A união de George Benson & Al Jarreau para o Jazz contemporâneo de Givin' It Up

Quando era criança me lembro de sentir certa empatia por determinadas coisas. Minhas primeiras lembranças musicais acabaram tendo impacto nesse contexto. Como nem sabia o que era música, lembro que captava apenas as vozes e meu início nesse segmento não foi lá muito interessante.

Lembro que ouvi bastante Caetano Veloso e Jorge Vercilo, aliás, é uma vergonha citar essas vozes agora que tenho em mente o vocal mor que irei trabalhar o restante dessas linhas, mas precisava enumerar esses fatos.


Nos finais de semana sempre saia com a minha mãe, meu pai raramente ia fazer as tarefas de dona de casa, logo, eu era o escolhido para o acompanhamento. No caminho, o que não faltava era Caetano Veloso da fase Rivotril, Jorge Vercilo mostrando seus dotes de diva de salão e um Pedro Mariano realmente lastimável.

Foram anos com isso, nunca reclamei diretamente com a dona do veículo, até por que logo depois estava de fones de ouvido no carro, mas hoje ela sabe da minha opinião sobre tudo que toca em seu carro atualmente. E quem me ajudou a confirmar que os citados eram de fato ruins (em certas fases e como um todo), foi o Al Jarreau. 



Já ouvi Marvin Gaye, Otis Redding, Stevie Wonder, George Benson... Igual esse ai ainda está pra nascer, e aproveitando a citação de Benson, como grande vocalista que é, vale relembrar a colaboração que os dois amigos de longa data registraram em 2006. ''Givin' It Up'' é tão bom que chega a ser ridículo, e se Benson não canta melhor que o Al Jarreau, na guitarra ele iguala o tira teima.

Line Up:
George Benson (guitarra/vocal)
Al Jarreau (vocal)
Larry Williams (teclado/piano)
A. Ray Fuller (guitarra)
Dean Parks (guitarra)
Abraham Laboriel (baixo)
Vinnie Colaiuta (bateria)
Paulinho Da Costa (percussão)
Marlon Meadows (saxofone)
Mike Broeningu (pianoo/teclado/órgão)
Freddie Fox (guitarra)
Mel Brown (baixo) (bateria)
Michael White (bateria)
Lorraine Perry (vocal)
Sandra Simmons Williamns (vocal)
Herbie Hancock (piano)
Patrice Rushen (teclado)
Darlene Perry (vocal)
Marcus Miller (baixo)
Jill Scott (vocal)
Rex Rideout (piano)
Gregg Field (bateria)
Sharon Perry (vocal)
Ricky Lawson (bateria)
Patti Austin (vocal)
Chris Botti (trompete)
Barry Eastmond (teclado)
Bashiri Johnson (percussão)
Valerie Pinkston (vocal)
Freddie Rave (sintetizadores/bateria/órgão)
Michael O'neill (guitarra)
Alethea Mills (vocal)
Chavonne Morris (vocal)
De'Ante Duckett (vocal)
Michael Heart Thompson (guitarra)
Stanley Clarke (baixo)
Joe Turano (órgão)
Paul McCartney (vocal)
Randy Waldman (piano)



Track List:
''Breezin'''
''Mornin'''
''Long Come Tutu''
''God Bless The Child''
''Summer Breeze''
''All I Am''
''Ordinary People''
''Let It Rain''
''Givin' It Up For Love''
''Every Time You Go Sway''
''Four''
''Don't Start No Schtuff''
''Bring It On Home To Me''


Esse disco é uma reunião do que existe de melhor na música. Veja a lista de envolvidos, note que todos os músicos mais relevante do Jazz encontram-se ajudando no enriquecimento intrumental desse disco.

Fora isso, o que dá o tom nesse registro colaborativo é o clima de bons amigos. Aquela jam solta, sem pressa, coisa para poucos e bons realmente, e quando temos um repertório tão rico quanto o citado acima, ai de fato o lance é só aproveitar.


Temos 13 canções que fazem qualquer ouvido mais purista ficar perplexo. O mais interessante é que mesmo que esse CD seja um completo absurdo para os padrões de qualidade musical, ele não é tão conhecido, aliás, é meio complicado de ser encontrado, mas quem faz a caça fica muito feliz com o resultado.

Um trabalho para deixar correndo solto, mais de uma hora com a voz que só o Al Jarreau pode te ofereceer, temperada com AQUELA semi acústica que só Benson timbra dessa maneira. Destaque para o Cool Jazz de ''Breezin''', o baixão de ''Long Come Tutu'' e para o single ''Summer Breeze''... Um dos vários momentos onde o reverendo Al Jarreu canta com aquele veludo vocal que parece não se perder no tempo. Que discaço!

0 comentários:

Upside Downside & a guitarra jazz de Mike Stern

Nesse mundo globalizado, é bem comum ver a renovação e modernização de estilos, e mesmo que poucas pessoas prestem atenção, o Jazz segue um fluxo rumo a um futuro muito interessante. Afinal de contas ele se tornou contemporâneo, e nomes como George Benson, Lee Retenour e Mike Stern são grandes expoentes desse capítulo da música.

Mike Stern foi um dos últimos guitarristas de Jazz que conheci em tempos recentes e um dos que mais gostei. Mas é aquela história, fora do Brasil o americano é absurdamente conceituado, não só pela parte técnica, mas sim por sua experiência, tendo gravado com nome como Miles Davis e Billy Cobham, por exemplo.


Só que mesmo assim, seu Jazz ainda é um tanto quanto anônimo no Brasil. São quinze discos de estúdio, mais de trinta anos de carreira e momentos simplesmente inspiradores. O de hoje atende pelo nome de ''Upside Downside'', o segundo disco do guitarrista, lançado em 1986.

Line Up:
Mike Stern (guitarra)
Mitchel Forman (sintetizadores/piano)
Dave Weckl (bateria)
Steve Jordan (bateria)
Dr. Gibbs (percussão)
Mark Egan (baixo)
Bob Berg (saxofone)
Jeff Andrews (baixo)
David Sanborn (saxofone)
Jaco Pastorius (baixo)



Track List:
''Upside Downside''
''Little Shoes''
''Goodbye Again''
''Mood Swings''
''After You''
''Scuffle''


Quando o assunto é feeling, esse trabalho é um dos mais conceituados que já ouvi. O que mais impressiona é a sintonia que a banda mantém do início ao fim do disco. É fácil notar que trata-se de um instrumental de nível altíssimo, mas a qualidade é tamanha, que você é simplesmente levado pelo brilho de todos os músicos envolvidos. A sintonia é perfeita e o timbre de Stern, delicioso.

Em relação à abordagem da guitarra, esse disco não é uma demonstração dos solos endiabrados que Mike produz com a calma de um monge, mas o sentimento por sua vez, é absurdo. Com linhas bem na pegada Cool Jazz, sempre com um baixo no tom perfeito e um sax lindíssimo, a grande tônica desse disco é a liberdade das linhas e os tons sublimes das mesmas.


Eis aqui o CD ideial para mostrar para aquele seu amigo guitarrista barulhento . É a prova viva de como se faz algo impactante, sem ter que necessariamente, ficar surdo para isso, tampouco tocar mil notas por segundo.

Gosto de dizer que nesse CD o revendo Stern toca como uma pessoa calma numa discussão, deixando o encrenqueiro desconcertado da melhor forma possível: se mostrando firme, irredutível e falando baixo.

São 35 minutos do mais fino Jazz. ''Little Shoes'' e ''Mood Swings'' são faixas que foram assobiadas por mim durante meses a fio. Um som enxuto e que se mostra aberto e receptivo aos novos ouvidos que buscam por mudanças no Jazz.

0 comentários:

O baque cocainado do Aerosmith em Draw The Line

É interessante perceber o número de vertentes que existem dentro do Rock e conseguir extrair deste passageiro raciocínio, que por trás de toda essa diversidade, existe também muito preconceito. Pode reparar, qualquer banda que consegue acertar a mão em determinada cozinha, é mal recebida se mudar as regras de jogo de uma forma mais acentuada, e exemplos para isso não faltam.


Eu particularmente gosto de citar o Deep Purple, que após firmar suas raízes no Hard, acabou maturando seu som na acidez do Funk/Soul, e mesmo que o três discos deste período sejam ótimos (''Burn'', ''Stormbringer'' e ''Come And Taste The Band''), sabemos que a aceitação foi bem complicada na época.

Aliás, até hoje existe certo desacordo entre os fãs, é algo que nunca é 100% aceito. E esse gancho do caso Purple é bem interessante para os pensamentos que prentedo alimentar ao som do Aerosmith, mais especificamente com o swing acentuado de ''Draw The Line'' lançado em 1977.

Line Up:
Steven Tyler (vocal)
Joe Perry (guitarra/vocal)
Brad Whitfordd (guitarra)
Tom Hamilton (baixo)
Joey Kramer (bateria)



Track List:
''Draw The Line''
''I Wanna Know Why''
''Critical Mass''
''Get It Up''
''Bright Light Fright''
''Kings And Queens''
''The Hand That Feeds''
''Sight For Sore Eyes''
''Milk Cow Blues'' - Kokomo Arnald


O Aerosmith foi uma daquelas bandas que teve um início fantástico, e que mesmo com toneladas de abusos de todos os tipos de drogas, conseguiu contornar os problemas aos trancos e barrancos por muito tempo e fazer um disco melhor que o outro por mais de uma década, com o marca passo de 1973 até 1985 (auto intitulado-''Done With Mirrors''). Período com o qual os toxic twins quase fecharam as portas da instituição por brigas egomaníacas, quilos de cocaína e milhares de outras substâncias.


Mas que desde sua estréia em 1973, passando por ''Get Your Wings'' (1974), ''Toys In The Attic'' (1975), ''Rocks'' (1976), e aterrissando no ápice da loucura e insanidade pela óbvia exaustão do grupo com ''Draw The Line. A fase mais Junkie, com o maior desgaste entre os membros e sem dúvida alguma, marca o período menos propícia para um disco no nível dos anteriores. Só que mesmo assim os caras seguiam na linha Walking Dead's e surpreendiam a cada novo disco.

E aqui o padrão foi o mesmo, de disco clássico. Uma aula de Hard-Rock que desta vez flerta com o ritmo dançante do Funk com o mesmo sucesso de outrora, incitando a Jam em um convento abandonado perto de Nova York, dando margem a duas opiniões:

1) Não é ruim.
2) Mas também não é bom.


A única coisa relembrada de forma geral é a arte da capa, a chapada caricatura de Al Hirschfeld. Mas esse disco é ótimo, mostra uma aresta da banda que sai da zona de conforto mas não perde a raiz, pois o Blues está sempre ali. O Purple ainda insistiu mais tempo nessa cozinha, eu, por exemplo, acho ótimo a fase James Brown, mas alguns detestam e aqui é a mesma coisa, porém meus ouvidos voltam a convergir.

Começando com o slide da faixa título, mostrando um potencial diferente para as eletrficações corporais. Passando pelo piano safado de ''I Wanna Know Why'', a gaita esperta de ''Critical Mass'' e o momento de brilhantismo mor de Perry neste disco, com os vocais de ''Bright Light Fright''. Aliás, depois de muito ouvir esse cara, cheguei a conclusão que ele é uma versão do Keith Richards melhorada na parte de solos e com o mesmo talento sobrenatural para riffs.



Basta ouvir ''Kings And Queens'' para perceber isso e sentir o baixão de Hamilton e a voz sentimental de Tyler, que mesmo no fundo do poço, ainda estava arrebentando nos vocais. Tudo isso fora o ímpeto rude e puramente Rock 'N' Roll de ''The Hand That Feeds'' e ''Sight For Sore Eyes''... Tudo esperando pelo grand finale, a versão envenenada de ''Milk Cow Blues'' de Kokomo Arnold... 

Não adianta, Funk é só para ouvidos bem preparados, fora que sempre tem os que gostam, mas fingem discordar só por que a mídia ''especializada'' mela a cueca na hora de falar sobre a música, não das vendas. 

Mas pra quem manja, esse LP é tão bom, senão melhor que os anteriores. Trata-se do registro que resumiu o furacão que foi o Aerosmith, e consegue cumprir a difícil tarefa de captar as reverberações em seu apogeu de selvageria, que aqui conta até com os cozinheiros do Grateful Dead, e os obviamente batizados brownies de maconha que deixaram até o Joe Perry baqueado.


2 comentários:

Underground: aqui o buraco é mais embaixo

A música de verdade, independente do estilo, é feita por pessoas com paixão pelo riscado. Pode crer que por trás de toda grande banda, existe um núcleo de meliantes que ralou demais pra ser ouvido. Que aumentou o volume do Fuzz (letra maíscula pra falar de Deus), até sentir que estava dentro do maquinário, para aí sim, vibrar com a música em sua forma mais pura.

O underground é isso, um núcleo de músicos que busca planar como um Ícaro (quase surdo), por tentar chegar perto demais do utópico volume máximo. Afinal de contas, a busca por um lugar no cenário é foda.

Os caras se movimentam como podem, mas no fim, não importa o que aconteça, se não tiver feeling a batalha morre na entrada do Coliseu. O play é uma dádiva, mas antes de chegar nesse ponto, é necessário passar por cima de muita lombra, romper eixos do mapa e tocar como se a sua vida dependesse disso, e rapaz, acredite, para alguns (os melhores), ela realmente depende.


É uma sensação singular, um teorema bastante complicado de ser colocado em palavras, mas ainda bem que existem os grande mestres. O Ray Charles falou uma frase uma vez que traduzida é mais ou menos assim; ''música pra mim é como respirar. Eu não me canso de respirar, logo, não me canso de música''. 

E se fosse pra resumir o teor de paixão que fez meu corpo vibrar no último evento da Abraxas em São Paulo, a frase do glorioso Ray seria perfeita para este fim. Só o gênio das teclas para conseguir colocar em palavras, todo o estrago que a Hammerhead Blues, Augustine Azul e o Radio Moscow fizeram no Inferno Club. 


Arte: Ars Moriendee

O baque foi tanto, que desde de a primeira atração, com os locais da Hammerhead Blues, o público já estava pulsando na mesma levada que o Jazz bass do frontman dos caras. O reverendo Otavio Cintra sentou o dedo no grave e depois de uma jurubeba, subiu tinindo para o palco. 
Foi tudo muito rápido, preciso e sem frescura, como mandava a tônica dessa noite. E com um set list que mais uma vez enalteceu os belos temas do primeiro EP da banda, a chibata da jam cantou por quase uma hora, enquanto a cozinha do Hard-Bluesy emulava riffs sedentos por Rock 'N' Roll através da Strato do Luiz Felipe Cardim, deixando a bucha de acompanhar aquilo tudo nas baquetas do absolutamente intenso, William Paiva.
O feeling estava azeitado e o resultado foi um set list que simplesmente descarrilou sob uma plateia que, graças ao line up da noite, sabia que precisava chegar preparada. O único problema é que ouvir esses caras no youtube é uma coisa, sacar ao vivo é outra brisa.



Veja a Augustine Azul, por exemplo. Escuto o EP desse trio desde o fim do ano passado, assim como a galera que foi prestigiar a banda, o que não me impediu de ficar consternado com o que saia dos falantes.



A força do repertório do EP é enlouquecedora, mas ver os 3 ali, mandando aquele coquetel molotov progressivo, e apresentando alguns dos novos temas que entrarão no primeiro full da banda (como ''Amônia'' e a criativíssima ''Jurubeba'')... Meu caro, quem viu o show sabe, esses caras são diferentes.
   
Fiz uma matéria sobre o som de João Yor & cia, e lembro-me claramente que o ponto mais difícil do texto foi explicar o que o instrumental desses caras causa no ouvinte. Depois de horas consegui chegar a uma sensação semelhante, e por mais absurdo que pareça, mantenho o que disse naquela texto.

Foto: Emanuel Alves

Apertar play na Augustine é atravessar um box de vidro temperado correndo. Ouvir os caras ao vivo é a mesma coisa, só que depois de atravessar você ainda faz uma gargarejo com os cacos restantes, uma colher de areia, duas gotas de limão e uma de super bonder, só pra dar uma liga.

A fidelidade do som em disco foi mantida em 200%. Edgard manteve uma precisão impressionante no cockpit da bateria, e a conexão entre o baixo de Jonathan e a guitarra de Yor beirava a insanidade. É impressionante como os caras tocam fácil, o som é natural e entre solos acachapantes e quebras absurdas no tempo, o público absorvia o som com a mesma cara do cidadão que foi retratado na arte do EP. 



Foi ridículo, quando acabava uma faixa o público ficava uns 5 segundos em silêncio e depois explodia. Não é só o peso, assim como a Hammerhead, o Augustine é um combo que dá gosto de ver não só pelos arranjos, pela classe ou o feeling. 

Quando o show começa, você sabe, enxerga e sente que eles estão se doando 100% em prol da paixão pela música. E assim como disse sobre o primeiro show da Hammerhead com o Mars Red Sky, matenho a escrita para esses mestres de João Pessoa: eles ainda vão tocar muito por aqui!

Só que ainda faltava o Radio Moscow... Essa foi a terceira passagem deles por aqui e a experiência de ver Anthony Meier, Paul Marrone e Parker Griggs é sempre explosiva. Não importa quantas vezes esses caras colem pra cá, esse é o tipo de show que dá prazer de assistir toda semana.



E o engraçado é que a maioria fala só do Parker Griggs, mas é importante salientar o trabalho do baixo e da bateria, afinal de contas nem mesmo um dos mais viscerais guitarristas da atualidade, trabalha sozinho. Num som onde a sinergia é a base criativa para a psicodelia do Blues Rock, Anthony e Paul são essênciais para a banda, pois a dupla é capaz de acompanhar a guitarra de Parker em todos os momentos.

Eles improvisam na base, solam o tempo todo costurando as camadas das linhas, e é assustador ver o transe que esses caras entram quando começam a tocar. Ninguém troca muita ideia, os caras mal se olham e dá pra ver que a telepatia é pelo feeling. 



E enquanto Paul - uma espécie de Corky Laing dos anos 2000 - se mostrou um dos bateristas com maior pegada e versatilidade da cena atual. Anthony aniquilou os graves no Rickenbacker e o Sr. Griggs uniu uma faixa na outra, sem dar descanso ao público, enquanto dichavava a Fender com um apetite voraz.

Sempre um repertório que privilegiou o disco mais recente (''Magical Dirt - 2014), a banda soube alternar sons conhecidos de outros ''Brain Cycles'' (2009) e horas de fritação no simulador de voo de trampos, como o ''The Great Scape Of Leslie Magnafuzz'', por exemplo. 

A pegada foi monstruosa, e além de 3 grandes shows, tivemos uma ode ao formato mais cavernoso do Rock 'N' Roll, o power trio. O estrago ainda é recente, meus ouvidos ainda estão zunindo, mas depois de uma uma noite dessas, creio que um zumbidinho seja apenas um detalhe. O teto ficou preto.

2 comentários:

Ooh Yeah The Betty Davis Songbook: o disco que salvou o ano do Bonamassa e mostrou o talento da Mahalia Barnes

Apesar do título dessa matéria, é válido ressaltar que dois discos salvaram o 2015 do Joe Bonamassa, mas como esse saiu antes e surpreendeu mais do que a sequência com o Rock Candy Funk Party, creio que não seja um exagero dizer que sem essa gravação, sua banda de Rock-Fusion não mudaria os rumos do Funk da maneira que o fez.


Tudo começou quando Kevin Shirley (produtor do Bonamassa), se envolveu na produção de um disco da Mahalia Barnes. Conversa vai e conversa vem, a filha do mestre Jimmy Barnes acabou entrando na onda do produtor sul-africano e, quando a moça disse sim para um songbook da Betty Davis, Shirley comentou sobre o projeto para Joe e deu no que deu. 

Além da ótima banda de apoio da australiana (The Soul Mates), Bona (depois de implorar para se envolver nesse projeto), ficou à cargo das guitarras e coroou um dos melhores e mais surpreendentes vocais gravados em 2015. Santa traquéia Batman, segura esse groove! 

Line Up:
Mahalia Barnes (vocal)
Ben Rodgers (baixo)
Franco Raggatt (guitarra)
Lachlan Doley (clavineta/teclas)
Clayton Doley (órgão)
Dave Hibbard (bateria)
Joe Bonamassa (guitarra)




Track List:
''If I'm Luck I Might Get Pickep Up''
''Steppin' In Her I. Miller Shoes''
''In The Meantime''
''He Was A Big Freak''
''Your Mama Wants You Back''
''Game Is My Middle Name''
''Nasty Gal''
''Ooh Yeah!''
''You Won't See Me In The Morning''
''Anti-Love Song''
''Walking Up The Road''
''Shoo-B-Doop And Cop Him''


Na boa parceiro, se você não manja o trampo da Betty Davis, entre no youtube agora mesmo, pois lá é possível encontrar os três (tinhosos) LP's que a americana gravou. Caso você ignore esse aviso, ouvir esse songbook será um pouco vago, mas o contexto de excelência sonora jamais sofrera um abalo, pois o repertório é fortíssimo, só que até para elogiar o vocal da senhorita Barnes com mais embasamento, você vai ter que ouvir a Betty, rapaz.

É um faca de dois grooves, digo, Funk's, opa, cumes. Só quem já se ligou nessa vocalista temperamental sabe do que digo. Primeiro que ela foi a única esposa do Miles Davis (68-69)  que na hora de preencher o formulário no quesito profissão, não precisa colocar: ''esposa do senhor Bitches Brew''. Não, Betty foi uma modelo de sucesso nos anos 60, só que resolveu largar a profissão, e o motivo já mostra um pouco de sua excêntrica personalidade.


Certa vez Davis disse numa entrevista: ''não é preciso ter um cérebro para ser modelo''. Por isso que ela largou as passarelas e foi desfilar nos palcos. Só que veja só como a vida é injusta, mesmo gravando 3 trabalhos (que hoje são cultuados no mundo todo), na época do lançamento, nenhum deles fez o sucesso merecido. Por isso, além de resgatar uma música de ótima qualidade, esse songbook também relembra uma voz, que como ela mesma fala num de seus hits, era de uma ''Nasty Gal''.

Com um acabamento mais modernoso e um peso nas notas graves que mantém a estrutura do som de forma bastante fiel, esse disco é um de uma força notável, aliás, usei o Bonamassa aqui só pra começar a distribuir as notas verbais, por que o principal destaque é a senhorita Barnes e sua banda.

A The Soul Mates é excelente e o trabalho dela na voz beirou o ridículo. Além de ter o mesmo drive da senhora Black Power, Mahalia mostra que o swing corre em sua veia e ainda o faz enquanto a mulher encarna o melhor do repertório da sinhá que apresentou Sly Stone e Jimi Hendrix para o mestre do trompete... Sim, se você escuta o ''On The Corner'' e pira na odisséia do Jazz em ''Bitches Brew'', agradeça à senhora Betty Mabry, rapaz. Obrigado. De nada.



Relembrando a força de uma das vozes mais ardidas dentro do ramo Funk/Soul, Barnes, além de mostrar muito talento e feeling, consegue entoar temas dos mais ácidos com uma naturalidade impressionante.

A semelhança é tanta que a australiana lembra a musa das passarelas Funkedas até pela aparência! Só que é tudo muito intenso, rápido e com a roupagem mais classuda escolhida na produção, o legado da senhora Davis chega com elegância, mas ainda assim, a selvageria é a tônica desse registro.

Apostando alto no debutante autointitulado (73) o disco surge com 8 temas do disco de estréia. Equaliza 3 tracks do LP seguinte, ''They Say I'm Different'' (74) e finaliza a session com apenas um take (''Nasty Gal'') do último trabalho oficial de mesmo nome, que uma das vozes mais faiscantes que o senhor ouvirá na vida lançou, também em 1974.


É bem verdade que rolou uma concentração de renda no debutante e que dava pra ter escolhido as jam de forma mais homogênea, só que ai a opinião dos caras entra em campo, e apesar de possuir apenas 3 discos, todo o repertório da senhora Mabry é deveras chavosos.

A experiência fazendo esse tipo de trabalho com a Beth Hart fez bem para o Bona. Seja na marrenta ''If I'm Luck I Might Get Picked Up'', na sublime ''In The Meantime''  ou na chapante ''Big Freak'', o que temos aqui é sem dúvida alguma, uma das maiores vozes femininas que o senhor vai ouvir. Fora que reencarnar as linhas cheias de maneirismos da Betty não é mole não, e o beat sexy da Mahalia Barnes deixa até os mais velhos de joelhos.

O baixo ronrona na sua orelha ao som de ''Your Mama Wants You Back''. Em ''Nasty Gal'' temos um open bar de gritaria valvulada pelos poderes de James Brown, e durante todo o disco o instrumental é de tirar o chapéu. Cheio de timbres animalescos, encorpados e com aquele ar de pura responsa uivante no órgão, esse R&B é diversão garantida ou seu molejo de volta. Esse é mais quente do colocar a língua na tomada, pequeno gafanhoto!
   

3 comentários:

A viola e seus encantos: Banco e prosa na Kabul Bar - 17/01/2016

A viola não mente. Ela é crua, nunca se cala e jamais consente. Parece frase de livro de autoajuda, mas não é, esses são apenas alguns fatos já perpetuados quando o assunto é uma boa e velha session acústica.

Com um violão, rapaz, pode esquecer de toda aquela pirotecnia da sua pedaleira. Quando o Giannini começa a vibrar as notas, tudo o que você tem são os seus dedos, o feeling e a vibe de eletrificar o ambiente sem ao menos um watts de potência.

É uma das experiências mais pessoais que um músico pode ter. Sentar com seu instrumento e ver que com um violão você pode enfrentar o mundo... Com certeza existe algo de utópico nisso tudo, mas o que vale é o primeiro contato, as ranhuras, o nylon e o dedilhar seco que conta histórias. Parecia a trilha sonora da Kabul Bar na semana passada, quando o recinto recebeu três violeiros para uma prosa na banqueta!


Contando com 3 atos bastante distintos, esse fim de tarde, começo de noite na Kabul Bar, comprovou tudo que disse no parágrafo acima. A viola é crua, e ver a diversidade na abordagem para com esse belo instrumento, apenas ressalta como o tom de suas criações é único.

Com um cronograma que começava a uivar com a viola de Jhonny Jamal, o primeiro show da noite chegou num clima mais aveludado. Com temas melodiosos, um vocal afinado e letras leves, Jhonny Jamal mostrou um pouco de suas composições, apostou em algumas versões e entrou da mesma forma que saiu: sem sair do tom.


Na sequência veio Leonardo Biazoli, o músico mais jovem que tocou nesta noite. Com uma abordagem menos viva do que a de Jamal, Biazoli apostou alto nas versões e mostrou um ecletismo bastante singular, intercalando com poucas faixas autorais, o que talvez tenha sido a principal tônica da noite.

Foi um bom espetáculo, mas creio que pela falta de uma fórmula mais homogênea, o posicionamento do artísta tenha ficado meio vago, algo que realmente não aconteceu com a dupla que encerrou a resenha unplugged. 


Se faltou ousadia por parte de Jhonny ou Leonardo, o trabalho da dupla Otávio Cintra e Luiz Felipe Cardim chegou para mostrar um approach interessantíssimo no trabalho de base e ainda nos revelou um belo compositor (Otavio Cintra), além de ressaltar o feeling Bluesy do guitarrista da Hammerhead Blues, Luiz Felipe Cardim.

Antes de seguir com a crítica, vale ressaltar que  o reverendo Otavio Cintra é baixista (e vocalista) da Hammerhead Blues, por isso, vê-lo assumir um papel completamente diferente no som, foi bastante interessante. 


Aqui sua viola assumiu o primeiro plano e entre belos arranjos, um ótimo repertório que passeia pelo inglês e nossa língua nativa, e o tear de notas que ele armou com os solos de Luiz, que em muitas das vezes se confundiam em bases, soou bastante harmonioso.

Teve de tudo, Alceu Valença, muito feeling no nylon e no Blues elétrico de Luiz, que sabendo da necessidade de manter o tom de sua guitarra com a viola, demonstrou bastante sensibilidade. É claro que o entrosamento entre os dois já existe, mas é algo completamente diferente com o que eles fazem em trio.

E o melhor de tudo, perto da última faixa do set, a ascendente ''Kilimanjaro'', Otavio deixou escapar que eles ensaiaram apenas uma semana! Os caras andam ouvindo muito Terry Reid!

0 comentários:

Emicida, Marcelo D2 & Criolo: Manifesto Urban Stage Fest: 16/01/2016

As palavras carregam poder. A reforma agrário do som também. Os tempos são outros e com eles, padrões são quebrados como se não fossem nada. Talvez sejam os novos tempos, um pouco de amadurecimento...

Não sei ao certo, mas a única coisa que ficou clara depois do fim do primeiro Urban Stage Fest, foi que depois de 3 shows absurdos, a pancada foi tão forte que ninguém se ligou da importância do rolê.

Num país comandado por festivais meramente comercias e sem brilho, fechar duas tardes para o som da quebrada foi um acontecimento grandioso. Uma data que enaltece as qualidades de uma geração que ralou muito para colocar o rap nessa posição.


Taíde parceiro. Falo sobre os primórdios, falo sobre os responsáveis por abrir esse portão de versos, ideias, novos conceitos criativos e ideológicos. De uma galera que ouviu décadas de não's para que hoje, uma nova geração de mentes pensantes, pudesse continuar carregando o legado das poesias em beats.

Foi por isso, para celebrar anos e anos de luta, que o Urban Stage chamou três dos maiores nomes do Rap nacional, essa noite foi pra quem chegou na revolução só com caneta e papel. Esse dia foi pra mostrar que o tempo passou, foi pra promover um encontro de gerações e também pra observar como as coisas mudaram.


E quem foi o man responsável por segurar a bronca de abertura foi o Emicida. O senhor Leandro deve ter se sentido muito honrado em integrar um line up que ainda teve Marcelo D2 e Criolo, e tudo isso no mesmo dia.

Ver um cara desse, que até não muito tempo atrás vendia Mixtape na rua, depois de fazer todo o corre de carimbar e colocar o disco no papel craft... Ver um cara que se desenvolveu tanto assim, rapaz, bate até um orgulho.

Que banda! Que session de percussão noizeada e que poder. São nomes como esse que carregam as mensagens, e ver a diversidade das abordagens entre os 3 envolvidos, também foi um dos requintes dessa celebração de versos livres.


Se por um lado vemos que Emicida gosta da cozinha quente das brasilidades de nosso quintal, e ainda curte misturar com uma percussão de terreiro, vemos que o Marcelo D2, por exemplo, ainda não encontrou a batida perfeita e segue no ''rap-com-samba esquema novo'', Esfumaçando a ideia com alguns tragos da malandragem carioca e cantando um Bezerra da Silva sempre que possível.

É impossível não notar a grandiosidade dessas mudanças. Quando vemos nomes como Emicida e D2 com uma banda (tão boa) no palco, bom, isso no mínimo nos faz pensar como o Rap ficou mais musical.

Notem como as fórmulas são distintas, a única convergência é a batalha por mais espaço, por uma oportunidade como disse o Criolo. Por que de resto, cada tempero é absolutamente próprio. A originalidade se faz MUITO presente nesse cenário, e ver como cada um dos 3 lutou para conseguir um som único, também é uma lição.


É um ensinamento que visa o fim dos limites. A música é uma só, suas variações são apenas novas perspectivas, e cada um dos 3 tenores mostrou suas visões sob o palco por pouco mais de uma hora e meia.

O Emicida aqueceu o público e saiu enquanto o céu ainda se preparava para escurecer. O Marcelo que sempra da D2 entrou quando o plano de fundo estava ficando laranja. E ver que o pesadelo do Pop também veio equipado no instrumental, só adicionou ainda mais fagulhas nesse groove incendiário.

O baixo estava fervendo. Fernandinho beat box estava numa tarde inspirada e o resultado foi um show tão surpreendente quanto a camisa do Metallica que o reverendo dreadlocks apareceu usando. Mas a noite ainda não estava terminada, a pressão apenas aumentava, ato após ato, chegando ao ápice quando o Criolo, o bombeiro da Babilônia, se materializou no palco.


Aí foram outros 500. Encerrando com o show mais intenso da noite, o Criolo fez a função de sempre, com a destreza que já lhe é peculiar. O domínio de repertório, o entrosamento entre o pregador e seus sacerdotes... É impressionante, quase telepático.

Os solos da guitarra de Guilherme Held. A entrada com slide para o sample do Shuggie Otis em ''Demorô''. Os pequenos detalhes são os grandes momentos para esse mestre, e ver que todos os membros da filosofia pé de breque estavam esperando o começo da queima da maldade na Babylon, foi no mínimo reconfortante.


DJ DanDan foi um dos grandes termômetros do show. A mística deste lion man é quente, não existe elo mais fraco e a lei é uma só: ou soma ou some. Com um trio de metais envenenadíssimo para prover toda a sorte de detalhes para os belos arranjos de metais que inundam o excelente ''Convoque Seu Buda'', a pregação foi densa.

A paixão no olhar dos presentes, observando cada nuance do mestre com adornos abstratos de adoração... A imagem do senhor Kléber Cavalcante Gomes é uma granada, mas ela nunca explodiu, e vê-lo em seus shows é mais do que uma aula de lírica, é um intensivo de equilíbrio espiritual.


É similar ao efeito da categórica ''Plano de Voo''. Tema que além de seus alicerces morais, nos mostram o talento nato do Neto, um cara diferente, um ser humano especial que conseguiu eternizar nessa música, algo que nesses mais de 10 parágrafos, as palavras se fazem ineficazes para descrever.

Sonho que se sonha junto é o maior louvor. Quem diria que a maior lição da noite viria de um dos maiores expoentes da nova cena? Ver esse cara mandando essa com o Criolo, ali, ao vivo, é arrepiante e é a moral de tudo isso. A vida é ritual.

0 comentários:

Circo Motel: um Auê na Casa do Mancha

A Casa do Mancha sempre foi um lugar especial para se ver um show. Além da casa do senhor Mancha parecer de fato a sua própria residência, o clima do espaço sempre pareceu emular uma mística muito particular.

É até engraçado, aposto que se muitos shows não fossem sediados ali na casinha... Rapaz, muita coisa não teria acontecido da melhor maneira possível, no padrão que apenas aquele canto da Vila Madalena consegue estabelecer: da forma mais espontânea possível.

Fabio Linhares: Fotografia Transcendental

Ali é o lugar pra esquecer o script piegas de alguns espaços e apenas tocar. É claro que se você for músico o referencial muda completamente. Da plateia rola uma química insana, afinal estamos todos no mesmo nível, sem um palco pra limitar nada.

Já para a banda, o espaço pode até ser considerado pequeno, mas a sinergia, essa meu amigo, dá pra cortar com uma faca. Daquelas de plástico mesmo que acompanham o rocambole da padaria. E se teve um dia durante esse primeiro mês do ano em que tive que usar essa faquinha, esse dia foi quando o Circo Motel foi fazer o pré lançamento de seu segundo disco, o ''Auê'', registro que sai durante esse ano par de 2016.

Line Up:
Felipe Seabra (baixo)
Rafael Charnet (guitarra)
Rafael Gregorio (vocal)
Rodrigo Machado (guitarra)
Thiago Coiote (bateria)
Irina (teclado/percussão) *convidada
Lucas Joly (trompete) *convidado
Jorge Cirilo (saxofone) *convidado
Ademílson Guarujá (trombone) *convidado


Fabio Linhares: Fotografia Transcendental

Voltando com aquele Funk/Soul classudo que chamou a atenção de quem mostrou um alto Q.I rebolativo com ''Sobre Coiotes e Pássaros'' (2012), a banda voltou para o estúdio depois de 4 anos maturando novas ideias e composições, e apareceu com um combo reforçado para as festividades do pré lançamento. Teve de tudo, desde um trio de metais envenenadíssimos, até uma tecladeira inspirada nas timbragens.

Fazendo frente ao nome do segundo disco, a banda fez um verdadeiro Auê na casinha. Esse trabalho demorou pra nascer, mas pra compensar, o resultado está ainda mais invocado que o anterior, cheio de climas envolventes e com um instrumental que está pra lá de azeitado. Sempre adicionando aquele requinte que apenas o balanço do Funk pode prover.

Fabio Linhares: Fotografia Transcendental

Fora que se ouvindo o play de estúdio já parece que os caras estão improvisando, ao vivo então... Rapaz, a faquinha de rocambole foi requisitada. A banda estava tinindo e ninguém conseguiu ficar parado.

Foram pouco mais de 60 minutos de jam, aquele puro néctar instrumental que, para essa noite, fez um mesclado entre novas e antigas composições. Passando pelo single mais recente da banda (''Feijoada''), e chegando até um um chapadíssimo cover para a clássica ''Um Lugar do Caralho''.

Foi elétrico, pulsante, quente e muito louco. Agora é só seguir a caravana para outros slaps, por que esse disco (produzido pelo Cris Scabello do Bixiga 70), definitivamente, irá fazer a sua cabeça.

0 comentários:

A classe de Ernest Ranglin com o Jazz Reggae de Ranglin Roots

O Reggae sofre um ligeiro Bullying quando alguns ignorantes recorrem a uma opinião fechada sobre o estilo. É quase rotineiro ouvir alguém falar que ''Reggae é tudo igual'' e etc e tal, mas uma coisa é certa: se tudo estiver igual você está surdo.


Existe uma nuance sublime e primordial na vertenta, e essa é a pegada. A marcação que para o som jamaicano, é tão importante quanto a escala pentatônica é para o Blues. E quando digo ''marcação'', falo sobre aquele cavalgar que deixa tudo mais lento, como num transe em que nada para, mas o paradoxo segue fluente para com o restante do instrumental.

É claro que existem exemplos de uma pegada roots mal feita, mas a definição acima só serve para os melhores trabalhos do gênero, aliás, falando neles... Coloque ''Ranglin Roots'' para seu amigo que paga de mestre jamaicano e mostre pra ele que se está ''tudo igual'', ele não está ouvindo Ernest Ranglin.

Line Up:
Ernest Ranglin (guitarra)
Wade ''Monkey Man'' Hampton (bateria)
Val Douglas (baixo)
Michael Chung (guitarra)
Michael Richards (bateria)
Art McLeod (baixo)
Alvin Haughton (percussão)
Junior Douglas (bateria)
Billy Johnson (guitarra)
Cedric Brooks (saxofone)
Bongo Herman (percussão)
Harold Butler (piano)
Herman Marquis (saxofone)
Leslie Butler (sintetizadores)
Jackie Willacy (trompete)
Joe McCormack (trombone)



Track List:
''On Higher Grounds''
''The Trip''
''Ranglin Roots''
''Explosion''
''Double Talk''
''Love Is Loving June''
''Hall Count Ossie''


Décimo primeiro disco de estúdio de uma das maiores lendas da Jamaica, ''Ranglin Roots'' (72') é um dos clássicos deste fantástico guitarrista. De longe um dos maiores músicos que você ouvirá em sua vida, Ernest goza de uma popularidade que infelizmente ficou restrita aos domínios da bela Jamaica.

Mas que em detrimento de sua importância para a música local, mostra uma vitalidade maior do que a do senhor de 83 anos que o mestre se tornou. Dono de uma elegância ímpar na hora de destilar o Ska, Rocksteady, o Jazz e o Reggae, claro, Ranglin teve a honra de tocar com os maiores mitos locais, nomes como Bob Marley, Skatallites, Jimmy Cliff, Prince Buster, entre outros.

Em sua longa e prolífica carreira, o guitarrista se dedica ao Jazz como moeda de troca para mostrar que o Reggae não tem limites. É possível encontrar seu nome abrilhantando discos de Dub, Fusion, servindo como bússola para ideias mais percussivas e redefinindo o papel da guitarra no Reggae.


Só que Ranglin desenvolve um trabalho único. Unindo uma técnica sublime na semi acústica e um feeling tão limpo quanto seu timbre, o velhaco passei pela escala das mais intrincadas formas e mostra um domínio que beira o virtuose, endossando a marcação dos Dreads com uma beleza quase platônica.

E creio que em ''Ranglin Roots'' essa distinta sonoridade atinge um dos maiores picos na carreira do mestre. Que apostando numa receita 100% instrumental, chega com 7 temas e 30 minutos de muito sentimento e refinamento.

Sei que é pouco tempo, mas o esmero é grandioso e paga com o melhor: boa música. Por isso, na hora de ouvir esse afiadíssimo instrumental, repare na elegância da faixa título, na grandiosa riqueza instrumental de ''Double Talk'' e na soberania dos metais para a brisa fresca em ''Hall Count Ossie''. Reggae é tudo igual eles disseram... Ouvir esse play é simular o por do sol em Trench Town.

0 comentários:

A estirpe italiana de Detroit, debutante dos arruaceiros do Killer Boogie

Quando era moleque lembro de sacar várias bandas de Prog italiano. Era uma brisa potente, cheia de variação e com uma classe bastante acentuada, afinal de contas muitos dos músicos envolvidos em bandas como o Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Soccorso e Museo Rosenbach, tinham em sua base criativa, os flereios da educação erudita.

Só que engane-se o indivíduo que acha que os seres nascidos na Itália só pratiquem o Rock Progressivo. São graças à bandas como o Killer Boogie que vemos como a renovação existe e como ela também aposta em novas cozinhas. ''Detroit'' (debutante lançado no dia 14 de janeiro de 2015), mostra quem o CEP nem sempre garante o padão FIFA da educação Européia. Esse trio de vandalos chega invadindo sua residência e a moeda de troca são 9 faixas e quase 38 minutos de surra numa garagem qualquer.

Line Up:
Gabriele Fiori (guitarra/vocal)
Luigi Costanzo (bateria)
Edoardo Mancini (baixo)



Tracklist:
''Bad Rebel''
''Riding The Wind''
''My Queen''
''Little Flower''
''Silver Universe''
''Cosmic Eye''
''Summertime''
''The Golden Age''
''Dynamite''

Liberado soba  tutela dos fritadores da Heavy Psych Sounds, esse play é resultado de uma abordagem ignorante, sob camadas de Punk, Stoner, Rock 'N' Roll e um toque de glacê na Psicodelia. Formado pelo guitarrista da Black Rainbows, Gabriele Fiori, esse combo aposta numa sonoridade menos chapante, se comparado à sua banda de origem, além de estar imerso numa outra cena.

A cozinha dos caras está na mesma quebrada underground do Graveyard, só que com muito menos nome e público claro, até por que o projeto é bastante recente. Não pense que o nome ou o conteúdo das letras é um mero acidente, aqui de fato, o Boogie é matador.


Parece que eles acionam um botão dentro do seu cérebro e, a partir do momento que o senhor aperta o play, os temas lhe estimulam a querer bater em alguém. Abrindo com o riff sujo de ''Bad Rebel'', seguindo com a vitalidade bêbada de ''Riding The Wind'' e concluindo a primeira trinca com ''My Queen'', esses caras irão deixar claro para seus ouvidos como o Boogie pode ser do mal.

Mas é válido ressaltar que nem só de pancadaria, vive uma banda de noias inveterados como essa. Até os mais brutos apreciam um relax, e para isso, os mais de 8 minutos de ''Cosmic Eye'' caem como uma luva. 

A psicodelia é bem mais pronunciado nessa faixa, mas depois esse elemento aparece muito bem dosado em outros momentos, graças ao efeitos ou outras timbrages, mas o verbo imperativo aqui é a ignorância. E ao som de um baixo calibrado, guitarras cortantes, uma batera que segura a responsa de fazer o som pulsar e um vocal sem frescuras, o volume máximo chega até a ser um brinquedo.

Seja na panorâmica ''Summertime'', nos devaneios acústicos (com um pé no Prog) em ''Silver Universe'' ou na pegada radiofônica da rifferamática ''The Golden Age'', o Killer Boogie será sua brincadeira favorita durante semanas.

0 comentários:

O Funk vadio de Groove Is King, segundo disco do Rock Candy Funk Party

O Funk é um estilo que consegue ser emulado de duas maneiras:

1) Mostrando seu caráter ácido.
2) De terninho e gravata, swingando, mas com frescura.


Na verdade, o que temos aqui é uma clássica pegadinha da FUVEST. O Funk de verdade só pode ser feito da maneira sexy e selvagem que eterniza os mestres do groove quente e pulsante. Por que se o balanço ficar enfeitado demais, o disco pode até ficar bom, mas quando acaba lhe faz pensar: é quente, mas poderia me queimar.


É igual o primeiro disco do Rock Candy Funk Party. O Fusion Funkeadamente Rockeado de Joe Bonamassa & cia, surgiu no começo de 2013 com ''We Want O Groove'', mas apesar do alto padrão técnico, do feling e do próprio fator rebolativo, o disco (mesmo com muitos elogios), passa a impressão de ser certinho demais.

Algo que definitivamente não acontece quando você coloca ''Groove Is King pra tocar''. O segundo trabalho dos caras (lançado no dia 31 de julho de 2015) achou o caminho da sacanagem. Equipado com um time de metais cheio de marra, guitarras mais secas, teclados mais ousados e um linha rítmica sacana, esse trampo comprova: quem não cola não sai da escola, malandro.

Line Up:
Randy Brecker (arranjos)
Joe Bonamassa (guitarra)
Tal Bergman (bateria)
Ron DeJesus (guitarra)
Ada Rovatti (saxofone)
Fred Kron (teclas)
Mike Merritt (baixo)
Daniel Sadownick (percussão)
James Campagnola (saxofone)
Renato Neto (teclas)
Billy Gibbons - ''Mr. Funkadamus'' (narração)




Track List:
''Introducing the Master of Ceremonies Mr. Funkadamus''
''Groove Is King''
''Low Tide''
''Uber Station''
''East Village''
''If Six Was Eight''
''Cube's Brick''
''And now a word from our find sponsors with Mr. Funkadamus''
''Don't Be Stingy With The SMPTE''
''C You On The Flip Side''
''Digging In The Dirt''
''Don't Funk With Me''
''The 6 Train To The Bronx''
''Rock Candy''
''Mr. Funkadamus thanks all the senors but especially the senoritas''
''The Fabulous Tales of Two Bands''


Para compravar que o Rock Candy Funk Party é de fato uma banda, e não apenas um projeto paralelo, creio que esse disco tenha sido elementar. Aqui somos alvejados pelos novos ares da mudança. Elemento que se mostrou bastante comprometido em elevar e redirecionar o groove da banda, algo que apenas uma banda teria arquitetado com tamanho esmero.

Aliás, isso fica claro, assim que Billy Gibbons (Mr. Funkadamus), faz cosplay de George Clinton e apresenta os meliantes. Logo depois a faixa título aparece e suas firmes marcações, guitarras cortantes e seu riff alcalino, já tomam conta de tudo.

É apenas ao som de um instrumental desse porte que notamos a tônica em formações tão bem nutridas técnicamente. Todos os instrumentos tem espaço, é notável perceber que mesmo imersa em tanta virtuosidade, o groove acha seu caminho até o equilíbrio.


Na sequência, com ''Low Tide'', a maior mudança na sonoridade dos caras aparece: o time de metais. Com os arranjos feitos pelo mestre do trompete, Randy Brecker, os enolvidos entrelaçam linhas sólidas, livre e tão fluidas quanto um show do esquadrão de Maria Fumaça.

Isso mudou bastante as regras do jogo. Esse glorioso detalhe deixou a cozinha ainda mais improvisada e com temas como as potentes uniões de baixo e guitarra em ''East Village'' e ''Uber Station'', fica claro que é só correr para o slap.

E com um menu mais bem equalizado no quesito opções, não é necessário nem pestanejar. Temos uma malandragem explícita nos teclados, uma percussão noizeada em ''If Six Was Eight'' e o groove só para por que o Gibbons chega com outro insight de opera rock.


Por que logo depois os caras já voltam para o batente e modernizam a Disco Music com ''Don't Be Stingy With The SMPTE''. Pirando na vitalidade dos sintetizadores, unindo uma viola ao slap ao som de ''Digging In The Dirt'', cantarolando uma melodiosa linha vocal com trompete pra fechar a conta em ''The Fabulous Tale Of Two Bands'', e garantir sua insanidade durante o repeteco ou seu Groove de volta.

0 comentários:

O eruditismo de D-Stringz, colaboração entre Stanley Clarke, Biréli Lagrène e Jean-Luc Ponty

O ano era 2010. Nessa data estelar Jean-Luc Ponty celebrava seus 50 anos de carreira na música, logo, o mínimo que seus iguais poderiam lhe oferecer era um show.em sua homenagem. Na hora de tocar, Ponty firmou um trio com Stanley Clarke e o também francês Bireli Lagrene.


Para resumir, aquela performance de 20 minutos que o trio fez, foi a semente para esse discasso que a IMPULSE! lançou no dia 06 de novembro de 2015. De fato, a espera foi longa, mas finalmente os envolvidos conseguiram separar um tempo para registrar algo, e acredite, se depois de 5 anos ninguém desistiu, é por que a sinergia que aguardou o belo ''D-Stringz'', foi grande!

Line Up:
Stanley Clarke (baixo)
Jean-Luc Ponty (violino)
Bireli Lagrene (violão)



Track List:
''Stretch''
''To And Fro''
''Too Young To Go Steady''
''Bit Of Burd''
''Nuages''
''Childhood Memories''
''Blue Train''
''Paradigm Shift''
''Mercy, Mercy, Mercy''
''One Take''


Um dos discos que mais impressionou o mundo da música em 2015, ''D-Stringz'' foi uma união que, para quem não sabia do plano de fundo, parecia algo bastante recente e inovador. Só que esse formato já era conhecido por Stanley e Ponty, que em 1995 realizaram um trabalho no mesmo esquema, quando chamaram Al Di Meola para hravar ''The Rite Of Strings''.

A única novidade de fato foi que a dupla formada por um dos maiores mestres do baixo e do violino, em prol do Jazz, nunca gravaram nada com Lagrene, um dos maiores mestres da viola contemporânea.



Só que se existia alguma dívida, esse disco paga com juros e correção, fazendo frente, inclusive, à nossa bela inflação. O entrosamento é milimétrico, o feeling gigante e o nível técnico do instrumental, simplesmente sublime,

Por isso, na hora de apertar play, certifique-se de que, entre standards como ''Blue Train'' e temas originais, como a tinhosa ''Stretch'', o senhor encontre um homérico registro acústico. Uma obra que além de soberba, traça uma linha entre o Bop e o Post-Bob, salientando o trabalho cigano de temas que em alguns momentos beiram o Funk/Soul.

E nos deixam boquiabertos, assim como a precisão encorpada de feeling por parte de Biréli, em ''Mercy, Mercy, Mercy''. Desnorteados com a classe de Clarke no rabecão de ''Too Young To Go Steady''. E sem palavras para o tilintar modal, clássico do feitio de Ponty, ao som da Bossa em ''Nauges''. Bonito é pouco, esse disco é belíssimo.

0 comentários: