Björk - Vulnicura Strings

Depois de voltar aos estúdios e lançar seu disco mais pessoal, a Björk resolveu mostrar ao público como o sublime e complexo ''Vulnicura'', foi pensado. Além de ser o trabalho mais sentimental da cantora, o disco lançado no dia 20 de janeiro de2015 nas plataformas digitais (e no dia 16 de março em meios físicos), é de um brilhantismo ímpar.

A riqueza de detalhes é notável e o balanço das cordas com os beats eletrônicos é a tônica para uma das melhores gravações da senhora de 50 anos. O sentimento é tão intenso que enquanto a musa da era do gelo canta, parece que a dor é do ouvinte também.


O sofrimento foi a moeda de troca para essa criação, mas é louvável perceber que apesar dos pesares, a fluência desse registro é libertadora. Creio que a temática não seja muito receptiva, mas o CD não é maçante, só que assim como outros CD's desta inventiva artísta, ''Vulnicura'' também precisa de um momento e de uma atmosfera específica para sua devida apreciação.

Só que o projeto foi tão audacioso, que a versão psicodélica do Yanni resolveu continuar suas explorações. A profundidade dos arranjos, as camadas... Björk se mostrou muito bem resolvida com seus problemas para ficar ''re-matutando'' essa gravação por tanto tempo, pois não é fácil trabalhar com um problema recorrente... Ela de fato encerrou um ciclo depois do play.


Track List:
"Mouth Mantra"
"Lionsong"
"Black Lake"
"Atom Dance"
"Stonemilker"
"Quicksand"
"Notget"
"Family"


Lançado no dia 06 de novembro de 2015, ''Vulnicura Strings'' é um complemento para o já citado mais recente disco de estúdio da Björk. Contando apenas com o arranjo das cordas e voz, essa versão é ainda mais íntima do que a primeira.

A única diferença está na ordem da track list e, se comparado com a primeira gravação em sua totalidade, percebemos que apenas ''History Of Touches'' não entrou para a lista de temas rejuvenescidos por novos arranjos.


Essa versão é também um pouco mais longa do que a primeira. Acredito que ao tirar os espasmos eletrônicos, algumas passagem foram enobrecidas pela classe das cordas e ganharam até novos contornos criativos.

Esses dois trabalhos são a prova de como a música pode coexistir dentro um contexto eletrônico e clássico. Fora que ouvir essa versão nos dá ainda mais noção de como essa mulher é brilhante. A imersão é ainda maior, os insights acústicos lindíssimos e no fim das contas ela ainda conseguiu trabalhar com cordas, algo que ela sempre mostrou interesse, mas nunca tinha feito até então.


Numa entrevista recente, foi isso que a criadora desses dois universos particulares relatou, quando perguntada sobre ''Vulnicura Strings''

''As cordas são como os nervos do corpo humano. A voz e os instrumentos são os pulmões. As batidas fazem parte do contexto dançante e os arranjos são o seu corpo vibrando''.


Agora só falta ela soltar uma versão com voz e o techno ao fundo! Trocadilhos à parte, foi muito bom ver que a moça está com os ânimos renovados, apesar de tudo o que aconteceu. Chega a ser até um sacrilégio destacar uma música ou outra, recomendo apenas que o senhor aperte play e sinta seu corpo vibrando como lágrimas descendo a cachoeira de nossas faces.

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Jimi Hendrix: 73 anos de eternidade

Depois de alguns anos escutando música nós absorvemos certos valores. Chega um ponto que nós não escutamos música pelo simples fato de apreciá-la, mas sim por que somos tomados pelo desafio de entendê-la completamente.

É complicado de se explicar, mas existem alguns sons que sempre serão eternas novidades em nossas vidas, não adianta se já decoramos a letra, sabemos exatamente a hora que chega o solo ou quantos minutos a música têm. Sempre que colocamos determinados artistas na vitrola, é como se fosse uma eterna primeira vez.


Hoje é dia 27 de novembro, hoje seria mais um aniversário do eterno Jimi Hendrix. Se você escrever guitarra no Google e clicar em imagens, verás dezenas de fotos do mestre, tamanha a sua relação perpétua com a gênesis deste instrumento, que para mim, nunca foi tão domado quanto nas mãos do Cherokee.

Podem me chamar de sensacionalista por vir aqui e falar do guitarrista justamente neste dia (onde muitos estarão falando dele), mas me senti tomado por algo e precisava colocar pra fora. Muitas pessoas dizem que é ''moda'' dizer que Jimi foi o maior de todos, outros vão além, clamam que ele não é, e ainda ousam dizer teve (ou tem) guitarrista melhor.

Quando digo que ele é o melhor (pelo menos pra mim), tenho uma definição que vai além do âmbito técnico da coisa, passa pelo estilo, pelo toque pessoal do guitarrista. Algo absolutamente idealizado, tal qual um romance de um grande poeta.

É injusto classificar os músicos como piores ou melhores entre si, pois os estilos muitos vezes são diferentes, sendo assim algo absolutamente sem nexo, mas que ano após ano ainda é feito e Jimi está sempre em primeiro lugar. Por quê? Alguns perguntariam... A resposta, parafraseando Bob Dylan: ''Is Blowing In The Wind''.


Não sei por que, ninguém sabe, mas o cara era único, nada até hoje chegou perto, nenhuma sensação que já tive na vida foi tão intensa e memorável quanto ao dia em que escutei este cidadão tocar guitarra.

''Foxy Lady'' foi minha entrada para seu mundo e desde então sigo meu caminho em suas trips ácidas e psicodélicas, sem ter ao menos uma gota de certeza do por quê me sinto tão atraído por seu som... Do por que não consigo decifrá-lo.

Estava conversando com um professor da faculdade e depois da conversa voltei pra casa refletindo sobre o assunto. O professor deve ter uns 60 anos e nas palavras dele: ''Sou fascinado por este cara faz 40 anos''. Eu não tenho nem metade disso escutando o som do maestro e já conheço tudo que ele fez, assim como meu professor, mas nem por isso ele ''domina'' o assunto. Ninguém domina este assunto.


Jimi Hendrix é mais uma daquelas perguntas sem respostas. Nesse caso nem precisei perguntar, mas veja bem que só o nome já nos deixa em dúvida, ele era tudo ou nada? Mais uma daquelas perguntas com respostas manjadas, algo como ''por que Deus quis'' e coisas do gênero.

Mas eu queria ver se colocassem um guitarrista atual na época do americano... Duvido (toneladas), que ele viria com distorções, pregos no amplificador, criaria algo (a base de pura tentativa e erro) e seria tão relevante mais de quarenta anos depois.

Se esse cara estivesse vivo o mundo seria um lugar melhor, quantas vezes já não me imaginei vendo um show do mestre... É triste colocar os fones e saber que seu lugar está vazio (materialmente), mas o som que sai de seu ser é tão poderoso que segue ecoando por aqui, sempre como uma eterna primeira vez.

Em outras palavras o que quero dizer é: obrigado Jimi, obrigado por ser todo este enigma, por ter existido, e por ter tocado guitarra. Sem você a música e o mundo seriam ainda mais cinzas, e mesmo que você tenha deixado o planeta órfão de seu talento, somos todos capazes de lhe perdoar, afinal de contas, como diria Cazuza: ''Faz parte do meu show''. Feliz 73 anos de eternidade.

FOOOOOXY!


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O peso do Jazz-Funk do Marbin e a excelência de Agressive Hippies

A música instrumental. O som que não possui palavras pode nos revelar o indecifrável. E nessa faceta que prefere as notas sem ecos verbais, creio que o resultado final seja uma das formas artísticas mais sinceras.

Uma mensagem pura de algo que fica no íntimo dos compositores envolvidos no processo. São linhas em conjunto que promovem uma reflexão diferente. Por vezes apreciamos certas jams dessa natureza, mas o fazemos de uma maneira diferente, é um clima que muda take após take.


Temos certeza do que sentimos, mas a música instrumental possui essa karma, justamente por sempre deixar alguma icógnita. Cada ouvido interpreta o resultado de uma maneira, não existe certo ou errado, existe apenas o sentimento e o indecifrável, algo que sempre não nos convém, um estilhaço é íntimo só do compositor.

É uma dúvida cruel que joga ainda mais condimentos na salada. Uma receita que apenas apimenta ainda mais o nosso Brain Salad Surgery diário. Por isso, meu rapaz, se o senhor almeja mudar os condimentos de sua sala instrumental, não o faça antes de escutar o sexto registro do Marbin, talvez o melhor quarteto de Jazz da atualidade, ainda mais se você aprecia o Lado Funk da força. ''Agressive Hippies'' é o Jazz-Funk instrumental mais chapante que ouvi em 2015.

Line Up:
Dani Rablin (guitarra)
Danny Markovitch (saxofone)
John W. Lauler (baixo)
Greg Essig (bateria)



Track List:
''Just Music''
''Y'All Are Good''
''Intro''
''African Shabtay''
''Juke Joint''
''O'l Neckin'''
''Morning Star''
''Agressive Hippies''
''Jambo''


Fruto de uma das mais interessantes e menos prováveis uniões, o Marbin foi o inventivo resultado da junção de 2 grandes músicos israelenses. Na guitarra, o assombrosamente técnico Dani Rablin, e no sax, o veloz e encorpado Danny Markovitch. Foi assim que um dos mais aclamados grupos começou, como um duo, la atrás, em 2007, já em Chicago.

Hoje muita coisa mudou. São 6 trabalhos fantásticos na praça e, foi como um quarteto, que a banda fixada em Illinois conseguiu fazer o merecido ''barulho'' na cena. Na época em que Dani Rablin e Markovitch se conheceram, o primeiro estava finalizando seus estudos na Berklee e o segundo voltara do serviço militar obrigatório, depois de uma temporada como sargento da infantaria.


Creio que é importante citar esse episódio, pois o primeiro disco da banda (o autointitulado de 2009), foi gravado nesse formato, em duo. Só depois que os caras formaram um quarteto, e entre a gravação de todos esses trabalhos, muitos membros entraram e saíram, até a afirmação da line up que gravou esse trampo.

Com um alto fluxo de grandes músicos envolvidos, como Paul Wertico e Steve Rodby (Pat Metheny), e James Haddad (Paul Simon), o Marbin utilizou essas mudanças para seu próprio benefício. O Jazz é um estilo conhecido pela alteração quase infinita de line up's, algo que acrescenta muito aos envolvidos, pois força o cidadão a ficar ligado às mudanças, algo que é a base para o que esses caras fizeram, nesse que para este que vos fala, é a obra prima da banda.


Lançado no dia 17 de abril de 2015, ''Agressive Hippies'' é o melhor disco do Marbin. Antes de entrar no estúdio e formar esse conteúdo, as influências da banda nos trabalhos anteriores possuiam um pé no Blues, no Progressivo e no Jazz também, mas sem o lado Funkeado que ouvimos aqui.

A postura da banda também mudou bastante, O Funk parece corromper os músicos, aqui o swing entra como moeda de troca e justifica todo o entrosamento que apenas uma banda que faz mais de 300 shows por ano consegue articular.

O cérebro da banda é a dupla Rablin/Markovitch. São eles que criam, arranjam e produzem os discos do Marbin, mas até a química dos caras mudou para a melhor depois dessa imersão em slap's. O papel de Markovitch nesse disco é de amplo destaque. Muito mais atuante no som, Danny eterniza sua melhor performance em estúdio e muda sua abordagem completamente.


Com um batera tão preciso quanto Greg Essig  e um baixista com tanto feeling nos compassos, a cozinha estava firme o suficiente para que ele seguisse as linhas de guitarra Rablin como se o seu sax fosse uma linha gêmea. Com isso, quem ganha somos nós, pois em mais de 50 minutos de play, o quarteto emana novidade, um estilo pra lá de próprio (dentro do arsenal de cada um dos envolvidos) e conclui a jam com 9 quebraderas absurdas, comprovando que sim, até o Fusion pode pesar uma tonelada.

Escute tudo que esses caras possuem, é de fato fantástico, mas aqui temos o retrato do que acontece quando 4 músicos estão no auge. A abertura do disco com ''Just Music'' mostra mais vitalidade que muita banda de Rock.

Os padrões impossíveis e velozes de ''African Shabtay'' demonstram a técnica ridícula que permeia o trabalho, enquanto temas como ''Juke Joint'' (se ligue no sax), evidenciam que não importante seu nível (técnicamente falando), sem sentimento você não vira nem a esquina, mas esses caras viram e ainda fazem a curva solando em ''Morning Star''.

Um poço de sentimento, técnica e swing, aperte play nesse disco e prepare-se para ficar impressionado... Essa dupla de israel é inexplicável, o tom da guitarra desse cidadão deveria ser estudado, junto com o sax apaixonante do ex membro da infantaria!

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Assista ao trailer de Jaco, documentário sobre Jaco Pastorius

Em tempos recentes a música ganhou as telonas com uma força avassaladora. Mas ai é que está o ponto, além de vários filmes falando sobre os maiores mitos do groove, o que vale ressaltar é como esses trabalhos foram criados: com feeling e com a intenção de serem reais, sem aumentar mitos já criados ou popularizar pura e esnobe babaquice.


Temos um documentário do Miles Davis sendo gravado, um do mestre Chet Baker, outro que vai sair dia 27 de novembro desse ano, abordando a vida da gloriosa Janis Joplin e mais petardo que também chegará este ano. Este último por sua vez aborda sobre um dos maiores baixistas de todos os tempos, talvez o maior deles, o transgressor e absoluto Jaco Pastorius.

Criador de um estilo único, tão original e extraterrestre que ninguém nunca conseguiu nem imitar, Jaco foi um dos caras que ajudou a redefinir a música, e com a ajuda de seu Jazz bass, cavou profundo, numa época onde muitos também experimentaram, mas nunca chegaram à camada pré-sal de sua música moderna. 

O supremo autodidata poderia ter feito muito mais pela música, caso tivesse habitado este plano por mais alguns verões, mas mesmo nos deixando com pouca idade, seu legado é ainda incalculável. E para que o mundo siga pulsando ao som de seu fretless, é inegável que o mestre merecia um documentário para contar sua história, esclarecer alguns fatos sobre sua morte e concluir os créditos como num solo fervilhante, à moda Pastorius.


Com a data de lançamento marcada para o dia 27 de novembro deste ano (no mesmo dia do DOC da senhora Lyn Joplin), ''Jaco the Film'', foi produzido por Robert Trujillo (talvez o maior entusiasta da obra Pastouriana em tempos recentes), e dirigido por Paul Marchand e Stephen Kijak.

Esse documentário revelará muita coisa jamais vista antes e ainda contará com entrevistas que envolveram só a nata do groove. Nomes como Bootsy Collins, Jonas Hellborg, Geddy Lee... Só os maiores foram escolhidos para pontuar factos sobre esse maestro.

Eis aqui um filme que promete algo nunca feito antes, uma cronologia completa, densa e irregular sobre um dos gênios mais vulneráveis que solou sem trastes. Serão quase duas horas de muito Jazz bass.

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John Frusciante: música boa é música de graça

Hoje acordei mais lerdo do que o normal, mas enfim. Para o início deste dia planejei o de sempre, acordar e sair da cama. Enquanto chegava na cozinha pra tomar uma água e acabar o ritual para me declarar finalmente desperto, lembrei de checar meus e-mails, afinal de contas, mesmo em tempos de crise, é sempre bom ficar ligado para não perder eventuais entrevistas.

Dito e feito, matei o copo e vim para a sala, o computador já estava ligado (esqueci o bicho na tomada outra vez), e segui, sem lamentações quanto ao vício da bateria, para a minha conta no Gmail. Depois de efetuar o log in vi que não tinha nada novo, aparentemente as grandes corporações possuem algo contra minha pessoa e mais um dia se passou sem nenhuma chance de estágio.

Mas tinha um remetente estranho na jogada, e dessa vez não era o Groupon com seus contatos mais absusados que seu amigo abrindo a geladeira e reclamando que não tem comida. Lá estava um e-mail de um cara que nunca ousou me responder no mundo da internet, sim, hoje eu acordei e recebi um contato do mestre John Frusciante.


Piadas e relatos poéticos à parte, todos que um dia visitaram o Bandcamp do cidadão receberam esse contato. Na realidade o conteúdo da mensagem foi o mesmo para todos, mas o que fica é a visão de um cara que realmente entende o meio em que habita-e-atua, mesmo quando muitos xingam sua persona. 

John esvaziou seus rolos de fita e liberou mais de 90 minutos de novidades experimentais. Solos de guitarra, improvisos... Sons que mostram como o músico alcançou um status de liberdade plena, algo que não é comum na indústria deste milênio.

E o mais interessante não são apenas as faixas, o que deixou seus fãs de queixo caído foi a carta aberta que acompanhou todo esse banquete sonoro. Por isso, não vou explanar, deixarei que John o faça, quero apenas dividir tudo isso com os senhores, por isso, eis aqui a já citada carta (devidamente traduzida) e no fim, apertem play em alguns dos sons que o mestre nos deu.

A carta


Agora tenho uma página no Bandcamp e uma página no Soundcloud e coloquei um monte de músicas inéditas do meu passado. Meu próprio nome foi tomado por várias pessoas, por isso se chamam jfdirectlyfromjf.bandcamp.com e soundcloud.com/jfdirectlyfromjf.

No momento, subi dezenove minutos de um grupo de seis músicas gravadas em um gravador de quatro faixas em maio de 2010, sendo a instrumentação composta por três guitarras e uma drum machine. São vários estranhos solos de guitarra anti-rockstar, tocados principalmente em uma guitarra Mosrite Ventures e uma Yamaha SG, acompanhadas por uma Elektron Machinedrum, com exceção de uma música em que eu usei uma Roland TR 707, e outra em que uma 707 foi utilizada, mas não está na mixagem.

Também subi uma coleção de 37 minutos de músicas feitas entre 2009 e 2011, que foram todas gravadas em meu estúdio principal durante as várias etapas de seus desenvolvimentos, bem como várias fases do meu desenvolvimento como engenheiro.

Além disso, você vai encontrar nestas páginas a versão completa de 20 minutos de “Sect In Sgt”, com todos os meus samples em sua totalidade. A versão online que havia antes sob o nome Trickfinger omitia os primeiros cinco minutos da música.

Além disso, há uma interpretação da música “Fight for Love” do filme Casa De Mi Padre, gravada numa tarde ensolarada de novembro de 2013 por Omar Rodriguez e eu, além de “Medre”, uma faixa gravada em 2008, e uma versão de apenas vocal e guitarra da música “Zone”, do meu álbum Enclosure.

Essas músicas são todas livres de custo para o público e podem ser baixadas ou transmitidas no Bandcamp e Soundcloud. Com exceção de “Zone”, todas as músicas foram feitas puramente por uma questão de fazer música, ao invés de lançar e vender. Em outras palavras, “Zone” é a única música que estava destinada a estar em um álbum.

Quando alguém lança música em uma gravadora, está vendendo-a, não dando-a. A arte é uma questão de dar. Se eu cantar uma música para uma amiga, vai de mim para ela, sem nenhum custo. Isso é dar. Se eu vender um objeto, não quer dizer que eu te dei esse objeto. Artistas de gravação estão “dando” música ao público através da venda há tanto tempo que hoje pensamos que artistas vendidos (sell-outs) são músicos dedicados que amam tanto seu público que agressivamente vendem produtos e se vendem como uma imagem e personalidade para um público em geral tão agressivamente quanto. Vendido (sell-outs) é um termo antiquado que, quando eu era um garoto, se referia aos artistas que adoravam fazer dinheiro mais do que fazer música. A palavra indicava uma falta de integridade artística. Ser vendido (sell-outs) é uma merda, na minha opinião. É uma vergonha ter se tornado tão normal, esperado e aceitável ser isso. Quando eu era adolescente, era muito comum que pessoas que amavam música insultassem um artista de gravação por ser ou ter se tornado um vendido. Acredito que este era um instinto muito saudável por parte dos amantes da música.

Dar às pessoas música gratuitamente online ser tão comum nos dias de hoje é um bom lembrete de que a expressão artística é sempre uma questão de dar, não de tomar ou de vender. Vender é a parte de fazer dinheiro, e a expressão artística, a criação, é a parte de dar. São distintas uma da outra, e é minha convicção que música deve ser sempre feita porque se ama a música, não importando se há planos de vendê-la ou não. A criação é a fonte da vida, enquanto ganhar dinheiro é o que as pessoas fazem para comprar comida, roupa, teto, necessidades, conforto e, em alguns casos, exercer a sua ganância em outros.


O prazer é meu de dar a vocês essas músicas. Às vezes vou anunciar aqui no meu site que postei músicas nesses lugares, e outras vezes não. Qualquer música que eu compartilhar aqui no meu site agora será ligada à minha página do Soundcloud.

Eu também devo esclarecer uma coisa. Normalmente não leio minhas entrevistas, mas ouvi sobre uma citação recentemente tirada de contexto por algum site idiota e transformada em manchete, em que eu disse: “Eu não tenho público”. Isso tem sido mal interpretado, e não por culpa da excelente jornalista que me entrevistou para a boa publicação do Electronic Beats. Desde que deixei a minha antiga banda em 2008, eu fiz música especificamente para aprender e para fazer a música que eu queria ouvir, sem um público em mente. No entanto, entre 2008 e 2013, cada vez que eu gravava uma faixa, eu mandava para Aaron Funk e Chris McDonald, que são meus companheiros de Speed Dealer Moms, e muitas vezes para alguns outros amigos. Logo no início deste período, percebi que quem eu tinha mandado minha música ou tocado minha música tinha se tornado meu “público”, ou seja, as pessoas para quem destinei minha música.

Mesmo quando você faz música puramente por uma questão de fazer, como eu faço, às vezes ajuda ter amigos que você conhece ouvidos e gostos no fundo da sua cabeça quando você está criando. Mas isso também pode colocá-lo em uma camisa de força, assim como visar sua música para a massa pode. Portanto, em janeiro de 2014, eu decidi parar de ter um “público” nesse sentido, e por isso parei de terminar músicas ou enviar o que eu estava fazendo para amigos, e comecei a fazer um monte de músicas de uma só vez, em vez de uma de cada vez. Isso libertou a minha mente para que eu pudesse fazer música apenas para ouvi-la e viver com ela, a fim de crescer em uma direção diferente por um tempo. Não foi uma decisão permanente. Na verdade, já passei dessa fase. Trickfinger não é o meu último álbum e eu nunca disse que era, como foi alegado por esse site bobo.

Obviamente, eu tenho um público. Estou ciente deles, e eles sabem quem são. Quando eu disse “Nesse momento, eu não tenho público”, eu quis dizer “público” no sentido figurado de pessoas que eu tenho em mente quando eu estou criando, que eu pretendo enviar minha música ou tocar. Na entrevista original, eu tinha deixado isso claro em uma frase anterior que não foi publicada, em que eu me lembro de dizer “Lá estava eu (em 2009) tentando fazer música sem um público em mente quando percebi que Aaron e Chris tinham se tornado o meu público”. Então, quando eu disse mais tarde “Neste momento, eu não tenho público”, a jornalista sabia que eu não estava me referindo ao público. No contexto do artigo do Electronic Beats, que foi em relação a um álbum de música que não foi originalmente destinado a ser ouvido pelo público, eu acredito que fui claro.

Reduzindo a uma única frase, teria sido correto dizer que, neste momento, não tenho um público específico em mente enquanto estou fazendo música. Pensar desta forma me dá uma certa liberdade e estimula o crescimento e a mudança. É um estado de espírito que tem sido extremamente útil para mim de vez em quando ao longo destes últimos vinte e sete anos sendo um músico profissional.

Sou grato que eu ainda tenha um público, considerando que eu não faço música pré-concebida para estar em conformidade com “o que as pessoas querem”. Eu acho que as pessoas não sabem o que querem, e sim que o público pensa que os artistas devem soar como seu público espera que eles soem. O público em geral não “queria” a música de Jimi Hendrix antes de 1967. Eles não sabiam que tais sons eram possíveis. Como eles poderiam querer antes de ouvirem aquilo? Será que o público “queria” Sgt. Peppers antes de ele sair? Isso teria sido impossível, porque nenhum álbum soava remotamente parecido com aquilo. No entanto, os músicos que visam tornar-se ou permanecer popular, chegaram a este hábito estúpido de tentar dar ao público “o que eles querem”. Fiz uma boa vida fazendo isso por anos e em 2008 decidi que eu nunca iria atender às pessoas que acreditam que o dever de um músico é dar ao público “o que eles querem”, nunca mais. Eu tenho excelentes relações com as duas gravadoras independentes que divulgam a minha música, e como eu, elas não visam as massas.

No jargão da indústria mainstream, um artista que tem um público pequeno “não tem público”. Eu sempre desprezei essa expressão, porque implica que o público com gosto incomum são nulidades, ao invés de pessoas reais. Eu certamente não penso assim. Amo as pessoas e não gosto de vê-las desvalorizadas. Fico feliz que as pessoas continuem seguindo o que eu fiz para manter suas mentes ativas e abertas. E estou satisfeito que fãs de rock não são as únicas pessoas ouvindo o que eu fiz. Obrigado a todos por existirem.





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James Brown na batera: Buddy Miles e o Fuzuê de Them Changes

Sempre fico pensando como seria se determinado artista não tocasse o instrumento pelo qual o mesmo ficou conhecido. Acredito piamente que se Jimi Hendrix tivesse pego outro instrumento para se expressar, os rumos do planeta cósmico seriam outros. Penso que se o Cherokee tocasse baixo seu nome de registro seria Bootsy Collins, aliás, peço que mantenham a mesma linha de raciocínio para o que surgirá nas próximas linhas.


Imaginem por um momento... Ousem delirar e imaginar James Brown tocando bateria. Pra quem não sabe, o mestre do Funk tocava bateria, é inclusive válido ressaltar que as habilidades de Brown iam além, fora dos vocais ele também manjava dos marfins quando sentava ao piano! Mas foco, lembrem-se: bateria.


Tentem imaginar como seria a carreira do americano, se ao invés dos holofotes de front man, James tivesse optado pelas baquetas ao fundo do palco. Alguma ideia de como seria? Quem já ouviu falar em Buddy Miles deve perceber as semelhanças que a encarnação de James Brown com baquetas nas mãos materializava quando jogava sua explosiva ''American Music'' no ventilador!

Os céticos bem que tentam ignorar os fatos, mas as proezas de Miles foram muitas. Não foi só o épico registro com Hendrix, o negrão tocou só com os melhores, de Mike Bloomfield à John McLaughlin. É só escolher e marcar na lista, o cara sabia com quem andar depois da aula.

O carregamento era pesado camarada, se você quisesse o puro néctar do blend exclusivo de Funk-Soul-&-Rock que a persona de Miles gerava, era só chamar o cidadão e reforçar as instalações, por que com Buddy Miles in the house o resultado era de ''Them Changes'' pra cima. Eis aqui apenas um dos clássicos que o mestre criou, este mítico LP lançado em 1900 e setenta era apenas um crachá para efeitos de Soul e acidez.

Line Up:
Fred Allen (vocal)
Lee Allen (saxofone)
Teddy Blandin (trompete)
Peter Carter (trompete)
Billy Cox (baixo)
Tom Hall (trompete)
Tom T. Hall (trompete)
Marlon Henderson (guitarra/vocal)
Duane Hitchings (órgão)
Robin McBride (teclado/vocal)
Bob Hogins (teclado/piano/vocal/trombone/órgão)
David Hull (baixo/vocal)
Dwayne Hutchings (órgão)
Jim McCarty (guitarra)
Charlie Karp (guitarra/violão/vocal)
Andre Lewis (piano/órgão/vocal)
Buddy Miles (bateria/baixo/guitarra/vocal/teclado)
Bob Parkins (órgão)
Robert Pittman (saxofone)
Roland Robinson (baixo)
Wally Rossunolo (guitarra)
James Tatum (saxofone)
Phil Wood (piano/vocal)
Mark Williams (vocal/saxofone)
Toby Wynn (saxofone)



Track List:
''Them Changes''
''I Still Love You, Anyway'' - Charlie Park
''Heart's Delight''
''Dreams'' - Gregg Allman
''Down By The River'' - Neil Young
''Memphis Train''
''Paul B. Allen, Omaha, Nebraska''
''Your Feeling Is Mine''


Buddy Miles não é um nome muito conhecido, mas de fato experiência era algo que nunca lhe faltou, isso tudo fora a técnica soberba e o Funk malandro que corria solto em seu Kit. Durante sua carreira, o músico registrou um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos com Carlos Santana, chapou a cozinha do Electric Flag e ainda deu uma aula de bateria em sua exclusiva carreira solo, enquanto deixava muito vocalista no chinelo com uma pinta de Soul Man invejável.

Não, para Buddy não bastava apenas destruir tocando bateria e sair por aí desfilando seu estilo plástico e elegante, ele ainda queria infernizar a vida dos vocalistas e mostrar que além de rápido nas baquetas, sua traqueia produzia uma voz fantástica, algo que em ''Them Changes'' (tema que conta com o bass hendrixiano de Billy Cox), atinge um de seus pontos mais altos.

Aliás desde o primeiro tema, logo com a faixa título do disco, é possível perceber que o baterista exalava Funk. Escute a voz de Brown em temas mais sentimentais como ''I Still Love You, Anyway'', porém tente não prestar atenção apenas na bateria do cidadão. Sinta a riqueza de detalhes, a beleza dos arranjos... Grandes músicos sempre tiveram grandes bandas por trás e com Miles isso não era diferente.


Escute o estrago da banda e seu mestre com o cover de Gregg Allman ao som de ''Dreams''. Note que não é só de caos que um compositor vive. O cover do standard de Neil Young com ''Down By The River'' é um dos melhores já registrados, e sua versão era tão aguardada que com o tempo se transformou numa das grandes assinaturas do músico.

Em sua obra cada detalhe foi planejada, a história nos mostra isso e por mais que seu som tenha sido arquitetado de maneira cerebral, o conteúdo dos LP's faz o ouvinte fritar & fritar com cada detalhe, utilizando apenas o lado criativo e artistico do cerebelo.


Esteja ele presente em ''Memphis Train'' ou no instrumental primoroso de ''Paul B. Allen, Omaha, Nebraska''.  A música desse cara era colorida, potente, pesada e desafiou diversos parâmetros para que outros pudessem quebrar barreiras, mas no final das contas, o que conta é o sentimento que cada tema eternizou.

''Your Feeling Is Mine'', por exemplo, é uma faixa que pode levar até os mais experientes aos prantos, mas eis aqui um momentos chave para se entender toda a profundidade de um cara que nem sempre teve o reconhecimento que merecia. Acredito que o senhor George Allen Miles Jr. tenha sido mais um grande monstro da música, que assim como tantos outros visionários, esta extremamente à frente de seu tempo. Ele era bom de Miles, the badest of the bad.

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Bam Bam: Uma sauna com a Sister Nancy

O Dub é o mais puro néctar do elemento roots. A via de acesso mais densa e pulsante que o DNA Jamaicano nos brindou. Os batimentos cardíacos da terra por cima de um groove com inclinações esfumaçadas, lentas, cheias de eco e que pesam uma tonelada.

A história do estilo e seus pilares. Tudo isso remonta ao reino de I and I, a saudosa Jamaica, o berço de tudo, a gênesis daquele som que não é do Planet Hemp, mas que você sente no peito. O caminhar das notas graves, a transição da era de ouro do Ragga, da raiz com banda, até a ponta dos dreads, hoje mais de 40 anos depois, no meio da era digital.

Foto: Fábio Linhares
Quem construiu essa ponte? Foram muitos homens, a Babilônia ameaçou cair quando ouviu o peso de King Tubby, Errol Thompson, Prince Far I... Está tudo por baixa da cortina de fumaça, pegue a faquinha do rocambole e comece a cortar os blocos da história. Remonte a sequência evolutiva, sincronize o darwinismo Rastafari e coloque uma intera destinada aos livros de história.

Dia 21/11/2015. Dia 21 de novembro de 2015, as 16:20 (pelo horário da Jamaica, mentira, foi as 22:00), o Afro System Festival abriu as portas do Estúdio, situado em Pinheiros e, daí pra frente, a missão de reconstruir a ponte entre o presente e o futuro, começou a ser traçada.



Desconsiderando um leve atraso no front das atrações, o elo das transcrições de RNA começou a ser colocada na fita depois que o DJ Samuca adentrou o recinto. O público ainda estava chegando, mas não teve moleza, o sábado foi banhado por trilhas queimadoras de neurônios desde o primeiro minuto.

Sets dinâmicos, com boa duração, grooveria eletroacústica da mais fina qualidade. Teve Amanajé Sound System na sequência da roda, High Public Sound passando a goma e DJ Tahira com a missão de seguir torrando a vela de celebração. As memórias são esparsas... Afinal de contas não é sempre que você cola numa sessão de mais de 5 horas de duração.

A cada atração o espaço ficava mais povoado. Os beats não paravam, os corpos pulsavam, pulavam, andavam em sincronia com o passo de Haile Selassie. Todos sabiam quem estava pra chegar, mas ninguém conseguia nem ter uma ideia do que iria acontecer, a tensão foi aumentando e quando bateu 3 horas da manhã, rapaz, a sauna se transformou numa panela de pressão.



Primeiro o pessoal da High Public foi dar um tapa nos últimos detalhes. Logo depois a rainha do Dancehall subiu no palco e só de ver a senhorita Nancy, em seu habitat natural, uma das maiores lendas da Jamaica... Foi um sinal, a elevação estava próxima. O set começou e aí deu pra entender por que a mulher é uma lenda, em menos de 10 segundos ela já tinha a platéia na palma da mão, faltava só uma seda.

Mas o Afro System levou várias e ainda o fez com a benção de todos os elementos místicos. Sister Nancy foi para o palanque e enquanto pregava, sua luz própria foi irradiada com a força de 500 vaporizadores. A suprema corte do ''Bam Bam'' se apresentou com a humildade de mil homens. agora sim o cenário estava pronto: Sister Bam Bam Nancy was in the house.

Foto: Macrocefalia Musical

Foi a maior sauna que já participei. O melhor Dub que já ouvi. Uma noite translúcida, leve para o corpo, pesada para a cabeça. Registrar e assimilar tudo que foi visto e ouvido é uma tarefa para alguns dias, meses, até mesmo anos. A grandeza dessa noite foi impressionante. afinal de contas a primeira dama estava ali, na frente de uma casa lotada.

Uma das maiores guerreiras do exército dos jardins suspensos da Babilônia, ali, na mesma casa que nós, seres mundanos da platéia. O som foi purificando cada uma das almas situadas na Avenida Pedroso de Moraes (420, mentira 1036).

Foto: Macrocefalia Musical

O reverb virou cérebros do avesso. a dupla drum & bass torceu e triturou. O resto bateu na sequela dos ecos e da fumaça que a essa altura do campeonato, era apenas um plano de fundo para as festividades. Tivemos mais ou menos 90 minutos para entender de onde veio o Dub, como ele era e como ele está hoje.

Alguns neurônios se perderam nessa jornada de conexão, mas outros milhares viram e fizeram fumaça para celebrar uma noite, que muito provavelmente, produziu a melhor session de néctar jamaicano da minha vida.

Todos os presentes se encontravam complementa anestesiados, parecia um sonho, uma viagem transcendental e com a trilha sonora perfeita, criada por uma das maiores entendedoras desse som que nos faz dançar. Agradeço a todos os envolvidos, desde as bandas no line up até o pessoal da Afro System. É isso, apenas forget you troubles and dance. Fire fire fire.

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Abraxas: O que vocês fizeram comigo?

Depois de um determinado horário, as pessoas que ocupam as ruas de São Paulo são outras. O ritmo das vielas muda, os becos escurecem e em algum lugar, existe uma vadiagem acontecendo. Só tome cuidado com a interpretação, pois tudo isso ocorre imerso num contexto não rude e costumeiramente primitivo, é um lado humano que precisa ser liberado, e o som ajuda todos esses ecos de fluxo, apoiando sua luta e priorizando sua existência.


Basta apenas uma sede para que isso comece. E em andanças pelo miolo do centro paulista, mais especificamente na região da Cecília (a Santa), ouvi um som... Uma sequência de reverberações que saia do Morfeus Club e o fazia com uma classe sombria, estabelecendo um parentesco estranho entre Blues, Hard, Jazz, Doom, Prog, psicodelia e Stoner, bem ali, numa casa que mais parece a residência do Nosferatu.

Arte: Felipe Dalam (Saturndust)

Chegando com uma das melhores propostas para o feriado em São Paulo, a Abraxas mais uma vez montou um line up de estrações bastante caótico e rico. Foi com o Hammerhead Blues, Saturndust e a Necro, que a produtora tratou de evidenciar (mais uma vez), toda a riqueza de nosso cenário.

O underground pulsa e rejeita os aparelhos. Demonstra uma força contundente e colocou 3 bandas, que sob o palco, justificaram toda a sorte de elogios que receberam em tempos recentes. A primeira delas foi o Hammerhead Blues, trio que abriu as celebrações e tratou de mostrar, desde o primeiro take, que o bom Hard usa botas.


Foi um set bastante coeso. Aliás, mais uma vez, o grande destaque foi a jam. Aquele improviso que no fim das contas se confunde com o script original de temas como ''Low'', (faixa que abre o EP da banda), por exemplo.


Os devaneios instrumentais demonstram o controle que os criadores desse universo possuem, e deixam claro como o entrosamento entre os três meliantes está azeitado. A bateria segue administrando o som com o mesmo vigor de uma bomba hidráulica. O Jazz bass continua dando pistas de seu bom gosto na timbragem. E a guitarra segue fritando mais que o Syd Barrett num open de ácido. A versão dos caras para ''St. James Infirmary'' foi um dos pontos altos do show!


Mais ai chegou o Saturndust e aí tudo mudou. A atmosfera perdeu a glicose do Hammerhead e a pressão dos presentes caiu. As luzes perderam cor e o peso parecia varrer a platéia, ainda bem que eu estava com a máquina no pescoço para fazer peso, pois o Doom estava inspirado.


O clima foi denso, assim como a fórmula do full lengh do trio. Aliás, em termos de experiência, o show do Saturndust é bastante singular, as composições corrompem qualquer cenário e em meio a um peso incomensurável, o trio ainda finalizou a session mostrando novas composições.


Tudo isso depois de zunir ouvidos com uma guitarra econômica, fazer o ouvinte matar as timbragens de baixo no peito e manter o groove pulsante com uma bateria que mais parece uma locomotiva saindo dos trilhos!


Foi assim que uma noite promissora estava prestes a explodir, mas ainda faltava algo... Não posso especificar o que era, mas sei que depois do show da Necro, a satisfação foi garantida, total e irrestrita.


Mostrando um entrosamento que só uma banda com 6 anos de história possui, o último trio da noite fechou a conta no Morfeus e finalizou a tour em São Paulo com muito, mas muito bom gosto. Apoiando o repertório do show nas composições que entraram no terceiro disco de estúdio do grupo, (trampo ainda não lançado e gravado no Estúdio Superfuzz), os alagoanos mostraram com quantos goles de pinga se toca um belo Hard-Prog.


E o pior, os caras nem parecem se esforçar para tal, a técnica dos envolvidos é soberba. Pedrinho solava com a calma de um marajá em horário de almoço. Lillian Lessa subia e descia o Rickenbacker com a naturalidade de quem faz uma visita semanal à feira, e o que o kit compacto de Thiago Alef, foi um workshop gratuito para você, gafanhoto que pensa que para a bateria ser foda, é necessário possuir um kit maior que uma Kombi.



Foi um show grandioso, milimétrico e que mostrou um pouco do ilimitado repertório dessa união. As referências são incontáveis, creio que basta ouvir uma track para se ligar que esses senhores manjam muito de música.

A diversidade de influências é contundente e o resultado é bem como o Pedrinho falou antes do show: um ''Rock do mau''. Um elemento riquíssimo, pesado, técnico, cheio de sentimento e com aquele quê brasileiro pra ninguém botar defeito. Foi um feriadaço! 

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Paul & Linda McCartney - Tighten Up Vol. 1

Quando Paul McCartney foi decidir o futuro dos Beatles no tribunal... Os anos 70. A música, sua maior virtude, o acordou na manhã seguinte e quase foi o motivo de seu fim. A pressão, imensa, impedia o baixista de seguir com sua vida, algo no mínimo compreensível, afinal de contas ele não estava saindo de qualquer banda, ele estava se divorciando da maior banda do planeta.

Mas não só isso, existia também um ambiente de banda, perder isso, de forma tão dolorosa e abrupta e pensar num futuro sozinho, parecia um pesadelo surrealista. Mas o futuro ''Sir'' seguiu a vida entre voos de Nova York até a Inglaterra e nos intervalos de turbulência, voltou a sentir o feeling que lhe consagrou, o mesmo que impediu uma catástrofe: seu silêncio.


Foi doloroso, mas ele domou o leão, que antes era sua inofensiva musa, ensinou a patroa à acompanhá-lo no groove (da mesma forma que Linda fazia com as moléculas de THC), e resetou a vida. Foi para o meio do mato e fez os lucros e dividendos. Fez tal qual pregam na filosofia Southern do Lynyrd Skynyrd, sim, até Paul McCartney já foi um simple man.


Foi sua época Hippie, bêbado e levemente maltrapilho. Sempre cool, mas nesse período de transição, seus melancólicos discos solo foram sua trilha para o fundo do poço. O britânico tinha 27 verões quando o Beatles acabou, estaria ele acabado?

Não, a saída foi colocar a criançada numa van e sumir do mapa, deixar os ataques de Lennon sobre a mesa suja de café e ir pra Escócia, santa terra do Scotch, whisky que o bass man bebeu igual água.


Esse pode parecer um tempestuoso recomeço. Na realidade não parece, foram tempos de tormenta, só que foi com coragem que Paul virou o jogo, mostrou que sua genialidade não precisava fazer mitose e saiu do abismo solo para o infinito dos Wings. É claro que tudo isso precisou demorar mais alguns bauretes para acontecer, mas é bom saber que o start aconteceu e teve até trilha sonora.


Track List:
''Tighten Up'' - The Untouchables
''Kansas City'' - Joya Landis
''Spanish Harlem'' - Val Bennett
''Place In The Sun'' -  David Isaacs
''Win Your Love'' - George Penny
''Donkey Returns'' - Brother Dan All Stars
''Ob-La-Di, Ob-La-Da'' - Joyce Bond
''Angel Of The Morning'' - Joya Landis
''Fat Man'' - Derrick Morgan
''Soul Limbo'' - Byron Lee
''Mix It Up'' - The Kingstonians
''The Uniques'' - Watch This Sound



Enquanto Paul arrumava o telhado e as demais dependências de sua fazenda, a ''High Farm'', a rotina de sua família era bem tranquila. Nesse ponto, seu lado pastoril foi bom para um cotidiano que incluía longos passeios à cavalo com sua esposa, brincadeiras com as crianças e sessões de epifania, enquanto o primeiro volume da compilação, ''Tighten Up'', dava um spinning na vitrola.

Fundado em 1968 por Lee Gopthal, a Trojan Records era um selo britânico especializado em música Jamaicana. A paleta de sons aglutinava Ska, Rocksteady, Reggae, Dub e não seria exagero dizer que os caras foram um dos responsáveis, não só pela popularidade do Reggae no Reino Unido, mas sim por ter um dos melhores catálogos da cena, contando com combos como Lee Parry & The Upsetters, Nicky Thomas e Bruce Ruffin.


O único detalhe é que a principal tarefa dos caras não era revelar e lançar novos músicos, eles serviam como uma empreitada complementar em relação à Island Records. Por isso, o dinheiro só começou a surgir quando o selo começou a contratar produtores da cena jamaicana (como Byron Lee, por exemplo), e apostou no lançamento de compilações baratas.

Logo nos primeiros anos de vida eles criaram várias séries, como a ''Club Reggae'', ''Reggae Chartbusters'' e a ''Tighten Up'', o momento de maior sucesso dessa colonização Roots Reggae. Hoje o selo pertence ao grupo da Sanctuary e, apesar do sucesso com as já citadas coletâneas, isso não foi o suficiente para sustentar as fontes criativas e quem sabe elevar o padrão dos trabalhos.


Hoje essas gravações se tornaram cult's e servem como o legado de uma cultura em crescimento. Um som marcante e característico que ajudou Paul a recomeçar e que jogou várias edições de preciosidades no mercado.

E mesmo que essa seja a mais Pop delas, depois os volumes ganham corpo e nos relembram dos clássicos obscuros que ajudaram um gênio a refletir e, quem sabe, plantar uma muda no fundo do quintal. Boogie on Reggae woman!

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William Onyeabor - CD Boxset 2014

A música conspira. Não sabemos se o groove joga as cartas em prol de si mesmo, mas a lógica nos diz que sim, pois é notável ver como alguns músicos ressurgem na cena, mesmo para um novo e pequeno público: os ''cults''.

A internet talvez tenha sido a principal ferramenta nesse processo de redescobrimento sonoro. São essas portas tecnologicas da percepção que recolaram nomes (como o do americano Shuggie Otis) no mapa. Nomes quentes, alcunhas de verdadeiros fritadores, engenheiros químicos da jam que criaram discos tão fortes que mesmo 40 anos depois, precisam continuar sendo disseminados.


A história e os fatos por trás de certos trabalhos sempre se perdem, às vezes nem o Google salva, mas é bom saber que mesmo com quase nenhuma informação sobre o nigeriano William Onyeabor, sua discografia encontra-se disponível na rede mundial de computadores. 

É bem provável que você nunca tenha ouvida falar no nome deste, hoje, senhor devoto de Deus e músico Gospel, mas depois do play, seu cérebro será empanado pela futurista mistura de música eletrônica, Funk e raízes africanas que reviraram o mundo até o selo americano Luaka Bop (propriedade do David Byrne), passar a bola e deixar esse estrago em evidência para o mundo.


Depois de anos de pesquisas (com poucos resultados concretos), mas com toda a discografia do mito remasterizada e reunida em vinil, a meca das obscuridades eletrônicas do ex membro do Talking Heads soltou 9 LP's (no dia 09 de novembro de 2014) na forma de um belíssimo box e com uma versão alternativa para o primeiro LP de William, o faiscante ''Crashes In Love'', lançado em 1977.


Track List:
Crashes in Love (Original Version) - 1977
Atomic Bomb - 1978
Tomorrow - 1979
Crashes in Love (2nd Version) - 1979
Body and Soul - 1980
Great Lover - 1981
Hypertension - 1982
Good Name - 1983
Anything You Sow - 1985



O que esse Box consegue reunir é absurdo. São 9 discos fabulosos que após mais de 10 anos de pesquisas, evoluíram de uma coletânia (a que estampa a primeira foto dessas linhas), para um box com metade deste conteúdo (também lançado em 2014) e culminam no capítulo final desta saga: toda a obra do nigeriano neste pack.

Falar sobre William é bastante incerto, assim como sua música. Você nunca vai sacar pra onde o swing vai caminhar, o que sua banda do apoio jogará nas linhas, tampouco conseguirá não se impressionar com a revolução de sintetizadores que esse cara criou.


Só que ao ouvir esse som existe algo que você precisa saber: William será seu ídolo, mas você não saberá muito sobre ele e terá que aprender a viver com isso. O Google, quando se trata de Onyeabor, será como sua conta no banco: renderá pouco. O YouTube nos servirá os quitutes, mas não espere por reviews faladas, até a descrição dessas gravações é inexistente.

Mas o que fica é um fato, William arrumou sintetizadores Moog na década de 70, uma faixa de tempo onde nem rádio a populão tinha direito. Como ele fez isso? Pra variar ninguém sabe, a única certeza é que ele tinha patrocinadores e seu mar de teclados virou um universo paralelo depois que o marfim encontrou essa galáxia de possibilidades infinitas.


Faz quase 40 anos que esses plays estão entre nós e quem manja sabe: é difícil conviver com um som tão foda e não saber quase nada sobre o assunto, mas a urgência dessas notas ácidas vai revirar sua mente e confundirá seu calendário biológico.

O som é fresco demais pra algo que foi iniciado em 77, funky demais numa terra dominada pelos atabaques já pré voltados para o afrobeat e tão contagiante que fez a Noisey gravar um DOC para deixar claro que William existe, mas que nós não sabemos muito sobre ele. Prepare-se para ficar impressionado, serão horas e mias horas de derretimento cerebral durante o aquecimento das geleiras de seu intelecto.

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O clima instrumentown no Mundo Pensante - 14/11/2015

A música instrumental estabelece outro nível de conexão com o ouvinte. As notas substituem as palavras concretas e elencam o abstrato, tentando cumprir a dificíl tarefa de nos prover notas com moléculas de significado.

Isso realmente não se explica, e as pessoas evitam entrar nesse mundo, pois é mais complicado falar com o lado direito do cérebro. É raro, desconcertante e muito pessoal, observar quando um músico tenta passar sua visão de mundo sem falar ao menos uma palavra, é um senhor paradoxo. 


E é exatamente esse temperamento volátil que consegue decodificar nossos ouvidos quando o sentimento controla o ímpeto ousado das notas. É justamente no momento em que as palavras se fazem poucas para explanar uma ideia, que nós sentimos a importância da música instrumental em noites especiais.

Celebrações sonoras como o festival (instrumental only), que o Mundo Pensante transformou em sinônimo para o rico vocabulário instrumentown do Mescalines, Bombay Groovy, Tigre Dente de Sabre e Bmind. A cena paulista estava em peso!

Flyer: Vanessa Deborah
As 4 bandas envolvidas no line up eram bastante diferentes entre si. Creio que apenas o Bmind e o Tigre Dente de Sabre possuiam influências convergentes em virtude da música eletrônica presente nos 2 sons, mas a riqueza estética definitivamente foi um dos destaques dessa noite sem verbos.



E a primeira conjugação instrumental surgiu quando o Mescalines foi para o palco. O primeiro duo da noite se posicionou e logo de cara o clima de instrospecção sinérgica da dupla tomou o ambiente. Mariô e Jack Rubens pouco se falam quando estão tocando, mas aí é que está o lance, se o som é instrumental, a química também precisa ser livre de palavras, por isso que o Blues xamânico dos caras usa e abusa da telepatia em riff's.


É como se fosse uma moeda de troca. O elo que sustenta o Jazz e Blues, que com esse ato, é apenas um corpo de ideias para invocar o ritual dos nômades do Sahara, enquanto o Blues justifica a espiritualidade que mostrar o caminho que nos tira do nada, e serve de guia para chegar ao lugar nenhum, libertando nossas mentes.


O set foi seco, na lata, sem frescuras. Um momento que foi a síntese dessa união, evidenciou uma banda no topo de seu jogo e mostrou que a música não possui limites quando existe a fusão de gêneros. Creio que foi um momento de ruptura bastante intenso e que antecedeu mais um belo show da Bombay Groovy.


Foi com um arsenal de peso que o trio fez um de seus shows mais completos. Bourganos mostrou que o sitar vai bem, obrigado, mas de fato, existem coisas que apenas uma guitarra fazem por você. Leonardo Nascimento administrou a jam com o costumeiro peso e elegância, enquanto Jimmy seguia alimentando as teclas com a fidalguia que apenas um Hammond  consegue instaurar.


O repertório foi bastante interessante também. Passamos pela emocionante ''Chakal'', a evolutiva ''Aurora'' e contamos também com a participação de Erico Jônis no baixo, hippie cósmico que tratou de acrescentar um belo conjunto de notas graves na jam, além é claro, de evidenciar um fato: o Bombay funciona em qualquer formato.


Foi uma grande noite. O som começou relembrando as raízes do Blues/Jazz, chegou à fusão do oriente/ocidente com os termos psicodélicos da Bombay e sua música multiétnica, mas ainda faltava algo. Precisávamos  do conceito artístico do Tigre Dente de Sabre e sua imersão de músico erudita, experimentações eletrônicas e potentes sintetizadores.


A riqueza foi estonteante, a segunda dupla da noite foi responsável por seguir mostrando a evolução da música. Apresentando um show milimétricamente calculado. repleto de insights advindos da música clássica e com um sincronia fina entre o bass/sinth de Marcos Leite e a precisão da bateria de Gui Calzavara, acredito que as presas do tigre ficaram bem visíveis.


Foi um dos picos da madrugada. A platéia respondeu muito bem e foi interessante ver como a cozinha dos caras faz o público pulsar com essa estética única de ''Trance clássico''. Foi uma experiência e tanto, mas ainda faltava algo, a música instrumental só estaria completa e encerraria seu ciclo, depois que o Bmind mostrasse com quantas desconstruções é possível remontar a sua realidade.


Com a cozinha mais eletrônica da noite, o Bmind mostra como a música, seja ela qual for, consegue absorver resquícios de modernidade. A fusão de beats eletrônicos, passagens ambientes e takes analógicos, conseguiram deixar a live session de Jaime Bmind e do trompetista Roger Brito, bastante orgânica.



A participação de Brito foi bastante significativa. Seus insights nos metais blindavam as músicas com muita classe e feeling, trabalhando com camadas longas e cristalinas de uma maneira bastante peculiar. Inclusive, essa foi a conexão que conseguiu mensurar a profundidade de uma inventiva cozinha, concluindo uma viagem que cumpre a difícil tarefa de unir o Techno, seu comparsa Minimal e a linha Spiritual no mesmo shot de realidade.

Boogie on Reggae woman:

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