A panela de pressão do Bnegão & Seletores de Frequência

Sesc Pompéia lotado. O teto de zinco da casa já contribuia pra temperatura subir mais que a cotação do dólar. A platéia estava pronta, apenas esperando o mestre de cerimônias chegar, enquanto a banda do digníssimo já estava pronta, faltava apenas o chamado oficial da palavra chave: a transmutação.

O Bruce Buffer do Funk chegou. Seu nome? Bnegão, o equalizador oficial das frequências, o DJ de timbragens e um dos membros da equipe dos Seletores. Um dos combos que melhor entende o conceito de panela de pressão dentro do nosso país.

Mistérios e trocadilhos à parte, a última passagem do Bnegão & os Seletores de Frequência por São Paulo, foi exatamente assim, hipnótica, e o controle da banda e do próprio senhor Bernardo Santos em relação às novas composições do disco mais recente da banda, o groove e até mesmo a platéia, quase doentia.


A paixão estava ali. Em cada linha das arranjos. Passava pelas linhas quentes da guitarra. Ficava um pouco no cockpit da batera. Ousava caminhar na crocodilagem no bass. Munia a jam com detalhes alcalinos na percussão. E finalizava com um requinte ácido no time de metais, mas o vocal... Esse era o termômetro e o mercúrio estava pronto pra tocar no baile.

E a cada clamor pelos dias da serpente, pelo reboot da máquina cerebral e dos excessos que fazem o globo girar como olhos em ponto de ebulição, corpos saltitavam e reverberavam a mensagem usando apenas a filosofia da desconstrução, afinal de contas esse trampo não é de formiguinha. Foi se o tempo onde esses caras eram ignorados, hoje ninguém mais enxuga gelo, o circuito procura um propósito e se o desafio for gracial: cuidado com o fim da era do gelo.


A Transmutação, termo que nomeia o terceiro disco de estúdio da banda, lançado em 2015 e, pra variar, um dos melhores trampos da safra nacional do ano passado, é um trabalho audacioso e que não parece ter sido levado a sério da maneira que merecia.


Musicalmente o disco já é completamente destacável, afinal de contas, que banda nacional segue mesclando a Black Music com a mensagem e alquimia da cozinha do Rap com tanta modernização em prol de resultados diferentes com base na nossa mãe África? Quem ousa entrar nesse território com autoridade hoje em dia e não almeja apenas se passar por um diluidor de conceitos?

A segunda opção já nos indica alguns nomes, para a primeira, bom, se ela indica algum, todos fazem parte da crew dos Seletores, e ver que a galera compreende isso, chegou pra somar no groove e cantou todas as letras, bom, isso prova como a transmutação é real e como bem Tim Maia na clássica ''O Caminho do Bem'': ''já iniciou, está acontecendo''.


E foram duas horas de acontecimentos. Até mais, dentro de um todo que entre grandes nomes da música brasileira (que também estavam presentes na casa), como foi o caso do Di Melo, Russo Passapusso (que inclusive foi para o palco dar uma canja) e o Curumin, foi bem gratificante ver a energia que povou o espaço, enquanto a banda soltava aquele Funk de alta patante e esquentava os amplificadores com uma potência digna de Sound System jamaicano com direito a muito Hardcore e passe livre.

Mais do que um conceito criativo, a transmutação é um ponto de fuga real e que a cada show dessa tour, os Seletores conseguem deixar palpável pra todo mundo que sai surdo das casas por onde eles passam. É um insight poderoso e denso, algo que a banda prega com a força de um hino de imunização. Pegue sua fita amarela e se prepare para o regresso dos tempos de luz. AGÔ no dia 13 de fevereiro.

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