A Patologia Psíquica do Reino de Abraxas

A literatura do final dos anos 50 e dos 60 ficou conhecida como um ''movimento marginal'', momento histórico que anos depois ganhou um nome e foi aceito como uma das passagens mais importantes na história dos escritos. A literatura Beat (nome deste processo verborrágico), foi o mais próximo que um verbo já foi de uma nota, em pura fricção de Groove, claro. Eram linhas que trabalhavam em puro processo de síncope e que confundiram muitas mentes brilhantes por aí, ao ponto de muitos ''puristas'' rejeitarem uma das formas mais complexas e artiticas de costura de palavras.


Hoje é sabido que a fluência Jazzística deste gênero era calcada na música de Charlie Parker, mas o principal (como se isso já não fosse o suficiente), era a forma lúdica e livre de qualquer pontuação que essa linha de pensamento literário possuia.

Nomes como o de Jack Kerouac, William Burroughs ou Allen Ginsberg por exemplo, ficaram conhecidos pela forma transgressora de seu linguajar requintado e pelas experimentações que tornaram a escrita desses caras completamente única. Se na música os anos 60 e 70 foram o apogeu do ácido e da libertinagem em vários aspectros em prol da expanção do psicodelismo  Hendrixiano na terra do Grateful Dead (dentro quintal da Grace Slick), na literatura, o movimento Beatnick foi o Woodstock da Academia Brasileira de Letras. 


A música nunca foi tão bem representada como nesse movimento. Cada palavra aqui era pensada e arquitetada de uma forma não verbal. O William Burroughs sentava pra escrever com uma benzedrina na cabeça, um LSD debaixo da língua e um cigarro biodegradável atrás da orelha pra apoiar o óculos, e ia metralhando sua Olivetti até o efeito terminar. É o clássico ''Write drunk, edit sober''. E o resultado é essa sinestesia que ficou imaculada em clássicos como ''Junky'' e ''On The Road'', e que abriu caminho para tratados não incluídos dentro da alcunha ''Beat'' per se, mas que descabelaram a ideia de muitos conservadores.

Mas aí é que surge o ponto que este emaranhado de sílabras tenta elencar: Como que os escritos clássicos destes exploradores da mente conseguem manter uma ligação palpável com a música? Como que o domínio da realidade extra-sensorial pode ser conquistado via um acorde? Bom, se alguns de vocês, indivíduos virtuosos, que inclusive clicaram neste contrato psicoativo não sabem, a única explicação é que perderam a jornada espiritual do Abraxas Fest e não obtiveram saídas multilaterais para as portas que levaram os presentes ao encontro de três entidades:

1) Bombay Groovy
2) Anjo Gabriel
3) The Flying Eyes



No último sábado o Inferno Club foi fichinha para esses três pilares da ideia psicodélica, um conceito que graças às três bandas envolvidas no processo, voltou a significar o que nós, fãs deste conceito sonoro, tanto respeitos: Um pensamento que busca nutrir o sentimento messiânico pela música e manifestar flashbacks que nenhum Hofmann conseguiu capturar.

Para o primeiro evento de 2015 a corja da Abraxas resolveu mostrar que o slogan: ''Eventos Psicodélicos'' não está no merchan dos caras por que não rolou alguma ideia melhor, não, o propósito dessa nave mãe é justamente brindar as conquistas do som multicolorido. E creio que a line up deste fest em particular tenha sido a mais forte dentro deste conceito, que além de alterador de percepção, nos brindou com shows absolutamente fantásticos.


Para abrir os trabalhos acredito que os locais do Bombay Groovy foram elementares. Esse quarteto é uma das novidades mais frescas que a música nacional abençoou para o culto sonoro. Até a sinergia dos caras funciona de forma única! Formada por Jimmy Pappon (tecladeiras infernais), Danniel Costa (Hofner de notas graves), Leonardo Nascimento (condução com baquetas) e Érico Jônis (violão/cítara), músico que substituiu Rodrigo Bourganos, talento que toca nas mesmas funções feitas por Érico neste show, a Bombay mostra como o termo ''música'' é amplo, e como o mesmo pode ser explorado.


Para traduzir a força da apresentação dos caras vou citar uma frase do grande Sri Schinmoy, guru de Carlosa Santana e John McLaughlin: ''Quando o finito entra no infinito, torna-se o infinito tudo de uma vez. Quando uma pequena gota entra no oceano, não podemos traçar a queda. Torna-se o poderoso oceano''. A música que sai da mente desses senhores é como o oceano, indivisível, você até pode pegar uma gota, mas sempre será uma fração do total, um pedaço do todo, que neste mar de notas faz até onda.


O repertório do show foi baseado no primeiro full da banda (lançado em 2014), e foi bem interessante ver a interação do quarteto com possíveis novos seguidores, ouvidos e mentes que não conheciam o som, mas que sentiram a pegada e foram completamente arrematados por temas como ''Aurora'' e pelo cover chapadíssimo do mestre Santana e sua mítica ''Soul Sacrifice''.

A banda é excelente, Érico arrebentou na cítara e na viola, Jimmy esfarelou seu Hammond com grandes solos de rára fluência, isso sem contar o baixão sempre presente e bastante melódico de Danniel e a bateria bastante criativa de Leonardo Nascimento, que dominando as linhas de Michael Shrieve em ''Soul Sacrifice'', me surpreendeu pela destreza e até brindou a jam com tilintar de percussão, algo primordial no som de Santana e que neste cover esteve presente de forma elementar.

Esse ano é O ANO para os caras da Groovy, depois de tocarem no Psicodália esse show deve ter sido bastante gratificante pois foi a primeira performance após o maior momento da histório da banda até agora. A energia de culto espiritual que a banda exala é algo realmente único, tal qual a combinação sonora que eles destilam com uma naturalidade assustadora, devo salientar.

E que no culto do dia 14 teve todas suas vibrações direcionadas para o grande Daevid Allen, mente brilhante da psicodelia que nos deixou no dia 13 deste mês. Um grande ato diga-se de passagem, fiquei especialmente tocado pois é difícil ver nomes como o de Daevid sendo lembrados hoje em dia, algo que o Bombay sempre fará questão de fazer, afinal de contas o australiano era o guru da banda.


Depois dessa dose de sintonização espiritual o fest seguiu com o cronograma, mas ai chegou a vez do Anjo Gabriel, era hora de operar um nó na mente de todos os presentes e embolar tudo que os caras da Bombay deixaram no esquema com tanto esmero, algo que ninguém reclamou, muito pelo contrário. Foi o melhor show que o resenhista que vos escreve já viu destes Hippies Progressivos.


E a gruta do inferno não poderia ter sido mais propícia para o que os presentes puderam ouvir. Acho que nunca vi tanto fumaça dentro de um palco na vida, e se por este lado ainda fiquei meio receoso, no quesito estrago instrumental posso afirmar: Nunca vi este nível de progressividade funcionando a serviço de meu próprio cozido e demente cérebro.

Quanto mais fumaça surgia no palco mais a banda sumia na sauna e mais o som ganhava em peso e densidade, foi tanta fritação que a rede 3G caiu e a 4G explodiu duas torres (em Nárnia), e creio que o culpado seja o Theremin de Andre Sétte e o baixo fretless do cidadão que é o elo dessa viagem, o reverendo Marco da Lata.


Pelo pouco que me recordo o repertório veio em peso com o auto intitulado da banda, o elogiadíssimo ''O Culto Secreto do Anjo Gabriel'', disco fabuloso, que de cabo a rabo eletrizou o ano de 2011 no cenário nacional, e que no sábado relembrou com quantos ácidos se faz um prog.

A performance de ''Peace Karma'' foi tão absurda que beirou o ridículo, e o mais engraçado foi o Marco falando: agora nós vamos fazer a última música'', mas o show só foi terminar uns 40 minutos depois, e digo mais, sem intervalo, foi tanto improviso (e fumaça) que em um dado momento você olhava para os integrantes da banda e eles estavam todos de olhos fechados, solando e fritando em plena conexão Wi-Fi de alguma casa ali da região. Um retrato de toda a alquimia que esses pernambucanos levam para o palco, TODA VEZ QUE TOCAM.

Parecia que todo o combo tinha esquecido o que estava tocando e ficou maturando a jam até achar a parte ''A'' do som e retornar para esse plano, foi assustador, foi excelente. E depois que a guitarra do Cristiano Raz parou de espumar e que a batera do reverendo CH Malves (reboques S/A), decidiu interromper a demolição, foi a hora que o Marco segurou o grave e pediu para o André abaixar a bola no Theremin, afinal de contas o pessoal tinha que ver o Flying Eyes ainda.



E rapaz, que grande show que esses caras fizeram, teve baixista subindo na caixa que estava fora do palco, vocalista brindando com a platéia e pulando do palco (mostrando que essa ação não tinha sido calculada tamanha a dificuldade de retorno), lap steel guitar, tragada na fumaça de gelo seco e um show de luzes que conseguiu se sobrepor em meio à fumaça, que a essa altura já saia pela orelha dos espectadores.


Com a cabeça em ponto de ebulição e com um relógio biológico que não conseguia nem saber se era dia ou de noite, a pressão do ácido tinha atingido o ponto mais alto da noite em nossos corpos. Vale inclusive ressaltar que um capacete não seria uma má ideia, por que depois que o Flying Eyes entrou, tudo foi em excesso, a sempre citada fumaça, o Hard-Psych e a loucura dos gringos, que em quarteto, trataram de finalizar mais uma grande noite.


Foi bastante gratificante ver que tinham pessoas na platéia que não conheciam muito do trabalho do Flying Eyes, mas que por outro lado manjavam do som do Anjo Gabriel e da Bombay Groovy. Esse apoio que a Abraxas nivela para nossa cena é de uma importância ímpar, é óbvio que a banda principal foi o maior destaque, mas é ótimo saber que muitos saíram do Inferno Club comentando sobre as outras duas bandas (tão bem como fizeram em relação ao ato principal), que de forma mais Blueseira e absurdamente vibrante derrubou tudo no palco (literalmente), e tocou ainda mais alto que as bandas que antescederam esse momento.


Foi intenso, rolou altas reverberações e quando terminou possuiu minha mente de criatividade. E foi com o ouvindo ainda zunindo que vi o insight escorrer por meu cérebro e fazer notas linguísticas saírem de meu par de mãos instrumentais. Santa literatura Beat, santa Abraxas, bendita seja a revolução colorida que tanto nos expande a idea e que  José Monaco, dono do sexto e do nono click que ilustram essas palavras, seja louvado. Saravá.

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