Sun and Sail Club - The Great White Dope

Quando o Sun and Sail Club apareceu, o tempo de reação dos ouvintes foi praticamente inexistente. O (à época trio), liberou o primeiro full em 2013 e ''Mannequin'' foi, sem dúvida alguma, uma das maiores muquetas daquele ano. 

Mas, como trata-se de um supergrupo, a crítica e a malha de fãs sabia que a sequência do projeto poderia demorar um pouco. Algo que foi disfarçado pelas novas gravações do Fu Manchu, apenas um dos grandes nomes envolvidos neste projeto, que é válido ressaltar, ainda conta com nomes que um dia já se envolveram com o Kyuss e o The Adolescents.


E para comprovar que este projeto não é um hobby, ''The Great White Dope'' saiu como um tiro na cara do mês de maio. Dia 12 foi uma data importante, afinal de contas, além de celebrar o retorno dos caras com mais um excelente trabalho, a banda deixa claro que tem muita lenha para queimar, ainda mais agora que o vocalista Tony Adolescent chegou para somar no groove.

Line Up:
Bob Balch (guitarra)
Scott Thomas Reeder (baixo)
Tony Adolescent (vocal)
Scott Reeder (bateria)



Track List:
''Krokodil Dental Plan''
''Dresden Fireball Freakout Flight''
''Baba Yaga Bastard Patrol''
''Migraine With A Chainsaw Reduction''
''Level Up & Shut It Down''
''Fever Blister & The Great White Dope''
''Full Tilt Panic''
''Alien Rant Factory''
''Inside Traitor Outside View''
''Cypherpunk Roulette''


Alterando as ideias experimentais do primeiro disco e mudando um pouco as coisas, esse LP ainda mantém conexões com o trabalho anterior, mas só até a hora que você aperta play. O peso é muito maior, as faixas parecem melhor trançadas e a cada track, as dez faixas que forma um dos melhores discos que você ouvirá no ano, engatilham o caos, paint depois de paint, bala depois de bala.

São menos de 30 minutos de play. Uma áurea Punk que entra com uma voracidade que impressiona. É um belo exemplo de como tirar leite de pedra, depois que o líquido dos frutos se esgota. O que temos aqui é uma aula de como tocar bateria, baixo e guitarra. 

Esqueça esse mimimi de quarteto com formação clássica, o lance aqui é entrar na jugular da forma mais carniceira e crua possível. É um trabalho elaborado, pensado e polido para ser exatamente o que se tornou: a trilha sonora de um teste de sobrevivência para terremotos. Senhoras e senhores: ''Krokodil Dental Plan''


O ímpeto é destruidor, os timbres surgem como cruzados no pé do queixo e por mais seco que o disco pareça, é notável perceber que apesar do peso, temas como ''Dresden Fireball Freak Out Flight'' e ''Baba Yaga Bastard Patrol'' demonstram muita técnica e evidenciam ótimas linhas em todos os postos.

A mixagem mostra uma banda entrosadíssima, deixa o som sujo na medida certa e mostra que para fazer algo nesse patamar, é necessário uma qualidade que esses caras possuem de sobra: vigor. Além de muita criatividade para bolar o nome das faixas, como notamos em ''Migrane With A Chainsaw Reduction'', o caráter inventivo dos sons, apesar de curtos e explosivos, é latente.


A mudança abrupta de tempos, a latência do Stoner e depois toda a insanidade de uma dose de Speed com Rock 'N' Roll... ''Level Up & Shut It Down'' é assustadora! Se você gosta de peso, porrada e barulho, mas prioriza o alto padrão técnico, creio que ''The Great White Dope'' seja um dos melhores discos do ano.

Faz você ignorar o lado ''racional'' do cérebro e parece que o disco simplesmente ativa um lado primitivo de sua mente. Depois do play a vontade de dar uns tapas em alguém é quase incontrolável. A jam não possui métrica, entra solando na entrada da faixa título, tenta mostrar um pouco de tato e explode na gritaria vocal de Tony Adolescent em ''Tilt Panic''.

A música as vezes é um instrumento de isolamento, almeja apenas uma fuga e não precisa necessariamente se justificar por isso. Em miudos: Sun And Sail Club, ative o lado capitão caverna de sua persona após o play. Triture sua mente e passe no processador. Que estraçalhamento de baixo, bateria e guitarra!

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The Jimi Hendrix Experience - Freedom: Atlanta Pop Festival

Ouvir Jimi Hendrix sempre foi um acontecimento. Sua guitarra nunca entrou de forma passageira em meus ouvidos e sempre fiz questão de contemplar cada detalhe. Escutar sua lírica na rua, em casa, no telhado, no solo ou na praia, rapaz, sempre foi a mesma coisa.

A sinestesia ficava por conta do cenário, mas o feeling era o mesmo. Acredito que seja algo bastante pessoal, mas ouvir a guitarra do americano sempre foi um momento célebre, um apogeu de emoções que se repete desde que ouvi sua Fender aliciar a organização Stratocaster pela primeira vez.


Eis aqui um homem que nunca estava no palco, pelo menos não só no palco. Quando seu Black Power solava o corpo celeste ia para outra esfera, conectando-se com tudo e todos como um cidadão do mundo de Woodstock. Uma fonte de energia que não se dissipou, mesmo depois de seu óbito messiânico.

Por isso, quando falar sobre algum mito Hendrixiano, esqueça a síntese. Jimi era uma extensão de tudo que algum dia já teve a capacidade de mudar de forma. Um ato libertário que é maior do que o próprio mito e que dura até hoje justamente por não poder ser minimizado. Um conceito que fica claro quando ouvimos ''Freedom: Atlanta Pop Festival'', um dos picos de todo esse complexo de experiências.

Line Up:
Billy Cox (baixo/vocal)
Jimi Hendrix (guitarra/vocal)
Mitch Mitchell (bateria)



Track List CD1:
''Fire''
''Lover Man''
''Spanish Castle Magic''
''Red House''
''Room Full Of Mirrors''
''Hear My Train A Coming''
''Message Of Love''


Track List CD2:
''All Along The Watchtower''
''Freedom''
''Foxy Lady''
''Purple Haze''
''Hey Joe''
''Voodoo Child (slight return)''
''Stone Free''
''Star Spangled Banner''
''Straight Ahead''


A apresentação de Jimi no Atlanta Pop Festival é grandiosa. Atinge o mesmo grau de excelência de outros lives consagrados dentro de sua discografia e mostra mais uma faceta de seu feeling extraterrestre, junto com uma conexão sem precedentes frente a sua maior platéia dentro dos Estados Unidos.

Sim meus amigos, é incorreto afirmar que o maior público de Jimi tenha sido na fazendo de Woodstock. Dentro de minha própria utopia, gostaria de acreditar que sim, mas em números, sua apresentação como um dos pilares desta edição é superior (pelo menos numericamente), ao seu maior momento sob um palco.


Quando Jimi entrou para a história em Woodstock, as 9 horas da manhã do maior domingo de todos os tempos, o festival que contou com uma das maiores audiência de todos os tempos, já estava mais vazio. Eram cerca de 25.000 deadheads na platéia, enquanto o público total do Atlanta Pop Festival é estimado entre 300 e 400 mil pagantes.

E pegou um dos grandes momentos da Hendrix Experience como um todo, afinal de contas na época deste registro, a banda estava numa tour intensiva que já estava em progresso ha mais de 2 meses e meio. Por isso ouvimos jams tão azeitadas, refinadas e notamos um cherokee ainda mais ousado e interestelar.

Até a química com seu seguidores era algo que o cidadão explorava de maneira peculiar. Quando uma faixa se encerra nesse LP duplo, parece que ele retorna ao antro terrestre. Durante o solo ele estava em todos os lugares, mas quando se fazia silêncio, a música mais difícil de todas, o Moisés de Seattle até falava - Hey There, baby.



Além de ser um marco, por resgatar um show que virou lenda na mão dos magnatas colecionadores de bootlegs, essa mítica apresentação (que também sairá na forma de DOC num futuro próximo), é também um dos poucos trabalhos póstumos que faz jus ao nome do ser gênesis da guitarra.

Essa gravação é uma das pouquíssimas que não mancha o espólio do membro mais famoso da família Hendrix. É um disco raro (é triste salientar isso), pois não se apoia em outtakes para tentar reciclar um signo da guitarra.

Aqui Jimi pulsa, prova que precisa e se manterá eterno como um imaginário fantasioso que se perpetua como a patriótica versão de ''Spangled Banner''. Num passeio de Macunaíma, o mestre pula para o primeiro disco e nos revela uma rara versão de ''Room Full Of Mirrors'', evidencia uma das mais brilhantes jams para um de seus standards, a bela ''Red House e emula o infinito quando toca ''Hear My Train A Coming''.

Viaja sem destino para encontrar sua ''Foxy Lady'', relembra hits Dylanescos com uma ácida versão de ''All Along The Watchtower'' e nos reencontra na esquina com a ''Voodoo Child'' para tomar uma breja com ''Hey Joe''. Vamos andar por ai Jimi, estamos in e off em todos os lugares, pelo menos durante os 85 minutos que o dia 04 de julho de 1970 ressoar em nossos corpos, sempre com Billy Cox no baixo e Mitch Michell no Jazz Experienced.

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As cinzas Kadavéricas de Berlin

Quando ouvi o Grateful Dead pela primeira vez fiquei perplexo. O conjunto da obra era brilhante, mas foi outro fator, algo extra campo, que fez minha cabeça depois de já estar baqueado com a psicodelia da banda. Os fãs do clã de São Francisco, os ''Deadheads'', rapaz, como eu queria ser um membro dessa caravana em forma de jam band.


O fascínio pelo som da Bay Area. O mais puro veneno lisérgico... A voltagem era viciante, a platéia saia dos shows e não conseguia voltar pra casa, por isso começaram a seguir a banda e junto dela, marchar rumo ao utópico e positivo planeta Hoffmann. ''Open your mind'' eles disseram.

O problema é que isso rolava nos anos 70, época onde o estilo ''deixa a vida me levar'' estava no auge, característica que hoje em dia colide violentamente com os moldes caretas de nossa atual conjuntura global.

Mas a música segue sendo feita. As tours mundiais são montadas, a grade se inicia e aí o caos começa a se infiltrar da mesma maneira que um dia já aconteceu num show do Dead. É uma experiência e tanto, algo que nunca tinha provado antes, até a Abraxas anunciar que o  Kadavar estava escalado para 4 shows no Brasil.


A primeira bomba explodiu em Goiânia. Com o patrocínio de mais um fest Vaca Amarela, o trio alemão chegou na escaldante terra do gole da tradição, a pinga 88, e fez com que as dependências do Martim Cererê demonstrassem a força de uma potência.

Sim meus amigos, a cena da tradicionalíssima cidade estava em peso. Foi gratificante ver toda a movimentação das 7 bandas envolvidas (sendo 6 da cena local), lotando a casa e encerrando a noite com a primeira dose de Abraxas, o estopim psicodélico, o primeiro shot de Kadavar.

Foto: Macrocefalia Musical

Rolou um som com o Sheena Ye, ecos de Fuzz com o The Revengers, retoques psicoespirituais com o Almirante Shiva e uma cascata de chiados com o DogManDryOverfuzzHellbenders... Foi uma sequência de peso, alta densidade, plurimusicalidade e uma amostra de como existe muita coisa rolando nos vários estados em que essa tour passou. É realmente um desafio entender como festivais dessa magnitude não são mais apoiados e respeitados por todo esse trabalho duro.

Mas nesse dia em particular, quem estava nos shows foi para prestigiar, sair com uma lista de novos grooves e ver como o underground segue tirando leite de pedra. Tudo bem que quando o Kadavar subiu no palco nem pedra tinha mais, a fricção dos caras fez com que os farelos virassem sultões.
Pela oportunidade de circular por Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis, vendo não só as cidades e seus ambientes, mas suas rotinas, as pessoas e as novas bandas em cada passagem, cruzando e descruzando nosso pais, o La Parola e o Macrocefalia Musical puderam confirmar e reconfirmar (até com a Dow Jones), como esse trio de barbudos jesuítas está um grau acima de tudo que impera dentro da música pesada hoje em dia.

A primeira noite foi em Goiânia. Logo de cara o show já começou como se fosse um campo minado, com um track atrás da outra, durante mais de uma hora, sem mimimi, no seco e com uma timbragem assustadora.

O reverendo Christoph Bartelt é um dos bateristas com maior peso de síncope. O kit do aprendiz de viking é compacto, mas seu grande segredo é que ele não é um marionete de batidas, ele não cria a esmo, a pulsação surge através dele.

Foto: Macrocefalia Musical

Na guitarra o feeling de Christoph Lindemann para administrar os vocais junta da guitarra é impressionante. O cidadão comprova que o riff ainda é a alma do negócio e no meio dos improvisos, é notável saber como cada um dos 3 se eleva sem entrar em devaneios desnecessários.

O groove do Kadavar é outra coisa que se destaca. O baixo de Simon Boutloup não segue a batera, ele entra nas ranhuras do vácuo deixado entra a bateria e a guitarra e se cria ali, nesse curto espaço de expansão. Não deixando as quatros cordas perderem o impacto e endossando a base do som que é o que faz você reconhecer o trio na hora.
Em São Paulo tudo isso se repetiu, mas é ai que a experiência de seguir a caravana se mistura e no fim surge como um coquetel globalizado. No Inferno Club tivemos outras bandas no Line up e a inauguração do Abraxas Fest.

Arte: Rafael Plaisant

O front das atrações foi substituído. Agora era hora de sentir a sinergia dos caras do Muñoz Duo e o peso translúcido da cena de Natal, mais especificamente da arenosa Rio Grande do Norte com os caras do Son Of a Witch e seus parceiros de Mossoró: o Monster Coyote.

Os acontecimentos não se deram nessa ordem, primeiro veio o Monster Coyote e aí o trio deixou claro com quantos bate cabeças nós podemos quebrar um pescoço. Apoiando boa parte do repertório sob o novo disco da banda (o excelente e recém lançado ''Neckbreaker''), a apresentação do combo foi contundente, o entrosamento bastante azeitado e cada um dos envolvidos merece destaque. O peso foi maçiço.

Foto: Macrocefalia Musical

Na sequência, o clima semiárido seguiu e foi a vez do Son Of a Witch adentrar o recinto. O quinteto subiu no palco e mostrou uma paixão desconcertante por estar fazendo parte de tudo aquilo... Foi um brilho que se manteve também no Rio de Janeiro e que no final das contas mostra como um sonho pode ser a fagulha para uma expressão maior do que nós mesmos, assim como a performance da banda para ''Melting Ocean''. Santa traquéia King Lizzard!

Foto: Macrocefalia Musical

Seguindo o itinerário do caos, os mineiros do Muñoz sucederam o Stoner e aí o Inferno Club mostrou o motivo pelo qual recebe este nome. O antro de satã, situado na tradicional Rua Augusta, estava lotado, o calor infernal, mas a dupla nem deu bola. A química quase telapática dos irmãoes Samuel e Mauro Fontoura é ardilosa, as composições extrapolam os níveis aceitáveis de fritação e o resultado sai das caixas como um início de um incêndio.
A bateria não é um maracatu de Chico Science, mas pesa uma tonelada. A guitarra não é um serrote mas dilacera riffs, tudo pautado no impriviso e na liberdade criativa. Foi explosivo, quando rolou o cover de ''Inside Looking Out'' pensei até em ligar para o Mark Farner.

Até agora não sabemos se ele atendeu, confesso que meu 3G não é lá essas coisas e o barulho foi um inimigo complicado de superar. Fora que quando o Kadavar entrou, até desliguei o aparelho, nem se eu fosse a própria operadora conseguiria ignorar a segunda noite de riffs Kadavéricos.

Foto: Macrocefalia Musical


Com um set list digno de colocar na porta da geladeira, o trio trouxe todos os instrumentos até a beira do palco e tocou num espaço mínimo, o que foi suficiente para transformar o recinto num emulador de coliseu. Bartelt pulsava na bateria como um sádico, Christoph entrava num plano particular no meio de seus solos com requinte de Lord das trevas, enquando Simon seguia escalando o Everest da cozinha Alemã com rara astúcia e a surpreendente calma de um budista de Berlim.

No Rio de Janeiro a levada foi a mesma. O Teatro Odisséia compareceu em peso e mais uma vez a escalação do Son Of a Witch abrindo os trabalhos, com seus conterrâneos na sequência e o Muñoz fechando a trinca... Meu amigo, a platéria parecia uma panela de pressão! A noite foi suave igual um gargarejo com cactus.

O Monsters Coyote seguiu com a muqueca de neurônios, o Son Of a Witch manteve o banho maria cerebral no Stoner e o Muñoz seguiu no gratino blueseiro. O Kadavar então, a cada noite o show atingia novos níveis, o instrumental era faiscante, mais quente do que colocar a língua na tomada.

Não só o show do Kadavar, cada um dos nomes citados, dos estados e do pessoal envolvido nessa cena, prima pelo profissionalismo e pela excelência justamente quando a cena nacional paira sob a névoa da mediocridade e não faz nada para sair dela.

Foto: Macrocefalia Musical

Os mitos existem e surgem depois de muito trabalho e todos esses caras ralaram demais para fazer tudo isso acontecer. Trabalho duro é a palavra e é o que melhor define a cena workaholic brasuca e a magnitude deste trio alemão, que com tanto brilhantismo, revirou as tripas do itinerário tupiniquim com o apoio da incansável crew da Abraxas.

Esses caras fazem um enorme bem para a cena. É louvável ver como eles articulam novos eixos, colocam novas bandas no mapa como se fossem uma rota de um cartel psicodélico e, eles o fazem, justamente para mostrar que a reforma agrária da cena é necessária.

Foto: Macrocefalia Musical

Bônus: Kadavar em Floripa, quem fez mágica dessa vez não foi a ilha.


Para fechar a tour brasileira, o Kadavar saiu do centro do país e desceu pro sul. O trio barba e cabelo desembarcou em Floripa para conhecer a ilha da magia e fazer um show memorável.

Mais que um show, foi uma celebração. E a casa que abrigou tudo isso foi a Célula Showcase, um lugar não muito grande, mas com uma acústica massa, uma galera empolgada e cerveja bem gelada. Local bem escolhido, diga-se de passagem.

Antes de tudo, porém, teve a introdução. Quem subiu ao palco para fazer o aquecimento do melhor do hardpsych 70’ germânico que estava para chegar foi o duo mineiro Muñoz. E foi muito à altura. Se tem duas coisas que esse duo sabe fazer é: chacoalhar a cabeça e tocar pra caralho.

Foto: Macrocefalia Musical

Quando o Muñoz acabou seu show e anunciou que logo tinha Kadavar, choveram aplausos dentro da casa. Não só porque o motivo de todos estarem ali estava quase chegando à hora, mas porque o aperitivo da noite foi muito bem servido. Deu uma larica sonora, uma vontade de ver/ouvir mais.

Nesse tempo, estava eu no mezanino da casa, observado tudo de cima. E como o lugar era meio intimista e tal, foi tranquilo descer e ficar lá na frente do palco, aproveitando que nesse intervalo a galera dispersou pra ir fumar, ou ao banheiro, ou comprar mais cerveja.

Foi aproximadamente meia hora de intervalo até que finalmente iniciou o riff de Lord Of The Sky. Que momento! Na primeira música já deu pra sentir a energia e o peso do trio. Duas SG’s na linha de frente - baixo e guitarra - e uma Odery no fundo. Não tinha como não soar bem. E com quem ainda sabe das coisas operando as máquinas então…

Foto: Macrocefalia Musical

Não estava nas noites mais quentes de Floripa, mas mesmo assim deu pra sentir que quem mais sofria com a temperatura ali dentro era a própria banda. Também pudera, diretamente da fria Alemanha, seria estranho se isso não estivesse traduzido nas expressões faciais - e no suor - da banda.

O show pegou todo mundo de jeito logo de cara. E em diferentes vibrações. Enquanto no mezanino o lance estava mais tranquilo, ali pela frente do palco uma galera ensaiava uma roda. Mas foi de boa, inclusive não afetou muita gente não. Tinha até uma mina na primeira fileira com um LP do Kadavar, pedindo autógrafo pra banda e tal. Espero que ela tenha conseguido depois do show.

Foi pouco mais de 1 hora de apresentação e com um repertório dividido entre os 3 álbuns que o Kadavar deixou a marca em Floripa. O show passou voando, justamente como são os melhores que a gente vai. A banda não conversou muito com o público, mas não por tédio e sim por característica. A cada thank you que Christoph Lindermann mandava no microfone, era nítida a sua expressão de agradecimento e surpresa. Os olhos não mentem.


Depois de várias patadas confirmadas como Black Sun, Doomsday Machine, Pale Blue Eyes e Stolen Dreams (as duas últimas filmadas acima), o trio saiu do palco. Mas o bis era óbvio, afinal não havia rolado ainda All Our Thoughts. Foi o ponto alto do show, com todo mundo cantando junto o refrão. Mais um momento pra ficar na memória.

Cheguei em casa um pouco surdo, mas não precisava ouvir mais nada mesmo. Meus ouvidos estavam doloridos, mas satisfeitos. Muito satisfeitos.

Foto: Leyre Ellen/Matheus Jacques

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Warren Haynes featuring Railroad Earth - Ashes & Dust

Enquanto a caravana do Gov't Mule segue lançando edições de aniversário à torto e a direito, o reverendo Warren Haynes conseguiu achar um espaço dentro de sua tumultuada agenda. Pelo visto ele arrumou umas horas de estúdio para tarefas extra curriculares, pois devido ao fim do Allman Brothers, o guitarrista estava com uma janela no horário e mesmo com a extensa tour do Gov't Mule, o americano ainda teve tempo de finalizar mais um disco.


Só que dessa vez não é nada do Gov't Mule. Finalmente, depois de quatro anos do excelente e Jazzísticamente sulista ''Man In Motion'' (2011), Warren volta com sua carreira solo e surpreende pelo approach acústico, Blue Grass, rústico e para variar excelente que permeia ''Ashes & Dust'', seu terceiro disco de inéditas, lançado dia 24 de julho de 2015.

Line Up:
Andrew Altman (baixo)
Tim Carbone (violino)
Oteil Burbridge (baixo)
Shawn Calvin (vocal)
Andy Goessling (banjo/violão/clarinete)
Carey Harmon (bateria)
Warren Haynes (vocal/violão/guitarra)
Marc Quiñones (percussão)
Mickey Raphael (gaita)
Todd Sheaffer (violão/vocal)
John Skehan (mandolim/piano/bouzouki)



Track List:
''Is It Me Or You''
''Coal Tattoo''
''Blue Maiden's Tale''
''Company Man''
''New Year's Eve''
''Stranded In Self-Pity''
''Glory Road''
''Gold Dust Woman''
''Beat Down The Dust''
''Wanderlust''
''Spots Of Time''
''Hallelujah Boulevard''
''Word On The Wind''


Esse disco é a prova viva de como a música dos primórdios ainda carrega uma importância incomensurável para todos esses excessos da modernidade. Warren fez algo que nunca imaginei que faria, tinha certeza que seu próximo lançamento seria na linha do ''Man In Motion'', mas não poderia estar mais errado.

Essas composições devem ter ficado de molho, esperando justamente esse break de shows e gravações, pois os insights Folk's, rurais e crus deste trabalho nunca foram trabalhados assim em nenhum dos diversos atos que esse cidadão já se envolveu.

Me lembrou bastante o primeiro disco solo do Dickey Betts, o excelente ''Highway Call'' (1974), a única diferença é que neste CD o foco é ainda mais acústico. Conta até com uma banda especialmente chamada para selar o projeto, o Railroad Earth, quinteto reponsável por abrilhanter as trilhas de carvão com um aveludado instrumental raiz.


Temos aqui 13 faixas e 60 minutos sonoramente resultantes. O feeling é absurdo e esse talvez seja o disco mais desafiador da vida, do agora, trovador solitário. O conteúdo das letras é lindíssimo, parece que os vários detalhes dessas faixas aproximaram o criador deste universo de toda a pureza que essa vertente envolve.

Neste trabalho Warren é um sábio e presta tributo ao som que foi o estopim para tudo que ele faz hoje em dia. ''Ashes & Dust'' não é só um disco excelente, é uma obra para relembrar a força da cultura americana do início dos tempos e comprovar o ecletismo de um cara que faz um bem enorme para o groove.


Groove este que mesmo nessa onda mais purista, ainda conta com Jams. Detalhes em banjo, requintes de violino e uma bateria sublime para preparar o ouvinte durante a abertura do disco, a balada ''Is It Me Or You''. Temos aqui um trabalho que vai lhe pegar pelo pé, a verdade das palavras ditas pelo compositor é sem prescedentes e com isso, a simplicidade nos faz apenas parar e ouvir a música, algo que as vezes passa batido no seu cotidiano.

Com ''Coal Tattoo'' ouvimos não só uma das melhores letras de Warren, mas também notamos que até nesses moldes o cara gosta de uma jam. É impressionante como as faixas são construídas, o instrumental sem efeitos, chegando ao apogeu do requinte sempre com a mesma classe do violino de ''Blue Maiden's Tale'' e seus angelicais sete minutos.


Algo mais agitado com as rasgadas cordiais do banjo em ''Company Man'', um slide contundente em ''New Years's Eve''... É um trabalho muito pessoal, conteplativo e com um sentimento que se apoia justamente dentro dessa pureza e raiz de tudo que foi criado.

A estética faz toda a vibe da obra. É um CD que vai fazer o ouvinte voltar ao básico, admirar letras como se o cantante fosse um trovador solitário em ''Stranded In Self Pity'', um poeta bêbado em ''Glory Road'' e a voz da experiência na beleza suprema de ''Spots Of Time'', a maior música do disco.

Warren Haynes meu rapaz, se você ver um disco com o nome desse cara, compre, por que sempre vale a pena. Ele sente, explora, muda... A música em seu ouvido é uma alquimia e quando ele toca é hora de experimentar, sem medo, apenas com sentimento. Uma aula!

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Jonas Hellborg - The Jazz Raj

Os Power Trios são formações aparentemente simples, mas aí é que está o erro, não são, podem existir muitas variáveis. E mesmo que esta modalidade esteja ''em baixa'' nos dias atuais, saiba que ainda temos músicos na vanguarda desta tradição, sempre tentando implementar seus projetos mantendo esta dinastia clássica.


E hoje venho com um dos músicos que ajudam a manter essa química única sempre na ativa, um dos maiores músicos de nosso tempo, o baixo suecamente virtuoso de Jonas Hellborg e seu novo trabalho, o petardo ''The Jazz Raj'' lançado em 2014. 

Um disco que vai abrir sua cabeça em relação às sonoridades que o Jazz pode alcançar, por que além do groove único de Jonas, temos o também suéco Mattias Eklundh na guitarra e o Indiano Ranjit Barot na bateria, dando sequência ao projeto ''Art Metal'' de Hellborg.


Interessante para o dizer o mínimo. É bom ver que temos músicos que ainda exploram suas cozinhas em busca de algo diferente e sempre acham! A linha de passes com esse trio ficou fantástica, Jonas tem a manha pra trabalhar nessa juridição e seus discos com Shawn Lane, Buckethead e Michael Shrieve são a prova que o cidadão não erra!

Line Up:
Mattias Eklundh (guitarra)
Jonas Hellborg (baixo)
Ranjit Barot (bateria)


Track List:
''The Swami On Park Street''
''Bacchic Frenzy''

O conteúdo do disco parece simples, mas não é. No recheio do biscoito temos ''apenas'' duas faixas, duas senhoras suítes, ambas superando a marca dos trinta minutos de duração, e esbanjando expanção sonora. 

Jonas acompanha as linhas insanas de IA (codinome de Mattias), que por sua vez tenta cobrir seu comparsa, que sempre atento, faz chão para a batera virtuosa do indiano Ranjit Barot (que foi um dos grandes segredos para esta sonoridade). No fim, tudo se mistura, nada tem ponto fixo e, assim sendo, perdido nesse oásis criativo, sua cabeça vai longe.

Temos momentos mais rápidos, outros iterlúdios mais lentos, passagens caóticas, chapadas, de puro feeling... É música num grau que só genes especiais estão aptos a produzir. A abordagem de IA é o principal termômetro para que este disco tenha se estabelecida dessa maneira. 


Jonas é maluco, mas é um maluco beleza, já IA é meio sequelado, por vezes se perde nos experimentos e surge com cozinhas nada fáceis de serem digeridas, mas aqui ele controla sua vontade por sangue e mostra um lado que espero que este estabeleça residência fixa. 

''The Jazz Raj'' é um trabalho de eloquência musical ímpar, quem conhece sabe da complexidade que é manter a bola em jogo durante mais de meia hora. O fôlego do batera é algo para se destacar, haja linhas para preencher e fazer frente a tanto virtuosismo, um ótimo trabalho!

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Red Garland Trio - Groovy

O Miles Davis foi um gênio, mas não foi um gênio sozinho. Todas as camadas instrumentais que formaram seus discos possuiam nomes acima da média em todas as posições, seres grandiosos, assim como o próprio norte mor. 

Chega a ser até cansativo pegar as listas de bateristas, baixistas, saxofonistas, percussionistas e guitarristas que já tocaram com o americano, era só a nata! Algo que impressiona não só pelo faro de gol do trompetista artilheiro, mas que também serve como um celeiro de aprendizado sobre as dezenas de craques com que o genioso mestre tabelava.

Sua discografia não é só uma meca imensa de criatividade e história. Todas os rolos de fita com seu nome na impressão são mais do que traços evolutivos e históricos do Jazz, nos revelam milhares de músicos brilhantes e com eles, novos caminhos são conhecidos e explorados e, quando notamos, chegamos ao cerne de todo o estilo: o lance era tocar.

Quando se fala em Jazz vemos discografias que, endossadas por apenas um nome, geraram mais de 50 gravações! A naturalidade sempre foi a base do estilo e quando os músicos se reuniam, algo sempre ia parar no rolos, a história era escrita a todo momento e nenhum fraseado ficava sem base.


E um dos grandes nomes que marcaram presença em discos fundamentais na vida de Miles foi Red Garland, um pianista brilhante e que apesar de excepcional, foi ofuscado por Bill Evans, Herbie Hancock e Chick Corea, apenas alguns nomes que também sentaram ao piano enquanto o trompete era aliciado no época clássica.

Só que hoje (depois de 31 anos de sua morte), a crítica crava seu nome como sendo um dos mais importantes, não só dentro da carreira de Miles, mas sim dentro da história do Jazz. Além de seus discos com o dono do trompete com Wah-Wah, Red ainda gravou John Coltrane, Art Pepper e deixou uma vasta carreira solo com um requintado fraseado Blueseiro.

Escola que, é válido ressaltar, foi única dentro do arsenal de pianistas que Miles teve a sua disposição. E se você não conhece seu trabalho, creio que ''Groovy'' (disco lançado pela Prestige em 1957), seja uma boa porta de entrada para as drogas mais pesadas.


Line Up:
Red Garland (piano)
Paul Chambers (baixo)
Art Taylor (bateria)



Track List:
''C-Jam Blues'' - Barney Bigar/Duke Ellington
''Gone Again'' - Curtis Lewis/Curley Hamner/Lione Hampton
''Will You Still Be Mine'' - Matt Dennis/Tom Adair
''Willow Weep For Me'' - Ann Ronell
''What Can I Saw After I Saw I'm Sorry?'' - Walter Donaldson/Abe Lyman
''Hey Now''


Se Garland tivesse nascido Rock 'N' Roll, é bem provável que hoje o cidadão seria referência para power trios, tamanha foi sua excelência nessa modalidade. E como o Jazz também possuia um bom jogo de cintura para trabalhos com esta formação, o americano deitou e rolou tocando com dezenas de grandes músicos e mantendo apenas uma unidade em todos os seus trios: a qualidade soberana de sua lírica pianistica.


Exemplo raro e refinado de feeling, que em ''Groovy'', oferece uma faceta mais ácida de seu marfim malhado. Instrumento que exuberantemente acompanhado pelo baixo sem pontos fracos de Paul Chambers e da cadenciada bateria de Art Taylor, leva o ouvinte ao delírio enquanto as notas surgem com a naturalidade de gotas na chuva.

Impressionando pelo preciosismo nas longas jams (especialidade da casa), como na abertura do disco com ''C-Jam Blues''. Levando os mais sensíveis aos prantos com o feeling de ''Gone Again'' e o tenaz baixo de Chambers ao fundo e justificando o nome do disco, com os grooves intensos de ''Will You Still Be Mine''.


Esse era William Garland, um cara que conseguia manter a estirpe não importando o estilo em que se prestava a tocar. Seja na batida mais lenta ou ao som do excelente ''Goovy'' que nomeia este disco, quem escuta não só esse play, mas qualquer outro que o pianista gravou, saca na hora que ele era diferente.

Ouvir o mestre com seus trios é a melhor pedida, pois o improviso é ainda mais perceptível nas bases criativas. Deixando espaços para o baixo preencher e outros para a bateria virar, sem podar a vibração ou as contribuições alheias, apenas esperando o momento certo para desconcertar os ouvintes, ''Willow Weep For Me'', senhoras e senhores.

O piano é um instrumento duro em sua concepção material e na musical. São necessário alguns meses para que algo saia dele, mas ao som deste cara parece até fácil extrair as notas certas. Característica subjetiva, ainda mais quando falamos sobre o montante de possibilidades que temas como ''What Can I Say After I Saw I'm Sorry'' possuiam ao vivo.

Mas é aí que está o grande segredo, todas as composições deste gigante não geram segundas opiniões, elas surgem absolutas, tal qual seu único tema autoral para esta gravação. ''Hey Now'' só não é perfeito por que o cara era humilde, de resto, ''Groovy'' está quase lá.

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Grateful Dead - Sunshine Daydream

O Grateful Dead acabou em 1995, mas quem é fã do grupo sabe que o círculo da banda está longe de acabar, e seus lançamentos póstumos são a maior prova disso. O Dead lança material novo todos os anos e em vários formatos, já que a banda possui rolos e mais rolos de gravações excelentes.

Gigs que fizeram a trilha cobrindo desde a década de sessenta até o meio da década de noventa, tudo com um trabalho perfeito e com uma equipe fantástica por trás de tudo isso. São 5 box sets, 42 shows ao vivo (registrados tanto em vinil como em CD), séries clássicos como os 36 trabalhos com o nome de ''Dick's Picks'', 17 com a alcunha ''Road Trips'', 15  Dave's Picks...


São dezenas de lançamentos e isso que citei acima foi apenas uma parte deste vasto material. A banda trabalha dia após dia para manter o nome da Jam intacto, sempre com edições fantásticas e um casamento perfeito com a Rhino.

Os psicodélicos são mestres nos quesitos finalização e qualidade de cada peça que aparece no mercado, seja com livros de foto, gravações raras, caixinhas duplas, triplas, quádruplas e pack's com tiragem limitada... De fato é um trabalho brilhante, mas o problema é bancar tudo isso morando no Brasil.

Os Deadheads competem entre si nessa modalidade. Se você entrar na internet e procurar, verá alguns cidadãos que dizem possuir TUDO que já saiu com o nome da banda. São coleções lindíssimas, mas que nós, brasileiros, temos que admirar a distância, já que pouquíssimas edições conseguem chegar ao nosso país.

Mas graças à Globalização, o excelente ''Sunshine Daydream'' (lançado dia 17 de setembro de 2013), conseguiu passar as barreiras da distância e atingir a vitrola daqui de casa. Finalmente o show mais pedido pelos fãs da banda foi lançado e tudo que envolveu este árduo trabalho é absolutamente recompensador, a qualidade é soberba mais uma vez.


Line Up:
Jerry Garcia (guitarra/vocal)
Donna Jean Godchaux (vocal)
Keith Godchaux (teclado)
Bill Kreutzmann (bateria)
Phil Lesh (baixo/vocal)
Bob Weir (guitarra/vocal)



Track List CD1:
First Set
''Introduction''
''Promised Land'' - Chuck Berry
''Sugaree''
''Me And My Uncle'' - John Phillips
''Deal''
''Black Throated-Wind''
''China Cat Sunflower''
''I Know You Rider''
''Mexicali Blues''
''Bertha''


Track List CD2:
Second Set
''Playing In The Band''
''He's Gone''
''Jack Straw''
''Bird Song''
''Greatest Story Ever Told''


Track List CD3:
Third Set
''Dark Star''
''El Paso'' - Marty Robbins
''Sing Me Back Home'' - Merle Haggard
''Sugar Magnolia''
''Casey Jones''
''One More Saturday Night''


Nos discos ao vivo temos mais um verdadeiro arregaço no quesito instrumental. A banda estava no auge e o set list é mais uma bela e agradabilíssima surpresa, repleto de temas dos mais variados períodos da banda.

Fora a trinca ao vivo, temos também um video que cobre uma parte do show. São quase duas horas de filmagens, registros psicodélicos completamente chapados que além de serem o maior sonho de consumo dos fãs mais antigos do grupo, possui uma peculiaridade que muito me impressionou: aqui Jerry Garcia toca com uma Fender durante todo o espetáculo.

Sim meus amigos, durante todo o show o barbudo deixou sua guitarra assinatura de lado, a belíssima Alembic foi trocada pelos encantos da Fender e esse é apenas um dos detalhes que sacramentam esse grande momento. 27 de Agosto de 1972 foi uma tarde mística, é mais um daqueles dias que eu gostaria de ter vivido e ter feito parte deste clã de hippies.


Track List das faixas presentes no filme:
''Promised Land'' - Chuck Berry
''China Cat Sunflower''
''I Know You Rider''
''Jack Straw''
''Bird Song''
''Dark Star''
''El Paso''
''Sing Me Back Home''
''Greatest Story Ever Told''


O único problema é o preço de tudo isso. Arrematei tudo por 140 mangos e mesmo sendo um preço salgado, devo salientar que vale a pena. Pensem e repensem nas décadas de tratamento de imagem, na finalização dos discos, a bela capa e contracapa, os toques coloridos do picture disc...

O resultado final é de um esmero profundo e no fim das contas é o que conquista os fãs da banda dia após dia. É gratificante ver uma banda que se importa com seu legado e  no fim do dia ver o Jerry Garcia malhando o judas numa Fender é apenas mais um detalhe (!) Quando você terá a chance de ver tudo isso novamente? Vale a pena meu amigo, faça uma vaquinha que o Grateful Dead merece um lugar em sua coleção!

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A guitarra envenenada de Boogaloo Joe Jones

Vibração, riffs e ondas. Ruídos, energia e reverberação. Ressonância, eco e efeitos. Bends, notas e melodias. Lick's, solos e pontes: shangi-Lá. Narrado de maneira fragmentada, temos aqui, de forma bastante didática, a enumeração de todos os passos necessários para atingirmos o orgamo sonoro.

Temos acima o mapa astral de cada detalhe que permeia o momento mor para uma guitarra semi-acústica. O apogeu do frenesi estético de uma cozinha compacta que mais parece uma big band. Fruto de uma vitaminada mistura de Blues, Funk e Jazz em néctar de feeling sem efeitos e pesticidas (mata praga), conheçam o impressionante Boogaloo Joe Jones.


Toda a sorte de elogios, palavras soltas, ao vento ou na sombra, são destinadas à figura cult do senhor Ivan Joseph Jones, um cara que depois de rechear a década de 70 com nove (fabulosos) discos, simplesmente sumiu em meio à fumaça. Hoje pouco sabemos sobre o cidadão, seus discos se tornaram verdadeiras relíquias, mas o pouco que que temos disponível busca apenas elogiar uma mistura embriagante, pulsante e visionária.

Sua guitarra era veloz, cheia de feeling e mesclava tudo que foi citado com uma naturalidade assombrosa. O segredo talvez era o entendimento ''Rocker'' que o negrão possuia, nota-se que a partir do Blues o primo mais pesado surgia e era enquadrado em padrões Jazzísticos com uma grandeza poucas vezes ouvida.

Hoje toda essa fritação é conhecida como Acid Jazz e o reverendo Boogaloo é, sem dúvida alguma, um dos principais nomes da vertente. Algo que fica claro como seu timbre quando ouvimos ''What It Is'', por exemplo, sexto disco de estúdio (pela Prestige) lançado em 1970 e  um de seus trabalhos mais inspirados, 

Line Up:
Boogaloo Joe Jones (guitarra)
Grover Washington Jr. (saxofone)
Butch Cornell (órgão)
Jimmy Lewis (baixo)
Bernard Purdie (bateria)
Buddy Caldwell (percussão)



Track List:
''Ain't No Sunshine'' - Bill Withers
''I Feel The Earth Move'' - Carole King
''Fadin'''
''What It Is''
''Let Them Talk'' - Sonny Thompson
''Inside Job''


Essa é a guitarra do cult Boogaloo Joe Jones, um mestre desconhecido com pinta de nerd, mas com um swing instrumental descoladíssimo. O motivo pelo qual escolhi esse disco foi a abordagem. Na maioria de seus registros o que se escuta é uma explosão da mais fina qualidade, o som é dinâmico, rápido, beira o virtuosismo, mas aqui não, ''What It Is'' marca pelo tom dramático.

São 6 temas, sinuosos, fraseados rebolantes e pouco menos de 40 minutos de trocas sonoras. Notas que iniciam o escambo com (possivelmente) o melhor cover de ''Ain't No Sunshine'' que já foi feito. A banda é brilhante, a guitarra de Boogaloo dá o tom, mas a batera (Bernard Purdie) não perde o marca passo, o sax (Grover Washington) está sempre atento e o órgão de Butch Cornell, rapaz, o órgão uiva sempre que possível.


A cozinha deixa tudo armado para a guitarra ficar solta, o baixo preenche os espaços e o resultado são versos completamente desconstruídas para temas clássicos, como em ''I Feel The Earth Move'', hit da (hoje já senhora), Carole King. A levada é ácida, o repeat é usado até quebrar a mola do botão e acredite, vai demorar pra você chegar até o estardalhaço autoral de ''Fadin''' e a sucessora faixa título.

O cara teve muita falta de sorte, mas ainda bem que temos a internet para nos auxiliar, afinal de contas são trabalhos como esse, discografias deste nível, que jamais podem se perder. O senhor Ivan eletrifica sua mente, faz você andar mais rápido na rua e tudo que ele usa é o Funk como moeda de troca para intercalar Blues, Jazz e toques de Gospel.

Boogaloo Joe Jones, grave esse nome e tente batucar no ritmo de ''Let Them Talk'' e ''Inside Job''. Você precisará de 4 pares de mão para seguir a classe desse groove enquanto tenta encontrar mais discos de um dos guitarristas mais interessantes que já entraram em estúdio.

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The Art Of McCartney - The Songs of Paul McCartney Sung By The World's Greatest Artists

Estava ouvindo ''Appreciate'' do Paul McCartney hoje cedo. Nas últimas semanas tenho consumido muito sons feitos pelo ex Beatle e o motivo foram as lembranças de sua última visita ao Brasil, sessões de reconhecimento que aconteceram em 2014. 

Com essa overdose de Paul ainda em andamento, resolvi dar uma repassada na carreira solo do britânico, porém resolvi fazê-lo de trás para frente, começando em 2013 com ''New'', a versão do Steve Jobs na música futurista. E foi ai que ''Appreciate'' ficou no repeat... Foram horas ouvindo Paul, imaginando como foi o show e lembrando de diversos momentos onde sua música fez a trilha de várias etapas de minha vida.


E agora que que ''The Art Of McCartney - The Songs Of Paul McCartney Sug By The World's Greatest Artists'' (disco lançado no dia 17 de novembro de 2014), se tornou público, é que não vejo nenhuma previsão de fim para esta recaída para com uma das drogas mais perigosas que existem, a música de qualidade.

Música está que aqui consegue cumprir a tarefa de enobrecer a criação de um (já) gigante maestro, e ainda o faz com requintes de particpações especias, resultando em uma bela homenagem, feita por quem entende do assunto.



Track List CD1:
''Maybe I'm Amazed'' - Billy Joel
''Things We Said Today'' - Bob Dylan
''Band On The Run'' - Heart
''Junior's Farm'' - Steve Miller
''The Long And The Widing Road'' - Yusuf/Cat Stevens
''My Love'' - Harry Connick Jr
''Wonderlust'' - Brian Wilson
''Bluebird'' - Corinne Bailey Rae
''Yesterday'' - Willie Nelson
''Junk'' - Jeff Lynne
''When I'm 64'' - Barry Gibb
''Every Night'' - Jamie Cullum
''Venus And Mars/Rock Show'' - Kiss
''Let Me Roll It'' - Paul Rodgers
''Helter Skelter'' -Roger Daltrey
''Helen Wheels'' - Def Leppard

Track List CD2:
''Hello Goodbye'' - Paul McCartney/The Cure
''Live And Let Die'' - Billy Joel
''Let It Be'' - Chrissie Hynde
''Jet'' - Robin Zander/Rick Nielsen
''Hi Hi Hi'' - Joe Elliot
''Letting Go'' - Heart
''Hey Jude'' - Steve Miller
''Listen To What The Man Said'' - Owl City
''Got To Get You Into My Life'' - Perry Farrell
''Drive My Car'' - Dion
''Lady Madonna'' - Allen Toussaint
''Let 'Em In'' - Dr. John
''So Bad'' - Smokey Robinson
''No More Lonely Nights'' - The Airbourne Toxic Event
''Eleanor Rigby'' - Alice Cooper
''Come And Get It'' - Sly And Robbie
''On The Way'' - B.B. King
''Birthday'' - ''Sammy Hagar

Faixas Bônus:
''C Moon'' - Robert Smith
''Can't Buy Me Love'' - Booker T. Jones
''PS I Love You'' - Ronnie Spector
''All My Loving'' - Darlene Love
''For No One'' - Ian McCulloch
''Put It There'' - Peter/Bjorn/John
''Run Devil Run'' - Wanda Jackson
''Smile Away'' - Alice Cooper


No total temos 34 faixas e se você estiver um pouco mais ousado economicamente, ainda pode arrematar 42 jam's, caso queria a versão deluxe, porém o que até mesmo os mais humildes terão acesso, é, para dizer o mínimo, um dos grandes tributos que a música prestou em tempos recentes.

E o melhor de tudo: os músicos envolvidos fizeram o projeto sair do papel enquanto Paul vive, e trabalhos como este apenas ressaltam a importância de preservar um legado e fazer isso enquanto o homenageado ainda está entre nós.

São mais de duas horas de som e uma coisa que vale a pena destacar é que esse disco não se trata apenas de Paul McCarntney, trata-se também de um grande sítio arqueológico para você, fã de música de uma maneira geral.

O resultado impressiona pelos covers que, além de mostrarem artistas bem ecléticos, destacam vozes que pareciam estar esquecidas e deixam fãs estupefatos com performances que nunca foram imaginadas antes, e  ''Bluebird'' com Corinne Bailey Rae talvez tenha sido uma delas.


Dr John com ''Let ’Em In'', Allen Toussaint com ''Lady Madonna'', Alice Cooper ao som de Eleanor Rigby e B.B. King com ''On the Way'' e o Soul de Smokey Robinson com ''Soul Bad'' são meus principais destaques, isso fora ''Come and Get It'' que convoca os mestres do Dub, Sly and Robbie.

No fim das contas creio que essa resenha é mais uma daquelas que pode correr o risco de ''chover no molhado'', até por que no final a conclusão deverá ser a mesma para todos: Paul ''Macca'' é um gênio, e é visto desta forma tanto por seus fãs, como por seus semelhantes.

E ver esta constelação reunida foi melhor do que olhar para um céu estrelado. Foi ótimo ter mais uma ''desculpa'' para se perder nos Beatles, Wings e no Paul solamente. Grande trabalho, óh faraônico Paul, fazendo jus à pontualidade de sua terra natal para as celebrações dos 50 anos da Beatlemania!

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Testament - Dark Roots Of The Earth

O Big Four é conhecido por conter Megadeth, Anthrax, Slayer e Metallica, mas como em qualquer tipo de lista, esta também poderia estar sujeita à mudanças, porém isso não acontece. Neste ponto, a legislação do Heavy/Trash parece lenta, a música de maneira geral parece não querer se desvincular dos medalhões, mesmo quando estes não estão mais em seu auge.


O Big Four é o exemplo mais claro disso, pois no quesito Trash Metal, a banda que mais impressiona nos últimos tempos não está cotada na lista (!) Precisamos de um Big Five, por que não dá pra deixar o Testament de fora, ''Dark Roots Of The Earth'' (lançado em 2012) é um trabalho fantástico.

Line Up:
Chuck Billy (vocal)
Gene Hoglan (bateria)
Greg Christian (baixo)
Eric Peterson (guitarra)
Alex Skolnick (guitarra)



Track List:
''Rise Up''
''Native Blood''
''Dark Roots Of The Earh''
''True American Hate''
''A Day In The Death''
''Cold Embrace''
''Man Kills Mankind''
''Throne Of Thorns''
''Last Stand Of Independence''
''Dragon Attack'' - Queen (Bônus)
''Animal Magnetism'' - Scorpions (Bônus)
''Powerslave'' - Iron Maiden (Bônus)
''Throne Of Thorns'' (Bônus)


O Testament ficou conhecido pelo Trash absurdamente técnico e pesado que a banda joga nos falantes desde o debut do grupo, falo sobre ''The Legacy'', lançado em 1987. De lá pra cá muita coisa mudou no Trash, mas isso não é novidade, só que o Testament é pioneiro em olhar pra frente.

Esse disco é o retrato do que teríamos no estilo, isso é claro, se o resto dos peso pesados parasse de olhar pra trás e fugisse da zona de conforto. Isso por que a música, assim como tudo na vida, só tem uma direção evolutivo, e não é indo para trás que iremos alcançá-la.


Esse disco mudou minha opinião sobre Trash em alguns aspectos. Ouvi esse trabalho apenas neste ano, só que foi o que citei no começo do texto, além de muitas bandas não inovarem, a qualidade que esses caras trazem é quase incomparável com qualquer coisa que role atualmente. É pesado, sem ser ensurdecedor e muito mais técnico do que muita banda de Prog por ai.

Em relação ao disco anterior (''The Formation Of Damnation'', lançado em 2008), nós tivemos a troca de baquetas entre Paul Bostaph e Gene Hoglan, o que poderia ter sido um problema, mas não foi. Gene é um dos bateristas com mais nome dentro do Trash e as linhas que o cidadão criou para este discos são um completo absurdo, tem hora que não dá nem pra acompanhar com o dedo!


Mas não só ele, a dupla de guitarras arrebenta e nós temos mais uma amostra do que um músico de Jazz pode fazer com qualquer tipo de música, até mesmo com uma tão extrema quanta esta. Alex Skolnick está ai para não me deixar mentir, sua guitarra vira a música do Testament do avesso como se fosse a coisa mais normal do planeta.

Preste atenção nas construções, ninguém faz isso. O baixo tem seu lugar, a bateria segue como o motor de todo esse caos... Ficou realmente excelente. Escute os vocais de Billy em ''Rise Up'', a dupla de guitarras esmerilhando em ''Native Blood'', baixão na faixa título e uma bateria animalesca nos compassos complexos de ''True American Hate''.

Solos absurdos, feeling de uma forma que poucas vezes pude escutar dentro desta vertente e espaço para experimentações, como em ''Cold Embrace'' e ''Throne Of Thorns''. Resultando num disco que se parasse de tocar após ''Last Stand Of Independence'', já estaria sendo absurdamente elogiado, mas não, na versão deluxe com DVD e vinil, ainda temos 4 covers excelentes. Destaque para os toques de NWOBHM no cover de ''Powerslave'', clássico do Iron Maiden. Discaço!

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