Shuggie Otis - Live In Williamsburg

Todos os anos temos grandes surpresas na música. Grandes discos que ninguém botava fé, shows fantásticos que você nunca pensou que veria, novas promessas surgindo, outras se firmando... Mas é sempre a mesma coisa, você nunca se prepara para uma surpresa e o melhor de tudo é justamente esse frio na barriga, essa tensão embriagante que permeia grandes momentos, sendo que o meu preferido de 2014 foi o ressurgimento do brilhante Shuggie Otis.

Em 2014 o que não faltou foi música de qualidade, mas de tudo que ouvi, escrevi e presenciei, nada foi mais especial do que ver a volta deste ícone da ''música cult''... Quando ouvi Shuggie pela primeira vez foi como se um raio tivesse atingido minha cabeça, devorei tudo que ele gravou em dias, li tudo que encontrei na internet e fiquei bem decepcionado ao encarar o óbvio: sua música estava sendo esquecida e quem já ouviu algum acorde desse monstro pode se identificar com tamanha heresia.

Mas quem ficou ligado no nome do americano nos últimos anos notou que rolou uma onda forte com seus relançamentos. Parece que sua música ganhou uma atenção renovado... Chamo isso de providência divina, algo que teria que acontecer cedo ou tarde, até por que um som deste nível não atravessou mais de 40 anos de tempo/espaço para ficar ganhando poeira em sebos.


Tudo começou em 2012 quando Otis resolveu voltar a fazer tours. Já em 2013 o múlti instrumentista concretizou sua volta com o ótimo lançamento da caixinha dupla ''Inspiration Information/Wings Of Love'', que além de ter sido um dos melhores lançamentos daquele ano, ainda continha o antológico ''Inspiration Information'' e outro disco só com faixas não lançadas, temas que muito provavelmente seriam incluidos no seu quarto trabalho, registro que nunca existiu.

Esse disco de ''sobras'' (como foi definido pelo próprio Shuggie), é muito mais do que isso, ele nega terminantemente, mas é bem provável que se não era um disco pronto para ser lançado (talvez até o que nunca viu a luz do dia), era quase isso. Nota-se uma uniformidade realmente impressionante e garanto quem comprou esse exemplar apreciou o som como se fosse o tão esperado quarto lançamento de estúdio.

Foram 40 anos sem oxigenar o planeta com mais música e pouco a pouco parece que a confiança foi voltando. Seus shows eram noticiados pela crítica, a tour foi para fora da Califórnia, rompeu a barreira do EUA e aí os rumores começaram. Estaria Shuggie Otis, aos 61 anos e 40 anos depois, ensaiando uma volta? A resposta não poderia ser melhor: Sim, ele está! E em 2014 o americano lançou seu primeiro disco ao vivo, que além do aspecto audível se transformará em visual com seu primeiro DVD! E digo mais, tudo indica que um próximo disco de estúdio está em processo... Para resumir: Shuggie Otis - ''Live In Williamsburg'', o marco zero da mudança, o estopim de um 2015 que poderá ser um grande ano para um grande músico.

Line Up:
Shuggie Otis (guitarra/vocal)
Eric Otis (guitarra)
Nick Otis (bateria)
Larry Douglas (trompete)
James Manning (baixo)
Albert Wing (saxofone)
Michael Turre (saxofone/flauta)
Russ ''Swang'' Stewart (teclado)



Track List:
''Inspiration Information''
''Tryin' To Get Closer To You''
''Aht Uh Mi Head''
''Island Letter''
''Me And My Woman''
''Sparkle City/Miss Pretty''
''Sweetest Thang''
''Picture Of Love''
''Wings Of Love''
''Doin' What's Right''
''Shuggie's Boogie''
''Ice Cold Daydream''
''Strawberry Letter 23''


E esse CD cria uma base ótima para que a música se desenvolva exatamente do ponto onde parou, la atrás, no longínquo ano de 1974, outra prova de que seu Soul funkeado é completamente atemporal. E começando a firmar a base desde a banda de apoio, Shuggie mostra que o sobrenome ''Otis'' possui muita história dentro da música e é sua principal aposta para seguir com o legado deste groove.


''Live In Williamsburg'' conta com o filho do mestre, Eric Otis, na guitarra e o irmão Nick nas baquetas. E o clima ''familiar'' que esse som nos brinda é realmente delicioso, fora que o set list não poderia estar mais completo, a banda toca cada detalhe com qualidade de estúdio em mais de uma hora e meia de muita improvisação durante uma noite que deve ter sido realmente memorável.

Dia 19 de abril de 2013 no Brooklyn Music Hall... foi este o CEP deste lançamento. Rolou Oito minutos de ''Sparkle City/Miss Pretty'', quase doze com ''Sweetest Thang'', dez com ''Wings Of Love'', outros vários com ''Shuggie's Boogie'' e quase vinte com a homericamente faraônica ''Strawberry Letter 23''. 

Esqueça as linhas de guitarra que você conhece e se concentre nas camadas, no tear de texturas e no feeling retumbante que esse cidadão possui. Aqui ele parece plenamente livre de pressões externas e pronto para finalmente quebrar o tabú dos estúdios. Realmente fabuloso, mal posso esperar pelo próximo disco... Nunca senti tanta vida nessas canções, gostaria de saber como seu groove iria ganhar corpo em tempos de 2015!

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