Underground: aqui o buraco é mais embaixo

A música de verdade, independente do estilo, é feita por pessoas com paixão pelo riscado. Pode crer que por trás de toda grande banda, existe um núcleo de meliantes que ralou demais pra ser ouvido. Que aumentou o volume do Fuzz (letra maíscula pra falar de Deus), até sentir que estava dentro do maquinário, para aí sim, vibrar com a música em sua forma mais pura.

O underground é isso, um núcleo de músicos que busca planar como um Ícaro (quase surdo), por tentar chegar perto demais do utópico volume máximo. Afinal de contas, a busca por um lugar no cenário é foda.

Os caras se movimentam como podem, mas no fim, não importa o que aconteça, se não tiver feeling a batalha morre na entrada do Coliseu. O play é uma dádiva, mas antes de chegar nesse ponto, é necessário passar por cima de muita lombra, romper eixos do mapa e tocar como se a sua vida dependesse disso, e rapaz, acredite, para alguns (os melhores), ela realmente depende.


É uma sensação singular, um teorema bastante complicado de ser colocado em palavras, mas ainda bem que existem os grande mestres. O Ray Charles falou uma frase uma vez que traduzida é mais ou menos assim; ''música pra mim é como respirar. Eu não me canso de respirar, logo, não me canso de música''. 

E se fosse pra resumir o teor de paixão que fez meu corpo vibrar no último evento da Abraxas em São Paulo, a frase do glorioso Ray seria perfeita para este fim. Só o gênio das teclas para conseguir colocar em palavras, todo o estrago que a Hammerhead Blues, Augustine Azul e o Radio Moscow fizeram no Inferno Club. 


Arte: Ars Moriendee

O baque foi tanto, que desde de a primeira atração, com os locais da Hammerhead Blues, o público já estava pulsando na mesma levada que o Jazz bass do frontman dos caras. O reverendo Otavio Cintra sentou o dedo no grave e depois de uma jurubeba, subiu tinindo para o palco. 
Foi tudo muito rápido, preciso e sem frescura, como mandava a tônica dessa noite. E com um set list que mais uma vez enalteceu os belos temas do primeiro EP da banda, a chibata da jam cantou por quase uma hora, enquanto a cozinha do Hard-Bluesy emulava riffs sedentos por Rock 'N' Roll através da Strato do Luiz Felipe Cardim, deixando a bucha de acompanhar aquilo tudo nas baquetas do absolutamente intenso, William Paiva.
O feeling estava azeitado e o resultado foi um set list que simplesmente descarrilou sob uma plateia que, graças ao line up da noite, sabia que precisava chegar preparada. O único problema é que ouvir esses caras no youtube é uma coisa, sacar ao vivo é outra brisa.



Veja a Augustine Azul, por exemplo. Escuto o EP desse trio desde o fim do ano passado, assim como a galera que foi prestigiar a banda, o que não me impediu de ficar consternado com o que saia dos falantes.



A força do repertório do EP é enlouquecedora, mas ver os 3 ali, mandando aquele coquetel molotov progressivo, e apresentando alguns dos novos temas que entrarão no primeiro full da banda (como ''Amônia'' e a criativíssima ''Jurubeba'')... Meu caro, quem viu o show sabe, esses caras são diferentes.
   
Fiz uma matéria sobre o som de João Yor & cia, e lembro-me claramente que o ponto mais difícil do texto foi explicar o que o instrumental desses caras causa no ouvinte. Depois de horas consegui chegar a uma sensação semelhante, e por mais absurdo que pareça, mantenho o que disse naquela texto.

Foto: Emanuel Alves

Apertar play na Augustine é atravessar um box de vidro temperado correndo. Ouvir os caras ao vivo é a mesma coisa, só que depois de atravessar você ainda faz uma gargarejo com os cacos restantes, uma colher de areia, duas gotas de limão e uma de super bonder, só pra dar uma liga.

A fidelidade do som em disco foi mantida em 200%. Edgard manteve uma precisão impressionante no cockpit da bateria, e a conexão entre o baixo de Jonathan e a guitarra de Yor beirava a insanidade. É impressionante como os caras tocam fácil, o som é natural e entre solos acachapantes e quebras absurdas no tempo, o público absorvia o som com a mesma cara do cidadão que foi retratado na arte do EP. 



Foi ridículo, quando acabava uma faixa o público ficava uns 5 segundos em silêncio e depois explodia. Não é só o peso, assim como a Hammerhead, o Augustine é um combo que dá gosto de ver não só pelos arranjos, pela classe ou o feeling. 

Quando o show começa, você sabe, enxerga e sente que eles estão se doando 100% em prol da paixão pela música. E assim como disse sobre o primeiro show da Hammerhead com o Mars Red Sky, matenho a escrita para esses mestres de João Pessoa: eles ainda vão tocar muito por aqui!

Só que ainda faltava o Radio Moscow... Essa foi a terceira passagem deles por aqui e a experiência de ver Anthony Meier, Paul Marrone e Parker Griggs é sempre explosiva. Não importa quantas vezes esses caras colem pra cá, esse é o tipo de show que dá prazer de assistir toda semana.



E o engraçado é que a maioria fala só do Parker Griggs, mas é importante salientar o trabalho do baixo e da bateria, afinal de contas nem mesmo um dos mais viscerais guitarristas da atualidade, trabalha sozinho. Num som onde a sinergia é a base criativa para a psicodelia do Blues Rock, Anthony e Paul são essênciais para a banda, pois a dupla é capaz de acompanhar a guitarra de Parker em todos os momentos.

Eles improvisam na base, solam o tempo todo costurando as camadas das linhas, e é assustador ver o transe que esses caras entram quando começam a tocar. Ninguém troca muita ideia, os caras mal se olham e dá pra ver que a telepatia é pelo feeling. 



E enquanto Paul - uma espécie de Corky Laing dos anos 2000 - se mostrou um dos bateristas com maior pegada e versatilidade da cena atual. Anthony aniquilou os graves no Rickenbacker e o Sr. Griggs uniu uma faixa na outra, sem dar descanso ao público, enquanto dichavava a Fender com um apetite voraz.

Sempre um repertório que privilegiou o disco mais recente (''Magical Dirt - 2014), a banda soube alternar sons conhecidos de outros ''Brain Cycles'' (2009) e horas de fritação no simulador de voo de trampos, como o ''The Great Scape Of Leslie Magnafuzz'', por exemplo. 

A pegada foi monstruosa, e além de 3 grandes shows, tivemos uma ode ao formato mais cavernoso do Rock 'N' Roll, o power trio. O estrago ainda é recente, meus ouvidos ainda estão zunindo, mas depois de uma uma noite dessas, creio que um zumbidinho seja apenas um detalhe. O teto ficou preto.

2 comentários:

  1. Bom demais!! Parabéns pela resenha. O show de BH me fritou os miolos.. rsrs

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  2. que isso rapaz, eu que agradeço pela força! o de sampa me deixou baqueadão também hahaha

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