A apoteótica Betty Davis

Os homens negam, mas as mulheres mudam o cronograma de nossas vidas. Elas nem alteram o nosso horário, muitas da vezes elas jogam o despertador antigo fora e nos adestram a seguir o delas, só que até notarmos já se passaram uns 5 ou 6 meses.

As nossas manias são podadas, a tampa do vaso perde um pouco de sua costumeira ousadia e até a louça passa a sofrer sérias consequências. Agora o depósito de pratos que antes era uma clara tentativa de maquete do Empire State Building, começa a conhecer o detergente e, como se não fosse suficiente, ainda é enxaguado, secado e guardado.

Notem como a alegria começa a ficar descolorida. À Princípio isso não é percebido, o bobalhão está ocupado demais admirando as curvas e tonto em excesso por aceitar tudo, só que devo admitir, ha males que surgem para o bem, mesmo que sua senhora não venha a permanecer por muito tempo... Porém certas marcas acabam sendo perpetuadas e por mais que você volte ao padrão antigo, a moça trouxe um tempero novo, você descobriu que as tarefas de casa não são uma imitação da usina de Chernobyl. 


A vida ganha uma nova perspectiva, não é nada simplório como comprar uma TV com mais polegadas, é mais profundo que aumentar o campo visual, o lance pode não durar, mas a troca de influências pode ser fatal por uns tempos e, sim, pode alterar até no groove. Por mais que os músicos apreciem fazer aquele bom e velho rodízio de corpos, vai chegar a hora que eles estarão bêbados o suficiente para apostar em algo mais durável.

O que não falta é exemplo de casamento que não deu certo, aliás creio que para estar envolvido nesse ramo todos precisam possuir pelo menos um divórcio e, por favor, não seja ingênuo a ponto de pensar que essa rotatividade fica restrita ao campo do Rock 'N' Roll. E o Miles Davis sustenta essa afirmação, até o mestre do Jazz, um dos maiores nomes da história da música já se amarrou e pasmem os senhores, foi influenciado pelos LP's de sua patroa.



Betty foi uma das poucas mulheres que um dia puderam ostentar o sobrenome ''Davis'' no fim de uma assinatura. E mesmo que a americana só tenha ficado casada com Miles durante um ano (68-69), ela com certeza tem muita história pra contar, afinal de contas a moça foi a maior responsável pelos rumos ácidos que Miles tomou, tanto durante este curto romance, quanto posteriormente.

Sendo que chapações sonoras como ''On The Corner'' e a odisséia do Jazz Fusion ''Bitches Brew'', só foram arquitetas depois que sua sinhá trouxe a nata do Funk e da Psicodelia para a residência Davis. Fazendo com que nomes como Sly Stone e Jimi Hendrix (pífio guitarrista com o qual Miles quase gravou um disco), tocassem a campainha e descabelassem o som caxias-tradicional do Jazz.


O trompetista gostava de pavonear suas mansões com grandes sessions entre músicos, reuniões onde, a música era fermentada de forma natural e sua mulher logo percebeu o caráter estimulante que isso poderia ter em inúmeros aspectos, tanta na carreira de seu marido, como em sua vida de modelo e respectiva música, que só começaria a ser gravada após o fim do casamento com a mente brilhante por trás de ''Kind Of Blue''.

Betty Mabry foi uma modelo de sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, só que após seu casamento com Miles ela começou a questionar sua posição, declarando que: ''Para ser modelo não era necessário possuir um cérebro'' e com isso em mente a negrona resolveu aplicar o que aprendera com seu ex, só que misturando com suas influências de clima Motown e o resultado é excelente, aliás deu tanto caldo que virou carreira.

São quatro discos de estúdio, três lançados na década de 70 e ''Is It Love Or Desire'' (que foi gravado em 76 mas só saiu em 2009). Todos venderam relativamente bem na época de lançamento, mas não foi nada de outro planeta, chegou na Billboard mas acabou ficando no miolo, top 50... faixa dos 40 mais. Só que com o passar dos anos esses discos se tornaram grandes clássicos e o primeiro deles (o autointitulado lançado em 1973) é o mais celebrado hoje em dia, mas todos são muito bons.


Line Up:
Betty Davis (vocal)
Larry Graham (baixo)
Gregg Errico (bateria)
Doug Rauch (baixo)
Merl Saunders (piano)
Jules Broussard (saxofone)
Sylvester - The Pointer Sisters
Patryce Banks - The Pointer Sisters
Kathi McDonald - The Pointer Sisters
Annie Simpson - The Pointer Sisters
Willy Sparks - The Pointer Sisters
Willie Sparks (bateria)
Neal Schon (guitarra)
Pete Sears (piano)
Doug Rodrigues (guitarra)
Richard Kermode (piano)
Hershall Kennedy (órgão/vocal)
Victor Pantoja (percussão)
Mic Gillett (trombone)
Greg Adams (trompete)
Skip Mesquite (saxofone)



Track List:
''If I'm Lucky I Might Get Picked Up''
''Walkin' Up The Road''
''Anti Love Song''
''Your Man My Man''
''Ooh Yeah''
''Steppin In Her I. Miller Shoes''
''Game Is My Middle Name''
''In The Meantime''


A ideia inicial era sair da Inglaterra e aparecer em Los Angeles para gravar um disco com o Santana, um detalhe que além de mostrar o talento da cantora, mostra como esse som estava fadado a pelo menos ser concretizado.

Só que a moça era tinhosa, chegou nos EUA e não deu nem bola para o grande Carlos e se concentrou em criar seu próprio material. Fazendo conexões com contatos que fez na época que estava com Miles e fortalecendo o laço criativo para fechar o baile com Gregg Errico (Sly & The Family Stone), e requisitar a nata de músicos da Bay Area, fechando a conta com Neal Schon, Doug Rauch e Larry Graham.

O som desses discos agrega o Funk dentro de seu estado mais bruto, onde além de linhas muito bem traçadas e entrelaçadas entre todos os instrumentos, os envolvidos apostam na riqueza de detalhes como revolução e arriscam riffs ácidos e passagens que assustam pelo peso, isso mesmo que você leu, peso.


Quando abrimos o disco com ''If I'm Lucky I Might Get Picked Up'' a coisa fica clara. Percebam a chumbada da percussão, o groove passando por cima de tudo e a voz chavosa da senhorita, que aliada daquele bom e velho approach Soul, chega encurralando orelhas com um inspirado e rifferamático Neal Schon em puro êxtase depravado.

Larry Graham bem que tenta mas ele também perde a linha. Os temas são curtos mas a cozinha é uma senhora quebradeira, tudo chega somando no groove, desde os ilustre backing vocals do pessoal da The Pointer Sisters até o órgão de Hershall Kennedy, que chega recheando a baguete do swing com ''Walkin' Up The Road''. 

Mas o destaque do disco é a senhorita Betty, ela domina o vocal de uma forma que apenas os grandes conseguem, ela irradia sua arte e como se não bastasse ainda tinha um time de músicos que ganha até Champions League, se liga no que o baixo faz em ''Anti Love Song'', destilando riffs como se fosse uma guitarra!

Segura o ímpeto temperamental da mulher, ''Your Man My Man'' surge com uma confiança que chega a ser até arrogante e quando o Wah-Wah chega pra somar, a casa sente a piração e os ouvintes percebem que o Miles era nerd demais pra essa mina, o marido ideal devia ser o Sly, tamanho o grau de Funk que temos em ''Ooh Yeah''. 

Mas sem entrar nessa de conselheiro amoroso, antes só fazendo sons como ''Steppin In Her I. Miller Shoes'', do que mal acompanhada dando rolê em passarela sem groove no nível de ''Game Is My Middle Name'' ou metalizando a ideia com ''In The Meantime''. Agradeço essa senhora não só por ter apresentado o Funk ao mestre, mas por ter gravado seu próprio material, um dos raros exemplos de esposas que tinham uma profissão que ia além de ''ser esposa do Miles Davis''. Coisa fina, gritaria Black Power!

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Bob Marley - Survival

Com tantos problemas no mundo, com tanta dor e excesso de controle, crença, imposição de ideias e conceitos... Listar parece até algo vago e aí é que está o problema, quando os percalços não nos causam desconforto à ponto de nos fazer levantar e se tornam apenas lamentações ligadas ao desespero.

Somos capazes de decidir nosso destino e temos não só o direito mas o dever de fazê-lo e, se precisar, lutar por isso. Mesmo que não nos queiram juntos, unidos pelo todo, da forma que realmente deveria ser. A revolução não é uma anedota regada à sangue, pelo menos não deveria, o sangue de um povo precisa correr em veias e não pelo chão. Um país só é de fato um país quando seu povo para de nutrir ódio por uma mesma bandeira, algo desesperadoramente hilário: bancar a guerra e a paz com a antítese sem fé de uma pátria sem bandeira. Pátria esta que em teoria prega a união, mas que na verdade apoia o asqueroso racismo ideológico ou colorido pela pigmentação do couro da pele.

O sistema político alimenta essa cadeia de cemitérios a céu aberto. A fuga dessa Babilônia parece até inevitável, até por que a pureza da cor da pele é irrelevante perante o brilho de um par de olhares. Porém, para alguns, ela esconde a verdade. Transforma um ser humano em peso de papel e alimenta sua descrença, o deixa fraco e apenas faz com que sua vida institucionalizada se assemelhe com a rotina de um presidiário em paradoxal liberdade.

A sobrevivência se torna um mito. O sobrenome compra tudo, o dinheiro banca a loucura, a influência... A utopia é quase uma realidade para quem consegue se manter corrupto neste caminho egoísta, mas na mente de quem é a base da pirâmide o tema já virou lenda.


São passos vazios, pés que antes caminhavam com um sentido verdadeiro e real sem pensamentos forjados pelas circunstâncias. Um tempo que deveria existir em todos nós, uma época que não é descrita em nenhum livro, que leva o indivíduo em consideração e tenta elevar seu espírito, mas sem religião, afinal de contas a verdadeira religião é aquele que te move, o que lhe faz andar enquanto muitos formam uma fila.

A unificação de tudo é o molde da longevidade, mas sem levar em conta o aspecto material, até por que o direcionamento correto é o espiritual. A luta segue e alguém sempre vai virar  estatística para que algo comece a ser arquitetado, algo de fato grande e impactante... Revolucionário talvez.

Alguém que consiga trazer uma mensagem maior do que ele próprio e tenha noção de que é apenas um instrumento de paz, de mudança e de propagação dessa nova formatação de um corpo de ideias para completar a peregrinação e purificação dos caminhos. É tudo questão de se munir de todas as armas possíveis para não nos deixar influenciar, precisamos de integridade para chegarmos ao apogeu do virtuosismo. Defenda seu ideal e siga rumo a sua própria colônia interior, procure seus semelhantes mas não se desligue dos pensamentos diferentes, dissolva as ideias e complete o mar de armas psicológicas lado a lado, sem diferenças. 

Complete o caminho. Veja que no começo de tudo, no início deste pergaminho, a missão estava só no começo. Com o decorrer das linhas as coisas começaram a ficar mais claras e tudo seguiu seu fluxo. Talvez você tenha embarcado em seu caminho e encontrado a trilha de algo maior que você, algo que seja benéfico para seus semelhantes... Talvez tenha começado a crer em seu potencial... Talvez tenha começado a lutar, superou a cilada de seu próprio povo e começou a evolução. Você está pronto, você é um sobrevivente, um dos 48 revolucionários do clube da liberdade.


Line Up:
Bob Marley (vocal/guitarra/violão)
Aston ''Family Man'' Barrett (baixo/guitarra/percussão)
Carlton Barrett (bateria/percussão)
Judy Mowatt (vocal)
Tyrone ''Organ D'' Downie (teclado/percussão/vocal)
Alvin ''Seeco'' Patterson (percussão)
Marcia Griffiths (vocal)
Junior Marvin (guitarra/vocal)
Earl ''Wire'' Lindo (teclado)
Al Anderson (guitarra)
Rita Marley (vocal)



Track List:
''So Much Trouble In The World''
''Zimbabwe''
''Top Rankin'''
''Babylon System''
''Survival''
''Africa Unite''
''One Drop''
''Ride Natty Ride''
''Ambush In The Night''
''Wake Up And Live''


Se por acaso você, caro leitor, tenha apreciado este texto até o presente momento, saiba que o mesmo foi formulado pelo próprio Bob Marley, porém redigido por mim, em uma espécie de co-autoria. Falo sério, cada linha deste fragmento só foi criado por que teve como plena base toda a linearidade que o melhor disco do mestre Marley (opinião do resenhista), pode transmitir para os ouvintes dentro de um panorama histórico fantástico do cenário de guerrilha que o continente africano estava inserido.

Considero ''Survival'', o melhor disco do Jamaicano, pois creio que nenhum outro trabalho conseguiu ser tão relevante em seu próprio país, aliás creio que nenhum outro disco seja tão importante para o continente africano tal qual este aqui. Em menos de quarenta minutos o messias com dreadlocks fala do todo com um domínio de guru espiritual, focando no lado humano, usando o Reggae como sinônimo de pertencimento e levantando a bandeira Rastafári sem impor nada, e quem conhece o conflito do Oriente Médio (por exemplo), sabe o quanto isso é raro.


Os ensinamentos do Etíope Haile Selassie, a reencarnação de Deus, são um dos aspectos que adicionam sentimentos proféticos nas letras do lion man. Nesse disco o lado religioso é citado assim como em tudo que Bob escreveu, mas desde a capa, sentimos que o conteúdo é quase que 100% político, o lado dos ensinamentos é menos presente mas é ele, mesmo em pouca quantidade, que deixa o LP leve (180g) enquanto seu conteúdo pesa uma tonelada.

Lançado em 1979, ''Survival'' é o nono disco da granada Reggaeira que este cidadão estourava quando entrava em estúdio, porém diferentemente do que acontecia na própria África aqui retratada, a explosão criado por este cidadão era em prol do amor, da música e da união das diferenças. E dentre as alegrias que 2014 depositou em nossas vidas uma das maiores delas foi o aniversário de 35 anos deste marco subversivo no segundo dia de outubro, um pedaço de arte que intriga até quem não gosta de Reggae.


E o apogeu deste som anti opressão foi sem dúvida o show realizado dia 17 de abril de 1980 no Rufaru Stadium durante a cerimônia de independência do Zimbabwe, país que inclusive usava a música de mesmo nome (presente neste disco), como uma espécie de segundo hino. Uma prova de como o som do made in Trench Town estava atingindo o pessoal do topo, influenciando todos os movimentos que apoiavam a independência sem os absurdos das tradicionais ditaduras que tanto povoaram o continente.

O legado é justamente mostrar como a arte pode influenciar algo e não é exagero nenhum dizer que Bob foi um dos responsáveis pela independência, não só do Zimbabwe, mas também de várias outras bandeiras que ilustram a capa deste marco zero. ''Survival'' é praticamente uma obra conceitual sobre o poder do sistema capitalista e a submissão do homem perante este modelo, mas o elementar é mostrar que tudo acaba, até a Babilônia caiu e o senhor Marley foi o Niemayer responsável pelo seu novo projeto.

É fabuloso acompanhar as letras deste disco pois take após take nota-se que uma revolução musical começa, se desenrola e termina. O plano começa a ser tramado de forma tensa... Os diversos problemas do gueto são apontados  em ''So Much Trouble In The World'', os reprimidos são estimulados a lutar com a mão no peito ao som de''Zimbabwe'' e mergulham na miscigenação de ''Top Rankin'''. 



E entender o que acontece ao seu redor com ''Babylon System'', sentindo uma brisa libertária com a faixa título (''Survival''), se lembrando que são iguais com ''Africa Unite'' e que a felicidade é um direito de todos (''One Drop''). Acreditando em algo (''Ride Natty Ride'') ou não, pregando o respeito e mudanças para que o povo não seja enganado novamente cantarolando ''Ambush In The Night'' e colhendo os louros da empreitada quando a independência bate à porta, sempre com ''Wake Up And Live''.

O ouvinte começa descrente e acaba devoto. Começa preso e termina livre. Inicia a jornada careca e acaba com dreads. Surge sem religião e finaliza Rastafári de nascimento. Mais do que Reggae ou música de forma geral, creio que ''Survival'' seja mais que um disco, é um mantra. Trata-se de um livro aberto que cumpre a difícil tarefa de nos ensinar a viver de forma humana, o único exemplar de auto ajuda que de fato faz alguma diferença no beat pacífico de Jah. Façam o sacramento e venerem a poesia sublime do elevado Robert Nesta Marley.

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Led: A cor mais quente dos tons de Plant

Quando o Led Zeppelin se estabeleceu, a ideia dos caras começou a ficar ainda mais miscigenada a medida que a dupla Plant e Page se aventurava pela rica musicalidade africana e deixava Bonham em casa com a família e John Paul Jones no mesmo esquema de tranquilidade dominical. O resultado dessas viagens exploratórias surgia com clássicos Folks que foram eternizados em trabalhos seminais, algo que culminou com ''Stairway To Heaven'' o apogeu deste momento criativo.

De forma geral essas ideias mirabolantes e rolês poucos usuais para encontrar o néctar da música africana surgiam de Plant, o lado Folk veio dos dois, mas o âmbito de ritmos e percussões tocava mais na cabeça do vocalista, logo, quando Page podia, preferia comprar antiguidades e instrumentos para brincar no seu playground de Crowley, à ouvir batuques acompanhados de seu companheiro de banda.

Só que o som africano bateu no ouvido do Plant e ficou. Foi algo semelhante ao que aconteceu com Ginger Baker, quando este foi apresentado ao calderão de ritmos africanos por Phil Seamen: A vida de Robert mudou. É bem interessante ler relatos sobre essa época pois nota-se claramente que ele foi coletando influências e alimentando um som que apenas ele ouvia, um novo DNA que depois de sintetizado só se tornou público quando o Hippie foi desbravar a música em carreira solo.


Essa história resumida tem mais de 40 anos de idade e creio que milhares de brasileiros a conheçam, mas mesmo tendo noção de tudo que o Zeppelin era, é e sempre será e conhecendo a carreira solo de Plant, tendo lido tudo que saiu com o nome do cidadão (e todos os músicos envolvidos), confesso que fiquei absolutamente consternado e que, pela primeira vez na vida, não tive reação enquanto presente de corpo (e alma nem tanto), no maior espetáculo intimista que já vi na vida: Robert Plant & The Sensational Space Shifters: Especiárias de Marrakesh À Moda Lollapalooza

Não me interessa se o Led Zeppelin não vai voltar, se vai voltar (mentira, me interessa e não é pouco), ou se uma das vozes mais marcantes da música já está envelhecida e não alcança os agudos dourados de outrora, o fato é um só: 66 mil pessoas viram o Sir Robert Plant no palco Skol no primeiro dia de Lollapalooza e, este resenhista que vos escreve, se sente absolutamente honrado por ter feito parte disso de alguma maneira.

Cresci ouvindo esse cara cantar, nunca pensei em vê-lo e quando o velhaco adentrou o palco na estica, tudo que tinha pensado antes caiu por terra tal qual um satélite desfigurado por uma colisão com um asteroide, perdi a conexão com tudo e me impressionei com a malandragem de um cara que, é válido repetir: Está no topo de seus 66 veraneios.


Se por um lado este ícone não pode sair gritando como fazia nos tempos de ouro, hoje em dia o britânico nos ensina que ainda é possível fazer um belo show com uma voz mais limitada. Com uma instrumentação no seu tom, uma banda fantástica e uma malandragem que não se aprende na escola, o reverendo Robert Plant brincou com sua voz. Encontrou novos rítmos nas roupagens chapadíssimas que sua banda criava e além de cantar ''Lemon Song'', deu uma aula de música, matéria que teve até Willie Dixon e bastante Led, algo que Robert costuma dar menos espaço em seus shows fora daqui, (mas que em virtude de ''nos dever uma'', afinal de contas o Zeppelin nunca parou seu dirigível em terras tupiniquins), acabou sendo bastante abundante,

Foi até engraçado quando o mestre começou a cantar os primeiros versos de ''Turn It Up'', um dos singles de seu disco mais recente (o competente ''Lullaby And... The Ceaseless Roar''), todo mundo estava perplexo, não cantava, não falava, as cabeças estavam fundindo e quando acabou o show parecia que neurônio era coisa da elite, ainda bem que o cidadão fez um show mais enxuto.

Algo que em nenhum momento tira a beleza dos Medleys Zeppelianos, nem da instrumentação bastante singular de seu grupo, que justiça seja feita é de um talento assombroso, empolgando a platéria até em temas do novo disco, me espantando com ''Spoonful'' e pela fidelidade em sons que não precisaram de novos arranjos para arrebatar o público, como ''Rock And Roll'' por exemplo, o marco do final deste grande show.


Durante pouco mais de uma hora parecia que estava em outro país, habitando um sonho no Montreux Jazz Festival. A energia de Interlagos estava absurda neste momento do dia e o fato do mestre ter entrado as 18:20 foi ainda mais sinestésico, pois quando seu show acabou já estava escuro e as luzes de seu espetáculo foram se misturando e se acostumando ao entardecer e ao vento que tanto batia nesse Blues raiz. Foi lindo, poético e absolutamente marcante.

Nunca vi um show com mais de 60.000 pessoas ser intimista, mas quando acabou fiquei maravilhado por ter visto tudo aquilo. Creio que essa seja a maior prova da força que  Plant ainda possui: Chegar em um festival que não tem seu público habitual, com um novo som e ainda fazer um estrago desses e conseguir levar um estádio lotado no gogó... Tem que cantar muito e ser muito bom pra isso, coisa que esse cara era, é e sempre será: Um completo fora de série.

Esse show vai ser um acontecimento inexplicável na vida de todos que puderem presenciar este momento, vai ser algo místico, ''Natural Mystic'' como diria Bob Marley. Um traço de tempo que será digerido por anos e que nos resultará em grandes balanços.


As pessoas mais experientes (com mais tempo no taxímetro na terra), são as mais respeitadas, as mais estudadas e cultas... Com o show do dia 28 de março de 2015 aprendi que isso nem sempre tem fundo filosófico, este que vos resenha mensura a vida em shows, quem mais viu eventos ou quem viu os nomes mais marcantes são os mais bem vivídos, algo que a julgar só por ontem me deixa na frente de muita gente, merece até lugar no curriculum:

Entrevistador: Você possui alguma experiência?
Entrevistado: Não, nenhuma, mas eu já vi o Robert Plant...
Entrevistado: Creio que isso seja o suficiente, você está contratado.


E não se esqueçam: Ah Ah Ah Ah... Ah Ah Ah Aaaaahhh


Set List:

''Babe, I'm Gonna Leave You'' - Joan Baez

''Rainbow''

''Black Dog/Arbaden (Maggie's Baby)''

''Turn It Up''

''Going To Califórnia''

''Spoonful'' - Willie Dixon

''The Lemon Song''

''What Is And What Should Never Be''

''Finxin' To Die'' - Bukka White

''Whole Lotta Love''

Bis:

''Rock And Roll''



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Jack White: O Sweeney Todd do Lollapalooza

Luzes azuis, palco analógico, televisões de lazaretto, roadies vestidos como judeus ortodoxos e um coquetel de Blues que faz mais estrago que muito Molotov por ai. Esses são os elementos que formam o universo esquizofrênico, bipolar, Bluesy e sádico do reverendo Jack White, guitarrista que proporcionou um dos melhores shows para o primeiro dia do festival Lollapalooza, fechando a sessão de destaques com o Robert Plant e a viagem Subsaariana do Sensational Space Shifters.


Esperava por um show competente, afinal de contas tinha me dirigido para o festival com muitas horas de ''Lazaretto'' na cabeça, alguns anos de White Stripes e uma dose considerável de Raconteurs, isso sem falar em Dead Weather e no solo auto intitulado deste criativo inventor de riffs.

E para meu espanto o conteúdo absorvido pela minha embassada lente quatro olhos foi muito superior ao ''metido'', competente, que enumerei algumas palavras atrás. Mas o fato é que o Jack White solo conseguiu mostrar todo seu potencial ao mundo (e provar bastante coisa a si mesmo) e concretizar um fato para os ainda séticos: Ele é bom, bom pra caralho.

Duvido e muito que se o americano estivesse com a Meg White até hoje (levando o som nas costas enquanto ela baquetava a batera como se estivesse com medo dos pratos), que este lunático teria brindado os presente com mais de uma hora e meia de timbragens insanas, solos com um claro desiquilíbrio mental e uma instrumentação digna de uma resenha exclusiva para a banda de apoio do mestre do cerimônias. 

Line Up:
Jack White (guitarra/vocal/piano/violão)
Daru Jones (bateria)
Dominic Davis (baixo)
Dean Fertita (órgão/piano/teclado)
Fats Kaplin (theremin/mandolin/violino/pedal steel guitar)
Lillie Mae Rische (violino/vocal/mandolin)



Com uma das bandas mais técnicas e entrosadas que o mundo da música pode ouvir em disco e se impressionar ao vivo, o reverendo João Branco chegou e fez exatamente o que mais gosta: Confundir as pessoas. Teve Blues seco na orelha, baladinhas Folkeadas com aquele tempero de Whisky Jameson, quebradeira instrumental, delírios de Jazz, viagem com LSD Country, camadas garageiras e até slide numa onda sinfônica que trata de mostrar a relevância de um dos maiores guitarristas em atividades, dono de um dos espetáculos mais interessantes para se entreter neste afrescalhado cenário atual.

Tudo em seu show é insteressante, desde a posição dos músicos no palco (todos bastante próximos), o que aproxima Jack de tudo e cria uma energia invisível mas que acaba sendo a base motriz desse som, que é válido ressaltar, é fruto do mais fino néctar que a música produziu e que nesse groove se mistura sem nenhum pudor.


O evento de desenvolve sem frescura nenhuma, é um som atrás do outro, algumas jams entre as canções e um todo que corre com uma naturalidade assustadora, coisa que não é muito normal, ainda mais com uma música tão pouco usual como essa. E tudo que se escuta em disco é plenamente captado ao vivo, ''High Ball Stepper'' por exemplo veio com solo de violino e escambal.

O ser, ''Jack White'', é bastante peculiar nos palcos, sua alegria é tão singular que se assemelha a de um garoto brincando de abrir o registro pra dar choque na família toda e, por mais que essa descrição seja meio confusa, quando o cara sobe no palco sua guitarra caótica se funde com todo o ar Jazz-purista de seu fantástico baterista Daru Jones e ainda faz sala para os eruditos Dean Fertita, Dominic Davis (e seu belo cosplay de Paul Chambers), o multi tarefa Fats Kaplin e a afinadíssima Lillie Mae Risch.


Citei o Sweeney Todd no título e não foi só para efeitos de semelhança física ou com o vestuário, mas sim por que um show do americano se assemelha e muito com um corte de cabelo com o Edward Mãos de Tesoura Assassino. O menino pode muito bem tocar um som na boa, levando o som na estica como também pode (e é de seu feitio), entrar no olho do furacão do som, encavalando todo o instrumental e soltar faíscas com sua guitarra de detritos não cósmicos, cortando cabeças, assim como sua versão Hairdresser.

O repertório mostrou foco no grande sucesso de ''Lazaretto'' e nos brindou com eletrizantes versões da faixa que nomeia o disco, do Blues sacana de ''Three Women'' (com Jack no piano), muito feeling com ''Just One Drink'' e a bombástica ''That Black Bat Licorice'', tema que explodiu a platéia e deixa claro o motivo pelo qual esse cara é tão elogiado: Ele é diferente, desde a forma como sola até o modo como canta, ninguém faz igual e dentro de um mundo onde todos querem ter um som parecido com algo já feito isso é absolutamente louvável, grande momento, o branquelo dichavou o Lollapalooza e o Daru Jones deu um workshop gratuito com seus fundamentos jazzísticos e swing bombástico com pegada reggaeira pra sincompar o som.

Não foi só isso, o set list foi longo, a viagem fez uma geral pela vida e obra do ainda jovem (mas sacramentado talento), só que para efeitos de puro charme excêntrico a epifania do ''S'' do Senna chega ao fim e agradeça por não querer degolar sua mente enquanto o senhor passava seus olhos por esta ideia. Foi bom fazer parte do ''Seven Nation Army'' por um dia e ouvir Raconteurs pra variar... Não tivemos Plant mas quem estava presente viu algo ainda mais enérgico que uma chacina no cabeleireiro.


Set List:
''Icky Thump''
''High Bass Stepper''
''Lazaretto''
''Hotel Yorba''
''Temporary Ground''
''Weep Themselves To Sleep''
''Cannon/Dead Leaves And The Dirty Ground/Screwdriver''
''Just One Drink''
''Steady, As She Goes''
''Love Interruption''
''We're Going To Be Friends''
''Fell In Love With A Girl''
''Black Math''
''Three Women''
''Missing Pieces''
''Top Yourself''


Bis:
''I'm Sloly Turning Into You''
''Would You Fight For My Love?''
''That Black Bat Licorice''
''Ball And Biscuit''
''Seven Nation Army''



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Crazy Diamond - Syd Barrett & o Surgimento do Pink Floyd

Uma das histórias mais tristes e ao mesmo tempo mais midiáticas  da história da música é a saga do criador do Pink Floyd, Syd Barrett. O criativo e naturalmente artístico guitarrista Britânico foi mais um dos que sucumbiram às pressões do rápido estrelato, só que com temperos de LSD, quilos de maconha, haxixe e anfetaminas para fechar o pacote.

Mas como isso aconteceu? Como foi a criação do ''gênio psicodélico''? O que o levou a sua reclusão e aposentadoria da música? Todas essas respostas são encontradas no excelente livro Crazy Diamond  - Syd Barrett E O Surgimento Do Pink Floyd lançado em 1991 e relançado em 2013 pela Sonora editora.


Em relação ao Pink Floyd, sempre notei que os livros que você acaba encontrando são sempre sobre as obras primas e etc e tal, e quando narram o começo da banda, a fase Syd é bem mal e porcamente descrita, logo, sempre tive curiosidade de saber mais sobre a vida deste cidadão.

Aqui temos 228 páginas de uma excelente leitura e que além de nos proporcionar ótimas histórias, nos brindam com um panorama completo da total desordem, caos que foi a mente deste, que um dia, já foi um músico renomado. Nunca senti tanta pena por alguém que nunca conheci. Já li várias autobiografias e biografias de músicos, mas nunca terminei um livro e me senti tão impactado tal qual ao finalizar este trabalho.


Ver como sua infância aparentemente normal encontra a arte, assistir à narração de seu primeiro contato e paixão pelas artes, seu início promissor na música.... É lamentável ver que essa fase só dura até a página vinte. Dai em diante o LSD entra em cena, e sendo entornado aos litros dentro de um cérebro já psicótico, e misturado com tudo que pudesse alterar ainda mais o estado mental de um indivíduo, vemos a rápida queda de Barrett, e como ele foi, pouco a pouco, deixando de ser parte do Pink Floyd, e de si mesmo também.

Um aspecto que acabei não gostando tanto foi a forma que sua imagem é vendida. No livro eles falam de Syd como se ele fosse maior que Hendrix! É válido ressaltar que seu único bom disco é com o Floyd, o primeira trabalho da banda, o excelente e pioneiro ''Piper At The Gates Of Dawn'', depois com sua carreira solo temos apenas trilhas para notar a destruição desesperadora de um grande músico, e isso não é interessante, tampouco sustenta o caráter romântico que sua figura carregou após seu sumiço dos holofotes.


O mito Syd Barrett, o ''cara que ficou maluco por causa de tanto ácido'', acabou justamente recluso por conseguir enfim andetrar o meio que tanto queria, o da música, o que eu nunca entendi era todo esse endeusamento que se tinha junto de sua imagem, eu nunca senti isso por ele, acho que ele tinha tudo para ser um cara realmente cultuado, mas foi no máximo um bom músico. 

Teoricamente nunca foi nem metade do que a crítica afirmava, e o LSD pode ter sido o que ajudou a empurrar sua sanidade de um prédio, mas acho que mesmo sem o ácido as coisas terminariam desta forma, a esclerose é uma doença cruel, e com Syd ela foi ainda mais avassaladora, virou a fuga de seus problemas até o momento dele estar sozinho dentro de um ambiente protegido para evitar fúria e clínicas de habilitação. No fim das contas sua tão amada arte privou sua vida, e esse deve ser um fardo absurdo, até para alguém que não poderia compreendeer 100% tal qual o Britânico.

Acho sinceramente tudo isso muito triste, sem Syd o primeiro disco do Floyd provavelmente seria uma merda, foi ele que deu a identidade do som, e praticamente criou o disco todo, além do fato de abrir alas para que seus companheiros de banda assim como ele, pudessem compor, mas sem Syd tivemos coisas boas também, o que você me diz do ''Dark Side Od The Moon''?


Resumo toda sua vida numa passagem curta deste grande livro. O cunhado de Barrett tinha levado ele ao seu escritório, e foi buscar alguma coisa, e enquanto o já gordo e careca aposentado guitarrista espera, perdeu seus olhos em um violão e quando se deu conta estava dedilhando ele após décadas sem tocar em um exemplar daquele. Quando o cunhado voltou Barrett tomou um susto, derrubou a viola e deu um sorriso, mostrando os dentes de forma bastante clara, quase como a Monalisa...

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Ginger Baker's Air Force

Se tem uma coisa na vida que não tem como ser ignorada é o ciclo do seu destino. É algo bem mais profundo do que aquele par de meias que você ganha da sua tia, e acaba sempre passando de primo em primo até retornar para sua gaveta no natal seguinte, aceite, o par vai voltar, e você sabe disso. É parte não só do seu destino, mas como seu papel respeitá-lo e tentar jogar com os números que seus dados seguem sorteando, e se der errado, pelo menos se divirta, mas nunca cuspa no prato onde comeu.


Faça igual o Ginger Baker, na essência um músico de Jazz, mas que após o fim de dois (rockeiros) supergrupos, (logo na sequência!) soube ignorar o desgaste do fim do Cream, e o abrupto fim de genialidade do Blind Faith, para fazer um som e se divertir. Sim, muitos se matariam, (creio eu) mas o explosivo ferrugem baterista respeitou seu destino, recebeu a meia novamente, e soube que era hora de voltar para o Jazz, fez um supergrupo meio que ''sem querer'', e de quebra acabou com um disco formidável nas mãos. Ginger Baker's Air Force I e a certeira cantiga do ''Bom filho à casa torna'' lançado em 1970 com pinta de Big Band.

Line Up:
Ginger Baker (bateria/percussão/vocal)
Denny Laine (guitarra/vocal)
Rich Grech (baixo/violino)
Steve Winwood (órgão/baixo/vocal)
Graham Bond (órgão/saxofone/vocal)
Chris Wood (saxofone/flauta)
Remi Kabaka (bateria/percussão)
Harold McNair (saxofone/flauta)
Bud Beadle (saxofone)
Jeanette Jacobs (vocal)
Phil Seamen (bateria/percussão)



Track List:
''Da Da Man''
''Early In The Morning''
''Don't Care''
''Toad''
''Aiko Biaye''
''Man Of Constant Sorrow''
''Do What You Like''
''Doin' It''


Com o fim do Blind Faith Clapton foi tocar com a dupla Delaney & Bonnie, algo que não era aprovado pelo próprio Baker, por que além de Clapton ser um músico de outro patamar, o lero lero Pop da dupla não combinava com o que o guitarrista estava habituado a fazer, e a duração do projeto diz tudo por sí só, mas enfim. Sabendo disso, Baker foi ver o que o Stevie Winwood tinha no calendário, e mesmo que o multi instrumentista tivesse argumentado que ia voltar com o Traffic, o baterista convenceu o natural de Handsworth a embarcar no ''Baker's Airforce'' só para alguns gigs, nada muito sério (just for fun com retoques de sotaque Britânico), fora que a musicalidade desse projeto era grande demais para ficar restrita a jams sem atenção, foi só falar de Big Band que Winwood e Chris Wood (sax) aceitaram na hora.

E confirmando o efeito bomba atômica que todo projeto de Baker tinha nesse período, o Air Force também estorou rapidamente. Tão logo os caras inauguraram a quebradeira África-Jazz no Birmingham Town Jazz no dia 12 de Janeiro de 1900 e setenta, cerca de 72 horas depois a cozinha já era transferida para o Royal Albert Hall, que lotado, foi o palco deste categóricamente chapante LP.


Que explorando os tempos de Graham Bond Organization, chegou com um som que unia tudo que Ginger Baker tinha feito em sua vida, resultando num Jazz-Rock que explorava os limites do balanço do som, e que era bem diferente do que era feito na época, sem um Baker (ainda) tão imerso nos sons Africanos, mas já mostrando muita influência dessa nova aresta cultural que aos poucos começara a incorporar para sí.

Que se apoiando no belo sax de Graham Bond em ''Da Da Man'', e na calmaria bipolar dos mais de onze minutos de ''Early In The Morning'' exploram todo e qualquer corner da Jam, com Baker como principal foco do som, arrepiando o prato da bateria e rompendo a faixa dos 10 minutos como se não fosse nada demais. Temos os vocais de Winwood com ''Don't Care'', o seu clássico solo dos tempos de Cream com uma versão turbinada de ''Toad'' para os padrões de Big band, (com um solo de seis minutos que conta até com Phil Seamen na batera), fora os 13 minutos de fritação ''Aiko Biaye'', e mais um clássico sofrendo releitura, dessa vez ao som de ''Do What You Like'' do Blind Faith... 

De fato, o Air Force merecia mais, Baker dá um gosto de todo seu talento e capacidade musical, um cara excelente de ouvido, ótimo em arranjos e absurdamente criativo que nunca perdia o tempo na bateria, a não ser se fosse para dar um sarrafo no Jack Bruce. Um brinde ao Fusion Psicodélico.


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Robert Plant & The Sensational Space Shifters - Lullaby And... The Ceaseless Roar

Bom mesmo é quem faz música no começo de tudo, (ali na faixa de '60-'70) com poucos recursos, e, tirando leite de pedra (literalmente), cria discos que mesmo com toda a nossa vasta gama de tecnologia, ainda seguem representando uma meca exemplar para os rumos que a música vai tomar.

Bom mesmo é quem faz fama cedo com uma das maiores bandas de Rock de todos os tempos, mas que quando sai dela, (e pareceu chegar ao fim de algo que antes era brilhante), ficou olhando para o nada até bolar a próxima ideia. Ser relevante sozinho, em vulga carreira solo.

Bom é quem está dentro do Grooe ha mais de 40 anos e soube (como poucos) ir dançando conforme a música da época, ou conforme sua nova vontade de criação. Bom não, excelente. Ótimo é o Robert Plant, e mais oportuno ainda é seu novo disco, o décimo de estúdio, o atualizado, Folk, eletrônicamente chill out, e claro, Rock 'N' Roll - ''Lullaby And... The Ceaseless Roar'' lançado dia 08 de setembro é um dos discos mais surpreendestes do ano.

Robert Plant (vocal)
Justin Adams (guitarra/vocal/percussão)
Liam ''Skin'' Tyson (banjo/guitarra/vocal)
John Baggott (teclado/piano/vocal)
Juldeh Camara (percussão/vocal)
Billy Fuller (baixo)
Dave Smith (bateria)



Track List:
''Little Maggie''
''Rainbow''
''Pocketful Of Golden''
''Embrace Another Fall''
''Turn It Up''
''A Stolen Kiss''
''Somebody There''
''Poor Howard''
''House Of Love''
''Up On The Hollow Hill''
''Arbaden (Maggie's Baby)''


Quando fiquei sabendo deste novo projeto confesso que não fiquei muito animado. Plant tem grandes trabalhos solos, aliás todos mantém um belo e considerável padrão de qualidade, só que eu não esperava por uma mudança sonora, ainda mais por que em tempos recentes o cantor estava mergulhado em pesquisas dos primórdios da música Country, e em seu disco mais recente veio com um ar meio Bluesy.


Mas não, quando dei a primeira orelhada fiquei muito impressionado, o senhor Roberto Planta não só mudou seu som, como aos 66 anos de idade, fez questão de experimentar. Esqueça tudo que ele já faz na vida, mas ao mesmo tempo não, deixe resquícios de Heavy e temperem com Folk e uma xícara de chá com o Portishead, esse é o som conceito de  Lullaby And... The Ceaseless Roar.

Só que cuidado com essa frase, o som ficou com um clima ala Portishead e etc e tal mas não esperem aquele clima de imersão densa, Plant usou o conceito e o resto é sua marca registrada, sons Marroquinos, intrumental completamente no tom de sua voz, e doses de peso e muito brilhantismo, talvez seu disco mais intimista no quesito interpretativo.

Abre o disco com ''Little Maggie'' e note essa transformação do cachinhos dourados. Perceba que o toque eletrônico deixa o disco mais revigorado, aposto que se essse banjo estivesse mais na cara que eu e você não estaríamos citando-descutindo essa faixa. Depois da faixa teste drive ''Rainbow'' surge, e com esta temos a faixa conceito, o disco é todo nessa pegada, a voz de Plant baila entre o mar de experimentos e nuances viajantes.



E o mestre mostra que mesmo em um habitat de alta densidade sonora que o Folk sempre tem seu lugar, e que o clima de contos épicos só ajuda o som a ficar melhor, vide ''Pocketful Of Golden'' e a minha preferida do disco, ''Embrace Another Fall'', que vocal!

Esse disco também surge em um momento onde muito se fala de Led Zeppelin, sei que é uma merda ficar aqui chovendo no molhado sobre esta bendita reunião, mas por mais insano que pareça este que vos escreve apoia o reverendo Robert, ele não entrou na pilha e resolveu responder com música, e esta aqui é de excelente qualidade, fico triste por saber que não vou ver o Led, mas sei que com essa tour posso ver o Plant. Disco explorando aspectos de um sensorial bipolarmente dopado (''Turn It Up''), baladas mais lindas que gotas de chuva fazendo a curva na janela (''A Stolen Kiss'', ''Somebody There'') e vários outros temas que vão tirar um sorriso do ouvinte, o principal papel da música, e destes misteriosos parenteses. Grande trabalho Robertinho Planta!

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Miles Davis - Relaxin' With The Miles Davis Quintet

Todo mundo tem aquele dia da semana que nada da certo... Hoje tive um desses. Desde a hora que levantei da cama, até o momento em que sentei no computador para digitar este post, tudo, absolutamente TUDO deu errado. Quando cheguei na aula não estava me sentindo muito bem. Tá certo que para ir à aula raramente me sinto bem, mas hoje foi foda.

A palestra começou as 18:30 e me sentia como se tivesse sido atropelado por um mamute. Meu corpo estava dolorido de tal maneira que parecia que tinha acabado de tomar uma surra do Rocky Balboa! Depois que as aulas ''regulares'' acabaram fui alertado de que teríamos um ''Bis'' a partir das 22:30... E foi aí que a tortura começou...


Assisti ao embate extra com a alegria de um palmeirense ao ver seu time rebaixado. Depois que finalmente acabou, sai e comecei a minha dolorosa volta para casa. Pra começar estava chovendo, andei até o ponto e cheguei completamente ensopado. E fora o delay veicular glacial do qual fui vítima, a nave mãe dos bilhetes mensais estava completamente lotada.

Depois de quase uma hora saí da lata de sardinhas e andei até em casa... Completamente destruído, arruinado e molhado. Depois de chegar resolvi escutar música por que realmente era preciso, nada poderia tornar este dia pior, e para tentar acalmar os ânimos coloquei o trompete medicinal de Miles Davis na vitrola. 

Line Up:
Miles Davis (trompete)
John Coltrane (saxofone)
Red Garland (piano)
Paul Chambers (baixo)
Philly Joe Jones (bateria)



Track List:
''If I Were A Bell'' - Frank Loesser
''You're My Everything'' - Harry Warren
''I Could Write A Book'' - Richard Rodgers
''Oleo'' - Sonny Rollins
''It Could Happen To You'' - Jimmy Van Heusen
''Woody 'N' You'' - Dizzy Gillespie


Todos os trabalhos do ''The Miles Davis Quintet'' são excelentes. Fora esse ainda existem mais três. Caso você apreciar este aqui, corra atrás dos outros pois vale a pena, cada disco trabalha dentro de uma aresta sonora diferente, entra no Bop, migra pra esse nicho mais chill out ou mescla tudo com a parte clássica-raiz do começo do estilo.

Do momento do Play em diante não importa o quão terrível seu dia tenha sido, ou o quão doente você esteja, esta jam irá resolver tudo sem usar um Tylenol se quer! Sente-se meu amigo, relaxe, sinta a levada calma na bateria... O sax de Coltrane... O piano... Ahh o piano! E o trompete de Miles é sem palavras, surge ''If I Were a Bell'' e você já se sente até mais leve e com menos pensamentos.


E quanto mais a bolacha baila em seu toca discos melhor fica, Davis massageia sua mente, temos ''You're My Everything'', ''I Could Write A Book'' e rola até uma homenagem à Sonny Rollins em ''Oleo''... De fato brilhante. É o poder do Jazz meu amigo, quando  ''It Could Happen To You''  e o Bebop cintilante de ''Woody 'N' You'' tocarem seus ouvidos, tudo será resolvido. 

Uma aula de Jazz das mais primorosas. Quarenta minutos de puras carícias Jazzísticas, escute tudo, acredite, é fantástico, sai de casa doente, vi tudo que existe de mais maçante em forma de palestra, tomei chuva na volta com ônibus em formato winrar, mas asim que coloquei os fones.

Marcando do ponto exato onde o play foi dado, até o momento onde o disco se encerrou, cheguei a pensar qual seria a serventia deste texto... Uma ideia que surgiu da raiva mas que graças ao Jazz, graças ao som nosso de cada dia, virou uma bela sátira de meu azar. Relaxe com Miles, tudo passa com esse Jazz psicológico e os conselhos terapêuticos do piano de Red Garland.


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Escutem ''Drowning In Red'', O Novo Gratino Cerebral do Red Mess

Depois de chegar metendo o pé na porta e um soco na cara em 2014 (como diria o Matanza), os caras da Red Mess abriram os trabalhos em estúdio para este ano. É de domínio público que a banda está fazendo giros para promever os sons que consagraram o ''Crimson EP'', mas também é válido acompanhar os caras de perto pois o trio está turbinando a cozinha para um full lengh, bolacha que dia após dia fica mais madura, pesada e se torna um um belo sinônimo de urgência musical.


E o próximo passo foi dado hoje, dia 24 de março de 2015, data estelar do lançamento de ''Drowning In Red'', o novo trabalho dos caras, que seguindo a linha de criação do EP anterior, segue elevando o padrão e chega só com a nata do som caótico.

Line Up:
Douglas Labigalini (bateria)
Lucas Klepa (baixo)
Thiago Franzim (guitarra/vocal)



Track List:
''Daybreak's Dope''
''Ready To Go''


Aqui temos cerca de 12 minutos de som, minutos plenamente distribuídos em duas balanças: ''Daybreak's Dope'' e ''Ready To Go''. Mas antes de ver pra que lado a brisa ia cair, confesso que fiquei olhando para a chapadíssima arte deste registro (feita por Gabriel Araújo e Vitória Plácido), e imaginei que o conteúdo poderia soar mais trabalhado na viagem, coisa que por sorte se confirmou.

Aposto que esse desenho não ficou derretido antes do play. Creio que os responsáveis pela arte tiveram o insight para o que se tornaria o produto final, mas inicialmente investiram em traços mais polidos... Depois do play que eles notaram a necessidade de derretar a lua de Marte, o conteúdo berra por camadas em decomposição e a dupla responsável arrepiou nessa conexão de imagem e som.

Gravado nos estúdios High Voltage e chefiados pela produção do Gustavo Di Lorio, Drowning In Red'' surge com os mesmos traços que deram a cara analógica ao som anterior, mas que em virtude da faceta mais letárgica apresenta uma finalização mais profunda e encorpada.

Me lembrou do trabalho mais recente do Brant Bjork, o chapadíssimo ''Black Power Flower'', mas aqui o insight é mais introspectivo e o som ficou ainda melhor do que no outro apanhado de grooves. A bateria bate seca igual tapa na orelha, o baixo caminha na crocodilagem e a guitarra surge eletrocutando todo o caminho.


Em ''Daybreak's Dope'' é ridículo chegar na marca dos quatro minutos e ver os instrumentos respirando por aparelhos... Mal sabe você que depois a nave decola e quando bate o Douglas já está abafando o som da cozinha e o quebra-quebra entra com Lucas Klepa e Thiago despedaçando o tempo no coliseu do Stoner.

Só que aí depois que o clima de sequela se estabelece, surge ''Ready To Go'', e aí a glicose escorre pelos riffs. Esbanjando vitalidade e arrematando a apreciação com uma session mais Rock 'N' Roll. algo que lembra a liberdade Southern por cima de uma Harley.

Trabalho de fácil audição, rápida imersão e de rara intensidade, esse novo EP do Red Mess surge para confirmar um grande momento para a banda e chega fazendo ainda mais barulho do que o ''Crimson EP'', talvez assim você, gafanhoto que ainda não teve a decência de sacar esse peso, escute tanto o que foi improvisado no trabalho anterior, como o que foi criado para anestesiar mentes com ''Drowning In Red'' e o afogamento marciano. Saquem o play abaixo e reparem na arte e no trabalho fotográfico do Renan Casarin... Coisa fina!

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Black Sabbath - Campo de Marte 11/10/13

Todo fã de Rock tem sonhos. Todos nós nos imaginamos vendo shows de nossas bandas preferidas, seja (elas quais forem), em qualquer lugar do mundo, num estádio gigantesco com uma abertura épica e no melhor show da vida.

Este que vos escreve já perdeu MUITOS shows e confesso que até ontem isso foi uma grande pedra no meu sapato. Perdi Roger Waters (duas vezes), AC/DC (só de lembrar já fico puto), Rush e outros vários, mas ontem vi algo que de fato mudou minha vida, ontem estava no Campo De Marte e tive a chance de ver o Black Sabbath.


Quando anunciaram a visita dos britânicos fiquei completamente extasiado e decidi que não perderia este show por nada, porém mais uma vez tinha um problema: O preço. Como o ingresso (pra variar) estava caríssimo, pedi para todos meus familiares, e quando parecia que ia não dar de jeito nenhum, meu pai financiou as melhores duas horas da minha vida.

Em relação às dúvidas quanto a qualidade do show confesso que nem cheguei a formular uma opinião sobre o assunto e o motivo é simples:  Desde criança ouvia falar nesses caras, sei a importância deles pra música e sabia da importância deles para minha formação. Se o show tivesse sido uma merda (coisa que de fato não foi), já estaria feliz, pois cumpri minha missão, eu tinha visto o Black Sabbath, mesmo que sem Bill Ward, se bem que me orgulho muito do estrago que Tommy Clufetos produziu

Voltando para show gostaria de fazer uma reclamação. Estava na pista normal, logo, quase não consegui me mexer (e falo sério), TINHA MUITA GENTE, tenho absoluta certeza de que o Campo de Marte não suportava aquela carga de visitantes, mais uma vez a organização deixou à desejar... Os únicos que foram bem tratados foram os endinheirados da pista premium, coisa que repito: DEVIA SER ABOLIDA DOS SHOWS.


Set List Megadeth:
''Hangar 18''
''Wake Up Dead''
''In My Darkest Our''
''She-Wolf''
''Sweating Bullets''
''Kingmaker''
''Tornado Of Souls''
''Symphony Of Destruction''
''Peace Sells''
''Holy Wars... The Punishment Due''


Voltando ao mais importante: O show foi fabuloso do começo ao fim, tirando todos os problemas de superlotação todos os presentes tiveram a oportunidade de ver algo épico, desde a abertura com um inspiradíssimo Megadeth, o público foi ao delírio, aliás devo ressaltar que o mestre Mustaine arrebentou, não só subiu praticamente no horário, como mais uma vez mostrou sua enorme presença de palco da maneira que só ele sabe, ao som de seus maiores clássicos, porém o Megadeth que me desculpe, estava à espera do Sabbath, e pouco depois das nove da noite ouvi a voz sádica de Ozzy ao microfone, e quando percebi já estava completamente estupefato ao som de ''War Pigs''

Ha algumas semanas postei a resenha do show do Iron Maiden e reclamei do som que estava baixo demais, se fosse reclamar do som de ontem teria que dizer que estava justamente o oposto disso, a jam estava completamente ensurdecedora. Com um instrumental padrão FIFA, um Ozzy produzindo belos vocais (aparentando estar felicíssimo), um Geezer Butler inspiradíssimo, um Clufetos que estraçalhou na bateria, e ele, o grande Tony Iommi, solando igual um lorde Inglês o público teve duas horas de pura queima de captação auditiva.

Logo depois de ''War Pigs'' me lembro que olhei para lado e notei a expressão das pessoas. Tinha uma mulher do meu lado que repetia a todo momento ''Cara nós estamos vendo o Black Sabbath''. Teve um na minha frente que olhava pra mim a cada 30 segundos e falava ''Não acredito nisso''.

De fato não sei nem como explicar o que aconteceu. Estava puto pela péssima organização e etc mas puta que pariu, quando o Sabbath entrou parecia que tinha 7 anos e estava vendo um DVD deles na televisão, foda-se os shows que perdi ou os que ainda vou perder, ONTEM VI O BLACK SABBATH, e confesso que até agora estou absolutamente atordoado.


Assim como os casos que citei acima, também mal acredito no que vi, foram mais de 10 horas em pé num sol bem razoável, escutando AC/DC durante umas quatro horas (pois aparentemente só tinha isso pra tocar), o que deixou todos nós que estávamos no recinto bem irritados (sim, nunca pensei reclamar do AC/DC), mas enfim, tudo isso foi perdoado quando o show começou.

Tive a honra de ver algo que pouquíssimos poderão ver, e meu amigo, se você não estava lá só posso lamentar, foi fantástico, minha ÚNICA queixa em relação ao show foi a falta de ''Sweet Leaf''', de resto só tenho elogios a tecer.

Gostaria de pedir desculpas por não ter fotos para ilustrar o post, estava impossível de se mover (como disse acima), e confesso que mal lembrei disso, estava completamente petrificado quando os caras entraram, porém precisava registrar algo sobre esse show, nunca me senti tão exaurido na vida, nunca me senti tão feliz, afinal, eu vi o Black Sabbath. 

Se com essa idade os caras fazem isso imaginem nos bons tempos?! Vou escrever até no meu curriculum: ''Sem experiência profissional, porém vi o Black Sabbath e vi Tommy Clufetos me fazer esquecer do Bill Ward''. E parafraseando o público que estava no Campo de Marte: ''Olê Olê Olê Olá Sabbath, Sabbath!


Set List Black Sabbath:
''War Pigs''
''Into The Void''
''Under The Sun''
''Snowblind''
''Age Of Reason''
''Black Sabbath''
''Behind The Wall Of Sleep''
''N.I.B.''
''End Of The Beginning''
''Fairies Wear Boots''
''Rat Salad/solo de bateria''
''Iron Man''
''God Is Dead?''
''Dirty Women''
''Children Of The Grave''
Bis:
''Paranoid''
Intro de ''Sabbath Bloody Sabbath''


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A Sin City de Cristiano Suarez

É muito loco o que o repertório de algumas pessoas podem fazer quando esta se involve com alguma aresta da arte. Seja escrevendo, pintando ou fazendo música, todas as nossas influências irão se juntar e explodir para sintetizar um novo DNA, algo que só você terá: Sua própria criatividade. 


Hoje mais do que tudo na vida o que mais me esforço para fazer é agregar. Desde literatura russa até grandes revoltas no Acre, cara, qualquer coisa, o lance de todas as manifestação artísta é o conteúdo, quanto mais você possui, mais coisas será apto à carregar como mensagem junto de seu trabalho, logo, conseguirá dialogar com vários públicos por meio de apenas uma manifestação. Chamo isso de arte em hiperlinks.

Parem de ser quadrados, pensem que estão nos anos 60 e expandam a ideia com uma remedinho que o Aldous Huxley usava igual Tic-Tac se preciso, mas por favor, pensem de forma livre, sem se prender a coisa alguma, afinal de contas nenhuma manifestação artística consegue vingar se o criador ainda possuir dúvidas. Receio este que a julgar pelo nível de fritação, conteúdo e estilo próprio que o Cristiano Suarez carrega na mala e na cuia, nunca nem passou por sua mente destra, 100% aquarela.


Diretamente de Maceió para todas as veias globais, Cristiano Suarez deixa claro para todo mundo como o repertório não faz verão se o mesmo não for bem encorpado e ainda muito bem acompanhado de talento, coisa que o cidadão possui pra dar e vender o resto no mercado livre. Misturando influências que fazem rolê desde o fino dos HQ's, passando pelo nosso som setentão de cada dia (sem se esquecer da ponte com os Exploitations), e dos litros de sangue escarlate de Russ Meyer... O traço do cara rende mais ideia que busca no Google.


Cores fortes, contrastes nos trinques e muito história para contar, é assim que o representante Suarez trabalha, seja nos brindando com uma cronologia das guitarras mais importantes da música, relembrando os grandes mestres da literatura Beat ou fazendo a arte dos maiores lançamentos nacionais. O lance definitivamente é rabiscar e fazer parte do maior número de círculos possíveis, não por puro capricho, e sim por absoluto envolvimento e competência.

Desenhar já é algo complexo, criar um estilo e conseguir misturar elementos de Pop Art com Psicodelia é absolutamente fantástico. Nós habitamos um mundo onde o ''mais do mesmo'' é o que impera, e por isso que surgi com esse relato, por que é absolutamente formidável ver que (ainda mais no nosso país), existam profissionais deste calibre, que mais do que tudo na vida, querem apenas ser vistos pelo maior número de pessoas possíveis.

É óbvio que nada surge de mão beijada, nem mesmo o conhecimento de Arte Lowbrow, Kustum Kulture e os quadrinhos de Crumb que esse cidadão tanto leu, mas a sensação de saber que você conseguiu se destacar por ser diferente é justamente a maior lição desse fissurado em Rockabilly.


Desenhar como se a sua vida dependesse disso, colorir como se o mundo fosse parar de girar se os tons não estiverem corretos e sentir cada sombreado, essa é a receita do Cristiano, mais um nome que prova como cada ser humano é fantástico e pode fazer coisas especialíssimas quando está sob efeito de Johnny Winter, William Burroughs e o som da cena local de sua cidade, que é desnecessário citar, graças ao seu trabalho é uma vasta contribuição para a cena de viciados em volumes exorbitantes. Continue colocando sua mente no papel Cristiano, só tome cuidado para não trazer danos aos admiradores. 

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Portishead e o Nirvana em Roseland NYC Live

A gravação de um disco é um momento único e indescritivelmente especial. Não é só o fato de registrar um novo material por possuir obrigações contratuais. É claro que isso existe, mas o que deve motivar um músico ou banda (ou pelo menos deveria), é a real necessidade de criar o novo, fazer jus ao seu status de ''artista' e expor a arte que habita seu subconsciente criativo.

Ainda creio piamente na arte em concepção natural, sem ser forçada por nenhum meio ou condição. Prefiro ver grupos que gravam discos com intervalos longos, do que outros (sem generalizar), que renovem canções de forma fútil, sem agregar nada, nem mesmo no som da própria banda, muito menos vislumbrando impactar o cenário musical, coisa que deveria ser o objetivo primário de todo disco: de cada palavra cantanda e de nota tocada.

Traduzindo isso tudo em uma palavra temos o sentimento. A fagulha criativa que faz com que músicos fiquem confinados em uma comunhão em prol de algo maior do que eles mesmos. Uma expressão de arte que eles ainda não criaram, não sabem como vão fazer, mas querem que seja algo pleno, que eleve as pessoas, e que as faça parar quando o play for apertado.


O som que sai das caixas precisa atingir o ouvinte, como um texto que não faz o leitor parar de passar os olhos pelas linhas, como um filme que não tira o foco do telespectador ou como o estouro do cronômetro dentro de um jogo de basquete. Aqueles milésimos de segundos onde o que mais importa é a bola que está no ar e precisa cair na cesta.

Todos esses são momentos em que você não sabe qual será a próxima reação. São segundos em que você não tem um chão debaixo de si e é, exatamente nesse frio na barriga, justamente a base dessa sensação que, a primeira vista espantaria qualquer artista, que o Portishead gosta de viver perigosamente. Com os ingleses cada nota é valorizada e, para ela sair a perfeição, tem que servir de parâmetro o som dessa reunião de mentes que consegue criar o novo; deixá-lo abstrato, nomear significado e ainda cumprir a tarefa inicial, fazer diferença no mundo.

Formada em 1991 na cidade de Bristol, Inglaterra, o trio mostra seu ideial coeso desde o principío. São quase 25 anos de história e a formação jamais se alterou. A alquimia do Trip-Hop sempre partiu dos mesmos nomes, todos sempre em busca do algo a mais: um disco que mude vidas e que altere o panorama do som, algo realmente visionário e ousado mas, que dentro da carreira deles, virou rotina e possui quatro capítulos: três trabalhos de estúdio e um disco ao vivo, o assombroso ''Roseland NYC Live'' lançado em 1998.

Line Up:
Beth Gibbons (vocal/guitarra)
John Cornick (trompa)
Geoff Barrow (bateria)
Dave Ford (trompa)
Adrian Utley (moog/guitarra)
Will Gregory (trompa)
John Baggot (teclado/piano)
Ben Waghorn (trompa)
Clive Dreamer (bateria/percussão)
Jim Barr (baixo)
Andy Hague (trompete/trompa)
Nick Ingman (condutor e arranjador da orquestra)
New York Phillarmonic (orquestra)



Track List:
''Humming''
''Cowboys''
''All Mine''
''Mysterons''
''Only You''
''Half Day Closing''
''Over''
''Glory Box''
''Sour Times''
''Roads''
''Strangers''


O Portishead trabalha na linha onde ''Tudo é tudo e nada é nada'', já dizia o Tim Maia. A música que a vocalista Beth Gibbons, o baterista Geoff Barrow e o guitarrista Adrian Utley criam juntos é quase mística. Eles não esperam tocar no rádio. O que sai das reverberações de seus respectivos instrumentos quer algo maior, eles vivem para ser o instrumento de uma mensagem e, creio que o maior mérito deles, é a forma como transmitem essa ideia. E eles são únicos nesse sentido.

Na época desse disco a banda tinha lançado dois trabalhos exuberantes, falo de ''Dummy'', o debutante lançado em 1994 e ''Portishead'' a réplica liberada três anos depois, já em 1997. A essa altura do campeonato o mundo estava acostumado com a banda, todos sabiam que pegar shows da tour seria complicado, pois eles nunca fizeram algo comparável a um Lollapalooza por exemplo e, além disso, nunca gostaram de fazer muitos shows. A idéia era exatamente o contrário: quanto menor o local, melhor! Os discos demoram anos para sair, o embrião sonoro leva de fato muito tempo para ser gestado, mas é tudo parte de um pacote e ele atende pelo nome de Portishead.


Existem registros que não podem ser ouvidos de qualquer forma não existem? Pois bem, a música dessa banda não pode ser ouvida de qualquer jeito, ela precisa de uma atmosfera, de um momento certo e de silêncio. A música que esses senhores exalam por meio de seus corpos cria um campo magnético no ambiente onde é tocada, por isso que eles nunca tocam em lugares abertos, e se o fazem exigem que cubram o espaço com uma tenda, a energia que entra não sai, e quando você acaba ainda sai carregando a radioatividade desta fantástica mescla de música eletrônica, Jazz, vertentes chill outs e música experimental.

E com dois discos tão aclamados pela crítica, shows, que mesmo em lugares pequenos e em pouca quantidade, foram absolutamente fantásticos. Então o que faltava? Aparentemente nada, mas é agora que surge o ideal romântico que foi a ponte para esse raciocínio. Justamente quando se está estabelecido, você vai lá e arquiteta um disco ao vivo com a filarmônica de Nova York e consegue elevar uma música que já era completamente inexplicável a um patamar inimaginável! Esta é a síntese desta união: arrepiar nucas do nada, sem explicação alguma, apenas fermentando a combustão da boa música e, neste disco, essa arte atingiu o apogeu do brilhantismo nesse sentido.

Aqui as sinapses se conectaram de uma forma nunca antes vista. Primeiro porque as músicas do Portishead em estúdio já eram absurdamente complexas pelas camadas e camadas de samples e partes tocadas, segundo porque o segredo da banda é a atmosfera, pois ninguém grita em um show desses caras. Existe o apluso entre as faixas, mas jamais durante, ou seja, faltava equacionar a densidade sonora novamente, deixar o culto a par do nirvana que antes era eletrônico e, agora, seria orquestrado.


E quando isso foi feito e, o material sob o palco chegou a impressionante marca de 50 pessoas, era hora de encontrar um local para abrigar o evento. Foi quando o Roseland Ballrom caiu como uma luva e o resto é história e a música, um exemplar de raríssima qualidade. Que começando com ''Humming'', ''Cowboys'' e ''All Mine'' (grandes hits do debutante ''Dummy''), deixam os telespectadores e ouvintes plenamente aclimatados a esta nova atmosfera de sentimento retumbante, de um instrumental rico e um sentimento que quase dói.

Tema após tema nossos ouvidos são desconstruídos, é uma performance absurda atrás da outra, e o incrível é o que a banda fez com tão pouco conteúdo, afinal de contas eles só tinham dois trabalhos na bagagem. E isso parece não ter significado nada. A elaboração dos arranjos recriou takes como ''Mysterons'', ''Only You'' e ''Half Day Closing'', só que em NENHUM momento essa parede de notas orquestradas abafou o trio principal, especialmente a porta voz disso tudo: a fantástica Beth Gibbons e sua voz que sente e acalanta cada nota,

São temas que não podem ser advinhados. Nunca é possível saber para onde a música vai remar, é algo que vai além da nossa compreenssão, é tão óbvio como o caminho que a fumaça de um cigarro ao vento irá traçar, só que mesmo não sabendo todos querem um GPS para chegar em ''Over'', um pedacinho de ''Glory Box'', ou um gostinho de ''Sour Times'', por que quando chegar em ''Roads", a rede não cobre o sinal. É nessa faixa que o show acaba para todos (mesmo sabendo que depois ainda tem ''Strangers''), mas o estrago é tanto que na faixa final acredito que todo mundo apenas a use para tentar assimilar o baque anterior.

É um momento que todo mundo anseia viver para poder contar aos filhos, aos amigos... Uma passagem de tempo que para ser traduzida em palavras leva anos! Escuto faz uma década e ainda não sei como relatar tal fato. O que sei e o que sinto é que toda vez que aperto play nesse som é como se ficasse de joelhos, como se o oxigênio que faz minha mente funcionar dependesse das notas dessa faixa e, que sem ela, tenho um colapso. Quando tudo chega ao fim, volto para a realidade e quando se escuta Portishead isso é o que seus ouvidos mais temem: o retorno a vida em silêncio, embalada à vácuo e ar... Ainda bem que existem balões de oxigênio.

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