Elder - Lore

A música pesada é uma ramificação que sofre de estigmas muito retrógrados. É óbvio que desde que o Heavy Metal começou a ideia foi se alterando. Teve um pessoal que acelerou a brisa, outros optaram por deixar mais pesada, alguns fritadores acrescentaram ácido, muitos hardeiros fizeram a cozinha soar mais crua, certos demônios optaram pelo maior acréscimo de sujeira e uma comunidade Xiita fez questão de compactar a jam com moldes de brutalidade.

Mas sempre se distanciando de matrizes, era algo pesado, mas o que ninguém entende é que era, é, e sempre será um momento absolutamente provisório, tudo muda, e o faz o tempo todo. É um fenômeno que alguns pesquisadores do groove chamam de ''mobilidade sonora''.


Notem que toda quebradeira atinge um ponto de saturação e que ao mesmo tempo isso é ótimo. Além desse movimento provar que existe muita concorrência, várias bandas se mantém em plena mobilidade para não serem acompanhadas por nenhum som, todas buscam ser instrumentações completamente únicas, só que para isso é necessário muito trabalho, claro.

Primeiro é necessário um conceito. Depois que este foi encontrado, o trabalho é iniciado e assimilado disco a disco, misturando vertentes diversas, conseguindo fazer isso de forma homogênea e, finalmente, colocando o DNA da banda em questão de forma pioneira e marcante com algo difícil de encontrar hoje em dia: Moderação.

Essa equação foi montada com relativa facilidade, mas é bem óbvio perceber o nível de dificuldade exigido para poder isolar as incógnitas deste teorema. Só que a moral da história é uma só: Se alguma instituição sonora consegue colocar tudo que foi dito em prática, a música de maneira geral agradece, e muito, por que a cada novo disco concebido desta forma o som se expande e cria novos caminhos, conseguindo algo que diferencia uma banda comum de um som realmente inventivo: a capacidade de ser único, implícitamente criativo. Um fator que para colocar em míudos poderia ser substituído por dois valores:

1) O Power Trio americano Elder.
2) O terceiro disco dos americanos, ''Lore'', o ponto que marca a primeira trinca da banda.


Line Up:
Nicholas DiSalvo (bateria/guitarra/vocal/teclado)
Matthew Couto (bateria)
Jack Donovan (baixo)



Track List:
''Compendium''
''Legend''
''Lore''
''Deadweight''
''Spirit At Aphelion''


Se existe uma banda que está aumentando o campo de visão da música pesada hoje em dia, essa banda é o Elder. Esses caras conseguiram chegar em ''Lore'' (último disco, lançado dia 27 deste mês), com excelentes referências estilísticas nos dois trabalhos anteriores, passando por um approach mais Stoner com o debutante de 2008, misturando com a densidade do mesmo stoner (já na conserva de LSD em ''Dead Roots Stirring'' de 2011), e concretizando o caos neste que é a obra prima dos caras na opinião deste que vos resenha.

Nesse CD a banda chega com uma proposta que rompe com tudo que foi feito anteriormente, a única coisa que fica é a abordagem pesada de sempre e um lado Progressivo que faz desse disco o mais rico e inesperado que o combo já produziu. A primeira faixa começa com a habitual base de composição por riffs, sendo que nesse quesito ''Compendium'' aprensenta a melhor sequência de néctar caótico do novo registro, se mostrando uma faixa absolutamente excelente, algo que apesar dos quase dez minutos não se perde em excessos.

Depois dessa faixa o ''novo'' Elder surge, o trio com energias progressivas, melodias que lembram algo meio Causa Sui pelo feeling Jazz, linhas cristalinas e um sentimento dentro do olho do furacão que deixa as improvisações repletas de brilhantismo chega para o sound check.  São doze minutos de mapas de calor em ''Legend'', quinze com a mistura de todos os elementos listados na faixá título e uma energia instrumental excelente. Minha única crítica é o volume dos vocais que me pareceram baixos em alguns momentos, mas o instrumental é o que preenche a maior parte do conteúdo e como as faixas fazem o ouvinte se perder, minha apreciação foi praticamente focada na linha bruta da coisa. 



Em vários momentos você não sabe para onde o som vai, se vai rolar uma virada mais pesada, swingada... O trio mostra um domínio de repertório fantástico, Nicholas DiSalvo segue chefiando a boca com ares de multi instrumentista, Matthew Couto  se mostrou um marreteiro de feeling maior e Jack Donovan mostrou muita lucidez com a densidade de seus graves. Temos praticamente uma hora de disco e cinco suítes ótimas para apreciação, fator que inicialmente pode passar a sensação de um trabalho maçante, o que realmente não é caso.

Creio que obras dessa natureza necessitem de várias audições, é fácil compreender a música, mas como são vários detalhes é necesário maturar por um tempo por que depois corre fácil, logo de prima é possível sentir que tudo flui muito bem, o lance é captar as influências e perceber como esses caras são completos, sendo que o que os fãs esperam são aqueles solos tenebrosos, timbrados até tremer o ampli e que façam nossas mentes zunir.

Tal qual em ''Deadweight'' e na trip ácida de ''Spirit At Aphelion'' e seus embates de guitarra Steve Howe com energias de meditação sublime... Grande disco, o Elder deixa claro que a música pode pesar uma tonelada e ainda contar com aquele ideal purista de ''Arte pela arte'' com um melodioso kraut que mescla até shot de Doom... 

Grande disco. E por último porém jamais menos importante, esta arte chapada saiu da mente do ovalado Andrian Dexter... Acho que rolou alguma coisa com as camadas de cores, algo que pode demonstrar as várias ramificações da música que o trio misturou nesse disco, ou foi só uma brisa aleatória. Creio que nunca saberemos...

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