Paul Kossoff e o vibrato raio de sol em Back Street Crawler

Se imagine como um grande guitarrista... Membro de uma banda seminal, com clássicos enfileirados e reconhecimento surgindo em puro lapso de prosperidade. Sua banda alcança outro patamar, shows em bares são transferidos para casas de shows respeitadas, tours fora de seu país, atenção de outros músicos (tão grandes) ou até maiores do que você...

Simplesmente tudo que alguém poderia desejar. E quem duvida que incrustado num panorama desses, o músico em questão AINDA assim conseguiu perder tudo, definitivamente não conhece o Free, muito menos Paul Kossoff.

Kossoff hoje em dia é um nome que pouco se escuta na mídia musical, mas isso não é só com ele, temos vários outros grandes guitarristas que ficaram esquecidos por debaixo da penumbra do tempo e Paul talvez tenha sido o maior deles.

Dono de uma rara habilidade e perícia em sua guitarra, Koss ficou famoso por linhas sempre muito sentimentais e por possuir um vibrato que tornou-se sinônimo de seu nome, fez até com que Eric Clapton (em sua fase God), fosse atrás do músico para que este lhe mostrasse os segredos desta técnica, inclusive eles até trocaram instrumentos após o ocorrido.


O Free estorou em 1970 com seu terceiro disco, o icônico ''Fire And Water''. Enquanto a banda se fixava na galeria de grandes nomes, sendo cada vez mais aclamada, todos os músicos envolvidos tinham noção do grau de profissionalismo necessário, e chefiados por Andy Fraser desde o começo do Hard, era só manter o que já havia sendo feito para não ter nenhuma surpresa no caminho.

Só que no meio do caminho eles encontraram uma pedra... Na época ninguém sabia do que era feita, hoje sabe-se que era uma mistura de heroína e mandrax, a base do primeiro disco solo do guitarrista. Uma das grandes obras primas do groove, um LP que musicalmente (e históricamente), devido ao seu panorama problemático, é deveras triste, mas recompensador aos ouvidos. ''Back Street Crawler'', épico lançado em 1973, exala sinceridade, sofrimento e um sentimento de renovação que tira sarro da morte.

Line Up:
Paul Kossoff (guitarra)
Trevor Burton (baixo)
Alan White (bateria)
John ''Rabbit'' Bundrick (teclado/órgão/piano)
Alan Spenner (baixo)
Jean Roussel (teclado)
Jess Roden (vocal)
Tetsu Yamauchi (baixo)
Simon Kirke (bateria)
John Martyn (guitarra)
Paul Rodgers (vocal)
Andy Fraser (vocal)
Conrad Isidore (bateria)
Clive Chaman (baixo)



Track List:
''Tuesday Morning''
''I'm Ready''
''Time Away''
''Molten Gold''
''Back Street Crawler (Don't Need You No More'')


Esse trabalho tem 35 minutos de duração, mas atinge o ouvinte de uma forma fantástica. Para este que vos fala esse é o melhor momento de Koss dentro de um estúdio, mesmo com tantos problemas relacionados ao seu frenético vício e uma fase de ouro no Free. 

O som que sai das guitarras deste monstro sempre foi um mistério particular para meus ouvidos. Sempre notei que tudo que saia de seu corpo era exato e minimalista, só que de uma forma que nunca tinha ouvido antes. Seu approach na Gibson e a profundidade de seu som falam por si só, nunca ouvi nenhum músico que conseguisse mostrar tanto com tão pouco e conseguir um som tão absoluto.

Com linhas curtas e um sentimento absurdo, o britânico sentia 100% a guitarra e 100% seu próprio corpo. Com Paul Kossoff era 200% de feeling. E logo pela capa do disco dava para ter uma noção do estado caquético que todo esse feeling permeou.

A coisa estava num nível que o cara chegou a desmaiar durante um solo, numa das várias vezes em que atrapalhou o Free em suas tours, atingindo o apogeu da insanidade em 1972. Época onde todos os shows do combo dependiam do estado de Koss, que quase sempre lastimável, resultava em episódios destrutivos com direito até a overdoses.

A Heroína era sua vida, mas seu talento era tão grande que ainda assim foi possível concretizar as gravações de um trabalho realmente diferenciado e que desarmou a bomba relógio que era um show do clássico Free. 


Foram diversos momentos instáveis. Seu vício seguia engolindo tudo, tanto que numa das separações do Free (em 1970 depois do lançamento de ''Highway''), quarto disco de estúdio da banda, Kirke estava tão preocupado com o guitarrista que concordou em formar o ''Kossoff, Kirke, Tetsu And Rabbit''. Banda que registrou apenas um disco homônimo, lançado em 1971, com o objetivo principal de manter Paul longe das drogas.

Tarefa que não deu certo e ainda teve mais drama. Em 1972 sai ''Free At Last'' e o cidadão vai para o rehab, depois em 1973 temos o disco derradeiro (''Hearbreaker'') e nem sei como que o cara ainda participou de algumas faixas. E quando Rodgers e Kirke formaram o Bad Company e que Fraser foi atrás de novos projetos, Paul não teve outra opção, restava apenas um disco solo, e este surgiu no mesmo raio de 73.

Foram anos complexos, o desgaste das relações foi doloroso demais para todos os envolvidos e quando parecia que a tormenta tinha passado, Paul chegou a injetar heroína nos pés só para não ser pego pelos companheiros.

E o mais impressionante é que mesmo depois de tudo isso, toda a malha de músicos citados ainda participou deste projeto. Pena é uma palavra muito forte, prefiro creditar essa última chance ao evidente brilho e berrante talento do guitarrista, que aqui é absolutamente comprovado e registrado para ser eterno.


Dono do riff cheio de glicose que dá corpo ao clássico ''All Right Now'', esse disco é a prova viva de como Paul queria tudo ao mesmo tempo. Sua lápide inclusive carrega o nome do megahit que se tornou símbolo de seus demônios, feras que aqui sumiram, a luz era forte demais.

Temos 6 faixas e cada uma delas é tocada e endossada por Koss como se o disco tivesse um take. Ele abre a porta do estúdio, toma um whisky com mandrax debaixo da língua, grita pra alguém apertar play nos rolos e os 12 nomes envolvidos no instrumental, apenas acompanham (sem menosprezar), todos os espectros de luz que Paul irradia de si, como se fosse um refletor de Gibson's experimentando cores para um eclipse de bends ou como ficou conhecido, os 17 primeiros minutos de ''Tuesday Morning'', pindorama infinito que abre o disco.

Jess Roden é o responsável por colocar verbos incandescentes neste take e sua voz é a cola responsável por reunir estilhaços de cacos de vidro na melodias de ''I'm Ready''. Quando você fecha os olhos ouvindo esse disco, você sola. Temos a vida em sua condição física mais livre, pairando como pequenos feixes psicodélicos através de nossa alma, como uma peneira que nos leva a luz para a epifania de tempos que não conseguimos especificar, mas que sabemos que vivemos ou viveremos.


É visceral, conectivo. Flexiona mentes, corpos e satétiles. O groove se perde entre as esferas da galáxia. Contemplando o tempo com ''Time Away'', ressucitando Paul Rodgers em ''Molten Gold'' e relembrando talvez o último grande momento desta união. São performances absurdamente sentimentais, expressões claras de um coletivo de músicos glorioso, unificado por todos esses excessos que caracterizam Kossoff.

Sua guitarra espanta, tanto com voz na jogada, quanto sem. O estardalhaço era o timbre, estilo Midas de poucos toques e alguns ''Back Street Crawler's''. O catranco cerebral é grande, mas Paul foi maior do que apenas sensações, algo que ele infelizmente não conseguiu suportar.

4 comentários:

  1. Esse disco é até covardia, Kossoff era daquelas músicos aos quais não se vê mais, ele transmitia pra sua música sua personalidade por vezes depressiva, tocava na hora certa, um monstro que é ignorado pela grande maioria dos ditos "roqueiros" dos dias de hoje, aqueles que acham que roqueiro é quem tem percing no beiço e um monte de tatuagens, mesmo sendo no fundo um mauricinho criado pela avó à base de leite de pera, infelizmente nos dias atuais o rock está em estado de coma, respirando por aparelhos, como "velhinho" que sou, constato isso ao conversar com a molecada de hoje que se liga ao rock "muderno", um universo bunda mole cheio de posers e de gente sem personalidade!!! ouvir rock atual hj em dia é dose, ainda bem que temos acesso através da internet à maravilhas como essas!!!
    parabéns pelo texto, matou a pau, o mesmo digo do texto sobre o Santana III

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  2. É complicado isso cara, acha que gente assim sempre existiu, a questão é que hoje a internet e outros meios exaltam isso, o que falta mesmo é o reconhecimento. Pra caras como o Koss e pra uma cena promissora pra caralho que é a Stoner. Acho que em termos de qualidade e quantidade é foda comparar gerações, esses caras q nós cultuamos viveram em outra época, hoje ainda tem coisa boa, mas o lance é que sons assim são apreciados por poucos, por gente que vai atrás de coisa nova e se importa, antigamente não era assim.

    E pô, fico feliz que tenha curtido, estamos chegando em algum lugar!

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  3. Existe sim, talvez até em quantidade, mas não em qualidade, pra mim nenhuma banda atual se tornará um clássico no futuro...vou simplificar meu pensamento pra vc, à quarenta anos atrás, no ano de 1975 albuns clássicos foram lançados: Physical Graffiti do Led Zeppelin, Blod of the Tracks do Bob Dylan, A Night at the Opera do Queen, Fly By Night do Rush, Sabotage do Black Sabbath, Wish You Were Here do Pink Floyd, Blow By Blow do Jeff Beck, Come Taste The Band do Deep Purple, Young Americans do David Bowie, Zuma do Neil Young, Fish Out Of Water do Chris Squire, Venus And Mars do Paul McCartney, Born To Run do Bruce Sringsteen...
    eu não citaria 5 que serão clássicos depois dos mesmos 40 anos dos citados!!!

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  4. Aí fica complicado, ainda temos tempo no front cara, acho que tem coisas pra aparecer, se firmar, mostrar qualidade de forma definitiva... Não me surpreenderia se daqui 40 anos eu falasse sobre o Earthless para o meu neto, estamos vivendo pra montar novas listas de clássicos!

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