É vero: os Stones são fodas na mesma proporção que estão velhos

Quando era moleque sempre sonhei em ser biógrafo de alguma banda. Esse pensamento surgiu de forma muito natural dentro da minha mente barulhenta, mas foi só no dia 27 de fevereiro que vi as falhas neste plano infalível.

Keith Richards disse uma vez: ''a música é indefinível''. E eu vou além, complementando este pensamento, se é que alguém pode complementar um dos maiores guitarristas de todos os tempos, mas enfim. É justamente por exercer tamanho magnetismo nas pessoas, que a música é ouvida até o vinil empenar e não encontrar mais caminhos nas ranhuras para poder girar e confeccionar a jam, que nós, os fãs, ouvimos e ouvimos, girando e girando, até pode definir certas sonoridades.


O problema é que sempre pensei que um dia iria atingir um ponto de saturação. Em algum momento meus voos conseguiriam planar perto o suficiente do som, ali, na essência dessa gênesis que, trabalhando em ondas, reverbera melodias das caixas, assim, podendo me revelar o bendito segredo, um código que nem um Ícaro com protetor solar conseguiria arrumar. Eu, um mero escriba, muito menos.

Mas nunca desisti deste meu sonho. Bom, pelo menos não o fiz até o dia 27 de fevereiro, data estelar para uma das maiores revelações que tive em minha vida, a marcação terrestre para o alinhamento dos corpos celestes, humanos e espirituais. O dia do segundo show dos Rolling Stones em São Paulo pela Olé Tour, conjunto de mega-concertos, que só em São Paulo, após duas noites gloriosas, levou mais de 135 mil pessoas ao estádio do Morumbi.


Foi engraçado cara, quando acordei no sábado sabia que estava fazendo história. Esse sentimento é algo nobre demais, uma energia que lhe preenche o peito e parece ligar uma máquina de glicose, produzindo toneladas de energia... 

Fiquei o dia todo paranóico, só ali, na fissura, esperando meu comparsa chegar no lugar marcado e pensando no que viria. Tentando pensar num plano mirabolante para talvez tentar desativar uma bomba que eu sabia que iria explodir de qualquer maneira, enquanto ouvia os discos solos do Ronnie Wood, meu Stones predileto.


Foi ao som de um dos músicos menos respeitados na história do groove, um cidadão de cabelo espetado que sempre esteve no lugar certo na hora certa, e que é um dos pouquíssimos nomes na música, que pode acordar de manhã e beijar duas estatuetas do Hall da fama, que tentei me acalmar.

Mas não teve jeito. Antes de chegar no estádio fui tomar umas e nada, seguia mais pilhado que o Ozzy Osbourne num open de morcego. Na entrada do estádio passei o ingresso pra mulher cortar o ticket numa tremedeira do cacete, e depois que vi todo aquele colosso com meus próprios olhos, voltei pra fila da breja e até o copo de Bud me lembrou do que estava por vir.

E quando os caras entraram, nossa, o baque foi gigantesco, a pressão foi parar no meu tornozelo e foi nessa hora que percebi, ao lado de caras com o triplo da minha idade, o quanto essa noite seria especial e como seria impossível ouvir os Stones um dia e não descobrir mais nada de novo. 

Quando se trata de bandas e eventos deste porte, a surpresa é eterna, e não importa o quanto este mero resenhista batuque as teclas, nunca vou chegar no cerne disso tudo. Mas ainda bem que os Stones chegam.


E a brisa foi tanta que passei batido pelo showzaço que os Titãs fizeram na abertura. O único vacilo foi não ter ligado o telão quando o grupo entrou, isso lá pelas 19 horas, por que de resto, um dos maiores expoentes do quebra-quebra nacional fez um set rápido, veloz, muito bem tocado, focando nos hits e tratou de aquecer a galera com muita Metafísica, já diria Raul Seixas.

Mas ai quando a badalada do relógio profetizou as 21:00 a luz se apagou, e se tem algo que ninguém tira de mim, é que fiz fumaça no mesmo recinto que o Ronnie Wood. Man, de alguma maneira, sempre soube que era nóis. 

Mas trocadilhos à parte, que classe. Seja com uma Gibson, brincando com uma Tele, passando pelo pedal steel ou tocando slide enquanto ainda controla a queimação do cigarro, o mestre Wood prova que está com tudo, e durante mais de duas horas, mostrou seu refinamento e todas as cartas que na manga que o tornaram o músico mais completo da banda, depois de Mick Talyor, sem dúvida alguma, o melhor músico que já tocou com esses caras.

Mas não foi só isso, ah rapaz, se fosse só isso as 68 mil pessoas presentes não teriam feito tanta história. Na outra guitarra estava o homem que habita este plano antes mesmo do Big Bang. Sempre ovacionado, e até mesmo sem graça perante tanta adoração, estava o mítico ''Keef''' Richards, esfinge suprema que solando, fazendo a base e o que mais você quiser, mostrou aquela técnica que beira o desleixo, algo que virou sua marca registrada com o passar dos anos, e que para ser descrita, beira a naturalidade de um aposentado que vai buscar água pra esposa na madrugada.


Mas o irmão desse cara, um certo senhor de 72 anos... Meu amigo, esse meliante aposentado era de longe o dono do melhor porte físico dessa bandaça. Nem mesmo a grooveria pulsante do Darryl Jones é comparável ao pique que o Mick Jagger manteve no palco, foi realmente assustador.

E aproveitando que a banda estava ligada no 220, foi só o Charlie Watts sincopar a primeira faixa, que toda aquela facilidade e fluência Jazzística já tratou de colocar um mar de gente no bolso logo de cara, com ''Jump Jack Flash''. 

Para o meu gosto o setlist poderia ser mais ousado, trocaria a ''She's A Rainbow'' pela ''Dead Flowers'', por exemplo, sem pensar duas vezes e ainda adicionaria a lindíssima ''Can't You Hear Me Knocking'', mas reclamar de um show desse chega a ser até ridículo, faltaram essas faixas, mas no fim da noite não faltou porra nenhuma.


Teve de tudo meu caro, desde muito Boogie nas teclas do mestre Chuck Leavell, até um belíssimo topless por parte de uma abençoada senhorita na pista premium, aliás, uma salva de palmas para o cidadão que conseguiu captar aquelas imagens. Ainda estou sem palavras para descrever a sensação de olhar para o céu e vê-lo combinando com o tom roxo do maior palco que já vi na vida, enquanto Ronnie & Keith solavam numa Bluezeira lascada.

O time de metais então... Jagger mostrando que não tem asma na gaita?! Uma jam nas pentatônicas durante a tinhosa ligação 0800 para ''Sympathy For The Devil'' e suas belíssimas projeções? E a baixaria que não foi aquele solo do Darryl Jones na ''Miss You''?


Teve uma hora que o Mick olhou pra platéia, durante uma rápida chuva que chegou pra abençoar a noite e disse: ''bom pra cacete''. Até o momento estou tentando me decidir se foi bom pra cacete ou se foi bom pra caralho, mas meu caro amigo que cá está lendo essas linhas, o que posso afirmar é que foram 19 temas e que durante todos os segundos em que esse show esteve rolando, eu me sacudi como nunca tinha feito antes.

A música desses caras libera um negócio no seu corpo que é semelhante ao estúpido ato de tentar prender um pedaço de gelo seco nas mãos. Queima pra caramba, mas é sensacional, sexy, ácido, canastrão, Rock 'N' Roll e tudo o que a música deveria ser. 

Ainda posso falar do arregaço da Sasha Allen em ''Gimme Shelter'', no coral que finalizou a noite com ''You Can't Always Get What You Want'' ou da classe de Richards durante seus dois números solos em ''Sleeping Away'' e ''Before They Make Me Run'', mas aí eu volto para o ponto central desse texto.

É impossível definir a música. Nessa noite, eu você e mais 67 mil e 998 pessoas só conseguimos sentir, e cara, isso aí é o que faz o mundo girar. Quantos shows esses caras já não fizeram na vida? Era evidente o tesão de todos eles no palco, até o Charlie estava sorrindo no fim do show... Isso arrepia! aliás, arrepiou agora só de falar que arrepia. Tá certo Mick, foi do cacete.  

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A baixaria do trio SMV ao som de Thunder

O som do baixo sempre foi algo que me tocou de uma forma diferente de qualquer outro instrumento. Quando era moleque meu lance era guitarra, mas pouco a pouco os ouvidos vão ficando treinados, e sendo assim, novos sons ganharam definição mais e melhor, e o baixo foi um deles.

Um dos grandes responsáveis pelo meu amor perante o grave de um quatro cordas é o Sir John Paul Jones, afinal de contas foi ouvindo Led, que pela primeira vez na minha vida, notei o estrago que um baixão poderia fazer em um som mais pesado. ''The Lemon Song'' me enlouqueceu, foi o grito de ordem em minha mente para um fato único: um som com uma baixo bem tocado é outra negociação, outros 500 como dizem na gíria.


E poucos discos possuem linhas de baixos tão ricas como a união galática de três dos maiores nomes do instrumento em todos os tempos. Senhoras e senhores, conheçam o SMV, e apertem play no único disco desta união, falo sobre ''Thunder'' lançado em 2008. Nesta bolacha temos nada mais nada menos que Stanley Clarke, Marcus Miller e Victor Woonte tomando conta dos graves. Claro que rola bateria e etc, mas o lance é a verdadeira ''baixaria'' de grooves.

Line Up:
Stanely Clarke (baixo)
Victor Wooten (baixo)
Marcus Miller (baixo)
Derico Watson (bateria)
Karlton Taylor (teclados)
Patches Stewart (trompete)
Ruslan Sirota (sintetizadores)
Kevin Ricard (percussão)
Ariel Man (sintetizadores)
George Duke (teclado/piano/sintetizadores)
Chick Corea (piano)
Ronald Bruner Jr. (bateria)
J.D. Blair (bateria)
Poogie Bell (bateria)
Steve Baxter (trombone)



Track List:
''Maestros De Las Frecuencias Bajas''
''Thunder''
''Hillbillies On A Quiet Afternoon''
''Mongoose Walk''
''Los Tres Hermanos''
''Lopsy Lu - Silly Putty (Medley)''
''Milano''
''Classical Thump (Jam)''
''Tutu''
''Lil' Victa''
''Pendulum''
''Lemme Try Your Bass (interelude)''
''Grits''


Como podemos notar desde a capa, SMV é o composto das três iniciais desses três exepcionais músicos. ''Thunder'' é uma composição de Marcus Miller, e a caravana no groove segue embalada com Wooten e Clarke, mas a pergunta que não quer calar é: de onde saiu esse disco?

Em 2006 o reverendo Stanley Clarke (o cara do meio na foto acima), ia receber um prêmio por todos seus serviços prestados para com a música. O local para este tão esperado momento era um show bancado pela revista Bass Player na cidade em Nova York.


E para indicar este monstro, nada mais justo do que chamar outro baixista de seu quilate. Só que a Bass Player foi lá e chamou dois. Marcus Miller e Victor Wooten. Pois bem, e assim sendo, o que era para ser apenas um evento, ganhou tanto corpo que virou Tour mundial, e dois anos depois, já em 2008, um disco.

Se você pegar a ficha técnica perceberá que existem vários bateritas, muita tecladeira e muitos metais, afinal de contas o resultado final é um Jazz-Funk fervoroso, e para com esta vertente, é necessário possuir certos dotes especificos.



O problema é que quando o disco começa, o ouvinte deleta tudo que não seja o baixo. E se antes o ''comum'' era ficar impressionado com uma grande linha de 4 cordas, aqui serão três e horas, semanas, meses, e até mesmo anos, para compreender e assimilar a grandeza deste trabalho.

Todos assinaram a parte de composição, e inclusive fizeram temas conjuntos. Aliás ouso ir além, são caras como esses que fazem bem ao instrumento, pois em momento algum, nenhum deles parece se exibir nem nada do gênero. Os 3 sabem de suas respectivas importâncias e enquanto o legado estiver nas mãos de músicos com este tato, o groove será pleno.

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Shake Sauvage: French Soundtracks - 1968-1973

Os Europeus apreciam cinema num outro nível. O pessoal da zona do Euro se envolve com cada centímetro das películas, e isso é excelente para o bem do resultado final. Qualidade de imagem, fotografia, cenografia (ainda mais se for algo de época)...

O bom gosto impera nas mentes criativas, mas nada se compara às trilhas das soundtracks. É tudo tão minucioso, que em apenas um play, os caras sintetizam toda uma história e um ambiente em fones para MP3.

Esse parágrafo deu uma generalizada no cenário, foi meio que uma dose de União Europeia nesse sentido, mas sendo mais específico, vale a epna dar uma atenção especial ao biquinho dos franceses. Todo o glamour, a classe e o bom gosto dos mesmos está impregnado nos filmes locais!


Faz mais ou menos 2 anos que eu e meu pai nos dirigimos a uma feira de discos na Pompéia. Tirando a excelente discografia disponível no local, ainda tinha um espaço só com toca discos e um DJ mandando um som.

Enquanto meu pai foi pra um lado e eu fui pra outro (dividindo a tarefa de econtrar pérolas), começou a rolar um Funk, algumas doses de R&B com orquestração e Acid Jazz. No fim das contas nem procurei disco nenhum, fui direto perguntar para o cara o que diabos era aquilo, e ele me mostrou o vinil sem ao menos tirar o fone da orelha e já me passou um cartão também.


Track List:
''Sexopolis''
''Nues dans L'eau''
''Haschisch Party''
''Jukes Boxes Chez Saidani''
''Full Speed''
''Ok Chicago''
''Kidnapping''
''I Don't Know Why''
''L.S.D. Party''
''Le Crocodile Porte-Cle''
''Le Temps Des Loups''
''African King''
''Bowery Mood''
''Petrol Pop''
''Le Theme d'Olivier''
''Munich Party''
''Sweet Bacon''


Perdi o cartão do nosso amigo DJ, mas anotei o nome da bolacha - Shake Sauvage: French Soundtracks - 1968-1973. Logo depois achei meu pai e vazamos de lá. E o resultado disso tudo, bom, cheguei em casa, sentei no computador e achei a coletânea mais chapada que já tive notícia.

Takes perdidos do melhor das trilhas Francesas dos '60 e '70 (!) Pode colocar o fone que é fritação garantida. Comecei até a ver uns curtas da terra da Pantera Cor de Rosa só pra ver se ainda rola uns sons assim, eis aqui uma obra de arte!  


Essa compilação saiu em 2000 e desde que descobri, fico atrás de algumas coisas nessa pegada, mas até agora essa ai foi a top de linha. É um verdadeiro achado encontrar um trabalho que reune o começo da música eletrônica com tanta perícia e groove nos falantes! 

Um ponto interessante nesse trabalho é que os compositores nunca se repetem. São 18 nomes envolvidos e no fim das contas o resultado gira em torno de 50 minutos de Jam. O requinte é absurdo e se você andar na rua ouvindo isso, o cenário fica até mais dramático. Música eletrônica como você nunca viu.

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Gentle Zappa: leve seu bigode Prog até o Café Piu Piu

Depois do sucesso da primeira edição, o Café Piu Piu anunciou a segunda dose do projeto Gentle Zappa, uma noite de gala ao som do mais fino néctar Frank Zappeano e Gentle Giantiano. Uma combinação atômica que reune a Let's Zappalin' e a Giant Steps, duas bandas que conseguem tirar onda com a monstruosa responsabilidade que é mandar o repertório do mestre de Baltimore e do Gentle Giant, uma das maiores bandas de Rock Progressivo de todos os tempos.

Agora, falando sobre os shows, por parte da Let's Zappalin' vale salientar que teremos uma formação mais compacta em relação à que levou dois showzaços para o Sesc Belenzinho no ano passado. Dessa vez a banda se apresenta em quinteto, com Rainer Tankred Pappon nas guitarras, Fred Barley no cockpit da bateria, Érico Jônis no baixo, Jimmy Pappon nas teclas e Roger Tryjo no vocal.


O repertório promete uma imersão bastante variada dentro do repertório do reverendo Frank, caminhando com bastante bom humor e longas jams entre as nuances de temas como ''Inca Roads'', ''Sinistir Footwear II'' e ''Zomby Woof'', por exemplo, além de outros temas ainda inéditos no Brasil.

Agora, sobre os eruditos da Giant Steps, vale pontuar que o repertório do gigante gentil será ministrado, também em quinteto, por Caio Fabbri na guitarra e voz, Carlos Silva na bateria, Francisco Muniz nos teclados e voz, Renato Muniz nos graves e também no vocal, além de Roger Troyjo que ficará no palco em tempo integral, afinal de contas o vocalista vai mostrar os talentos de sua traquéia no show da Let's Zappalín também.

No repertório, a Giant Steps também promete apresentar um banquete bastante variado. Sempre ressaltando temas de suma importância para o catálogo do Gentle, como ''Time To Kill'', ''So Sincere'', ''Boys In The Band'' e muitos outros clássicos!

Agora é tudo com você. Prepare seu bigode e sua melhor sinfonia, fique ligado no evento via Facebook para qualquer novidade, e é isso, nos vemos lá! 

Serviço:
O que: Gentle Zappa
Quando: 10 de março às 22:00
Onde: Café Piu Piu
Quanto: R$ 25,00 cascalhos Gentle-Zappeanos


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Os versos livres do Chris Robinson na viagem solo em New Earth Mud

O Chris Robinson sempre foi uma voz que me assegurou os mares da tranquilidade. Um dos grandes vocalistas de Rock que ainda estão na ativa, e que além de ir além da linha Southern/Rock 'N' Roll, se revelou um excelente compositor, seja nos tempos de Crowes, mais recentemente com a Chris Robinson Brotherhood ou no começo dos anos 2000, em sua obscura carreira solo.


Sim, até poucos anos atrás nem sonhava com trabalhos solo dessa grande mente criativa, mas eles de fato existem e são registros realmente diferenciados. Todos cheios de sentimento e com uma abordagem bastante própria e com a marca de um belo músico.

E ''The New Earth Mud'' foi o primeiro deles. Esse belo trabalho (datado de 2002) é um registro singelo e intimista, onde Chris mostra todas as suas raízes. O resultado surpreende, mas é bom salientar que além dessa gravação, o hippie ainda possui um segundo disco de estúdio, falo sobre ''This Magnificent Distance'', lançado dois anos depois, já em 2004.

Line Up:
Gordie Johnson (standup bass)
Jeremy Stacey (bateria)
Paul Stacey (baixo/violão/guitarra/órgão/piano)
Chris Robinson (violão/guitarra/percussão/vocal)
Matt Jones (piano)



Track List:
''Safe In The Arms Of Love''
''Silver Car''
''Kids That Ain't Got None''
''Could You Really Love Me''
''Untangle My Mind''
''Fables''
''Sunday Sound''
''Barefoot By The Cherry Tree''
''Katie Dear''
''Ride''
''Better Than The Sun''
''She's On Her Way''


Os 2 discos citados são de fato muito bons, mas pelo fato de serem meio desconhecidos, é bastante complicado de incluí-los em sua coleção, pois como se não bastasse o lançamento via um label de menor expressão (Redline Records), os mesmos estão fora de catálogo e nem mesmo a Amazon consegue quebrar este galho.

Só que o tempo fez bem para o poética bucólico. Com o passar dos anos, cada vez mais pessoas descobriram essas raridades e Chris sabe que se tudo der errado com a Chris Robinson Brotherhood, ele estará a salvo e ainda manterá um repertório firme, com o mesmo nível de seus clássicos.


Por isso, para inaugurar essa bolacha, admire os devaneios de ''Safe In The Arms Of Love'', aliás, desde a primiera faixa, é importante citar a qualidade instrumental que envolve todo o trabalho. Temos aquele teor viajante, mas tirando isso, rola aquele som limpo e que em alguns momentos aparenta ser simples, mas só aparenta, e escutando temas como ''Silver Car'', isso fica bem claro 

São pequenos detalhes, mas que abrilhantam o todo de uma maneira impressionante, e enquanto a poesia discorre dos lábio do poeta Robinson, em belos versos, como os de ''Kids That Ain't Got None'', por exemplo, sua mente vai longe...

É um clima tão orgânico, são canções tão plenas e livres que você se sente até mais leve. É feeling puro. Descanse ao som de ''Could You Really Love Me'', feche os olhos e imagine o mundo a sua volta ao som da baladinha ''Untangle My Mind'' e sinta a doçura e a sinceridade em cada verso.


Chegando em  ''Fables'', fazendo escala na brisa de ''Sunday Sound'', observando a contemplativa ''Barefoot By The Cherry Tree'', e passando pela amorosa ''Katie Dear'', o ouvinte chega a ficar embriagado.

Você sente que esse disco é mais que um simples CD. Chris tenta passar algo para nós e muda até de estilo para facilitar o entendimento! Rola até um Funk camuflado em ''Ride'', pena que acaba, depois de ''Better Than The Sun'' temos o respiro final do mestre em ''She's On Her Way''.

Esse é um daqueles trabalhos simples, mas que são pra lá de efetivos. Um disco que terá um canto especial em sua coleção, e não por ser possuir um conceito de outro planeta, mas sim por ter algo de verdadeiro, sincero e real nas letras e melodias, um detalhe inestimável, ainda mais hoje em dia.

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A panela de pressão do Bnegão & Seletores de Frequência

Sesc Pompéia lotado. O teto de zinco da casa já contribuia pra temperatura subir mais que a cotação do dólar. A platéia estava pronta, apenas esperando o mestre de cerimônias chegar, enquanto a banda do digníssimo já estava pronta, faltava apenas o chamado oficial da palavra chave: a transmutação.

O Bruce Buffer do Funk chegou. Seu nome? Bnegão, o equalizador oficial das frequências, o DJ de timbragens e um dos membros da equipe dos Seletores. Um dos combos que melhor entende o conceito de panela de pressão dentro do nosso país.

Mistérios e trocadilhos à parte, a última passagem do Bnegão & os Seletores de Frequência por São Paulo, foi exatamente assim, hipnótica, e o controle da banda e do próprio senhor Bernardo Santos em relação às novas composições do disco mais recente da banda, o groove e até mesmo a platéia, quase doentia.


A paixão estava ali. Em cada linha das arranjos. Passava pelas linhas quentes da guitarra. Ficava um pouco no cockpit da batera. Ousava caminhar na crocodilagem no bass. Munia a jam com detalhes alcalinos na percussão. E finalizava com um requinte ácido no time de metais, mas o vocal... Esse era o termômetro e o mercúrio estava pronto pra tocar no baile.

E a cada clamor pelos dias da serpente, pelo reboot da máquina cerebral e dos excessos que fazem o globo girar como olhos em ponto de ebulição, corpos saltitavam e reverberavam a mensagem usando apenas a filosofia da desconstrução, afinal de contas esse trampo não é de formiguinha. Foi se o tempo onde esses caras eram ignorados, hoje ninguém mais enxuga gelo, o circuito procura um propósito e se o desafio for gracial: cuidado com o fim da era do gelo.


A Transmutação, termo que nomeia o terceiro disco de estúdio da banda, lançado em 2015 e, pra variar, um dos melhores trampos da safra nacional do ano passado, é um trabalho audacioso e que não parece ter sido levado a sério da maneira que merecia.


Musicalmente o disco já é completamente destacável, afinal de contas, que banda nacional segue mesclando a Black Music com a mensagem e alquimia da cozinha do Rap com tanta modernização em prol de resultados diferentes com base na nossa mãe África? Quem ousa entrar nesse território com autoridade hoje em dia e não almeja apenas se passar por um diluidor de conceitos?

A segunda opção já nos indica alguns nomes, para a primeira, bom, se ela indica algum, todos fazem parte da crew dos Seletores, e ver que a galera compreende isso, chegou pra somar no groove e cantou todas as letras, bom, isso prova como a transmutação é real e como bem Tim Maia na clássica ''O Caminho do Bem'': ''já iniciou, está acontecendo''.


E foram duas horas de acontecimentos. Até mais, dentro de um todo que entre grandes nomes da música brasileira (que também estavam presentes na casa), como foi o caso do Di Melo, Russo Passapusso (que inclusive foi para o palco dar uma canja) e o Curumin, foi bem gratificante ver a energia que povou o espaço, enquanto a banda soltava aquele Funk de alta patante e esquentava os amplificadores com uma potência digna de Sound System jamaicano com direito a muito Hardcore e passe livre.

Mais do que um conceito criativo, a transmutação é um ponto de fuga real e que a cada show dessa tour, os Seletores conseguem deixar palpável pra todo mundo que sai surdo das casas por onde eles passam. É um insight poderoso e denso, algo que a banda prega com a força de um hino de imunização. Pegue sua fita amarela e se prepare para o regresso dos tempos de luz. AGÔ no dia 13 de fevereiro.

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A grooveria funkay do Curumin & The Aipins no Sesc Pinheiros

Pra um cidadão acordar de manhã e falar que vai mandar um show completo com o repertório do Stevie Wonder, um dos maiores músicos que já ousaram planar nessa terra, enquanto o globo gira ao som de seu swing... Rapaz, o indivíduo precisa ser no mínimo xarope.

Fora que esse lance de cover é muito complicado, afinal de contas não basta tocar as músicas seguindo o beat das partituras perfeitamente, a questão vai muito além disso. Quando paramos para confabular sobre o legado de monstros como o nosso querido Stevie, fica difícil até achar uma veia de acesso para tanto esplendor.

Você se sente ilhado perante tantas qualidades. Qualidades não, perfeições, aliás, peço perdão pela falta de perícia em relação a esse poço de sentimento, que é o visionário da Motown. Mas a música tem dessas, não é meu caro?


Os limites estão ai para serem quebrados, e se a Terra deu cria a homens com tamanha coragem, sentimento e talento, eles tem que fazer isso mesmo. É só chamar o Curumin & The Aipins pra desafiar a estatística, e montar uma Big Band pra colocar a platéia do Sesc Pinheiros no bolso, mandando apenas o mais fino néctar de Wonder, com uma classe digna de registro físico!

Foi seguindo a mesma receita do estrago Funkeadamente classudo que o Curumin fez mês passado, no Sesc Consolação, que seu groove chegou em Pinheiros para uma apresentação ainda mais azeitada.

O Teatro Paulo Autran, além de possuir um espaço maior do que a aconchegante unidade Consolação, ainda pode receber mais pessoas para sentirem esse drama sonoro. Dessa forma, possibilitando um som com mais nuances, afinal de contas quem foi está ligado: teve trompete e trombone na jogada.



O único problema mesmo foi ver um show com esse nível quase etílico de swing, sentado. Está aí a única coisa que precisa mudar nos shows do senhor Luciano Nakata Albuquerque: já passou da hora de mandar esse show para o Sesc Pompéia, por que de resto, a química de sua bateria com o restante de seu combo instrumental (e que combo), segue excelente.

É massa ver o tesão com que os caras sobem no palco. É nítida a paixão que todos os envolvidos nutrem pela obra do ''Stevão'', como disse o próprio Curumin, e sensacional notar que até a timbragem dos instrumentos foi escolhida a dedo, para que o slap seja o mais fiel possível.

Mas não é só isso também, o principal é o toque da casa. A forma quase mundana e relaxada com a qual o senhor Curumin domina os vocais com uma precisão aveludada, e ainda sustenta linhas das mais enjoadas na batera.



Mas a classe não é exclusividade do chefe dos achados e perdidos. Foi bem bacana ver o dinamismo de José Nigro e suas notas graves no baixo, mas melhor do que isso, foi observar como ele trocou o double thumb pela guitarra com o Lucas Martins, que também mostrou talento no quatro cordas e somou nas samplers com muito refinamento. Destaque para a versão Dub Wise da ragga jamaicano de Master Blaster.

Nos teclados, tivemos praticamente um worshop grátis com a classe escarlate de André Lima, mas creio que o que deu um up no barato foram os metais. Acredito que ganhar esse poderio extra na jam somou demais no groove e, com isso, a platéia ganhou um bônus na hora de cantoralar temas que estão em mais de 3 gerações.

Foi sensacional ver que a casa estava lotada e o melhor de tudo foi poder assoviar o feeling de temas como ''My Cherie Amour'', ''Part Time Lover'' e sentir a embutida da clássica ''Superstition'', tudo para (citando o próprio Curumin), poder começar a sexta-feira de forma favorável!

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O lapso trash de Rob Zombie

Conservadores, por favor cliquem no ''X'' e fechem a página desta instituição, o post de hoje definitivamente não é para os senhores. No dia 23 de abril de 2013, o reverendo Rob Zombie (White Zombie), lançou mais um disco, o quinto de estúdio, mais um inventivo soundtrack que assusta velhinhas aposentadas.


Sempre achei Zombie um grande artista, mesmo não sendo um grande fã do White Zombie. Aliás, sempre achei que nos tempos em que a banda estava ativa, sua criatividade era um pouco podada, coisa que me pareceu verídica depois que o vocalista largou o barco.

Depois que o americano saiu do grupo, acho que ele finalmente se sentiu mais livre para experimentar. Seus dreads puderam enfim soltar (completamente) seu instinto Freak e finalmente focar em seus filmes de terror, nos quadrinhos e, obviamente, na música.

Só que nos últimos tempos Rob tem andado MUITO ocupado. São vários filmes em processo, shows, quadrinhos, entrevistas... Eu sinceramente não achava que ele iria gravar nada tão cedo, mas felizmente o terrorista do Rock 'N' Roll conseguiu achar um tempo livre e voltou a fazer algo realmente notável, encontrando (novamente) o equilíbrio entre o Rock, e seus tão amados filmes de terror. 

Line Up:
Rob Zombie (vocal)
John 5 (guitarra/vocal)
Piggy D (baixo/vocal)
Ginger Fish (bateria/percussão)
Bob Marlette (teclado)
Josh Freese (bateria)



Track List:
''Teenage Nosferatu Pussy''
''Dead City Radio And The New Gods Of Supertown''
''Revelation Revolution''
''Theme For The Rat Vendor''
''Ging Gang Gong De Do Gong De Laga Raga''
''Rock And Roll (In A Black Hole)''
''Behold, The Pretty Filthy Creatures!''
''White Trash Freaks''
''We're An American Band'' - Grand Funk Railroad
''Lucifer Rising''
''The Girl Who Loved The Monsters''
''Trade In Your Guns For A Coffin''


A produção do disco é excelente, nota-se um capricho primoroso nesta bolacha. Tudo, desde a capa até a última faixa, é muito bem feito. São cerca de 40 minutos de pura insanidade.


Depois que o senhor apertar o glorioso play, a primeira faixa que toca seus ouvidos é ''Teenage Nosferatu Pussy'', e com ela, teremos o advento de um som pesadíssimo. Porém, o interessante é que apesar do peso ensurdecedor, o disco não é maçante em momento algum.

Rob dá umas boas variadas durante as faixas. Aposta em retoques eletrônicos e até em algumas partes faladas, como se tentasse emular uma ópera Rock. É um trabalho minucioso, repleto de detalhes e que embala como um carrinho de supermercado na ladeira, sempre munido com temas como o singles, ''Dead City Radio And The New Gods Of Supertown''.


Passando pelos detalhes sórdidos de ''Revelation Revolution'', e o toque cinematográfico de ''Theme For The Rat Vendor'', passagem caótica que mantém a curiosidade do ouvinte lá no teto. Demorei muito tempo para acabar de escutar o disco, achei todas as faixas muito boas e ficava voltando a todo o momento, aliás, ''Ging Gang Gong De Do Gong De Laga Raga'', foi uma das recordistas no repeat do Youtube.

Só o nome dessa e de outras faixas já deixa uma curiosidade no ar. O play parece tentador demais... Viciante! E depois desta faixa, o vocalista inaugura a parte mais visceral do disco, e ''Rock And Roll (In A Black Hole)'' abre os trabalhos.

Destaque para o baixo de Piggy D, que acrescenta a densidade necessária em ''Behold, The Pretty Filthy Creatures!'', e para os riffs precisos de John 5, que leva a galera ao delírio com ''White Trash Freaks'' e o cover da clássica ''We're An American Band'', do Grand Funk Railroad, definitivamente, um dos pontos altos do CD.


Com uma banda bem entrosada, instrumentos bem timbrados e uma temática que rompe com qualquer registro comum que o senhor possa, porventura, se interessar, Zombie e cia não tentam chocá-lo com uma sonoridade sem valor. ''Venomous Rat Regeneration Vendor'' mostra seus critérios e nos faz até pensar sobre nós mesmos... O que é normal num disco de Rock? Para o senhor Robert Bartleh Cummings, esse modelo é normal pra cacete!

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Relatos de um paulista sem fones de ouvido

Essa semana discorreu de uma forma especialmente maçante para este que vos escreve. Comecei a labuta normalmente, como é de meu feitio, indo para as aulas na faculdade ouvindo música, no para variar, lotado trem de cada dia que a CPTM nos dai hoje.

Durante o trajeto, meus fones estavam demonstrando um contato vacilante com meus ouvidos. Por algum cretino motivo, o som parava de sair do lado direito, mas ai voltava e depois sumia novamente... Aos poucos isso começou a me irritar, até que quando estava na Avenida Paulista, a coisa realmente aconteceu: o fone canhoto quebrou-se e tudo que se ouvia era a bateria, no meu tão amado Grand Funk Railroad.

Resumindo a segunda-feira: tinha o melhor do Hard setentista, mas não possuia meios para ouví-lo... É como ter a carteira recheada de verdinhas e não poder torrar, o dinheiro claro.


Voltei para casa depois da aula e no caminho (num silêncio digno de necrotério), comecei a ver como a música deixava o meu dia-a-dia menos desinteressante. Normalmente chegava em casa em vinte ou trinta minutos, mas isso quando tinha música, porém sem ela cheguei em 45 (não o Aécio) minutos.

O tempo foi o mesmo, mas a sensação foi horrível. O desespero era tão grande que estava quase batucando no vidro da porta de saída. Aliás, creio que aqui vale ressaltar: isso foi apenas a segunda-feira.

Na terça tudo foi muito bem, escutei música durante horas em casa, mas quando estava descendo me lembrei do terror silencioso que novamente teria que superar na volta para casa, ou seja, na ida a confusão mental já reinava em minha mente.


O Sol estava me matando e sem música não tinha nem aquela brisa de riffs para soprar-me o rosto. O caminho foi rarefeito sem um lick de guitarra sequer. Cheguei no ponto de ônibus e comecei a observar ao meu redor. A cara das pessoas era a mesma, mas em diferentes corpos.

Ver como o silêncio muda as coisas foi realmente chocante nesse aspecto, normalmente com música nos ouvidos você acaba passando batido, mas no silêncio (que não era o da noite, tampouco do Caetano Veloso), pude ver os rostos tristes. A maioria da malha de faces aparentava tristeza, e olha que a maioria portava auriculares.


Entrar no ônibus frio tal qual um vulcão e notar a face de poucos amigos de seus frequentadores. Olhares frios e completamente passageiros que se cruzam, mas se mostram completamente indiferentes. É tudo muito individual e, sem música, o sentimento é ainda mais congelante.

Na quarta-feira tinha uma prova para fazer, mas acreditem, até na hora dos estudos a música era uma aliada, porém, prevendo meu martírio mudo novamente, resolvi estudar sem música de fundo e, assim sendo, a coisa foi pior.

Saindo de casa meio tenso. Sem melodias na cabeça, fui obrigado a pensar em minha prova. Percebia como não estava costumeiramente calmo, fora que o ambiente hostil do ônibus me fez ainda pior. Fiz a prova meio pilhado, mas até que obtive uma nota satisfatória. Depois, não tive as duas últimas aulas, e assim sendo, voltei para casa.


Fiz o retorno em silêncio e quando dei as caras no computador para escrever, não tive a mínima paciência para fazê-lo e fui dormir. A quinta se mostrou inútil e meramente ilustrativa e a sexta, apesar de sua mítica alegria, foi tão enérgica quanto um fim de domingo.

Percebam como o fim da música me fez mais direto, menos sociável e produtivo, e a causa pode variar, o meu caso foi com música, mas muitos de nós sofremos para mudar a rotina se algo primordial nos falta ou exige novas ações substitutas caso esteja ausente. Ainda bem que comprei um fone no sábado... Nessa semana pude sentir na pele que realmente não existe amor em SP, nem mesmo aos domingos. Ouvir só a batera é foda.

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Tom Zé e seu passeio com um Vira Lata na Via Láctea

Dentre as várias memórias que tenho em meu HD cerebral, uma sempre se destaca das demais. Em um dia comum, estava em casa brincando com meus bonecos e ouvi na TV uma das coisas mais interessantes cientificamente falando. Não me lembro o nome do fulano, mas sei que este cidadão morreu, porém antes de o fazer, deixou claro que gostaria de doar seu cérebro para estudos científicos.


Quando ouvi a repórter falando isso até parei de brincar. Fiquei imaginando a cena e tentando entender como os cientístas iriam tirar algum tipo de conclusão. Passados mais ou menos dez anos desse dia, ainda não tenho a mínima ideia de como isso é feito, mas sei que se o Tom Zé deixar eu seria um dos primeiros na fila para ver como sua cabeça funciona, e não, não estou querendo matar o gênio, quero apenas saber como sua brilhante mente funciona, ''Vira Lata na Via Láctea'', é, para variar, um discão.


Track List:
''Geração Y''
''A Quantas Você Anda'' - Trupe Chá de Boldo
''Banca de Jornal'' - Kiko Dinucci/Criolo
''Cabeça de Aluguel'' - O Terno
''Pour Elis'' - Kiko Dinucci/Rodrigo Campos/Milton Nascimento
''Esquerda, Grana e Direita''
''Mamon'' - Silva
''Salva Humanidade'' - Trupe Chá de Boldo
''Guga Na Lavagem'' - Filarmônica de Pasárgada/Tatá Aeroplano
''Irará Irá Lá'' - Trupe Chá de Boldo
''Papa Perdoa Tom Zé'' - O Terno
''Retrato Na Praça da Sé'' - Kiko Dinucci
''A Boca da Cabeça''
''Pequena Suburbana'' - Caetano Veloso


Quando comecei a publicar textos na internet, sempre tive um objetivo: ficar satisfeito com meu conteúdo. Escrever requer muito mais do que apenas tempo ou vontade. Aprendi gradualmente a prestar atenção em tudo que ouvia, e foi ai que a MPB ganhou mais destaque nas minhas playlists.

Logo de cara fui apresentado ao Tom Zé e já faz bastante tempo que tento captar algo de sua música e colocar em minhas linhas. Tom fala pouco e diz muito, diz tanto que já ouvi sua discografia uma par de vezes e sigo sempre repetindo os discos, pois faltam detalhes à serem pescados.


Tom pode ser direto, mas Zé também possui toda a classe do mundo para fazer rodeios, fala através de metáforas e usa um palavrão tal qual um lord inglês. Ele domina a língua e, em suas mãos, as palavras dobram, torcem e viram do avesso... Ele tem pleno controle e seu discurso sai exatamente do jeito que ele quer.

E disco após disco ele segue manipulando seu discurso de uma forma impressionante, com rimas que à princípio surgem relaxadamente estabanadas, mas que com a conexão de apenas uma palavra, já transformam uma estrofe comum numa passagem genial.

Algo que neste novo trabalho, seu décimo quinto disco de estúdio, continua se manifestando com uma criatividade que se mantém pulsante, junto de uma vontade imensa de se reinventar, mesmo do alto de seus 79 anos. 


O disco abre com ''Geração Y'' e os ET's dento dos HD's, passa por ''A Quantas Você Anda'' e uma das três participações da Trupe Chá de Boldo, aliando o novo com o velho, ambos de forma bem freak-fresca e atual.

Faz um pit stop no Grajauex do Criolo e mete uma sambeira raiz....Chama O Terno em duas oportunidades, faz o Milton Nascimento bater cartão e ainda segura o Caretano Veloso pra fechar o disco.

O som é muito cristalino em todos os corners da jam, Tom segue voando baixo e repete a fórmula de um disco recente (e também de sucesso) dentro de sua óbra, falo sobre ''Tropicália Lixo Lógico'', lançado em 2011.

Após o fim do disco creio que essa gravação seja elementar para se compreender o papel dos grandes mestres, pois além de continuar mostrando que é gênio, Tom Zé ainda abre espaço para as relevações. É meu bom, creio que ainda está pra nascer um baiano mais arretado que esse. Som para gratinar o vocabulário, obrigado pela oportunidade, man!

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Booker T. & The M.G.'s: O R&B Fab Four de McLemore Avenue

Beatles... Desde de moleque ouvia falar dos caras, via fotos deles e achava engraçado o cabelo tigelinha (pouco tempo depois descobri que eu também usava), mas enfim, coisas da vida. O estranho nisso tudo é que apesar de sempre ver algo ou até mesmo ouvir um som dos britânicos, acabei nunca me interessando muito pelo fervor que envolve o Fab Four.

Nessa época gostava de sons mais pesados (minha primeira escolha musical foi o Iron Maiden), e assim a minha vida seguiu. Com o tempo, fui desvendando outros estilos, conheci o Prog, me apaixonei pelo Funk, ouvi o Jazz (ainda estou nele por sinal), mas e os Beatles?


Escutei todos os discos de estúdio durante meu ''tempo livre'', mas o fato é que até hoje os Beatles não me atingiram em cheio. Sempre achei muito ''Yeah Yeah Yeah'' e mesmo a fase mais psicodélica não me agradou muito não...

Respeito os caras por que afinal de contas é inegável que eles eram brilhantes. Todos foram (e alguns ainda são) excelentes músicos e é nítido que eles influenciaram quase tudo que surgiu depois. Só que pra compensar os lucros e dividendos, enquanto os Beatles não me cativaram o bastante, o Booker T. & The MG's, por outro lado, me deixou maluco.


Tudo mundo já viu a foto acima, aliás, o que não falta é clichê dela, até os Simpsons já atravessaram esta ''ilustre'' faixa de pedestres. Dos discos que escutei dos Beatles esse foi o que mais gostei (afinal de contas, é um clássico absoluto) mas o problema é que alguns dias depois de ter ouvido o LP, estava conversando com o meu pai e ele falou para que eu escutasse Booker T. & The MG's.  Não sabia do que se tratava, mas no mesmo dia fui lá e baixei este disco.

Line Up:
Booker T. Jones (piano/órgão/teclado/guitarra)
Steve Cropper (guitarra)
Donald ''Duck'' Dunn (baixo)
Al Jackson, Jr (bateria)



Track List:
Medley: ''Golden Slumbers/Carry That Weight/The End/''Here Comes The Sun/Come Together''
''Something''
Medley: ''Because/You Never Give Me Your Money''
Medley: ''Sun King/Mean Mr. Mustard/Polythene Pam/She Came In Through The Bathroom Window/I Want You (She's So Heavy)''

Quando o ''Abbey Road'' dos Beatles saiu, em outubro de 1969, o mundo todo pirou, afinal de contas. Repleto de composições sensacionais, esse divisor de águas deixou claro que a banda não estava ''acomodada'', eles sempre tentavam se reinventar, mexendo num time que JÁ estava ganhando. 

Poucos meses após o furacão ''Abbey Road'', o reverendo Booker T. resolveu que a única maneira de retribuir o que os Beatles haviam feito pela música, seria por meio de um disco recheado com covers do mesmo disco que ele tanto amou. Pessoalmente, acho esta história de covers muito complicada, é difícil chegar e fazer um cover dos Beatles, quanto mais de um CD inteiro!


Quando escutei não tinha visto a capa nem nada, coloquei os fones e comecei a sentir o drama, mas quando a bolacha começou, surgiu a desconfiança... Parecia que já tinha escutado aquilo antes. Foi aí que entrei no Google e quando percebi, esbravejei: SABIA!

Esse LP é maravilhoso. O conteúdo é todo formado por jams repletas de feeling e plenamente alimentado por um Soul cheio de swing e alma. Insights invocados que, em meio às insanas improvisações do grupo, ainda acrescentavam um pouco de Beatles na jogada. Sente-se e relaxe, agora vai sair o camisa 10 John Lennon para a entrada do número 11: Booker T. Jones.


O Booker apelou... O órgão reina soberano, elegante, fino, tocante. Enquanto a jam se desenrola o combo vai jogando um pouco de Beatles na jogada, lentamente, sempre com a classe de temas como ''Golden Slumbers'', por exemplo. 

Depois surge ''Come Together'' e aí o colosso está instaurado. Sentimos o feeling de um som limpo, cristalino clássico até a última gota, e depois de ''Carry The Weight'', ''The End'' e ''Here Comes The Sun'', fechamos a primeira parte com um nível de swing que toma conta da sua mente, da sua casa, carro e família. Nada mais lhe pertence meu chapa, agora a negociação é com a galera do MG's.


Talvez o grande lance com esse LP seja perceber o quanto essa banda faz parecer fácil tocar um repertório deste nível. A bateria de Al Jackson é inspiradora, mas todos fazem um trabalho impecável. O baixo de Donald ''Duck'' Dunn, por exemplo, mostra um timbre sereno, mas sempre bastante presente.

Mas a fritação é no estilo banho maria. Começando em ''Sun King'' e finalizando o tira teima com a icônica ''I Want You (She's So Heavy), este último medley promove o encerramento de um dos maiores discos que o senhor ouvirá em sua vida. 

Não curto muito ouvir os Beatles, mas é aí que está a grandeza dos pontuais ingleses, basta sacar que as composições do combo foram tão geniais, que até outros mestres da mesma profissão foram pagar o dízimo!

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