A grooveria funkay do Curumin & The Aipins no Sesc Pinheiros

Pra um cidadão acordar de manhã e falar que vai mandar um show completo com o repertório do Stevie Wonder, um dos maiores músicos que já ousaram planar nessa terra, enquanto o globo gira ao som de seu swing... Rapaz, o indivíduo precisa ser no mínimo xarope.

Fora que esse lance de cover é muito complicado, afinal de contas não basta tocar as músicas seguindo o beat das partituras perfeitamente, a questão vai muito além disso. Quando paramos para confabular sobre o legado de monstros como o nosso querido Stevie, fica difícil até achar uma veia de acesso para tanto esplendor.

Você se sente ilhado perante tantas qualidades. Qualidades não, perfeições, aliás, peço perdão pela falta de perícia em relação a esse poço de sentimento, que é o visionário da Motown. Mas a música tem dessas, não é meu caro?


Os limites estão ai para serem quebrados, e se a Terra deu cria a homens com tamanha coragem, sentimento e talento, eles tem que fazer isso mesmo. É só chamar o Curumin & The Aipins pra desafiar a estatística, e montar uma Big Band pra colocar a platéia do Sesc Pinheiros no bolso, mandando apenas o mais fino néctar de Wonder, com uma classe digna de registro físico!

Foi seguindo a mesma receita do estrago Funkeadamente classudo que o Curumin fez mês passado, no Sesc Consolação, que seu groove chegou em Pinheiros para uma apresentação ainda mais azeitada.

O Teatro Paulo Autran, além de possuir um espaço maior do que a aconchegante unidade Consolação, ainda pode receber mais pessoas para sentirem esse drama sonoro. Dessa forma, possibilitando um som com mais nuances, afinal de contas quem foi está ligado: teve trompete e trombone na jogada.



O único problema mesmo foi ver um show com esse nível quase etílico de swing, sentado. Está aí a única coisa que precisa mudar nos shows do senhor Luciano Nakata Albuquerque: já passou da hora de mandar esse show para o Sesc Pompéia, por que de resto, a química de sua bateria com o restante de seu combo instrumental (e que combo), segue excelente.

É massa ver o tesão com que os caras sobem no palco. É nítida a paixão que todos os envolvidos nutrem pela obra do ''Stevão'', como disse o próprio Curumin, e sensacional notar que até a timbragem dos instrumentos foi escolhida a dedo, para que o slap seja o mais fiel possível.

Mas não é só isso também, o principal é o toque da casa. A forma quase mundana e relaxada com a qual o senhor Curumin domina os vocais com uma precisão aveludada, e ainda sustenta linhas das mais enjoadas na batera.



Mas a classe não é exclusividade do chefe dos achados e perdidos. Foi bem bacana ver o dinamismo de José Nigro e suas notas graves no baixo, mas melhor do que isso, foi observar como ele trocou o double thumb pela guitarra com o Lucas Martins, que também mostrou talento no quatro cordas e somou nas samplers com muito refinamento. Destaque para a versão Dub Wise da ragga jamaicano de Master Blaster.

Nos teclados, tivemos praticamente um worshop grátis com a classe escarlate de André Lima, mas creio que o que deu um up no barato foram os metais. Acredito que ganhar esse poderio extra na jam somou demais no groove e, com isso, a platéia ganhou um bônus na hora de cantoralar temas que estão em mais de 3 gerações.

Foi sensacional ver que a casa estava lotada e o melhor de tudo foi poder assoviar o feeling de temas como ''My Cherie Amour'', ''Part Time Lover'' e sentir a embutida da clássica ''Superstition'', tudo para (citando o próprio Curumin), poder começar a sexta-feira de forma favorável!

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