Dr. John e o Voodoo psicodélico de Gris-Gris

Será que um disco pode mudar sua percepção do ambiente externo? Será que uma jam tem a capacidade de afetar suas faculdades fisiológicas, físicas ou até mesmo neurológicas quando são consumidas? Apertar play no som e ter ilusões... Alucinações, aumento de sensibilidade, flashbacks... Sempre duvidei disso, sempre tive plena certeza de que apenas as drogas poderiam mexer tanto com o ouvinte, mas aí ouvi o primeiro disco do Dr. John e comecei a reconsiderar certas hipóteses.


''Gris Gris'', lançado em 1968 é um carregamento de narcóticos em forma de LP. Primeiro disco lançado por Malcolm John Rebennack Jr, este debutante marca o começo da carreira do ''Nite Tripper'' e capta alguns dos momentos mais elementares de sua vida. Momentos estes que definiram quase tudo que o americano veio a fazer e que dentre outras coisas, estabeleceram sua alcunha ''Dr. John'' como stage name, isso fora o som piradaço misturando percussões Africanas, seu tradicional Blues com Cep de New Orleans e doses cavalares de Rock Psicodélico...

Aliás essa última característica deve ter sido mais acentuado pela energia de São Francisco (local das gravações do registro), e foi levemente influenciada pelo consumo industrial de drogas que o doutor faia uso, tudo com receita médica é claro, logo, essa prensagem trata-se de uma overdose auricular com requintes de sardola vinílica.

Line Up:
Jessie Hill (vocal/percussão)
Bob West (baixo)
Harold Battiste (baixo/clarinete)
Ronnie Barron (vocal/percussão)
Dr. John (vocal/teclado/guitarra/percussão)
Joni Jonz (vocal)
Plas Johnson (saxofone)
Prince Ella Johnson (vocal)
Richard ''Didimus'' Washington (guitarra/percussão)
Shirley Goodman (vocal)
Lonnie Boulden (flauta)
Sonny Ray Durden (vocal)
Steve Mann (guitarra/banjo)
Tami Lynn (vocal)
Ernest Mclean (guitarra)
Mo Pedido (percussão)
John Boudreaux (bateria)
Dave Dixon (vocal/percussão)



Track List:
''Gris-Gris Gumbo Ya Ya''
''Danse Kalinda Ba Doom''
''Mama Roux''
''Danse Fambeaux''
''Crocker Courtbullion''
''Jump Sturdy''
''I Walk On Guilded Splinters''


A vida do Dr. John é uma das mais fantásticas dentro do mundo da música e, este disco, mesmo que registrando a habitual loucura Junky pela qual o absolutamente viciado músico passou, marca seu período mais tranquilo. Vale lembrar que antes de gravar este LP o cidadão  estava preso por vender drogas e bancar uma clínica de abortos clandestinos.

Após esse período seu talento começou a ser realmente trabalhado e com isso o prestígio como grande músico de estúdio começou a surgir. E um disco solo seria uma barreira a ser quebrada, porém com seus múltiplos vícios à serem sustentados, as autoridades eram de fato um problema. Portanto, em 1965 (três anos antes do lançamento deste CD), o excêntrico criativo resolveu rumar à terra do clã das drogas, São Francisco, só que sem deixar seu som terra-natalino de lado. Sim, ele levou New Orleans para a Psicose da Bay Area.


E o resultado beira os 35 minutos de um terreiro Psicodélico com uma percussão Voodoo que parece tomar curso contínuo sozinho, de longe o disco mais pesado do senhor John logo em seu primeiro trabalho. Uma chapação mor que de maneira selvagem deixa o ouvinte completamente alterado e experimentavelmente receptível a um som realmente maluco, reflexo das toxinas que eram infiltradas no corpo do digníssimo.

Vocais roucos e nóias, riffs de teclados rastejantes e swingados, toques de Jazz, Funk, Blues e música Africana em âmbito de recepção de preto velho, com galinha preta no despacho de macumba, fora os inúmeros passes que são exalados durante o tempo que a cozinha segue em frenesi sonoro. Parece tudo uma coisa só, uma grande e excelente improvisação, que quando saiu fracassou miseravelmente, mas que hoje em dia é considerado um dos maiores trabalhos da história da música. Quando acaba os olhos do ouvinte estão até vermelhos, droga pura, boca seca.

Anúncios shangri las com ''Gris-Gris Gumbo Ya Ya'', a força da cozinha negra com o clima da terra do ácido em ''Danse Kalinda Ba Doom'', nomes de músicas que poderiam virar até nome de banda (''Mama Roux''), uma capa bem Dark numa época que as pessoas nem sabiam o que Dark poderia ser e uma aula de vocais que entram e saem do ritmo com pura sagacidade ilícita. De ''Danse Fambeaux'' ao clima de selva musical em ''Crocker Courtbullion''... É só pedir a receita, o baque é instantâneo. ''I Walk On Guilded Splinters'' é A viagem do disco, a flauta é um veneno. Saravá!


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