling chapadíssimo do baixo de Frank Dantas (que também auxilia nos vocais), e da bateria Bonzo do delicado e levemente imerso no delay, Marlon Marinho.

O nível de qualidade é ridículo, é o tipo de som que ao sair em sites de fora comprova que nossa cena tem espaço nos principais festivais, seja com sons que necessitem de um capacete e uma bigorna para não fazer o seu corpo ser varrido por uma cobertura de asteróides, até transições que reforçam o contexto do disco e continuam isolando sua mente nesta longa, densa e balsâmica ideia, que conta até com sample de Carl Sagan.


Mas não pensem que o disco perdeu o caráter que fez com que o trio ganhasse atenção da crítica. ''Hyperion'' é uma ode aos primórdios do grupo e mostra o poder de um baixo em puro estado de reverberação com ideias fragmentadas, e riffs que carregam o som igual um eremita no meio do nada. Momento onde a bateria que é a responsável por bombear o caos para os outros envolvidos na jam. Mais do que um registro denso, pesado e esfumaçado, creio que essa abordagem sufocante e que quase trava o cérebro do ouvinte já tenha sido feita, mas poucos conseguiram esse grau de qualidade. Um brinde aos que gravitam próximo do Sputnik.

2 comentários:

  1. Fodaa, adorei o post. Tenho um blog só de divulgação underground nacional.
    Topa uma parceria? me avisa lá: http://honrabr.blogspot.com/ vlw flw \m/

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  2. Agradeço pela força mano, to com a plataforma montada mas eu nem sei fazer essas parada, vamo fazer via face, preciso ver como monto isso ai!

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