Youthanasia: tudo sobre Pendurar crianças no varal e escutar Megadeth

Os grandes medalhões do Heavy Metal vem perdendo cada vez mais espaço hoje em dia e não é por falta de relevância, mas sim por que a qualidade da obra recente deles caiu muito, ainda mais se comparado aos anos de ouro.

Atualmente é bastante complicado para grandes grupos manterem sua soberania, e isso é muito bom. Por um lado, faz as bandas não se acomodarem, por que sabem que se não vierem com algo realmente bom, outros grupos vão fazê-lo, mas existem dois tipos de problemas nisso:

1 - Ou a banda segue alternando bons e maus discos.
2 - Ou cai em pleno declínio depois de anos de pura soberania.


Quando leio os dois parágrafos escritos acima e o complemento com as duas possibilidades listadas, a primeira banda que surge em minha mente é o Megadeth. E mesmo eu, que gosto da banda, não posso negar que os caras não lançam algo notável faz um tempinho. 

Para este que vos escreve, a coisa perdeu o fio da meada depois que o ''The Words Needs A Hero'' (2001) saiu, se bem que se você for mais exigente não seria tão exagerado afirmar que o último grande disco do Mega tenha sido o ''Youthanasia'', lançado em 1994.

Line Up:
Dave Mustaine (vocal/guitarra)
Marty Friedman (guitarra)
David Ellefson (baixo)
Nick Menza (bateria)
Jimmie Wood (gaita)



Track List:
''Reckoning Day''
''Train Of Consequences''
''Addicted To Chaos''
''A Tout Le Monde''
''Elysian Fields''
''The Killing Road''
''Blood Of Heroes''
''Family Tree''
''Youthanasia''
''I Thought I Knew It All''
''Black Curtains''
''Victory''


Esse disco encerra a fase de ouro do Megadeth, algo que estava fadado a acontecer. Ninguém consegue lançar seis discos excelentes como o grupo fez e ainda manter as tours monstruosas que a banda se propunha a traçar em seu calendário, sem ao menos começar a cair pelas tamancas. 

O Megadeth foi soberano dentro da cena durante quase uma década, desde a estréia do grupo, com o arregaço híbrido de Trash e Heavy de ''Killing Is My Business... And Business Is Good!'' (1985) até este disco, a banda de Dave Mustaine manteve um padrão de qualidade monstruoso.

Os discos que vieram depois deste aqui são até aceitáveis, mas depois do ''The Words Needs A Hero'', os fãs da banda sabem que no fundo nunca mais ouviram um grande trabalho como esse aqui, aliás, até a capa desse disco é excelente.

Na arte feita por Hugh Syme (famoso por por criar capas para o Rush e o Iron Maiden) nós temos uma velha pendurando crianças num varal. Essa prática tem como fim a rápida secagem dos pimpolhos, pois eles deveriam ter acabado de sair da máquina de lavar, claro.


Trocadilhos a parte, o conteúdo das letras desse CD é muito interessante. Para manter a destreza no verbo, Mustaine continua atirando para todos os lados, desde questões governamentais, até o ponto chapante das drogas, sua vida em sociedade e as guerras, um de seus assuntos preferidos. 

Aliás, a faixa título (tanto quanto a capa) merece um destaque especial. ''Youthanasia'' vem de ''Eutanásia'', que é basicamente a aceleração da morte de um indivíduo incurável, para que se termine todo o ciclo de sofrimento que o envolve. Neste ponto de vista, Mustaine joga na cara dos ouvintes que nós podemos produzir ou esperar a Eutanásia, algo válido a se pensar, ainda mais nesta sociedade.

Sobre o restante da gravação só tenho elogios a tecer, aqui a banda seguia muito bem, com um instrumental fantástico e com Dave no topo de seu jogo, exalando Riffs e contando com Marty para adicionar ainda mais peso e criatividade na cozinha. 


Temos um cenário muito criativo desde a primeira faixa. Começamos pesando o amplificador e testando a timbragem do baixo ao som de ''Reckoning Day'', temos ótimos riffs (afinal trata-se de Dave Mustaine) e ''Train Of Consequences'' é apenas um dos exemplos, isso fora a aula de Francês com a bela ''A Tout Le Monde'' e uma exibição de gala por parte de Friedman, rola até uma gaita!

São doze faixas excelentes e o disco como um todo é um trabalho muito linear, o único problema é que quando acaba, faz os fãs ficarem meio deprimidos, Os últimos CD's do grupo foram bem fracos, mas é aquela coisa, nunca duvidem de Dave Mustaine, afinal de contas ele foi expulso do Metallica e, SOZINHO, fez uma banda tão grande, seminal, mais pesada e rápida do que seu ex grupo.

Observação: depois do fim do disco, tire as crianças do varal, acredito que depois de uma hora elas já estejam secas.

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De domingo a domingo com Trombone Shorty e as cores quentes de Say That To Say This

Agora estou de férias, mas até um mês atrás o processo de ''percusso semanal'', aquele famigerado ''dia-a-dia'', era bastante complicado. Me lembro que toda segunda levanta e pensava: ''mais um dia'', e de fato, não estava errado, pois depois daquele ainda teria mais quatro pela frente.


Segunda-feira é covardia. Parece que tudo é ruim, aliás, de todos os meus horários da faculdade, o da segunda era o mais cruel (veja que nada nessa vida é por acaso). De uns anos pra cá comecei a contar os dias a partir de terça, dia que para este que vos escreve, marca o fim dos ressentimentos pelo fim do final de semana. Você simplesmente precisa aceitar e a terça é o primeiro passo.

A quarta-feira, por sua vez, marca a metade do martírio, um dia em que normalmente todos estão de bom humor, pois o pior já passou (segunda) e agora já superamos o trauma do fim de semana na terça. Agora estamos prontos para tudo, no pique para virar e ir para a quinta-feira ou como gosto de chamá-la: pré sexta.


A quinta passa lentamente e acho que agora sei o motivo. Sempre que lembro desse dia a primeira coisa que surge é: ''falta um dia pra sexta, depois chega o sábado e ai estou feito!'' Talvez seja este o motivo de meu apreço pelas quintas... Um dia idealizado, na maioria das vezes tranquilo, até dormir e chegar na sexta.

Ah sexta-feira, que dia, parafraseando Milton Leite ''ai eu se consagro''. Dia de bar, fechar a semana de maneira tranquila e dar play nos dias vagos. Aliás, falando em delírios semanais, faz uns dois ou três meses que venho ouvindo um disco que toda vez que me perguntam se é bom ou não, respondo: ''tão bom quanto uma sexta-feira, alegra o ouvinte e o deixa pilhado na medida certa''.

Falo sobre ''Say That To Say This'' e o Jazz-Funk da revelação Trombone Shorty. Eis aqui um som que não falha, Pop na medida certa pra fazer toda a semana parecer sexta-feira e nos mostrar que a cena de Jazz contemporâneo é forte igual o DNA sonoro de New Orleans que permeia este registro.

Line Up:
Trombone Shorty (trompete/trombone/vocal/bateria)
Michael Ballard (baixo)
Lemar Carter (bateria)
Charles Jones (órgão)
Pete Murano (guitarra)
Art Neville (guitarra/órgão)
Cyril Neville (vocal)
Joey Peebless (bateria/percussão)
George Porter Jr (baixo)
Raphael Saadiq (baixo/guitarra/teclado/vocal)
Charles Smith (percussão/vocal)
Taura Stinson (vocal)
Calvin Turner (baixo)
Zigaboo Modeliste (bateria)



Track List:
''Say That To Say This''
''You And I (Outta This Place''
''Get The Picture''
''Vieux Carre''
''Be My Lady''
''Long Weekend''
''Fire And Brimstone''
''Sunrise''
''Dream On''
''Shortyville''


Esse CD fecha a primeira trinca do americano com a Verve. Tivemos (em ordem cronológica), ''Backtown'' (lançado em 2010) ''For True'' (lançado em 2011) e ''Say That To Say This'', lançado no dia 10 de setembro de 2013, talvez o ponto mais alto da carreira do americano até o presente momento.

Músico requisitadíssimo, Shorty abocanhou a cena Jazzística em pouquíssimo tempo e, com isso, os festivais mais tradicionais (do Jazz ao Blues) ficaram pequenos para sua cozinha swingada. O circuito ficou tão pequeno, que agora o maior foco é seguir emplacando o Funk, algo que neste trabalho se mostra bastante visível.


''Say That To Say This'' é um trampo completo, de fácil e deliciosa audição, com temas instrumentais e outros cantados. Um passeio tranquilo e pra lá de coeso pelo melhor do Jazz e pelo swing clássico do Funk. Viciante e dinâmico desde a faixa título, arrojado em ''You And I (Outta This Place'' e ácido com o groove preciso de ''Get The Picture'', Trombone Shorty mostra a importância da renovação. 



Munido de uma excelente banda de apoio, alguns de seus temas instrumentais, como ''Vieux Carre'', por exemplo, aparecem com bastante requinte. É claro que também existe espaço para uma jam mais malandra, como ouvimos em ''Be My Lady'', mas no geral os timbres se mantém com um alto índice de classe para não entregar toda a fritação logo de cara, pois se assim fosse, temas como ''Long Weekend'' e o veneno de rachar a emenda do telhado (''Fire And Brimstone'') seriam meros detalhes,

Com um track list bem montando, mesclando requintes rebolativos, momentos mais técnicos, feeling e mais temas instrumentais, a trinca final é um veneno. ''Sunrise'' é sublime, ''Dream On'' e ''Shortyville'' são os anúncios para um pré até logo que lamentavelmente aparece depois de pouco mais de 35 minutos. 

Eis aqui um belo disco, nada de outro planeta, mas às vezes é bom relembrar que a música Pop pode ser boa, sempre que bem pensado, é claro.

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Jerry Garcia & David Grisman: Coloque Not For Kids Only pra tocar no berçário

Um bom músico é aquele que se preocupa com o futuro. Um cidadão que além de notar e aplicar as novas tendências, sente uma necessidade incrível de acrescentar algo para seus companheiros humanos. Um objetivo que as vezes é maior do que apenas mais um disco de inéditas.

É um encontro entre gerações. Uma tentativa que visa compreender as mudanças que muitas vezes nos tornam antiguados perante os pimpolhos da geração Y. Aquele detalhe que faz uma criança nos diferenciar de um velho babão e falar que o tio é um cara bacana.


O elemento Jerry Garcia & David Grisman. Uma das uniões mais humanas, puras e prudentemente acústicas que você encontrará por aí. E se você acha que a sonoridade é um híbrido de Gtraful Dead com Country, fique o senhor sabendo que outros trabalhos da dupla poderiam carregar essa alcunha, todos eles, menos ''Not For Kids Only''.

Line Up:
Jerry Garcia (guitarra/vocal)
David Grisman (banjo/bandolim/vocal)
Hal Blaine (percussão)
Joel Craven (violino/percussão)
Matt Eakle (percussão)
Larry Granger (violoncelo)
Larry Hanks (harpa)
Heather Katz (violino)
Jim Kerwin (baixo)
Daniel Kobialka (violino)
Pamela Lanford (oboé)
Jim Miller (baixo)
Rick Montgomery (guitarra)
Kevin Porter (trombone)
John Rosemberg (piano)
Jim Rothermel (clarinete)
Willow Scarlet (gaita)
Nance Severance (violão)
Jody Stecher (violino/vocal)
Peter Welker (trompete)


Track List:
"Jenny Jenkins"
"Freight Train"
"A Horse Named Bill"
"Three Men Went A-Hunting"
"When First Unto This Country"
"Arkansas Traveller"
"Hopalong Peter"
"Teddy Bears' Picnic"
"There Ain't No Bugs On Me"
"The Miller's Will"
"Hot Corn, Cold Corn"
"A Shenandoah Lullaby"


Em tempos de grande consumo quando o assunto se volta à soda cáustica musical, o público brasileiro está quase no padrão FIFA. Por isso, é necessário pensar no futuro. ''Save the children'', já diria Marvin Gaye. Só que trocadilhos à parte, falo sério, a nova geração é o futuro e se der pra escolher entre tudo que rola no cenário mainstream nacional e esse disco, aumente o volume e deixe que seu descendente se encante com Jerry e Grisman.

Além de ser uma ótima opção para substituir a Galinha Pintadinha e todos seus sucateados derivados, ''Not For Kids Only'' é um disco pensado e tocado para as crianças, mas no fim das contas o choro da guitarra de Jerry é universal, logo, você também o apreciara.

David Grisman foi um carra muito importante no fim da carreira do guitarrista do Grateful Dead. Depois de anos se perdendo na jam, Jerry foi atrás de novas possibilidades, montou uma banda acústica, começou a brincar com o Country, mexia no Folk... Tudo isso só aconteceu devido à influência do talentosíssimo Grisman, que além de gravar 3 trabalhos de estúdio com o mestre, tocou e ainda toca com meio mundo.


Lançado no dia 20 de outubro de 1993, essa colaboração é um dos discos menos comentados da dupla e um dos mais profundos. Falar com o público infantil é difícil e, quando dois gigantes o fazem, tenha certeza de que não deve ser um hobby.

Temos aqui 12 temas e pouco mais de 50 minutos de algo sublime. Pegue a nata dos clássicos da música tradicional americana e sente com seu filho no sofá. Isso é tudo que permeia essa gravação, isso e um acabamento soberbo por trás, o test drive de ''Jenny Jenkins''.

Se você reparar bem, Jerry sempre foi a cara de ''Nor For Kids Only'', a única diferença é que antes de gravar temas como ''A Horse Named Bill'', ''There Ain't No Bugs On Me'' e ''A Shenandoah Lullaby'', ele estava mandando ver com ''Dark Star''. Coisas da vida meu amigo, quando coloco esse disco no play minha irmã fica até mais calma... Boa música, meu rapaz, são outros 500, até eu encaro uma soneca com os pequeninos quando essa dupla pega o banjo. Coisa fina!

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O Jazz de Pat Metheny e o primor de sua Unity Band

Existem alguns músicos que conseguem se manter prolíficos desde seu disco de estréia. É raro, mas existem nomes dentro do meio musical, que além de se manterem gravando periodicamente (e manter tours), seguem atravessando o tempo com um material de altíssima qualidade, montando e desmontando projetos.

Desmantelando e fragmentando o groove, trabalhando com o maior número de músicos possíveis, tudo em prol da qualidade, sempre se mantendo em movimento. Veja o Pat Metheny, por exemplo, em 2012 o guitarrista montou sua ''Unity Band'' e, em meio a volta dos metais e de mais uma bela banda, o americano ainda conseguiu abocanhar mais um Grammy em 2013 (seu vigésimo) tamanha a qualidade do registro!


Line Up:
Antonio Sánchez (bateria)
Ben Williams (baixo)
Chris Potter (saxofone)
Pat Metheny (guitarra/violão)



Track List:
''New Year''
''Roofdogs''
''Come And See''
''This Belongs To You''
''Leaving Town''
''Interval Waltz''
''Signals (Orchestrion Sketch)''
''Then And Now''
''Breakdealer''


São mais de uma hora de grandes composições e de um Jazz mais uma vez brilhante. Aqui Pat nos mostra que, pra variar, está em sua melhor forma e que disco após disco seu nível só melhora. E também pudera, junto de uma banda tão boa quanto sua Ibanez, essas composições cá reunidas, sempre tomam rumos surpreendentes, com uma guitarra que se doa em prol do Groove, abrindo espaço para o baixo, bateria e o saxofone.

Temas longos (''Signals) outros mais objetivos (''roofdogs''), linhas cristalinas (''breakdealer'')... Pat sempre entra com um feeling imenso e sua banda produz jams sensacionais. Se você gosta de um som improvisado vai pirar neste trabalho, virtuose controlada, sentimento saindo pelo ladrão, padrões impossíveis e uma guitarra que chega a desmotivar os músicos de final de semana.


Tamanha a técnica e destreza de seu som, que hoje em dia é ainda mais raro e destacável, afinal de contas sabemos que com apenas um pedal podemos soar como qualquer guitarrista, mas não como Pat, acredite. Muitos tentaram, mas seu timbre é único, quem conhece bem seu som sabe disso, o elixir é puro demais! O disco todo é mais um primor criativo.

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Sente o balanço: Etta James arrepiando o groove com Come a Little Closer

O Blues, seu brother R&B, o primo Jazz, o vizinho Funk e o enteado Soul, foram grandes mecas nos anos 70. É praticamente descenessário numerar a riqueza de vertentes que estavam imersas dentro da mesma estética familiar do swing selvagem que tanto fez o mundo rebolar durante todos esses anos, mas não tem como falar de tudo isso e esquecer da Etta James.


Argo, Chess, Cadet, Warner, MCA, Island, RCA, Verve... Dá pra encher duas folhas de caderno só com a quantidade de selos que já receberam o talento bipolar da cantora, uma estatística que se faz praticamente desnecessária quando apertamos play em boa parte dos 30 discos de estúdio que a americana gravou, sendo ''Come a Little Closer'', um dos melhores de todo essa fabulosa e pra lá de rica discografia. 

Lançado pela Chess lá pelos idos anos de 74, esse trampo é apenas um cartão de visitas da cantora pra mostrar o poder do Funk calcado numa estrutura Jazzística junto com a nata dos músicos de sessão da Chess Records, com um time de guitarras que tinha de tudo: de Lowell George até Wa Wah Watson.

Line Up:
Etta James (vocal)
Bobby Keys (metais)
Ken Marco (guitarra)
David Allan Duke (metais)
Gabriel Mekler (teclados)
Gene Cipriano (metais)
Lowell George (guitarra)
Jim Horn (metais)
Larry Mizell (sintetizadores)
Lew McCreary (metais)
Wah Wah Watson (guitarra)
Chuck Rainey (baixo)
Steeve Madaio (metais)
Carlena Williams (vocal)
Trevor Lawrence (metais)
Ken 'Spider' Rice (bateria)
Gary Coleman (percussão)
Charles Dinwiddie (metais)
Gwen Edwards (vocal)
Trevor Lawrence (arranjos)
Venetta Fields (vocal)
Larry Nash (teclados)
Danny Kortchmar (guitarra)



Track List:
''Out On The Streets Again''
''Mama Told Me''
''You Give Me What I Want''
''Come a Little Closer''
''Let's Burn Down The Cornfield''
''Power Play''
''Feeling Uneasy''
''St. Lous Blues''
''Gonna Have Some Fun Tonight''
''Sookie, Sookie''
''Lovin' Arms''
''Out On The Streets Again'' - (single edit version)


O tempo na mão das grandes vozes parece não passar da mesma maneira. Quando a senhora James entra rachando o assoalho com a faixa título, o Funk pulsa até o caroço e mesmo assim não rola aquela sensação de que o som acabou "rápido demais".

Sempre parece que ela teve apenas "todo o tempo necessário" para concluir um take, mesmo que pensar nisso seja no mínimo romântico demais, até por que nos anos 70 era muito normal ver a galera do Soul gravando um disco numa sessão só, quiçá até numa tarde.

O dinheiro e o tempo eram curto, mas nem por isso o sentimento não está presente em cada faixa. O que dizer do clima de ''Let's Burn Down The Cornfield''? A Etta dessa faixa assusta o ouvinte, é possível cortar o ódio de sua voz com uma faca!


Mas aí na faixa seguinte o pulso da sessão chega mais calma, mais calejado e lento com um piano de bar safado. Em ''St. Lous Blues'' parece que estamos no Village Vanguard. Durante ''You Give What I Want'' o clima é mais quente, o lance aqui é mais Nova York, slap dos grandes centros urbanos... Temos Bobby Keys nos metais, belíssimos arranjos, texturas de Wah Wah Watson e um slide que definitivamente é a assinatura de Lowell George.

Um som pra qualquer clima, pressão atmosférica e dia da semana. Vários climas diferentes e diversos sensos estéticos convergentes no mesmo prisma: o sentimento de uma mulher que sentia demais e, mais do que isso, sabia passar todas essas sensações com uma sabedoria que nem os monges tibetinos conseguiram igualar.

Foda-se de que ano é, por onde saiu ou onde você comprou: meu bom, se o disco for da Etta James, basta colocar pra tocar. 

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Pode acreditar: até o James Brown queria ser o Funkadelic

Nos anos 70 o James Brown ainda era o cara que mais trabalhava no show business, mas em virtude da quantidade imensa de grandes bandas no mesmo campo de atuação do Rei do Soul, alguns de seus discos mais tinhosos não venderam como no começo dos tempos.

É lógico que a maneira como o senhor Brown conduzia suas gravações as vezes não ajudava. Vale lembrar que nos anos 70 o negrão gravava até 3 discos por ano, mas como o salário da sua turma Black Power não acompanhava o groove da inflação e o Funkadelic estava esperando a autorização do porteiro pra subir, é normal ver o volume de vendas cair.


O problema é que se você é o James Brown nada na sua vida é normal, por isso que é bastante recomendado ter uma bela imersão dentro da longa carreira do mito, pois dentro de várias dezenas de registros, você sempre encontrará discos tão ultrajantes quanto o ''Sho Is Funky Down Here'', mais uma bolacha de transição (lançada em 71) que foi uma tentativa tinhosa de voltar ao topo de qualquer maneira.

Line Up:
David Matthews (compositor/arranjador/órgão/piano)
James Brow (compositor)
Michael Moore (baixo)
Kenny Poole (guitarra)
Jimmy Madison (bateria)



Track List:
''Sho Is Funky Down Here''
''Don't Mind''
 ''Bob Scoward''
''Just Enough Room For Storage''
''You Mother You''
''Can Mind''


O trigésimo disco de estúdio do James Brown é um marco em suas discografia por diversos fatores. Primeiro por que além de ser todo instrumental, esse LP explora um Funk seco e todo valvulado nos termos que o Funkadelic estabeleceu para seu Funk psicodélico.

Além disso, o que chama a atenção além de 6 temas insanos e essa roupagem completamente selvagem, é o fato de que esse disco saiu com o nome de Brown, mas é do David Matthews, o líder da banda de apoio do americano na época.


Acima repousa a capa do único disco da The Grodeck Whipperjenny, banda de Soul psicodélico que o já citado David Matthews chefiava na época. Esse LP é o único lançamento de estúdio da banda (datado de 1970) e, apesar de ser um trabalho fantástico, acabou ficando na berlinda na época.

Só que como o James não era pouco malandro e tinha David como principal arranjador, ele deve ter ouvido muito esse disco (sem falar nas toneladas de distorções que do George Clinton) pra bolar o conceito desse compilado instrumental.

O único problema nisso tudo é que pelo fato do disco só creditar o David e o Brown, uma performance realmente sem precedentes por parte da banda de apoio passa desapercebida. Em nenhum canto da internet é possível saber quem tocou o quê, mas como a banda chamada pra sessão era a mesma dessa época, presumo que os responsáveis sejam justamente o trio citado.


Acredite, depois de apertar play você entenderá o motivo pelo qual pesquisei tanto. A timbragem do baixo é pesadíssima, a guitarra parece um arame quente entrando no seu ouvido e a perícia arruaceira do próprio David nos órgãos só não sufoca a bateria por que o Jimmy Madison ralou demais!

É uma grooveria das mais irracionais. Uma pepita de ouro para se compreender o nascimento do Funk como um objeto sonoro puramente carnal, e mais um exemplo de como o James Brown, apesar de (quase sempre) brilhante, poderia ser um belíssimo filho da puta.

Quero ver você segurar o drama do timbre da guitarra do Kenny Poole. Durante os quase 30 minutos que o groove rola, o som é pura tiração. Haja Gospel pra tanta baixaria. Sinuoso, quente, ousado e maldoso, esse é o retrato que temas como ''Bob Scoward'' & ''Can Mind'' eternizarão em sua mente.  

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Esperanza Spalding: o que você fez comigo?

Antes do show da Esperanza Spalding começar o Cine Jóia estava meio tenso. A casa estava completamente apinhada, mas o som que tradicionalmente fica fazendo sala pra galera esperar o evento principal foi abafado por dezenas de pessoas que não faziam outra coisa a não ser se questionar sobre o que estavam prestes a ver ao vivo e a cores fretless.

Será que ela vem com o Matthew Stevens na guitarra e o Karriem Riggins na batera? E quanto aos belíssimos backing vocals, será que os caras vieram também? Quem vai tocar piano em ''Earth To Heaven''? 

Essas foram apenas algumas das perguntas que consegui pescar durante a espera... E Engraçado que antes de chegar no pico, ainda falei pro meu brother: Nathan, hoje nós vamos fazer história. Na moral que eu sempre falo isso antes de um show grande, mas modéstia parte, não tinha como estar mais certo, por que tenho certeza que daqui 20 anos esse show ainda estará na minha lista de melhores momentos.

Foto: Fábio Linhares

Que coisa absurda. Essa noite foi excelente pra praticar o vocábulo de sinônimos. Poucas vezes vi pessoas tão incrédulas como vi durante o showzaço que a senhorita Emily e sua banda (sim, ela veio com o time completo) fizeram.

Tocando o excelente ''Emily D+Evolution'' na íntegra, uma faixa atrás da outra, cada um dos presentes ficava cada vez mais perplexo conforme o show ia se desenrolando. E se em disco ela já cria uma atmosfera única, ao vivo então sua voz angelical e toda a malemolência de seu groove promovem um Big Bang digno de um novo sistema solar.

E digo mais, o disco é de fato brilhante, mas o show é ainda mais grandioso. E mesmo que muita gente não tenha gostado (ou entendido) essa nova faceta da cantora, é necessário pelo menos respeitar o que a norte americana criou depois de 4 anos de intervalo desde a gravação do também notável ''Radio Music Society''.

Foto: Fábio Linhares

O Jazz é um estilo meio complicado, ainda mais dentro desse segmento do chamado Jazz moderno. Pode reparar... Sempre rola uma panelinha ingrata nesse meio e dentro dos poucos caras que conseguiram se sobressair nesse cenário (que não sejam o Kenny G ou Chris Botti) todos, sem exceção, acabam virando um estereótipo.

No caso do Kenny G e do Chris Botti, bom, eles que me desculpem, mas apesar de 2 grandes instrumentistas, é bastante óbvio que esteticamente ambos são tão ousados quanto a dieta da Palmirinha. 

E a Esperanza promoveu essa ruptura no momento perfeito, por que ela também tinha se tornado a queridinha do cenário, mas de uma maneira nova até então, mostrando uma cozinha inovadora de fato, com essência e etc, mas que já estava correndo o risco de se tornar repetitiva, tanto é que ela percebeu isso e largou tudo (até a gravadora) pra entrar de cabeça num som que é brilhante justamente pela liberdade criativa que consegue expressar. 
Esse conceito não tem, ele apenas é, e acredite, isso faz toda a diferença até pra tentar entender o que ela fez ao vivo. Sem se preocupar com modelos, esse registro é pleno, tão pleno como o show. No palco Esperanza surge cheia de livros. Ela está em outro mundo e quer saber o que está acontecendo. E faixa a faixa tudo o que temos é uma obra conceitual belíssima que consegue englobar tudo que a verdadeira arte consegue fazer: explicar o abstrato.

Ao entrar no palco com dezenas de livros cantando ''Good Lava'' e ''Unconditional Love'', Emily não está tentando mostrar uma verdade absoluta, não, jamais! Durante todo o espetáculo ela nos prende a um palco com uma estante e alguns livros, mostrando, faixa a faixa, uma evolução gritante que vai além dos arranjos estonteantes que permeiam o disco, da Fender Strato rasgando os riffs ou do baixo que ela toca com uma naturalidade espantosa.

Duranta 90 minutos quem estava presente viu um show perfeito. A concentração dos músicos era admirável, a execução dos temas foi sublime, mas não tem jeito, a Esperanza (ou a Emily, você escolhe) parece um ser de outro planeta.

Foto: Fábio Linhares

A evolução é o norte desse disco e isso é lindo. Acredito que quem gosta de música vive para ver a morte e o renascimento dos grandes músicos e definitivamente são discos e shows como esse que marcam presença na história.

Música com sentimento, improvisos demenciais, novos sons e muita experimentação, essa é a síntese desse novo momento. Com essa fórmula, a P.h.D em Português para estrangeiros abriu uma caixa de Pandora cheia de possibilidades e foi bastante gratificante observar o quanto ela está feliz em poder tocar tudo isso, mesmo que não seja Jazz, Funk, Prog ou seja lá qual for o rótulo.

O jeito como ela mexe com o tempo das faixas deveria ser estudado. O resto da banda segue um script e é até engraçado ver os caras suando enquanto ela canta e toca ao mesmo tempo e ainda vai adicionando maneirismos que surgem na hora, mudando o tempo como se na verdade ele nem existisse.

Infelizmente não teve Black Gold e outros hits de outrora, mas teve ''One'', ''Funk The Fear'', ''Ebony and Ivy'' e versões estonteantes para cada um dos temas que a cidadã se prestou a tocar. Mas vou te contar um negócio, o bis que ela fez só batendo palma a capella merecia ter sido gravado.

Pelas minhas contas tem mais de 10 parágrafos aqui e eu nem sei se deixei claro o que ela fez... Acho que no fim das contas essa é a prova do quão especial foi essa noite e essa nova música que nos fez pulsar perante uma das maiores musicistas que surgiram nos últimos anos. Creio piamente que esse disco é um grito de guerra pra quem quer seguir evoluindo, um alento para quem ainda sente em tempos de cólera.

Muito obrigado Emily Spalding

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The Admiral Sir Cloudesley Shovell e o som arruaceiro de Check 'Em Before You Wreck 'Em

O Rock é sempre visto como aquela explosão de tudo que potencialmente pode ser exacerbado, mas quem tem o mínimo de noção sabe que não dá pra ser um louco desvairado 24 horas por dia. É necessário saber disfarçar, ter um pouco de auto controle, algo que é difícil pacas dependendo do que você esteja ouvindo no momento.

Uma cena que sempre imagino (e que invariavelmente me rende ótimas risadas) é achar alguém no ônibus, metrô ou até mesmo andando na rua, que esteja ouvindo música sem ''segurar a onda''. Gosto de ver aquele cara que está dando pala, que esteja fritando mesmo, curtindo o som e tratando de deixar isso bem claro para quem estiver perto. Respeito muitos os ouvintes fanáticos que estão literalmente cagando e andando para olhares estranhos de donas de casas e populares desconhecidos.


Alguns sons, quando combinados com a força de um bom par de fones podem produzir uma onda de euforia incontrolável... acredite, acontece com as melhores bandas e seus respectivos discos, aliás, andei ouvindo um petardo esse mês que muito provavelmente me fez passar papel de otário pelas ruas de São Paulo, mas no fim das contas quem é que liga? Aposto que o The Admiral Cloudesley Shovell não está nem aí, mas deveria, por que ''Check 'Em Before You Wreck 'Em'' (lançado em 2014) é um puta disco.

Line Up:
Bill Darlington (bateria)
Louis Comfort-Wiggett (baixo)
Johnny Gorilla (guitarra/vocal)



Track List:
''Do It Now''
''2 Tone Fuckboot''
''Captain Merryweather''
''Running From Home''
''Happines Begins''
''Shake Your Head''
''Don't Hear It... Fear It!''
''Bulletproof'''
''The Thicker The Better''
''Late Night Mornings''


Em comparação com o primeiro disco dos ingleses ("Don't Hear It... Fear It" lançado em 2012), ''Check 'Em Before You Wreck Em'' mostra uma cozinha mais ousada. A estética do som continua a mesma: um resumo caótico e sujo até a medula do que parece ser a narração de um porre no bar mais decadente de todos os tempos, só que tudo com uma técnica apuradíssima e grandes embates instrumentais.

Temos Hits em potencial na mesma proporção habitual, como na abertura do disco com ''Do It Now'', e na sequência com ''2 Tone Fuckboot'', mas notamos, por exemplo, um maior trato instrumental... Um lance mais meticulosamente calculado.

E s mais de 8 minutos de ''Captain Merryweather'' comprovam isso. Em certos momentos a banda chega a abdicar do peso costumeiro para temperar e levar a jam no feeling, sempre ao som de ideias frescas e de uma criatividade pulsante.

Não dá nem tempo de raciocinar, pois faixas como ''Running From Home'', ''Shake Your Head'', e ''Don't Hear It... Fear It!'' pregam um evangelho onde a insanidade é a única porta de saída. A banda consegue construit um cenário épico com aquela mesa de bar caída na fase de ouro do Garage Rock e aquele cheiro de mijo misturado com Whisky e trilhas de bituca de cigarro.


É só acender um fósforo que o lugar todo explode... Talvez essa seja a essência desse som: o momento vacilante entre uma tentativa de explosão (com ''Bulletproof''' e ''The Thicker The Better''), junto com o peso, a velocidade e toda a chapação que serve como um tênue meridiano que divide os bêbados de quem queimou a largada.

 ''Late Night Mornings'' é a faixa que resume o que a banda buscou com esse novo trabalho: manter a mesma fórmula, mas elevar o padrão e criar coisas diferentes. É possível até pra dar uma dispersada nessa viagem com clima de banho maria. Pra variar Bill Darlington, Louis Comfort-Wiggett e Johnny Gorilla cunharam mais um grande disco.

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O evangelho da Aretha Franklin mandando Spirit In The Dark

Dentro do que existe no Soul, a Aretha Franklin sempre pareceu estar um passo a frente das demais ladies que, assim como ela, guiavam essa tradição como se fosse o circuito da Tocha Olímpica. Acho que não era somente pelo climão Gospel, Aretha conquistou o mundo por que podia soar rústica e refinada como um toque de seda, tudo na mesma faixa.


São mais de 40 trabalhos de estúdio. Acredito piamente que uma discografia deste porte precisa de no mínimo meia vida para ser apreciada e realmente compreendida em toda sua magnitude, mas é claro que não precisamos de 20 anos para sacar que estamos ouvindo algo realmente único, que isso! Com 40 minutos à disposição já é possível se ligar que LP's como o ''Spirit In The Dark'' são verdadeiras dádivas da humanidade.

Line Up:
Aretha Franklin (vocal)
Eddie Hinton (guitarra)
Dave Crawford (órgão)
Howard ''Buzz'' Feiten (guitarra)
Ronald "Tubby" Ziegler (bateria)
Jimmy Johnson (guitarra)
Sammy Creason (bateria)
Jimmy O'Rourke (guitarra)
The Sweet Inspirations (vocal)
Roger Hawkins (bateria)
Wylene Ivy (vocal)
Margaret Bluch (vocal)
Tommy McClure (baixo)
Almeda Lattimore (vocal)
Harold ''Hog'' Cowart (baixo)
Pat Lewis (vocal)
Duane Allman (guitarra)
Jim Dickinson (teclados)
Cornell Dupree (guitarra)
Brenda Bryant (vocal)
Ray Lucas (bateria)
Barry Beckett (teclados)
Charlie Freeman (guitarra)
Evelyn Green (vocal)
David Hood (baixo)
Mike Utley (teclados)



Track List:
''Don't Play That Song (You Lied)'' - Ahmet Ertgun/Betty Nelson
''The Thrill Is Gone (From Yesterda's Kiss)'' - Rick Darnell/Roy Hawkins
''Pullin''' - Carolyn Franklin/Jimmy Radcliff
''You And Me''
''Honest I Do'' - Ewart Abner/Jimmy Reed
''Spirit In The Dark''
''When The Battle Is Over'' - Jessie Hill/Malcolm Rebennack
''One Way Ticket''
''Try Matty's''
''That's All I Want From You'' - Fritz Hotter
''Oh No Not My Baby'' - Gerry Goffin/Carole King
''Why I Sing The Blues'' - B.B. King/Dave Clark


A Aretha sim conhecia de música. Ouvir sua voz e seus discos é um convite irrecusável para se entender a profundidade dos Spirituals que tanta a influenciaram, do Blues e das mais primitivas gravações Jazzísticas. 

Esse disco, por exemplo, nos apresenta a 4 temas autorais da cantora, mas os outros 8 são versões de caras que variam de Carole King  à B.B. King. A riqueza instrumental e o climão de missa no Harlem se mantém durante todo o tempo que LP rodopia com órgãos uivantes ao fundo e passagens de guitarra de mestres como Duane Allman e Cornell Dupree.


É um fato, os melhores sempre tocam juntos e com um repertório desse não tinha como a Atlantic não bancar uma sessão decente. Escute a perfeição das cordas enquanto Aretha abre o disco com ''Don't Play That Song''. As vozes assoviando nos backing vocals, aquele piano que lhe joga na sarjeta com o Blues de ''The Thrill Is Gone'...

Como ela conseguia evocar as mais diversas reações nos seres humanos. Como ela ia do 8 para o 80 sem perder a passada do piano, atropelar o groove de ''Pullin''', tampouco titubear numa de suas melhores composições ("You And Me") para um dos maiores clássicos da história da música.

E tudo que ela fala entra nos ouvidos como a mais doce das verdades absolutas. Esse também é o grande lance com os melhores intérpretes, eles podiam cantar sobre qualquer coisa que é só dar play para começar a crer.


Talvez essa seja a maior lição de ''Spirit In The Dark'': crer no que você sente, mesmo que isso não seja palpável ou no fim das contas todas as 11 faixas foram uma mera desculpara para que a cantora pudesse encerrar o disco cantando Carole e B.B. King. Sei lá, vai saber, talvez ela esteja apenas nos usando, mas eu acho que vale a pena passar por esse perrengue.

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É um fato: o Snarky Puppy pode tocar qualquer coisa

Conheci o Snary Puppy quando a banda já estava ficando grande. Na época eles estavam concorrendo a um Grammy (que depois ganharam), as mídias especializadas sentiram firmeza no repertório da Big Band e começaram a dar aos caras toda a atenção que músicos deste calibre realmente merecem, mas, com tudo isso, ainda segui meio receoso quanto aos limites que eles poderiam quebrar, mas parei com essa baboseira depois que ouvi o trampo mais recente da banda.


''Culcha Vulcha'', o décimo primeiro disco dos apreciadores de Jazz Fusion (lançado no dia 29 de abril de 2016), chega com um quê instrumental único na discografia do coletivo até o momento. Antes a cozinha de Michael League & cia era calcada num som cheio de quebras abruptas, arranjos complexos e uma intensidade absurda, mas com ''Culcha Vulcha'' isso mudou bastante. 

Line Up:
Michael League (baixo/sintetizadores/teclados/viola/ukelele)
Bill Laurance (teclados)
Cory Henry (teclados)
Justin Stanton (teclados)
Bobby Sparks (teclados)
Shaun Martin (talk box/sintetizadores)
Bob Lanzetti (guitarra)
Mark Lettieri (guitarra)
Chris McQueen (guitarra)
Nate Werth (percussão)
Keita Ogawa (percussão)
Marcelo Woloski (percussão)
Robert ''Sput'' Searight (bateria)
Jay Jennings (trompete/trombone)
Mike ''Maz'' Mahler (trompete/trompa)
Chris Bullock (saxofone/flauta/clarinete/teclados)
Bob Reynolds (saxofone)
Zach Brock (violino)
Jason "J.T" Thomas (bateria)
Larnell Lewis (bateria)



Track List:
''Tarova''
''Semente''
''Gimini'' - Justin Stanton
''Grown Folks''
''Beep Box'' - Chris Bulllock
''GØ''
''The Simples Life'' - Bob Lanzetti
''Palermo'' - Marcelo Woloski
''Big Ugly''
''Jefe'' - Mark Lettieri


A complexidade ficou. O feeling que jamais deixou a banda na mão também, mas teve um convidado ilustre que chegou pra somar no groove: um Funk Chill Out que desconcerta qualquer um, até mesmo aqueles que ouviram o play umas vezes e começaram a reclamar que não era mais "o Snarky Puppy de antes''.

Balela, o som ficou finíssimo e acho que se tinha algo que eles precisavam provar, agora a banda definitivamente zerou o débito e pode solar tranquila, por que o que dava pra fazer dentro desse modelo moderno de Jazz, eles estão fazendo e muito bem.

Fora que nem assim eles perdem a naturalidade. Pra variar a música é tocada com uma aparente facilidade que chega a irritar os mais estudiosos e, pra quem gosta de swing, esse trampo é um prato cheio para evidenciar o tato Funkeado que a banda possui.


É claro que o Funk sempre esteve presente na cozinha, mas até aí, qual estilo que eles ainda não misturaram na panela de pressão? A única diferença agora é que dessa vez eles fazem a comida numa panelinha mais suave, com um groove intrincado, mas bastante volátil e tinhoso nos teclados.

O riff que abre o disco com ''Tarova'' já deixa isso claro. Daqui a pouco vai se necessário registrar firma por que na verdade o que temos aqui é um núcleo de alquimistas de todas as partes do globo que chegam com milhares de influências que sempre resultam num único DNA.

E o material genético sintetizado dessa vez é uma grooveria de lascar. Um som que começa quente já com os teclados que induzem ao riff de ''Tarova''. Aliás, se você gosta de umas teclas, esse disco vai descer redondíssimo, já que temos um time com 5 caras no front do marfim malhado.

Esqueça as gravações ao vivo da banda por um momento. Esse é de longe o disco mais produzido da história do Snarky Puppy, algo que não é ruim, muito pelo contrário. O som está bastante cristalino como sempre, mas a atmosfera do Funk, mesmo ainda que dentro de estúdio, deixa tudo bastante libertino.


Rola um insight raiz do carnaval de Olinda com ''Semente'', camadas embriagantes do mais puro creme de guitarra texturizada em ''Gemini'', e uma verdadeira baixaria com o que é possívelmente o riff de baixo mais bem grooveado que o Snarky criou este ano para o show de metais em ''Grown Folks''.

Bote fé que rola de tudo. Se você quiser um tema pra gratinar o cérebro, pode crer que tem: ''Beep Box'' chega emulando o que o Kool & The Gang fez em ''Tenor Madness''. "GØ", por sua vez, relembra os velhos tempos de caldeirão, mas com uma roupagem mais espacial bem trabalhada nas cordas e arranjos de metais. E se ''The Simples Life'' segue experimentando os timbres da modernidade, "Palermo'' mostra que o batuque da percussão não foi esquecido, além de "Big Ugly", tema que nos mostra o motivo pelo qual não podemos subestimar esses caras.

Música pra dançar, ficar de joelhos, desconcertado por tanto sentimento e até um bônus (''Jefe'') pra não falar que os caras não são gente fina. Como é bom ficar à mercê de um som instrumental tão completo, profundo e que está mudando as regras do jogo. Vida longa aos fritadores!

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Dickey Betts e suas raízes cravadas no vinil de Highway Call

Quando você é um músico diferenciado e está em uma banda com os mesmo dotes acima da média que os seus, é bem comum que depois de um disco seminal você queira colocar seu talento à prova, mas não para os outros, e sim para si mesmo. É chegado o momento de criar algo que vai além da opinião da crítica, um trabalho que se for feito, será por sua única e exclusiva vontade de fazer música.

E para isso (até para eliminar o alarde inicial) mude sua alcunha, assim a crítica não vai associar esse disco com sua pessoa de imediato, uma opção que se torna interessante até para ficar mais tranquilo e deixar seu som um pouco mais exclusivo e definitivamente zerado no quesito de ''pressão da indústria''.


Coloque os pingos do ''i'' corretamente que o senhor vai chegar em Dickey Betts, grande guitarrista americano, um dos pilares do Allman Brothers, e sua estréia solo em 1974 com ''Highway Call'', o seu ultimato pessoal. A prova cabal de toda a capacidade desse primoroso, um cara que além de ser diferenciado no ramo, tanto na parte técnica quanto criativa do instrumento, conseguiu algo que só os maiores conseguem: o respeito de uma legião de iguais, seus amigos músicos.

Um presente nada mais que justo após o seminal LP de Country-Sulista de sua banda (''Brothers And Sisters'') lançado um ano antes. Aqui temos o aperfeiçoamento pessoal de uma cozinha que já tinha dado muito certo e um disco raro de se encontrar, afinal de contas aqui Dickey vira Richard Betts.

Line Up:
Dickey Betts (dobro/guitarra/violão/vocal)
Chuck Leavell (piano)
Vassar Clements (violino)
Tommy Talton (violão)
John Hughey (guitarra)
The Rambos (vocal)
Walter Poindexter (banjo/vocal)
Leon Poindexter (violão/vocal)
Frank Poindexter (dobro/vocal)
Stray Straton (baixo/vocal)
Jeff Hanna (violão)
Reese Wynans (gaita)
Johnny Sandlin (baixo/vocal)
David Walshaw (bateria/percussão)



Track List:
''Long Time Gone''
''Rain''
''Highway Call''
''Let Nature Sing''
''Hand Picked''
''Kissimmee Kid'' - Vassar Clements


Todo fã de Allman Brothers (mas fã mesmo!) conhece a discografia solo de seus respectivos membros, logo, a de Betts não pode faltar, sendo este meu registro favorito do guitarrista, provando mais uma vez que música boa vende sim, afinal de contas se não fosse o caso, duvido que esse LP teria escalado as paradas até a décima nona posição da Billboard no ano de seu lançamento.

Musicalmente falando esse disco é fantástico, a parte instrumental é repleta de detalhes, a banda era bem numerosa e cada nome creditado faz um ótimo trabalho. O meu destaque vai para o violino de Vassar Clements, que além de dar um toque clássico no Jam, ainda assina a última composição do disco.


A cozinha é absurdamente rica e todos os instrumentos tem seu pleno lugar, explorando arestas que além de adicionar um toque ainda mais eclético no Southern, criam espaço para que a guitarra de Betts tente linhas mais ousadas de forma plenamente livre, sentindo os ventos do sul desde a primeira faixa, a ótima ''Long Time Gone'' e a guitarra de timbre característico e cristalino do mestre.

O disco passa rápido demais, são apenas 35 minutos que cumprem sua função de mostrar o quão belo um som com ênfase no Country pode ser, e em meio a ótimos vocais como em ''Rain'' e o da faixa título, por exemplo,  fazem o ouvinte se perde nessa verdadeira relíquia sonora. Um trabalho para ser tocado até o LP virar pó, som de altíssima complexidade criado e tocado da forma mais banal do mundo, fundamentada na alimentação básica de Dickey: a improvisação.


Improvisação esta que atinge seu apogeu durante a maior faixa do registro, a épica ''Hand Picked'', tema que surge sereno logo após ''Let Nature Sing''. São 15 gloriosos minutos, um daqueles momentos que nos fazem pensar duas vezes antes de pegar uma guitarra, tamanha a eloquência das linhas do guitarrista e do trato clássico que Vassar Clements adiciona com mais veemência nessa track e na última (com sua própria composição), o fretless de ''Kissimmee Kid''. Simplesmente Fabuloso.


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DeWolff: você precisa escutar esses caras

O Rock Holandês sempre foi algo que me intrigou, e não pelo fato de ser ruim, muito pelo contrário. Quem já escutou um pouco do que este país fez em benefício do Rock (seja ele Progressivo, com pitadas de Blues, Psicodélico, Fusion ou tudo misturado), sabe do que estou falando, mas o problema mesmo é localizar tantas pérolas setentistas.

Golden Earring, Trace, Focus, Kayak, Fynch... Achar esses discos não é fácil, na internet já é uma missão e tanto, em material físico então é tarefa para enlouquecer qualquer colecionador. Mas eis que surge a pergunta: dentro de uma história tão rica e importante para o Rock, como os Holandeses não deram continuidade à sua vitoriosa linhagem? Será mesmo que não tem nada de novo na terra de Johan Cruyff?


Line Up:
Robin Piso (órgão/vocal/piano)
Luka Van De Poel (bateria)
Pablo Van De Poel (guitarra/vocal)



Track list:
''Mountain''
''Medicine''
''Don't You Go Up The Sky''
''Desert Night''
''Wicked Moon''
''Birth Of The Ninth Sun''
''Parloscope''
''Fire Fills The Sky''
''Red Sparks Of The Morning Dusk''
''Silver Lovemachine''
''Leather God''


Claro que tem meus amigos! Um país com tanta tradição não pode rejeitar o berço, veja que até mesmo no cenário atual, temos holandeses despirocando musicalmente, e em todas as cenas, esbanjando qualidade e criatividade.

Aliás estes são apenas dois dos possíveis sinônimos para o Power Trio mais vibrante dos países baixos. Falo sobre o DeWolff e as mudanças meteorológicas do disco de estréia do grupo, o impressionante ''Strange Fruits And Undiscovered Plants'', lançado em 2009.


Sons cavernosos bem voltados para a fritadeira de um épico órgão Hammond? Confere. versões Blueseiras de um Hard chapadíssimo? Por quê não? Temas longos, toques psicodélicos arrepiantes e distorções de explodir o Wah-Wah? Tem também. Chamar esse som de completo é o mínimo que se pode fazer.

Primeiramente gostaria de pedir que os senhores prestem atenção, por que a primeira quadra do disco passa em menos de quinze minutos. ''Mountain'', ''Medicine'' ''Don't You Go Up The Sky'' e ''Desert Night'' chegam com um beat fulminante.

Mas o interessante é que depois desta primeira parte, as faixas começam a ter um caráter mais viajado. atingindo um teor que beira o Hard-Prog em alguns momentos. As guitarras acelera, o som fica fritadíssimo, os vocais absorvem efeitos e parece que você está sob o efeito de morfina.


As extremidades esquentam, a cabeça pesa, você fica num semi coma... ''Birth Of The Ninth Sun'' chega arrastada em psicoses, ''Fire Fills The Sky'' adentra o recinto rastejando com seus riffs bipolares, enquanto ''Red Sparks Of The Morning Dusk'' parece despertar lados obscuros do seu cérebro.

Em questões de segundos o bendito tempo que parecia voar, e incomodava o ouvinte pela velocidade com que o disco parecia chegar ao fim, começa a se arrastar e você delira de alegria, acordando num ataque epilético quando os deca minutos de ''Red Sparks Of The Morning Dusk'' floreiam as ondas sonoras de seus sistema de som.

Os vocais chegam num clima Doom pesadíssimo com pinta de Peter Hammil, encerrando a viagem com o fim abrupto e surpreendente de ''Leather God''. Este é o DeWollf, uma das bandas com o som mais não óbvio que surgiram nos últimos tempos.

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O primeiro disco da Augustine Azul é um banho de estilhaços psicodélicos

Você já atravessou um box de vidro temperado correndo? Sentir o sangue pulsar e correr pelas vísceras. É, com certeza isso sim é ser e viver ao extremo, numa das maiores situações de explosão que posso imaginar.

Essa será a única reação palpável que você encontrará para descrever o que o primeiro full lengh da Augustine Azul fará com você. É intenso e sinuoso, bote fé. Seis composições azeitadíssimas corroboram para gerar o DNA de um dos sons mais originais que a cena brasuca já criou.

É um fato, esse meandro do Stoner-Psicodélico brasileiro vai bem demais, e dentro desse contexto instrumental, a perícia da Augustine Azul é singular. Depois de explodir para o cenário underground com um dos melhores lançamentos de 2015, graças ao primeiro EP (homônimo) da história do trio paraibano, que esse celeiro psicodélico formado por João Yor (guitarra), Jonathan Beltrão (baixo) e Edgard Moreira (bateria), pode finalmente se alongar no tempo e eternizar climas ácidos e pesados num disco cavernoso.

Foto: Rádio Layback

Line Up:
João Yor (guitarra)
Jonathan Beltrão (baixo)
Edgard Júnior (bateria)


Arte - Inácio EugênioCrowl

Track List:
''Amônia''
''Jurubeba''
''Cogumelo''
''Mamatica''
''Pixo''
''Intéra''


A versatilidade dos músicos é notável. A bateria do Edgard é capaz de acompanhar de tudo. Desde uma sessão de reboque em ''Jurubeba'', até os tempos quebrados e cheios de mudanças de peso e cadência gravados em ''Amônia''.

O baixo do Jonathan Beltrão também cumpre uma difícil tarefa nesse front. São as 4 cordas do rapaz que selam a cama rítmica com o Edgard, mas além disso, é a criatividade presente em seus riffs e a dinâmica que seu groove possui com as guitarras de João Yor, que nutrem o som com um química instrumental quase telepática.


A interação entre os três é muito peculiar. Cada um parece rumar pra um canto da jam, mas no fim as faixas carregam uma fluência e uma unidade que definitivamente facilitam na audição de todos os instrumentos envolvidos. E o resultado de tais experimentos são insights chapantes como o da terceira faixa, ''Cogumelo'', um take que realmente tira o ouvinte de órbita e o ainda o faz com um tinhoso boogie funkeado.

O trabalho de guitarras é muito interessante. Em alguns momentos João parece ter o melhor emprego do mundo. Sua lírica é muito livre e por vezes parece que suas passagens são eternos solos. Na real que todos os três tocam como se o disco fosse um eterno improviso. Um verdadeiro fluxo de consciência.

Foto: Rádio Layback

A naturalidade, o sentimento,  o grooove e a fusão de ritmos e vertentes faz o resto. Rola até um Blues com uma chorosa guitarra do Yor em ''Mamatica''. Repare na pegada Paul Kossoff na construção da melodia... Tudo flui numa síncope finíssima.

E quando você percebe já se passaram 30 minutos, o play foi embora e você entrou de peito num mar de estilhaços de riffs imersos em Wah's Wah's, ecos, solos de baixo, guitarra, Funk, Hard, Prog, L.S.D. e Blues embebido nas timbragens Stoner de ''Pixo''.

''Lombramorfose''. Vá pensando que esse nome é por acaso. Depois do fim do trampo você estará igual o fantástico retrato da arte da capa. Vidro temperado é um veneno e esse disco são as gotas de limão que faltavam. Peso e leveza... Os fones vão zunir na sua orelha. Prepare-se para um shot tinhoso de Fuzz orgasmático. Bote sua ''Intéra'' pra comprar o disco que saiu via More Fuzz Records e saque o brainstorming que nós fizemos com o trio.



Entrevista:


1) O que mudou quando o ''Lombramorfose'' começou a ser gravado? A concepção de tempo e espaço foi alterada quando vocês saíram do modelo EP para o full, como foi essa transição?


Na nossa experiência gravando, o que mais mudou foi ter tempo e planejamento pra produzir o material e lançá-lo. Também sentimos que a gente atingiu um grau de se autoanalisar mais complexo, que acabou refletindo no som de alguma maneira. Com certeza foi uma experiência que somou bastante coisa boa pra nossa música e performance.

2) Na parte estética fica bem claro que as composições desse trabalho são mais progressivas que a do EP. O processo criativo mudou para moldar essa nova faceta?


Foi mais uma continuação aprimorada do que nós já estávamos tocando que de fato uma mudança, pois já tínhamos alguns temas compostos, junto com outras frases e tal. As composições foram tomando forma naturalmente, basicamente no mesmo processo em que estávamos compondo na época do EP, a maior diferença desses dois materiais foi o tempo disponível que a gente tinha e a qualidade dos recursos.


3) Notei que a guitarra do João Yor beira o Free Jazz em alguns momentos. Como que essa mudança de abordagem mudou o papel do baixo e da bateria?


Acredito que a mudança fez com que todos nós tirássemos novos sons dos nossos instrumentos, procurando texturas e ambientações não exploradas antes, no EP. A mudança de um ingrediente faz com que a receita final saia totalmente nova, isso que foi mais bacana no Lombramorfose, percebemos isso quando terminamos de gravar e escutamos algumas vezes.

4) Lembro que no primeiro EP a gravação aconteceu graças a muita correria por parte banda e também em função da ajuda de parceiros do grupo, já com o ''Lombramorfose'', rolou uma estrutura muito melhor pra se trabalhar. Como que foi o processo, desde o início até a conclusão, e como que foi a sensação de poder trabalhar com foco apenas na música e nada mais?


Foi sensacional ter uma estrutura melhor que a disponível pra gente anteriormente durante a produção do EP. Entramos em estúdio gravando com equipamentos muito bacanas, tanto a guitarra quanto o baixo foram captados com duas fontes sonoras distintas e o som da sala era muito bacana, dá pra sentir bem na bateria.

Se preocupar só com a música durante a hora da gravação foi muito libertador e permitiu que nós rendêssemos bem, mas ainda sim acompanhamos o trabalho de edição, mixagem e masterização de perto, participando ativamente com o pessoal do estúdio.


5) O grande lance do som de vocês é a energia de disco ao vivo. Quem escuta tanto o EP, quanto esse full, acha que vocês estão tocando na sala de casa e não nos fones de ouvido. Como que é esse processo de deixar o som o mais puro possível?


A gente, especialmente no Lombramorfose, gravou ao vivo na maior parte do material. Acho que isso contribui para que essa energia seja passada. Também prezamos muito em tocar exatamente o que podemos fazer ao vivo, sem nos apoiarmos tanto nas possibilidades que o registro multipista nos oferece, claro que aproveitamos, tanto no EP quanto no full, para fazer overdubs, dobras e outras ferramentas. Mas acredito que seja justamente tocar dentro do que pode ser feito entre nós três, exclusivamente.

6) E sobre a improvisação, que barreiras que vocês acham que foram quebradas criativamente com esse registro?


Foi só no Lombramorfose que tivemos takes onde nós três improvisávamos ao mesmo tempo. No EP claro que tiveram momentos de improviso, mas eles ficaram menos concentrados, até porque as composições tinham menos espaço para improvisação.

A improvisação é tão forte que ao vivo, vários temas soam de forma totalmente nova, pois além de não soarmos estritamente igual à gravação, o espaço aberto para improvisação nos permite interpretar um mesmo tema de infinitas maneiras diferentes.

7) Em composições como ''Jurubeba'', nota-se uma abordagem muito mais cerebral por parte de vocês. O esmero é muito grande, são vários detalhes que não passaram batido e é bastante desafiador imaginar como essas composições começaram a sair. Vocês levaram muita coisa para o estúdio ou o disco foi nascendo no improviso do primeiro take?


A gente chegou no estúdio pra gravar com todas os arranjos das músicas fechadas, tudo já estava completamente produzidos quando entramos em estúdio. Dessa maneira, gravamos as seis faixas em apenas dois dias de captação, na sua maior parte ao vivo.

O que construímos dentro do estúdio foram as partes dos solos, frases de ligação entre os temas das músicas, as viradas, os timbres... Experimentamos bastante no estúdio, mas dentro do que já sabíamos que iríamos tocar.

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The Shrine no Brasil: o vandalismo é uma arte

O The Shrine não é uma banda que vai mudar o rumo da humanidade. De fato, o trio de meliantes californianos não criou um som que inventou a roda, mas a fórmula dos caras é no mínimo contagiante pra caralho. 

Baixo, bateria e guitarra. Um som cru, seco, sem cuspe e sem massagem que emula a época onde as bandas do som que nos fazem chamar a policia, não eram formadas por bibelôs de cabelo espetado, tampouco alimentados à leite com pera.

Não estou dizendo que eles não são bons, muito pelo contrário. Ao vivo nota-se que além de 3 garageiros trombadinhas, os caras são belos músicos e, dentro do que a banda almeja propor, o patamar do vandalismo está muito bem estabelecido.

E durante os 2 dias em que a banda tocou em sampa, isso ficou claríssimo. É notável como o som deles desperta algo de primitivo nas pessoas. Após o primeiro riff fiquei confuso, de fato não sabia se tirava fotos ou se batia em alguém ou até mesmo se descia a Rua Augusta de peito. Durante a primeira noite do show por aqui, no carcumido Inferno Club, me senti um verdadeiro arruaceiro.


A quimica bateu muito. O emulador de Black Flag com Irish Car Bomb e Motorhead que Josh Landau, Courtland Murphy e Jeff Murray arrepiam com tanta classe, colocou a plateia num nível de euforia poucas vezes visto por minha pessoa. Uma hora deu um clarão e eu estava no palco. Foi uma brisa.

Foi tanta sequela que eu já fui falando do show deles direto, sem antes mencionar o grande ato Progressivo que o Monstro Amigo realizou. Santa mãe do Hard Prog, se existe uma banda nacional que você deveria ouvir, essa banda é o trio de psicodélicos made in São Paulo.

Hard, Jazz, passagens sinfônicas, viagens quase 100% instrumentais, insights poéticos no meio do improviso e cuecas na cabeça. Baixo, bateria e um tecladista autodidata. É realmente tão viajado quanto parece.


Com um set coeso, o primeiro trio da noite arrebentou, mostrou muita técnica, tesão por estar tocando e nos apresentou uma fórmula sonora no mínimo peculiar. Música torta, com feeling, criatividade e novas percepções, nós de fato precisamos disso e, basta olhar com atenção para a cena, que é possível descobrir que isso existe.

Foto: Fernando Yokota

Logo na sequência, o trio nem tinha demontado o equipamento direito, mas os caras da Bandanos estavam pouco se fodendo e, depois que o quarteto adentrou o recinto,  o pico de insanidade atingiu níveis no mínimo ridículos. Sim, a noite do dia 30 de julho teve até índices de criminalidade mais baixos, pois toda a nata da bandidagem estava neste rolê, muito provavelmente se batendo comigo e com você.


Bem ali, enquanto um dos atos mais cabulosos do Hard Core Underground tiravam leite de pedra e desafiavam as fronteiras do Trash. Meu ouvido ainda está zunindo. Bom, foda-se, eu achei do caralho. E olha que isso foi só a primeira noite.

No dia seguinte o cenário mudou completamente. Sou capaz de dizer que não teria como ser melhor, pois o segundo dia de festividades conseguiu reunir tudo que você precisa para sobreviver: uma pista de skate, um palco 30 centímetros depois e um bar.



Agora atualize a programação com o Hellhound Syndicate e o Lo-Fi Punkrock que você terá uma palinha do que rolou nesse escambo de riffs por flips. Primeiro a Hellhound chegou com uma cozinha completamente reformulada.

Com uma classe sulista, por vezes calcada no Blues e uma energia de show de Punk quase tão tangível quanto um soco no pé no queixo, foi massa ver o novo som que a banda tira nessa fase e constatar que, show após show, o delicado José Monaco segue no cockpit da batera, bem suave, fumando um paieiro e acompanhando a cozinha.


Foi uma cena. Mas ainda faltava alguma coisa. Colar numa pista e não ver um show de Punk Rock é a mesma coisa que roubar um carro e não ser perseguido pela polícia, Por isso que tivemos uma amostra do mais puro creme do caos quando a Lo-Fi Punkrock tocou as mais pedidas do disco ''Love Songs Vol. 2".


Sua avó iria ao delírio. A vontade que me deu foi de me jogar na pista. Pouca glicose no sangue foi bobagem e, enquanto a banda despejava sons alucinantes, eu via uma molecada tinhosa moendo a pista, ai o Shrine entrou, e tocou como se estivesse na sala da minha casa.

Aqui no Brasil nós não estamos acostumados com shows em pista de skates, mas para a banda isso se tornou rotineiro. Antes deles entrarem, o baterista (Jeff Murray) comentou justamente isso, essa cultura faz parte do som, tanto é que um pouco antes o Landau pegou um skate e deu uma volta pelo Pool.


Logo, é quase desnecessário dizer que se o show no Inferno foi etílico, o rolê da Cave Pool foi bombástico. Muito guitarrista metido a besta não faz o que o Sr. Landau faz na guitarra. A destreza no Rickenbacker do Courtland Murphy também precisa ser mecionada, além, é claro, do nome do senhor que acompanha tudo isso: o bigode Jeff Murray.

É muito bom dormir lombrado e saber que, no fim do dia, o que realmente reina no mundo da música é justamente o que eu pude presenciar durante esses 2 dias: vonta de fazer barulho, riffs, cerveja e um Beckenbauer. Dá lhe Abraxas Fest e Skate Jam.

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