Wes Montgomery e o tempo de Guitar On The Go

Brincando com a ideia de tempo e espaço, é interessante perceber como a música ocupa nossa vida. A partir do momento que algum som te fisga, ele será o passaporte perfeito para lembrar de certos momentos. O mais complexo nem é este fato em si, mas sim saber que a sensação de ouvir determinado disco será sempre a mesma.

O que sempre muda é o coma pensante que as notas nos inspiram a mergulhar, afinal de contas o tempo passa, assim como o disco. A única diferença é que o segundo pode ser pausado, começar da parte que seus ouvidos bem entenderem e ser repetido dezenas de milhares de vezes, a vida não.

É tudo como um belo e clássico disco de Jazz. As lembranças são decodificadas em melodias e o tempo é o escambo entre a fluência do instrumental e as mudanças de sua vida, fica tudo dependendo da guitarra de Wes Montgomery. ''Guitar On The Go'' é uma trilha que nos últimos anos me acompanhou de forma gloriosa e continuará enquanto os verões foram se esvaindo das ampulhetas atemporais... Clássico lançado em 1963.

Line Up:
Wes Montgomery (guitarra)
George Brown (bateria)
Jimmy Cobb (bateria)
Paul Parker (bateria)
Melvin Rhyne (órgão)



Track List:
''The Way You Look Tonight''
''The Way You Look Tonight'' - Versão mais longa
''Dreamsville''
''Geno''
''Missile Blues''
''For All We Know''
''Fried Pies''
''Unidentified Solo Guitar''


A capa desse disco é uma das mais lindas da história da música em minha opinião. Ela simplifica tudo que a figura do americano foi: ilustra um guitarrista absurdamente técnico, tranquilo tal qual suas linhas no instrumento e tão surpreendente como a fumaça de seu cigarro pendendo na foto.

Em matéria de guitarra creio que Wes é um dos nomes menos citados dentro da mídia, o que mesmo se tratando de um pecado mortal, não é muito parâmetro, afinal de contas muita coisa boa fica de fora do meio impresso e honestamente, leio tanta merda nesses benditos que prefiro ver o nome desse cara só na boca de quem aprecia Jazz & guitarra, do que passar meus olhos nas folhas de conteúdo errático de pseudo conhecedores de sua obra.


Se você conhece algum guitarrista com um aquele tradicional timbre limpo, mais fino e requintado que vodka triplamente filtrada, pode ter certeza que o cidadão ouviu várias horas de Montgomery no simulador de voo. Pat Metheny, George Benson.... Dois dos maiores guitarristas do chamado ''Jazz contemporâneo'', são exemplos de fãs assumidos do negrão e ''Guitar On The Go'', mesmo sendo um dos trabalhos finais do maestro, é um de seus melhores LP's. 

Não tenho nem coragem de citar faixas isoladas. Retratar uma bateria em pura sinergia instrumental atrás do baixo, da guitarra e do órgão. Nem de falar apenas do marfim que faz a base Gospel ou de isolar o groove mais límpido que nosso hino. Posso apenas expressar minha incredulidade por adorar um disco, que (pasmem senhoras e senhores), não possui baixo na jam.

Esse é Wes Montgomery, um cidadão que lhe faz apreciar o tempo, sentir as mudanças da vida, ignorar nomes e ainda apreciar um Jazz sem contra baixeza, só pela zuera, só pelo Jazz e para deixar sua missão de destreza mais complicada, por que tocar guitarra para esse cara era fácil demais. Poético, profético, clássico.

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