Wolfmother - Wolfmother

O ano foi 2005. Era uma manhã de sábado se não me engano. Estava no meu quarto jogando video game quando meu pai entrou e meu deu um CD contendo o Guitar Hero II. Lembro-me que nunca tinha ouvido falar daquele jogo, até por que só gostava de jogar futebol no famigerado Playstation, mas olhei a capa e vi uma guitarra, resultado: troquei o disco e comecei a jogar.


A primeira música que toquei foi ''Woman''. O jogo começou e logo entendi o esquema (afinal não é nada de outro planeta), logo, toquei essa mesma faixa durante umas duas horas. Depois, já meio baqueado, sai da televisão e fui para o Google com uma missão: descobrir quem era esse tal de Wolfmother.


Depois do redirecionamento nas pesquisas, achei uns links para o Youtube e carreguei alguns vídeos da banda na minha gloriosa internet de escada. Depois de assistir alguns clipes, descobri que eles tinham apenas um disco e, depois de deixá-lo baixando durante a madrugada, no Emule, finalmente consegui escutá-lo.


E rapaz, essa foi uma das primeiras vezes que fui impactado por um grande disco produzido na minha geração. Na época, acredito que não tive a real dimensão do que esse trabalho significava, mas esse autointitulado me mostrou que sim, tinha muita coisa boa rolando na minha época e, até hoje, quando escuto a estréia de qualquer banda, gosto de colocar o Wolfmother no play só pra me lembrar desse intenso sentimento de novidade.

Line Up:
Andrew Stockdale (guitarra/vocal)
Dave Sardy (percussão)
Chris Ross (teclado/baixo)
Myles Heskett (bateria)
Lenny Castro (percussão)
Dan Higgins (flauta)



Track List:
''Colossal''
''Woman''
''White Unicorn''
''Pyramid''
''Mind's Eye''
''Joker And The Thief''
''Dimension''
''Where Eagles Have Been''
''Apple Tree''
''Tales From The Forest Of Gnomes''
''Witchcraft''
''Vagabond''


Duvido muito que o trio que eternizou esse disco soubesse do estrago que estava prestes à fazer quando entrou no Sound City Studios em Los Angeles, Califórnia. Andrew Stockdale, Chris Ross e Myles Heckett, foram esses 3 senhores que consagraram a formação clássica do Wolfmother.

Tudo bem que Chris e Myles largaram o barco em 2008, mas uma coisa é certa: eles deixaram um sonoro eco de surdez por onde passaram. São pouco mais de 51 minutos de som, 12 tracks e seis singles que entraram nas paradas de sucesso com a mesma sutileza de um ataque terrorista.

Com a produção assinada por Dave Sardy, o trio utilizou tudo que, à principio, poderia ter prejudicado o resultado final deste clássico, como combustível para o sucesso. A pouco idade, a vontade de explodir para o mundo e a marretada suja que era essa união... Todos esses elementos conspiraram à favor do vento desta jam e o feeling psicodélico dos caras teve toda a atenção merecida desde o primeiro segundo de ''Colossal''.


Os timbres, os tempos quebrados, os teclados e a realidade nua e crua. Existe muito sentimento nesse som, algo que infelizmente não se ensina na escola de música do bairro. Feeling... Ou você carrega no case da guitarra, ou simplesmente seu som não possuirá alma, algo que definitivamente está presente nessa gravação.

Desde a homérica arte de Frank Frazetta e sua ''The Sea Witch'', o que sai dos fones é algo grandioso. É uma vista panorâmica para um ato caótico que por incrível que pareça, calculou cada bend que saiu na prensagem. No fim das contas é como se, no lugar da bruxa, Stockdale, Ross e Hesckett, estivessem observando o estrago que esse CD causaria.

Um impacto contundente, seja com a radiofônica ''Woman'' e seu inesquecível riff ou ao som da inventiva ''White Unicorn'', esse disco possui um quê de perigoso. Aquela fagulha que mesmo dez anos depois, ainda segue descabelando muitos conservadores por ai.


Aliás, aqui se faz necessário um pouco de justiça. Andrew Stockdale, o guitarrista e vocalista que hoje é a cara do Wolfmother, é de fato um músico do mais alto calibre, o único problema é que a memória curta da mídia não costuma citar e elogiar o importantíssimo papel que a bateria de Myles Heckett e o baixo/teclado de Chriss Ross tiveram em temas marcantes, como ''Pyramid'' e a sinousamente surpreendente ''Minds Eye'', talvez a melhor balada que o Wolfmother já criou... O tecladinho é de uma prudência ímpar!

E apesar da pouca idade, é notável perceber como existe esmero nessa gravação. Veja ''Joker & The Thief'', por exemplo, a guitarra entra e o dinamismo do trio para providenciar uma abertura grandiosa para o som é bastante cativante.

Só que aí é que está o lance, pegando um ângulo de 360 graus notamos que o todo é de uma sujeira enorme, remonta os anos 70, só que também desmonta a década de ouro do Hard com algo que só os tempos contemporâneos poderiam fazer.

Hoje, dia 31 de outubro de 2015, o relógio marca exatamente 10 anos que esse disco saiu. A primeira versão veio com uma track list diferente e no começo 2006 o CD saiu mundialmente, mas não interessa em que ordem você escute, temas como ''Dimension'' ainda trituram seu cérebro.


São faixas como essa que nos mostram que o Rock cerebral é muito bom (obrigado), mas que de vez em quando nossos hábitos mais primitivos precisam ser alimentados. Por isso que existe a real necessidade de formular sons como ''The Apple & The Three''. Registros pungentes, intensos e que além de muita gritaria, liberam doses incontroláveis de glicose para os ouvidos do ouvinte, além de nos mostrarem um tom de guitarra que praticamente faze o instrumento ranger.

Por isso que o interlocutor deste diálogo sonoro, o chamado cidadão-cobaia, se impressiona pela diversidade de influências presentes por aqui. Temos uma prova de que o trio fez sua lição de casa ouvindo os clássicos do Folk com ''Where The Eagles Have Been'' e comprovamos a boa lírica letrista com temas que beiram o conceitual, como em ''Tales From The Forest Of Gnomes''.


Guitarra ardida, vocais sem firula, passagens de teclado envolventes e um baixo que mais parece uma guitarra. Essa foi a receita do Wolfmother pra controlar sua mente durante todos esses anos, ou você acha mesmo que o Stockdale não sabe que você deixa ''Withcraft'' no repeat só pra se ligar na flauta de Dan Higgins? E a percussão do mestre Lenny Castro?!

Até o produtor do disco entrou na onda e somou no groove com uma dose de percussão. Quando o disco acaba os impactados estão extenuados, jogados em algum canto de vossa respectiva preferência, enquanto apenas concluem o óbvio: ''Vagabond'' é uma ótima trilha para fritar enquanto o mundo explode. Discasso, clássico sim, ousadia agora e fuzz como nunca, perpetuado nas platinas dessa cozinha para todo o sempre.

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Halloween & Black Sabbath

Hoje é dia 31 de outubro, também conhecido como Halloween. Musicalmente falando esse dia sempre me lembrou algo mais sombrio, gélido e que mesmo sendo instrospectivo, é pesado, cruel e estranhamente prazeroso. 

Posso enumerar alguns sons mais darks, porém nada se compara com o santo graal do caos nebuloso e amedontrador do Black Sabbath. Aliás, o quarteto é o primeiro grupo que surge na mente dos doentes maníacos quando o assunto é Halloween, inclusive, o sonho desta data era ser um Black Sabbath day.


Hoje o Black Sabbath é uma das minhas bandas preferidas, mas nem sempre foi assim. Quando meu pai me falou sobre o grupo, logo vi que o cidadão possuia todos os trabalhos que os britânicos tinham registado.

Mas graças à sua descrição inicial, este que vos escreve tinha imaginado uma coisa totalmente diferente. Minutos depois ele colocou ''Snowblind'' no play e ai minha suposição sonora desmoronou tal qual um barraco soterrando carne humana. 


Enquanto a música se desenvolvia eu já estava em frangalhos, o nome disso era medo. Tudo que conseguia pensar era: ''como posso estar com medo de uma música?'' Até hoje não consigo explicar, mas o fato é que estava quase me borrando e na minha cabeça era impossível ficar assim ouvindo um LP, parecia que estava vendo um filme de terror.

Hoje sei que a principal ideologia do Sabbath para atingir o som medonho que ouvimos eram os filmes de terror. Ioomi já disse diversas vezes, a banda queria fazer música para que as pessoas sentissem medo e eles de fato conseguiram.

Não sei se teve mais alguém no mundo que sentiu tamanho flagelo tal quando teve o primeiro contato com os caras, mas sei que de forma geral, o Sabbath é contundente em um aspecto, TODO MUNDO sente um arrepio quando aperta play.


O som desses caras tem o poder de liberar endorfina para o lado errado da força mental. Quando rola um Black Sabbath do bom  nós nos tornamos serial killers em potencial, psicopatas e criminosos incorrigíveis. Ao ouvir as notas negras dos apreciadores de coca-cola todos soltam um sorriso sádico, nós, fãs de Black Sabbath, gostamos de sentir medo.

Na primeira vez que ouvi eu tinha 10 ou 11 anos, detestei, nunca tinha sentido tanto medo na vida e fiquei três meses sem ouvir os caras. Mas por algum motivo (muito provavelmente de satã), a melodia de ''Snowblind'' não saia da minha cabeça e aí fui forçado a ouvir a jam necrotério novamente.


Ozzy cantava com uma voz digna de lunático bêbado, os pratos da bateria Jazzística de Bill Ward surgiam com timbres que me davam pontadas e Iommi espirrava riffs tal qual um corte nos pulsos. Isso sem falar da timbragem de choque de cadeira elétrica que o quatro cordas de Geezer Butler nutria em prol dos presos no corredor da morte.

Não sei nem como lhe explicar como sou capaz de gostar de algo tão perverso e aparentemente detestável, sei apenas que para os fãs dos garotos de Birmingham todo dia é Halloween e que parafraseando o Matanza: ''bom é quando faz mal''.

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John Frusciante - Shadows Collide With People (Acoustic Sessions)

Num mundo de excessos em todos os sentidos, as vezes faz bem escutar um som real, de verdade, completa e absolutamente sincero. Hoje em dia é muito comum observar os exageros que várias bandas nutrem, seja colocando milhões de instrumentos para uma eventual orquestração em massa, ou até mesmo exagerando nos efeitos em seu som... É tanta groselha que no fim das contas o ouvinte até perde o tesão no som. 

O disco poderia ser melhor se fosse mais simples, mas não, parece que hoje em dia as pessoas querem dizer tanta coisa ao mesmo tempo que não sabem nem por onde (nem como) começar. Falta um pouco de descompromisso, um certo relaxo, as vezes é bom ser Underground, você não precisa pensar em como tornar sua música vendável, só pelo cascalho em si.

Faz bem aquele que busca pensar com os sentimentos, não tenta mascarar nada e quer apenas que cada nota expanda sua reverberação da forma mais natural possível, assim como John Frusciante fez com sua versão alternativa de ''Shadows Collide With People'', lançado em 2004. 


Track List:
''Carvel''
''Omission''
''Regret''
''Ricky''
''Second Walk''
''Every Person''
''Wednesday's Song''
''This Cold''
''Song To Sing When I'm Lonely''
''Time Goes Back''
''In Relief''
''Water''
''Cut Out''
''Chances''
''The Slaughter''


Diferentemente de muitos artistas, Frusciante sempre deixou claro que ele faz música para se fazer feliz e, se isso ajuda alguém, ótimo, caso contrário, que pena. E depois de sua saída do Red Hot isso ficou ainda mais claro, já que o guitarrista está numa veia muito específica e MUITOS imploram para que ele saia dela.

Só que ele não vai, pelo menos não tão cedo e mesmo que a música não venda, ele já tem um pé de meia no banco. A questão aqui vai muito além de prazos e volume de vendas, John explora por que sente que precisa fazê-lo e por que não tem medo de opiniões e esse disco é mais uma prova disso, a essência que nos mostra o que é ser um artista de verdade.


''Shadows Collide With People'' foi o quinto disco de estúdio lançado por John, solamente. Neste trabalho em especial o guitarrista veio com um lado mais acessível musicalmente falando e o resultado foi que a crítica elogiou o trampo e as vendas foram surpreendentemente bem, mas o guitarrista ficou um tanto quanto desconfiado.

Se olharmos sua carreira solo em retrospecto, veremos que até chegarmos neste CD, todos os registros anteriores do americano exploravam aquele nicho da música experimental num grau altíssimo e nada acessível. Tudo era muito pessoal, desde a produção, que sempre foram feita pelo músico, sem alimentar gastos exorbitantes e com um pensamento de quem faz música de nicho.

Só que aqui as mordaças ficaram mais soltas. Esse trabalho foi o mais caro já criado pelo ex junkie, que aqui chegou a desembolsar cerca de 150.000 mil dólares só pra fechar o bico de quem reclamava de suas produções antigas, que muitas vezes foram chamadas de ruins e não profissionais, isso para dizer o mínimo.

E o resultado de fato ficou muito bom, e os fãs da sonoridade seca, densa e desajustada das primeiras gravações também apreciaram, mas ficou um pouco claro que Frusciante tinha se afastado um pouco de seus ideias, mas depois que o trampo viu a luz do dia o workaholic liberou uma versão diferente do mesmo e, que com o passar dos anos, ganhou um carinho muito especial por parte de seus fãs.


Depois da positiva repercussão, John colocou em seu site uma versão do mesmo CD só que completamente acústica, sem todo os  aparatos de produção, música pura, tanto para os fãs dos primeiros trabalhos, quanto para os admiradores de uma bela viola acústica. 

Aqui não tem nem bateria nem baixo, só voz e violão mesmo e o resultado é fantástico, singelo, bonito, íntimo... Parece até que ele está sentado no tapete da sua casa cantando para você.

É realmente uma pena que essa versão só tenha ficado disponível para download, de fato, a bolacha merecia uma chance em material físico e não sou só eu que sempre digo isso, o americano já deve ter recebido milhares de pedidos. 

E mesmo que muitos reclamem de suas overdoses com sintetizadores, da nova produção, deste disco (sacrilégio) ou sei lá mais o que, ele sabe que não vai agradar a todos, aliás, ele nem deve querer isso, e isso é uma característica que me faz ainda mais fã do ex Red Hot, ele se basta, e a música seria melhor se tivéssemos mais pessoas assim.

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Thundercat - The Beyond/Where The Giants Roam

É impressionante como a música prega peças até nos ouvintes mais experientes. Você já deve ter ouvido falar na banda de Trash Metal, Suicidal Tendencies, certo? Em tempos recentes, o cidadão que comanda o baixo nessa instituição (depois da saída do Robert Trujillo), é o Black Power de Stephen Bruner.

Só que a pergunta que não quer calar é: quem é Stephen Bruner? Seria ele apenas mais um baixista de Trash?! Meu caro, prepara-se para ficar impressionado. Sei que não é muito comum ver um músico de um estilo tão extremo quanto o Trash chamar atenção, mas Stephen não só chama sua atenção, como se transforma em outra pessoa quando pega o baixo e faz um som como o ''Thundercat''.


Não, ele não pega o baixo e se transformar no Lion, dos Thundercats, essa é apenas sua alcunha para assumir um papel completamente diferente dentro do groove. Esqueça o peso transgressor que promove a surdez dos Headbangers, Stephen largou essa vida e tomou o planeta de assalto quando resolver reproduzir os sons que ecoavam em sua mente.

Seis cordas num baixo, duas mãos e um talento absurdo. Essa é a receita do californiano de 31 anos de idade. Um verdadeiro sopro de ar fresco dentro de um cenário que só alimenta a mesmice, basta ir numa loja e comprar um pedal para ter o som de seus maiores ídolos.


Só que essa é a diferença de Bruner se comparado à outros músicos: ele não quer ter o som do Bootsy Collins, sua originalíssima mistura de Soul, música eletrônica, Funk e R&B cria algo que nunca foi feito até então e nos revela um músico ainda jovem, mas que já possui 3 trabalhos solos nesta alcunha, gravações com seu parceiro Kamasi Washington, sessions com o Flying Lotus, Taylor McFerrin, Erykah Badu, Kendrick Lamar e Keziah Jones.

É um senhor curriculum e o mais contundente é que em todas as participações que fez, Thundercat conseguiu imprimir seus genes, mesmo nas participações. Fazia tempo que um baixista não revirava meu cérebro dessa forma, o feeling do cidadão é assombroso, a criatividade impressionante e o resultado, simplesmente brilhante e futurista.


Track List:
''Hard Time''
''Song For The Dead''
''Them Changes''
''Lone Wolf And Club''
''That Moment''
''Where The Giants Roam/Field Of The Nephilim''


Depois de ficar 2 anos sem renovar os laços criativos do ótimo ''The Golden Age Of Apocalypse'' (2013), o baixista resolveu voltar com um trabalho um pouco diferente. ''The Beyond/Where The Giants Roam'', seu terceiro registro (lançado no dia 22 de junho de 2015), surge na forma de um mini album/EP e mantém aquele ar intergalático que o baixista sempre endossou, mas dessa vez surge de uma maneira mais experimental quando falamos sobre texturas.

O caráter psicodélico se mantém claro, o swing do Funk também, mas é perceptível que apesar de curto (são apenas 20 minutos de jam), esse trabalho mostra que o baixista ainda está por aí. Circulando pelos backstages com ideias de sobra e tempo pra seguir brincando no estúdio e mostrar que além da virtuosidade do baixo e seu fantástico feeling, o camarada ainda manja de falsete. Saque a vinheta de abertura, ''Hard Time'' é uma passagem curta, mas que deixa sua marca.


É um desafio ouvir o som que esse cara produz. O timbre do baixo, a alquimia de instrumentos tocados e o flerte com a música eletrônica... Composições como ''Song For The Dead'' carregam uma urgência nas partituras que é invejável! É desafiador meu amigo, tão desafiador que você passa a não enxergar limites para o Jazz-Funk quando se liga nos slaps do hit ''Them Changes'' e o sax de Kamasi Washigton ao fundo.


Rola de tudo, temos até Herbie Hancock fazendo os teclados da faixa mais bela de toda essa sessão laboratorial. ''Lone Wolf And Club'' tenta harmonizar os vocais de Bruner em primeiro plano com os que caminham em segundo, interrompendo as vozes de maneira abrupta e atingindo a transição (''That Moment'') para o fim da viagem que nomeia essa chapação.


Mais do que um cara que tenta ser único dentro de um mar de iguais que se auto copiam de maneira automática, Stephen busca tirar esse ar analítico da música e comprava que a experimentação é a alma da originalidade. Ele achou seu som e agora a missão é seguir levando seu nome para os públicos mais diversos em suas contribuições com outro músicos e manter os grandes trabalhos solos pela Brainfeeder, para que assim, a jam seja feita nos picos certos.

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Bob Marley & The Wailers - Uprising Live!

No dia 13 de junho de 1980, o combo Bob Marley & The Wailers, fez uma apresentação que foi transmitida em rede nacional pela Rockpalast, um programa alemão tradicionalíssimo, que além de transmitir shows de grande porte, gravava as jams e hoje é responsável por alguns dos melhores gig's das bandas que conhecemos.


Essa apresentação passou na TV, para um dos públicos que mais idolatrava o mestre. Bob viveu grandes momentos na Alemanha, lotava seus shows, vendia toneladas em LP's e a prova de tudo isso é ''Uprising Live!'', gravação de sua última turnê, que mesmo com a transmissão da TV local, acabou engavetada por algumas décadas, mas foi finalmente lançada no dia 24 de novembro de 2014.


Track List CD 1:
I-Threes
''Precious World''
''Slave Queen''
''Steppin’ Out of Babylon''
''That’s the Way Jah Planned It''


Bob Marley & The Wailers
''Marley Chant''
''Natural Mystic''
''Positive Vibration''
''Revolution''
''I Shot the Sheriff''
''War/No More Trouble''
''Zimbabwe''
''Jamming''
''No Woman, No Cry''


Track List CD 2:
''Zion Train''
''Exodus''
''Redemption Song''
''Could You Be Loved?''
''Work''
''Natty Dread''
''Is This Love?''
''Get Up, Stand Up''
''Coming in from the Cold''
''Lively Up Yourself''


Reza a lenda que depois de voltar do médico e ver que seu câncer tinha retornado de forma avassaladora, Bob foi passar o som pra um show e fez a banda tocar ''I'm Hurting Inside'' durante duas horas e meia.


A sensação de saber que sua vida está se esvaindo de suas mãos deve ser assustadora, mas nem isso foi capaz de assustar Bob. Sua última tour teve um cronograma absurdo, com o maior número de shows marcados para o menor espaço de tempo existente.

Ele queria estar em todos os lugares, pregando e deixando seu legado, pois sabia que o tempo estava acabando. Essa nova investida foi forte demais e produziu shows completamente fora da curva. Celebrações monumentais e completamente indescritíveis de paixão e amor pela música, ferramenta universal que mudou não só a vida do poeta, mas os dias sem graça de quem coloca os fones com uma track de sua persona no play.


E esse show resume a luta que foi essa última tour e como ela rendeu frutos maravilhosos, apesar do triste panorama que a permeou. Aqui rola até um pequeno set das I-Trees antes dos Wailers arrebentarem com um show duplo.

Aqui a banda de 10 integrantes deu tudo de si, Bob se entrgou de corpo e alma e nos mostrou a grandeza de um sábio que busca apenas inspirar seus semelhantes. A vitalidade presente aqui é sem tamanho, são quase duas horas e 23 sons, todos cantados por um homem que enfrentar o seu destino.

Sem o choro protegido de ''No Woman, No Cry'', mas com o brilho das inspiradas guitarras de Al Anderson e Junior Marvin em ''Is This Love''. O fim estava próximo, mas a liberdade era plena e esta comprovada aqui, musicalmente, com o acabamento Funky que faixas como ''Could You Be Loved'' e ''Exodus'' receberam.


Bob nos deixou menos de um ano depois dessa gravação. São 34 anos sem sua presença física neste plano, mas espiritualmente, o discípulo de Haile Selassie sempre esteve soprando por aí, livre como o vento e perpétuo como seus 70 anos.

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Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures

O Josh Homme é um dos caras que mais fez pela música e que menos leva crédito por isso. É claro que essa afirmação é direcionada para os centenas de pentelhos que possuem nomes estampados nas revistas como se fossem novos gênios. O único problema é que eles não chegam nem perto disso e o que é pior: possuem uma história bem menos significativa do que a do já citado guitarrista e vocalista.

Pra começar que Josh fez parte do pioneiro Kyuss, grupo que ajudou a criar, definir e distribuir os padrões do que hoje é conhecido como Stoner Rock. Depois disso o americano ainda começou uma banda do zero e reiniciou o taxímetro com a bandeira um do Queens Of The Stone Age.



E o resultado está aí pra todo mundo ver. O grupo está na ativa faz mais de 20 anos e a discografia dos caras já colocou seis petardos de estúdio na praça, isso fora os projetos paralelos, algo que em temos recentes, virou febre dentro da malha de workaholics.

Só que entre as várias afiliações deste senhor, o Them Crooked Vultures é a maior estrela dessa constelação de grandes discos. É bem verdade que o supergrupo só registrou um trabalho até agora, mas a banda ainda pulsa, o groove está apenas num período de hiato em virtude da falta de tempo de todos os envolvidos... Eles precisam apenas de uma brecha para prosseguir com esta bela química sonora.

Aliás, pode crer que daqui uns vinte anos esse disco será lembrado. Eis aqui um som fresco diretamente de 2009 com síntese de power trio rumo à modernidade. Josh, você está contratado, pode chamar seu amigo Dave Grohl e seu comparsa John Paul Jones.

Line Up:
Josh Homme (guitarra/vocal)
John Paul Jones (baixo/bandolim/teclado/piano/violino/vocal/clavinet)
Dave Grohl (bateria)



Track List:
''No One Loves Me & Neither Do I''
''Mind Eraser, No Chaser''
''New Fang''
''Dead End Friends''
''Elephants''
''Scumbag Blues''
''Bandoliers''
''Reptiles''
''Interlude With Ludes''
''Warsaw Or The First Breath You Take After You Give Up''
''Caligulove''
''Gunman''
''Spinning In Daffodils''


Formado por três nomes que à primeira vista não se misturam, o Them Crooked Vultures é uma das cozinhas mais originais que o senhor escutará nesse contexto contemporâneo que habitamos. Josh surge com um de seus trabalhos mais criativos na guitarra, Jonesy frita e não frita pouco em seu baixo, solando e servindo um banquete de belas passagens, enquanto Dave Grohl registrou um de seus melhores momentos na bateria.

Teoricamente a receita é essa, na prática, o buraco é bem mais embaixo, é quase um poço artesiano. O conceito musical é bastante abrangente, vai desde a psicodelia que emula Blueseiras, até devaneios progressivos que sucumbiram às mais ácidas pirações em nome do peso que, sem exagerar, pondera todas as considerações que vemos acima, ordenadas na track list.


A banda começou oficialmente em 2009, mas desde 2005 a semente estava germinando. Numa entrevista para a Mojo (em 2005), Grohl comentou sobre uma colaboração envolvendo John Paul Jones e Josh Homme, mas nada aconteceu realmente, até a esposa de Josh (Brody Dalle) dar com a lingua nos dentes (em julho de 2009) e declarar que essa união originara um som nunca feito até o momento.

Mas ainda faltava um nome, adjetivo que surgiu ao acaso e que na prática não possui nenhum significado. A solução foi apenas um substituto para ''Caligula'', alcunha que fora escolhida anteriormente, mas precisou ser trocada, pois algum espertinho já estava utilizando.

Depois foi só começar a lombra. Com as gravações agendadas para o meio de 2009, o trio foi para Los Angeles, gravou a bolacha e depois que o disco saiu (no dia 16 de novembro do mesmo ano), foi só embarcar numa tour européia (junto de Alain Johannes para somar no groove ao vivo). Aliás, a jam chegou até a Oceania, atravessando o globo e se encerrando em 2010 para que os 3 pudessem retomar outras ideias.


Mas o fato é um só, até agora não saiu nada novo e o trio segue trabalhando em novas composições com foco em cada uma de suas respectivas bandas (ou carreira solo no caso de Joseny). Só que esse disco é tão competente e profundo, que o burburinho está no eco dos falantas até agora.

E o motivo é plenamente justificável, afinal de contas acredito que seja bem improvável que o senhor consiga ignorar o apelo de hits em potencial como a àcida ''No One Loves Me, Neither Do I'', sua sequência radiofônica (''Mind Eraser, No Chaser'') e a viciante ''New Fang''.

Além de ser o disco responsável por tirar John Paul Jones do sofá (após 8 anos de ''The Thunderthief'', lançado em 2001), a estréia desse supergrupo marca o retorno do bass man do Led Zeppelin para o Rock 'N' Roll. Evidencia também seu fôlego de menino para compor grandes temas, abrilhantar passagem chapantes e tocar dezenas de instrumentos. Tudo como nos velhos tempos.


Apostando numa química mais densa para ''Dead End Friends'', melodias bipolares em ''Elephants'' e num Funky Clavinet para as texturas de John Paul na session ''Scumbag Blues''. De fato, a riqueza é impressionante e muitos detalhes de toda essa fauna-e-flora sonora saíram da mente de Jones.

Brilhante mestre que no intervalo dos tempos quebrados de ''Bandoliers'', ainda gravou um piano classudo para engrossar a brisa de ''Spinning In Daffodils'', e registrou a guitarra slide que inunda seus ouvidos em ''Reptiles''.

Assuma meu caro, você duvidou de Dave Grohl quando viu o nome do senhor Foo Fighters nos créditos, mas seria muita palhaçada de sua parte não reconhecer os inventivos e vigorosos arranjos da calhorda e Zeppeliana ''Warsaw Or The First Breath You Take After You Gave Up'', a maior jam desse disco.

Um glorioso registro, que entre trocadilhos com o antigo nome deste grêmio sonoro (''Caligulove''), cola vossos ouvidos no play e, mesmo depois de 6 anos, ainda inspira trilhas para um baurete e alguma esperança de sequência para essa promissora piração.

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Taste - Live At The Isle Of Wight: os conquistadores do nada na terra do nunca

Power Trio de cidade pequena. Um dos atos mais explosivos da pequenina Cork, sul da Irlanda. Definitivamente, o Taste merecia mais. Formado em agosto de 1966 e fadado aos insucesso, o trio que revelou Rory Gallagher para o mundo não apareceu do nada, com John Wilson e Richard McCracken, para tomar o The Isle Of Wight de assalto.

Antes do apogeu do fim, o Taste caminhou firme para ser um das maiores bandas da história. A primeira formação foi para o papel com Eric Kitteringham no baixo e Norman Damery na bateria. No começo a banda rodava a Irlanda e fazia alguns gig's em Hamburgo, Alemanha, até começar a trabalhar como banda residente em algumas casas ao norte da Irlanda, após o trio se mandar para Belfast.


Com o tempo o som foi se espalhando e finalmente, já em 1968, o trio começou a tocar no Reino Unido, justificando a efervescência da invasão britânica. Assim, o gatilho para a segunda formação da banda (o chamado MK II) foi puxado.

Foi só pegar essas datas no Reino Unido que o manager do trio, Eddy Kennedy, agiu sem pestanejar. Na época ele justificou que um guitarrista como Rory precisava de uma nova banda, e para tal, aproveitando dois músicos que o malandro tinha sob sua batuta (Wilson & McCracken, veja só a coincidência), que a base rítmica do The Axils, a banda anterior da dupla, acabou consolidando um dos maiores combos do planeta.



Na hora não pareceu armação, afinal de contas foi com John Wilson e Richard McCracken que  um contrato de gravação com a Polydor foi assinado. Só que essa mudança (que foi ótima para a banda), além de fixá-la em Londres, foi uma amostra do que acontece quando o talento é usado como laranja para esvaziar cofres e diluir notas.

Rory tinha 18 anos quando formou o Taste em 1966. Ele sabia que o cenário de sua pátria não era promissor: na Irlanda, ou você tocava nas showbands (como Rory fez desde os 15 anos), ou saia da agitação política do período e fugia para o Marquee Club. A cena não chegava até você, o Maomé precisou pegar um ônibus até o Everest do underground.


Em novembro de 1968 o Taste, junto com o Yes, abriu o Farewell Concert do Cream no tradicionalíssimo The Royal Albert Hall. A subida e sua respectiva afirmação dentro do mais alto escalão do Rock era nítida. Foi questão de tempo até os Estados Unidos entrarem na rota e quando este o fez, já trouxe o Canadá de brinde e uma tour como atração de abertura para o Blind Faith. 

Em abril do ano seguinte, a banda liberou seu primeiro full lengh, o primeiro de dois clássicos. O autointitulado ''Taste'', sendo sucedido por ''On The Boards'' no começo de 1970. Comprovando uma avassaladora evolução instrumental, com o segundo LP marcando, principalmente, pelas influências advindas do Free Jazz, algo que demonstra como a banda era uma das mais completas do cenário, seja trabalhando com peso na cozinha hardeira ou com insights malucos com Rory no saxofone.


Está aí, resumidamente, como foi o caminho do Taste até o anonimato. Esse trio não foi só um dos maiores de sua geração, como também fez tudo que os mitos da época conseguiram: criou uma sonoridade ímpar e claro, bastante particular. Era uma união de músicos brilhantes e que conseguiram um lugar ao sol concorrendo apenas com gigantes, como o Cream, Cactus e o The Jimi Hendrix Experience.



Rory e cia foram visionários. O Jazz era pauta nesse som antes mesmo do guitar hero pegar o sax. Com gaita mesmo já dava pra ver como os fundamentos Jazzísticos de Wilson e Richard desmembraram a maneira como o riff maker trabalhava. O entrosamento dos dois com Rory foi o elo que manteve apenas os fundamentos de improvisação do Blues, assim ele poderia seguir qualquer linha, e foi exatamente isso que aconteceu, o som do Taste podia ir do Folk ao Jazz com a mesma naturalidade de um aristocrata britânico durante o chá das 16:20.

Deu no que deu, o Taste tocava qualquer coisa. Os três solavam, se acompanhavam, se perdiam na jam supersônica e brilhavam sob os slides de Gallagher para conseguir 50 minutos de fama. Foi em Isle Of Wight que o Taste provou sua força, foi depois de decretar o fim da banda no backstage, que o mundo viu um dos maiores shows de todos os tempos, concretizando uma ida sem volta que, entre atritos por falta de dinheiro (levantando suspeitas, pois o disco vendia bem na zona do Euro), conspiraram para implodir uma das sonoridades mais originais dos '70.


Se o Led pegou o esqueleto do Blues e deixou calhorda com riffs de Heavy e o Cream brilhou com uma psicodelia caótica com bases Jazzísticas, não seria exagero pontuar que o Taste foi o The Jimi Hendrix Experience da Irlanda.

É engraçado que no fim do show em Isle Of Wight, Gallagher apresenta a banda toda em duas oportunidades, mas mesmo quando se despede de maneira definitiva (após o terceiro bis), ele jamais menciona seu nome.

Ele sabia que voltaria, mas tratou de virar uma página. E depois que a banda cumpriu as últimas datas agendadas no calendário, a base rítmica do Taste formou o Stud (no começo de 71) junto com remanescentes do Family, enquanto Rory montava um novo trio. Formação que o ajudaria no lançamento de seus dois primeiros discos solo, o auto intitulado (lançado dia 03 de maio de 1971) e sua sequência, o excelente ''Jinx'', liberado em novembro do mesmo ano.


Só que quem fez história primeiro foi o trio. Que show! Eles colocaram um público de 600.000 pessoas no bolso e quem estava na platéia, mal poderia saber que logo no maior show da vida do grupo, o fim já tinha sido decretado antes mesmo do início da jam.

E o pior, é impossível notar qualquer desentendimento, qualquer resquício de atritos que poderiam romper essa mágica ligação. Tudo que Gallagher queria era uma direção, pois o músico estava cansado de ser enganado e queria que a dupla fosse com ele se caso o fim dos tempos não fosse uma miragem.

O problema é que o management falava uma coisa para o guitarrista e prometia uma vida de Sheik para o baixista e o baterista, daí não teve jeito, ou melhor, teve: let's make it the last gig: a despedida foi no topo. O festival decretou o fim, justamente quando eles poderiam ter feito dele um renascimento de sucesso, algo que infelizmente faltou teoricamente, mas que na prática, preenchia 10 estádios de Wembley.

Line Up:
Rory Gallagher (guitarra/gaita/vocal)
John Wilson (bateria)
Richard ''Charlie'' McCracken (baixo)



Track List:
''What's Going On''
''Sugar Mama''
''Morning Sun''
''Sinner Boy''
''I Feel So Good'' - Big Bill Broonzy
''Catfish''


Assistindo as imagens agora, é possível ver algo que antes era apenas ouvido. O tesão do trio é absurdo, a apresentação impecável e, a cada novo som, todos parecem se libertar. É uma química que poucos músicos já conseguiram presenciar e a força dessa performance de pouco mais de 50 minutos comprova sua mística em 2015, afinal de contas faz mais de 40 anos que os fãs suplicam por esse show em vídeo.

O motivo? Bom, talvez seja pelo fato de em síntese, esse show conseguir resumir tempos áureos para a música. Uma época onde o sentimento era a base de tudo e não o contra cheque da gravadora. Aliás, a prova desse fato é que o trio estava no palco, dando tudo de si, enquanto a conta bancária estava próxima do zero.


Essa apresentação é uma amostra ilimitada de um raro fenômeno. Marca o instante onde os gênios querem se consagrar e, sem perceber, acabam transcendendo. Abre o disco com ''What's Going On'' e sinta o vigor deste Jazz-Blues-Fusion.

Um mix de influências que eleva tudo que engloba o trio através da liberdade, do improviso e da vontade de sentir. Por meio de um feeling que quando compartilhado por músicos de patamar elevado produz o que se consagra e supera o maior teste de todos: as areias do tempo.


Rory virou um mito. Talvez o mestre não seja respeitado como deveria, mas fez seu nome, Mas e os outros? Depois do Stud gravar 3 LP's a casa de ferragens encerrou as atividades e a dupla sumiu no blecalte da cena obscura do Hard.

Mas aqui não, nesse mítico disco ao vivo (lançado no dia primeiro de dezembro de 1971), temos pouco mais de 50 minutos, 6 temas e muito suor. Uma apresentação que coloca o trio nos holofotes e nos mostra o que eles poderiam fazer caso a providência divina fizesse deste posto, o habitat natural para o Blues de ''Sugar Mama''.

São dez minutos dedicados a este standard do Blues e as improvisações contidas neste take nos ensinam como separar os humanos dos gênios. A conexão homem e guitarra. Homem & groove. Baquetas e John Wilson. Durante todo o show vemos que cada um dos 3 está dando tudo de si e é notável perceber que por vezes eles tocam apenas o corpo da canção, o resto aconteceu na hora e o resultado ainda plana por este plano de bends cortantes.



Eles bem que tentam diminuir o ritmo entrando com algo mais sereno e com pinta Folkeada. O problema é que quando entramos na jam com ''Morning Sun'', a parte A encontra Rory e quando ele fecha os olhos o finito ganha incalculáveis possibilidades. Mostra o tato de um dos maiores mestres do slide em ''Sinner Boy'', explana a coqueluche que esse pack colocava em notas quando decidia emular Big Bill Broonzy com ''I Feel So Good'', e se perpetua no tempo com a apoteótica ''Catfish''.

Mais do que um grupo blindado por talentos individuais o Taste foi um momento histórico absolutamente inspirador. Um feixe atemporal que nos faz lembrar de uma época onde a música sustentava uma magia praticamente messiânica.

Ouvindo esse disco nós lembramos como é ficar desconcertado por uma jam. Ficamos horas tentando definir algo indescritível e após o fim do play, só temos uma certeza: o Taste foi uma dádiva e esse show um dos maiores momentos dessa arte que muitos tentam definir e enquadrar, mas que no fundo só é compreendida pelos gigantes, aqueles que fazem seu coração gritar. Viva a música e a Ilha de Wight, senhoras e senhores.

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Gregory Isaacs: o elixir de Live At The Academy Brixton

O Reggae é um estilo que, citando os Racionais MC's: não é tão bem difundido ''da ponte pra cá''. Por ponte, subentende-se Jamaica, já o pra cá, depende de sua localização geográfica, de resto creio que tenha me feito bastante claro. O problema é que, como se não bastasse o fato da vida não ser justa, certos sons da terra de I and I se perderam no atlântico e, por mais tradicionais que sejam, hoje, são divulgados apenas em celeiros sonoros. 

Gregory Isaacs foi um dos maiores interpretes da música. O Jamaicano também foi um dos maiores expoentes do Reggae e sua lábia roots fez com que sua música fosse eterna. Então por que seu legado está sumindo? Faz 5 anos que um câncer de pulmão o levou deste plano, mas por que suas conquistas atemporais começam a ruir das colunas de vosso templo histórico?


Correndo o risco de levantar questões de suma importância, mas talvez não solucionando todas, essas linhas visam exaltar a arte de um cidadão que realmente viveu o que cantou. Semeando o que acreditava e colhendo o que sentia.

Saíram mais de 500 discos com o nome desse cara na capa (entre bootlegs, compilações, discos ao vivo e de estúdio). Foram mais de 40 anos de carreira e muita água passou por debaixo dessa ponte para que registros como ''Live At The Academy Brixton'', sejam varridos pelas areais da geração Y.


Track List:
''My Number One''
''My Only Lover''
''All I Ask Is Love''
''Love Overdue''
''Mr. Brown''
''Storm''
''Slave Master''
''Border''
''Soon Foward''
''Oh, What a Feeling''
''Sunday Morning''
''Addicted To You''
''Frontdoor''



Gravado sob a tutela de banda de apoio da Roots Radics, ''Live At The Academy Brixton'' é apenas uma amostra da grandeza deste senhor. O Rasta favorito de Keith Richards foi uma das vozes mais peculiares do raga e, nesta noite, seu instrumento de trabalhou enlouqueceu a todos, a mulherada que o diga.

O ''the cool ruler'' fez o de sempre. Entrou como quem não quer nada e saiu como quem tinha tudo. E ele de fato ostentava. Só na entrada para o palco dava pra sacar que a platéria estava em sua mãos.


Eis aqui um LP que comprova: o Reggae é um estilo místico. Todo mundo fala que a pegada é a mesma. De fato, isso até podemos descobrir, mas quem diria que um retorno a mais, obra da lenda viva, Lee Scratch Perry, nos faria a cabeça para sempre? Quem gosta da pegada do filho do Rocksteady sabe que o baque é pra vida toda, esse então nem se fala!

A apresentação é digna de ser listada como uma das maiores gravações ao vivo de todos os tempos. A qualidade sonora é brilhante, afinal de contas além de nos apresentar Gregory e sua bela voz, garante a patente do groove com um ato (Roots Radics), que fez a base para todo os maiores nomes do estilo, como Bunny Wailer, Prince Far I, Michal Prophet, dentre outros mitos.

Por isso, na hora do play, vá na moral, a excelência já está garantida, basta apenas andar no ritmo da batido da open track (''My Number One''), sentir a cadência clássica de ''Love Overdue'' e tomar contato com um LP perfeito para ser introduzido ao mundo de Isaacs.

Não sou muito fã de trocadilhos, mas para apreciar a obra do maestro, peço que entrem pela ''Frontdoor'', a vida é curta demais para que versões estonteantes de ''Sunday Morning'' e ''Addicted To You'' não sejam ouvidas com a devida atenção. É hora de celebrar, aumentar o volume na parte A de ''Mr. Brown'' e venerar um gênio. ''All I Ask Is Love'' é sua carta aberta para este mundo!

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Hard To Explain: More Shattered Dreams Funky Blues 1968-1984

A música é uma utopia sonora infinita. Seja qual for o dia da semana, o mês ou até mesmo o ano em que o senhor estiver vivendo, pode crer que teremos novos sons surgindo, outros ressurgindo e muita história para contada. É quase como se vivêssemos para que num tempo relativamente distante, os seres do futuro escutem nossa história como numa rara compilação.


E falando nelas, meu amigo, o que tem de peneirador de groove por aí é impressionante. Existem milhares de compilações registrando apenas o mais fino néctar do desconhecido. Reunião de Funky hits do Brasil, pirações com o groove dançante da Cumbia, Blueseiras perdidas, sons do Perú, bases Rastafarianas da gênesis do Reggae, psicodelia indiana...

Rapaz, é só pesquisar e começar a debulhar os fones, por que a cada dia que passa vejo que o mais importante é concluir: nós não sabemos porra nenhuma sobre música! Vivemos imersos na trilha, mas nunca sacaremos tudo que existe, tampouco tudo que queremos.

Tome a reunião ''Hard To Explain: More Shattered Dreams Funky Blues 1968-1984'', como exemplo, são 20 tracks reunindo o mais fino do Funk-Blues do final dos '60 até o meio dos '80 e se você falar que manja tudo que está listado nessa jam, você está mentindo.

Música: uma eterna caixa de pandora.



Track List:
''The Creeper'' – Freddy Robinson
''Gimme Some Of Yours (I’ll Give You Some Of Mine)'' – Artie White
''You Upset Me Baby'' – Larry Davis
''Walk On'' – Finis Tasby
''Getting Down'' – Obrey Wilson
''It’s Hard To Explain'' – Ray Agee
''Don’t Down Me People (Pt 1)'' – Memphis Soul
''Lovemaker'' – Lowell Fulsom
''Cold Sweat'' – Albert King
''I Want You'' – Smokey Wilson
''I Don’t Understand It'' – Ice Water Slim & The Fourth Floor
''Go Go Train'' – Smokey Wilson
''He Made You Mine'' – Big Daddy Rucker
''Find Something Else To Do'' – Finis Tasby
''Gettin’ Down With The Game'' – Adolph Jacobs
''I Finally Got You'' – Jimmy McCracklin
''Them Love Blues'' – Earl Wright
''Hey Little Girl'' – Tommy Youngblood
''Sister Rose'' – Shakey Jake Harris
''It’s Real (Pt 1)'' – Jimmy Robins


Reunido pela BGP (Beat Goes Public), essa coletânea (lançada no dia 27 de outubro de 2014) nos apresenta a um capítulo quentíssimo da história da música. É um retrato fortíssimo sobre o encontro de dois pilares da música negra: o Blues e o Funk, duas vertentes que corromperam tudo que surgiu depois e, que, nessas gravações, se provocam com uma classe e acidez inimaginável.

Aliás, um detalhe que vale ser ressaltado é que alguns singles saíram por labels grandes na época, o único problema é que a sorte acabou entrando em campo e não ajudando. Só que é sempre bom deixar claro que a fonte era de qualidade, pois se não fosse, duvido (e em toneladas), que a Stax e a Modern se interessariam por algumas das tracks que aqui estão listadas.


Resenhar um bem tão fragmentado assim seria bastante complicado. A música é belíssima, mas falar de tantos artistas de uma vez, citando apenas algumas passagens seria basta razo, a última coisa que um release sobre um trabalho dessa natureza pode ser. Existem notas que saíram em disco pela primeira vez aqui!

Apenas escute com atenção e conheça uma par de novos sons, de resto, sua coleção agradece e o mundo também conspira à favor de maneira positiva, afiinal de contas são raridades como essa que nos despertam tanta paixão por nossa musa: a música.

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Groove na Batata: o melhor palco é a rua

O que é o groove? Eis aqui uma indagação difícil, profunda e que não possui apenas uma resposta, é quase um cosplay de pergunta mal formulada do verstibular da FUVEST. O feeling é uma aresta que está envolvida com o groove, sem sentimento não dá pra afirmar que o som carrega aquele quê diferenciado.

Fotos: Roberta Gomes

Um detalhe abstrato, sei disso, mas é justamente essa fagulha que faz com que uma pessoa escute um som e não troque por outro. É um requinte malandro, experiente, rapaz, o groove é indescritível, mas isso serve apenas pra quem produz uma jam quadradona.

O dicionário nos diz: o Groove (é necessário escrever sempre com letra maiúscula), é um termo da língua inglesa que quer dizer ritmo. Se você preferir a tradução literal, o termo correto é sulco, mas a música não é uma arte que possa ser explicada por meio de exemplares do Houaiss, Michaelis, Aurélio e seus compadres da lingua culta.

Fotos: Roberta Gomes

Não, jamé! A música, o groove, o slap, meu amigo, esses são pontos que, por mais teóricos que pareçam, envolvem apenas um elemento: a química, Explicar o que é o groove é humanamente impossível, George Clinton, o Ícaro que chegou mais perto dos raios sonoros, está ai pra provar, sequela é pouco para o que P-Funk personificado se ternou.

Por isso, não enlouqueça, apenas tente entender que o Groove é o que lhe faz apreciar algo. Se amanhã é feriado, hoje é dia de groovear. Se na sexta-feira chegou o momenta daquela cerva mais trincanda que a economia do Brasil, pode crer que vai ter swing no seu copo.



O Groove é fascinante, sofisticado e um temperamental bon vivant. É um assunto que nos leva à devaneios e no fim das contas torna um algo intangível, numa tese de doutorado, pois até os caçadores de mitos concordam: não sabemos o que é o Groove, onde ele mora, ou do que se alimenta, (veremos no Globo Repórter), mas temos certeza que esse empecilho sinestésico foi sentido no último dia 17 de outubro, data estelar para a quinta edição do Groove na Batata. Mais uma realização do coletivo Corvo Lunático.

Fotos: Roberta Gomes

É na rua que o som assume uma de suas formas mais livres. Foi com interferências meteorológicas que o evento entrou em cena meio vacilante. O frio ameaçava uma chuva, as pessoas foram chegando e mesmo nesse nesse clima de vai/não vai, o Mescalines se jogou na jam como sempre e o reverendo Mariô Onofre já esquentou o brinquedo preferido do Buddy Rich, enquanto Jack Rubens se alternava entre um handmade com pinta de Seasick Steve e uma Harmony Rock '65 que estava venenosíssima!

Fotos: Roberta Gomes

O set não se extendeu por muito tempo devido às ameaças de precipitação, mas não teve jeito, não tinha sereno, geada ou garoa que fizesse a dupla desperdiçar toda essa troca de energias com o público. Tocar na rua é isso também, ou melhor, é exatamente isso, utilizar os problemas como moeda de troca para uma jam, experimentar e fazer aquele bom e velho barulho que o Rock 'N' Roll tanto nos ensinou a amar. Abençoado seja o Groove.

Fotos: Roberta Gomes

Depois, seguindo a grade horária, era o momento de apreciar mais uma dose de Groove. Só que dessa vez o tempero era mais ácido, tão alcalino que chegou até com outro nome: Groovy, mas não qualquer um, esse era de Bombay.

Um som que carrega aquela alcunha Hammond, com Jimmy Pappon, o Willie Wonka que faz o baixo como Ray Manzarek, adicionando doses cavalares de floreios no marfim. A bateria não perdia o compasso, improvisou na base de ''Thorazine Shuffle'' e fechou a conta com solos no sitar que surgiam com a calma de um riff que transcende numa Gibson.

Fotos: Roberta Gomes

Foi com requintes orientais e ocidentais que o trio formado por Jimmy Pappon nas teclas, Leonardo Nascimento na batera e Rodrigo Bourganos no sitar, superou alguns problemas técnicos e provou que na rua, o buraco é mais embaixo. Foi alternando temas autorais como o Funk de ''Tala Motown'' e covers inspiradíssimos, como a versão do trio para o Wholla Lotta Love'', que o Bombay Groovy saiu sob uma chuva de palmas e deixou o Groove à ponto de explodir, mas ai o Chaiss na Mala voltou a ajustar o termostato do Free Jazz e a vibe ficou Cool novamente.

Fotos: Roberta Gomes

Nessa noite o Chaiss quinteto chegou no Largo da Batata com outra formação. Foi como quarteto, sem o beat trompético de Reinaldo Soares e com um inspirado Richard Fermino no sax (substituindo o camisa 9 Vinicius Chagas), que o Jazz correu solto, foi chamando as pessoas que estavam circulando pelas redondezas e, no fim da noite, fez com que a trilha Jazzística de nosso cotidiano fosse iluminando os caminhos mais boêmios de São Paulo.

Fotos: Roberta Gomes

Teve ''Free Beise'' pra todo mundo e o entrosamento estava tinindo. São anos tocando por aí, na sombra e água fresca das vielas de sampa, por isso, o Chaiss está sempre preparado. Eder Hendrix solava como um Rei vestido com um terno risca de Fusion, Fábio Albuquerque acompanhava a fritação com vigor, mas no fim o improviso foi se elevando e quando percebemos o grave do Rob Ashtoffen estava solando e se entrelaçando no sax.

Temas de cinco minutos viraram suites e o bis do quarteto foi um dos mais longos que já presenciei, mas nem tinha como reclamar, os timbres estavam cristalinos, o Chaiss estava em seu habitat natural e a platéria cumpriu seu papel, dançou e tomou uma breja. Que noite!

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