Emicida, Marcelo D2 & Criolo: Manifesto Urban Stage Fest: 16/01/2016

As palavras carregam poder. A reforma agrário do som também. Os tempos são outros e com eles, padrões são quebrados como se não fossem nada. Talvez sejam os novos tempos, um pouco de amadurecimento...

Não sei ao certo, mas a única coisa que ficou clara depois do fim do primeiro Urban Stage Fest, foi que depois de 3 shows absurdos, a pancada foi tão forte que ninguém se ligou da importância do rolê.

Num país comandado por festivais meramente comercias e sem brilho, fechar duas tardes para o som da quebrada foi um acontecimento grandioso. Uma data que enaltece as qualidades de uma geração que ralou muito para colocar o rap nessa posição.


Taíde parceiro. Falo sobre os primórdios, falo sobre os responsáveis por abrir esse portão de versos, ideias, novos conceitos criativos e ideológicos. De uma galera que ouviu décadas de não's para que hoje, uma nova geração de mentes pensantes, pudesse continuar carregando o legado das poesias em beats.

Foi por isso, para celebrar anos e anos de luta, que o Urban Stage chamou três dos maiores nomes do Rap nacional, essa noite foi pra quem chegou na revolução só com caneta e papel. Esse dia foi pra mostrar que o tempo passou, foi pra promover um encontro de gerações e também pra observar como as coisas mudaram.


E quem foi o man responsável por segurar a bronca de abertura foi o Emicida. O senhor Leandro deve ter se sentido muito honrado em integrar um line up que ainda teve Marcelo D2 e Criolo, e tudo isso no mesmo dia.

Ver um cara desse, que até não muito tempo atrás vendia Mixtape na rua, depois de fazer todo o corre de carimbar e colocar o disco no papel craft... Ver um cara que se desenvolveu tanto assim, rapaz, bate até um orgulho.

Que banda! Que session de percussão noizeada e que poder. São nomes como esse que carregam as mensagens, e ver a diversidade das abordagens entre os 3 envolvidos, também foi um dos requintes dessa celebração de versos livres.


Se por um lado vemos que Emicida gosta da cozinha quente das brasilidades de nosso quintal, e ainda curte misturar com uma percussão de terreiro, vemos que o Marcelo D2, por exemplo, ainda não encontrou a batida perfeita e segue no ''rap-com-samba esquema novo'', Esfumaçando a ideia com alguns tragos da malandragem carioca e cantando um Bezerra da Silva sempre que possível.

É impossível não notar a grandiosidade dessas mudanças. Quando vemos nomes como Emicida e D2 com uma banda (tão boa) no palco, bom, isso no mínimo nos faz pensar como o Rap ficou mais musical.

Notem como as fórmulas são distintas, a única convergência é a batalha por mais espaço, por uma oportunidade como disse o Criolo. Por que de resto, cada tempero é absolutamente próprio. A originalidade se faz MUITO presente nesse cenário, e ver como cada um dos 3 lutou para conseguir um som único, também é uma lição.


É um ensinamento que visa o fim dos limites. A música é uma só, suas variações são apenas novas perspectivas, e cada um dos 3 tenores mostrou suas visões sob o palco por pouco mais de uma hora e meia.

O Emicida aqueceu o público e saiu enquanto o céu ainda se preparava para escurecer. O Marcelo que sempra da D2 entrou quando o plano de fundo estava ficando laranja. E ver que o pesadelo do Pop também veio equipado no instrumental, só adicionou ainda mais fagulhas nesse groove incendiário.

O baixo estava fervendo. Fernandinho beat box estava numa tarde inspirada e o resultado foi um show tão surpreendente quanto a camisa do Metallica que o reverendo dreadlocks apareceu usando. Mas a noite ainda não estava terminada, a pressão apenas aumentava, ato após ato, chegando ao ápice quando o Criolo, o bombeiro da Babilônia, se materializou no palco.


Aí foram outros 500. Encerrando com o show mais intenso da noite, o Criolo fez a função de sempre, com a destreza que já lhe é peculiar. O domínio de repertório, o entrosamento entre o pregador e seus sacerdotes... É impressionante, quase telepático.

Os solos da guitarra de Guilherme Held. A entrada com slide para o sample do Shuggie Otis em ''Demorô''. Os pequenos detalhes são os grandes momentos para esse mestre, e ver que todos os membros da filosofia pé de breque estavam esperando o começo da queima da maldade na Babylon, foi no mínimo reconfortante.


DJ DanDan foi um dos grandes termômetros do show. A mística deste lion man é quente, não existe elo mais fraco e a lei é uma só: ou soma ou some. Com um trio de metais envenenadíssimo para prover toda a sorte de detalhes para os belos arranjos de metais que inundam o excelente ''Convoque Seu Buda'', a pregação foi densa.

A paixão no olhar dos presentes, observando cada nuance do mestre com adornos abstratos de adoração... A imagem do senhor Kléber Cavalcante Gomes é uma granada, mas ela nunca explodiu, e vê-lo em seus shows é mais do que uma aula de lírica, é um intensivo de equilíbrio espiritual.


É similar ao efeito da categórica ''Plano de Voo''. Tema que além de seus alicerces morais, nos mostram o talento nato do Neto, um cara diferente, um ser humano especial que conseguiu eternizar nessa música, algo que nesses mais de 10 parágrafos, as palavras se fazem ineficazes para descrever.

Sonho que se sonha junto é o maior louvor. Quem diria que a maior lição da noite viria de um dos maiores expoentes da nova cena? Ver esse cara mandando essa com o Criolo, ali, ao vivo, é arrepiante e é a moral de tudo isso. A vida é ritual.

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