O transe de Carlos Santana & Alice Coltrane em Illuminations

A música é um pleno exercício de autoconhecimento. Uma bacia das almas coletiva, mas que para completo entendimento (tendo como referencial o músico que se manifesta), possui detalhes individuais. Afinal de contas as notas também complementam um mergulho em nosso próprio ser. 

Sabe quando um guitarrista começa a solar, fecha os olhos e olha pra cima? Wayne Shorter chamou isso de ''o reino invisível''. É pra lá que o Santana vai quando sola e cerra seus olhos por tempo indeterminado.


Mas é o que é o reino invisível? Como é feita essa conexão? Como a música eleva criador-e-público? A questão da espiritualidade e das crenças de expansão da percepção, são um elo primordial para se compreender certas experiências sonoras.

Quando John Coltrane buscou elevar sua música (com patrocínio da IMPULSE!) e manifestar uma mudança de percepção no ouvinte, ele virou o cosmos do avesso com ''A Love Supreme''. Esse clássico (lançado em 1965), mostrou um novo Jazz, algo que Pharoah Sanders, sua esposa Alice Coltrane e o próprio John, chamariam de ''Spiritual Jazz''.


Nessa aresta das melodias, o som era maior do que o próprio ato de tocar. Nesse estilo, os músicos era meros detalhes, o importante era a música que era gerado através deles, jamais a esmo, como muitos fizeram e ainda fazem. A criação virou um templo sagrado e a meditação foi a frente filosófica adotada para isolar tudo que não fosse adentrar o clã supremo.

Line Up:
Alice Coltrane (harpa/piano/órgão)
Carlos Santana (guitarra)
Tom Coster (piano/Hammond)
Dave Holland (baixo)
Jack DeJohnette (bateria/percussão)
Phil Brown (tamboura)
Jules Broussard (flauta/saxofone)
Armando Peraza (congas)
Phil Ford (tablas)



Track List:
"Guru Sri Chinmoy Aphorism" - Sri Chinmoy
"Angel of Air / Angel of Water"
"Bliss: the Eternal Now"
"Angel of Sunlight"
"Illuminations"


Cada nota era absoluta, permeava conceitos que buscavam chegar ao outro lado e mexia com as pessoas de uma maneira inexplicável. Apostando em notas longas, imersões sublimes, riffs que desafiavam a estrutura habituê das obras contemporâneas e que conduziam um magnetismo praticamente molecular.

O corpo humano é uma formação biológica que nesse contexto não existe da maneira que conhecemos. Esqueça, ossos, tecidos, órgãos e todas as analogias terrenas, depois que a IMPULSE! entrou no jogo, o músico virou um instrumento de seu guia espiritual dentro dessa trilha de peregrinação jazzística.

Os músicos buscavam simular uma dose de imersão poderosa. Separavam corpo e alma, isolavam o espirito e confundiam as forças de absorção celestes com climas instrospectivos, libertários, berrantes, coloridos, intensos e transcendentais.


A energia era canalizada para promover os novos tempos, romper estigmas e preencher os corpos vazios com os elementos vitais, energia e a fusão de mundo interno e planeta externo. Era como se fosse um Ying-Yang agindo na mesma metamorfose, pronto para revirar as estranhas do ouvinto (que agora era um extensão do artista instrumento), e convencer os ouvidos dos seres que o principal era se deixar levar e não impedir o curso da música.

Aliás, um dos grandes pontos nesse laboratório era mostrar a fluência das composições, criar trabalhos com lado A e lado B, mas promover tudo como uma coisa só. Um bloco que começava a ser diluido nos corpos vazios e que no fim, se encerrava deixando um copo cheio.


Produzindo fontes de energia que se sustentavam e que quando acabam de fazer a transferência da vitrola até corpos e ouvidos, deixavam o ouvinte virtuoso. O tornavam puro, mas o faziam de maneira completamente avassaladora. 

Essa concepção sonora é o mais próximo que a música chegou da meditação. Trabalhos como esse precisam de uma vida para a devida apreciação, pois a conexão é real e muito poderosa. Cada corpo reage de uma maneira, mas o principal é entender a sua própria resposta, sentindo com quem, onde e como suas filosofias convergem e se estabelecem.

Imagine que um corpo seja como um bloco de concreto. Discos como esse, que evidenciam o primor dessa união entre Santana (creditado como Devadip, nome espiritual dado por seu Guru, Sri Chinmoy) e Alice Coltrane, são como raios solares.

Eles cavam buracos lunares nos tijolos, atravessam vários canais diferentes e no fim, quando exposto à luz, o tijolo fica praticamente poroso. É exatamente ai que está a moral das experimentações: a luz está para o som, assim como a espiritualidade está para a música, força que por meio da destruição e sutileza (paradoxos instáveis que firmaram as bases do Spiritual Jazz), agiram sobre o tijolo, nos fazendo planar após o fim dos ecos. 


São pouco mais de 35 minutos onde tudo perde a importância, o mundo vira um imenso vale de trombetas e nós apenas atravessamos a trilha da peregrinação rumo ao infinito. O sentimento é glorioso, valorizado como cada bend de Santana, e é o corpo vital de toda essa categórica reencarnação. 

Em alguns momentos parece que dói, de vez em quando sentimos uma tensão, mas no fim o frisson se esvai e estamos elevados, flutuando como corpos em áustera imunização. Obrigado pela união de cozinhas ideológicas para a gravação desse disco, Carlos e Alice.

Sei que poderiam existir outros, mas nem existem meios de reclamar ou pedir mais, quando em apenas um vinil, foram eternizadas as reverberações definitivas que marcaram o nome de vocês juntos, na flor de Lótus da humanidade.

Agora sei qual caminho seguir. Entendo a concepção dos 5 temas que formam esse disco, e sei que os 9 músicos envolvidos nessa alquimia, buscavam apenas mudar os climas, tons, volumes e vibrações para testar a todos nós. Ver nossa reação e no fim do som, nos apontar uma direção em meio à nuances de cetim, que brilham nessa gravação de fios de prumo de marfim no eterno 1974.

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