I'm Just Like You: Sly Stone's Flower: 1969-70

Nos últimos anos o brilhante Sly Stone voltou para a mídia. Foram décadas imersos no crack, na cocaína e qualquer outra droga que se movesse, era só ver que dava barato que o negrão se esbaldava e enterrava um dos maiores poderios técnicos e criativos da história da música, no fundo de um pipe.

Ano passado o americano foi parar em todos os meios impressos em virtude de ter atingido o fundo do poço, algo que, acreditem, não aconteceu apenas uma vez. Sly vendeu discos a rodo nos anos 70, tocou em Woodstock, teve uma sobrevida comercial no iníco dos anos 80 e viveu sua vida canalizando sua próxima criação em sincronia com o próximo pega.


E aí deu no que deu, depois dos anos 70 ele literalmente queimou toda sua fortuna em drogas, começou a se perder em virtude do preço de seu vício, não comparecia mais aos shows da banda, se distanciou dos membros e foi parar numa van no Bronx.

É claro que tudo isso não aconteceu do nada, mas em miúdos foi exatamente essa a ordem dos fatos, até que no ano passado o mito deu sinais de real recuperação. Inclusive se reaproximando da família e voltando a se reerguer após ganhar um processo de 5 milhões de dólares contra seu agente (Gerald Goldstein), no começo deste ano, devido ao pagamento de royalties.


Esse ''retorno'', além de resgatar o trabalho praticamente esquecido de uma banda fabulosa, renderá grandes lançamentos de material que com certeza ficou mofando em estúdio. Edições especiais e takes que nunca viram a luz do dia, afinal de contas o criador de tudo isso está finalmente estável o suficiente para coordenar tudo isso.

Mas se você pensa que isso ainda vai acontecer, fique o senhor sabendo que ano passado o reverendo Sly já resgatou um belo pack de gravações. Foi com ''I'm Just Like You: Sly Stone's Flower: 1969-70'', que o multi instrumentista relembrou a curta vida do selo ''Stone Flower'', ramificação da banda para efeitos de cortes de gastos com LP's distribuídos pela Atlantic, que infelizmente, teve vida curta, com apenas dois anos em atividade.


Track List:
''Little Sister: You're The One (Parts 1 & 2)''
''Sly Stone: Just Like a Baby''
''Joe Hicks: Home Sweet Home (Part 2)''
''6ix: I'm Just Like You''
''Little Sister: Somebody's Watching You (Full Band Version)''
''Joe Hicks: Life & Death In G & A''
''6ix: Trying To Make You Feel Good''
''Little Sister: Stanga''
''6ix: Dynamite''
''Little Sister: You're The One (Early Version)''
''Sly Stone: África''
''Joe Hicks: I'm Going Home (Part 1)''
''Little Sister: Somebody's Watching You''
''6ix: You Can, We Can''
''Sly Stone: Spirit''
''6ix: I'm Just Like You (Full Band Version)''
''Sly Stone: Scared''
''6ix: Dynamite (alternate version)''


Mas ficou para a história com essa bela compilação. Temos aqui 5 compactos e 10 registros que nunca haviam sido lançados. Todos remasterizados diretamente da fonte master Funkeada, com uma qualidade e nitidez surpreendente e participações que apenas apimentam o tempero deste escaldante som.

Temos aqui nomes como Little Sister, Joe Hicks, 6ix e o próprio criador de todo esse universo, Sly sem a família Stone. O maior legado desse disco, além de nos mostrar bastante material inédito, é evidenciar o trabalho livre de uma mente sem limites para a criação.


O Sly dessa compilação está apenas improvisando no estúdio, os outros só acompanham, de resto ele sola em todas as posições, brinca com todos os elementos possíveis, desde timbres até as ácidas talk-box, isso sem contar, é claro, o Wah-Wah que o cidadão comia com farinha.

Temos aqui o elo perdido entre o clássico ''Stand'' (1969) e a revolta política de ''There's A Riot Going On'' (1970). Quando o Little Sister entra na jogada o requinte fica como bônus nos backing vocal de ''You're The One'', ''Somebody's Watching You'' e ''Stanga''.

Quando Sly entra para se consagrar sozinho o som chega com ares de Shuggie Otis. Temos o feeling visionário do criador do mítico universo paralelo de ''Inspiration Information'' (1974) em diversas oportunidades, como no Funk psicodélico de ''África'' e na faixa que encerra as faixas inéditas, ''Scared'' e seu estonteante arranjo.

Eis um disco para se entender o mito. Trabalhando sozinho apenas no instrumental ou com o 6ix e Joe Hicks a tira colo, Sly reinava soberano e foi um cara que poderia ter feito ainda mais pela música. Suas gravações são relíquias, mas todos sabem (incluindo o proprio Stone), que se ele não tivesse ficado no underground dos rehab's por tantos anos, os tempos seriam outros. Aqui temos a luz, risadas, Soul/Funk/R&B e algo que ainda não foi ''especificado'' dentro de gênero algum: o DNA do mestre.

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A viagem do My Sleeping Karma por meio do turbilhão de Moksha

A psicodelia é um campo terapêutico da vida. A instrumentação está na mesma temperatura de cada detalhe sonoro e existe um cuidado com tudo que importa dentro da jam, desde o clima até as mudanças que nortearão novas possibilidades.

A música não possui uma fórmula secreta, mas é claro que existe um desfecho, um processo que trabalha para justamente unir as formas da maneira mais criativa e sentimental possível. A naturalidade é um elemento forte nessa massa de arte.


O eco pede por fagulhas de momento, por soluções no improviso e por uma roupagem digna de tudo isso, algo religioso, reflexivo e espacial. Basicamente, nós pedimos pela receita do quinto disco de estúdio dos germânicos do ''My Sleeping Karma''.

O pessoal fala da Suécia, mas a energia cósmica de Eloy que esses caras dissolvem na primavera das estações de ''Moksha'' (quinto devaneio de estúdio do quarteto), é tão celestial como cantos libertinos. Napalm Records e mais um grande disco para 2015, dessa vez temos um LP obrigatório, plenamente datado de 29 de maio.

Line Up:
Seppi (guitarra)
Matte (baixo)
Steffen (bateria)
Norman (soundbord)



Track List:
''Prithvi''
''Interlude 1''
''Vayu''
''Interlude 2''
''Akasha''
''Interlude 3''
''Moksha''
''Interlude 4''
''Jalam''
''Interlude 5''
''Agni''

Quando você chega em casa e cath a fire num incenso, a terapia de fumaça sai do corpo da matéria que forma esse bouquet de aromas mundanos. Só que o ponto elementar quando ouvimos ''Moksha'', ou quando vamos mais além, mergulhando na discografia do My Sleeping Karma, é sentir uma banda que faz tudo a partir de um ponto matriz e, que a partir disso, vai para os mais diversos complexos, como se fosse um exercício de plenitude.

''Moksha'' é um conceito indiano que expressa a emancipação. A soltura de tudo, o livre trânsito de energias que é preparado como um conto que passará por uma árvore genealógica. Um estopim que enviará seus conceitos terrenos sobre música para um novo campo.


Uma planície completamente desprovida de de vícios e que semeia o solo com a virtude de começar do zero e chegar ao infinito. Os conceitos do My Sleeping Karma estão em todos os lugares. Neste disco em especial, são 11 peças para preparar a celebração.

Pra variar é um trabalho excelente. Não teve nada na discografia da banda que não estivesse nessa linha de qualidade, mas acho que o esmero em criar grandes temas e grandes passagens entre os mesmos, com os interlúdeos, deu um característica diferente para esse disco.

''Prithvi'' surge serena, ''Interlude 1'' carrega essa força para ''Vayu'', tema que mostra a facilidade com que o quarteto consegue entrar e sair do tempo do som. Camuflando notas em ''Interlude 2'' e continuando o pensamento instrumental com ''Akasha''.


É uma abordagem bastante pura. ''Interlude 3'' abre novas possibilidades de raciocínio sonoro e ''Moksha'', melhor tema deste full lengh, brinca com o peso e a timbragem da jam durante quase 10 minutos. A grandiosidade da coisa foi para outro nível, tudo se completa, desde o quarto interlúdeo até ''Jalam'' e & ''Agni'', session que encerra as atividades.

Pouco importa como você vai ouvir esse disco, se vai ser na ordem correta, pulando temas, de trás pra frente... Tanto faz, o impressionante é ver como tudo habita seu lugar no cosmos sem exagero, esbanjando feeling e uma trinca de baixo/bateria/guitarra que não falha em momento algum. ''Moksha'' é mais do que um bom disco, é uma expressão de como a música surge e nos toca, não precisa seguir a track pra sentir nada, basta apenas se deixar levar por todos os efeitos.

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Paul Kossoff e o vibrato raio de sol em Back Street Crawler

Se imagine como um grande guitarrista... Membro de uma banda seminal, com clássicos enfileirados e reconhecimento surgindo em puro lapso de prosperidade. Sua banda alcança outro patamar, shows em bares são transferidos para casas de shows respeitadas, tours fora de seu país, atenção de outros músicos (tão grandes) ou até maiores do que você...

Simplesmente tudo que alguém poderia desejar. E quem duvida que incrustado num panorama desses, o músico em questão AINDA assim conseguiu perder tudo, definitivamente não conhece o Free, muito menos Paul Kossoff.

Kossoff hoje em dia é um nome que pouco se escuta na mídia musical, mas isso não é só com ele, temos vários outros grandes guitarristas que ficaram esquecidos por debaixo da penumbra do tempo e Paul talvez tenha sido o maior deles.

Dono de uma rara habilidade e perícia em sua guitarra, Koss ficou famoso por linhas sempre muito sentimentais e por possuir um vibrato que tornou-se sinônimo de seu nome, fez até com que Eric Clapton (em sua fase God), fosse atrás do músico para que este lhe mostrasse os segredos desta técnica, inclusive eles até trocaram instrumentos após o ocorrido.


O Free estorou em 1970 com seu terceiro disco, o icônico ''Fire And Water''. Enquanto a banda se fixava na galeria de grandes nomes, sendo cada vez mais aclamada, todos os músicos envolvidos tinham noção do grau de profissionalismo necessário, e chefiados por Andy Fraser desde o começo do Hard, era só manter o que já havia sendo feito para não ter nenhuma surpresa no caminho.

Só que no meio do caminho eles encontraram uma pedra... Na época ninguém sabia do que era feita, hoje sabe-se que era uma mistura de heroína e mandrax, a base do primeiro disco solo do guitarrista. Uma das grandes obras primas do groove, um LP que musicalmente (e históricamente), devido ao seu panorama problemático, é deveras triste, mas recompensador aos ouvidos. ''Back Street Crawler'', épico lançado em 1973, exala sinceridade, sofrimento e um sentimento de renovação que tira sarro da morte.

Line Up:
Paul Kossoff (guitarra)
Trevor Burton (baixo)
Alan White (bateria)
John ''Rabbit'' Bundrick (teclado/órgão/piano)
Alan Spenner (baixo)
Jean Roussel (teclado)
Jess Roden (vocal)
Tetsu Yamauchi (baixo)
Simon Kirke (bateria)
John Martyn (guitarra)
Paul Rodgers (vocal)
Andy Fraser (vocal)
Conrad Isidore (bateria)
Clive Chaman (baixo)



Track List:
''Tuesday Morning''
''I'm Ready''
''Time Away''
''Molten Gold''
''Back Street Crawler (Don't Need You No More'')


Esse trabalho tem 35 minutos de duração, mas atinge o ouvinte de uma forma fantástica. Para este que vos fala esse é o melhor momento de Koss dentro de um estúdio, mesmo com tantos problemas relacionados ao seu frenético vício e uma fase de ouro no Free. 

O som que sai das guitarras deste monstro sempre foi um mistério particular para meus ouvidos. Sempre notei que tudo que saia de seu corpo era exato e minimalista, só que de uma forma que nunca tinha ouvido antes. Seu approach na Gibson e a profundidade de seu som falam por si só, nunca ouvi nenhum músico que conseguisse mostrar tanto com tão pouco e conseguir um som tão absoluto.

Com linhas curtas e um sentimento absurdo, o britânico sentia 100% a guitarra e 100% seu próprio corpo. Com Paul Kossoff era 200% de feeling. E logo pela capa do disco dava para ter uma noção do estado caquético que todo esse feeling permeou.

A coisa estava num nível que o cara chegou a desmaiar durante um solo, numa das várias vezes em que atrapalhou o Free em suas tours, atingindo o apogeu da insanidade em 1972. Época onde todos os shows do combo dependiam do estado de Koss, que quase sempre lastimável, resultava em episódios destrutivos com direito até a overdoses.

A Heroína era sua vida, mas seu talento era tão grande que ainda assim foi possível concretizar as gravações de um trabalho realmente diferenciado e que desarmou a bomba relógio que era um show do clássico Free. 


Foram diversos momentos instáveis. Seu vício seguia engolindo tudo, tanto que numa das separações do Free (em 1970 depois do lançamento de ''Highway''), quarto disco de estúdio da banda, Kirke estava tão preocupado com o guitarrista que concordou em formar o ''Kossoff, Kirke, Tetsu And Rabbit''. Banda que registrou apenas um disco homônimo, lançado em 1971, com o objetivo principal de manter Paul longe das drogas.

Tarefa que não deu certo e ainda teve mais drama. Em 1972 sai ''Free At Last'' e o cidadão vai para o rehab, depois em 1973 temos o disco derradeiro (''Hearbreaker'') e nem sei como que o cara ainda participou de algumas faixas. E quando Rodgers e Kirke formaram o Bad Company e que Fraser foi atrás de novos projetos, Paul não teve outra opção, restava apenas um disco solo, e este surgiu no mesmo raio de 73.

Foram anos complexos, o desgaste das relações foi doloroso demais para todos os envolvidos e quando parecia que a tormenta tinha passado, Paul chegou a injetar heroína nos pés só para não ser pego pelos companheiros.

E o mais impressionante é que mesmo depois de tudo isso, toda a malha de músicos citados ainda participou deste projeto. Pena é uma palavra muito forte, prefiro creditar essa última chance ao evidente brilho e berrante talento do guitarrista, que aqui é absolutamente comprovado e registrado para ser eterno.


Dono do riff cheio de glicose que dá corpo ao clássico ''All Right Now'', esse disco é a prova viva de como Paul queria tudo ao mesmo tempo. Sua lápide inclusive carrega o nome do megahit que se tornou símbolo de seus demônios, feras que aqui sumiram, a luz era forte demais.

Temos 6 faixas e cada uma delas é tocada e endossada por Koss como se o disco tivesse um take. Ele abre a porta do estúdio, toma um whisky com mandrax debaixo da língua, grita pra alguém apertar play nos rolos e os 12 nomes envolvidos no instrumental, apenas acompanham (sem menosprezar), todos os espectros de luz que Paul irradia de si, como se fosse um refletor de Gibson's experimentando cores para um eclipse de bends ou como ficou conhecido, os 17 primeiros minutos de ''Tuesday Morning'', pindorama infinito que abre o disco.

Jess Roden é o responsável por colocar verbos incandescentes neste take e sua voz é a cola responsável por reunir estilhaços de cacos de vidro na melodias de ''I'm Ready''. Quando você fecha os olhos ouvindo esse disco, você sola. Temos a vida em sua condição física mais livre, pairando como pequenos feixes psicodélicos através de nossa alma, como uma peneira que nos leva a luz para a epifania de tempos que não conseguimos especificar, mas que sabemos que vivemos ou viveremos.


É visceral, conectivo. Flexiona mentes, corpos e satétiles. O groove se perde entre as esferas da galáxia. Contemplando o tempo com ''Time Away'', ressucitando Paul Rodgers em ''Molten Gold'' e relembrando talvez o último grande momento desta união. São performances absurdamente sentimentais, expressões claras de um coletivo de músicos glorioso, unificado por todos esses excessos que caracterizam Kossoff.

Sua guitarra espanta, tanto com voz na jogada, quanto sem. O estardalhaço era o timbre, estilo Midas de poucos toques e alguns ''Back Street Crawler's''. O catranco cerebral é grande, mas Paul foi maior do que apenas sensações, algo que ele infelizmente não conseguiu suportar.

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Santana - III

Quando um grupo tem uma ascensão meteórica, calcando sua cozinha em uma sonoridade muito diferente e complexa, o normal é que (se a banda tenha sucesso), esta dita ''trama revolucionária'', seja explorada ao máximo.

Só que existem alguns grupos que não se acomodam (ou acomodavam) com o sucesso ''estável'', queriam buscar reconhecimento e o queriam sempre da maneira mais audaciosa musicalmente falando. Experimentando, encerrando um ciclo e indo para outro, outro e assim sucessivamente. Não importa o resultado, o foco é a relevância, são as novas tendências e sonoridades dela, sempre ela, a música.


Quando Carlos Santana adentrou o festival de Woodstock, o guitarrista alastrou sua onda de Peyote pelo festival e ainda ousou culminar a Jam com seu swing latino. O mundo viu que se tratava de algo especial e sentindo o momento, sua banda prontamente atendeu o pedido com seu debut autointitulado, LP que fora lançado ainda no mesmo ano do festival, o homérico e estelar 1969.

Deu certo, o disco vendeu muito bem e colocou os caras no mapa dos principais circuitos de shows, mas agora que a banda tinha tempo, era necessário afirmar tal qualidade e potencial. E para tal, o ápice criativo veio a tona um ano depois (em 1970), com ''Abraxas'' e culminou naquele que encerra esta fase puramente ácida e cigana do grupo, o instrumental riquíssimo e arisco de Santana III e sua ''Woodsrock Experience'', lançado em 1971.

Line Up:
Carlos Santana (guitarra/vocal)
Greg Errico (percussão)
Thomas ''Coke'' Escovedo (vocal/percussão)
Gregg Rolie (teclado/piano/vocal)
Neal Schon (guitarra)
David Brown (baixo)
Michael Shrieve (bateria/percussão)
Luis Gasca (trompete)
Jose ''Chepito'' Areas (bateria/percussão)
Mario Ochoa (piano)
Linda Tillery (vocal)
Mike Carabello (vocal/percussão)



Track List :
''Batuka''
''No One To Depend On''
''Taboo''
''Toussaint L'Overture''
''Everybody's Everything''
''Guajira''
''Jungle Strut''
''Everything's Coming Out our Way''
''Para Los Rumberos''


Esse disco fecha um ciclo em vários sentidos da vida do Santana setentista, Santana banda como um todo e Santana, Carlos, o guitarrista especificamente. Primeiro que esta bolacha marca o fim da formação Woodstock e marca o início das experimentações puramente Jazzísticas.

Segundo que se afastando desta cozinha mais fervente e intensa, o guitarrista abre novos panoramas musicas para si mesmo, trazendo novos instrumentistas e produzindo ótimos discos com os mesmos. E a quadra ''Caravanserai (1972), ''Welcome'' (1973), ''Love Devotion Surrender'' (junto com McLaughlin) e ''Borboletta'' (1974) falam por si só.


Esse trabalho é o melhor desta fase para este que vos resenha, pois no primeiro, tudo foi feito muito rápido. Mesmo com um resultado excelente. Em ''Abraxas'' a criatividade é fora do comum e boa parte dos principais clássicos estão lá, mas aqui a banda estava mais madura, Santana e toda a crew extraem EXATAMENTE o que queriam de seus respectivos instrumentos e quem escuta esse trabalho sente isso.

A mudança era inevitável, ou banda ia morrer com o mesmo som e acabar produzindo músicas iguais umas das outras, ou rumaria para outra cozinha, seja ela qual fosse. Sendo o Jazz o ritmo escolhido, o único jeito era fechar o estrelato desta época com uma compilação faiscante de improvisação, por isso, ''Salpica Mami''!


Perceba o inevitável meu caro, esse disco fecha uma era e o faz com requintes de crueldade. Note o baixo em completa harmonia com a paercussão e os riffs de Carlitos em ''Batuka''. Perceba o desenvolvimento dos temas, a profundidade... Não dava pra ir além disso, por isso temas como a aérea ''No One To Depend On'' e o caldeirão concetrado de ''Taboo'' regem a experimentação final. Sempre adicionando vocais mais marejados, fritando com velocidade (''Toussaint L'Overture''), muita percussão (''Everybody's Everything'') e muita salsa para selar o pacote.

O destinatário era o Jazz, gênero que absorveria toda a atenção do mexicano dai pra frente, logo, ao escutarmos guitarras com toques aparentemente ''novos'', como na panela de pressão de ''Guajira'' e ''Jungle Strut'', sentimos uma leve inclinação dos próprios músicos para com o estilo, pois encarem os fatos, ir para Funk não abriria tanto o leque. ''Everything's Coming Out our Way'' mostra isso, fora que a overdose de John McLaughlin que Santana estava administrando não ajudava muito, ele precisava sair desse ambiente, precisava ''latinizar'' sua própria Mahavishnu Orchestra.

Peço apenas que o senhor não fique bravo companheiro, assim como esta fase, o pico Jazz também passou, com a diferença que as raízes voltaram. Cinco anos depois, Carlos viu que seus fãs estavam um tanto quanto descaracterizados com esta sonoridade, por isso o guitarrista veio com ''Amigos''.

O disco que parou de alienar os fãs que não eram muito chegados ao Jazz e fidelizou os antigos. Relembrando o bom número de vendas do começo dos tempos, teses mercadológicas que mesmo com belas críticas em tempos de ''Caravenserai'' e ''Borboletta'', não fizeram as platinas voltarem para a parede, nem as rádios tocarem temas deste inspirado tempo que se encerrava com ''Para Los Rumberos''.

III:

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John Frusciante - Stadium Arcadium & Blood Sugar Sex Magik

Eu, como grande  admirador do talento de John Frusciante, sempre estive atento para saber de tudo que o americano anda fazendo, seja quando escuto discos solo de sua autoria, clássicos do Red Hot, projetos paralelos ou Bootlegs perdidos. 

O motivo pra isso é que... Bom, o cara toca demais e isso basta, mas curto muito ver suas linhas não só pelo Funk ou pelo experimentalismo, mas sim pelo feeling, pois acredito que John é (ou pelo menos deveria ser), uma das referências nesse campo guitarrístico, ainda mais hoje em dia. Ainda mais hoje em dia...


Sua abordagem para com a guitarra é uma coisa que muito me impressiona. Seu tato com este instrumento é algo raríssimo de se encontrar, até mesmo na forma como conduz certas melodias. Parece que ele toca sua Fender como se ela fosse qualquer outro instrumento, menos uma guitarra. 

E para demonstrar tal abordagem eis que temos um vídeo do senhor Frusciante com todas as músicas de seu último CD com os Chili Peppers, o duplex ''Stadium Arcadium'' lançado em 2006. Só que com com um adendo especial: aqui não existe interferência externa, nem do baixo de Flea, tampouco das baquetas de Chad, muito menos da voz de Anthony.

   

Aqui a guitarra reina soberana e com ela tomando um drink sozinha, podemos perceber insights exclusivos. Sente-se no local de sua preferência, coloque os fones e comece a viagem. Aqui nada se perde, todo bend será devidamente apreciado e se caso seja necessário, temos também as tracks isoladas para o ''Blood Sugar Sex Magik''. Boa contemplação minha joia.


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Flea - Helen Burns

Carreiras solo... Sempre me interessei muito em ouvir os discos de algum grande artista que ousasse vôos mais audaciosos e dessa a cara à tapa com um disco de sua autoria. Alguns fazem algo bem parecido com a sonoridade de sua banda de origem, já outros vão lá e mostram uma faceta completamente diferente de tudo que conhecemos.

Dentro da música existem alguns nomes que sempre me despertaram curiosidade para saber como soariam se fizessem um disco solo, algo que para a minha alegria, depois de anos de espera, foi pensado, trabalhado e depois de pronto, realizado por Flea. 


O cara da foto acima é Michael Peter Balzary, ''Flea'' para os íntimos. Michael é um baixista australiano conhecido por integrar (e dar uma dose cavalar) do bom e velho groove para seus comparsas de jam no Red Hot Chili Peppers. É justamente por isso que sempre tive toneladas de curiosidade para saber como seria um disco solo do cidadão, mas ''Helen Burns'', EP com 6 faixas, quase todas elas instrumentais e que evidenciam o lado mais Jazzísticos e experimental do baixista, faz questão de nos detalhar como o menino trabalha sozinho.

Line Up:
Flea (baixo/trompete/piano/percussão/órgão/sintetizadores)
Jack Irons (bateria)
Stella Mozgawa (bateria)
Chad Smith (bateria)
Patti Smith (vocal)
Keith ''Tree'' Barry (gaita)
Coral (do próprio conservatório Silverlake) dirigido por S. J. Hasman



Track List:
''333''
''Pedestal Of Infamy''
''A Little Bit Of Sanity''
''Helen Burns''
''333 Revisited''
''Lovelovelove''


''Helen Burns'' foi lançado no dia 19 de julho de 2012 naquele esquema de ''pague o quanto achar que vale'' pelo site do conservatório de música de Silverlake, uma ação que mostra o carinho do músico pela instrução sonora, ideal que mudou sua vida e que, graças a todas essas experiências, serviu de base para que agora influencie as crianças do conservatório e por que não dizer do mundo todo, afinal de contas o slap do cidadão já é um elemento bastante globalizado.


O ponto mais importante neste EP é o trompete. Poucas pessoas sabem disso, mas o primeiro instrumento de Flea foi o metal que fez de Chet Baker uma lenda do Jazz. Tudo ia bem no primo esguio do sax, Flea mostrava-se bastante talentoso nessa ramificação econômica e só foi se perder no groove, pois seu amigo, Hillel Slovak, futuro companheiro de banda e drogas, jogou um verde sobre os poderes de um bom e velho grave. 


Para dar início a esse novo universo criado pelo baixista, surge ''333'', a faixa mais longa de todo o EP. Nesses oito minutos já é possível notar o lado mais jazzístico e eletrônico do baixista, destaque para as camadas embriagantes do trompete e para os sintetizadores que acentuam a experimentação. Logo depois aparece ''Pedestal Of Infamy'', faixa menos eletrônica, recheada por um som mais calmo, contemplativo e um pouco mais cadenciado. A prova viva de toda a liberdade que os músicos envolvidos tiveram durante o processo de composição.

''A Little Bit Of Sanity'' é uma expressão mais curta é verdade, mas muito bem trabalhada, nota-se o esmero no tempo da bateria de Stella Mozgawa, um belo aperitivo antes da faixa título do EP e que marca pela gloriosa presença de Patti Smith nos vocais! Depois da única faixa cantada ''333 Revisited'' segue o cardápio da jam apresentando o momento mais John Frusciante (eletrônico) de todo o trabalho.

Finalizando o primeiro trabalho solo do hiperativo estapeador de baixos surge''Lovelovelove'', talvez a faixa símbolo deste registro. Destaque para o coral do conservatório de Silverlake e para a adorável gaita de Keith ''Tree'' Barry. Um sopro fresco e revigorante de boa música, mais de 26 minutos de uma bela brisa dos ventos. Ventos alísios e ótimas timbragens no groove, claro.

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Apertar Play & Escrever

Escrevo sobre música por que sinto que me liberta. Não me aproximo de História, Sociologia ou qualquer outro assunto por que a música me satisfaz. Escrevendo sobre ela parece que atinjo o nirvana dentro do patamar espiritual. Parece que enquanto destilo vocábulos sobre as notas que saem do rádio, minha mente ganha um ar celestial, meu corpo descansa e, apesar de se mover enquanto digita, só uma coisa parece trabalhar: a mente.

A escrita sobre qualquer outro assunto que não seja música me parece forçada, anti natural e não sincera. Por isso que sempre tento traçar um paralelo com alguma coisa relacionada com este tão sonoro e agradável assunto. E não por que o mesmo não seja interessante, mas sim por que se não tem notas no ar, não vejo motivo algum para continuar batucando as teclas.


Sem música parece que não posso cantar-digitar-criar versos que não existem. Sem ela a folha em branco fica em branco por mais tempo e, quando é preenchida, fico mais propenso a apagá-la. Com música parece que meu texto tem que se moldar a uma trilha, mas não de forma forçada, as palavras apenas se adequam ao novo ambiente sensorial que o instrumental me fornece, mas o fazem de forma tão não automática, que me resta apenas acompanhar o beat de ideias.

Ontem estava pensando sobre escrever sobre outros assuntos, Política, Filosofia, Cinema... Agora, agora mesmo enquanto digito, sinto que não farei isso, neste exato momento, enquanto o barulho cacofônico de meus dedos pentelhando as teclas se desenvolve, crio uma certeza genuína de que não vou sair desse espectro.


A música é como um vela que nunca termina: você pode apagá-la em certos momentos, mas sempre vai acendê-la quando ficar escuro uma vez mais. E o mais filosófico e apaixonante é que não sabemos exatamente o motivo ou quando isso vai nos atingir, qualquer som serve.

Esse texto começou da forma mais banal possível. Coloquei ''Burn Slow'' (Chris Robinson Brotherhood), para tocar e as palavras simplesmente começaram a sair... Se estivesse em silêncio essa página ainda estaria em branco. É só apertar play que as coisas fluem.

E se caso ficar escuro novamente, você já sabe que é hora de acender a vela e escrever uma vez mais, porém não o faça sem apertar play antes, as palavras só surgem depois que algum nota reverbera no som e vibra em seu corpo... Como se você, caro leitor, fosse o instrumento que proclama aos que estão em silêncio.

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Concert for Danni: a melhor das auroras para a baianidade cósmica de um Chacal

A vida é uma teia de relações surpreendentes. Muitas vezes conhecemos pessoas com conexões musicais, espirituais e familiares, que na hora pode até parecer fruto do acaso, só que no fundo o destino comprova que as coincidências não são apenas uma combinações de acontecimentos randômicos. O critério é muito mais profundo do que isso. 

Tudo que nos atinge foi gerado por algum estímulo e quando este chega ao fim, é nossa responsabilidade fazê-lo reverberar como um legado. As energiais permanecem pulsantes quando corpos celestes partem, por isso que o nosso trabalho, enquanto neste plano, consiste em cuidar para que certas coisas continuem sempre por aí, tocando, vibrando em ondas e esbanjando uma baianidade cósmica que não pode se perder.


E foi exatamente com tudo isso nos planos, que o dia 18 de julho de 2015 entrou instantâneamente no hall de memórias de todos que estiveram presentes no ''Concert for Danni'', celebração que além de compactuar com os 49 dias de transcendência do Hofner mais baiano da história, também marcou por reunir apenas os ouvidos interessados na boa música, arte que Danniel Costa dominava com absoluto requinte e uma classe que apenas os grandes conseguem destilar.

Foi uma honra fazer parte deste dia de alguma maneira e é uma senhora responsabilidade descrever todo o ocorrido. Pouca vezes me senti tão confortável dentro de uma casa de espetáculos, e o ambiente livre do Matilha Cultural foi o palco perfeito para um dia que, além de reunir quatro belos exemplares sonoros da nova cena local, agregou amigos que só estavam juntos naquele mesmo espaço, graças ao Dandy do Dendê.

Foram mais de 4 horas de muita música, ótima energia e sublime positividade. Pedro Pastoriz, homem encarregado de abrir os trabalhos, foi elementar quando abordou o ótimo clima que permeou o recinto, e fez questão de continuar com as boas vibrações quando começou a entoar as composições de seu ótimo debutante solo, grande trabalho lançado esse mês.


O criativo compositor também não deixou de prestar tributo aos mestres e tratou de apresentar alguns standards que moldaram tudo que sua musicalidade alcançou hoje. Mostrando que as influências seguem batendo na porta, apesar de ter criado algo com sua própria assinatura no contra cheque da jam.

Foi uma apresentação intimista, completamente livre e espontânea, assim como seu novo disco. Trilha sonora que preparou a estrutura da casa para o Mescalines Duo subir ao palco e mostrar com quantas jams se pratica um crime de excesso de volume.



Jack Rubens & Mariô Onofre possuem uma química absurda no palco. Até a relação da dupla com o público é interessante. Jack fica de costas, parece que ele troca informações por telepátia com seu comparsa, reverendo baterista que tratou de nos mostrar o lado baiano de Buddy Miles com seus fundamentos Jazzísticos, espírito cru made in Rock 'N' Roll e um peso nas viradas que nós achamos apenas nas melhores famílias.

O improviso impera no som dos caras, os riffs entram por baixo da catraca sem pagar passagem mesmo e foda-se, ninguém liga. Funciona muito bem e a fluência do som foi tanta, que não seria exagero dizer que os caras fizeram o show em praticamente dois takes. Foi denso, mas libertador e teve de tudo, rolou até delírios de Karl Marx com as ideias kamikazes de ''Não Roube, Se Aproprie'', claro.


No intervalo deste show, após o recolhimento de uma taça de vinho quebrada por Jack (acredito eu, que por excesso de vontade), a próxima atração marcada era o Bombay Groovy. Coletivo que além da exploração sonora sem limites, teve que segurar o groove mais um pouco em virtude de problemas técnicos envolvendo o playmobil da bateria, coisas de vida já diria André Arcângelo.

Mas foi aí que o momento mais especial da noite teve início. Exatamente quando a grade teve que ficar suspensa, o mesmo André tomou a liberdade de contar ''causos'' sobre o saudoso Danniel. A platéia deu risada, os amigos do mestre das notas graves se identificaram e, a partir daí, mais pessoas subiram ao palco para se expressar, arte que Danniel também foi soberbo.

No fim das contas esse foi o melhor atraso de show que já tive o privilégio de presenciar. Jimmy Pappon foi elementar quando salientou a força das linhas do criador do Riff swingado de ''Tala Motown'', a energia do baixista estava lá: o mais importante para esse man era valorizar o encontro, e neste dia a reunião foi sublime.

Logo após o concerto do lego da Estrela, o show pode retormar o fluxo e apresentar um Bombay Groovy inspirado, fluente e classudamente pesado. Passando pelas linhas de muito bom gosto no Hammond, açucaradas elevações na batera e lindos insights no sitar e na guitarra do quase francês Rodrigo Bourganos. Cidadão que estava particularmente inspirado nessa noite e que além de esquentar o amplificador com a Bombay, fez cosplay de Jimmy Page com o lindo cover de ''Going To Califórnia'', entoado de forma grandiosa por Murilo Sá.


Foi mais um grande show, outro momento que coloca a prova todo meu vocabulário de sinônimos e que além de explorar os caminhos das ''Auroras'', apresentou um tema inédito, criado especialmente para as festividades. Falo sobre ''Chacal'', apelido do sagaz Danniel e que, em meio a todo o dinamismo instrumental do trio, mostrou uma banda visceral quando preciso e que apesar do alto padrão técnico, não perde o feeling e consegue transmitir mais sentimento do que muito grupo com vocal por aí.

Mas isso não foi tudo. Ainda tivemos a chance de encerrar a noite no habitat natural de Murilo Sá & seus comparsas do Grande Elenco, que ao som do excelente ''Sentido Centro'', embalaram um track list que assim como ouvimos em disco, é um best off em potecial. Seja com a chapação chromakeyniana de ''Eis Que Eu Tento Me Entreter'' ou ao som da bilíngue ''Está Tudo Bem (It's Ok)''.



Rapaz, foi massa! Teve Erico Jônis fazendo o groove para a Bombay, Bourganos improvisando com o Grande Elenco, Mariô entrando em cena com seu conterrâneo, Jack Rubens dichavando riffs (dessa vez sem quebrar taças, fazendo uso de um genial copo de plástico). Pastoriz com Murilo & Mescalines, Murilo mais uma vez só que mandando ver no baixo com a Bombay...


Acho que não teve um que não entrou no improv rapaz, foi uma homenagem a tudo que importa desde Johan Cruyff até Aleister Crowley, paralelos que jamais poderiam ser traçados sem o elo Danniel Costa.

Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma criança, a fidalguia deste evento foi maior do que um coquetel com a presença do Duque de Kent. E a festa não poderia ser encerrada com outro som que não fosse Stones, grupo pelo qual o homenageado sempre nutriu grande admiração e que ao som de ''Dead Flowers'', reuniu praticamente todos os nomes citados no palco.

Foi um grande momento, purificou alma & ouvidos. Agradeço a todos os presentes e ao reverendo Paulo Baba pelas imagens que ilustraram esse dia de feixes psicodélicos. Exuberante foi pouco!

Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer,
Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente.
Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso, e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos.


Chico Science


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King Crimson - Ladies Of The Road

Uns 6 meses atrás, o reverendo Robert Fripp anunciou pelas redes sociais que um dos maiores expoentes da história do Rock Progressivo, sua banda, o King Crimson, estava de volta. Essa foi uma notícia que é desnecessário dizer, deixou os fãs malucos e, com isso, todos nós (Proggers) voltamos a sonhar com uma eventual passagem da banda pelo Brasil.

Tour que (acredite se quiser), nunca aconteceu, mesmo com algumas tours por esta parte do mapa no curriculum e até gravação ao vivo na Argentina (''B'Boom: Live In Argentina'') lançado em 1995 e no México (Live In Mexico City) lançado em 1999.


E para ter a real dimensão do que é o King Crimson ao vivo, decidi aparecer aqui com o meu disco preferido da banda nesta modalidade, trata-se do duplo e fenomenal ''Ladies Of The Road'' lançado em 2002. Disco que compila um dos maiores picos criativos do Rock Progressivo, recheado com shows gravados entre 1971 e 1972 e acompanhados por uma overdose de saxofone para seguir o requinte, isso fora os 46 minutos genialmente azeitados de ''21st Century Schizoid Man'', odisséia que toma conta do segundo disco todo! Aproveitem o live e fiquem com a nova formação do grupo!

Line Up:
Bill Rieflin (bateria)
Tony Levin (baixo)
Robert Fripp (guitarra/sintetizadores)
Gavin Harrison (bateria)
Mel Collins (flauta/saxofone)
Pat Mastelotto (bateria)
Jakko Jakszyk (vocal/guitarra)



Line Up:
Robert Fripp (guitarra/mellotron)
Boz Burrell (baixo/vocal)
Mel Collins (saxofone/flauta/mellotron)
Ian Wallace (bateria/percussão/vocal)
Peter Sinfield (VCS3)



Track List CD 1:
''Pictures Of A City''
''The Letters''
''Formentera Lady''
''The Sailor's Tale''
''Cirkus''
''Groon''
''Get Thy Bearings''
''21st Century Schizoid Man''
''The Court Of The Crimson King''


Track List CD 2:
''21st Century Schizoid Man''
''Schizoid Men'' (edit 1)
''Schizoid Men'' (edit 2)
''Schizoid Men'' (edit 3)
''Schizoid Men'' (edit 4)
''Schizoid Men'' (edit 5)
''Schizoid Men'' (edit 6)
''Schizoid Men'' (edit 7)
''Schizoid Men'' (edit 8)
''Schizoid Men'' (edit 9)
''Schizoid Men'' (edit 10)
''Schizoid Men'' (edit 11)


Esse disco é  único dentro na discografia do King Crimson. Essa foi uma Tour completamente diferenciada dentro da história do grupo, pois foi a única a levar uma equipe de metais que pudesse sustentar (ao vivo), toda aquela sonoridade pioneirística do disco de estreia, o homérico ''In The Court Of The Crimson King''. Conteúdo de épicos que até hoje assusta pelo trabalho anos luz a frente de seu tempo.

Aqui temos os temas clássicos dos primeiros anos e seus respectivos discos de forma única e com uma riqueza sensacional, algo que se deve primeiramente ao time de metais, que sabe-se lá deus por quê, nunca mais foi convocado para os palcos dessa força motriz progressiva.



O timbre maníaco dos instrumentos Jazzísticos leva outras doses cavalares de possibilidade para o som dos britânicos. Os improvisos incitam o caos na Jam com passagens sensacionais e pra lá de mirabolantes, mas isso é apenas o primeiro disco, o segundo é ainda pior.

Durante todo o segundo CD temos uma versão infinita com várias sessões ao vivo desta mesma tour, só que com diferentes ângulos de captação sonora, para que um dos temas mais importantes do Rock Progressivo, possa ser absorvido em sua totalidade. Sim meu camarada, é exatamente sobre a mítica, clássica e essencial ''21st Century Schizoid Man'' que estou falando.

Eis aqui um disco completo dedicado a um dos maiores temas criados pelo homem. Som que mesmo sem a voz marcante e original de Gregg Lake, ganha aqui momentos de pura loucura e insanidade, assim como a versão original eternizou. São mais de 40 minutos meu caro, um capacete não seria má ideia, a banda estava no auge, todo cuidado é pouco!

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Dr. John - Ske-Dat-De-Dat: The Spirit Of Satch

Existe um quê de desesperador em acompanhar a carreira de grandes músicos já em estado de idade avançada. Normalmente quando você é devoto de certo instrumentista de carreira longa, você o venera com o mesmo grau messiânico que um Deadhead idolatrava o Grateful Dead, mas uma hora a música vai  parar e você precisa entender isso.

Ou não, e é essa aparente indecisão que torna as coisas interessantes, veja o Dr. John por exemplo. 73 anos de vida e mais de 40 à serviço da música, dezenas de discos lançados e uma criatividade que parece não ter fim, mas ele é um caso raro. Quem conhece o Blues de New Orleans do cidadão sabe que ele não tem obrigação nenhuma de gravar mais nada, são dúzias de grandes discos.


Estamos falando de um patrimônio tão grande que se ele tivesse parado de lançar discos em 1980, com certeza já seria lembrado no futuro. Só entre 1968 e 1979 foram dez ótimos LP's. Mas teve mais nos anos 90 e mesmo nos anos 2000 sua criatividade segue avassaladora. Poucos tiverem essa longevidade e essa uniformidade lançando material e ainda mantiveram tours! O problema é esperar, foram dois anos entre ''Locked Down'' (2012) e ''Ske-Dat-De-Dat'' e mais uma vez só tenho elogios a tecer.

Sei que quando ele parar (e não vai demorar muito), um elo se perderá. Vai ter um momento que não vai ter disco sucessor e nós precisamos se acostumar com isso, sem se despedir ou ouvir sua música de forma triste, mas elevar o grau de respeito e saber que temos privilégio de ver um gênio trabalhando à toque de caixa, sabendo que ele teoricamente não tem mais motivação... Balela, os gênios sempre tem motivação, tal qual o sprint final de um campeão dos 100 metros rasos.

O doctor já está cheio de medalhas, mas ele quer mais e isso é uma daquelas coisas que não se explica, só se premia. Mais um ouro para o pianista, ''Ske-Dat-De-Dat'' é lindo, som dos anos 50 em 2014 na máquina do tempo do Nite Tripper.


Line Up:
Dr. John (vocal/piano/guitarra/vocal)
Gregory Davis (trompete)
Tony Dagradi (saxofone)
Sarah Morrow (trompa/trombone)
Ivan Neville (órgão)
Roderick Paulin (saxofone)
Derwin ''Big D'' Perkins (guitarra)
Ed Peterson (saxofone)
Efrem Pierre Towns (trompete)
Reginald Veal (baixo)
Nick Volz (trompete)
Jason Weaver (baixo)
Donald Ramsay (baixo)
Herlin Riley (bateria/percussão)
Jamison Ross (bateria)
Poncho Sanchez (percussão)
Khari Allen Lee (flauta/saxofone)
Roger Lewis (saxofone)
Barney Floyd (trompete)
Brian Quezergue (trompa)
Oliver Bonie (saxofone)
Tom Mallone (trompa)
Carl Blouin Sir. (saxofone)
Alonzo Bowens (trompa)
Bernard Floyd (trompete)
Kendrick Marshall (guitarra/teclado)
Bobby Floyd (órgão)
Tom Fisher (clarinete)
Alvin Ford Jr. (bateria)
Rex Gregory (clarinete)
Anthony Gullage (baixo)
Kevin Harris (saxofone)
Eric Lucero (trompete)



Track List:
''What A Wonderful World''
''Mack The Knife''
''Tight Like That''
''I've Got The World On A String''
''Gut Bucket Blues''
''Sometimes I Feel Like A Motherless Child''
''That's My Home''
''Nobody Knows The Trouble I've Seen''
''Wrap Your Trouble In Dreams''
''Dippermouth Blues''
''Sweet Hunk O' Trash''
''Memories Of You''
''When You're Smiling''


Depois de conseguiur a proeza de se reinventar com o Afrobeat de ''Locked Down'' (e abocanhar mais um Grammy com o mesmo), todo mundo (incluindo fãs e críticos) estava prestando muito atenção nos passos do senhor John. Aposto que ninguém chegou nem perto de acertar que para este disco nós teríamos um tributo para a obra de Louis Armstrong, e o mais contundente de tudo isso, faixas que não eram dele, mas que ficaram famosas ao som de sua bela voz.

Para os que acharam esse novo disco estranho, vale ressaltar que Dr. John já gravou inúmeros trabalhos jazzísticos e que inclusive já fez um tributo nesta linha, falo de ''Duke Ellegant'' gravado e lançado em 1999. Um tributo ao fantástico Duke Ellington. Só que tanto agora com os temas de Armstrong, quanto em 1999 com os takes de Duke, o músico fez um trabalho extraordinário e que além de entregar outra roupagem para as faixas, revitalizando-as com os toques do chef, escancara o som de Louis para as novas gerações.

São 12 takes, doze lindos e fantásticos takes. Veja o tamanho da Line Up que fez o instrumental nesse disco, isso sem contar os convidados de cada faixa. Tente mensurar a qualidade sonora, a riqueza de detalhes e o brilhantismo de todos os arranjos. Vale ressaltar que aqui não teve produtor, o Sr. Rebennack que montou tudo isso, só com a equipe de metais dá pra montar dois times de futebol.


Aquele clima de música caldeirão, tempero forte, apimentado, swingado com aquele remelecho Vodoo Lounge. O som do Louis Armstrong nunca soou tão malandro e esperto, aqui, com toda essa orquestra, piano, guitarra, um mar de baixos acústicos, todo o aparato (que é importante que se diga não deixa o som ''enfeitado'' demais), atinge o apogeu da malandragem de Louisiana.

Pega temas que ficaram carecas de serem tocados de forma conservadora como ''What A Wonderful World'' e coloca linhas de trompa costurando trompetes e saxofones. Transforma em Jazz Funk temas que nos anos 50 nunca pensaram em swingar como ''Mack The Knife'', e conclui a repaginada com a cereja do bolo: seus vocais. Cordas vibrantes que nunca parecem estar no ritmo, mas que sempre estão e aquele quê excêntrico que só é achado nesta meca criativa.

Ele vira a música do avesso, refaz toda a costura, aproxima o ouvinte com a percussão, pega um cubano fumê em ''Tight Like That'' e chama o Folk da Bonnie Raitt com ''I've Got The World On A String''. Tem Folk, Jazz, Funk, Gospel, ''Gut Bucket Blues'', ''Sometimes I Feel Like A Motherless Child'', ''That's My Home''. O que temos aqui é uma aula de música, sinônimo de Dr. John, inclassificável, e que tem tudo para ser mais uma vez multipremiado. R.I.P Louis Armstrong, seu legado está em ótimas mãos.

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Glenn Hughes - First Underground Nuclear Kitchen

Nos últimos 5 anos o reverendo Glenn Hughes voltou ao centro das atenções. O ex Deep Purple, Trapeze, Black Sabbath (fora outros projetos paralelos), uniu forças com várias feras para restabelecer seu nome no ramo.

Primeiro fez um conference call com Joe Bonamassa, Jason Bonham e Derek Sherenian para criar o Black Country Communion. Foram três discos ótimos e um live excepcional, mas a batalha de egos entre os já desgastados Bonamassa-Hughes, acabou decretando o fim do Blues-Rock excelente que o quarteto criava quando se encontrava.


Mas com o fim do BBC a primeira coisa que Hughes anunciou na imprensa foi que a banda não tinha acabado, Joe levou o nome, mas o baixista iria reformular tudo e ele de fato o fez. Substituição no time: saiu Black Country Communion número nove, para a entrada do número dez California Breed. O único remanescente dos tempos de BBC foi Bonham. Nas guitarras, alguém novo, o prodígio Andrew Watt, o elo que surpreendentemente consolidou a nova cozinha da dupla Bonham-Hughes, afastou o som do costumeiro Blues e voltou com o Funk que o britânico tanto faz questão de colocar em tudo que já fez.

O único problema é que com tantos lançamentos paralelos (o mais recente sendo o debut do California Breed), sua carreira solo ficou estática. Mesmo que os sons sejam bons (até mesmo com pitadas de Funk), já faz quase 7 anos que o velhaco não faz nada por sua conta e, o pior, ele parou justamente quando a criatividade tinha voltado a fluir. ''First Underground Nuclear Kitchen'', foi um inspirado registro em um tempo que as coisas pareciam ter embalado, mas isso lá atrás, no já embolorado 2008.

Line Up:
Glenn Hughes (vocal/violão/baixo)
Chad Smith (bateria)
Luís Carlos Maldonado (guitarra/violão)
JJ Marsh (guitarra)
George Nastos (guitarra)
Anders Olinder (teclado)
Ed Roth (teclado)
Ana Lenchantin (violoncelo)



Track List:
''Crave''
''First Underground Nuclear Kitchen''
''Satellite''
''Love Communion''
''We Shall Be Free''
''Imperfection''
''Never Say Never''
''We Got 2 War''
''Oil And Water''
''Too Late To Save The World''
''Where There's A Will''


Esse trabalho deve ter sido a mola propulsora para Hughes voltar aos bons tempos. Não acredito que as coisas aconteçam por acaso, percebam que depois desse disco todos os projetos paralelos e eventuais bandas que surgiram com o nome do baixista foram posteriores a esta gravação. Mais do que um trabalho coeso, vejo ''First Underground Nuclear Kitchen'' como um dos CD's mais importantes da carreira do britânico, afinal de contas esse Funk foi o grande responsável pela confiança renovada com que seu groove abraçou novos caminhos na música.

Fora que o balanço do Funk agrega muita coisa ao leque de influências de Glenn. Esse disco, por exemplo, mostra essa faceta de forma absolutamente inspirada, puxando para o Soul, misturando com Blues e dosando com o peso que lhe é peculiar, claro. Abrindo a cozinha nuclear com ''Crave'', mostrando seus dotes undergrounds com a faixa título e despejando criatividade com ''Satellite'', uma das grandes baladas que ilustram esse trabalho.


Mas é válido salientar que todo essa patamar de qualidade não é 100% oriundo do idealizador do projeto, creio que se não fosse o grande trabalho de Chad Smith e do guitarrista Luís Carlos Maldonado, a criatividade dessa registro não seria tão elevada. Em temas como ''Love Communion''
por exemplo a banda arrebenta, a faixa começa como uma balada mas ai o peso se apresenta fortemente armado e explode o som em flocos de Funk.

Glenn tem espaço para solar, toma conta dos vocais e o violão surge com outro toque na jam, as linhas se entrelaçam e o sentimento fica tão claro quanto os riffs de guitarra. A trocação do groove segue ardente, Chad tomou conta da bateria e diferentemente da herança do disco anterior (''Music For The Divine'' de 2006), aqui ele toca em todas as faixas e o faz de forma arrebatadora. A coisa fica com uma energia bem Red Hot Chili Peppers mesmo, ''We Shall Be Free'' mostra isso, mas o DNA do Hughes surge em temas como ''Imperfection'', ''Never Say Never'' e ''We Got 2 War''.


Rola um teclado, algo mais smooth Jazz e com isso quem ganha é o ouvinte, pois a música se desenrola de forma tranquila e muito apaixonante. Um sentimento que permeia tudo que esse cara gravou na vida, fora que ele conquistou seu próprio espaço na música de uma forma muito diferente, afinal de contas são poucos os nomes dentro da indústria do som pesado que levam nomes como Stevie Wonder e Marvin Gaye como claras influências.

Espero sinceramente que a sequência desse trabalho apareça logo, creio que o swing agridoce deste balanço não pode esfriar. A sequência de ''Oil And Water'', a elevação dos lamentos da maior e mais bem construída faixa do disco, ''Too Late To Save The World'' ou da saideira ''Where There's A Will'', definitivamente precisam de mais combustível. O Funk desse cara pesa e isso é raro, esta fagulha não pode se perder.


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Keith Richards apresenta ''Trouble'' ao mundo, primeira prévia do álbum ''Crosseyed Heart''

Publicado no La Parola

Há poucas semanas, o imortal Keith Richards anunciou o lançamento de um disco solo de inéditas, algo que não acontecia desde 1992 com o fabuloso ''Main Offender''.

O álbum se chamará ''Crosseyed Heart'' e marca a volta de Keef à carreira solo, 23 anos após o último trabalho. É verdade que nesse meio tempo teve o lançamento da coletânea ''Vintage Vinos'', em 2010, que é linda também. Mas material novo desse riffman de 71 anos sempre tem um sabor mais temperado.


Dois meses antes do lançamento do álbum e Keith Richards divulga no iHeartRadio a primeira canção que irá compor essa maravilha sonora. A música se chama ''Trouble'' e tem as características guitarras ‘vem pra cá que eu vou pra lá’, ou ‘vou ali e já volto’, como sintetizou bem o brother Espir quando falou do estilo musical de Keef.

É mais do mesmo. É Keith Richards puro. É o guitarrista dos Rolling Stones mostrando linhas de guitarras que caberiam e muito em qualquer disco da banda. Por esse motivo é sensacional.

A música foi composta por Keith em parceria com seu velho amigo Steve Jordan, que gravou também a bateria. Também colaboraram: Waddy Wachtel na guitarra e Bernard Fowler nos backing vocals, ambos membros da The X-Pensive Winos, banda de apoio de Keith nos outros dois álbuns solo e em turnês. Keith, por sua vez, gravou vocais, guitarra, violão e baixo.

Play no som abaixo!



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Maggot Brain: a ressurreição do Funkadelic

''Maggot Brain'' é minha música preferida. Para este que vos escreve, ninguém nunca conseguiu transmitir tanto sentimento empunhando apenas uma guitarra. A música começa e em menos de 1 minuto você fica completamente alheio ao que está acontecendo a sua volta, todo seu corpo relaxa e nada passa pela sua cabeça. É tão chocante que nada pode ser registrado, é um um transe inigualável, uma letargia alucinógena profunda, uma senhora terapia de imersão.

Durante este tempo tudo vira nada e a guitarra de Eddie Hazel vira tudo. Se estiver conversando, paro, se estiver no ônibus, perco o ponto. Nada, nada, tem seu fluxo contínuo, tudo depende do guitarrista. Assim que ele toca as cordas... NIRVANA... Se existe perfeição ela está aqui, arrepia toda vez. Creio que ninguém nunca conseguiu estabelecer uma ligação tão profunda com uma música antes e quem já ouviu sabe do que estou falando, é a plenitude espiritual alcançada por meio de uma Gibson.


Diz a lenda que George Clinton esperou o ácido bater, trancou Hazel em alguma sala de estúdio e disse para o americano tocar como se sua mãe tivesse acabado de morrer, descobrindo logo depois que era mentira. A ideia era bater e assoprar, criando um motivo para renovação.

Com toda essa trama em mente, o líder P-Funk colocou Eddie no centro da sala e o cercou de caixas, e quando você escuta o ninar de seu feeling não parece que a mãe do guitarrista morreu, e sim a sua. É a libertação om um sentimento de paz após segundos de tormenta.

É devastador, mudou minha vida e é o som mais tocante que um ser humano já criou. É uma das faixas mais abstratas que já ouvi, mas ao mesmo tempo uma das que me fez mais sentido, um paradoxo chamado Eddie Hazel e um sentimento que consegue demonstrar o que é a música, tanto para minha pessoa, quanto para os outros fãs.


Me dedico a esta arte justamente por momentos assim, onde a música não pode ser explicada e o que te guia é o feeling. Teoricamente não existe explicação, mas é aí que busco viver, nessa linha tênue entre o que não entendo e a vertigem brilhante que momentos como esse conseguem me proporcionar.

Essa experiência de não saber o que sentir, como fazê-lo ou em que ordem administrar a dosagem, só conheci com o americano. Escute tudo que ele já fez e terás certeza, poucos sentiam dessa maneira, seja com a acidez do Funk ou com trechos de música, termo amplo usado para caracterizar algo que vai além, e isso aqui vai muito além.


Toda vez que esse som termina, após dez minutos de longos embates filosóficos, sempre acreditei que a banda, e principalmente Eddie, tiravam um tempo do show para descansar. Parece que ele dá tudo que possui no som, dedica todas suas forças e que nota após nota, bend após bend, tenta elevar a si mesmo e acaba criando algo que o exime de todos seus erros.

''Maggot Brain'' foi a missão de vida desse senhor dentro do Parliament-Funkadelic, assim como ''From The Bottom Of My Soul'' define sua persona quando o mundo conheceu seu som e exemplifica a maneira como o músico gostaria de ser lembrado, nos alertando sempre que escutamos sua música que o que vale é o sentimento, seja ele em grupo ou solo.

''Maggot Brain'' é um estado de matéria. Podemos, abraçá-la, sentir seu cheiro e vê-la em tudo que nutrimos apreço. Até a hora do solo parece que sentimos dor, quando este termina sua vida recomeça, seu corpo levanta de um coma. Sua estrutura reaparece mais motivada, encarando a vida de outra forma e se mostrando pronto.

Bem, não sei dizer para o quê especificamente, mas acredito no caráter de cura e mais do que tudo, acredito no criador, vejo uma lacuna imensa em minha vida sem este som, quando posso ouvi-lo é como se o tempo entrasse na era do gelo e me deixasse viver independentemente de qualquer meio. O retorno da guitarra é o meio e Hazel torna-se a mensagem o planeta que habito neste sistema solar de guitarras e texturas de algo que homens não podem explicar.


Line Up:
Fuzzy Haskins (bateria)
George Clinton (vocal)
Billy Bass Nelson (baixo/vocal)
Eddie Hazel (guitarra/vocal)
Eddie ''Bongo'' Brown (bongo)
Tawl Ross (guitarra/vocal)
Bernie Worrel (teclado/vocal)
Tiki Fulwood (bateria)
Garry Shider (guitarra/vocal)
Calvin Simon (vocal)
Grady Thomas (vocal)
Gray Davis (vocal)



Track List:
''Maggot Brain''
''Can You Get To That''
''Hit It And Quit It''
''You And Your Folks, Me And My Folks''
''Super Stupid''
''Back In Our Minds''
''Wars Of Armaggedon''


Depois que der pra continuar com o disco (acredite, vai demorar), os caras surgem com um som que ajuda você a retornar para este plano. Temos o Funk suavizado de ''Can You Get To That'', que nada mais é do que sua última chance de restabelecer contato com a Terra. Caso contrário, a Jam volta com tudo e o senhor se perderá por semanas mais. A panela começa a ferver com os vocais de Bernie Worrell em ''Hit It And Quit It''.

Estabelecemos o termostato lá no teto com ''You And Your Folks, Me And My Folks''. Os vocais seguem aquela linha mais tranquila, mas a cozinha se estabelece de maneira frenética, esse disco é um marco. Temos aqui a chance de ver fusão explosiva de Rock com Funk atingir seu apogeu com a mesma propriedade que um coquetel molotov começa um tumulto, e se o senhor duvida, sinta a quebradeira anunciada de ''Super Stupid'' e os relatos de um nóia que fez o corre errado.


Em 10 segundos a casa já caiu! É um daqueles riffs que quebram o falante e que caminham funkeadamente, como se fosse um rolê de moowalk mesclando a Jam com a descontração de ''Back In Our Minds''. É um disco intenso, basta apenas se deixar levar, mas o perigo está aí: encontrar o seu limite, uma linha quase inexistente entre espiritualidade e insanidade, algo que divide os seres que não acabam enterrados como a senhora Black Power da capa e os que escutam ''Wars Of Armaggedon'' e conseguem trabalhar no dia seguinte.


Parece que cada tema explora nosso lado mais animalesco e a sensação de fixação é impressionante. Depois que o disco acaba o segundo play é automático, a potência do som é quase um tratamento de choque para viciados e o puro néctar do peso e rebolado parece ser a solução para a última dose. São menos de 40 minutos de som, mas alguns ousam dizer que esses serão alguns dos melhores 2200 segundos de sua vida. Veja só a cara da icônica musa enterrada, ela tem areia até a nuca, mas ao som deste clássico o fundo da terra é um paraíso. Em estúdio somos um, ao vivo a conexão é viral. Arde.

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