Gov't Mule - Dark Side Of The Mule

Se tem uma banda que está alegrando minha existência, essa banda é o Gov't Mule. Esse ano de 2015 marca vinte anos de muita jam e as celebrações já começaram antes mesmo de virarmos o calendário. Primeiro teve o tradicional record store day nos EUA. 

E quem pensou que a banda ia passar batida passou longe do raciocínio ideal, os caras resolveram surpreender e liberaram o ótimo ''Stoned Side Of The Mule'', um disco de covers que brindam a grandeza dos Rolling Stones dentro de um set muito interessante, sem ficar apostando nas faixas mais óbvias.

Depois a banda ainda oficializou doze datas com o grande John Scofield, guitarrista que também está incluído nas festividades, afinal de contas é de sua autoria a guitarra chapante que ilustra um dos shows mais pedidos pelos fãs do Mule, falo do fantástico ''Sco-Mule'', épico registro de 1999 que já chegou chegando em 2015.

E para fechar a conta, o responsável por toda essa zueira e pela cachoeira instrumental, o grande Warren Haynes, resolveu jogar o Southern no ventilador e disse que vai rolar repeteco roots Reggae do fantástico ''Mighty High'' (2007) com o ''The Dub Side Of The Mule'' e ainda arrumou tempo para uma noite Floydiana, lançando o registro Barrett da força e suas mais de três horas de som no dia 15 de dezembro do ano passado... E você ai achando que sua vida é que estava corrida!

Line Up:
Warren Haynes (guitarra/vocal)
Durga McBroom (vocal)
Matt Abts (bateria/vocal)
Machan Taylor (vocal)
Jorgen Carlsson (baixo)
Sophia Ramos (vocal)
Ron Holloway (saxofone)
Danny Louis (guitarra/teclado/órgão/vocal)



Track List CD1:
''Brighter Days''
''Bad Little Doggie''
''Brand New Angel''
''Gameface''
''Trane/Eternety's Breath/St. Stephen Jam''
''Monkey Hill''
'''Child Of The Earth''
''Kind Of Bird''


Track List CD2:
''One Of These Days''
''Fearless''
''Pigs On The Wing, Pt. 2''
''Shine On Your Crazy Diamond, Pts. 1 - 5''
''Have A Cigar''
''Speak To Me''
''Breath (In The Air)''
''On The Run''
''Time''
''The Great Gig In The Sky''
''Money''
''Comfortably Numb''


Track List CD3:
''Shine On Your Crazy Diamond, Pts. 6 - 9''
''Wish You Here''
''Million Miles From Yesterday''
''Blind Man In The Dark''


Esses shows temáticos do Gov't Mule só estavam esperando a melhor data para sair. Não é de hoje que a banda faz esses covers, vale lembrar inclusive que eles já tocaram tributos e a diversidade das homenagens foi grande, rola de Greteful à The Doors. Só que esse show em prol da Fender de Gilmour acabou sendo um dos primeiros registro gravados e acredito que trata-se do melhor deles.

O CD que a banda manda Stones é bem legal, só que o set é menor e o aparato, tanto de luz quanto de som, é bem diferente. Aqui tem até Warren Haynes tocando com Fender (!) E conseguindo chegar em um timbre bem próximo de Gilmour, fora um show de luzes que só intensifica o Progressivo com tensão de campo magnético que a banda criou, algo que o Gov't teve a audácia de reinventar em mais de três horas de camadas cintilantes.


O que foi visto e ouvido na noite de halloween em que este trabalho foi gravado (2008) é fabuloso, de fato, o Boston's Orpheum Theatre abrigou uma noite realmente fora de série, que melhor que doces ou travessuras, teve Gov't Mule e Pink Floyd. É válido ressaltar que antes de mandar o Progressivo a banda se aquece no primeiro mandando só os hits da casa. 

Warren ainda não está armado com a Fender, no começo o foco é relembrar um pouco de sua caminhada com o Matt Abts e cia, logo, quem manda é a Gibson. E depois de 8 temas (incluindo um medley chapadíssimo que teve até Grateful Dead no meio), é que podemos dizer que estamos na presença de algo que vai além de vosso entendimento, é hora de Pink Floyd, segurem o queixo que o maxilar vai sair do lugar


Este que vos escreve ficou atônito durante umas 4 horas. Fiquei realmente impressionado com o que tive a honra de ouvir e posteriormente assistir. Foi um choque pagar quase 150 reais no pacote deluxe desse lançamento, porém valeu cada centavo. 

Primeiro que uma banda de oito pessoas, algo relativamente compacto (ainda mais tendo em vista o repertório tocado), encheu o palco como se fosse uma orquestra, segundo que o reverendo Matt Abts ainda arrebentou na batera, canta (muito) em dois temas e seu compadre Warren nos brinda com uma de suas melhores apresentações, mesmo que pareça estranho ver o gordinho com uma Stratocaster no começo do show.

O conteúdo do disco é fabuloso mas o lance é ver o DVD. Ali sim vemos a essência desse show, como tudo foi produzido, a Fender e seu parceiro Haynes, fora toda piração tecnológica que foi utilizada para deixar uma das maiores bandas da atualidade com outra cara. Sendo que o momento que melhor sintetiza essa mudança com requintes camaleônicos é ''The Great Gig In The Sky'', uma das músicas mais inexplicáveis da história, momento onde três vozes recriam (e muito bem), o trabalho que apenas uma Clare Torry conseguiu elevar dentro de um som que diz tanto, sem ao mesmo tempo proferir nenhuma palavra concreta.


E tocar Pink Floyd é exatamente isso, tentar recriar algo inexplicável de forma significativa, onde uma coisa já é certeza, o concreto e o abstrato se confundem, logo, para tornar esse momento especial, o grande segredo é sentir, e rapaz, como esse pessoal do Gov't Mule sente.

A voz do americano deixa o Prog até mais aveludado e os solos de Gilmou, uma das minhas maiores preocupações, são criados, recriados e cirurgicamente tocados pelo mestre da Gibson, que por humildade e pura preocupação com a fidelidade desta enterprise, fez seu papel de Fender e ainda deu outro fôlego, não só para o lado do prisma e sim para toda a parte clássica de uma das maiores bandas de todos os tempos. Teve ''The Wall'', ''Animals'', ''Wish You Were Here''... Uma noite absurda... Realmente fantástico.

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Diana Ross & Marvin Gaye: o sublime dueto de Diana & Marvin

Traumas fazem parte da vida, mas na maioria das vezes o impacto é tão grande que certas coisas podem nunca mais fluir da mesma maneira. Alguns acontecimentos são capazes de mudar o rumo de uma vida, e se tratando de traumas, o quesito problemático não costuma interferir de maneira positiva, muito pelo contrário.


E se você acha que resignações são características exclusivas do corporativismo, fique sabendo o senhor que o universo criativo também orbita conflituosos ambientes, mas muitos foram tratados, resolvidos ou até mesmo serviram como o estopim para alguns dos melhores registros que já tivemos notícia - ''Diana & Marvin'' - o fruto dos duetos de Diana Ross com o Marvin Gaye que o diga.

A colaboração quase não saiu do papel. Diana estava voando e Marvin superou o empecilho Tammi Terrell em prol de de uma das maiores gravações da história da música negra. Mais um trabalho para entrar na lista ''fase de ouro" da Motown'', uma aula vocal lançada em 1973.


Track List:
''You Are Everything''
''Love Twins''
''Don't Knock My Love''
''You're A Special Part Of Me''
''Pledging My Love''
''Just Say, Just Say''
''Stop, Look, Listen (To Your Heart)''
''I'm Falling In Love With You''
''My Mistake (Was To Love You)''
''Include Me In Your Life''


Pra quem não é muito familiarizado com a discografia do reverendo Marvin, o nome Tammi Terrell pode não significar nada, mas não é bem assim que a banda toca. Juntos, a dupla registrou três trabalhos magníficos e esse número tinha tudo para duplicar ou até mesmo triplicar, tamanha a regularidade com que eles gravavam.

Primeiro tivemos ''United'' lançado em 1967. No ano seguinte surgiu ''You Are All I Need'' e em 69 o entrosamento atingia níveis bastante prolíficos com ''Easy''. Esses discos acabaram ficando esquecidos - muito em função da prematura morte da cantora - mas essas gravações tiveram uma importância ímpar dentro da música do Sr. Gaye.


Se você não conhece esses trabalhos recomendo que os escute, a química que Marvin tinha com Tammi era uma daquelas coisas inexplicáveis, a paixão, o sentimento, a maneira como os timbres casavam... É de arrepiar, inclusive acho superior ao nível musical desse trabalho com Diana, por exemplo, que por si só já é um deleite.


A americana tinha tudo para ser uma das maiores vozes da música, e mesmo tendo deixado cinco trabalhos registrados (3 com Marvin, um solo, e outro com Chuck Jackson), ainda assim foi pouco, ela estava despontando para o grande público quando foi diagnosticada com câncer no cérebro e, se hoje em dia o tratamento já é complicado, em 1970 então nem se fala.

A moça se viu cega, confinada em uma cadeira de rodas até seus últimos dias e sua morte teve um grande impacto na vida e na carreira de Marvin. Alguns até afirmam que o músico entrou em depressão e começou seu flerte vicioso com a cocaína depois do ocorrido, fora que ele mesmo dizia abertamente que Tammi era sua parceira musical perfeita. Era fácil prever que não seria fácil fazê-lo participar de um novo dueto. Foram três anos de negociações...


A ideia inicial era lançar o trabalho em 1970 mas isso já deixa claro a falta de sensibilidade da Motown, por que meses antes com a morte de Terrell, o músico estava atordoado com o acontecimento e ainda se envolveu nos conflitos que a família da cantora teve com a gravadora.

É importante ressaltar a falta de sensibilidade e até certo ponto o alto nível de negligência da gravadora, pois além de não ter prestado suporte em seu tratamento, ainda pressionou Marvin a divulgar ''Easy'', seu último disco com com ela em vida. Como se tudo isso já não bastasse, esse LP teve claras segundas intenções, afinal de contas a Motown precisava de uma fagulha para que Diana explodisse.


Foi um projeto pensado de maneira quase que exclusivamente mercadológica, mas o resultado final passa longe dos caça niqueis. A maneira dinâmica das vozes faz o ouvinte se lembrar do sentimento orgânico dos grandes intérpretes, da beleza de apreciar faixas repletas de grandes arranjos e inebriantes detalhes que engrandecem essa reunião das melhores vozes que existiam na época.

E o resultado são 35 minutos de uma musicalidade primorosa e que inclusive rendeu disco de ouro, cumprindo com os objetivos que a gravadora tinha em vista. Ao lançar Diana para um patamar diferenciado de artistas, os caras ainda acabaram ajudando Marvin - mesmo que indiretamente- a superar esse problema criativo-colaborativo, contribuindo para o mundo da música com um lançamento para a posteridade.

Com grandes hits como ''You Are Everything'', o puro romantismo ao som de ''Don't Knock My Love'' e recheado por um instrumental brilhante em toda prensagem, o Funk/Soul dos Funk Brothers fez miséria pra acompanhar a realeza.

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Ao vivo no Japão: Herbie Hancock e o excelente repertório de Flood

Quando ouvi o Herbie Hancock pela primeira vez já comecei quente, meu pai me apresentou logo de cara ao homérico ''Head Hunters'', um dos maiores discos de Jazz Fusion da história da música e o mais vendido desde então. Esse trabalho mudou minha vida, ouvi durante meses a fio e simplesmente não conseguia parar, tampouco compreender como tal patamar de Funk foi alcançado.

E quando consegui largar peguei a discografia do gênio americano (focando no Funk), justamente para ''entender'' como ''Head Hunters'' tinha sido criado, mas acontece que esse laudo segue inconclusivo até hoje e o motivo é simples, ''Head Hunters'' trata-se do primeiro registro onde Herbie (que não é o meu fusca turbinado), implementou o fator ácido ao seu som.

E com isso em mente fica claro que não teve essa de ''pegar a coisa do começo'', todos que são fãs desse cara (especialmente do período Funkeado), foram obrigados a pegar o bonde andando e sentar no teto do veículo, ah se fosse a janelinha! Logo, a única coisa que podemos assimilar é que ''Head Hunters'' é um disco assombroso e que essa sonoridade descabelou seu criador durante três anos, de 1973 quando sai o ''Head Hunters'' até ''Secrets'' lançado em 1976.


Em discos posteriores a influência do swing é notada, mas a fase pesada deste período dura mesmo 3 anos e é formada pelos seguintes trabalhos:

''Head Hunters'' - 1973
''Thrust'' - 1974
''Flood'' - 1975
''Secrets'' - 1976


Mas para você, que assim como eu ficou plenamente ilhado com o Funk de ''Head Hunters'', este retumbante LP ao vivo gravado no Japão (''Flood'' lançado em 1975), consegue situar o ouvinte. E mesmo que a discografia do cidadão não nos brinde com uma prévia de como o swing culmina em algo tão poderoso, após este marco zero os fãs musicólotras pelo menos conseguem ver algum tipo de linearidade e obter algum entendimento com o rumo que sua cozinha tomou depois.

Line Up:
Herbie Hancock (piano/sintetizadores)
Paul Jackson (baixo)
Mike Clark (bateria)
Bill Summers (percussão)
Bennie Maupin (saxofone/clarinete/flauta/percussão)
Dewayne ''Blackbyrd'' McKnight (guitarra)




Track List:
''Introduction/Maiden Voyage''
''Actual Proof''
''Spank-A-Lee''
''Watermelon Man''
''Butterfly''
''Chameleon''
''Hang Up Your Hang Ups''


O interessante desse LP é que quando você pensa em um live que pegaria essa fase, o óbvio é imaginar uma espécie de ''Head Hunters'' ao vivo, mas não é exatamente isso que acontece, pelo menos não durante todo o show. Esse trabalho deve ter sido apresentado de uma forma diferente devido o CEP  deste evento, a terra do sol nascente, o Japão.

O começo do disco é puramente jazzístico e com zero por cento no teor de Funk. Não seria exagero afirmar que ''Introduction/Maiden Voyage'' e ''Actual Proof'' surgem até que comportadas. Percebe-se que tema a tema o Funk vai surgindo. Nada é desperdiçado e o calibre de qualidade é altíssimo.

Acho que o show vai se estabelecendo aos poucos justamente por causa dos Japoneses. Muitas bandas com sonoridades realmente chapadas se apresentavam no Japão nessa época, mas a fritação era diferente, no fim do show você nota que a platéia vai ao delírio, mas o começo é mais certinho, bem mais quadrado do que ''Spank-A-Lee'' ou a mítica ''Watermelon Man'', por exemplo.

No momento onde o Funk realmente adentra o recinto um nome em especial salta perante vossos ouvidos: Dewayne ''Blackbyrd'' McKnight, o negrão que faz as guitarras neste disco. McKnight é um nome meio desconhecido dentro da música, mas além de ter tocado em alguns trabalhos de Herbie, o músico também fez a ponte no Parliament Funkadelic e também tocou no Red Hot Chilli Peppers antes de Frusciante se estabelecer no grupo.


E é justamente pelo fato do ''Head Hunters'' não possuir guitarras, que quando se escuta temas como ''Chameleon'', percebemos na hora o elemento novidade no som. São dez minutos de ''Chameleon'', 20 de ''Hang Up Your Hang Ups''... Só patada de Groove e um Hancock realmente possuído por sintetizadores. No fim do show devia ter japa até de olho aberto tamanha a fritação dessa noite! Uma hora e dez de muitos neurônios danificados e Hard Bop com poderio extra de Fender. Muito, muito som.



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Casa do Mancha: Retroalimentação de cenas - 24/05/15

Casa do Mancha é uma das casas mais especiais da cidade de São Paulo. É bom saber que existem lugares que vão completamente contra o dogma clássico das casas de show, instaurando uma casa (literalmente), que além do ilustre Mancha, abriga um bar, um espaço para troca de ideias e uma sala para que a apreciação musical seja total e sem as frescuras que um palco tradicional nos obrigam a aceitar.
  
Além de uma qualidade sonora soberba, a residência localizada no bairro da Vila Madalena, ainda reúne as bandas mais celebradas da nova cena, atualizando o repertório de ouvintes que pararam no tempo e proporcionando uma experiência de show única, domingo (24/05), por exemplo, posso afirmar que vi o Bruno Kayapy torcendo as cordas de seu baixo a menos de 5 metros da platéia!

Mas vamos por partes, por que antes do trio emanar uma santa dose de ''Macumba Afrocimética'', teve Davala e o Núcleo Sujo, abrindo os trabalhos às 21:00 (sempre em sincronia com o fuso horarário 4:20 de Brasília) e lançando o debutante do quarteto, que além de destilar o pensamento em conserva das mazelas sociais com flow's inspirados e beats em motion, ainda ressalta o verdadeiro papel de uma casa que abriga qualquer expressão de arte: renovar o meio que habita.


Foi bacana ver um projeto que nasceu na própria casa, virar atração de abertura dentro de um line up com grandes bandas, promovendo o lançamento do disco com a casa lotada. Sem dúvida alguma, quem estava presente notou que o quarteto destila um belo som e que a criatividade reina nas letras, bem como nas interessantes linhas de baixo Lucas Oliveira,

Discos artesanais, cópias numeradas e pouco mais de meia hora para compreender o primeiro volume da teoria do caos que nos rodeia. Foi uma troca de ideias franca, convexa, biconvexa alguns diriam. Cristalina, sem letras miúdas, poética e que valorizou o tempo, a cada cacofônico ''tic'' e complementar ''tac'' do relógio.



Foi uma noite de riqueza genuinamente nacional. Os caras proclamou os ideias da rua, fizeram um brinde a nós, todos nós, até mesmo quem não estava no cômodo e depois abriu espaço para o BIKE, combo psicodélico que prega a marcha do LSD, legalizando ferramentes que possam abrir portas em nossa mente e que com toda a certeza expandiram a áurea dos presentes.


A banda passa seus ideias com um esmero grandioso, são caras que nutrem um sentimento orgânico demais, fruto das raízes até do próprio som que reverberam, se esforçando para sentir. Sempre imersos em notas longas, bem trabalhadas, espontâneas e que mudam nossa relação com o espaço tempo, ferramente que Julito Cavalcante esnoba com uma classe absolutamente lisérgica.


E depois que os sinais da rede Wi-Fi/3G/4G foram perdidos, foi a hora que Bruno Kayapy escolheu para adentrar o recinto e reposicionar sua arte na cabeça de todos os telespectadores. Brilhante guitarrista, dono de uma técnica bastante peculiar e de um feeling sinuoso, fiquei particularmente curioso para saber como seria sua interação com o baixo.

E sai da casa embasbacado com quele tradicional dogma de guitar hero, alcunha que o músico triturou e jogou no despacho de Macumba Afrocimética de maneira elementar. Sua banda, blindada com Julito (dessa vez esbanjando alquimias no baixo) e Daniel Fumega (baterista fritador da escola do Black Flag), mostrou um entrosamento grandioso e tocou o disco com uma fidelidade impressionante.


Bruno esbanjou uma tranquilidade impressionante, algo que apenas um novo rumo criativo poderia brindar-lhe e foi bastante gratificante vê-lo emanar tal energia. Ele torcia e retorcia as cordas do groove, seu compadre mostrava os dotes de Aldous Huxley e Fumega tratava de selar a cozinha com uma levada tão suave quanto um tapa na pantera.

Todos chegaram sem frescura, mandaram um som, tomavam uma cerveja, trocavam ideias e além da boa músicos o que fica é justamente esse ambiente anti-rockstar... Vida longa ao mancha, os parceiros do núcleo sujo, os ativistas lisérgicos do BIKE e a macumba do Macaco, que relembrando um feeling de Morphine com o equilíbrio espiritual do EP ''Verdão Verdinho'', nos mostra que o que vale é a vibe. Play on children.

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Albert King - I Wanna Get Funky

Um bom e velho Blues... Essa é uma daquelas frases que fazem você ter aquele arrepio na espinha! E se tem um guitarrista capaz de dar um arrepio na sua espinha, no seu cérebro, na sua alma, onde bem entender, esse alguém é Albert king.

O americano foi um dos poucos e bons mestres que teve a alcunha de ''Rei'', uma condecoração e tanto no nosso Blues de cada dia. O negrão definitivamente sabia como tratar uma guitarra, esse sentia o Blues como poucos, pegava o instrumento e acomodava o mesmo como se fosse um chaveiro em suas dimensão herculeana, só que o cuidado que ele tinha fazia a madeira vibrar em alarde sentimental de bends como jamais se viu, até o tom era único.


Mas dentro de sua meca discográfica, existe uma coletânea de som negreiro que jamais recebeu o reconhecimento merecido, falo da mítica ''I Wanna Get Funky''. Coleção que além de nos brindar com a tradicional genialidade de um rei, ainda ousou e tocou o Blues como se fosse aquele Funk ácido, algo inédito em sua discografia.

Line Up:
Albert King (guitarra/vocal)
Donald Kinsey (guitarra)
Memphis Simphony Orchestra (arranjo de cordas)
The Memphis Horns (metais)
The Bar-Kays & The Movement (seção rítmica)
Hot Buttered Soul, Henry Bush (vocal)



Track List:
''I Wanna Get Funky'' - (Clifton William Smith)
''Playing On Me'' - (Sir Mack Rice)
''Walking The Back Streets And Crying'' - (Sandy Jones)
''Til My Back Ain't Got No Bone'' - (Eddie Floyd, Alvertis Isbell)
''Flat Tire''
''I Can't Hear Nothing But The Blues'' - (Henry Bush, Clark)
''Travelin' Man''
''Crosscut Saw'' - (R.G. Ford)
''That's What The Blues Is All About'' - (Bobby Patterson, Jerry Strickland)


Gravado em 1972 e lançado apenas dois anos depois, já em 1974, ''I Wanna Get Funky'' não perde em nada dentro dos trabalhos clássicos de Albert, mas é um daqueles discos que acabaram ficando levemente ocultos, facto que as vezes se materializa na vida de grandes mestres, sem necessariamente precisar justificar-se perante tal falta de providência divina.

E para mostrar a força de uma abordagem que se limitou a apenas um disco, o LP já abre com a faixa título logo de cara. O mestre mata o Blues no peito e ajeita de prima pra você começa entender por que esse trabalho abrilhanta o swing e vai ronronando o órgão, sempre guiando as notas no meio do coletivo de metais.

Sinta a cadência e veja como ele esnoba o Funk, finge que é Blues e vai segurando o som, na medida que ele ordena o ''Get Down'' para sua banda. Mantenham a base, eu carrego a guitarra e nos solos de ''Playing On Me'', desejo apenas que acompanham os metais pra anganar a Stax.



E para comprovar a combinação de resultados, escute ''Walking The Back Streets And Crying'', um dos melhores arranjos do disco e uma prova viva de como Albert conseguia personificar qualquer coisa em sua ''Flying V''. Parece que ele pega o celular tijolão, faz uma ligação pra patroa e só enumera os fatos da vida...

''It was too much for me
That's why i walked the back street and cried''


Dai pra frente a esposa nem responde, a guitarra já interrompe ele mesmo e a retórica segue as lamúrias de uma alma atormentada até acabar o som, ele apenas manda segurar e volta pra conversa.

''And Last time we had an argument
You know, called the police on me''


Não tem nem conversa, a parte ''A'' vai e volta mas o mestre está certo, quem discute com um rei, mesmo com argumentos válidos? Albert mostra que nem sempre tudo que reluz é ouro, apesar de mostrar que sente o Blues, a vida sempre prega peças.

E este oitavo trabalho de estúdio é sua tentativa de retrucar. ''Til My Back Ain't Got No Bone'', por exemplo, é um bela prova disso, o cara resolveu tocar Reggae falando o dialeto do Blues e brincando com Jazz na cama da jam. Mais sete minutos de pontadas eternizadas em um de seus temas com mais pegada.

Mas nem por isso ''Flat Tire'' surge sem desossar mais grooves. ''I Can't Hear Nothing But The Blues'', por exemplo, segue quente, mostra que até o poeta mente e que o Funk corrompe até os mais xiitas, que vocais!

O instrumental beira a perfeição, ''Crosscut Saw'' revive as linhas cortantes da Motown e aqueles backing vocals que nos fazem cair na mais devassa paixão, aniquila o ouvinte no Wah-Wah e finaliza  o trabalho mais chavoso da história do maestro, com mais uma ácida sátira. ''That's What The Blues Is All About'' é mais um ''Blues'' e comprova que não se separa Albert de King, nem Blues de ''Flying V'', mesmo que ele engane a audiência, é Funk, mas sinceramente, não estou nem aí, o que vier desse cara faz a minha cabeça.

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Kamchatka - The Search Goes On

Essa semana estava pensando na maneira como muitos escritores conduzem suas narrativas. Estava reparando que agora virou moda começar o texto falando que a banda citada no mesmo está amadurecida, e que determinado disco reflete tal fato. Em quase 100% das vezes é balela, e o disco nem reflete isso de uma forma tão clara assim, vira pretexto pra começar a falar besteira desde a primeira linha.


Não estou dizendo que uma banda não amadurece, longe disso, a música está sempre em maturação constante, acredito (e muito) no ''amadurecimento musical'', mas também sei separá-lo de melhorias externas e ponderar novas possibilidades diferentes desta, e pensando justamente nisso, hoje nós vamos abordar um disco perfeito para expor tais possibilidades, a proeza em forma de Blues-Rock (e também quinto disco de estúdio) dos suécos do Kamchatka, a Hardeira inspiradíssima de ''The Search Goes On'' lançado em 2014

Line Up:
Thomas Andersson (guitarra/vocal)
Per Wiberg (baixo/vocal)
Tobias Strandvik (bateria)



Track List:
''Somedays''
''Tango Decadence''
''Coast To Coast''
''Son Of The Sea''
''Broken Man''
''Pressure''
''Cross The Distance''
''Thank You For Your Times''
''Dragons''
''The Search Goes On''


Quem conhece o Kamchatka sabe da sabedoria de seu Hard-Rock, e também tem toda a certeza de que quando a banda entra em estúdio disco bom é o mínimo, e neste quarto disco a engrenagem segue na mesma configuração, aliás só melhorou em comparação com o último trabalho, falo de ''Bury Your Roots'' lançado em 2011.

Pra não falar que nada mudou devo salientar que tivemos uma substituição nas quatro cordas, já que da estréia do grupo, até ''Bury Your Roots'', quem tocava baixo era Roger Ojersson, mas aqui quem nos impresta o Groove é Per Wiberg (Opeth), e a sincronia ficou fantástica, em termos de participação sonora e riqueza musical o disco ficou muito mais atraente com o novo contratado, parece que ele sempre esteve lá!


Disco de Hard absolutamente acima da média, para mais uma vez contestar o por que desta banda não ser maior, mas com fé no que é justo, isso mudará logo mais, por que quem deu uma orelhada (por menor que seja) neste disco sentiu que é outro nível. Escola clássico dos '60 e '70 com limpeza nos captadores e um climão de Jam que deixa até uma lágrima cair no canto do olho, composições fortes como ''Somedays'', o (Open Track do disco) sacramentam como será a audição.

Arranjos fluídos, exalando musicalidade e aquele ar de ''Parace até fácil'', veja o arregaço do primeiro single que a banda liberou (''Tango Decadence'') e ouse contrariar. O trio arrebenta, a bateria casa com o baixo e um ainda tira onda com o outro durante as músicas, e um detalhe que muito facilitou as coisas, foi que com Wieberg no baixo os vocais ficaram soberanos no colo de Thomas Andersson, que além de mostrar muito tato vocal ainda registra guitarras insanas, sempre na cartilha básica dos Suecos, com feeling e peso, aquelas guitarras ácidas que fazem qualquer fã de Rock pirar.

''Son Of The Sea'' é a síntese deste disco, o baixão presente, a batera acompanhando, quando entra o solo a casa cai, é assim o disco todo, Bluesão na emenda e muito som, tem uma baladinha malandra ao som de ''Broken Man'', quebradeira inspirada com ''Cross The Distance'', e até um agradecimento por parte da banda, para nós fãs, por estarmos prestigiando um disco dessa magnitude! Não Kamchatka, eu que acredeço, ''The Search Goes On'', os Suecos ainda buscam algo no Hard, sinto que estão perto de encontrar, discasso!


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Blind Horse - In The Arms Of Road EP

A cena carioca sempre foi bastante aloprada pelos paulistas. Sempre achei isso bastante interessante, pois muitas falam que o Rio é a terra do pancadão, como se aqui em São Paulo não existisse um culto aos MC's ostentadores de 3 neurônios e um boné de aba reta.

E volta e meia surgem grandes jams no território carioca, o problema delas é só a divulgação. Temos instituições que são bastante competentes, mas poucas delas conseguem visibilidade, em virtude da clara falta de foco que o underground recebe, mas que progressivamente vai elevando o status dos novos grooves nas camadas mais obscuras da sociedade.

Sendo que quem passa a peneira nessa massa, sempre encontra o fino da nova cena. Não existe pancadão que consiga abafar o caos que o quarteto carioca, Blind Horse, destila quando começa a operar o coquetel molotov de Blues, Hard, Psych, Funk e timbragens estonerizantes. ''In The Arms Of Road'', ótimo EP lançado no dia 20 de maio, é a união do que temos de melhor na cena de nossos brothers de região sudeste: Blind Horse no som, Estúdio Superfuzz como casulo deste groove caótico e Victor Bezerra, nome da mente que endossa a arte que essas notas pincelam no primeiro ouvinte (saco-de-pancada) desavisado.

Line Up:
Alejandro Sainz (vocal)
Rodrigo Blasquez (guitarra)
Eddie Asheton (baixo)
Maicon Martins (bateria)



Track List:
''In The Arms Of Road''
''Rainbows In The Dark''
''Curled''


São três temas. Pouco mais de 17 minutos de som e uma cozinha que alucina, nem tanto pelo fator de novas portas para sua mente, digo isso pelo sangue que pulsa mais quente e rapidamente quando a faixa título abre os trabalhos. O riff chega com aquele ar de Whisky Southern, a voz de Alejandro Sainz aparece com pinta Soul de volta para o futuro e depois que entra, os discípulos do Budgie começam a quebrar tudo.

Requintados com um Funk para evitar que a viagem fique quadrada, desde a batera até o grave que jamé se perde, sempre munidos de uma guitarra que demonstra rios de criatividade, este EP arquiteta uma bela larica de wah-wah com raíz em Blues. Culminando num dos melhores grupos nacionais dentre desse segmento empoeirado.


A banda arrebenta e o faz com aquele clima improvisando. No meio da primeira faixa temos aquele tradicional  ''keep it down'', fruto dos mais ardentes Blues, momento que os caras fecham no esmero do som que um dia foi do Cactus. Revigora, dá um choque na espinha e aí tudo explode no groove jockey de ''Rainbows In The Dark''.

Lisergia analógica que urra em vocais excelentes e vai misturando o drink até espumar nos dez, fucking minutes de ''Curled'', tema que fecha e surpreende o ouvinte, mais até do que um assalto a mão armada. Mas espere, antes o quarteto finaliza com mais uma jam session.

Veja aqui mais um exemplo de linhagem Budgieniana. Agora é questão de honra, a bateria abre uma sessão de reboque, a guitarra brinca com o tempo e entra dilacerando, segura o grau puxando o Stoner debaixo do tapete e o baixo só nos embriaga, enquanto o tempo brinca de roletar os minutos enquanto tudo cai por terra.


Satélites, tabus, mais um break down na altura dos 3 e pouco e uma ala livre no acostamento, liberando mais 7 minutos de muita jam. Sempre cavernosa, arenosa, funkeada, requintadamente Soul, e Progressiva à força. Bancando uma suíte e várias Black Magic Woman's de Black Power, ladies na função de enrolar sardolas na capota do Cadillac.

Que fita. Carioca sim, som da lata sempre e um resultado final que nos faz rir do que toca na AM da minha caranga esfumaçada. Ride On Brotha, esperem zunir a jam e recomecem, ou confundam-se, pois nem sei em que audição estamos, baby.

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Vejam ''Daybreak's Dope'', o avacalhante clipe do Red Mess

Quando a pressão sobe o cérebro você tem duas opções:

1) aliviar o AVC com um tiro na caixa cerebral.
2) Ou soltar o trago e passar o sacramento para a continuação da roda em sentido horário.

Duas possibilidades que se confundem perante a ideia lenta e pesado do Red Mess. Depois de chegar com o pé na porta, mostrando uma timbragem estarrecedora com ''Crimson EP'' e complementando a muqueca de neurônios com ''Drowning In Red'', agora os caras ainda ousaram ilustrar a viagem que esta jam presenteia o desavisado que é surrado pelo play, quando este digníssimo botão caótico é apertado.


Com um trampo monstro de Renan Casarin, espectro responsável, pela edição, direção, produção, finalização, empastelamento de bauretes e toda a chapação que vemos e ouvimos, os paranaenses do Red Mess seguem na escalada do groove, mostrando que se a cena underground não vai até você, sua mente chega nem que seja forçada por um deslisamento de terra, baby.

O som é excelente, são 7 minutos já relatados em links aqui, também marcados, mas poder enxergar o que ficou oculto nos fones e que agora está palpável em imagens é impressionante. Segura o botão de replay ai que o repeteco é fervoroso e o caos é só um detalhe. Do caralho, lindo, tão panorâmico como um passeio no inferno de Dante.

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Carlos Santana & Buddy Miles! Live!

Existem certos artistas que produzem sons tão originais e belos (em seu ápice criativo), que imaginá-los acompanhados por outros músicos chega a ser até pecado. Parece que estamos limitando a nossa própria imaginação em expandir a dita cozinha que tanto gostamos.

Uma das minhas maiores diversões era (mentira, ainda é) escolher dois grupos ou músicos específicos, que mesmo tocando gêneros muito diferentes entre si, pudessem registrar um LP conjunto, coisas do tipo Rory Gallagher & Lee Ritenour, Mark Farner & Ronnie Earl. Viagens aleatórias da minha cabeça, mas assuma, vai falar que não bate um pinguinho de curiosidade? 

Jams que não irão acontecer, sei disso, mas que em minha mente ganham cartazes de show, track list, line up e sonhos coloridíssimos de como soariam tais proezas. Com pensamentos completamente insólitos e plenamente intangíveis, mas que na mente do criativo abrem as portas da percepção, aliás acho que abrir é pouco: escancaram! E já que estamos no assunto sobre Jams que nunca teremos a chance de presenciar e escutar, vamos fritar um bocado.


Do México para o mundo, do mundo para o México, a PRS mais dançante que já se entrelaçou num Wah-Wah, o sinônimo de fritação latina, o Rock cigano e caliente de Carlitos (Sr. Santana para os íntimos), o Doritos psicodélico de Woodstock.

Antes de desvendar todo o material de Santana, lembro que minha primeira ideia para jams psicografadas por Chico Xavier, era ver este cidadão tocando Jazz com McLaughlin, mas isso já aconteceu (vide ''Love Devotion Surrender'' de 1973), portanto, decidir ir além e foi ai que peguei pesado, imaginei o México pulsando com Santana & James Brown.


Imaginem como seria se Brown viesse com sua banda, tudo nos trinques, com o background todo de terno & gravata enquanto ele destila o Funk e apresenta banda e platéia, mas ai, sem mais delongas surge Santana.

Este já aparece sem terno para não prender movimento, fantasiado de Hippie mulambo e segurando las Congas. Sempre com a guitarra no pescoço e Caravanserai como revolução filosófica... Agora imaginem um cenário noturno, sempre com '70 na cabeça, Hawaii como plano de fundo de sua área de trabalho e mescalina na platéia... 

Esperem só um momento, acho que isso ai existe. Coloquem James na batera e vejam o ziriguidum de Buddy Miles, a versão Brown com baqueta na mão! Agora liguem para a alma em sacrifício e o resultado é ''Carlos Santana & Buddy Miles! Live!'', um dos melhores discos ao vivo da história, queimando tutano com Funk a base de Buddy, baquetas, Carlitos, psicodelia, Miles e brisa.


Line Up:
Carlos Santana (guitarra/vocal)
Buddy Miles (bateria/percussão/vocal)
Neal Schon (guitarra)
Ron Johnson (baixo)
Bob Hogins (órgão/piano)
Hadley Caliman (flauta/saxofone)
Luis Gasca (trompete)
Greg Errico (bateria)
Coke Escovedo (bateria/percussão)
Mike Carabello (percussão)
Mingo Lewis (percussão)
Victor Pantoja (percussão)




Track List:
''Marbles''
''Lava''
''Evil Ways''
''Faith Interlude''
''Them Changes''
''Free Form Funkafide Filth''


Gravado no Hawaii no dia primeiro de Janeiro de 1972 no ''Sunshine '72 Festival'', este registro é o mais próximo que Santana chegou de tocar Funk e adentrar a onda do Rock Psicodélico de maneira mais consolidada, sem absorver ou misturar influências. E tudo isso se deve ao caráter puramente Soul de Buddy Miles, que aqui fez com que o guitarrista desse uma alterada em seu horóscopo.

Corrompendo a cozinha latina e limitando seus ares mais fritos, anulando certos encantos ciganos e deixando Santana usar seu jingado para o Funk e nada mas. Tocando McLaughlin, músicas de sua autoria, arregaçando com temas de Miles e fazendo o baterista suar a tanga pra acompanhar a percussão e ainda comprovar a alma de James Brown nos vocais.

Esquentando a banda com um McLaughlin de leve ao som de ''Marbles'', enturmando Buddy Miles na Jam com um take mais familiar ao baterista, já  com os riffs vulcânicos de ''Lava'' e concluindo a sessão prática/aquecimento com uma versão turbinadíssima de um clássico de Santana. ''Evil Ways'' se materializa e já manda o sinal verde para algo realmente grandioso, o insight do Yin Psicodélico, o principio ativo noturno.



Que eleva tudo e qualquer termo musical descritível para o mais absoluto e interestelar processo imaginário, até mesmo para quem estava presente de carne e osso no show... Até mesmo pra quem teve a honra de ver isso. Quando ''Faith Interlude'' começa, parece que de alguma maneira a áurea da banda se transforma, a conexão dos músicos vai além do mero entrosamento. 

Característica que a versão latina de ''Them Changes'' comprova, dá pra ver que foi de momento, isso não foi planejado. E mesmo depois de cinco faixas deste calibre ainda havia algo a se provar, uma passagem para ficar eternizada e ser futuramente estudada pela ciência cósmica, psicodélica, laboratorial e espiritual.

Um dos momentos de livre improvisação mais intensos e ressuscitadores da esotérica musicalidade, do agora elevado espírito do ser ''Devadip'', Corpo que banda o fator diurno com quase trinta minutos de Yang espiritual com ''Free Form Funkafide Filth''. Suite antropológica, que eletrocutada por metais, só reafirmam os louros da meditação de Sri Chinmoy: ''Nas luas e os olhos de deus'', a meditação de Carlos Santana. Transcendental.


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Robin Trower - Something's About To Change

Existe um fenômeno que acontece com todos os seres humanos. Trata-se de algo natural, vai chegando com a idade e, pelo parece, é inevitável. Vocês já notaram como a música muda com o tempo? É óbvio que cada geração cria seu respectivo som, mas se atentem ao fator idade... Quantos aposentados, fãs de Slayer, você conhece?


Nenhum! E sabes o motivo? Pegue seu avô por exemplo, o meu gostava muito de Bruce Springsteen quando novo, depois de velho o negócio virou Roberto Carlos. Perceberam?! A idade faz todos nós abaixarmos o volume, mas aí é que está o ponto desta resenha, podemos mudar e tom e ainda assim tirar um som chavoso, por favor, sem essa vibe de Eric Clapton aposentado!


E se você ainda ousa questionar a falta de velhacos duro na queda, o senhor muito provavelmente desconhece toda a história de vida, classe, Blues, Rock Progressivo, Hard e Fender's do grande Robin Trower. Pode pegar qualquer nome da guitarra ''Bluseira moderna'', o Trower dá um cacete e se bobear ainda serve um chá depois da aula.

São vinte discos de estúdio e em todos ele acha um jeito de ir se moldando perante tudo que aparece, desde as modernidades até o fator idade, quesito que já igualou 70 invernos com pegada de guitarrista de 25 e uma sabedoria que só os grandes músicos podem colocar em notas.

E ''Something's About To Change'' (lançado dia 10 de fevereiro), chega com requintes de vigésimo trabalho de inéditas e ainda mantém a escrita descolada, que nenhum violeiro dessa idade consegue elencar com tanto feeling, classe e pureza. Um dos grandes momentos do som dos campos de algodão esse ano, prova cabal que a idade chaga, mas que nem por isso é hora de jogar dominó.

Line Up:
Robin Trower (baixo/guitarra/vocal)
Luke Smith (teclado)
Chris Taggart (bateria)
Richard Watts (teclado)



Track List:
''Something's About To Change''
''Fallen''
''Riff No 7. (Still Alive)''
''Dreams That Shone Like Diamonds''
''Good Morning Midnight''
''What You Never Want To Do''
''Strange Love''
''Gold To Grey''
''The One Saving Grace''
''Snakes And Ladders''
''Up And Gone''
''Til I Reach Home''


Depois de dois anos do ótimo ''Roots And Branches'' o sempre oportuno Robin surge para mais um workshop gratuito de música. Em relação aos trabalhos recentes creio que esse é um dos mais inspirados e mais incisivos do guitarrista.

Em discos mais recentes senti que o Blues foi abordado sem algum tipo de foco, algo que fica longe de ser ruim, muito pelo contrário, mas em ''Something's About To Change'' os sons correm com a certeza de um trabalho conceitual, é de longe um de seus melhores CD's dos anos 2000, milênio que assim como os clássicos de 60 (no Procol Harum), 70, 80 e 90, fazem de seu curriculum um dos mais perfeitos nesse bussiness à base de feeling.

E quando abrimos o disco com a faixa título, isso fica claro, vale lembrar inclusive que a levada malandra desso som virou até clipe. Quem diria, setenta anos nas costas e ainda brindando a psicodelia em vídeo!



Sem essa de frescura meu caro, use o tempo ao seu favor e veja que a experiência do mestre faz com que tudo tenha plena cadência no som. Os teclados uivam ao fundo, a batera faz a base e o baixo (também tocado por Trower), segue a rifferama trepidante sempre com aquele ar swingado de ''Fallen'' e os vocais marcantes de ''Riff No.7''.

E o mais impressionante nem é a idade, tampouco a qualidade que o cidadão destila, mas sim o tesão que todo esse trabalho inspira, o velho fez 70 anos mas a vontade é a mesma de sempre, sua música jamais foi rotineira e seu sentimento nunca foi sob encomenda para temas como ''Dreams That Shone Like Diamonds''.

É claro que ele tem facilidade, uma voz aveludada que nos auxilia a entender os ensinamentos de ''Good Morning Midnight'' e etc e tal, mas o lance é que seu som nos impacta com força, tanto nessa primeira fase mais ácida do disco, quanto em momentos mais lentos, onde sua guitarra econômica valoriza cada vácuo de bend... O ouvinte fica até com a pressão mais baixa quando ''Strange Love'' vai entrando sorrateiramente. 


Seus solos seguem lindíssimos, sua criatividade ainda é exuberante, mas aqui, além de um grande disco, temos um homem que precisa ser visto e ouvido por todo e qualquer Blueseiro. Sua áurea é oriunda da tradicional educação britânica, seu  desleixo é absolutamente requintado e o timbre de sua guitarra é tão palpável que chega a parecer que nós podemos tocá-lo em pleno frenesi de air guitar.

Esqueça esse clichê de que a coisa fica melhor com o tempo, isso de fato se aplica a esse senhor, mas não é algo que vale para qualquer um não, engana-se quem pensa que ele parou de pegar pesado num Hard ou apostar em psicodelia... Ele tem essa cara de bobo mas a Strato dele é o prato de comida, o cara vai penteando e penteando a musa e o que sai é só sequência de nível ''Gold To Grey'' pra cima.

Desligue-se do Clapton, vejam aqui um guitarrista que soube envelhecer e que segue fazendo discos relevantes, mesmo com um passado tão estupendo e repleto de sucesso por onde passou. Poucos creditam o devido valor para esse mestre e ele ainda esnoba a crítica com uma dessas...

É brincadeira, senta lá Cláudia, Blues não se ensina na escola, os maestros apenas trombam ele na rua e colocam a platéia no bolso, igual o gênio faz com ''Til I Reach Home''. Preciso ver esse cara ao vivo, que brasa!


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Bombay Groovy - Meridianos psicodélicos

Nunca fui num templo. Sempre tive vontade, mas nunca fui. Deve ser uma fábrica de energia. Sempre imaginei algo assim... Com uma mecânica que existe mas que não necessita de nada para engrenar, vai sempre, quase que de forma infinita. Esse lado espiritual volta e meia me fez ter curiosidade a procurar livros teóricos sobre o assunto, mas certos detalhes não são captados em livros, logo, não existe outra alternativa para meu Feng Shui a não ser ir para alguma base de pilar sagrado, vulgo templo.


A música sempre foi meu templo. Sempre vi cada nota como um sermão religioso, algo para me elevar e que acima de tudo me isola 100% de todas as questões problemáticas de meu dia-a-dia. Acho que as notas conseguem certos insights que nenhuma outra forma de arte almeja ou alcança. Acredito no seu caráter de cura e o mais importante: em toda sua potência reguladora de energia, sentimentos e influências.

Cada nota que sai precisa ser valorizada e é isso que poucas bandas conseguem vislumbrar. E hoje em dia esse fato pode decidir quem consegue sair do lugar comum e quem, com muita fibra e paixão, consegue criar uma arte que pode ganhar status de seita e fanatismo de estado islâmico, tornando-se assim o seu templo. E recentemente encontrei mais uma casa sagrada dentre a grande produção de arte brasileira. Com os paulistas da Bombay Groovy, o nirvana chega e ainda se mistura com nosso próprio DNA em prol da miscigenação musical.

Line Up:
Lucas Roxo (bateria)
Jimmy Pappon (órgão)
Danniel Costa (baixo)
Rodrigo Bourganos (sitar)



Track List:
''Confounded Bridge''
''Jakarta Samba''
''Gypsy Dancer''
''Fonte de Castalia''
''Le Bateau D'Orpheu''
''Lunar Toth''
''Tala Motown''
''Floating Magick''
''Aurora''
''The Sphere Song''


O Ying Yang pede passagem na psicodelia dessas notas em frenesi de aurora boreau. É lindo ver um coletivo de músicos realmente cultos em relação a arte que representam e, que mais do que apenas tocar, buscam agregar novos elementos ao som, seja adicionando sinestesias ou temperando a trip, algo que a Bombay faz como poucos em nossa cena atual.

Depois que o play é dado nota-se o contato com uma representação artística fora da curva. O todo é formado por uma batera (Lucas Roxo), que banha o som em possibilidades multilaterais, sempre em pura sinergia com o sitar (Rodrigo Bourganos), instrumento que trabalha como algo à parte no som.

Forma a jam também nas cordas, mas vai além, tal qual a voz de Plant fazia no Led como um nato e brilhante fator à parte, provendo a liberdade de ir e vir como se o tempo fosse apenas um detalhe! Fazendo frente ao groove eloquentemente melódico e acima de tudo requintado pela baianidade cósmica de Danniel Costa, encerrando o karma no ponto cego da cama de Hammonds do inventivo e Zappiano Jimmy Pappon, a mente que oxigena toda essa viagem.

É como se ''Confounded Bridge'' abrisse um portal dentro da jam e fizesse com que a música voltasse a ser o idioma universal. Fazendo com que ''Jakarta Samba'' ou ''Gypsy Dancer'', encontrem um equilíbrio que até ano passado só era visto no meridiano de Greenwich, marco zero do ponto central da terra, o equilíbrio dos dois hemisférios, que em disco mostra a visão de 10 camadas libertárias da Bombay Groovy. É transcendental.


O som simplesmente flui enquanto sua alma é embalsamada pelas decodificações sonoras. Parece que a naturalidade e liberdade das notas doces de ''Fonte de Castalia'' ou da europeia ''Le Bateau D'Orpheu'', se moldam ao seu corpo e apenas seguem regendo esses momentos para que a apreciação de todos os movimentos desta trama seja total.

Sempre com aquele ideal Zeppeliano de elevar a música como um tributo aos grandes baluartes, homenageando tudo que importa, desde o Funk de ''Tala Motown'' e seu groove celestial que deixa o ouvinte em questionamentos de upbeats em meio a downbeats, até a ambientação suprema deste primeiro disco.

É com ''Aurora'' que sintetizo a força desse som e suas características universais. Desde o Prog/Jazz do marfim malhada até a base rítmica que se confunde entre viradas, ragas e laços de notas graves cristalinas. O termo improvisação é a tese filosófica base desta união, mas até nisso a amplitude dessa ideia se limita. A Bombay Groovy faz música no sentido mais amplo da palavra e o fato de ser instrumental só exalta o quanto esses caras conseguem dizer sem ao menos proferir uma palavra concreta. Exuberante é pouco, veja os caras ao vivo e saia na posição de lótus. 


Troca de Talas & Ragas:


1) Dia após dia percebo que apesar da música Pop ter nos bridado com nome brilhantes (como o Steely Dan), parece que uma das suas principais contribuições para o todo foi simplificar as coisas. A cada dia que passa as músicas perdem em instrumentação e ganham em beats, copiam riffs e criam mais do mesmo... Como vocês, uma banda que vai exatamente contra tudo isso, enxergam o cenário no qual estão inseridos e esse processo de perda de qualidade? 


Rodrigo: Primeiramente, buscamos escapar do saudosismo, por mais que seja inevitável quando se trata do sucateamento da música Pop. Costumo brincar que o solo de guitarra foi substituído nas músicas atuais pelo ''momento Rap'', com algum MC convidado, que de fato é como a coisa rola por aí. Porém, isso não se trata necessariamente de simplificar, pois essa era a busca do próprio Steely Dan. por exemplo. Simplificar não é algo ruim, a Bombay Groovy também busca a síntese (dentro dos excessos da nossa estética) para conseguir misturar inúmeras referências dentro de um contexto de música Pop. O Steely Dan fazia isso por meio de arranjos impecáveis e harmonias complexas. Nós buscamos aproximação com a música Pop com o desafio de partir de uma formação inusitada e referências certas vezes obscuras, dentro de inúmeros estilos.


2)   A mistura sonora promove rupturas, a alimentação base que estimula novas ideias. Agora com um segundo disco que dialoga com vários estilos diferentes, vocês pensam em alguma abordagem mais específica ou a ideia é justamente não se limitar?


Rodrigo: A ideia é flertar com a maior gama possível de inspirações sedutoras, sem que o estilo da banda se perca. Buscaremos deixar nossa marca em cada caminho musical percorrido neste próximo trabalho, como também foi a interação no primeiro. Mas acredito que nesta próxima etapa seremos diluidores com mais embasamento, sem perder a essência roqueira.


3) Hoje a cena instrumental caminha de uma forma muito interessante. Quem aprecia o som da Bombay, por exemplo, está acompanhando tudo que a banda conquista e creio que vocês notam isso, parece uma divisão de nichos sonoros. Qual a opinião de vocês em relação aos benefícios desses acontecimentos?


Rodrigo: Percebemos que a cada vez contagiamos mais entusiastas do nosso trabalho e o Facebook possibilita esse contato direto e uma expansão quase desenfreada. Porém, por mais que estejamos incluídos na suposta cena instrumental, particularmente prefiro não criar essas divisões. Buscamos fazer canções de forma que a ausência de letras não faça falta, tampouco a figura de um vocalista nas apresentações. Para nós, que ouvimos muitas bandas de Rock clássico, Progressivo e Jazz-Rock dos anos 70, às vezes realmente não sentimos falta. Em inúmeros momentos instrumentais, principalmente ao vivo e não é raro que fossem os apogeus.


4) A música indiana também é conhecida pelo uso da percussão, vocês tem alguma inclinação para esse lado (até buscando uma experiência mais raiz junto com o sitar), ou acham que isso acabaria sendo um empecilho na hora de novas experimentações?


Rodrigo: Somos grandes entusiastas da música indiana, mas talvez precisemos de mais algumas encarnações para utilizar apropriadamente essas referências, devido à sua enorme complexidade. Por enquanto nos limitamos ao uso das sonoridades e de uma diluição respeitosa de alguns elementos, como ragas e talas. Já transgredimos demais para esta encarnação e não queremos passar por diluidores.

5) Eu particularmente estou bastante curioso para ouvir o segundo registro de vocês, logo, gostaria de saber se existe algo que possa ser adiantado sobre o processo, sua sonoridade e os objetivos em relação às novas composições.


Rodrigo: Ouvi dizer que o segundo registro caminhará do Jazz manouche ao Afrobeat, passando pelo Flamenco e pelo Jazz-Rock. Mas pode ser apenas especulação. No entanto, posso garantir que ainda não teremos MC's convidados.

6) Já tive a oportunidade de vê-los ao vivo e até pela energia do trabalho em estúdio é quase que imediato imaginar um live, vocês tem planos para isso? Como é o trabalho para deixar as coisas tão orgânicas e naturais, tanto em estúdio quanto ao vivo?


Rodrigo: O futuro é incerto, como diria uma certa figura conhecida, podemos fazer isso algum dia. Entretanto, costumamos fazer bootlegs das nossas apresentações. Podemos lançar uma compilação dos melhores momentos de diversos shows em breve. E eu diria que o trabalho para deixar as coisas tão orgânicas e naturais em estúdio é simplesmente fazer como se fosse ao vivo. É justamente isso que gostamos de fazer. O vídeo que temos de ''Aurora'' mostra exatamente como trabalhamos em estúdio Tínhamos a estrutura da música e ela simplesmente fluiu daquela maneira no segundo take. Depois foram acrescentados os overdubs de sitar e piano.

7) Para finalizar, gostaria de saber o que cada um anda ouvindo recentemente e se isso acabou influenciando o processo de gravação de alguma maneira. Obrigado pela atenção e boa sorte para o futuro!


Rodrigo: Ando ouvindo muito Brian Auger's  Oblivion Express, Django, Paco de Lucia, Funk turco dos anos 70, ''Transa do Caetano, Humble Pie e como sempre, Led Zeppelin (principalmente ao vivo em 1972 e 73).

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Metá Metá - EP 2015

Enquanto aguardamos pelo terceiro disco de estúdio do Metá Metá, uma das bandas mais especiais, brilhantes e diferenciadas que a cena brasileira nos brindou em tempos recentes, o trio segue embalado e vai rumo a terceira tour européia. Mas para provar que os músicos envolvidos também se solidarizam com a espera dos fãs, a banda disponibilizou um aperitivo para o terceiro disco com um EP gravado na véspera do embarque para mais uma visita aos pólos desenvolvidos.


Line Up:
Juçara Marçal (vocal)
Thiago França (saxofone barítono e tenor)
Kiko Dinucci (guitarra/violão/vocal)
Marcelo Cabral (baixo)
Serginho Machado (bateria)



Track List:
''Atotô''
''Me Perco Nesse Tempo''
''Cadê as Armas''

Temos aqui cerca de 10 minutos de um som que para variar é formidável. O trio é de uma criatividade soberba e o EP espanta pela alta qualidade instrumental uma vez mais. O primeiro tema, ''Atotô'', criação de Kiko Dinucci, foi gravado originalmente por ele e Juçara no ano de 2007 para o disco ''Padê''.

A banda aproveitou para registrar esses temas, pois muitos deles entraram na rota de set list para shows só que nunca tinha sido devidamente gravados. E ''Atotô'' entra com o time no topo de seu jogo. O baixo vem cavalgando, o sax ronrona e a voz da senhorita Marçal segue absolutamente cristalina, sempre em meio a mudanças de tempo, peso e melodia, surpreendendo o ouvinte pelo equilíbrio de força e sutileza em meio a mais uma dose de lírica poética.


''Me Perco Nesse Tempo'' foi o som que mais surpreendeu. Trata-se de uma jam registrada pelo grupo brasileiro ''As Mercenárias'', evidenciado uma nova faceta no grupo do workaholic Thiago França e deixando claro como o som do grupo não possui nenhuma amarra dentro de questões estéticas, até com Punk os caras mostram feeling.

E a maneira que o sax trabalha nesse som particularmente é bela. É praticamente um metal que emula pedais em puro frenesi free Jazz, sempre elementar dentro de uma imersão de ruídos, bateria bem na linha Ramones da força e linhas vocais raivosas com a parceiro de Kiko e Juçara.

Finalizando o tira teima com ''Cadê as Armas'', Metá Metá na essência com o samba de Douglas Germano e a revolução da MPB silenciosa, sem frescura, com experimentação sonora e nenhum pingo de frescura vanguardista, rumando para o novo e mostrando que o futuro é lindo e acústico.

Se em 10 minutos o nível é assim, com um Full de mais de meia hora os ouvintes vão precisar sentar! Coisa linda, sonzeira fina, baixem aqui e escutem logo abaixo enquanto aguardam a finalização do download!

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Zeca Baleiro toca Zé Ramalho - Citibank Hall 16/05/15

No hall dos grandes baluartes da MPB, acredito que exista um top 3 tão importante como a trinca de pirâmides do Egito, falo sobre as inexplicáveis Keops, Kefren e Mikerinos. Acredito que a ordem da trinca não possa ser especificada devido às costumeiras dúvidas do resenhista, mas inicialmente acho que formar um trio de atacantes com o Zé Ramalho, Tom Zé e o Jorge Ben não seria má ideia.

Esses são nomes que além de uma obra grandiosa, produtiva e extensa, são seres puramente complexos, perceba que poucas pessoas fazem um cover desse ataque fulminante. E o motivo é bastante claro, as letras são complicadas, os timbres, climas e instrumentações regionais requerem muito mais do que vozes parecidas e coragem.

A postura de palco desses grandes mitos era capaz de fazer o Egito todo se curvar perante a grandeza desse som em puro frenesi de tributo às margens do Nilo! Não é qualquer um que tem a moral de subir no palco e implementar temas como ''Errare Umano Este'' de maneira confortável. Sabemos que na voz do esotérico-criador fica lindo, mas no corpo de outra alma a coisa perde em naturalidade, algo primordial para o som continuar saindo de maneira orgânica. 

Mas sempre existe uma exceção para com essas benditas ''regras'' e mitos, algo que tive a honra de presenciar no último sábado, data em que o sempre versátil Zeca Baleiro, resolveu reviver seus tempos de ''cosplay de Zé Ramalho'' e voltou para a capital paulista para promover o lançamento do DVD ''Chão de Giz'', um gloriosos tributo ao mito paraibano.


Line Up:
Tuco Marcondes (guitarra/vocal)
Fernando Nunes (baixo)
Pedro Cunha (samples/teclado/sintetizadores/acordeon)
Kuki Stolarski (bateria/percussão)


Me direcionei para esse show, pois vejo Zeca imerso num patamar completamente diferenciado dentro dessa cena MPBista. É engraçado que ninguém pode falar mal da MPB, algo que estimula essa cena leite com pêra que cultua o xarope do Cícero e a disconexa Mallu Magalhães, mas que não escuta Lenine e deixa o Baleiro encostado.

E isso é um dos maiores crimes que se pode cometer, afinal de contas só quem conhece sabe: Zé Ramalho é difícil, poético, único e fragmentado, se decorar a letra pra desafinar no ônibus já é complicado, imagine decorar pra fazer o show só com esse repertório! É mais embassado que passar no ITA.



São nuances regionais sublimes, logo, é necessário uma banda excelente, algo que Zeca descolou tranquilamente. O maranhense domina a viola com um talento mundano e creio que seu intelecto seja um dos poucos que comportem a grandiosidade do mestre que foi homenageado... Além de sentir, cantar e tocar, é necessário entender, e esse malandro manja do riscado

Foram duas horas de um glorioso show. Foi diferente ver o cidadão mais ''na dele'' do que o habitual, mas isso é algo que a música do paraibano invoca, o som é bastante complexo e as letras não possuem o humor ácido que estamos habituados quando vemos Zeca mandando temas do baleiro, logo, se você for sacar essa tour, saiba que o show será excelente, mas que ele só vai mandar ''Telegrama'' no bis e que o set será dominado pelo faraó de nossa MPB.

Vale ressaltar também que a voz do ato principal em primeiro plano é de uma versatilidade absoluta, não existe ritmo que limite seu trabalho, algo que adicionou novo requinte ao som deste tributo, respeitando limites mas adicionando o próprio DNA criativo do intérprete, sempre num misto de ousadia e humildade grandiosa.


É bacana saber que existem músicos com essa noção... Precisamos de caras que criem e que recriem, que sejam responsáveis por uma renovação e por outra ''rerenovação'', revelando temas antigos para uma nova safra que pode não ter toda essa gama de contato com compositores donos de obras tão extensas.

Baleiro não choveu no molhado em nenhum momento, muito pelo contrário, o cara ainda pegou sons de lado ''B'' do mestre e tirou onda, sempre contando com uma bela lotação e com uma platéia que conhecia muito do repertório do mestre que dançava com borboletas. Foi um dia pra tem approach, a jam foi high tech, com um baixão sem economizar no groove e momentos de vocalista indiano relembrando Shankar na promoção de um insight. Foi cool, os presentes saíram orgulhosos e o Zé foi eternizado nos vales do rio sagrado em virtude de seu savoir a fair que virou DVD.


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The Aristocrats - Boing We'll Do It Alive

O final de semana foi feito pra descansar, já dizia o poeta. É o tempo para esquecer de seus problemas no trabalho, na faculdade, de toda aquela correria característica dos dias úteis e poder enfim, sentar no sofá da sala sem ter hora nem prazo específico para levantar-se.

E para os senhores que assim como eu pretendem realizar tal tarefa, venho aqui para ajudá-los a escolher um DVD no capricho para servir de trilha sonora para a vadiagem, logo, trataremos do primeiro lançamento ao vivo do The Aristocrats, o excelente ''Boing We'll Do It Alive'' lançado em 2012.

Line Up:
Guthrie Govan (guitarra)
Bryan Beller (baixo)
Marco minnemann (bateria)



Track List:
''Bad Asteroid''
''Greasy Wheel''
''Boing!...I'm In The Back''
''Flatlands''
''I Want A Parrot''
''Blues Fuckers/Drum Solo''
''Waves''
''Get It Like That''
''Furtive Jack''
''Train Trax''
''Cave Dweller''
''Mr. Kempinski''
''See You Next Tuesday''
''Dance Of The Aristocrats''
''Sweaty Knockers''
''Erotic Cakes''



Este belo trabalho foi lançado no dia 10 de dezembro de 2012 e respectivamente gravado no Alvas Showroom em Los Angeles, numa série de dois excelente shows devidamente registrados numa bela caixa com CD duplo, DVD (e se você estiver com dinheiro saindo pelo ladrão), temos ainda um belo box deluxe com os dois discos da apresentação com DVD e duas faixas extras. 



São mais de duas horas de show onde o trio esbanja qualidade com improvisações de tirar o fôlego por parte de todos os músicos. Gostaria inclusive de dar um destaque especial ao baterista Marco Minnemann, talento de rara destreza que simplesmente arrebenta, sempre trocando aquela ideia esperta com o platéia e tirando risos dos próprios integrantes da Jam.

Esse aí vale muito a pena ter na coleção, o único problema é achar o exemplar, mas se o senhor procurar bem dá pra arrematar a peça por quarenta ou cinquenta reais, que mesmo sendo uma bela de uma facada, vale cada centavo, a qualidade de som é fantástica! E mesmo que vocês não consigam o exemplar físico, não a nada que um bom site de Torrent não resolva, uma bela dica para o senhor que quer ouvir um instrumental de qualidade, cheio de feeling, virtuosismo e com uma cobertura fusion.


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