Hiromi Uehara: Hiromi's Sonicbloom - Time Control

Nos últimos três anos a Hiromi está hospedada em um verdadeiro oásis criativo com esse ''Trio Project'' que ela montou e que justiça seja feita, é fantástico. Só que o Jazz é um estilo que apesar de ter seus dogmas clássicos, necessita ser refrescado de tempos em tempos, é igual aquela tela que trava quando abrimos mais do que uma aba no Internet Explorer.

Lendo esse parágrafo nós conseguimos drenar duas informações:

1) O resenhista se encontra em pleno estado de insatisfação com esta fase
2) Ou ele está levemente preocupado com os rumos do piano nipônico, caso ela demore ''tempo demais'' para voltar a repaginar a cozinha de hashis. 



Só que para poder adentrar essa discussão é necessário situar o ouvinte dentro de um momento criativo diferente do que estamos agora, e para tal creio que a temporada Sonicbloom seja o momento mais oportuno para ser abordado, fora que trata-se da época mais experimental e ácida da japa, sendo ''Time Control'' (lançado em 2007), o primeiro dos dois trabalhos com este codinome e o mais ousado deles. Onde além de sair do lugar comum, a dona do par de mãos mais rápidas do século XXI ainda popularizou o nome do fantástico Dave Fiuczynski, um dos grandes nomes da guitarra em tempos recentes e o grande norte responsável pela sonoridade que esse projeto alcançou.

Line Up:
Hiromi Uehara (piano)
Dave Fiuczynski (guitarra)
Tony Grey (baixo)
Martin Valihora (bateria)



Track List:
''Time Difference''
''Time Out''
''Time Travel''
''Deep Into The Night''
''Real Clock vs. Body Clock = Jet Lag''
''Time And Space''
''Time Control, Or Controlled By Time''
''Time Flies''
''Time's Up''
''Note From The Past'' - Bônus


Para se se ter uma ideia de como este trabalho é a prova do apogeu criativo e fritacional desta senhora, veja que esse CD é um marco, pois além de ser o melhor de sua carreira (opinião do escritor), é seu primeiro e único registro conceitual (onde o prato principal, além de passagens que beiram o anatomicamente impossível), resulta em uma massa instrumental que sem proferir nenhuma palavra concreta, cria todo um enredo sobre a passagem do tempo e seus percalços, que desculpem os vocalista, jamais poderia ser traduzido em palavras.


Citei o Fiuczynski no começo do texto mas vale ressaltar que além de sua guitarra temos também o privilégio de gozar de um ótimo baixo tocado por Tony Grey e de uma bateria fantástica, contando com Martin Valihora na banqueta, uma formação absolutamente fresca e que aqui explora tudo que esses fantásticos músicos podem tirar de seus respectivos instrumentos, só que no fim das contas a atenção fica com zoom máximo nos épicos embates que Dave e Hiromi travam ao decorrer da batalha Jazz e seu cosplay de ''The Snow Goose''.

E para abrir os trabalhos, já percebam como as leis mudam nessa jurisdição. ''Time Difference'' aparece com um apetite voraz e esse é o clima que permeia todo o disco, uma cozinha com aquela popular ''quebradeira'' Jazzística, onde pelo lado da Hiromi o marfim fica bem mais fusion e segue com o mesmo grau de perfeição, contracenando com as guitarras sempre elementares de Fiuczynski, que sempre extraindo o que existe de mais peculiar de seu instrumento, debulhou, debulha e debulhará cérebros de muitos estudiosos do instrumento que nas mãos parece que tem 20 cordas.

Incitando o lado Funkeado da pianista com ''Time Out'' e sua possível homenagem ao clássico disco de mesmo nome (do maestro Dave Brubeck), fora demonstrações insanas onde a técnica parece algo de outro planeta. Fora a grandiosidade da Hiromi, que mesmo sendo a ''estrela'' do disco, faz algo que apenas os grandes possuem o tato para assimilar com cuidado: Abrir espaço para os outros músicos brilharem e em ''Time Travel'', Dave e Valihora são os grandes destaques.



E apesar do caráter criativo ser meu grande destaque, além de ser algo único dentro da carreira dessa grande musicista, não importa o que ela faça, escuto sempre de forma despreocupada pois sei que ruim nunca será, pois além do lado virtuose a 500 BPM por minuto, a mulher sente a música como poucos e no fim do dia é isso que vale.

A jam é tão fresca que a faz até investir em timbres diferentes, adentrar a aresta Funky e jamais se desvencilhar da proposta original, relatar a passagem do tempo, com temas mais curtos se comparados às suítes do feitio da idealizadora do projeto e seu rápido Boogie, que quebrando o gelo em  ''Real Clock vs. Body Clock = Jet Lag'' prepara os cérebros completamente sequelados com tal performance para uma amostra de toda sua pegada no piano.


Espancando o Free Jazz com um Reggae absurdo ao som de ''Time And Space'' e sua par de famintos solos, sejam por parte do marfim malhado ou da diferenciada guitarra. Uma dupla que da um nó na cabeça de qualquer um e que assusta pelo grau de proximidade musical logo com o primeiro disco, evaporando as gotas de dúvida dos céticos com uma dobradinha quentíssima: ''Time Control, Or Controlled By Time'' e ''Time Flies''. 

Dois extremos onde o tempo dos músicos é colocado a prova de maneira praticamente indescritível (pelo menos em termos dentro de nossa língua). A primeira com uma sessão virtuose e outra com texturas de guitarra e lindos floreios de baixo-batera em prol de camadas para Hiromi pintar em seu abstrato piano. É um disco realmente absurdo, algo praticamente mundano para essa senhora, santo graal este que se encerra com a transição ''Time's Up'' e poderia ganhar uma sobrevida com um de seus melhores bônus, a levada praticamente solo no piano nos doze retumbantes minutos de ''Note From The Past''.

Um tema de marejar os olhos, dentro de um LP que faz os fãs quase suplicarem pela volta do Fiuczysnki, tamanho o leque de possibilidades que sua guitarra trouxe a este som, mas lembrem-se: Tudo depende da Hiromi e até agora se nós ousarmos criticar, vai ser no estilo mulher grávida: Cometer o sacrilégio de reclamar de barriga cheia. 

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