Paco De Lucía, Al Di Meola & John Mclaughlin: Friday Night In San Francisco

Um tempo atrás estava passando uma série de documentários sobre a cultura boleira de vossa pátria de chuteiras. Não me lembro ao certo quanto tempo faz que a série parou de passar, nem seu nome, mas posso afirmar com certeza que tudo que foi relatado aconteceu nos anos 60 e 70, época que assim como na música, o lance era pra valer, era tudo pela paixão, como deve ser.


Sei que enquanto trocava de canal, sintonizei a ideia em algum dos episódios que formavam o DOC e dei de cara com o Pelé dando risada, algo curioso, logo, não mudei mais de canal. Minutos depois encontrei a piada, o melhor jogador de todos os tempos estava comentando sobre os treinos da seleção campeã do mundo no México em 1970 e o repórter estava às gargalhadas.

E o motivo foi uma frase mais ou menos assim: ''A gente ia treinar e ai aparecia o Edson, o Carlos Alberto, Rivelino, Jair, Gerson, Tostão... Bom, na realidade a gente conversava, trocava alguns passes e fazia algumas finalizações por que TREINAR mesmo não dava, ia dar errado. Só tinha craque, o lance era na hora do jogo''.

Achei isso o maior barato! Primeiro que parece meio esnobe-excêntrico soltar uma dessa, mas segundo consta não existiram muitos times nesse nível, era um fato, só tinha craque e era bem capaz que o treino fosse meio complicado mesmo. Só que aí depois disso já rolou aquela patifaria de ''continua no próximo episódio'' e eu segui órfão de algo para se fazer, mas ainda seguia com a frase do Pelé na cabeça...


E para poder levar isso para o gramado da música é preciso que fique claro o quanto a frase do nosso digníssimo craque pesa. Necessitamos de uma ponte sonora que faça frente aos dotes da seleção de 70 em virtude da excelência técnica, da classe e da complexidade que seus onze representantes empregavam quanto se direcionavam para uma session de pimba na gorduchinha.

E para tal, acredito que a união entre Paco De Lucía, Al Di Meola & John Mclaughlin consiga responder a altura, o live colaborativo do trio, ''Friday Night In San Francisco'', é um claro exemplo do que acontece quando três músicos de outro planeta se juntam numa jam Flamenco-Jazz... Treinar ia dar errado, mas gravando o improviso impera tal qual a providência divina! E digo mais, nem o time de 70 junto com o de 82 conseguiria acompanhar a triangulação desse guitar trio!

Line Up:
Paco De Lucía (violão acústico)
Al Di Meola  (violão acústico)
John Mclaughlin (violão acústico)



Track List:
''Mediterranean Saundance''
''Short Tales Of The Black Forest'' - Chick Corea
''Frevo Rasgado'' - Egberto Gismonti
''Fantasia Suite''
''Guardian Angel''


Da união entre três dos maiores músicos da terra temos prensagens faraônicas, inclusive para combinar com a line up são 3 registros em voga no curriculum da tríade:

''Friday Night In San Francisco'' - 1981
''Passion, Grace And Fire'' - 1983
''The Guitar Trio'' - 1996


Todos são ótimos trabalhos, são exemplares que fazem o ouvinte precisar comprar um dicionário de sinônimos para poder elogiar os temas, a execução e o feeling que esses caras blindam seus respectivos instrumentos, mas brindo certa atenção para essa gravação em especial, pois além de se tratar de um trabalho ao vivo, todos os envolvidos só estão armados de violas acústicas, ou seja, além de nenhum efeito e de um som absolutamente puro, as linhas de improviso brotaram na hora, como pequenos oásis no miolo de um deserto escaldante.


São cinco temas esplêndidos que formam esse absurdo todo-e-complexo instrumental. São momentos que transitam entre temas criados por cada um dos participantes e outros que se prestam a homenagear grandes peças de outros nomes tão importantes e retumbantes como o trio que se prestou a dar essa aula de música para a humanidade.

São poucos sons é verdade, mas são ideias sinuosas e que apesar de complexas planam livres dentro de uma base cristalina e absolutamente linda. Parece até simples, mas rapaz, só quem já pegou numa viola sabe da complexidade desses grooves. Em alguns momentos o ouvinte é forçado a tirar o fone da cabeça para poder oxigenar o cérebro por que não parece anatomicamente possível!

E isso já acontece logo após ''Mediterranean Sundance'', absurda composição de Al Di Meola que já solta o Flamenco na roda e deixa o mestre Paco cadenciar a ventania de notas, enquanto John e o compositor deste tema seguem para uma linha acústica mais jazzística. Sempre com insights absurdos, como no tributo ao mestre Chick Corea em ''Short Tales Of The Black Forest''.

E na grande citação a um dos maiores músicos brasileiros em todos os tempos, o inexplicável e poucas vezes lembrado Egberto Gismonti. É em ''Frevo Rasgado'' que três dos maiores músicos do planeta demonstram uma humildade sem tamanho e um respeito sem igual perante um brasileiro que é praticamente desconhecido em seu país, mas que (graças a Jah) é reverenciado em águas internacionais.


Mas o que mais impressiona nesse disco (e nos outros que o trio lançou) é como ninguém consegue chegar ao nível do mestre Paco De Lucía. Em vídeo isso fica mais visível principalmente na hora das improvisações, momentos que tanto Meola quanto McLaughlin se contorcem e retorcem nos solos e o mago espanhol segue inabalável, com a camisa intacta e o fraseado sempre um degrau acima de caras que, é válido ressaltar, também são considerados músicos siderais.


Não é só pelas passagens intrincadas de  ''Fantasia Suite'', tampouco pela proeza de ''Guardian Angel'' (único tema registrado em estúdio), é pelo todo que ''Friday Night In San Francisco'' é tido como uma das maiores gravações de violão acústico que você ouvirá na vida.

De fato, treinar poderia ser um problema, mas quando as notas vibram, o Jazz tabela com a dupla de atacantes McLaughlin-Al Di Meola e manda o Flamenco para o camisa 10 matar no peito e pegar de trivela sem deixar o globo de couro cair.

No lado ''A'' os torcedores vibram, e no ''B'' o Paco apenas admira a beleza das redes balançando enquanto as cordas de nylon reverberam imersas, todas sempre envolvidas num nirvana acústico e episcopal. Profético.


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Graveyard - Lights Out

Essa semana estava trocando uma ideia ligeira com uns amigos. Num dado momento a brisa foi tanta que começamos a discutir o tempo médio que os discos da década de 70 geralmente demoravam para acabar. Me lembro que comecei a ensaiar uma reclamação um pouco mais acintosa quando um dos meliantes me interrompeu e falou algo digno de aspas: ''Mesmo os discos sendo curtos, boa parte deles eram épicos (mesmo que acabassem antes da marca dos quarenta minutos), logo, minha reclamação não seria válida e de fato ele estava certo, como posso argumentar de forma negativa sobre um ''Beck, Bogert & Apice'' da vida?


Hoje temos discos de duas horas que não fazem metade do que a cozinha do grande Jeff Beck colocou em prática em quarenta minutos, poucos discos conseguem proporcionar tal satisfação em menos de uma hora de Jam, aliás satisfação... Essa é a palavra para definir o terceiro disco dos suecos do Graveyard, o curto porém excelente ''Lights Out'' lançado em 2012. Um disco recomendadíssimo para você que pensa que só tinha coisa boa nos '70 e acha que nada atual pode ser um bom repeteco dos bons tempos.

Line Up:
Nihls Dahl (piano)
Martin Holm (saxofone)
Magnus Javerling (órgão)
Joakim Nilsson (vocal/guitarra)
Rikard Edlund (baixo)
Axel Sjoberg (bateria)
Jonatan Larocca-Ramm (guitarra/vocal)



Track List:
''An Industry Of Murder''
''Slow Motion Countdown''
''Seven Seven''
''The Suits, The Law & The Uniforms''
''Endless Night''
''Hard Times Lovin'''
''Goliath''
''Fool In The End''
''20/20 (Tunnel Vision)''


Meu disco preferido desses caras ainda é o ''Hisingen Blues'' (de 2011), mas dependendo do dia da semana as vezes prefiro escutar esse trabalho. Ainda mais sólido e coeso do que o disco anterior, aqui o Graveyard volta a surpreender os amantes do Blues-Rock com temas ainda mais ousados e cada vez mais envenenados, sendo a bela voz do Joakim Nilsson, o principal destaque do disco.

Muitos falam que Nilsson não canta tudo isso ou que a voz do suéco é ''enjoativa'', mas num mundo em que todo mundo tenta cantar algo sempre se assemelhando a alguma coisa já feita, meu respeito pelo vocalista só aumenta, pois a voz dele não parece (e nem tenta) se referir a algo já feito ou semelhante, mostra algo novo e extremamente vibrante, à começar pela bela ''An Industry Of Murder''.

Faixa que deixa claro todo o poderio e versatilidade do grupo. Perceba as mudanças na levada com a letárgica ''Slow Motion Countdown'', temas mais objetivos como ''Seven Seven''... Momentos mais trabalhados e melhor explorados como ''The Suits, The Law & The Uniforms'' ou ''Endless Night''...


Perceba o amadurecimento em cada música, não se espante somente com a exatidão em cada nota e com a absurda qualidade instrumental do grupo, se impressione também com a fluência dos Plays, (veja ''Hard Times Lovin''') e note o feeling em pura sintonia com as influências Blueseiras da banda ao som de ''Goliath''.

Perceba que os caras sabem como levar sua mente no banho maria, impressionar os mais vanguardistas com uma balada, ou até mesmo soarem espontâneos o suficiente para explodir tudo, mesmo que de maneira breve e, para isso, a dupla ''Fool In The End'' e ''20/20 (Tunnel Vision)'' se encaixa como uma luva, finalizando um disco que deixa o ouvinte curiosíssimo para a próxima cartada dos caras e que faz os mais normais chamarem um psicólogo após os resmungos xaropes de ''Endless Night''.


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Jeff Beck - Jeff Beck With The Jan Hammer Group

O Jeff Beck foi o guitarrista que me fez gostar de Jazz Fusion. Hoje sei que ele pode ser Rock 'N' Roll, partir para o Blues, brincar de route 666 e soar swingado... Em suma ele pode fazer o que der em sua telha criativa, mas sinto que ele é mais Fusion do que qualquer outra coisa. Dentre seus clássicos neste estilo temos a trinca básica: ''Blow By Blow'', ''Wired'' e ''There & Beck'', sei que todos precisam ouvir esses discos em alguma fase da vida, mas o que dizer do registro live que só não pega o período ''There & Beck''? 

''Jeff Beck With The Jan Hammer Group'' é um dos maiores discos ao vivo de todos os tempos e pouquíssimos fãs do próprio guitarrista o conhecem. O que começou como uma simples participação especial em shows de Jan Hammer (membro do Mahavishnu Orchestra e tecladista de Beck no ''Wired''), acabou virando uma tour e disco ao vivo. E que me perdoe o reverendo Hammer, ele também toca muito, mas ainda não tivemos uma banda capaz de acompanhar o fraseado de Jeff e esta fritação datada de 1977.

Line Up:
Tony ''Thunder'' Smith (bateria/vocal)
Fernando Saunders (baixo/guitarra/vocal)
Jeff Beck (guitarra/baixo)
Jan Hammer (teclados/piano/sintetizadores/percussão/vocal)
Steve Kindler (violino/sintetizadores/guitarra)



Track List:
''Freeway Jam''
''Earth (Still Our Only Home)''
''She's A Woman''
''Full Moon Boogie''
''Darkness/Earth In Search Of A Sun''
''Scatterbrain''
''Blue Wind''


O disco já entra com um clássico do Sir Jeff, abrimos os trabalhos com uma das melhores e mais fritas versões de ''Freeway Jam''. Os teclados de Jam Hammer sempre foram um dos grandes segredos nos discos Fusions do Beck e, ao vivo, nota-se de forma cavalar o motivo. O começo da música já é brincadeira, a dupla imita sons de buzina na introdução, no meio e intercala isso com solos ultrajantes por mais de sete minutos.

A energia é absurda e para os padrões de um live lançado na década de setenta, podemos até dizer que o disco é curto, mas trata-se de um dos grandes momento já registrados dentro do mundo sonoro. Durante todos os 44 minutos e 5 cinco segundos pelos quais esse disco frita, nossos ouvidos absorvem cada milésimo de riff, solo ou excelentes vocais, como os de Tony ''Thunder'' Smith em ''Earth (Still Our Only Home)'', acrescentando um Soul mais relax na quebradeira de Beck, que desculpem-me os envolvidos, reina absoluto.

Porém é necessário salientar a performance monstruosa de Tony ''Thunder'' Smith. Este é o meu principal destaque tirando a monstruosidade do britânico. Além dos ótimos vocais as linhas de bateria desse cidadão são impressionantes, o vigor e o ritmo nunca se perdem, caminham juntos e deixam a cozinha ligada no 220 durante todo o tempo necessário. Nem em momentos onde Jan Hammer acelera o fraseado o homem das baquetas se perde, muito pelo contrário, a dinâmica de seu beat que influencia tanto o que seu marfim falava, além de servir de base para as virtuosidades do mestre Beck-Ola.


E para dizer que esse show não teve de tudo, esse live serviu também para registrar a melhor versão de ''She's A Woman'', onde além da dose de Reggae ser muito mais presente do que em estúdio, os caras ainda acharam uma talk-box. Mas isso é o mais ''leve'' que esse disco consegue soar, depois chega o abalo sísmico de ''Full Moon Boogie'' e enquanto a talk-box chega mais uma vez, Jeff perde a linha em um Boogie Woogie furioso, temperado até com Steve Kindler e seu violino. 

Logo depois a banda sustenta o patamar de groove com ''Darkness/Earth In Search Of A Sun'', Beck especificamente, destrincha a guitarra em ''Scatterbrain'' e depois todos os envolvidos finalizam a session, relembrando um dos takes onde o feeling do guitarrista, apesar de todo o peso e velocidade de seu Jazz, é mais celebrado: o flashback de ''Wired'' com ''Blue Wind''. Jeff Beck & Jan Hammer senhoras e senhores, não sei nem como colocar em palavras a minha vontade de estar de corpo presente neste show toda vez que o escuto.

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Charles Bradley - Victim Of Love

Construir uma carreira no ramo musical leva tempo. Existem centenas de guitarristas, baixistas, bateristas, cantores e etc com mais de 40 anos por aí, que muitos de nós (incluindo você eu) nem sabemos que existe. Não existe uma idade certa, mas é importante que o indivíduo comece cedo por que assim como qualquer coisa na vida, o sucesso e o reconhecimento demoram a chegar.

Se bem que se idade for o parâmetro muitos dos senhores vão se impressionar com o homem do texto de hoje, acendam seus corpos com Charles Bradley e seu segundo disco de estúdio, o excelente ''Victim Of Love'', um dos melhores trabalhos que escutei nos últimos anos.


A história de Charles é de luta. Luta para conseguir realizar um sonho. Sonho este que pareceu tão distante em alguns momentos, mas que agora é real, verdadeiro, repleto de Soul, Funk, R&B... Um revival intenso dos anos de ouro da imponente Black Music americana.


O caminho que o cantor teve que percorrer não foi fácil, ao longo de seus 66 anos Bradley tentou a sorte na indústria do Groove milhares de vezes, mas nunca conseguiu ganhar a projeção necessária. O negrão que já fez bico de cozinheiro, cover do James Brown e que já teve que morar na rua mendig hoje sente o gosto do sucesso e do reconhecimento.

Ápice de sua vida que veio a duras penas, graças à Gabriel Roth que viu potencial e força no vozerio nostálgico do sentimental soul man e logo trouxe seu swing para a Daptone Records, pois o mundo ignorou a voz de Charles por tempo demais, ele precisa ser ouvido pelo maior número de pessoas possíveis.

E mesmo que o cantor não tenha muitos anos de carreira pela frente, com apenas 2 discos já marcou seu nome no toca discos aqui de casa, aperte play e sinta a áurea de Bradley, um sujeito que transpira emoção e humildade, uma voz que sabe como poucos o quanto a vida pode ser dura e fria como uma noite debaixo da ponte.


Track List:
''Strictly Reserved For You''
''You Put The Flame On It''
''Let Love Stand A Chance''
''Victim Of Love''
''Love Big Blues''
''Dusty Blue''
''Confusion''
''Where Do We Go From Here''
''Crying In The Chapel''
''Hurricane''
''Through The Storm''


Conheço o som do americano ha quase 3 anos e me lembro que quando escutei o disco podia jurar pelo que fosse que se tratava de uma pérola perdida da década de 60 ou 70, mas não, esse é o ''Efeito Bradley''. Desde de seu primeiro trabalho, o também excelente ''No Time For Dreaming'' (lançado em 2011), é simplesmente impossível não apertar play no seu discurso de fêniz funkeado e não se lembrar de James Brown, Otis Redding... ''Strictly Reserved For You'' arrasta o ouvinte para a Motown, sinta o balanço de ''You Put The Flame On It'', a vibração de ''Let Love Stand A Chance'', a paixão da faixa título ''Victim Of Love''...

Paixão, talvez seja esta a palavra para definir Charles. É tocante sentir a alegria com que essa voz arrepia seus ouvintes por onde quer que passe. É de arrepiar, é incrível também como um cara com um talento desses não foi descoberto antes, mas é lindo ver que agora sua voz corre contra o tempo para concertar este infortúnio!


Aprecie o swing classuto de ''Love Big Blues'', a levada genuinamente clássica de ''Dusty Blue''... O baixo a ponto de explodir em ''Confusion''... De fato, escutar esse Black Power é um deleite! O que dizer de ''Where Do We Go From Here''? Alguma ideia?! Depois de escutar o desabafo tocante de ''Through The Storm'' não nos resta outra alternativa a não ser agradecer a este senhor por esta bela obra, muito obrigado Charles, por favor, envelheça no estilo Benjamim Button.

São dois CD's fabulosos, ambos muito bem avaliados pela crítica e que em tempos de vacas magras na indústria fonográfica venderam muito bem. Ultimamente prefiro ouvir esse Soul à qualquer outra coisa pois são raros os artistas que mensuram a importância de passar o legado de sua arte para novos ouvidos como esse old geezer o faz.

É lindo ver seus shows começarem e chegarem ao fim com um Charles completamente esgotado... É um brilho no olhar que chega a ser digno de um quadro! É indescritível ver como estas histórias sonoras nos tocam, mas que também impactam o criador disso tudo, que sempre cantando com um sentimento que quase chega a doer, consegue cobrir todo o sofrimento de uma vida com uma felicidade revigorante de um slap.

A longevidade de sua carreira está comprometida e ele sabe disso, assim como seus fãs, mas o magnetismo de seus relatos surge justamente desse pouco tempo, cada letra, cada sílaba e cada lágrima importam, o tempo é só um detalhe. Lindíssimo.


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Top 50 discos mais loucos de todos os tempos

Todo grande fã de música possui um lado obscuro. Todo grande entusiasta sonoro quer conhecer discos raros, bandas que sumiram deixando apenas uma demo ou LP... Não sei os senhores mas este que invariavelmente vos escreve possui este lado. Acredito que todos nós temos uma missão na vida, ouvir o maior número de discos possíveis e, no meio desta grande e infinita teia sonora, as raridades são um dos maiores temperos dentro da procura por um groove de qualidade.

E foi com isso em mente que hoje teremos uma lista que ilustra este lado descrito acima e que enumera trabalhos realmente diferenciados, provando que tirando as clássicas ''Top 100 maiores guitarristas de todos os tempos'', uma boa lista pode ser informativa e agregar muitos valores ao leitor e posterior ouvinte.

Nesta listagem temos os 50 discos mais estranhos da música. Achei este pedaço de mal caminho lendo umas matérias no site da Mojo e deixo os discos listados abaixo para deleite dos senhores, que além de ficaram a par dos trabalhos citados, podem ver a matéria em seu código puro de concepção neste link aqui. Não pensem que só temos coisas dos '60 ou dos '70 menino, rola disco dos '80, '90 e até de cinco anos atrás!


50) Carla Bley - ''Escalator Over The Hill'' - 1971
49) Doggerel Bank - ''Mister Skillicorn Dances'' - 1975
48) Nurse With Wound - ''The Sylvie And Babs Hi-Fi'' - 1985
47) Area - ''Caution Radiation Area'' - 1974
46) Air Conditioning - ''Weakness'' - 2005
45) Aphrodite's Child - ''666'' - 1972
44) This Heat - ''Deceit'' - 1981
43) The Osmonds - ''The Plan'' - 1973
42) The Godz - ''Contact High With Godz'' - 1966
41) The Books - ''The Way Out'' - 2010
40) Spirit - ''The Adventures Of Kaptain Kopter & Commander Cassidy In Potato Land'' - 1981
39) Sigue Sigue Sputinik - ''Flaunt It'' - 1986
38) Robert Wyatt - ''The End Of An Ear'' - 1970
37) Peter Ivers - ''Terminal Love'' - 1974
36) Vile Imbeciles - ''... Ma'' - 2007
35) Morton Subotinick - ''Silver Apples Of The Moon'' - 1968
34) Moondog - ''Moondog'' - 1969
33) Merzbow - ''Pulse Demon'' - 1996
32) Meredith Monk - ''Turtle Dreams'' - 1983
31) Krokodil - ''An Invisible World Revealed'' - 1971
30) Kayo Dot - ''Choirs Of The Eye'' - 2003
29) Jeff Simmons - ''Lucille Has Messed My Mind Up'' - 1970
28) Hampton Greae Band - ''Music To Eat'' - 1971
27) Group 1850 - ''Agemo's Trip To Mother Earth'' - 1968
26) Geinoh Yamashirogumi - ''Ecophony Rinne'' - 1994
25) Fantômas - ''Suspended Animation'' - 2005
24) Dogbowl - ''Flan'' - 1992
23) David Bowie - ''Outside'' - 1995
22) Comus - ''First Utterance'' - 1971
21) Brainticket - ''Cottonwoodhill'' - 1971
20) Basehead - ''Play With Toys'' - 1992
19) ATV - ''Vibing Up The Senile Man (Part One)'' - 1979
18) Alice Cooper - ''Pretties For You'' - 1969
17) Caetano Veloso - ''Araça Azul'' - 1973
16) Chrome - ''Alien Soundtracks'' - 1977
15) Jandek - ''Ready For The House'' - 1978
14) Renaldo & The Loaf - ''Songs For Swinging Larvae'' - 1981
13) Pere Ubu - ''Dub Housing'' - 1968
12) Nico - ''The Marble Index'' - 1969
11) Magma - ''Mekanik Destruktiw Kommandow'' - 1973
10) Mr Bungle - ''Disco Volante'' - 1995
9) Joe Byrd And The Field Hippies - ''The American Metaphysical Circus'' - 1969
8) Yoko Ono - ''Fly'' - 1971
7) Pink Floyd - ''Ummagumma'' - 1969
6) Ween - ''The Molusk'' - 1997
5) John Frusciante - ''Niandra LaDes And Usually Just A T-Shirt'' - 1994
4) Van Der Graaf Generator - ''Pawn Hearts'' - 1971
3) Gong - ''Flying Teapot'' - 1973
2) Can - ''Tago Mago'' - 1971
1) Lou Reed - ''Metal Machine Music'' - 1975


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Kadavar - Live In Antwerp

O Kadavar não recarrega uma nova fita de takes desde 2013 com o fantástico ''Abra Kadavar'', mas o motivo dessa ''falta'' de Stoner entorpecendo células auditivas é uma só, desde o lançamento do CD a banda não parou de rodar o globo. Primeiro o grupo se firmou no escalão das maiores bandas da música pesada da atualidade tocando nos maiores festivais do mundo, como o Roadburn por exemplo, e agora continua na pegada furiosa para se destacar ainda mais e se mostrar realmente diferenciada dentro do circuito, para provar, se é que ainda existe alguma dúvida, que eles não tiveram toda essa atenção a toa.


E também tem outra, quem foi o cretino que falou que só disco de inéditas serve para provar, ou até mesmo elever a musicalidade de alguém? Com uma banda como essa o Kadavar devia era registrar um disco ao vivo, os caras mandam cada Jam... Fora que o todo é muito coeso, todos abrem espaço dentro do instrumental nem que seja na marra, marretando na batera, estorando cordas no baixo e cuspindo labaredas de Riffs, com um vocal sem frescura.

Essa é a síntese do debut ao vivo da banda, ''Live In Antwerp'', lançado em 2014, mais especificamento no dia 06 de Junho. Toda a visceralidade da banda agora ao vivo, mostrando-se afiadíssima com qualidade de estúdio e rios de pura improvisação caótica em prol do Rock dos '70, só que apresentando um diferencial primordial: O foco no futuro, fator que atualiza o IOS das passagens instrumentais germânicas.

Line Up:
Christoph ''Lupus'' Lindemann (guitarra/vocal)
Christoph "Tiger'' Bartelt (bateria)
Simon Dragon ''Boutloup'' (baixo)
Shazzula Vultura (teremim)



Track List:
''All Our Thoughts''
''Living In Your Head''
''Doomsday Machine''
''Black Sun''
''Eye Of The Storm''
''Broken Wings''
''Come Back Life''
''Purple Sage''
''Creature Of The Demon''
''Goddness Of Dawn''
''Forgotten Past''


Se você teve a pachorra de virar o ano de 2013 e não comprar sua cópia do homérico ''Abra Kadavar'', por obséquio deste, crie um tantinho de vergonha na faceta e compre esta edição turbinadíssima que a Nuclear Blast liberou. Não, este disco não tem uma versão simples desacompanhada do debut, vem integralmente com o debutante, fazendo um casamento de rachar o fone de ouvido.

Os fãs do Kadavar esperavam por um live por que no Youtube tem muitos shows registrados e meu amigo, o som que os caras fazem não é brinquedo não! E nesta assombrosa apresentação em território Belga a coisa fica absolutamente clara sai prensada, pesando uma tonelada. A energia é monocromática e a apresentação é tão épica que a banda vai emendando um petardo atrás do outro, a química é enorme, os caras até falam pouco com a platéia, seguem apenas alimentando a insanidade dos presentes, o que, sejamos francos, é o que todos anseiam


A cozinha desses caras monta e envolve o ouvinte numa bolha de caos. Com os fones o externo inexiste e o interno é pura densidade, você vê e se percebe mais lento, mas a música está eletrocutando seu cérebro a milhões de milhas por hora, só que é tanto peso, ataques epiléticos de Psicose e solos de bateria, baixo e guitarra, que a penetração é lenta. O externo reduz a velocidade, o som é dono de tudo... É quase um revolução, uma hora e quinze de batalha.

''Living In Your Head'', ''Black Sun'', ''Purple Sage'' e ''Forgotten Past''. Quatro takes para fazer qualquer maricas metido a besta largar uma guitarra e deixar a profissão com quem sabe, com quem toca por prazer, faz barulho por pura vontade e produz conteúdo relevante baseado nos dogmas clássicos. Pra resumir: do Caralho.

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A combustão de Johnny Winter Captured Live!

Quando a nossa cabeça sintoniza em certo artista ou estilo, nós (viciados em som), sentimos uma coisa imediata. É quase sempre o mesmo feeling, é a lembrança mais forte que você mantém com determinados laços sonoro-afetivos.


E isso acontece com tudo e gera a síntese, aquele disco que você escuta quando quer captar exatamente o que mais gosta de certo músico, sua essência. E quando procuro me lembrar do Blues de Johnny Winter sempre aponto o dedo para o ''Captured Live!'', um dos melhores LP's ao vivo de todos os tempos. datando de março de 1976.

Line Up:
Johnny Winter (guitarra/vocal)
Randy Jo Hobbs (baixo/vocal)
Richard Hughes (bateria)
Floyd Radford (guitarra)



Track List:
''Bonie Moronie'' - Larry Williams
''Roll With Me'' - Rick Derringer
''Rock & Roll People'' - John Lennon
''It's All Over Now'' - Bobby Womack/Shirley Jean Womack
''Highway 61 Revisited'' - Bob Dylan
''Sweet Papa John'' 


Quando penso em Johnny Winter um Katrina se instaura em minha mente. Um motor em eterna combustão interna de Blues começa a funcionar... A intensidade de um ataque fulminante, a objetividade de um tiro no peito com o sentimento de uma musa em lágrimas. Realmente, o som de Winter é o pacote completo e ao vivo era mais Rock 'N' Roll que sua própria vida, sempre em busca do próximo pico, tal qual Burroughs narra no clássico ''Junky''.

Aquele apetite pela guitarra... Poucas vezes pude ouvir e ver, mesmo que pela TV, um músico se doar tanto pelo groove, fagulha criativa que em certos momentos fez do albinão um refém, mas por trás de litros de Whisky, caixas de cigarro e o casamento viciado de colher e seringa que quase cessaram seu Blues, ''Captured Alive!'' prova que o silêncio seria impossível, seu som é uma força da natureza, tão simples quanto isso e a síntese de todo seu slide está aqui.


Todo mundo que fala do Americano sempre cita o ''Live Johnny Winter And'' como seu melhor trabalho live, mas sempre acabo discordando, ''Captured Live'' que consegue ilustrar tudo que foi o som desse mestre, que além de seus próprios icônicos e faraônicos trabalhos, ainda tem a mão de midas em CD's de Muddy Waters, outro detalhe de sua genial carreira.

Que contando com esta capsula de doze alojada no LP, faz de ''Captured Live!'' um trabalho que consegue expressar tudo que foi dito e não dito, com seis faixas, assim como ''Johnny Winter And'', só que com um set list mais virado no giraya e com seis minutos a mais de jam. Arte na qual o mestre teve primeiro e segundo grau completo, fez ensino superior, mestrado, douturado, colou o cerficado de Ph.D na geladeira e fez MBA nas Tours e festivais.


O que ele faz nos mais de 10 minutos de ''Highway 61 Revisited'' é um absurdo, era digno de fazer o Bob Dylan nunca mais tocar essa música e doar a patente criativa. ''Sweet Papa John'' também, 12 minutos de uma das maiores fontes de glicose blueseira, mas essa aí é sempre uma versão melhor que a outra e trata-se do único momento autoral do LP. Podemos até imaginar o mago dos cabelos brancos tocando em prosa, olhos semi cerrados perdidos em outro plano, smack viajante e riffs despencando como bombas na Palestina.

Dentro de uma viagem que na teoria segue um set list, mas que na prática pode surgir fragmentada, sem seguir nada, pulsando de maneira devassa e sendo cru como ''Bonie Moronie'', puramente Rock 'N' Roll com ''Roll With Me'' e absolutamente festeiro com ''Rock & Roll People'' e ''It's All Over Now'' , duas das mais belas expressões em relação a potência e vibração desse fraseado em pura abstinência de Blues.



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Joe Bonamassa - Tour De Force

Quando Joe Bonamassa anunciou que ia lançar quatro DVD's de uma vez (em virtude de sua Tour pelo Reino Unido), este que vos escreve tratou de começar a juntar dinheiro, por que quatro exemplares seriam uma pequena facada no meu curto orçamento.

Os shows saíram, eu comprei, vi dezenas de vezes, mas desde então não comentei a respeito e agora que me lembrei deste fato, nada mais justo que fazê-lo e não, não vou falar de cada DVD separadamente por que seriam quatro textos, logo, uma sucessão de fatos deveras cansativos para os senhores, portanto farei um apanhado geral.


Um ponto que vale destacar é que não comprei a versão importada, primeiro que o preço está um absurdo e segundo que todos os shows saíram em edições nacionais excelentes, tudo pelo selo do Fábio Golfetti (Violeta De Outo), o Voiceprint. Fiz contato com eles e consegui os quatro por menos da metade do preço, se comparado com os valores exorbitantes cobrados pela Saraiva, Submarino e etc.

A finalização de cada DVD ficou excelente, a caixinha, o encaixe dos discos, não foi um trabalho feito as pressas, dá pra perceber o fino trato e a qualidade de imagem e som deixam isso bem claro. Dos quatro registros meu favorito foi o ''The Borderline'' (o primeiro da esquerda para direita). Neste registro Bonamassa vai ao clube de mesmo nome, situado no coração de Londres, para tocar em um ambiente fantástico, pequeno e que é pura nostalgia, isso sem falar que é feito em forma de power trio com mais de 3 horas de conteúdo.

Line Up:
Anton Fig (bateria)
Michael Rhodes (baixo)
Joe Bonamassa (guitarra/vocal)



Track List:
''Albion (Intro)''
''I Know Where I Belong''
''Spanish Boots''
''Your Funeral My Trail''
''Blues Deluxe''
''Pain And Sorrow''
''Happier Times''
''Steal Your Heart Away''
''Miss You Hate You''
''The River''
''Burning Hell''
''Don't Burn Down That Bridge''
''Story Of A Quarryman''
''Are You Experienced''
''World's End (Credits)''



O Segundo DVD migra de um ambiente com pinta de bar para um teatro mais pomposo. No ''Shepherd's Bush'' temos outra banda, outro set list e mais uma performance absurda, aliás resenhar os quatro pode ser meio repetitivo por que mesmo mudando as bandas e os sets, a qualidade só aumenta, ou pelo menos se mantém. E aqui neste lindíssimo teatro temos 2 horas e 40 de Blues.

Line Up:
Joe Bonamassa (vocal/guitarra)
Carmine Rojas (baixo)
Tal Bergman (bateria)
Arlan Schierbaum (teclado)
Lee Thornburg (trompete)
Sean Freeman (saxofone)
Mike Feltham (trombone)



Track List:
''Albion (Intro)''
''Slow Train''
''So It's Like That''
''Midnight Blues''
''Last Kiss''
''So Many Roads''
''Band Intros''
''You Better Watch Yourself''
''Chains And Things''
''Lonesome Road Blues''
''Stop!''
''I Got All You Need''
''The Great Flood''
''The Ballad Of John Henry''
''Ask Around For You''
''Further On Up The Road''
''World's End (Credit)''



Neste terceiro evento o show foi levado para um lugar ainda maior e novamente importantíssimo, um dos grandes marcos para a história de shows da Inglaterra em todos os tempos, aliás vai bem mais além da Inglaterra, o impacto do Hammersmith Apollo é mundial. Aqui mais uma vez o set se altera, a banda muda, porém a qualidade prevalece.

Cada DVD surge com um conceito. Se no primeiro a ideia era recriar a nostalgia power trio dos anos setenta e no segundo o lance era pegar um Blues mais raiz, aqui o Rock 'N' Roll faz seu nome de forma mais bruta, com mais de duas horas e quarenta de jam.

Line Up:
Joe Bonamassa (vocal/guitarra)
Carmine Rojas (baixo)
Tal Bergman (bateria)
Arlan Schierbaum (teclado)
Lenny Castro (percussão)
Doug Henthorn (vocal)



Track List:
''Albion (Intro)''
''Seagull''
''Jelly Row''
''Richmond''
''Athens To Athens''
''Woke Up Dreaming''
''Cradle Rock''
''Dislocated Boy''
''Driving Towards The Daylight''
''Who's Been Talkin'''
''Jockey Full Of Bourbon''
''Tea For One''
''Lonesome Road Blues''
''The Ballad Of John Henry''
''Sloe Gin''
''Just Got Paid''
''World's End (Credits)''



Finalizando o pacote, e chegando às conclusões finais, visitamos o imponente Royal Albert Hall e seu set mais eclético, a mistura de sons elétricos com resquícios acústicos, relembrando a beleza do ótimo DVD gravado no também fabuloso Vienna Opera House. O set muda outra vez mais, a banda se altera em poucos postos (mas novamente notamos como esse cidadão toca com qualquer um a qualquer hora do dia) e o resultado segue excelente. Para os puristas esse é o melhor momento do box, para este que vos escreve (repito que) é o vermelhão.

Mas o importante além de perceber o nível de qualidade, é notar como esse cara gosta de fazer música. São quatro DVD's que apresentam teoricamente o mesmo som, mas que com a quantidade de discos que o (ainda) jovem guitarrista já lançou, são capazes de preencher sets para quatro DVD's diferentes e ainda surpreender o telespectador como se não fosse o mesmo grupo, realmente muito bom e neste exemplar em particular, apresenta mais de 3 horas de conteúdo. Custa caro mas vale a pena!

Line Up:
Joe Bonamassa (guitarra/vocal)
Carmine Rojas (baixo)
Tal Bergman (bateria)
Arlan Schierbaum (teclado)
Lenny Castro (percussão)
Doug Henthorn (vocal)Michael Rhodes (baixo)Anton Fig (bateria)Mats Wester (nyckelharpa)
Gerry O'Connor (banjo/violino)



Track List:
''Albion (Intro)''
''Palm Trees, Helicopters And Gasoline''
''Seagull''
''Jelly Roll''
''Black Lung Heartache''
''Around The Bend''
''Jockey Full Of Bourbon''
''From The Valley''
''Athens To Athens''
''A Short Break To Plug In The Electric Guitars''
''Slow Train''
''Last Kiss''
''Dust Bowl''
''Midnight Blues''
''Who's Been Talkin'''
''Happier Times''
''Band Intros''
''Driving Towards The Daylight''
''The Ballad Of John Henry''
''Django''
''Mountain Time''
''Sloe Gin''
''Just Got Paid''
''World's End (Credits)''




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Tycho - Awake

Recentemente tenho ouvido bastante coisa, mas depois que uma amiga me mandou um disco específico alguns meses atrás, comecei a procurar mais sobre música eletrônica. Bom... no fim das contas os resultados não foram muito agradáveis, mas é válido ressaltar que conheci uns cinco ou seis nomes que gostei bastante.


Só que definitavamente não fui feito para esse som, porém, alguns deles me foram excelentemente úteis, inclusive foram complicados até mesmo para largar. ''Awake'', quarto disco de estúdio do Americano Tycho (lançado fia 18 de março de 2014) que o diga.

Line Up:
Scott Hansen (baixo/bateria/guitarra/teclado/bateria)
Ricardo Ayala (bateria)
Zac Brown (baixo/guitarra)
Count (bateria)
Rory O' Connor (bateria)



Track List:
''Awake''
''Montana''
''L''
''Dye''
''See''
''Apologee''
''Spectre''
''Plans''


Tycho na verdade é Scott Hansen, músico de São Francisco que faz um som que depois de algumas horas pensando em como caracterizar, classifico como um derretimento sonoro sublime. Juro que não faço uso de remédios tarja preta, ou de psicoativos danosos, realmente isso foi a única coisa ''escrevível'' que consegui bolar, trata-se de um som ambiente assombrosamente delicioso de ser apreciado.


São praticamente 37 minutos de uma atmofera que se molda perante tudo que você vislumbra de corpo presente enquanto escuta o LP. E nesses três ou quatro meses que tenho ouvido esse trabalho posso realmente acentuar esse ''tudo''. Andei pelos mais diversos lugares, nas mais estelares horas e o conforto que este som consegue  transmitir é impressionante, é tudo tão suave... Acaba e você nem percebe.

Senti um energia meio Woodstock-Hippie nesse som. Até no ônibus, se você escuta ''Montana'' a impressão que você tem é que se estiver sentado a cadeira vai sendo sugada, se estiver de pé, o automóvel todo vai derretendo e nada esquenta, só esfria. Um ar de Cool Jazz no vulcão, viagem excelente, bate até um ventinho. As cores ficam mais saturadas, mais vivas e os sentidos se confundem, as cores passam a ter cheiro e as paisagens ganham em surrealidade, parece até que você vive os trabalhos gráficos de sua alcunha ISO50 em quarto viagem de estúdio.


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Na pegada etílica do The Golden Grass

Normalmente quando venho noticiar um novo disco, banda, ou projeto, venho notando que o CEP é sempre o mesmo: Suécia. Um amigo meu veio ''reclamar'' esse dias sobre o assunto inclusive. Dei risada mas parei para pensar e até que ele estava ''certo'' e as aspas são perfeitas para explicar o motivo.

Nunca tive preferência pela nacionalidade do que se passa pelo meus fones, mas é verdade, pela quantidade de bandas Suecas que temos aqui os caras mereciam até uma divisão exclusiva! Mas é tudo coincidência, tem muita coisa boa por lá e muita opção fora da bendita terra de Malmsteen. E para provar que não sou adepto da Xenofobia (aversão aos gringos), que nesse caso não sejam suécos, conheçam os americanos do The Golden Grass e o debutante que o trio lançou em maio de 2014.

Line Up:
Adam Kriney (bateria/vocal)
Joe Noval (baixo)
Michael Rafalowich (guitarra/vocal)



Track List:
''Please Man''
''Stuck On A Mountain''
''One More Time''
''Wheels''
''Sugar N' Spice''


O Golden Grass foi uma das minhas maiores gratas surpresas do ano passado. O Power-Trio americano possui uma cozinha Hard-Psych que é padrão FIFA, coisa realmente de primeiro mundo e que à julgar pela velocidade que seu som se propaga pelas redes sociais, deve estar bombando em Nova York.

Um paralelo que gosto (bastante) de traçar, para que você, digníssimo leitor, possa ter uma ideia do que a banda faz, é chamá-la carinhosamente de ''Kamchatka americano'', devido a semelhança do som dos caras com o Trio Suéco.

Mas continuando, o diferencial desse som em relação até o próprio Kamchatka é que aqui a abordagem é bem mais Psych e, que a banda tem um instrumental menos polido, mas que também apresenta  muita técnica de todos os envolvidos, fora o absurdo caráter improvisatório, fator que faz o som correr sem amarras.


Começando bem com ''Please Man'', faixa rápida, que apoiada nas precisas viradas de Adam Kriney (que além das baquetas ainda completa turno no vocal), acerta a mão em riffs e acentua o peso do grave num som redondinho, swingado, pesado e com muito entrosamento, completando o time com a guitarra de Michael Rafalowich e o baixo sempre alerta do digníssimo Joe Noval.

Criatividade em toneladas, ''Stuck On A Mountain'', mudanças repentinas, passagens instrumentais sempre dominando o fluxo com muita propriedade, formando um trabalho absolutamente coeso e que atinge o ápice de insanidade com os 12 minutos de ''Wheels'', para depois fechar a conta em menos de 40 minutos com ''Sugar N' Spice''. Um trampo curto é bem verdade, até nisso lembra os '70... Banda para ficar de olho, grande disco e um puta som.

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Bixiga 70 - Bixiga 70 III

O que é a força de um bom e velho néctar percussivo? Qual a ligação molecular que a fusão de ritmos consegue acionar dentro dessa química made in África? Creio que exista um núcleo dentro das camadas sonoras que sintetiza uma pepita do todo desse diamente e cria o que diferencia os estilos entre si: a abordagem sonora.


Algo que retomando o conceito de percussão se caracteriza pelo DNA de caldeirão, uma sinergia febril que recria uma combustão apaixonante no corpo do receptor e faz a inserção do ritmo no corpo da cobaia ouvinte, que seguindo essa nova seita musical, sincroniza o marca passo de dentro do peito com as batidos do groove e ainda promove uma síncope perfeita com o sangue que rebombeia no coração.

É como se o batuque, a fritação, os metais, guitarras, baixos, baterias e todos os compostos ácidos, exorcizassem toda a negatividade e filtrassem o elemento que restaura a ordem livre de toxinas, recarregando as energias de forma ideal: com a glicose do swing. Por isso que a transição é tão intensa e a imersão é tão impactante.


Notem que quando a cozinha se encerra você sente um baque... Não é umas abstinência mas o corpo treme... É a falta de Bixiga 70 correndo no sangue. A onda leva o camarão antes mesmo do menino dormir no barulho do terceiro trabalho do coletivo!

Line Up:
Décio 7 (bateria)
Marcelo Dworecki (baixo)
Cris Scabello (guitarra)
Maurício Fleury (teclado/guitarra)
Gustávo Cék (percussão)
Rômulo Nardes (percussão)
Cuca Ferreira (saxofone)
Daniel Nogueira (saxofone)
Douglas Antunes (trombone)
Daniel Gralha (trompete)
Anderson Quevedo (saxofone/flauta)



Track List:
''Ventania''
''Niran''
''100% 13''
''Di Dancer''
''Machado''
''Martelo''
''Lembe''
''Mil Vidas''
''7 Pancadas''


O CD que fecha a primeira trinca infernal da história da banda chega concluindo um ciclo, mas ao mesmo tempo começa outro na medida que reapresenta a cozinha consagrada do Led I e II dos fritadores do bairro do Bixiga, já oferecendo um aperitivo de mudança.

Dessa vez a ideia atinge altas e inéditas proporções de densidade sonora. Mais uma vez a força do instrumental é um completo absurdo e a novidade para com esse novo retrato é a influência Árabe que a cozinha recebeu tão bem, junto de elementos roots do Reggae fazendo a ponte com o Rap.

E a moral disso tudo é simples: a cada novo trabalho o Bixiga 70 nos mostra que não existem limites para a experimentação. E a fusão que esses caras fabricam é absolutamente criativa, globalizada e deixa claro que quando se possui um norte (e um combo como este), a ousadia surge naturalmente.


Chega a ser um clichê salientar que essa banda é de longe um dos melhores grupos que surgiram em nossa cena, mas é lindo ver que a cada disco a popularidade cresce, o reconhecimento surge e que a música ganha cada vez mais tranquilidade para ser arquitetada por esse brilhantes músicos, só que não tem como não elogiar discos como esse nos fazem renovar o mantra e agradecer os caras por mais um trampo grandioso.

O oportunismo nos insights é sem igual e o talento pra uma audição de ideias como ''Ventania'', ''Niran'' ou ''100% 13'' não nos tira o prazer de justamente enumerar as influências que nós, fãs de de boa música, tanto gostamos de discutir. Jam que promove ritmo, tira teima e mudança, algo que só um todo que engloba passagens como ''Machado'', ''Lembe'' e ''7 Pancadas'' poderia prover. Discão, a naturalidade é assustadora, a arte do improviso impera nesse cosmos de Afrobeat.

Freak Out!

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Trickfinger: o alter ego eletrônico do John Frusciante

Quando o john frusciante pintou o circulo vermelho da capa de seu último disco, o décimo segundo trabalho de estúdio (o interessante ''Enclosure''), ele estava falando sério: um ciclo foi fechado. Agora em 2015 o guitarrista retorna com mais um trabalho, só que desta vez não estampa seu nome na capa, para nos mostrar seus lado Acid House o americano resolveu levar a imersão para outro nível ao reassumir sua alcunha ''Trickfinger'', o pseudônimo que frita com base em samples & sintetizadores e que já tinha lançado um EP, falo de ''Sect In Agt'' de 2012.


Com esse trabalho suas experimentações atingem um novo grau de eloquência e surgem como um recomeço criativo para o guitarrista. Esqueça tudo que ele fez até agora, nada no curriculum do cidadão se assemelha a este disco e creio que daqui pra frente essa seja a língua que ele falará musicalmente.


Track List:
''After Below''
''Before Above''
''Rainover''
''Sain''
''85h''
''4:30''
''100Mc4''
''Phurip''


Em mais uma viagem onde Frusciante é responsável por cada micro vibração sonora, o primeiro full do senhor Trickfinger surge como um play que é formado pelo todo. É impossível fragmentar essa ideia, mais uma vez o conceito de experimentalismo fez questão de criar um trabalho conceito, que apesar de ser dividido em temas, poderia muito bem ser uma coisa só, tamanha a homogeniedade dessa obra.

São 8 sons e pouco mais de 35 minutos de trocas energéticas que quando iniciados, nos mostram claramente como o este novo ciclo surge com bastante naturalidade e criatividade. Quando John ainda trabalhava misturando o Rock com approach experimental creio que seu melhor momento foi quando lançou o ''The Empyrean'' em 2009, depois disso os trabalhos posteriores ousaram muito, mas só com ''Enclosure'' que o músico voltou a achar uma fórmula.

Só que ai chegou a saturação. e como o conceito de Acid House é completamente diferente de tudo que ele fez e o mais imerso que conseguiu chegar eletronicamente, é importante ressaltar que aqui a ideia é toda calcada em camadas, só que sem emular nada semelhante a uma guitarra, são várias samples em convergência com beats, repeats e efeitos que tramam uma linha de raciocínio bastante interessante, antigamente você ainda achava algum resquício de guitarra, aqui não temos nem pista e por mais assustador que parece, é justamente esse lado que freak que encanta que navega no mar Trickfinger de Acid House.


E o mais insano em todo esse processo é que este CD foi gravado em 2008, época que John começou a se engajar na programação e no funcionamento dos utilitários para poder se mover em um novo ramo, realizando seu sonho de parar de escrever de forma convencional e unindo isso a seu desejo de focar no amplo e ainda inexplorado ambiente eletrônico.

Fora que antes desse registro muitas pessoas reclamavam de seus trabalhos sem nenhum embasamento, agora creio que tudo ficará claro, quem escuta isso aqui percebe que a Fender ficou encostada, afinal de contas com os vários sintetizadores que John possui ele pode emular cada nota da guitarra, colocar no tom exato que necessita e unir tudo.

É de longe seu disco onde o conceito eletrônico está mais bem definido e creio que daqui pra frente teremos mais coisas nessa linha, bye bye Stratocaster, hello Roland MC-202. A cada novo EP, single ou Full esse cara consegue romper um paradigma, a cada novo som gravado sua criatividade fica cada vez menos limitada e no final das contas não existem limites físicos entre o som dos sintetizadores e sua imaginação.


Hoje John é tão fluente na programação como era na época que seus riffs exalaram Funk. Desconecte-se do mundo externo, reserve um tempo para você e simplesmente tente romper o outro lado, apreciando o trabalho profundo e significativo que esse cara conseguiu elencar para formar mais um projeto que faz o que apenas os grandes conseguem: promover a evolução musical.

É impressionante o domínio das samples quando tudo parece um caos, é notável ver como cada linha que forma esse complexo sonoro foi imaginada por esse senhor, pois são passagens tão voláteis e com feeling tão próprio que além de nos espantar pelo domínio do maquinário, nos fazem ver algo que até o momento nunca tinha presenciado: sentimento dentro da música eletrônica, beats melodiosos e sons que conseguem explorar tudo que sai do computador, um controle que chega a assustar, parece que a coisa vai se perder mais John mantém a rédea curta. Surpreendentemente excelente.

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Nina Simone: Demonstração de requinte agora documentada via Netflix

A Nina Simone é um dos nomes mais básicos dentro da música mundial, todo mundo deveria conhecer esse nome e respectivo som. A imagem impactante, forte mas ao mesmo tempo meiga, poética porém veementemente ativista e sublime sob panos quentes, sempre nos relembrando do mais importante: A música é a arte de emocionar pelas notas, criando melodias como se o lance fosse casual, sempre com requinte e elevação do grau de toda essa embriaguez que guia a apreciação sonora, tarefa que Nina foi P.h.D.


Só que infelizmente a providência divina não se fez presente na vida de Simone quando esta ainda habitava o mesmo plano que eu e você, caro leitor. Enquanto viveu sua música foi apreciada por muitos, mas mesmo assim foi uma força da natureza que nunca explorou todo o potencial que tinha, logo, é desnecessário pontuar a grande felicidade com que o documentário ''What Happend, Miss Simone?'', foi recebido pelos fãs das raízes Jazzísticas, Funkeadas e convergentemente negras que essa senhora tanto batizou com o suor de seu talento.


Dirigido por Liz Garbus, o registro carrega cenas ainda não vistas, filmagens raras e toda a sorte de conteúdo ilustrativo que permeou uma das mentes mais fascinantes da música, que como poucos sobe atuar muito bem dentro e fora dos palcos.

Agora sua história de luta e raça será contada para quem já conhecia, quem não conhecia e espera-se que o público brasileiro reconheça a força desse nome e o fervor dos timbres do piano que sua voz bancava sem jamais sair do tom. Fiquem ligados, a estréia esta marcada para o dia 26 de junho e abaixo ainda é possível conferir um trailer desse tratado em prol de grooves!

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Criolo mandou: convoque Seu Buda

Dizem que chiclete da fome. Se você não comer nada durante uma par de horas e começar a mascar a goma, verás que seu estômago fica meio breaco-confuso... No fim das contas considero essa dúvida corporal uma demonstração de fome, não sou médico, mas virou consenso dentro da ''sabedoria das ruas'', comer chiclete = fome.

Em 2014 o Criolo fez todos seus fãs passarem fome, mas para enganar ele dava um chiclete, na verdade ele deu três:

1) O single ''Duas de Cinco'', presente neste novo trabalho.
2) ''Cóccix-tência''.
3) E o curta ilustrando as duas faixas já citadas, plus a grade horária e histórica do futuro do Grajauex.



Desde a virada do calendário Maia (fazendo a transição de 2013-2014), que os fãs do Rapper estão com fome, o chiclete foi engando, enganando... Mas chegou uma hora que não dava mais, nós precisávamos colocar algo ''de verdade'' no estômago, algo sólido, mas ele pegou pesado demais. 

Antes eram três chicletes... Falamos tanto desse novo disco que o LP não tinha nem data pra sair, no começo da semana passada o próprio poeta falou: ''Sai em novembro'' e no dia 03 ele soltou a pedrada com tudo, com direito a impulso e o escambal. Pra quem ficou a míngua ''Convoque Seu Buda'' é um banquete para os mendigos, será ótimo degustá-lo e trabalhoso para digerir tamanha gama de rap com farofa. Toneladas de rimas para serem dissecadas, um trampo que não necessita nem de sobremesa.


Track List:
''Convoque Seu Buda''
''Esquiva da Esgrima''
''Cartão de Visita''- Tulipa Ruiz
''Casa de Papelão''
''Fermento Pra Massa''
''Pé de Breque''
''Pegue pra Ela''
''Plano de Voo'' - Síntese
''Duas de Cinco''
''Fio de Prumo (Pade Onã)'' - Juçara Marçal


O Criolo é cheio de falar para os fãs: ''Gratidão''. Gratidão aqui, ali, acolá... Ouvi esse disco durante cinco horas seguidas na madruga do lançamento, e meu Buda, a gratidão é nossa. Primeiramente vale ressaltar que seu melhor CD (opinião do resenhista), surge no melhor momento possível e paradoxalmente, no mais difícil também.

Do ano passado até o presente momento o Criolo caiu na boca do povo, mas não do costumeiro fã de Rap e sim do fã de Jazz, de Bossa, de Heavy, Hard... Até minha mãe gosta do cidadão e ela abomina rimas, menos a deste senhor. Nunca vi um músico que surgiu deste celeiro de poesia ser tão popular e conseguir dialogar com tantas camadas falando a mesma coisa. 

A quebrada interpreta o Criolo de ''Grajauex'', os pseudo-cults começam as atividades do dia e lavam corpos, contam corpos... E no momento onde seu som era mais exaltado ele podia muito bem ter surgido com um LP mediano e colido os louros, mas não, ele plantou a semente da oportunidade acreditando que ''Ainda Há Tempo'', cuidou pra germinar sem ''Nó Na Orelha'' e come o fruto sem semente junto com seu guia espiritual.

Parece exagero, pode até parecer que este que vos escreve queimou a largada, mas esse disco vai ser lembrado e, de uma forma MUITO ampla, limitar com a alcunha de Rap é ignorar a qualidade e o nível fora do normal que a rima desse cidadão interliga conteúdo e se faz atual, imediata, bonita, poética e marcante.


A faixa título desceu na linha azul e foi dar rolê no bairro dos japas. Tem trecho de mangá, cutuco no maconheiro sem alma crítica, crack e uma brinde aos protestantes de Facebook, molecada que vai pra manifestação tirar foto e pagar de patriota. Depois ''Esquiva da Esgrima'' aparece segurando seu amigo que enche o caneco e sai voando baixo na ambulância. Só em citação com dois minutos de som podemos encher duas palmas de mão, temos nomes de quem construiu a história do Rap, a vida com contato e relações superficiais, a beira do colapso da nossa humanidade, baião de fundo, drogas como moeda de troca, piada com a copa, vinagre de manifestação.   

Na primeira fila,''Cartão de Visita'' apresenta um Criolo chic, encabeçando dinastias, fazendo a rima tal qual o Alfredo do comercial da Neve, na estica. Ainda tem o swing do Funk, Tulipa Ruiz aveludando o fone de ouvido, FGV resolvendo a inflação e Lázaro Ramos com sua tradicional saga pessoal do leite da fazenda. Posteriormente ''Casa de Papelão'' faz batuque com metais travestidos de Free Jazz pique Ornett Coleman. ''Fermento Pra Massa'' faz as vezes com o país das greves, reclama do preço do pão, faz um sambinha de primeira regando a ideia com pingos de revolução e conclui que pra fazer a massa, o importante é não deixar o pessoal no circo. 



E convocar os ''Pé de Breque'', pregar o respeito pelo lion man e queimar a Babilônia, só de quem deu intera claro, fora um Dub especialmente lesante de backgroud. Tudo com ''Plano de Voo'', talvez o melhor momento do disco, apresentando a rima do Neto (Síntese), pra quem não conhecia. Um flow excelente, críticas caindo atirando e pitadas de suco em pó, fora o brilhantismo do participante, várias fitas e um impacto voraz, digno de orquestração... No fim faltou até ar.

Ainda bem que depois aparece ''Duas de Cinco''. Seu beat surge conhecido e com absorção mais relax, porém o conteúdo é de uma riqueza sem igual, de Star Wars à alcólicos anônimos, de uma bucha até risadas de psicopata. E depois ainda tem Juçara Marçal fechando o lacre de genialidade e mandando a ideia pra vários amantes de conteúdo relevante... Abre caminho tranquilo pra eu passar... Vai Criolo, vai com Buda, até a capa desse disco é foda. 

Como diria o Neto: Extraordinário. Tirem a alma do stand by e, Criolo, please, se for pra nos deixar à míngua, fique tranquilo, vale a pena passar perrengue com o cartão do fome zero se o beat não parar com ideias desse quilate. Ubuntu, e viva a abstinência de chiclete e a abertura das portas de Aldous Huxley com imãs de geladeira filosóficos.

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O verso Junky de William S. Burroughs

A música tem uma característica péssima, aliás creio que este seja seu único defeito. Desde que me conheço por gente lembro de conversar com meu pai e a cada novo guitarrista, baixista, ou até mesmo baterista que descobria, ele sempre falava: ''morreu de overdose''. E isso muito me incomodava, mas não tem como negar, a lista é infinita: Jimi Hendrix, Mike Bloomfield, Tommy Bolin, Hillel Slovak, Janis Joplin, Gary Thain, Keith Moon e centenas de milhares de outros grandes nomes...


No primeiro momento do baque sempre me sentia afetado com a notícia do óbito, mas isso acabava passando depois de algumas horas, porém com o passar dos anos os músicos continuam morrendo e mesmo com todo tipo de política anti drogas as pessoas sempre tiram sarro, não parecem perceber o óbvio.

A maneira como a droga é idealizada quando é abordada por nomes como Keith Richards e outros Junkies da música em geral (até por que o Jazz está ai pra provar que as drogas sempre estiveram rondando), é deveras perigoso, só que com esses caras as substâncias ganham um ar sadomosaquistamente-Cult.

A maneira como muitos deles narram as aventuras com drogas, mostram o prazer da sensação com o barato já dentro do corpo... o Rock acaba de alguma maneira instigando as pessoas a tentarem trilhar esse caminho, fazendo muitos pensarem que com um baseado na boca, ou que com uma agulha na veia ele vai se juntar aos grandes nomes, mas depois que o efeito passa tudo se perde, os danos são irreversíveis... Mas ninguém dá a mínima, bom mesmo é ficar sequelado e, se você acha que isso é um assunto recente, saiba que desde 1953 que William S. Burroughs dedava o dia-a-dia dos viciados.


A literatura Beat é a verdade cuspida com requinstes poéticos e bem escritos, é uma litaratura de guerrilha, que mesmo sendo marginalizada desde seus primórdios, MUITO incomodou os conservadores da linguagem de Shakeaspeare. Os Beatnicks usavam drogas, bebiam, TINHAM PROBLEMAS, sabiam o que rolava no submundo da sociedade, foram mainstream quando isso nem ao menos existia e mesmo que poucos assumam, o Beat tomou as ruas, telas de cinema e as prateleiras do meu quarto.

Para este que vos viaja, nomes como William S. Burroughs, Jack Kerouac e Ginsberg, são tão importantes como qualquer outro, justamente pelo fato de falarem a verdade e de ''confortarem'' seus leitores, sabendo que eles estavam tão fudidos quanto quem um dia se inspirou a folear esses respectivos nomes, ganhando pouco por seus livros, passando fome com um conteúdo fantástico e que muito inspirou a música, aliás o Steely Dan deve muito a este cidadão.


Voltando ao livro digo sem medo que é uma leitura excelente, primeiro por que além de William escrever de forma fantástica, as edições atuais des e te livro estão num preço bem bacana e sem cortes, deixando ainda mais vívida as imagens dos personagens tentando largar a morfina, roubando para manter o vício e tremendo em pura ebulição em virtude da abstinência.

Aqui Burroughs incorpora o Junky, desafia até quem um dia foi um destes, coloca tudo em cheque por uma agulha e traça sua vida sempre em busca do próximo pico, arquitetando um clássico dos novos tempos e moldando o todo dessa massa de poesia homem-bomba de Thomson, com seu estilo único, que dentro do planeta Beat já era uma bala que fazia curva.

As descrições de choque corporal, o vocábulo, as experiências pessoais com todas as drogas possíveis e tudo que seus efeitos geravam em sua escrita anafilática faz com que esse tratado chapante seja um diário de todos os ex viciados e mentes que um dia tiveram problemas com substâncias recreativas, uma lição que deveria deixar o ramo mais careta, só que infelizmente rende caldo até pra quem faz a resenha sob a névoa de verbos excêntricos e de vontade própria, dentro de uma perspectiva de Jazz, baurete, sintéticos e horas de fritação verborrágica.

Aprenda a rir de sua própria fraqueza, sinta-se um lixo por estar na merda mas nunca desista de cumprir a dose diária, o mundo só gira quando a agulha vem carregada, o peito só ventila oxigênio quando bate a nave e o desespero só passa quando o revólver do seu vício explode o gatilho no centro do magma da sua caixa de pandora cerebral... Se você abrir os olhos agora quer dizer que não morreu, deve ter sido apenas uma overdose... cadê o tuinal?

Até que ponto seu texto consegue derreter?

Steely:

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Chet Baker - Let's Get Lost

Neste exato momento está chovendo aqui em casa, aquela chuva chata que no fim das contas não deixa ninguém seco, mas que também não molha nada. Não me pergunte o por quê, mas neste clima nunca consigo escrever de maneira confortável... É um cenário muito vago e mesmo que (aparentemente), isso não pareça interferir na música, atrapalha muito no aspecto sensorial. A atmosfera fica mais nebulosa, você fica mais quieto naturalmente e assim sendo, sempre acabo colocando meus fones e escutando Jazz.

O texto simplesmente não sai, as vezes tento insistir, mas parece que não estou sendo honesto. Tenho uma lista de posts que gostaria de dar forma, mas nessas condições a coisa simplesmente não flui e, em dias onde este clima gélido e introspectivo atinge meu ser, não me resta nada a não ser observar as gotas caindo da janela do meu quarto enquanto escuto um Chet Baker, mais precisamente a beleza de  ''Let's Get Lost'', clássico lançado em 1959, um disco que nos prova que só o Jazz faz alguém ver beleza em coisas tão simples!

Line Up:
Chet Baker (vocal/trompete)
Niccola Dtlio (guitarra/flauta)
John Leftwich (baixo)
Ralph Penland (bateria/percussão)
Frank Strazzeri (piano)
Nicola Stilo (guitarra/flauta)



Track List:
''Moon & Sand''
''Imagination''
''You're My Thrill''
''For Heaven's Sake''
''Ev'ry Time We Say Goodbye''
''I Don't Stand A Ghost Of A Chance With You''
''Daydream''
''Zingaro''
''Blame It On My Youth''
''My One And Only Love''
''Everything Happens To Me''
''Almost Blue''


A música de Chet foi um retrato de sua vida, triste. O trompetista teve tudo: prestígio, dinheiro, todas as mulheres que poderia, beleza e talento. Lendo isso nem parece que seu fim foi tão trágico e, a culpa é (mais uma vez), do álcool e das drogas, mais especificamente da Heroína, companheira do americano durante boa parte de sua vida.

Conheci o timbre de seu trompete logo depois de escutar a mística de Miles Davis e, mesmo Chet não sendo tão virtuoso (ou até mesmo visionário como o mestre do Fusion), acho que poucos realmente percebem seu talento, sendo este um dos nomes mais injustiçados e subestimados do Jazz. Um ser dotado de uma voz leve, calma, aveludada, e um trompete delicado, econômico, que mesmo não sendo nada assombrosamente técnico, era sentimento puro.


Dizem que para alguém passar sentimento por meio de uma música o cidadão precisa ter passado por poucas e boas em sua vida. Se tem alguém que teve problemas, esse alguém foi Baker. Foram inúmeras prisões, crises financeiras, delírios em abstinência e, ao escutar alguma peça do músico, isso fica claro.

A tristeza, o feeling... Cada nota era valorizada por Chet, ele não desperdiçava nada e em sua vasta discografia ''Let's Get Lost'' é um dos grandes marcos para perceber tal fato. Sua voz doce faz o tempo passar devagar, nada reverbera despercebido, nem mesmo as gotas em minha janela...


Aperte play e não tenha pressa, sente-se numa posição confortável ou deite com a cabeça encostada no travesseiro. Assista ao tempo passar com os olhos fechados, respire tranquilo enquanto o trompetista inunda seus ouvidos com uma das vozes mais açucaradas do Jazz. Sinta ''Moon & Sand''. Repare na beleza e nas linhas econômicas de ''Imagination'', a melancolia explícita em ''You're My Thrill''.


É algo triste, mas que (estranhamente) não deixa o ouvinte cabisbaixo nem nada do gênero, é tudo tão sincero que você incorpora as verdades que saem tanto da voz quanto de seu trompete. É tão bom que você dá aquele sorriso malandro, relaxa ainda mais e segue aproveitando cada segundo.

Admire as partituras poéticas de ''For Heaven's Sake'',  o transe duradouro de ''Ev'ry Time We Say Goodbye'' e ''I Don't Stand A Ghost Of A Chance With You''. A plenitude de ''Daydream''. É algo realmente absoluto, um dos melhores discos de Jazz que já ouvi e se você não conhece nada do gênero e quer começar a se aventurar por aqui, creio que este metal seja a porta de entrada perfeita.

Parece que tem algo de místico no som deste mito, parece irresistível. E escutando temas como ''Zingaro'', ''Blame It On My Youth'', e ''My One And Only Love'', parece ser o suficiente. Pra que escutar outra coisa? Conheço pessoas que após conhecerem este som nem foram além e não foi por falta de opções, muito pelo contrário!

Escute ''Everything Happens To Me'' e ''Almost Blue'' que entenderás o motivo. Esse som é universal, simplesmente se molda a qualquer coisa de uma tal maneira que não é preciso ter um vasto conhecimento sobre Jazz, ou até mesmo de música de maneira geral. Só Chet e seu trompete, isso me basta.


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