Benjamin Clementine - At Least For Now

Sempre fui uma pessoa com ideais palpáveis. O lúdico sempre fez minha cabeça, mas a energia de matéria sempre fez minha mente girar com mais possibilidades de rotatividade independente, sem essa de viver de brisa. Sempre gostei muito de ver fotografias e ver a expressão de vários músicos que sempre fui fã. O mais maluco nisso tudo é que por mais que ver um Jimi Hendrix congelado seja lindo, creio que nada transmita o que sua imagem realmente foi, da mesma forma que um vídeo ou uma música... Acredito que os corpos falem pela arte, todos são inexpressivos até começarem a propagar qualquer tipo de sentimento, e se vocês não conseguiram captar a essência dessa ideia, vejam o reverendo Benjamin Clementine por exemplo.

Se a Nina Simone tivesse um filho, o nome dele seria Benjamin Clementine. É impressionante como a imagem desse cidadão me diz muita coisa. É muito puro, absolutamente natural, mas de alguma forma completamente inexpressivo... O problema é essa magnetização que sua pessoa consegue comunicar com quem admira algum retrato seu. Apenas os grande mensageiros conseguem impactar alguém com um primeiro contato tão passageiro como esse.


Sempre achei que os grandes nomes da música tivessem um tempeiro diferente na formação de suas respectivas personas, algo que você repara e simplesmente sente se ele possui ou não. E quando isso é percebido só por uma foto, quer dizer que temos algo especial nas mãos. E foi exatamente isso que senti quando vi a foto destacada acima em um site de música americano... Nem li o texto, mas anotei o nome de Benjamin pois simplesmente sabia que se tratava de algo diferente. E não poderia estar mais certo, ''At Least For Now'', primeiro full da carreira do britânico, trata-se de um dos melhores trabalhos que ouvi neste começo de ano.  


Track List:
''Winstom Churchill's Boy''
''Then I Heard A Bechelor's Cry''
''London''
''Adios''
''St-Clementine-On-Tea-And-Croissants''
''Nemesis''
''The People And I''
''Condolence''
''Cornerstone''
''Quiver A Little''
''Gone''


Dono de um timbre de voz e de um estilo fluente no piano, Benjamin apareceu na mídia sendo comparado com niguém mais ninguém menos que Nina Simone! Donos de fisionomias até parecidos pela mesma ascedência africana, ambos tinham influências muito bem enraizadas dentro do R&B, mas é claro que até pela pouca idade e por possuir muito menos material lançado, que é impossível comparar Benjamin com a sublime Nina.

Mas ter esse parâmetro nos ouvidos é bom para se preparar para o disco. Enquanto Nina possuia um approach mais equilibrado com Jazz, aresta que Clementine já não adentra de forma tão incisiva, ele se reaproxima da senhorita Simone por meio das percussões que colocou em determinados momentos no disco, pincelando o clássico caldeirão negro com um feeling mais Trip Hop.


Criando um disco lindíssimo, puro e quase que 100% incandescentemente sentimental. Sendo que o destaque é a voz e o piano de alta fluência técnica e de rara criatividade. Não tem banda de apoio, aqui é Benjamin e um beat fazendo a batera com umas cordas finalizando as camadas, um conceito que fica claro com a abertura do disco, ''Winstom Churchill's Boy''.

É realmente ótimo ouvir um CD com tamanha força. A voz do cidadão funciona como um instrumento particular, se junta ou vai além do piano e cria climas que começam na descendente e sobrem com uma força assustadora. Com relatos dolorosos mergulhados em pura conserva de sentimento, (como ouvimos em ''Then I Heard A Bechelor's Cry''), Benjamin consegue impactar o ouvinte de uma maneira retumbante e nem por isso deixa ninguém na fossa.

É sentimento puro mas é revigorante, e ver esse cara sentado em um piano, absolutamente inexpressivo é uma coisa, quando ele abre a boca parece que surge uma luz... É só ver ele chegar de sobretudo e descalço que até o piano brilha.


Aos 19 o negrão saiu de casa e já foi morar sozinho trocando de país. Foi na França que ele começou a viver da música, tocando em bares e usando o asfalto quente da Champs Élysées para destilar sua poesia beatnick. Hoje com 26 anos ele mostra seu incontestável valor e surge com um dos trabalhos mais celebrados pela mídia especializada. Só que isso não veio do nada, começou em 2012 quando Lionel Bensemoun fez a ponte para a gravação de ''Cornerstone'', seu primeiro EP lançado em 2013 e ''Glorious You'', o aperitivo para este full.

São letras de quem já viveu muita coisa e mais do que tudo isso, possui um brilho completamente diferenciado, completamente alienado da crítica e seus meios imundos. São de músicos assim que o cenário fonográfico começou a se blindar recentemente, e rapaz, como é reconfortante saber que um talento deste porte tem chances reais de vingar, seja com algo mais soft como ''London'' ou chamando a responsa para sí e usando seu piano como uma metralhadora de rosas em ''Adios'' e nos singles de sucesso ''Nemesis'', ''Condolence'' e ''Cornerstone''.... Melodias serenas, pesadas pelo teor das palavras, fortes pela força do piano que não para de destilar notas, ou impactantes pela imagem de um verdadeiro artista: Qualquer ser humano que se ilumine por meio de sua própria arte.

6 comentários:

  1. Cara que voz ele tem, super diferenciado o timbre dele e o jeito de cantar, é maravilhoso ouvir o sentimento emanar do piano e se completar com a voz!! Poderoso esse cara, por isso me surpreendo sempre com o pessoal que faz a música negra.

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    1. Ele é muito bom, segunda venho com outro Benjamin pra continuar mostrando a nova safra do som negro, só que na próxima vai ser mais Rock 'N' Roll haha

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  2. Gostei muito! Percebe-se claramente que foi bastante influenciado por Antony Hegarty também. Se não conhece, procure por Antony And The Johnsons. Recomendo!

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  3. Demais Marcos, vou sacar o Anthony And The Johnsons que você comentou!

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  4. Rapaz, nunca tinha ouvido falar desse cara, fiquei impressionado.
    Que descoberta!

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