Let''s Zappalin' - Frank Zappa is god: 31/07 & 01/08 no Sesc Belenzinho

Existe um grafite que mudou a história da música. Feito por um ávido fã de Eric Clapton, a clássica epígrafe ''Clapton Is God'' foi o ''Carlos Adão'' do final dos anos 60 e 70 na Inglaterra. Um código messiânico que espalhou o poder dos dotes psicodélicos do (à época), guitarrista do Cream e, que desde meados de 1967,ainda rende muitas discussões. O muro da estação de Islington (local que a frase foi instaurada), nem existe mais, só que seu impacto foi tão poderoso que parece que ele ainda está lá.


Agora imaginem se o cara que teve essa ideia não fosse fã do Clapton. Algumas pessoas inclusive ousam dizer que isso mudaria os rumos da música e, que se não fosse por esse ato de vandalismo cult, Eric não teria o mesmo nome que ostenta hoje em dia.

Acho no mínimo ousado pensar que uma frase resolveu a vida de um dos maiores guitarristas de todos os tempos, só que também não podemos deixar de experimentar as outras possibilidades existentes. Imaginem, por exemplo, se Frank Zappa fosse god... Rapaz, a piração seria tamanha que a Terra iria girar ao contrário e o faria ao som do ''One Size Fits All'' só pra tirar uma onda.

Foto: Ambrosina Daguerre

Feito em algum canto de São Paulo, por nomes (no momento ainda não identificados nem pelo comandante Hamilton), esse grafite (quando falamos de Zappa tudo fica automaticamente mais requintado), expressa a força que o nome deste mito ainda possui.

Quem gosta de Zappa gosta de música e ainda aprecia cada detalhe no termo mais amplo da palavra. Ouvir a SG de Frank é gozar as notas com um olhar crônico único, sem preconceitos estéticos e com um caráter de mistura homogênea que conseguia aglutinar gêneros de uma maneira espantosa.

Não era só a complexidade, o bigode ou a sagacidade, Zappa marcou seu nome por ser tudo isso junto e por ver a música de uma maneira completamente desconstruída, com um timbre ''semelhante a um sanduíche de presunto'', as palavras exatas que o americano utilizou para escrever os dotes técnicos de Steve Vai em seu teste para entrar na banda do amigão do Reagan.


Considero Zappa o ''verdadeiro'' Deus, pois sua obra é tão poderosa, extensa e rica, que não basta apenas tocar sua música. O guitarrista segue inspirando o mundo e, quem vai além das horas de voo em seus LP's, não toca suas linhas para apenas produzir algo igual, assume o controle do som e faz o que Frank elaborou como poucos: vai além da música dentro da própria jam.

A maior qualidade no bigode Zappiano não era o humor ácido, tampouco o bom gosto nos trajes, o ponto primordial do Jesus que não retorna na páscoa, é criar um universo paralelo dentro de outro. É despertar uma paixão tão absurda nas pessoas que fez com que um dos maiores guitarristas brasileiros se especializasse em Zappa, a ponto de formar um ato para fazer mais do que apenas tocar com o mesmo tom do mestre, Rainer Tankred Pappon entendeu a mensagem.

Foto: Ambrosina Daguerre

Quando o cidadão sobe no palco com os caras da Let's Zappalin', o coletivo virtuoso desafia todos os parâmetros técnicos para mostrar às mais diversas gerações, que a música do oriundo de Baltimore é tão profunda que se ramifica entre as passagens de ''Inca Roads''. Em cada uma das duas noites em que o grupo acho um novo oásias criativo no Sesc Belenzinho, ficou claro como a mensagem desse cara era única, suas criações ajudam os próprios músicos a se expandirem e as portas da percepção seguem se abrindo para os discípulos de Sheik Yerbouti.

Line Up:
Rainer Tankred Pappon (guitarra)
Erico Jônis (baixo)
Fred Barley (bateria)
Jimmy Pappon (teclados)
Michel Leme (guitarra)
Maria Dinis (vocal)
Tina Pappon (vocal)
André Frateschi (gaita/vocal)



Munidos de uma banda fantástica e de um repertório que incluiu temas que jamais foram tocados no Brasil (como ''Teenage Prostitute'', ''Sinister Footwear II'', ''Marqueson's Chicken'' e ''The Black Page #2''), o Let's Zappalin' foi para o palco duas noites seguidas e a cada show a piração atingia índices nunca registrados dentro da escala Gardenal de Zappação.

Foto: Ambrosina Daguerre

No primeiro dia tivemos um apanhado profundo da obra do guitarrista. Mais de 90 minutos praticamente ininterruptos, onde a banda fez um show que assustou pela intensidade. Foram 15 faixas que passearam entra as mais diversas fases do camaleão candidato à presidência e que além de tudo, foram tocadas uma atrás da outra, praticamente sem intervalo algum.

Rainer Pappon e Michel Leme foram tão precisos que espero sinceramente que as duas guitarras que eles usaram sejam maiores de 18 anos, tamanho foi o abuso de impropérios intrincados, ensaiados e improvisados que a dupla destilou com a banalidade de um aposentado que vai na cozinha buscar um comprimido para a esposa.

As Zappalinetes, Tina Pappon & Maria Diniz, agregaram demais no som. As vozes estavam perfeitas, igualaram tons impressionantes e adicionaram uma fidelidade belíssima ao som. Foi um barato ver as linhas mais malucas de backing vocal que já ouvi na vida, ali, ao vivo e com qualidade de estúdio.

Foto: Ambrosina Daguerre

Andre Frateschi foi outro destaque no campo das vozes. Além de mostrar destreza na gaita, o dublê do Chris Robinson com pinta de Soulman mostrou rara versatilidade quando requisitado e uma disposição invejável para arrebentar no air guitar.

Na cozinha rítmica Fred Barley e Erico Jônis mostraram bastante lucidez. Ouvia-se tudo com bastante clareza e a fluência na cadência do groove de ambos foi impressionante. O timbre do baixo estava limpo, na medida, enquanto a bateria de Barley desafiava as leis da física com movimentos anatomicamente impossíveis, fazendo o kit balançar à distância.

Foto: Ambrosina Daguerre

Mas não foi só isso, ainda teve Jimmy Pappon esfarelando as teclas. Quem admira até pensa que dominar o marfim malhado com tamanha perícia é fácil, mas só quem manja do riscado sente o feeling que o cidadão emprega quando começa a tirar notas do Hammond. Em alguns momentos ousei crer que a fumaça que saia do canto esquerdo do palco vinha de suas mãos!

Foi fantástico, o repertório do primeiro dia encheu os ouvidos de todos os presentes, mas a segunda noite foi o ápice, a banda finalizou o inquérito sonoro com o clássico ''One Size Fits All'' (lançado em 1975) tocado na íntegra!

Foto: Ambrosina Daguerre

É por essas e outras que Clapton não pode ser God. Teve de tudo, sapato no microfone (com abusos microfonados), doses cavalares de bom humor (jamais peçam para tocar Raul num show Zappástico), e até resquícios dos embalos de sábado à noite, quando a banda convocou meliantes da platéia para moverem os ossos da bacia ao som da valsa de ''Montana''.

Foto: Ambrosina Daguerre

Foi libertador, maluco de verdade e surpreendente do começo ao fim, jamais pensei que iria ouvir a clássica ''Po-Jama People'' ao vivo, André Frateschi mudou o refrão para adaptar o mesmo aos problemas atuais com a poesia concreta de ''Datena People'', mas mesmo assim valeu. Foram duas belas noites, tenho pena de quem não foi. Aguarde a ligação do Central Scrutinizer.


Set List - 31/07:
''Sinister Footwear II''
''Tryin' To Grow A Chin''
''City Of Tiny Lites''
''Village Od The Sun''
''Echidna's Arf''
''Don't You Ever Wash That Thing''
''Fifty-Fifty''
''Zomby Woof''
''Uncle Remus''
''Montana''
''Marqueson's Chicken''
''San Ber'dino''
''The Black Page #2''
''Teenage Prostitute''
''Whipping Post'' - Bis


Set List - 01/08:
''Sinister Footwear II''
''Inca Roads''
''Can't Afford No Shoes''
''Sofa No. 2''
''Po-Jama People'' - ''Datena People''
''Florentine Pogen''
''Evelyn, A Modified Dog''
''San Ber'dino''
''Andy''
''Carolina Hardcore Ecstasy''
''Montana''
 ''The Black Page #2''
''Marqueson's Chicken''
''Zomby Woof''
''Teenage Prostitute'' - Bis
''Whipping Post'' - Bis


2 comentários:

  1. Excelente som, muito bem resenhado. PARABÉNS !!!

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  2. Músicos deste calibre fazem a obra Zappiano parecer fácil, foram 2 grandes shows, agaradeço pelo elogio!

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