Você tem 5 horas para ouvir a palavrinha do Sinhô?

A psicodelia sempre teve um lado terapêutico bastante atuante. No contexto geral vale ressaltar que o movimento surgiu de uma real necessidade de mudança de pensamento. Ideias que dentro do contexto da bay area de São Francisco, estavam estagnadas, logo, cabia a um certo comprimido, gota ou adesivo, a tarefa de mostrar que ainda existiam muitas trilhas para prosseguir, o esquema era ter cuidado com o dragão que poderia sequestrar o presidente para formar um power trio em Galápagos, de resto era suave.

A chapação trouxe benefícios, gerou uma mudança e justificou o slogan: ''Open Your Mind''. Depois disso, foi só colher os louros, algo que fazemos desde a década de 60, renovando apenas as bandas atuantes nas cenas, por que o espírito prevalece o de sempre, algo que ficou claro com os acontecimentos do dia dia 31/05. Data de mais um evento psicodélico da Abraxas.


Dessa vez não tivemos o tradicional line up em formato de trinca lisérgica, na noite do dia 31 a brisa foi mais forte e seu impacto mais profundo, formando as camadas de fumaça da noite com quatro atos. Primeiramente tivemos os paulistas da Hierofante, quarteto com um dos sons mais chapantes que ouvi dentro da cena recentemente, algo que para tornar explicável seria parecido com uma epifania analógica, sempre ao som de temas que estimulam um auto conhecimento com remetente espiritual.

São quatro músicos bastante singulares, trata-se de uma união de grande beleza, pois todos conhecem seu papel dentro da jam e sentem a música com um quê de imersão bastante singular. A percussão tira o improviso do lugar comum, a guitarra é o instrumento de carona sideral e a batera entra sempre sincopada, com um groove que apenas embarca na viagem de sintetizadores e toca como se um tema fosse o disco todo, linkando toda a trip.

Fotos: Karina Menezes

O réu supremo de toda essa pirotecnia foi o público do Inferno, que entendendo este transcendental conceito, fez o que estava na descrição do evento: entrou em modo de meditação e apreciou o eloquente instrumental da banda, que pulsa sem direção física e manda até remetentes indianos quando mergulha na percussão.

Foi um set curto, mas bastante coeso e com uma eloquência formidável. Acredito que a linha de raciocínio para esse fest tenha sido dividida em quatro etapas, sendo que a primeira foi conectar o público com o Hierofante e a segunda foi testar o 3G com o Hammerhead Blues.

Fotos: Karina Menezes

E foi nesse momento que a casa dividiu os bongadores de quem ainda tosse no baseado, que trio! Esses caras são a prova viva de que além do The Muddy Brothers, existem muitos atos que cultuam a música setentona no âmbito Hardeiro-Blueseiro, que buscam não só voltar com o culto para esta época, mas sim agregar, algo que estes avacalhantes senhores fazem com louvor, mostrando que o sangue de Mark Farner corre na veia, homenageando o trio de Mel Schacher e Don Brewer com uma versão faiscante da clássica ''Inside Looking Out''.


E só coloquei esse vídeo na matéria por que o néctar do mais puro e vinílico fator ao vivo, o mais fino rubi do elemento da improvisação do Grand Funk, é captado com grande sentimento por esses indivíduos. E é válido sublinhar que não faço nenhuma comparação sensacionalista com essa frase, quero pontuar apenas que meu foco reside a partir dos três minutos e quarenta segundos do vídeo já citado, o toque diferenciado desses caras é a JAM. 

Quando o lance é de momento, puro, pelo som, suas raízes e pela entrega de algo que você sente na reverberação de cada nota. Fatores que no vídeo acima são ilustrados sem ao menos vocês precisarem ler isso aqui. E quando eles mandaram o EP na íntegra foi exatamente isso que transpareceu, todo som carrega algo inusitado que será feito na hora, que mantém a fidelidade de estúdio mas que culmina com um trio de músicos realmente diferenciados. O baixo é na sua cara, a guitarra eletrifica seu batimento cardíaco e a bateria preenche até embalagem à vácuo. Foi uma sessão debulhante.


E acredito que tenha sido o ato perfeito para animar os presentes para a volta do trio de Bordeaux, o Mars Red Sky. Quando os franceses vieram para o Brasil pela primeira vez, a história ainda estava sendo escrita, era só um disco, hoje são três, dois anos de intervalo e uma abordagem que atingiu um padrão de excelência que não perde para nenhuma banda do estilo. Algo que fica claro quando pegamos o itinerário dos passaportes e vemos por onde estes senhores andam tocando.

Se no debutante o feeling da guitarra e a afinação da voz eram um dos destaques, hoje fica claro que o leque é muito mais amplo, Julien aborda seu instrumento com muito esmero, toca cada nota com um grande feeling e está cantando com uma exatidão que chega a ser irritante, tamanha a fidelidade com a gravação de estúdio.

Fotos: Karina Menezes

Aliás a banda toda está nesse patamar. A bateria do trio comprova que o DNA que faz o Stoner pulsar é o preenchimento de espaços do Kit, o peso para ganhar vigor e a criatividade de sustentar a jam para não ficar naquele down, digno de volume morto. E o baixo entra com um elemento psicodélico que difere bastante toda a experiência de ver o Mars ao vivo. As linhas de Jimmy Kinast são bastante melódicas, seus efeitos bastante interessantes e seu estilo econômico ajuda a banda a seguir com a aquarela de sons, ótimos climas e grandes jams. 

Pra variar foi excelente, mas ainda faltava o Saturndust, banda que estava particularmente curioso para ver ao vivo, pois com o trabalho mais recente, pensei que o show poderia ser cansativo, devido ao grau de arrastação e desaceleração que a jam dos caras ganhou com esse aspecto mais espacial. Algo que para a alegria da nação não foi o caso, muito pelo contrário.

O trio destilou o disco novo com grande entrosamento, linkou as faixas e entrou numa viagem instrumental de mais de 20 minutos, mostrando domínio de repertório, peso e muito tato para criar climas que não ficassem chovendo no molhado. O instrumental merece um destaque pelo lado do Rickenbacker de Frank Dantes, gafanhoto que comprova a tese de que existem baixos e Rickenbacker's e seu comparsa, Gustavo Cardoso, nome que demonstrou muito preparo físico para fazer barulho e não deixar a onda Space morrer.

Fotos: Karina Menezes

Foi uma performance bastante cirúrgica e que seguiu o mantra do disco de estúdio. O quarto show brincou com os corpos presentes, expandiu, pressurizou, comprimiu e esmagou cérebros com alto nível de pressão. É como se sua cabeça tivesse sido atingida por um asteroide em busca do cosmos. O Doom falou alto e a noite tratou de equalizar o ambiente... Que noite, foi uma brisa.


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