La Nave Festival - Edição Sublime

A ideia de apreciar música em sua essência é uma utopia. Cada um de nós possui certos estilos como prediletos e no fim das contas a nossa Jukebox acaba se limitando, algo que dentro da mente de um cidadão que busca o entendimento do meio sonoro como um todo, é deveras perigoso.

Existe toda uma cena sendo alimentada. São vários polos sonoros unidos apenas pelo mesmo período histórico, por que de resto nada se repete quando o som começa a ser reverberado e isso é incomensurável. A riqueza também é um forte elemento dentro da consagração de novos atos.

Algo mais Funkeado, Blueseiro, com raiz no Country, ideias Progressivas, improvisos Jazzísticos e insights de Prog... Pode riscar tudo da sua lista, a cena atual carrega todos os tipos de DNA e o grande desafio no momento é justamente encontrar algo que não está rolando. Segundo pesquisas a música segue sendo explorada em sua totalidade e a fonte foi o INMETRO do underground, a sexta tiragem do La Nave Festival: a edição Sublime.

Flyer: Vanessa Deborah

No dia 21 de agosto aconteceu mais uma reunião do Pentágono underground. A sede foi a Rua Augusta mais uma vez e o itinerário contou com mais uma mão de grandes atos, estréias e muito som, pavoneando-se em suas mais diversas vertentes. É desnecessário dizer que teve Blues, Psicodelia, Rock 'N' Roll e ideias trovadorescas (e tudo isso misturado também), mas vamos por partes pequeno gafanhoto.

Para a iniciação de todas as atividades noturnas o mestre de cerimônias responsável foi Pedro Pastoriz. Mais uma vez sua música fez o clima do início da madrugada e a luz própria de suas interpretações foi impressionante. É digno de nota ver como as composições de seu primeiro disco solo ganham novos detalhes ao vivo e o fazem da maneira mais natural possível.

Tocar na rua foi talvez a melhor coisa que esse cidadão já fez na vida. Não existe situação com a qual ele não saiba lidar e parece que quando sua viola enxerga a luz turva do palco, o lance é exatamente ser surpreendido por acontecimentos externos, assim, ele precisa improvisar e quando a oportunidade surge, ele já vai linkando uma track na outra como se fosse um ensaio para mais um disco no Direct Cut.

O show foi coeso, vibrante, forte e libertador. É um barato ver um cara que vai contra a maré das mega produções justamente quando tudo carrega excessos desnecessários de um preciosismo que as vezes nem existe! Ver um show do Pedro hoje em dia é algo que recomendaria para muitos músicos, acredito que ele compreende e sente a essência da música e poucos fazem isso com tanta naturalidade.

Depois o tempero da noite foi ficando mais forte. A baianidade cósmica elevou o patamar de potência na Jukebox de Murilo Sá e o estrago foi tanto que ele até chamou o Grande Elenco. A cozinha estava completíssima, o Guilherme Arantes da Invasão Britânica chamou até o reverendo Guedes para a guitarra Slide e o complemento da viagem ''Sentido Centro'' eletrificou todo o Hole Club, não só com o etílico Blues do já citado guitarrista, mas junto da endiabrada performance de Murilo, os graves de Rob ''Slapman'' Ashtoffen e a batera sempre exata de Pedro Falcão.

Fotos: Karina Menezes

O set foi veloz, enérgico e além de evidenciar um combo no topo de seu jogo e entrosamento, nos brindou também com belas jams. Improvisos que mostram a força do repertório do debutante e deixam claro que de onde saiu todo aquele pack de inéditas, deve ter muito mais.

Aqui ninguém esconde o groove e o som encontra-se num nível absolutamente ácido... Parece que a próxima cartada de estúdio está próxima e é notável ver que esses caras não só escrevem muito bem, mas tocam demais! Se você curte uma jam e não viu nenhum do Murilo Sá & Grande Elenco... Rapaz, por onde você anda?!

Fotos: Karina Menezes

Depois de mais um ato o dia e a noite seguiu se confundindo entre um shot de madrugada e outro. Depois do Grande Elenco chegou a hora da estréia e o som agora ficou à cargo dos caras da Nuvem. Trio que tenta desconstruir a música Pop reciclável das prateleiras e harmonizar vocais, entrar com um grave que explora novos andamentos e fazer o que um músico de fato precisa: explorar.

Foi o primeiro show dos caras e foi interessante ver o andamento dos temas, a cadência das faixas e a ideia por trás de todos os arranjos. O diamante está sendo lapidado com o tempo, mas foi interessante ver o conceito, perceber como a banda enxerga a música e como a criação dos caras impactou e surpreendeu a platéia, contando até com temas cantados em coreano e francês.

Fotos: Karina Menezes

Mas falando em impacto de apresentação, conceitos ideológicos-musicais bem definidos e um show que consegue explorar isso de maneira contundente... Rapaz, creio que ainda não vi nenhuma banda instrumental com a mesma força que o Bombay Groovy possui ao vivo.

A música divide os homens dos meninos quando você vai para o palco live com ainda mais força do que em estúdio e, nesse quesito em particular, o trio parece que tem décadas de estrada. Essa nova formação abriu um espaço interessantíssimo para o desenvolvimento da cozinha oriente/ocidente e o peso é impressionante, a forma como os instrumentos trabalham juntos também é formidável.

O órgão está sempre na jogada. O Hammond uiva como um Zomby Woof Zappeano, o sitar faz a mediação das forças e a bateria entra com a missão de acompanhar tudo isso com uma mobilidade impecável. Fazia tempo que não ouvia uma versão tão eloquente de Mahavishnu Orchestra, o cover da banda para ''Eternity's Breath'' foi um sopro de ar fresco.

Fotos: Karina Menezes

As composições apareciam linkadas umas nas outras, as mudanças de tempos pintavam nas partituras à todo o momento e o reverendo Leonardo Nascimento tocou com uma vitalidade notável. Seu kit balançava à distância e em determinado momento o estragoi foi tanto que Lucas Roxo foi convocado apenas para amaciar os pratos.

Agora ninguém possui um cargo fixo, a improvisação é a base de tudo e ao vivo os caras apenas tentam chegar mais longe e, com isso, quem ganha, sem dúvida alguma, é o ouvinte. A escola Pappon virtuose das teclas era destilada com um feeling sublime (teve até Deep Purple), o sitar sempre aparecia com a classe de um lord ingês para o chá das quatro e quando pensávamos que tudo iria pelos ares, o reverendo Bourganos segurou a pressão no Theremin para nos mostrar com quantos Hoffmanns se faz uma psicodelia.

Fotos: Karina Menezes

Mas não foi só isso, afinal de contas Wallacy Williams foi para o palco acompanhado de sua quadrilha. Foi com Jack Rubens na guitarra, Mariô Onofre na batera e Tomas Oliveira no groove elétrico que o cidadão promoveu  o lançamento de seu disco.

Esse show para os fortes, o diabo cearense mostrou a força do Blues, levou uma overdose de distorções até a primeira fila e deixou claro (com requintes de multi instrumentista), que seu disco homônimo veio para causar na cena.



O quesito de ordem, bons costumes e respeito aos padrões de áudio saudáveis foram completamente ignorados neste set. As composições eram entoadas com fervor e explosão, as letras surgiam com a força de verdades absolutas e no final o objetivo da noite estava completo: o caos estava plenamente instaurado.

Teve tanta música que o flyer da Vanessa Deborah ficou até pequeno para tantas jam. Depois que a dupla do Mescalines subiu ao palco para acompanhar o reverendo Wallacy, a vontade de tocar foi tanta que logo depois que o show de satã se encerrou, a psicanálise que entrosa a dupla entrou em funcionamento para mais uma dose de ecos e watts em riff''s.


Tivemos belos shows, um atrás do outro e muita música rolando em suas mais diversas esferas estéticas... Pra quem perdeu tudo isso, bom, só posso lamentar. Fique atento irmão, fique atento! (já dizia o Criolo), não espere por avisos no face ou por ligações com hora marcada, a cena acontece em todos os lugares e o faz à todo momento.

Ela se desenvolve enquanto batuco essas teclas, enquanto a cacofonia do teclado é criada e novos sons são emitidos. Isso é uma força da natureza, uma das 7 maravilhas do mundo, afinal de contas é incontrolável. Sente-se na janelinha e aproveite a trilha sonora enquanto o mundo explode tal qual o bumbo do mestre Mariô. Vale refletir sobre mais uma aurora.

0 comentários:

The Rolling Stones - Sticky Fingers Live

Quando a Zip Code tour dos Stones começou, muitos se perguntaram se a remasterização do clássico ''Sticky Fingers'', seria uma boa justificativa para a banda mandar o clássico lançado em 1971 na íntegra.


Depois que o burburinho começou, Keith Richards se manifestou e disse que seria bacana reviver o disco em sua totalidade, já seu desafeto, o vocalista Mick ''Sir'' Jagger, ficou mais temeroso com a reação do público, pois como o disco possui muitas baladas, talvez o show pudesse ficar parado demais e essa é a última coisa que um show dos Stones poderia ser: morno.


Depois que os shows marcados começaram a formar a grade da turnê, foi interessante ver como os velhacos sentiram vontade de sacudir o setlist dos show's. ''Hang On Sloopy'' (cover dos The McCoys), por exemplo, faixa que a banda não tocava fazia mais de 50 anos, voltou a figurar nos show's e celebrar o fato de que é o tema oficial da cidade de Ohio desde 1985.


A energia parece estar bastante positiva. Keith anunciou um novo trabalho solo depois de 23 anos, liberou um single e, aparentemente, toda essa onda de otimismo deu ainda mais confiança para a maior banda de Rock do mundo, afinal de contas só isso justifica o lançamento de ''Sticky Fingers Live'', belo registro gravado na primeira noite da Zip Code Tour e lançado no dia 29 de junho de 2015.

Line Up:
Charlie Watts (bateria)
Ronnie Wood (guitarra)
Keith Richards (guitarra)
Mick Jagger (vocal)
Darryl Jones (baixo)
Lisa Fischer (vocal)
Bernard Fowler (vocal)
Chuck Leavell (teclado)



Track List:
''Sway''
''Dead Flowers''
''Wild Horses''
''Sister Morphine''
''You Gotta Move''
''Bitch''
''Can’t You Hear Me Knocking''
''I Got The Blues''
''Moonlight Mile''
''Brown Sugar''


Gravado no Fonda Theatre em Los Angeles e produzido pelo renomado Bob Clearmountain, ''Sticky Fingers Live'' é um ao vivo competente, não vai mudar sua vida, mas vale o play justamente por esse novo respiro de ar fresco que o catálogo da banda fez render com muita propriedade. 

Surpreendendo a malha de fãs com o lançamento, esse trabalho também afasta a banda dos estádios e eterniza um show intimista, sendo que nesta gravação, apenas 1200 pessoas estavam lotando as dependêcias para um show que vai contra todas as superproduções que a indústria (e os Stones) tanto pregam.


Como manda o figurino, ''Sticky Fingers'' veio na íntegra. São 10 temas e 50 minutos de uma bela apresentação e respectivo instrumental. Houve bastante atenção aos arranjos e a execução é bastante limpa, cativante e em nenhum momento fica morna, tal qual Jagger pensou que poderia acontecer. É claro que um show em estádio muda tudo, mas acredito que esse registro foi uma prova da força que esse disco ainda possui.

A única falha é não contar com Mick Taylor, exímio guitarrista que além de figurar neste clássico, ainda endossou a jam em outros grandes momentos da história do Stones, como ''Exile On Main St.'' e ''Goats Head Soup'', por exemplo.


É indiscutível que Mick Taylor foi o melhor guitarrista que já passou pelos Stones. É fato também que sua participação nos melhores trabalhos da banda não é reconhecida da forma que deveria, só que não chamar o dono das principais linhas do disco para tocar foi uma mancada que, se não tivesse acontecido, rechearia este trabalho com solos e passagens que apenas o comparsa do John Mayall poderia criar.

O riff de ''Away'' poderia soar mais chavoso, ''Can't You Hear Me Knocking'' ganharia em requinte e ''Moonlight Mile'' em sentimento. Mas não podemos ficar chorando pelo leite que Taylor nem derramou! É válido ressaltar a exatidão das performances nas clássicas baladas ''Wild Horses'' e ''Sister Morphine'', bem como o trabalho coeso no groove de Darryl Jones, as vozes de Lisa Fischer, Bernard Fowler e o marfim tenaz de Chuck Leavell.

Todo o pack de oito membros da banda foi cirúrgico e o resultado disso é um trabalho que quebra um grande tabu, pois essa foi a primeira exibição deste disco assim, na íntegra... Os caras estão na casa dos 70 e nem por isso perderam a picardia. Vale o play, Ronnie Wood segue roubando a cena, enquanto Keef sintoniza os riffs que serviram de trilha para várias gerações.

0 comentários:

Motorhead - Bad Magic

Depois de iniciar o ano de 2015 com uma comanda lotada de desistências de show (acumulados desde 2014), o Motorhead segue ''completando'' o ano aos trancos e barrancos, faltando numa apresentação de Monsters Of Rock Brasil aqui e dando um migué no Wacken acolá. 

A situação da banda é lamentável, comprar um ingresso pra ver os caras é tão seguro quanto apostar na mega sena e o reverendo Lemmy está só o pó da rabiola, basta saber agora se a sua nova dieta à base de Vodka e suco de laranja vai ajudar a reparar as décadas de Jack & Coke.


Só que o mais impressionante é que, mesmo nessa onda de acontecimentos, o trio conseguiu lançar mais um disco de estúdio! Sim, o vigésimo segundo trampo de inéditas da banda, ''Bad Magic'', o sexto sob a tutela do americano Cameron Webb, surpreende por conseguir chegar em tempo para as comemorações de 40 anos de história desta praga de Speed.

Line Up:
Lemmy Kilmister (baixo/vocal)
Phil Campbell (guitarra)
Mikkey Dee (bateria)
Brian May (guitarra)



Track List:
''Victory Or Die''
''Thunder & Lightning''
''Fire Storm Hotel''
''Shoot Out All Of Your Lights''
''The Devil''
''Electricity''
''Evil Eye''
''Teach Them How To Bleed''
''Till The End''
''Tell Me Who To Kill''
''Choking On Your Screams''
''When The Sky Comes Looking For You''
''Sympathy For The Devil'' - The Rolling Stones


Desde de 2004 (com ''Inferno''), passando por ''Kiss Of Death'' (2006), ''Motorizer'' (2008), ''The World Is Yours'' (2010), ''Aftershock'' (2013) e agora ''Bad Magic'' (lançado dia 26 de agosto de 2015), que o Motorhead voltou a ter alguma relevância. Um fator que, sem a produção de Cameron Webb, talvez nunca tivesse voltado a acontecer.

Desconsiderando a saúde caquética e praticamente digna de um trailer de The Walking Dead do Motorhead personificado, Ian Fraser Kilmister, o maior responsável pela boa fase tardia da banda é o produtor da terra do tio Sam (Webb). Cidadão que, após cinco ótimas ressurreições, mostra sua estrela e auxilia a banda a concluir mais um bom disco, talvez na época mais improvável de todos os tumultuados 40 anos que formam a saga Motorhead.


O disco é bastante competente, só que sejamos francos, saiu num momento bastante conturbado. E digo isso não só pelos shows incertos, mas sim por que este é o segundo CD que a banda lança e (pelo andar da carruagem), não poderá ser exposto às grandes massas. Sinto muita pena de Mikkey e Phil, pois o repertório é muito bom e devido a saúde de Lemmy eles só viajam e tocam (isso quando o show se cofirma), por míseros 30-45 minutos.

Acredito que esse trabalho possa confirmar a tendência para a banda nos próximos anos. Shows nos Estados Unidos, algumas datas em grandes festivais e poucos gig's agendados em países consideravelmente distantes (lê-se Brasil).

Lemmy tem se provado ser um cidadão bastante teimoso, mas contra fatos não ha argumentos, parece bastante óbvio que agora ele vai passar mais horas no estúdio do que na estrada. Algo que se for neste nível, será ótimo, mas que devido a essência da banda, faz os fãs pegarem o play com um ar de excitação bem menos elevado, afinal de contas nós sabemos que a cada dia que passa, a chance do britânico passar por aqui novamente (e fazer o show de fato), é cada vez menor.


Só que em estúdio a coisa rende. O disco já começa com a mescla perfeita de Blues com Speed ao som de ''Victory Or Die'' e acelera a cozinha com ''Thunder & Lightning'', um dos singles deste disco e um dos temas que possui um dos pontos altos da dupla Dee-Campbell. Se compararmos esse registro com seu antecessor, é bastante notável que a banda não alterou muita coisa, a base é ainda mais Rock 'N' Roll e as escalas de Blues seguem como a base de tudo.

''Fire Storm Hotel'' é um belo exemplo disso e vale ressaltar toda a pulsação da bateria e vibração dos solos, afinal de contas o Motorhead não poderia amansar só pelo fato de ter menos substâncias na veia, por isso a importância dos bumbos explosivos em ''Shoot Out All Of Your Lights. ''Bad Magic'' surpreende também pela classe em alguns momentos, rola até participação do Brian May para finalizar o solo de ''The Devil'' e mostrar aos céticos que sua Red Special com palheta de sixpense não tem frescura nenhuma.


Os sons entram atirando das trincheiras, esfarelando e dichavando Rickebacker's com uma eletricidade impressionante. Existe vitalidade, aliás esse caráter é bastante perceptível e o conjunto da obra é bem azeitado e elaborado, escute ''Evil Eye'' e perceba isso.

Sõ não espere por algo minimalista. Esse disco, assim como todos os outros que a banda já gravou, é uma amostra simples, direta e competente de peso e barulho. Um Rock 'N' Roll honesto para o fim dos tempos, que ao som de ''Teach Them How To Blood'', ''Choking On Your Screams'' e o surpreendente cover dos Stones para ''Sympathy For The Devil'', calcula ótimas métricas para o fim dos tempos em cerca de 45 minutos de play. Mikkey Dee & Phil Campbell, que dupla, ''Till The End'' é um veneno!

0 comentários:

Chaiss na Mala - Afrodisia

A música vive nas ruas. Ela não tem residência física e não tira férias, habita todos os cantos em todos os momentos e não interessa o que estiver rolando, você vai sentir o groove.

Seja de terninho depois da reunião do trampo, de chinelo havaiana voltando de um rolê na avenida paulista ou correndo até o ponto de ônibus por que o busão saiu e você vacilou, não importa! A malandragem das ruas sempre estará presente. 

Foto: Leonardo Cinefoto Colapso

A trilha sonora do cotidiano vai abrir alas para o play em todas as oportunidades que surgirem e o nirvana das esquinas atende pelo nome de Chaiss na Mala, o Jazz que ilumina os caminhos nas mais boêmias estações de metro de São Paulo.

Afrodisia: cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, o quinteto não se responsabiliza pelos corpos que swingarem à frente da faixa de segurança desde o dia 09 de agosto.

Line Up:
Eder Hendrix (guitarra)
Fábio Albuquerque (bateria)
Reinaldo Soares (trompete)
Rob Ashtoffen (baixo)
Felipe Bertoni (bateria)
Vinicius Chagas (saxofone)


Arte: Luciano Thomé

Track List:
''Free Beise''
''Afrodite''
''Double Face''
''Oro''
''Xá''


Radicada nos becos de sampa, na sombra e água fresca do Funk, com a sagacidade de quem improvisa através do Jazz sem se limitar e pisar até na cozinha Fusion, o Chaiss na Mala lançou um dos melhores trabalhos nacionais de 2015. O combo chega destilando uma classe grandiosa com um debutante que, além de nos apresentar grandes músicos, é formado por caras que valorizam o encontro.

Fotos: Rui Alves
Um coletivo de pessoas que ficaram de sol à sol pelas ruas atrás de um ''mojo working'' que definitivamente está impresso nesse disco. São apenas 5 faixas, só que cuidado com este ''apenas'', pois o resultado final compila cerca de 30 minutos instrumentalmente jazzísticos. Um conjunto de ideias envolventes e o mais importante: originais.

É um daqueles discos que abre a mente do grande público e mostra que existe sim muita coisa rolando, basta apenas olhar ao redor ao invés de ficar atolado no celular enquanto seu corpo anda pelas ruas. Afinal de contas o Chaiss pode estar mandando um ''Free Beise'' e eu garanto, nenhuma mensagem vale o risco de ignorar as linhas ácidos do quinteto.


Produzido pelo próprio combo e o Selo 180, ''Afrodisia'' surge com uma masterização soberba. O reverendo José Vitor Torelli captou a essência da banda e conseguiu mensurar todas as linhas cristalianas que os caras emanam, só que com uma fidelidade impressionante, aqui, assim como num show ao vivo, escuta-se tudo e muito bem.

A clareza sonora é a palavra de ordem para apreciação do DNA de música negra que ao som desses caras, possui sangue azul. A dobradinha ''Brecker Brothers'' entre o trompete do Reinaldo Suares e o sax de Vinicius Chagas é fervilhante. Rob parece ter todas as repostas no slap e a bateria de  Bernote é a síncope motriz de toda essa viagem, isso sem desconsiderar a guitarra de Eder Hendrix e toda experiência de seu Black Power e riff's.


Aqui não existem limites, a experimentação flui com grande naturalidade e a força do som é latente desde a combustão jazzística da faixa de abetura. ''Free Beise'' (jam que conta com Fábio de Albuquerque na bateria), é o tema que inicia a fritação e estabelece o fluxo criativo de maneira contínua. Brincando com climas em ''Afrodite'' como se fosse a coisa mais fácil do mundo e demonstrando um feeling diferenciado para atiçar os quadris da população com o Acid-Jazz de ''Double Face''.

É bárbaro sacar o caráter genuíno deste som. Os improvisos podem ter sido ouvidos em várias ruas de São Paulo e esse disco é como se fosse um greatest hits de todos esses momentos, passagens que formaram não só o caráter sonoro deste união, mas sim sua história.

Apostando na força do momento e seu caráter orgânico como revolução filosófica, sem esquecer dos quase dez minutos de maturação sonora na maior composição do disco (''Oro''), e seu belo (e ao mesmo tempo) triste fim com o encerramento cascudo de ''Xá'', nota-se que estamos ouvindo uma jam fora da curva.

Fique ligado nesses caras, o primeiro disco saiu faz pouco tempo, sei disso, mas o segundo já pode estar sendo tocado na rua e você está aí, vacilando. Free your and the Jazz-Funk will follow. O disco é tão louco quanto a arte do Luciano Thomé, prepare o capacete, pois as camadas de sax e trompete não esperam para sobrevoar sua cabeça. Depois do play não existe possibilidade de retorno, um brinde ao Free Jazz.

0 comentários:

Johnnny Winter & Dr. John - In Session 1983

Acredito que a música seja feita de nomes que apreciem o ato de tocar, apenas tocar. Chegar no estúdio, encontrar um músico diferente e ver o que pode sair daquela reunião inesperada, se desafiar e desafiar ao mesmo tempo... É uma ciência que no fim das contas diferencia um cara único de apenas ''mais um'', alcunha que definitivamente não serve para definir toda a importância que o reverendo Johnny Winter e seu comparsa Junkie Dr. John, possuem para com os rumos da arte musicada.


O primeiro gostava de ir pra galera. Seu Blues era a trilha de sua vida, quanto mais pesado e cascudo ficava, mais vícios Johnny arrematava. Um hobby perigoso, ele sabia, mas que no final das contas foi o que exorcisou seus demômios na guitarra slide quando a heroína virou farelo em flocos de Blues Texano.


O segundo também apreciava os aditivos e fez valer sua estadia na psicodélica São Francisco no fim dos anos 60, mas depois que o período de experimentação passou, a zica de Voodoo Child foi embora e o destino levou sua cozinha para o lugar de onde ela nunca deveria ter saído: New Orleans, sua terra natal.

Em comum entre os dois temos o Blues, só que a abordagem é completamente diferente. Característica que deu o tom para a jam que foi gravada no CHCH-TV Studios, na cidade de Hamilton (Ontário, Canadá), solo sagrado que também sediou a clássica ''In Session'' com Stevie Ray Vaughan e Albert King, improviso entre gigantes que assim como este dueto, também foi gravado em 1983.

Line Up:
Dr. John (piano/vocal)
Johhny Winter (guitarra/vocal)
Jon Parish (baixo/gaita)
Brian Russel (guitarra)
Terry Clark (bateria)



Track List:
''Right Place Wrong Time''
''Johnny Be Good''
''Junior Parker's Song''
''Talk To Your Daughter''
''You Lie Too Much''
''She Doesn't Mean Mistreated''
''Tipitina''
''Such A Night''


O único problema com esse incrível encontro, é que diferentemente da união entre Albert & SRV, todo esse maravilhoso PIB (produto interno Blueseiro), jamé viu a luz do dia. Ainda bem que existe a internet para pelo menos poder reparar esse erro de acesso e nos brindar com quase 50 minutos de conversas entre faixas, clássicos do reverendo John, covers que se tornaram standards na Firebird de Winter e muita história, ali, com dois gênios sentados, apenas reavaliando suas influências.

Apenas não estranhe caso veja Johnny se levantar em alguns momentos. O entrosamento entre os dois atingiu um nível especial na noite do dia 23 de novembro de 1983 e não dava pra ficar sentado solando. Entre um cigarro e outro tudo bem, mas pra mandar Chuck Berry tem que fazer a ''Duck Walk'' enquanto o piano mais classudo de New Orleans segue provendo notas como um milagre do Blues. É grandioso e de fato uma pena, ver algo deste porte, mofando em fitas de estúdio.

0 comentários:

Psicografando Lester Bangs

Lester Bangs foi uma mente contraditória. Um registro do espaço/tempo que queria ser tudo com o mesmo desespero de um Junkie que não quer nada, apenas sua dose. Com seu notório conteúdo linguístico, sempre era hora de delírios filosóficos, insights de ficção científica ao som do Funk do Trapeze, experimentações tarja preta com os clássicos de Burroughs e detalhes étnicos-econômicos.

Escrever nunca foi um ato insólito para este cidadão que viveu nas sombras do mundo depois de uma mal calculada overdose de quitutes farmacêuticos. As conexões gramaticais eram feitas em hiperlink quando o computador nem sonhava em existir.

O texto deste ácido senhor era um campo minado. Cada linha era valorizada e o americano marcou, justamente por gerar todos seus caracteres com a mesma importância. Não existiam cortes, trechos desnecessários ou sem significado, sua literatura era fina também por isso, a malha de fatos era codependente.


Sua opinião era um como um forte armado, surgia impondo respeito e desqualificando músicos que no fim do dia eram apenas pessoas comuns. Sua intolerância era o que igualava o ser social e o músico, que na sua frente, não era um deus grego e sim um mero imbecil por muitas das vezes.

Acredito que em termos práticos o texano foi kamikase demais, só que essa coragem rebelde foi necessária. O posto de crítico sempre teve essa imagem sem credibilidade, algo que numa geração repleta de mimimi e completamente construída dentro de ideias politicamente corretas (mesmo com pessoas completamente racistas e individualistas), recicla mentes sem senso crítico como se fosse normal, algo que Lester jamais nutriu.

As drogas foram um combustível para revelar a verdade. A paixão de se sentar e espancar a máquina era um ato sagrado. Chapado ou não suas conclusões eram sóbrias e isso incomodava os conservadores que viviam de brisas terrenas. O freelancer nunca teve medo de criar algo seu, fugir da chuva no molhado e ser reconhecido por isso, algo que infelizmente não aconteceu da maneira que merecia.


O Messias das críticas escreveu nos principais polos sonoros e viu os nomes mais importantes de vários movimentos relevantes dentro do ramo musical. Só que apesar de tanto know how, no fim do texto a bibliografia chegava com um soco na boca do status quo.

Se o mundo tivesse mais Lester Bangs, acredito que todo o ramo de escritos seria mais pulsante. Quando passamos os olhos por um texto desse cara nós sabemos que ele estava vivo e, por mais estúpido que isso possa parecer, é justamente esse fator que diferencia um ser com sangue quente de um corpo que escreve como se a mente já estivesse fazendo hora extra neste plano cósmico.

É triste ver ideias sem feeling, teses sem essência e improvisos poéticos sem a tenacidade de um cara que escrevia como se o conjunto de caracteres fosse um solo de guitarra. Sua lirica era como o juizo final, simplesmente sabia diferenciar uma remessa diluída de um som que era verdadeiro.

Algo que mudasse nossa percepção, alterando primeiro a sua para aí sim procurar meios de chegar até a do próprio Talking Bluesman. Não gostou? Foda-se! A ideia é não ter medo de sentir, é tudo tão explicável como um solo do Ginger Barker.


Os Beats corromperam o meio de Rosseau, Lester foi mais um que queria ir além das linhas, sua ascenção foi como um pico, a queda como uma crise de abstinência, mas ele não foi pra cruz e foi capaz de desfrutar das insanidades cotidianas em todas as páscoas, mesmo dividindo os holofotes com os 33 anos de Cristo.

A escritar é um vetor realista, o americano sabia disso, mas não queria traçar linhas fixas, seu caminho partiu de um ponto estável, só que as justificativas caminhavam sem destino. Bêbadas como um gambá. Era tudo parte de uma contraversão espiritual com os vinis da IMPULSE! & a força de 10 Dalai Lama's.

Rolling Stone, Creem, NME, Village Voice... Os mullets de Bangs eram undergrounds antes mesmo do termo existir. Heavy Metal antes mesmo do Sabbath sentar na janela do bonde e delirantes como um vinil rodopiando em seu próprio eixo. Hoje não temos mais reflexão quando falamos sobre música, hoje as letras surgem automáticas, parece uma mensagem padrão do maldito aparalho celular que tira o mundo de órbita e nos faz viver onde não existe teia de relação humana.


Vai entender toda essa merda! Pois Lester entendia! ele não só entendia como vivia isso, sua vida foi um combate aos caras que existiam em preto e branco quando tudo já estava psicodélico. A tarefa de qualquer conteúdo é procurar o pré-sal da informação, levar o leitor até o inferno e depois trazê-lo de volta.

O transgressor Leslie Conway Bangs viveu isso. Ele não habita o globo ha mais de 33 anos e não possui o respeito que deveria, mas quem o carrega de forma merecida? O cara está apenas tomando uns drinks no inferno para passar o tempo, o purgatório é um ótimo remédio quando habitamos o mesmo mundo do Coldplay.

0 comentários:

Incognito: Bourbon Street - 20/08/2015

O groove é a instituição sonora definitiva. Só quando o som tem groove que a coisa decola, quando a batida entra em sincronia com seu corpo e o faz dançar, liberando, além de muitos pensamentos ácidos, toneladas de slaps de potência.

Sem groove o som fica quadrado, parece tudo certinho demais e aí a coisa não flui, você fica com aquele sentimento de que ''falta alguma coisa'' e, com isso, a apreciação das ideias sonoras cai por terra, sem nem ameaçar uma decolagem.

Fotos: Karina Menezes

Mas é aí que surge questionamento mortal: existe vida sem groove? Muitos pesquisadores afirmam que não, ou você acha mesmo que não existe vida fora da Terra por qual motivo, razão ou circunstância (já dizia Girafalles)? Sem groove não tem negócio, nem os aliens ousam habitar um recinto que peca pela falta de swing!

Parece até mentira, mas acredite meu amigo, a música só nos faz perder a cabeça quando o plano de fundo apresenta aquele ''mojo working''. Revisite os clássicos e perceba, todos possuem groove. Agora pegue os discos que fracassaram miseravelmente e conclua o óbvio: faltou caldo no downbeat.

Fotos: Karina Menezes

É óbvio que é uma tarefa e tanto ficar analisando o nível alcalino dos sons pelo fone de ouvido, afinal de contas o groove só ganhou todo esse status por ser um elemento que precisa de uma determinada atmofesta para ocorrer. Eis aqui um fenômeno da música que, diferentemente de toda a malha de modalidades artisticas, não precisa de 4 anos de intervalo, não, pelo amor de Deus!

Midas só transformou tudo em ouro por que antes de tudo, ele manjava do groove. Acredite, sem esta molécula em seu DNA, o máximo que o menino ia conseguir seria cobre, mas não, ele tinha a experiência, e rapaz, groove é isso também, experiência. E se o senhor duvida disso, posso afirmar com 110% de certeza que sua pessoa não estava presente no show do Incognito.

Fotos: Karina Menezes

Line Up:
Jean-Paul "Bluey" Maunick (guitarra/vocal)
Tony Momrelle (vocal)
Vanessa Haynes (vocal)
Katie Hector (vocal)
Matthew Cooper (teclados)
Francisco Sales (guitarra)
Francis Hylton (baixo)
Francesco Mendolia (bateria)
Sidney Gauld (trompete)
James Hunt (saxofone)
Alistair White (trombone)
João Caetano (percussão)


O ano de 2015 é talvez o ápice do groove para os britânicos, que chefiados por Jean-Paul ''Bluey'' Maunick, comemoram 35 anos de muito Acid-Jazz na veia. E para mostrar que o tempo só passa para quem não manja de slap, a banda montou a grade da turnê mundial e promete passar pelos quatro cantos do planeta com o time de doze músicos completo e com requinte de orquestra, claro.

O palco ficou pequeno para tanto som! Foi um show excelente e foi bonito ver que a platéria compareceu em peso e que contava até com extrangeiros na platéria, comprovando que para presenciar esta comitiva, viajar é só um detalhe.

Fotos: Karina Menezes

No repertório, vários hits, na manga, temas do disco mais recente ''Amplify My Soul'' e no balanço, todo Jazz-Funk que seus ouvidos suportarem. Foi assim que o Incognito entrou e saiu de cena ovacionado. 

O tempo parece não passar para esses caras e a cada incarnação da banda notamos um celeiro de novos talentos. É bonito de ver como o groove é passado de geração em geração como um legado. Poucas bandas valorizam a música dessa forma e é ao som de grupos como o Incognito que sentimos a febre pela música em sua mais pura e efervescente essência.

Fotos: Karina Menezes

Mais do que ver uma banda que acorda e vai dormir ao som da mais ácida coqueluche Funkeada, o público presente foi ver os caras pela força de toda essa história, traços de nosso tempo que quando dançam (assim como a platéia), ao som dos clássicos, comprovam o óbio: eles já passaram pelo maior teste de todos, o tempo, agora é só dançar e se perder no som como se a vida fosse um eterno show ao vivo numa sexta à noite no Bourbon Street.

0 comentários:

Snarky Puppy & Metropole Orkest: o groove orquestrado de Sylva

Uma das grandes sensações que a música contemporânea leva ao ouvinte de nova ou mesmo geração, é o sentimento de novidade. É ótimo ouvir os clássicos, mas de alguma maneira nota-se uma distância por algo que você não viveu, característica que não afeta a apreciação claro, mas que dependendo do disco, não pode ser sentido em sua totalidade.

Se você pegar um clássico dos anos 70, verás que seu pai vai ter considerações bem diferentes das suas, pois ao contrário do senhor, ele viveu aquilo. Você habita outro tempo/espaço e, mesmo crescendo ao som dos mesmos LP's de seu velho, o impacto geracional muda a percepção.


É um ponto de vista que pode parecer estranho, mas que ao som de algumas trilhas pode parecer bastante simples. Creio que é um sentimento que só pode ser compreendido com lançamento, por isso que ''Sylvia'', novo disco da big band Snarky Puppy, cai como uma luva.

Depois do lançamento do segundo live em sequência (suscedendo ''We Like It Here'' de 2014), o combo chega com mais um respiro fresco de musicalidade para os novos tempos. O frenesi sonoro é potente, segue sublime (pra variar) e ainda aparece com a Metropole Orkest para dar um acabamento classe A. 

Line Up:
Janine Abbas (flauta)
Jan Bastiani (trombone)
Jascha Albracht (cello)
Martin Van Der Berg (trombone)
Max Boeree (clarinete/saxofone)
Chris Bullock (clarinete/saxofone)
Polina Cekov (violino)
Elizabeth Hunfeld (trompa)
Ben Cottrell (arranjos)
Maarten Jansen (cello)
Pieter Hunfeld (trompa)
Tjerk DeVos (baixo)
Casper Donker (violino)
Nola Exel (flauta)
Paul Van Der Feen (clarinete/saxofone)
Cory Henry (sintetizadores/teclado/órgão/arranjos)
Leo Janssen (clarinete/saxofone)
Jay Jennings (fliscorne/trompete)
Murk Jiskoot (percussão)
Merel Jonker (violino)
Wim Kok (violino)
Christina Knoll (violino)
Dennis Koenders (violino)
Pauline Koning (violino)
Bob Lanzetti (guitarra)
Vera Laporeva (violino)
Bill Laurance (sintetizadores/piano)
Michael League (baixo/arranjos)
Mark Lettier (guitarra)
Mieke Honingh (viola)
Norman Jansen (viola)
Julia Jowett (viola)
Arend Liefkes (baixo)
Rubern Margarita (violino)
Lex Luijnenburg (viola)
Mike Maher (fliscorne/trompete)
Chris McQueen (guitarra/arranjos)
Jan Oosting (trombone)
Isabella Peterson (viola)
David Peijnenborgh (violino)
Tinka Regter (violino)
Marjin Rombout (violino)
Arlia De Ruiter (violino)
Iris Schut (viola)
Ries Schellekens (tuba)
Seija Teeuwen (violino)
Robert ''Sput'' Searight (bateria)
Justin Stanton (piano/sintetizadores/trompete)
Annie Tamberg (cello)
Pauline Terlouw (violino)
Rob Van Der Laar (trompa)
Feyona Van Iersel (violino)
Maria Van Den Bos (flauta)
Herman Van Aaren (violino)
Leo Van Oostron (clarinete/saxofone)
Vincent Veneman (trombone)
Emile Visser (cello)
Fons Verspaandonk (trompa)
Frank Warndenier (percussão)
Charles Watt (cello)
Nate Werth (percussão)
Eric Winkelmann (baixo)
Ewa Zbyszynska (violino)



Track List:
''Sintra''
''Flight''
''Atchafalaya''
''The Curtain''
''Gretel''
''The Clearing''


Espero que a imensa lista de créditos consiga pelo menos dar uma pista para o nível de riqueza que ''Syla'' lhe brindará. Além de ser o primeiro trabalho para a IMPULSE!, este é o quinto disco ao vivo do coletivo de fritadores do Brooklyn, dentro de uma discografia que ainda conta com 3 trabalhos de estúdio, sendo que já temos mais um agendado para 2016. Dito isso, só podemos concluir que ao vivo os caras são fantásticos e eles sabem disso.

Temos aqui apenas 6 temas, mas não se engane, a grandeza é maior do que a lista dos músicos envolvidos e o projeto é absolutamente audacioso. Além de unir a Metropole Orkest, ''Sylva'' é um todo complexo de duas suítes, onde a primeira compreende as 4 primeiras faixas do disco e a segunda finaliza o mesmo com mais duas jam's fracionadas.


Michael Leagues, o chefe dessa quadrilha do groove, sempre desejou fazer este trabalho. O maior problema, além de tempo, era conseguir um disco que não fizesse a banda perder sua característica principal: o feeling e o swing. Com a junção da música clássica, certas bandas alteram as bases criativas ligeiramente, justamente para se adequar ao novo ambiente, fator que pode ser um problema, pois algo pode se perder.

Mas depois de sonhar durante anos, o projeto finalmente saiu do papel e Michael conseguiu unir músicos que além do fator clássico no DNA, tivessem o pé na cozinha negra, um equilíbrio raro de se encontrar, mas que valeu toda a empreitada e justifica a beleza estonteante de um disco que está fazendo a cabeça do planeta desde o dia 26 de maio de 2015.


Para a abertura dos trabalhos temos ''Sintra'', tema que pode soar estranho nas primeiras audições, mas que aqui evidencia um fantástico trabalho de cordas e sintetizadores, isso fora toda a experiência de uma banda que está no auge. Os interlúdios clássicos são entradas triunfais para que o Funk anuncie sua presença e eletrifique todo o resto com ''Flight''. Agora sim: Snarky Puppy is in the House.

Os arranjos com peso latino, ideias africanas, experimentações atuais e toda a sorte de pirotecnias, surgem com muitos timbres diferentes. São dezenas de instrumentos, incontáveis detalhes e um trabalho que é um primor justamente por conseguir mostrar tanto sem pecar por excessos.

Notamos a atenção em passagem. Belos arranjos para o time de metais em ''Atchafalaya'' e uma síntese de toda essa união com o equilíbrio homérico entro Funk, Jazz, R&B, groove e música erudita ao som de ''The Curtain''. Quinze magníficos minutos que encerram a primeira cartada-suite.

Esse trabalho comprova duas coisas importantíssimas:

1) Existem grandes mentes trabalhando dentro da cena atual.
2) O Snarky Puppy atingiu um ponto onde os caras não se limitam, gostam de fritar, mas podem fazer qualquer coisa. 


E se você duvida, basta sacar a repagina de ''Gretel'' e cair no olho do furacão dos improvisos ácidos em ''The Clearing'', a maior passagem instrumental do disco e talvez a mais inspirada. São quase 20 minutos de trocação. É fantástico, nada se perdeu, a energia e o tesão seguem no talo, agora com ainda mais classe!

0 comentários:

Bob Dylan - Blood On The Tracks

Quando tudo pesa, quando o ambiente perde cor, definição, sentido e dimensão... Fica um vazio. O próximo passo é oblíquo, à princípio o medo toma conta de cada um de nós e, com isso, a mente não tem mais opções. E para tal só nos resta pregar peças de desconfiança, borbulhando nossa própria mente de uma forma nada positiva, estimulando um temeroso e caótico próximo passo que parece nunca chegar, mas que para ser dado, precisa ser resolvido e zerado para um novo início. Pé direito, pé esquerdo, pé direito...

Esse próximo passo é um novo, completamente independente dos fatos que estimularam o tumultuado anterior, mas as aflições mentais atrapalham a clareza deste raciocínio. O problema precisa ser exorcizado de uma forma que este seja exposto e dissecado. Mas de um ângulo que ainda assim, não seja mais incômodo para que o indivíduo que sofre de tal mazela, possa enfim, dialogar sobre o ocorrido, nem que seja com ele mesmo.


A resolução do problema nunca é a mesma, afinal de contas somos seres inexatos e devemos agradecer por isso. Até por que resolver os mesmos problemas com as mesmas características conclusivas nos faria andar em círculos. Deixaria nossa mente debilitada sem possibilidade de cura. O fato é um só, problemas surgem, somem, ressurgem, mas nunca são os mesmos, o que prevalece é a coragem de tirar aquilo de dentro do peito.

Aquele ponto de saturação. Acordar um dia de manhã com um humor do cão, tomar aquele café velho do seu bule, ver o céu da janela do apartamento e notar que até o tempo anda tirando sarro da sua cara... Não vai adiantar acender outro cigarro e fumá-lo de forma cinematográfica olhando para o nada, tampouco remoer seu insucesso choramingando com aquele moletom velho.

A solução machuca, mas é justamente essa pontada de dor que faz você sair e encarar a vida. Aprenda com quem já sofreu, escute a voz do mestre Dylan ao som de seu trabalho mais sincero e honesto com seus problemas, veja a experiência ao som do icônico e brilhantemente melancólico ''Blood On The Tracks'' lançado em 1975.

Line Up:
Bob Dylan (vocal/guitarra/gaita)
Bill Berg (bateria)
Charles Brown III (guitarra)
Tony Brown (baixo)
Richard Crooks (bateria)
Paul Griffin órgão/teclado)
Buddy Cage (steel guitar)
Gregg Inhofer (teclado)
Peter Ostroushko (mandolin)
Barry Kornfeld (guitarra)
Thomas McFaul (teclado)
Kevin Odegard (guitarra)
Billy Peterson (baixo)
Chris Weber (guitarra)
Eric Weissberg (banjo/guitarra)



Track List:
''Tangled Up In Blue''
''Simple Twist Of Fate''
''You're A Big Girl Now''
''Idiot Wind''
''You're A Gonna Make Me Lonesome When You Go''
''Meet Me In The Morning''
''Lily, Rosemary And The Jack Of Hearts''
''If You See Her, Say Hello''
''Shelter From The Storm''
''Buckets Of Rain''


Depois que tomei contato, com este que é o décimo quinto trabalho de estúdio do poeta americano, sempre penso em meus problemas com base neste registro.  Aqui o foco da dissipação de percalços é espantar os males da separação que assolou seu casamento com Sara Lowndes. Quando tudo parecia um grande e profundo parafuso emocional, Dylan mostrou por que é de fato Bob e fez de todo esse desgaste amoroso-psicológico, combustível para um de seus melhores discos.

Temos pouco mais de 50 minutos de um Folk-Rock da melhor qualidade e o impacto de seu conteúdo é imediato, ainda maior quando se entende o paranorama das gravações. Pode-se facilmente imaginar nosso heói sentado no sofá de casa com pilhas de papéis e sua viola, tentando retratar o que restou de seu sentimentalismo em frangalhos, de seu coração partido, de sua insegurança e fraqueza abstrata.

É possível ainda notar a dificuldade de se mostrar esse lado ''frágil'' que transparece no disco. É difícil assumir as coisas desta forma e talvez por isso que os fãs do trovador vejam esse CD como algo muito maior do que pura fossa. Encoraja você a sair do fundo do poço e, faixa a faixa, parece narrar a evolução de recuperação do próprio compositor, além de nos brindar com letras realmente lindas e que demonstram a dificuldade de se superar um problema, ainda mais amoroso tal qual foi aqui relatado.


O próprio músico se mostrou surpreso com o grande sucesso desse desabafo e isso mostra o caráter genuíno deste LP. Este fora obra do acaso e foi feito da forma que melhor gera ignição no motor de combustão sonora: de forma sincera. Aqui temos um Bob que não tem medo de mostrar que está de joelhos, que chorou e que em certos momentos ficou sem norte algum, muito pelo contrário.

A beleza é justamente sentir que ele admite isso. Até ele, o grande Bob Dylan, já sofreu por amor, já não soube o que fazer... Mais do que isso, teve problemas e os resolveu do seu jeito, minimalista, simples e trovadoresco: cantando e tocando gaita.

A separação deve ser um processo complicado também por isso. O casamento não é uma instituição que foi feita visando um fim, esta convenção foi feita exatamente pensando no contrário, o fim não existe, só o para sempre que pode se perpetuar no tempo.


Mas as vezes não dá certo e nesses momentos você não pode parar e aqui vemos que o bonde seguiu. No começo do disco tenho certeza que o judeu ficou encolhido na janela, olhando e imaginando a vida das pessoas vistas pelo vidro, mas perto do fim ele já estava de pé, de cabeça erguida, sem saber exatamente o que procurar, mas sabendo que já estava apto a voltar a procurar algo.

''Tangled Up In Blue'', ''Simple Twist Of Fate'', ''You're A Big Girl Now'', ''If You See Her, Say Hello''... Alguns dos capítulos de um disco que por mais que possua dez faixas, poderia ter apenas uma narrando o caminho todo. É com a profundidade e moral de um livro completo que o mestre nos mostra como nós funcionamos quando estamos acuados, se revelando contra tudo e todos, como em ''Idiot Wind''.

Tudo passa, tudo mesmo, se não passar é por que você parou de andar e o perigo é justamente a estática do mesmo lugar. Essa frase não é do Bob, juro.

0 comentários:

Woodstock & Richie Havens

O Woodstock é um marco dentro da história da humanidade e quanto a isso não existe discussão. Porém, semana passada estava revendo um grande momento que aconteceu depois do festival e não pude me calar a ponto de não digitar um sílaba sobre o ocorrido. Traço atemporal que além de reafirmar a importância desses dias de amor e paz para a história da humanidade, tenta convencer os céticos, se é que ainda existia algum tipo de dúvida.

Os senhores muito provavelmente estão familiarizados com Richie Havens, o homem encarregado de abrir o maior festival de todos os tempos, uma senhora tarefa diga-se de passagem. Mas enfim, prosseguindo.

O americano não só abriu o evento como além disso cravou seu nome na história da música e foi responsável por um dos maiores shows já vistos, tocando por três horas até ficar sem músicas e improvisar uma versão de ''Motherless Child'' que acabou virando sua marca registrada e um sinônimo da força de Woodstock como um todo.


Conheci Richie depois de ver um DVD que relatava toda a odisséia que foi o festival de Woodstock. Me lembro que chapei no show do Santana, Janis Joplin, Ten Years After, Joe Cocker, Sly... Acho que não teve um show que não tenha feito meu cérebro virar do avesso.

Teve CSNY, Mountain, Canned Heat, Grateful Dead, Creedance, Who, Jefferson Airplane, The Band, Johnny Winter... Praticamente tudo que hoje é cultuado foi estabelecido gradualmente em forma de mito nesta festividade suprema, fora que nunca aprendi tanto vendo nada em minha vida tal qual aprendi e ainda aprendo, com esse momento.

Mas depois de ver a performance acima e de relatar minhas impressões, é que venho com o que vai realmente estabelecer a ponte de raciocínio para com o entendimento sonoro que este texto-tese visa obter: Richie Havens.


Nunca, nunca, nunca, nunca... Em mais de 19 anos de vida, jamé ouvi e puder ver takes de alguém com mais força sob um palco do que este cidadão. Tudo que construia sua imagem era único, desde suas afinações ortodoxas, até a forma como tocava sua viola, passando por suas mãos lotadas de anéis Hippies.

O que Havens fez em Woodstock foi muito celebrado na época e tempos depois, mas hoje em dia ninguém lembra do banguela e isso é um absurdo para com a memória de um dos maiores músicos que já tivemos neste plano. Dentro da aresta Folk considero que ele está acima de muitos nomes e o motivo é a sinceridade e realidade com que sua música flui. Seja ao vivo ou em estúdio, nós sempre nos lembramos da vibração Woodstockiana quando ouvimos esse cara e a força de sua presença era uma granada.

Quando Woodstock fez 40 anos de vida, um evento comemorativo foi feito para festejar as bodas e o Folk man foi chamado para reconstruir a performance de ''Freedom'', tema que tanto o consagrou. Foi realmente deslumbrante ver o velhaco naquela posição, por que mesmo com o sucesso que sua música merecidamente obteve, todos os fãs do barbudo sabem que ele não é lembrado o quanto deveria e que esta gravação talvez tenha sido seu último grande momento antes de nos deixar, em 2013, aos 72 anos de idade.


Sei que sua pessoa não está mas entre nós, porém acho absolutamente válido destacar seu nome e não pretendo fazer o mesmo de maneira saudosista. Conhecer este som e assimilar a diferença de tempo e novos padrões estabelecidos pelas óbvias novas épocas, é o meu convite. Sentir e conhecer a mesma música, só que em diferentes períodos históricos e acima de tudo, ver toda a beleza e plasticidade de um dos maiores performers da históra da música.

Woodstock ontem, hoje, amanhã e para sempre - Richie Havens: o eterno start do festival em minhas memórias.

0 comentários:

Agusa - Tva

Quando o Agusa surgiu do nada em 2014 e soltou um dos melhores discos de Rock Progressivo daquele ano (''Hogtid''), o combo suéco já cravou seu nome no mapa da cena logo de primeira. Com um trabalho deste porte debaixo do braço não tinha como não rechear o calendário de shows e começar a colher os frutos de um debutante que foi elogiadíssimo.


Fator que mostra bastante sagacidade por parte do (agora) quinteto, que para aproveitar o embalo, sem dizer a criatividade, já virou o calendário com o sucessor deste magnífico primeiro full. Senhoras e senhoras: ''Tva'', a segunda cartada dos progressivos (lançada dia 24 de julho de 2015), está ainda mais fina do que a primeira, é digno de pedir truco.

Line Up:
Tobias Petterson (baixo)
Mikael Odesjo (guitarra/violão)
Tim Wallander (bateria/percussão)
Jonas Berge (órgão)
Jenny Puertas (flauta)



Track List:
''Ganglat Fran Vintergatan''
''Kung Bores Dans''


Com um disco mais ousado instrumentalmente e com uma abordagem mais agitada, o Agusa coloca os ouvintes no bolso quando o disco começa. Quando o debutante saiu, destaquei toda a sutileza com que a banda abordou os temas. A bateria caminha com fidalguia, a guitarra era milimétrica, o baixo surgia sempre elementar e o órgão era a chave do som, unia tudo e ainda deixava melodias no ar.

Agora, com a adição de Jenny Puertas na flauta, além do som ganhar em possibilidades, ''Tva'' marca também por ser um disco mais ousado dentro da questão estética. Temos apenas duas faixas neste full, duas senhoras e belíssimas suites.

Característica que obrigou a banda a criar algo que mais uma vez beira a perfeição, só que chega com um pouco mais de tato para não deixar tudo muito certinho demais, tudo muito chato. Aqui a pegada é mais visceral, o som é mais vibrante e as viagens continuam com aquela finesse soberba, elemento que chamou atenção da crítica e diferenciou o Agusa das demais bandas que formam a malha da cena Prog atualmente.


Aqui a banda está em seu habitat natural. pela primeira vez o improviso foi a base de cada segunda que eternizou o segundo play da banda. São 40 minutos de puro absurdo progressivo, trips que compreendem mais de 20 minutos em ''Ganglat Fran Vintergatan'' e um pouco mais de 18 giros de 60 segundos com ''Kung Bores Dans'', o apogeu da sinergia analógica e orgânica.

A flauta é talvez o detalhe decisivo desta nova faceta. Presente desde os primeiros segundos da primeira faixa, Jenny Puertas é a responsável por brindar esse disco com a liberdade que muito provalvemente abriu as portas para essas duas suítes. 

Antes o órgão era o elemento dominante, mas agora com mais um instrumento na Jam e com temas que exploram a naturalidade da improvisação, a liderança de Jonas Berge ganha concorrência e essa alternância é o que nos brinda com o tom viajante desta gravação.


Temos uma percussão que adiciona uma pulsação extra, deixa a bateria mais ampla e mostra caminhos diferentes para cada um dos envolvidos. O baixo de Tobias Petterson caminha para onde bem entende, a guitarra possui o melhor trabalho do mundo: entra apenas para vertiginosos insights com Mikael Odesjo, a mistura perfeita entre música erudita e Rock.

O som sobe, desce, vibra, se acalma e essa oscilação brilhante, repleta de nitidez para os detalhes e alterações instrumentais que surgem com a mesma naturalidade de mudanças de humor, são o que desconcertam o ouvinte.

O vocal aparece pouco, segue na mesma linha do debutante, apenas cantarolando a melodia enquanto a guitarra sola e abre as portas da percepção para ''Kung Bores Dans'', um repeteco ainda mais intenso do que a primeira parte, porém maravilhosamente balanceado pelo DNA folk da flauta e da viola acústica que contorna a guitarra e seus devanios. É inspirador.

0 comentários:

Alphonse Mouzon: uma troca de ideias ao som de Mind Transplant

Toda vez que alguém fala sobre Tommy Bolin, existe um disco do qual o guitarrista fez parte que mesmo sendo brilhante, poucos costumam mencionar. No pouco tempo que ficou por aqui, o americano gravou um disco fantástico junto com um dos maiores bateristas de Jazz que já ousaram segurar uma baqueta, e não, não estou falando do extraterrestre ''Spectrum'' do panamenho Billy Cobham, mas sim do igualmente clássico ''Mind Transplant'', o terceiro disco solo do grande Alphonse Mouzon, lançado em 1975.

Line Up:
Tommy Bolin (guitarra)
Henry Davis (baixo)
Alphonse Mouzon (bateria/vocal/sintetizadores/piano/órgão)
Lee Ritenour (guitarra)
Jay Gradon (guitarra)
Jerry Peters (piano/órgão)



Track List:
''Mind Transplat''
''Snow Bound''
''Carbon Dioxide''
''Ascorbic Acid''
''Happiness Is Loving You''
''Some Of The Things People Do''
''Golden Rainbows''
''Nitroglycerine''
''The Real Thing'' - Versão remaster


Se você curte a Jam do disco de Cobham, espere até escutar isso aqui. A banda é fantástica, trata-se de um dos trabalhos mais chapados e brilhantes do segmento Fusion. Um LP que beira o Funk psicodélico em alguns momentos, sempre com uma pegada monstruosa e detalhes incríveis, onde mais uma vez, Bolin deixa sua marca.

Mas não é só por causa de um músico que um clássico sobrevive, temos também um arregaço contundente por parte de Lee Ritenour e Jay Gradon (também nas guitarras), fora é claro o restante da banda, que apesar de muito tentar, não consegue interromper as investidas de um impossível, frenético e fulminante Aphonse Mouzon.


São 35 minutos de Jam, um instrumental que transborda urgência e que mesmo sendo considerado um dos maiores clássicos do Jazz, é pouquíssimo conhecido e digo mais, a performance de Bolin é só um detalhe, os outros músicos também esfarelam seus respectivos instrumentos. O baixo de Henry Davis é Funk puro, a cama pianística de Jerry Peters é suprema e o resultado é tão quente que reza a lenda que se você colocar um ovo na frigideira com o fogo desligado e com esse disco na vitrola, ele frita.

Um poço de qualidade, quase todo instrumental (se desconsiderarmos os belos vocais de Alphonse em ''Some Of The Things People Do''). Uma fritação contundente e que é apenas UM dos belos discos que o baterista criou. As viradas desse cara deveriam ser estudadas!

Chega a ser brincadeira ouvir um disco com tanta riqueza e pegar a ficha técnica depois e ver 6 nomes apenas. E o mais absurdo é o padrão de intensidade que é estabelecido desde o play inicial com a faixa título, até o final do LP com ''Nitroglycerine'' (para quem tem a versão comum), pois quem possui a remasterização deste clássico ganha um gás de 20 minutos de pura explosão improvisada. 


E o peso prova o caráter visionário deste som, apostando numa linha que é justamente o divisor de águas entre os jazzístas conservadores e os fritadores do bom e velho Fusion. Estilo que se firmou e descabelou toda comunidade conservadora que achava que o certo era o piano no modelo ''trilha de elevador''.

O problema é que esqueceram de avisar a banda do Alphonse, por que o pessoal comeu Fusion em todas as refeições. Era teclado de café, guitarra no almoço, batera de lanche da tarde, baixo na janta e uma jam para preencher a madrugada. É inclusive desnecessário evidenciar os resultados. ''Mind Transplant'' exala novidade em todas as tracks, o groove e a talk box são elementos latentes em ''Snow Bound'' e o peso prova ser um desafiante ridículo para ''Carbon Dioxide'', por exemplo.

O desenvolvimentos dos sons cai para qualquer lado, tudo aparece de maneira brilhante nesse disco e nenhuma nota se perde em remadas encavaladas e mal resolvidas no instrumental. A bateria é base e o que oxigena tudo, por isso que os outros instrumentos ganham tanta liberdade e o resultado é tão amplo.

''Ascorbic Acid'' mostra que não faltou cocaína para Mouzon, ''Happines Is Loving You'' da uma canja do grandioso feeling desta reunião, ressaltando o feeling colorido do trio Bolin, Ritenour e Gradon. Mas é com ''Golden Rainbows'' que a casa vai para o chão. São temas como esse que fazem o mundo girar meu chapa, é quando a guitarra entra e o baixo fica de queixo caído fazendo a base com toque sutis, mas sempre perceptíveis de um visionário Bolin e um inspiradíssimo Ritenour, homem que teve culhões para preencher o recheio (solo) desta exuberância Funkeada.
 
E não pense que o pessoal relaxou, Alphonse segue tirando o ânimo dos bateristas para sentarem no cockpit do ritmo com ''Nitroglycerine'', e abre a caixa mágica das jam não lançadas quando resolve incluir ''The Real Thing'' na remasterização deste clássico. Eis a faixa que exemplifica tudo que foi dito aqui, mostra uma das melhores gravações da história da bateria e resume a vibe de um disco que atropela o ouvinte com os ensinamentos que deveriam reger nossa vida: 20 minutos de jam, quem nunca?! 

Entrevista:


1) Sua abordagem para com a bateria é uma das mais intensas que já escutei. Toda vez que escuto seus discos parece que os caras que o acompanham tentam, mas não conseguem acompanhar seu groove! Como você sustenta esse nível? Parece que as baquetas estão sempre um passo a frente de todos! 


O trabalho de um bom baterista é manter o tempo e o groove, inspirando os outros músicos a tocar melhor, assim direcionando e energizando a banda. É isso que eu faço toda vez que toco.

2) ''Mind Transplant'' é um clássico do Jazz Fusion e contém um pouco do talento de Tommy Bolin, um cara que não viveu tempo suficiente para ser o que esse disco prova que ele poderia. O que você tem a dizer sobre ele e a ''Fusion Jam Sessions'' (os ensaios do ''Mind Transplant'')? 


Tommy realmente me ajudou a fazer de ''Mind Transplant'' um clássico do Jazz, junto com o guitarrista Lee Ritenour e Jay Gradon, bem como o tecladista Jerry Petters e o grande baixista de Funk Henry Davis. Bolin era um guitarrista de Rock & Blues que entendia o Jazz de uma maneira muito natural. Ele foi um jovem gênio que morreu aos 25 anos após se juntar ao Deep Purple.

3) Você tocou com ótimos guitarristas ao longo de sua carreira, mas eu acho que o cara que mais lhe desafiou foi o Larry Coryell. O que você tem a dizer sobre o approach do americano?


Larry e eu estamos tocando, saindo em turnê e gravando juntos há mais de 40 anos e nós nos conhecemos muito bem por causa de toda essa história. Por isso que a cada encontro, nós sempre nos desafiamos para ver quem é o melhor, é uma relação que sempre alimentou nossa química musical.

4) Quando o movimento Fusion começou você gravou discos fantásticos e acho que sem algum deles, o estilo não teria a forma que possui hoje. Como foi o processo de criar algo para um novo movimento? Você sentia que o Jazz clássico não estava mais tão quente?  


Durante o tempo que atuei como pioneiro neste campo eu ainda gravava Funk & Soul para outros artistas. Nunca pensei que o Jazz perdeu seus encantos. Até hoje Larry e eu seguimos com o Fusion, Rock, Jazz e Smooth Jazz.

Amo todos os estilos de boa musica e quando toquei com o Weather Report nós ajudamos a guiar um novo movimento Jazzístico que foi inspirado pelo grande Miles Davis. Depois eu voltei a tocar Jazz clássico por 2 anos com o McCoy Tyner (pianista do John Coltrane) e antes disso também me juntei ao Larry Coryell And The Eleventh House para seguir agitando a cena em 1973

5) Quais são os seus planos para um novo disco no futuro? Você não toca no Brasil desde 1985, isso seria uma ótima desculpa para um novo show!


A música brasileira é um elemento que está presente na maioria dos meus discos. Adoro compor e tocar sambas. No momento estou trabalhando em 4 discos novos para o meu label (Tenacious Records). A ideia é lançar tudo em 2016 e explorar mais um pouco dentro do Jazz clássico, Funk, Blues, Smooth Jazz e finalizar algumas músicas para trilhas de filme que andei criando também. 

6) Além de exuberantes linhas de bateria você também possui uma bela voz. O que muda pra você, musicalmente, quando precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo?


Não muda nada musicalmente falando. Quando canto e toco bateria ao mesmo tempo só preciso me concentrar no tom e no ritmo, assim, posso cadenciar ambos com boa desenvoltura.

7) Qual é a sua opinião sobre a chamada ''bateria moderna''? O que você acha que mudou?


Hoje a maioria dos jovens bateristas toca e possui o mesmo som. O foco é apenas tocar e o produto final, o som, a característica mais importante, se perde pela falta de originalidade. Cada baterista deveria criar sua própria identidade para poder ser facilmente reconhecido quando começa a aquecer o Kit.

Eu tenho isso, um estilo único de bateria, ninguém soa como eu e isso é algo que se perdeu hoje em dia. 

8) Depois de tantos anos no meio musical, clássicos solo, contribuições, projetos paralelos e supergrupos, o que você ainda quer tentar fazer dentro dessa nova cena?


Eu quero continuar a fazer ótima música com grandes parceiros do mundo todo e seguir envolvido com o maior número de projetos que consiga suportar. Uma das minhas maiores vontades é compor mais para filmes e para a TV. Gostaria de ter um hit na TV onde eu possa atuar e compor a trilha.

9) O Funk e o R&B ajudaram você a criar um estilo bastante flexível, pois com todas essas virtudes juntas você consegue ir para o Rock, misturar tudo e no fim do dia criar algo sem limites, algo bastante raro, devo salientar. Você acha que o Funk foi a chave para tanta criatividade?


O Funk, a música Pop e o Rock foram o começo de tudo para minha infância no sul. O groove do Funk principalmente firmou a base do meu som no fundo da minha alma e no tempo das batidas do meu coração.

Até hoje, quando toco um pouco de Be-Bop, sempre adiciono pitadas de Funk, é um elemento que inconscientemente habita tudo que acabo criando.

10) Alphonse, agradeço pelo seu tempo e pela oportunidade, foi uma honra falar com sua pessoa. Para terminar, gostaria de saber quais são os seus bateristas preferidos e por quê.


Elvin Jones, Roy Haynes, Tony Williams, Art Blakey, Philly Joe Jones, Buddy Rich e Jimmy Cobb são os meus bateristas favoritos. Além de ótimos músicos tecnicamente falando, eles foram grandes inspirações para meu som, pois conseguiam improvisar e seguir o script mantendo o mesmo nível, com muito groove e paixão.

0 comentários: