I'm Just Like You: Sly Stone's Flower: 1969-70

Nos últimos anos o brilhante Sly Stone voltou para a mídia. Foram décadas imersos no crack, na cocaína e qualquer outra droga que se movesse, era só ver que dava barato que o negrão se esbaldava e enterrava um dos maiores poderios técnicos e criativos da história da música, no fundo de um pipe.

Ano passado o americano foi parar em todos os meios impressos em virtude de ter atingido o fundo do poço, algo que, acreditem, não aconteceu apenas uma vez. Sly vendeu discos a rodo nos anos 70, tocou em Woodstock, teve uma sobrevida comercial no iníco dos anos 80 e viveu sua vida canalizando sua próxima criação em sincronia com o próximo pega.


E aí deu no que deu, depois dos anos 70 ele literalmente queimou toda sua fortuna em drogas, começou a se perder em virtude do preço de seu vício, não comparecia mais aos shows da banda, se distanciou dos membros e foi parar numa van no Bronx.

É claro que tudo isso não aconteceu do nada, mas em miúdos foi exatamente essa a ordem dos fatos, até que no ano passado o mito deu sinais de real recuperação. Inclusive se reaproximando da família e voltando a se reerguer após ganhar um processo de 5 milhões de dólares contra seu agente (Gerald Goldstein), no começo deste ano, devido ao pagamento de royalties.


Esse ''retorno'', além de resgatar o trabalho praticamente esquecido de uma banda fabulosa, renderá grandes lançamentos de material que com certeza ficou mofando em estúdio. Edições especiais e takes que nunca viram a luz do dia, afinal de contas o criador de tudo isso está finalmente estável o suficiente para coordenar tudo isso.

Mas se você pensa que isso ainda vai acontecer, fique o senhor sabendo que ano passado o reverendo Sly já resgatou um belo pack de gravações. Foi com ''I'm Just Like You: Sly Stone's Flower: 1969-70'', que o multi instrumentista relembrou a curta vida do selo ''Stone Flower'', ramificação da banda para efeitos de cortes de gastos com LP's distribuídos pela Atlantic, que infelizmente, teve vida curta, com apenas dois anos em atividade.


Track List:
''Little Sister: You're The One (Parts 1 & 2)''
''Sly Stone: Just Like a Baby''
''Joe Hicks: Home Sweet Home (Part 2)''
''6ix: I'm Just Like You''
''Little Sister: Somebody's Watching You (Full Band Version)''
''Joe Hicks: Life & Death In G & A''
''6ix: Trying To Make You Feel Good''
''Little Sister: Stanga''
''6ix: Dynamite''
''Little Sister: You're The One (Early Version)''
''Sly Stone: África''
''Joe Hicks: I'm Going Home (Part 1)''
''Little Sister: Somebody's Watching You''
''6ix: You Can, We Can''
''Sly Stone: Spirit''
''6ix: I'm Just Like You (Full Band Version)''
''Sly Stone: Scared''
''6ix: Dynamite (alternate version)''


Mas ficou para a história com essa bela compilação. Temos aqui 5 compactos e 10 registros que nunca haviam sido lançados. Todos remasterizados diretamente da fonte master Funkeada, com uma qualidade e nitidez surpreendente e participações que apenas apimentam o tempero deste escaldante som.

Temos aqui nomes como Little Sister, Joe Hicks, 6ix e o próprio criador de todo esse universo, Sly sem a família Stone. O maior legado desse disco, além de nos mostrar bastante material inédito, é evidenciar o trabalho livre de uma mente sem limites para a criação.


O Sly dessa compilação está apenas improvisando no estúdio, os outros só acompanham, de resto ele sola em todas as posições, brinca com todos os elementos possíveis, desde timbres até as ácidas talk-box, isso sem contar, é claro, o Wah-Wah que o cidadão comia com farinha.

Temos aqui o elo perdido entre o clássico ''Stand'' (1969) e a revolta política de ''There's A Riot Going On'' (1970). Quando o Little Sister entra na jogada o requinte fica como bônus nos backing vocal de ''You're The One'', ''Somebody's Watching You'' e ''Stanga''.

Quando Sly entra para se consagrar sozinho o som chega com ares de Shuggie Otis. Temos o feeling visionário do criador do mítico universo paralelo de ''Inspiration Information'' (1974) em diversas oportunidades, como no Funk psicodélico de ''África'' e na faixa que encerra as faixas inéditas, ''Scared'' e seu estonteante arranjo.

Eis um disco para se entender o mito. Trabalhando sozinho apenas no instrumental ou com o 6ix e Joe Hicks a tira colo, Sly reinava soberano e foi um cara que poderia ter feito ainda mais pela música. Suas gravações são relíquias, mas todos sabem (incluindo o proprio Stone), que se ele não tivesse ficado no underground dos rehab's por tantos anos, os tempos seriam outros. Aqui temos a luz, risadas, Soul/Funk/R&B e algo que ainda não foi ''especificado'' dentro de gênero algum: o DNA do mestre.

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