Halloween: a convenção do Rock 'N' Roll no Zé Presidente

Nos últimos anos o Halloween se tornou uma bela desculpa para o Rock 'N' Roll. Só que para as celebrações desse último 31 de outubro, os músicos adaptaram o cardápio. Agora o menú responde com doces regados à pinga e abóboras levemente esbugalhadas pelo excesso de sintéticos (e betacaroteno), elemento que tornam as mesmas tão laranjas.

Só que o fato é um só, mesmo que essa manobra seja uma artimanha para justificar o alto volume (como se isso precisasse ser explicado), nenhum dos seres vivos que compareceu à celebração dos famigerados ''doces e travessuras'', reclamou da convenção que colocou Ted Marengos, Bombay Groovy e Hammerhead Blues no palco, muito pelo contrário.


Esse ano, excepcionalmente, a noite que aumentava a glicose no sangue da população só elevou um parâmetro, e não foi a sua chance de contrair diabetes. Jamais! Para essa data o ideal base foi: ''Grooves ou jam sessions'' e, rapaz, não teve como administrar uma dose de um e depois outro, foi tudo ao mesmo tempo.

Para o iniciar a noite e mostrar como as atrações envolvidas apoiavam diferentes frente sonoras, o Ted Marengos começou a encorpar o som com sua paleta pautada no Folk e no Blues, tudo com um clima sulista bastante prudente no quesito instrumental.

Aliás, aqui vale uma ressalva importante, dentro do bom repertório autoral do quarteto, versões de Neil Young e belas jams, o guitarrista Tiago Poletto foi um dos destaques do compacto e assertivo set que a banda distribuiu para os ouvidos dos presentes.



Nem parecia que era seu segundo show com a banda! Tudo estava em seu devido lugar. O vocal e a guitarra (com insights de viola), feitos por Júlio Pimental, estavam claros e foi esse espírito mais purista que nos brindou com o clima Southern.

No baixo, a timbragem de seu irmão, Luís Pimentel, foi elementar, afinal de contas quem conhece aquele bom e velho Rickenbacker não quer tocar com mais nada e para fechar a conta, Thomaz encerrou o groove dos três tenores na bateria e abriu alas para a Bombay.


Era o momento do Groovy. A tênue linha que separa o começo de um riff daquele êxtase psicodélico, o ácido e sexy tilintar oriental que é transgressor, se levarmos em conta que o sitar não é tocado na posição de lótus, mas que observando com visão de 360 graus, percebemos que é apenas uma licença poética para Bourganos emular uma Gibson e tirar sons que nem mesmo um guitarrista extrairia de seu instrumento.


É impressionante como a energia da casa mudou quando o trio foi para o palco. A união desses 3 belíssimos músicos é algo especial e muito difícil de encontrar. É um elo fortíssimo de entrosamento, técnica, mística... Uma conexão profunda que seria vazia caso as notas não levassem o feeling para que o Groovy não se perdesse.


Em outras noites era possível notar quando eles iam de um som para o outro, de uma jam Funky em ''Tala Motown'', para a transcendência caótica e sempre um dos pontos altos das apresentações do combo, com ''Le Bateau d'Orpheu. Mas nessa noite em especial os intervalos pareciam inexistentes, a apresentação dos caras foi completamente indivisível e o domínio de repertório, impressionante.

A banda mostrou muito bom gosto quando relembrou os proggeers Holandeses do Focus, com a clássica Hocus Pocus e, a cada take, exercia seu magnetismo transcendental com a mesma fluência de um som Progressivo.


A ideia da Bombay é não se limitar. O conceito instrumental dos caras busca navegar entre o Jazz o Rock e os outros mais diversos gêneros, com a mesma classe que as teclas de Jimmy Pappon fazem o baixo (em clavinete) com uma mão e nos mostram a força de um exemplar Hammondiano com a outra.


É uma tarefa complexa, afinal de contas requer performances cirúrgicas, mas com solos com um quê de Ginger Baker na bateria de Leonardo Nascimento e improvisos que elevam os ouvintes como se tudo fosse uma eterna jam... Rapaz, eu estava quase pegando a cartola do homem das teclas só pra poder deixar claro que estava tirando o chapéu para toda aquele mar de notas. Tocar é uma coisa, mas sentir e nos tirar a noção do tempo é algo grandioso, definitivamente especial.

Só que ainda faltava algo. O Ted Marengos apoiava os ventos do sul, a Bombay mostra as ligações complementares entre os estilos mais diversos e etc e tal, mas ainda faltava aquele Hard pedreiro, o feeling que sempre consagra o avacalhante Hammerhead Blues.


William Paiva na bateria, Otavio Cintra no Jazz bass e Luíz Felipe Cardim na Strato. Em resumo é isso, na prática, bom, na prática a cratera é bem mais embaixo. Existem atos que vivem pra tocar como se a vida fosse um eterno disco ao vivo.

Se fosse necessário listar alguns sons nessa aresta o Hammerhead seria o primeiro da lista. Escute o EP dos caras e comprove isso: se você colocar no volume certo (no máximo), verás que parece que eles estão tocando aí, bem na sua sala.


As faixas possuem um corpo fixo, mas na hora do show é que a fagulha do momento se acende. Parece que eles explodem um morteiro no palco e é exatamente no momento onde você fica em dúvida sobre o que vai rolar, que os caras entram com mais vigor que o Ozzy Osbourne na época em que fez estágio num abatedouro.


Foi o show mais longo da noite e o mais intenso também. Quando acabou, os caras estavam destruidos e, meu amigo, é aí que está o Rock 'N' Roll, quando acaba o show e a banda está em frangalhos, mas com um sorriso malandro na face depois de ter feito um showzaço com um microfone capenga.


A receita é simples, na bateria, quem é o responsável por rebocar (lê-se acompanhar) a glicose hardeira da banda, é o reverendo William Paiva. No baixo, o bom gosto se equivale ao peso quando Otavio Cintra adiciona suas notas graves no elo sonoro e, na guitarra do já citado Luíz Felipe Cardim, notamos que a fritação carrega sentimento enquanto o cidadão sobe e desce a escala com bends tão intensos que parece que sua vida depende disso.


Essa noite de Halloween foi uma desculpa para aumentar o volume e nos mostrar que ainda existe paixão quando os instrumentos estão prontos para revolucionar. Foi uma convenção muito bem vinda e que se encerrou de maneira perfeita com o Hammerd Blues. Teve de tudo, até releitura do mestre Louis Armstrong com o magistral Jazz de ''St. James Infirmaty''.

Foram tantas jams que no fim o mais lógico aconteceu: eles fecharam a noite com uns bons quinze minutos de Grand Funk Railroad. ''Inside Looking Out'' minha jóia, o DNA da improvisação ainda pulsa e não é pouco não, que noite. Halloween é o caralho, meu nome agora é Mark Farner.

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