Tom Zé e seu passeio com um Vira Lata na Via Láctea

Dentre as várias memórias que tenho em meu HD cerebral, uma sempre se destaca das demais. Em um dia comum, estava em casa brincando com meus bonecos e ouvi na TV uma das coisas mais interessantes cientificamente falando. Não me lembro o nome do fulano, mas sei que este cidadão morreu, porém antes de o fazer, deixou claro que gostaria de doar seu cérebro para estudos científicos.


Quando ouvi a repórter falando isso até parei de brincar. Fiquei imaginando a cena e tentando entender como os cientístas iriam tirar algum tipo de conclusão. Passados mais ou menos dez anos desse dia, ainda não tenho a mínima ideia de como isso é feito, mas sei que se o Tom Zé deixar eu seria um dos primeiros na fila para ver como sua cabeça funciona, e não, não estou querendo matar o gênio, quero apenas saber como sua brilhante mente funciona, ''Vira Lata na Via Láctea'', é, para variar, um discão.


Track List:
''Geração Y''
''A Quantas Você Anda'' - Trupe Chá de Boldo
''Banca de Jornal'' - Kiko Dinucci/Criolo
''Cabeça de Aluguel'' - O Terno
''Pour Elis'' - Kiko Dinucci/Rodrigo Campos/Milton Nascimento
''Esquerda, Grana e Direita''
''Mamon'' - Silva
''Salva Humanidade'' - Trupe Chá de Boldo
''Guga Na Lavagem'' - Filarmônica de Pasárgada/Tatá Aeroplano
''Irará Irá Lá'' - Trupe Chá de Boldo
''Papa Perdoa Tom Zé'' - O Terno
''Retrato Na Praça da Sé'' - Kiko Dinucci
''A Boca da Cabeça''
''Pequena Suburbana'' - Caetano Veloso


Quando comecei a publicar textos na internet, sempre tive um objetivo: ficar satisfeito com meu conteúdo. Escrever requer muito mais do que apenas tempo ou vontade. Aprendi gradualmente a prestar atenção em tudo que ouvia, e foi ai que a MPB ganhou mais destaque nas minhas playlists.

Logo de cara fui apresentado ao Tom Zé e já faz bastante tempo que tento captar algo de sua música e colocar em minhas linhas. Tom fala pouco e diz muito, diz tanto que já ouvi sua discografia uma par de vezes e sigo sempre repetindo os discos, pois faltam detalhes à serem pescados.


Tom pode ser direto, mas Zé também possui toda a classe do mundo para fazer rodeios, fala através de metáforas e usa um palavrão tal qual um lord inglês. Ele domina a língua e, em suas mãos, as palavras dobram, torcem e viram do avesso... Ele tem pleno controle e seu discurso sai exatamente do jeito que ele quer.

E disco após disco ele segue manipulando seu discurso de uma forma impressionante, com rimas que à princípio surgem relaxadamente estabanadas, mas que com a conexão de apenas uma palavra, já transformam uma estrofe comum numa passagem genial.

Algo que neste novo trabalho, seu décimo quinto disco de estúdio, continua se manifestando com uma criatividade que se mantém pulsante, junto de uma vontade imensa de se reinventar, mesmo do alto de seus 79 anos. 


O disco abre com ''Geração Y'' e os ET's dento dos HD's, passa por ''A Quantas Você Anda'' e uma das três participações da Trupe Chá de Boldo, aliando o novo com o velho, ambos de forma bem freak-fresca e atual.

Faz um pit stop no Grajauex do Criolo e mete uma sambeira raiz....Chama O Terno em duas oportunidades, faz o Milton Nascimento bater cartão e ainda segura o Caretano Veloso pra fechar o disco.

O som é muito cristalino em todos os corners da jam, Tom segue voando baixo e repete a fórmula de um disco recente (e também de sucesso) dentro de sua óbra, falo sobre ''Tropicália Lixo Lógico'', lançado em 2011.

Após o fim do disco creio que essa gravação seja elementar para se compreender o papel dos grandes mestres, pois além de continuar mostrando que é gênio, Tom Zé ainda abre espaço para as relevações. É meu bom, creio que ainda está pra nascer um baiano mais arretado que esse. Som para gratinar o vocabulário, obrigado pela oportunidade, man!

0 comentários: