Alô, Hendrix?

Noite passada cheguei em casa perdido. Moro no mesmo bairro faz mais de 5 anos, mas estava abalado. Não me perdi literalmente, mas cheguei avoado no recinto. Definitivamente rolou uma turbulência no elevador, mas depois de sair catando cavaco quando abri a porta (sem pestanejar), percebi que era necessário encontrar um lugar mais tranquilo.

Sentar e arejar minha mente era preciso. No rodo cotidiano minha família apenas observava mais um dia passar pelo reflexo da televisão, mas numa cadeira, ali, bem no canto da sala, estava eu, apenas um espectro de fones de ouvido, depois que ''Once I Had A Woman'' me tirou de meu próprio corpo.


Foi bastante construtivo possuir e controlar esses dois referenciais. Assim que Jimi começou a transcender no Blues, meu corpo começou a carregar o download de minha versão em streaming e, quando percebi, já estava em modo avião.

A progressão de acordes. Os campos harmônicos. Os tons, cara, está tudo nos tons. Os melhores guitarristas sempre prestam muita atenção nos instrumentistas de sopro. Jimi gostava muito de Rahsaaan Roland Kirk (inclusive eles até fizeram uma jam juntos), e acredito que boa parte dessa lírica tão livre e natural do menino de Seattle, venha justamente desse feeling diferenciado que sua Strato nutria pelas técnicas da respiração Jazzística.


Coloque pra tocar aí. Sério mesmo, considero que ''Once I Had A Woman'' seja um dos temas definitivos para se entender a magia eletrostática que fluía dos dedos desse Midas psicodélico. A calma. A classe. O controle dos bends para que cada nota ficasse em suspensão durante o tempo exato...

Quando a bateria resolve entrar, o bass engrossa o acompanhamento, mas este nem chega perto da guitarra. A Fender Hendrixiana deslancha de maneira suave, reverberando pentatônicas faiscantes com uma inspiração tão energética que nem a gaita impede o fluxo de linhas que beiram o Free Jazz, numa época que esse termo nem existia.


Enquanto olhava para o meu outro eu, percebi que ambos estávamos perdidos. Fui no quarto e fiz um tapping no telefone para conseguir fazer contato com o Disk Informações. Nessa hora Jimi entra também com a voz e recita: ''lord i had a woman''. 

É claro que o sinal da ligação caiu. Tentei outra vez e a linha ficou muda. James seguia solando e, enquanto uma parte de mim ligava, a outra seguia ouvindo o chamado messiânico num rito de loops infinitos.

A essência é o Blues, mas o ''problema'' é que na parte estética o americano só tocava emoção. Essa faixa não tem um script de começo, meio e fim. Não tem ponte, não apresenta uma ''parte A'', tampouco se preocupa com o tempo ou um refrão pré estabelecido.


Apertar play para momentos como esse torna-se um exercício espiritual. Mergulhei em mim mesmo, vi tudo de fora, mas também observei como ficamos catatônicos por dentro, quando ouvimos um som desse cidadão sair das caixas.

A única coisa que me deixou triste foi saber que o Cherokee não poderia me atender. Tentei muitas vezes só que não consegui nem fazer o telefone chamar, mas depois de tantas horas, senti que mesmo com o aparelho mudo, foi possível fazer uma conexão.

Esse pacote de internet/telefone não existe para compra. O grau de energia foi celestial, finalmente pude me ouvir do outro lado da linha... Prefiro acreditar que a música do maior guitarrista de todos os tempos não me fragmentou, pois ao fundo não ouvi nada concreto, mas senti uma presença divina, quase que um tilintar de um slide que nem marcou presença nesse som.


Essa foi a caixa de mensagens do senhor Marshall, ele não teve tempo de trocar ideia dessa vez, mas sei que tive muito mais do que 30 segundos para gravar um recado após o bip. Mande um alô qualquer hora dessas meu velho, todo mundo aqui em casa me chamou de louco quando tentei explicar o ocorrido.

Sabe como é, esse negócio de ligação internacional é foda, o real está valendo menos do que um dose de troco em bala, por isso, tente abrir uma franquia especializada em sinais de fumaça. Você com sua Purple Haze aí, eu com a minha aqui e todos nós sincronizados da mesma maneira de sempre.

Ninguém respondeu, mas momentos depois, o aparato tecnológico que Jorge Ben insiste em dizer que tocou novamente, se manifestou. Não era ninguém outra vez, mas ao tentar responder, notei que estava mudo e quando desliguei, ouvi um chiado que vinha dos meus fones.

Mesmo depois de finalizar o embate, o meu celular (que estava desligado durante todo este conto), resolveu dar o ar da graça e ainda o fez com ''Once I Had A Woman'' no play. Captei a mensagem Jimi, o meu telefone está fora da área de cobertura, mas o seu brinca com as fronteiras e no fundo não é segredo pra ninguém que se um dia você precisar de algo, basta me dar um toque que aqui o feeling não é 9090 não.

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Será que ela não sabe, Jorge?

Todo dia, toda hora, com base em todos os fusos horários e padrões latitudinais, bem como os longitudinais... Rapaz, só o Jorge Ben pra eternizar uma viola serena numa base sambista-esotérica e ainda conseguir explanar todos os males e inseguranças de um cidadão que está em transe perante uma menina mulher da pele preta.

Você fica a olhar. As dúvidas estão todos na frente de seus olhos a bailar, mas os sentidos se perdem nas sinestesias e aí você fica sem dormir sossegado. Pensando e consumindo seu tempo como se os ponteiros fossem as respostas e, os segundos, um alarme prestes a explodir em olhos azuis.


Uma dança de sensações que enlouquece. É lindo, talvez quase perfeito. Simplesmente platônico até o momento da descoberta e caótico depois que paramos para ver se ela pensa um pouco em nós. Vai ou não vai? Desarmados perante tudo o que queríamos, o paradoxo se desenvolve e quem resolver o enigma da Tábua de Esmeralda chega ao paraíso.

Quem não consegue esquecer a pele morena e se perde em todos os encantos fica preso. Alheio como um Narciso a encarar seu próprio reflexo frente a lagoa de Eco, o amor parece ser a salvação de homens que se transformam em ilhas.


A dor e as gotas escarlates desse arquipélago são os pontos que mapeiam essa sinuosa história. Em suma, esse é o enredo de todos os casos daqueles que já se perderam por sorrisos brancos. Jorge Ben escreveu, dentre tantos hinos, talvez uma das maiores crônicas sobre o desespero que o batimento que sai do seu peito pode aliciar.

Mas faz tão bem... Vale a pena perder a defesa e jogar o time todo para o ataque. A linha de zagueiros já está desprotegida mesmo, o que você tem à perder? Jorge perdeu o sono, o escritor não conseguiu descrever exatamente o que queria, mas e você? Qual é o plano pra fazer o telefone tocar novamente? Corra, por que depois do quarto toque, talvez não seja mais a sua Terezinha!

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Abraxas: mais uma session 3x3 na Augusta

O mês de março está inspiradíssimo. Para alguns a terceira contagem mensal já passou foi dos limites. Todos os grandes artístas da cena atual (e outros mais antigos) estão passando por São Paulo, só que a grade de eventos chegou num nível que pra marcar presença em tudo é quase que vital possuir uma dupla personalidade.

Show de segunda, terça, quarta, quinta, sexta... Sábado e domingo nem preciso falar, esses aí são dias em que a sonzeira é implícita, de classe e sem hora pra acabar. Também é aquele negócio, quem foi que disse que vida de fã de boa música é fácil?


Há quem diga que frequentar eventos sonoros seja uma atividade física. Rapaz, como eu concordo com essa frase. A caravana segue viagem, o seu trabalho ou as aulas da faculdade até podem perder o pique, mas você, meu amigo, seus ouvidos JAMAIS podem largar os fones! 

E depois de peregrinar por mais uma sonoríssima semana, atravesseei a segunda no groove, cheguei na terça tretando no mosh, cai na quarta com o volume no talo e pedi arrego na quinta, depois de sair surdo do Inferno Club, após mais um rolê da Abraxas.

Arte: Santi Pozzi

Foi com a Grindhouse Hotel no front, isso sem falar dos caras da Cosmo Drah e do The Flying Eyes, que mais uma noite de surdez foi equacionada com sucesso. E foi exatamente na mesma ordem que está retratada neste relato que os eventos se desenrolaram.

Primerio surgiu a Grindhouse e o Stoner preencheu cada centímetro da casa. Com um som poderosíssimo, bastante improvisado e denso, a banda mostra-se bastante azeitada rumo a um futuro que se estiver com a mesma pegada da bateria do José Mônaco, rapaz...

É interessante que na maioria das bandas que buscam essa sonoridade pesada com insights mais deturpados, para aí sim blindar o som com aquele ar chapado, que a bateria fica num marasmo muito repetitivo.

Mas aqui não, com a Grindhouse o esquema é exatamente o contrário, os sons são bombeados à partir da bateria e com isso a glicose se transforma numa volta de Harley depois de meia dúzia de Irish Car Bomb's na cabeça. É massa, pode crer.


Logo na sequência apareceu a Cosmo Drah e ai a cozinha já caminhou para outros cômodos. No lugar do Stoner entrou um Hard calcado num Blues que foi o mais puro veneno, e enquanto a banda gastava muito feeling em excelentes devaneios de improviso (que em alguns momentos beiraram o Prog), foi um barato ficar pescando as influências do segundo quarteto da noite.

Pescado Rabioso, Grand Funk... A paleta de cores da banda é bastante interessante e o entrosamento que interliga todos os intrumentos muito preciso, mas ainda assim a fórmula não conta apenas com um belo instrumental, pois como se não bastasse a eloquência dos irmãos Renato (bateria) e Elton Amorim (baixo), a conta da jam só fecha quando o groove passa pelas guitarras do inventivo Anderson Ziemmer e pela voz (e as belas letras) que Rubem Yanelli entoa com tanta classe.


Foram 2 sets bastante diversos entre si, mas creio que algo se manteve: a paxião pelo barulho e o peso do DNA psicodélico, um elemento que com certeza está na receita da banda que teve a missão de encerrar mais uma escala de tour em São Paulo, o The Flying Eyes.

O som dos oriundos de Baltimore, terrinha do Frank Zappa, é um dos mais inventos dentro desse novo contexto da cena psicodélica contemporânea. A ideia é fresca, se beneficia de músicos excelentes e de influências bastante diversas para entregar um show selvagem, mas assustadoramente bem organizado.


Na primeira passagem da banda pelo Brasil o show de São Paulo teve de tudo, desde um drink com o Will Kelly, até jams que deixaram o baixista, Mac Hewitt, tão energizado, que ele fez questão de caminhar no meio da platéia.

Mas apesar do último show do dia 17 ter sido menos insano, em termos de qualidade de som foi muito mais interessante. Vale lembrar que a banda está trabalhando num disco novo que será gravado no Rio de Janeiro, no Estúdio Superfuzz, sob a tutela do Gabriel Zander, por isso, novos temas entraram no repertório e o controle que a banda demonstrou foi absurdo.


A semi acústico do Will chegou endiabrada. O bass do Mac Hewitt estava sempre preenchendo os espaços enquanto Elias Schutzman quicava na bateria com um vigor assustador, e ainda acompanhava tudo, até o malandro slide que Adam Bufano deslizou com tanto feeling.

É bastante peculiar notar como um show desses caras se desenvolve. Em vários momentos Will voltava para o vocal, desistia de cantar e entrava num solo, fechava os olhos e seguia viajando... Pra que a pressa, certo? Teve uma hora que o microfone caiu, ele ajoelhou, tentou cantar, viu o desespero da platéia pra tentar arrumar o pedestal para não prejudicar o número, mas o cara nem se abalou, levantou outra vez e foi solar do lado do Mac, dando risada, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.


É bom saber que a música ainda conta com caras assim. É bom sacar que o público também está se ligando nessa sinergia e segue colando em peso... É tudo muito bem equalizado, e enquanto a Abraxas seguir mandando eventos pra Sampa, bom, não interessa o dia da semana, a massa seguirá aparecendo, por que se tem uma certeza nessa vida é que (além do buzão não ter troco depois das 23:00), vale a pena passar perrengue no retorno para sua residência se o show contar com bandas deste calibre. Viva a cena. Viva o som. Rumo à Psicodelização Racional.

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Dr. John & a macumba macrobiótica de Locked Down

Depois que se descobre a música de maneira mais ampla, o Groove se ''complica'' para desvendar o som perfeito para nossos ouvidos. Parece que quanto mais escutamos, melhor queremos que o próximo take seja, e isso só ''piora'' quando vamos desvendando as cozinhas mais complexas e diversas que existem dentro da música.

O Funk abre os ouvidos para algo mais sexual e ácido com base no Slap, o Jazz vem com aquele instrumental maravilhosament,e polido e cristalino. Mostrando linhas incríveis e impecáveis, já o Blues vem com sentimento. O Hard coloca fogo na casa, o Prog viaja, o Psico enlouquece, e enquanto isso sua mente abre, o problema se infiltra de fininho.


O melhor de tudo isso é poder achar um som que mescle tudo que você gosta em termos de influências, dentro de um contexto não exagerado, mas são poucos, pouquíssimos (sejam bandas ou artistas em carreira solo), que conseguem fazer essa mescla. Aliás alguns ainda vão além, conseguem focar em segmentos específicos em cada trabalho, depois misturar com um, depois com outro, mas é complicado...

Normalmente o cidadão tem um talento absurdo e um vocabulário musical tremendo, quase como um Dr. John da vida. São mais de 50 anos de serviços prestados em prol de tudo que existe na música, mas o pianista não está nem ai, sua criatividade segue trabalhando e em 2012, com ''Locked Down'', o músico liberou uma de suas melhores teses de doutorado.

Line Up:
Dr. John (teclado/vocal)
Dan Auerbach (guitarra/vocal/percussão)
Max Weissenfeldt (bateria/percussão/vocal)
Leon Michels (teclado/percussão/vocal)
Nick Movshon (teclado/percussão/vocal)
Brian Olive (guitarra/percussão/vocal)
The McCray Sisters (vocal)



Track List:
''Locked Down''
''Revolution''
''Big Shot''
''Ice Age''
''Getaway''
''Kingdom Of Izzness''
''You Lie''
''Eleggua''
''My Children, My Angels''
''God's Sure Good''


Dr. John não tem esse nome por nada. Esse cidadão tem PhD em música, e quem conhece sua vasta discografia costuma concordar com gênero, número e degrau. Por que além de não se limitar a tocar um estilo, o mestre ainda tem a manha de misturar todos os tipos de Groove com várias outras vertentes, e de estar sempre a par das novidades, tornando seu som algo sempre novo e atual...

Essa é a palavra, atual, mas sem perder as origens. ''Locked Down'' consegue dialogar com os fãs do R&B e Funk tradicionais, e ainda chama a atenção da molecada que vem chegando perto deste lado da força. E neste disco em especial, a justificativa é deveras surpreendente e costuma atender pelo nome de Dan Auerbach. Sim, ele mesmo, o guitarrista e vocalista do The Black Keys, responsável pela produção deste trabalho e também por algumas guitarras e backing vocals.

Se alguém me falasse que Dan iria produzir um disco do Dr. John algum dia, confesso que daria risada na cara dura, afinal, o mestre é um daqueles casos raros, se ele se quiser se auto produzir pra quê complicar e ficar com duas pesssoas na sala de comando?

Fora que se o americano realmente precisasse de um produtor, acredito que ele iria recorrer à alguém mais experiente, mas não, foi justamente o contrário, e talvez isso tenha sido o grande segredo do sucesso desse disco.

Afinal de conta, além da pegada Blues, o Black Keys ficou conhecido pelo seu balanço certeiro e essa fórmula, misturada a uma bela leva de batuqes, uma parade sólida de metais e toda a experiência e malandragem do próprio Dr. John, resultaram num disco de fato surpreendente e que ainda ajudou o doutor a abocanhar o Grammy em 2013, dentro da categoria de melhor disco de Blues!


É um dos melhores trabalhos recentes do músico, mas destaco este em especial, não pela retomada de suas influências africanas, mas sim por notar que além de ainda bastante criativo, o Dr. ainda está com gás para tentar novas parcerias e impressionar o pessoado Grammy com algo tão ''não convencional'' assim, tão bom e eloquente.

Os temas extremamente swingados, tanto pelo approach do próprio piano de John (em ''Locked Down'', por exemplo), quanto em seus vocais (''Revolution'') e no fantástico arranjo instrumental. Sempre muito bem mesclada com toques de Funk, Jazz, linhas de órgão inspiradíssimas e toques que beiram o gospel em alguns momentos, (senti um Al Kooper na jogada), Locked Down é um CD redondíssimo.

As vezes o reverendo lhe arrasta para os primórdios do Blues como na levada sacana de ''Big Shot'', já em outras oportunidades, aposta em seu status de pianista Gângster para conquistar o ouvinte com temas fortes, como ''Ice Age'' ou simplesmente apela e vem com um verdadeiro caldeirão, vide ''Getaway'' e sua ácida batera ao fundo.

Eis aqui um disco completo e que beira a perfeição dentro do que se propõe a criar. Qualidade pura, sinônimo de Dr. John, um cara que nós sempre precisamos ficar de olho...

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Gentle Zappalização Racional: Operação Café Piu Piu 10/03/15

Num mar de detritos cósmicos, a música se estabelece como uma palavra de ordem até para os mais inquietos visionários. Alguns ensinamentos são profundos a ponto de seguirem como um messias em peregrinação eterna, só para que certos mandamentos sigam em voga nos compactos de vinil.

A música, quando admirada dentro de uma perspectiva de 360 graus, possui grupos que mesmo depois de anos após o seu fim, ainda se renovam através dos ouvidos das gerações que passaram a mensagem com o passar das linhagens.

Quando era moleque lembro de chegar da escola e sentar na mesa pra fazer, ou pelo menos fingir, que tinha alguma tarefa. Em várias dessas tardes, meu pai chegava em solo sagrado e colocava algo no play. Dezenas de trilhas que sem eu saber, fizeram a música de fundo para que pelo menos alguma matéria fosse de meu domínio.


Não deu com Matemática & Física, mas rapaz, eu mandava bem no Frank Zappa e no Gentle Giant desde meus 10 anos de idade. Aparentemente não foi só meu pai que soube fazer a lição de casa. Em várias residências espalhadas por São Paulo, foi fácil perceber que o legado do Gigante Gentil ainda segue com a mesma classe de outrora, e que o bigode Zappástico também permanece como a última moda do verão em Sheik Yerbouti. 

''Mas como você sabe disso''. Essa é a pergunta que sai de sua cabeça enquanto passa os olhos por essas palavras, certo? Bom, se o senhor está em dúvida, vejo claramente que sua persona não estava presente na segunda edição do projeto Gentle Zappa no Café Piu Piu. Amadores... 

Foi difícil atravessar umas das noites mais chuvosas do ano, mas valeu a pena pegar até uma gripe para ver o que a Giant Steps e a Let's Zappalin' tiraram de seus respectivos instrumentos. Em mais de 3 horas de puro absurdo sonoro, os dois quintetos colocaram a casa no bolso e destilaram uma música que só depois dessa noite de gala, já garantiu, no mínimo, mais duas gerações de Zappeiros e apreciadores de Rock Progressivo.


Minhas memórias ficaram guardadas como um coquetel de estilhaços. Em alguns insights reparo na perfeição de temas belíssimos, como ''Nothing At All'' e ''Time To Kill'', já em outros sou interrompido pela fantástica participação do Cássio Poletto (Terreno Baldio) e seu violino que tinha de tudo, até Wah-Wah. 

Mais do que contar com músicos absurdos, o grande lance em noites como essa é ver a profundidade do legado dessas bandas. A mescla de música erudita do Gentle Giant é tão profunda que faz com que outros músicos embarquem nessa viagem de descobertas que a própria banda, infelizmente, precisou encerrar.

Os tempos de temas como ''So Sincere'' e ''The Face'' são intrincados, belíssimos, absolutamente sublimes, mas muito sinuosos. E é exatamente nessa paradoxal instabilidade que o quinteto formado por Caio Fabbri na guitarra e voz, Carlos Silva na bateria, Francisco Muniz nos teclados e voz, Renato Muniz nos graves e Roger Troyjo no vocal principal, se sente tão bem.

Todos os 10 músicos envolvidos nessa celebração podem confirmar essa tese, pois independente da banda que eles façam parte, uma coisa é certa: seja de bigodes ou com sinfonias, é fácil perceber o impacto eterno que esses sons possuem, e será sempre um prazer viajar com as composições do ''Acquiring The Taste'', ''Three Friends'' e por aí vai!


Set List Giant Steps:
''Prologue''
''Time to Kill''
''Experience''
''Pantagruel's Nativity''
''Playing the Game''
''So Sincere''
''Nothing at All''
''The Boys in the Band''
''The Face''
''Plain Truth''
''Peel the Paint''


Já no front Zappeano a história foi um pouco diferente, se bem que como era aniversário do Rainer, ele até deu uma canja pra fechar o set da Giant Steps com ''Peel The Paint'', para ai sim entrar aquecido no universo paralelo de Frank Zappa.



Mantendo a soberba qualidade sonora e nitidez que permeou todos o show da Giant Steps, a Let's Zappallin' manteve o mesmo nível da classe britânica do grupo anterior, para ai sim adicionar pitadas e mais pitadas de pura insanidade no repertório.

Com temas que caminharam com a mesma graça de um Bobby Brown durante as mais diversas fases e períodos aristoZappásticos, foi muito bom ver a casa cheia para dois excelentes shows. E o que o aniversariante do dia fez em ''Watermelon In Easter Hay''?

Os bends vinham do fundo da alma, a inspiração definitivamente pediu passagem, e entre temas como ''Purple Lagoon'' e ''Zomby Woof'', os presentes se deleitaram com um mar de notas precisas no Hammond, um belo bass e muito sentimento na voz e no kit de baquetas.

E quee saber, no fim do dia essa é a base de tudo. Sem feeling você pode até tocar algumas das linhas que o Carlos Silva mandou no set da Giant Steps, mas quem disse que o resultado será o mesmo?

É necessário possuir um domínio técnico bem acentuado para fazer o que esses caras fizeram, mas além disso, existe algo que o Fred Barley, Roger Troyjo, Jimmy Pappon, Erico Jônis, enfim, algo que todos os envolvidos possuem: amor pela causa e respeito por algo que apesar de todos dominarem, é ainda maior do que eles mesmos, e isso vale o ingresso para ver a Let's Zappalin' e a Giant Steps toda semana!

Set List Let's Zappalin':
''Regyptian Strut''
''Inca Roads''
''Purple Lagoon''
''Carolina Hardcore Ecstasy''
''Fifty-Fifty''
''Watermelon In Easter Hay''
''Village Of The Sun + Echidna's Arf (Of You)''
''Don't You Ever Wash That Thing?''
''San Ber'dino''
''Sinister Footwear 2nd movement''
''Black Page #2''
''Dirty Love'' 


Bis:
''Zomby Woof''



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Stevie Wonder e sua fidalguia Funkeada no Beat club 74'

O Stevie Wonder está vacilando faz mais de 40 anos. Em 1974 ele foi gravar um especial pra TV alemã, na ocasião a Musikladen/Beat Club, famosa e tradicionalíssima session, que além de servir como uma senhora plataforma de exposição para diversas cenas, foi um dos programas mais importantes para o cenário musical europeu, e claro, mundial.


Só a nata ia tocar nesse palco. O Rory levou o Taste, Jeff somou no groove com seu Beck Group, Ginger Baker com certeza arrumou uma treta com Jack Bruce nos bastidores, antes de tocar com o Cream... Teve de tudo meu caro, mas pode crer que se você me falasse pra escolher o melhor programa, mesmo sabendo que eu ainda não vi todos, digo sem pestanejar que a performance do Stevão seria a primeira que surgiria em minha mente.


Logo que você abre o show, primeiro aparece a vinheta e ai sem apresentação nem nada as imagens já cortam para os finalmente. A bandassa do Wonder ali, já esquentando a artilharia num improviso claramente não ensaiado, onde as Wonderlover's (o time de backing vocals do mestre), arremata uma melodia no gogó que serve de introdução para um groove que escalda até os ouvintes mais calejados.

Juro meu senhor, essa faixa merecia ser gravada. Na track do especial vemos que essa passagem está creditada da mesma forma que veio ao mundo. Está lá, faixa 1: ''JAM''. E durante pouco mais de 5 minutos é essa brincadeira embriagante que coloca todos no mesmo patamar espiritual e já solta o disparate Fusion de ''Contusion'', logo em seguida.


No baixo temos Reggie McBride. Michael Sembello é quem acompanha toda essa alquimia utilizando sua nobre semi-acústica como porta voz, enquanto Ollie E. Brown deixa tudo sincopado pelos nortes de sua batera e só observa Wonder administrar o feeling nas teclas.

É uma palhaçada, e o melhor de tudo é que o clima que permeia todo o especial é o mesmo da jam que abriu a caixa de Pandora como quem não quer nada, mas levou as viagens com sintetizadores de Wonder para outros nível em temas como ''Higher Ground'' e ''Don't Worry Bout A Thing''. Passagem que aqui, vale ressaltar, ganha uma de suas melhores versões ao vivo.


Nessa época esse cidadão brincava de fazer música e esse registro é uma prova disso. Tudo dava certo, os limites eram inexistentes e essa banda só precisava estar acordada para fazer algo surreal. Quem manja de música assiste isso e fica com a boca aberta uma semana por que sabe o nível de entrosamento, feeling e imersão que essas pessoas atingiram para conseguir elevar a plateia dessa maneira.

Podia ser cortando seu coração com ''I Can See The Sun In Late December'', fazendo você se recuperar ao som de ''He's Misstra Know-It-All'' ou simplesmente indo pra galera com ''Living For The City''... O planos dos caras era infalível e se mesmo assim não desse certo, a consagração era garantida durante o estrago de ''Superstition''.

Definitivamente, tome cuidado com essa apresentação. Vou deixar o set list aqui pra você tentar se encontrar em algum momento, mas no fim da postagem também deixarei o video completo do especial, e declaro desde já que não me reponsabilizo pelas sequelas.

Set:
''Jam''
''Contusion''
''Higher Ground''
''Don't You Worry 'Bout A Thing''
''I Can See The Sun In Late December''
''Hes Misstra Know-It-All''
''Living For The City''
''Superstition''


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Psicodelia: Abraxas e a segunda tour brasuca do The Flying Eyes

Mantendo a média de pelo menos uma tour por mês, a seita psicodélica da Abraxas entrou em março com mais um show na grade de um dos meses mais movimentados do calendário sonoro. Com mais uma noite que promote levar uma trinca de peso para o Inferno Club, a perna da tour brasileira do The Flying Eyes que passará por São Paulo, contará também com o Hard do Cosmo Drah e o Stoner da Grindhouse Hotel.

Arte: Santi Pozzi

A segunda passagem dos oriundos de Baltimore pelo Brasil promete ser bastante fiel à chapante arte do desenhista argentino Santi Pozzi, talento responsável pelo poster acima. A ideia é simples: esmagar neurônios com uma psicodelia potente e que, com ares de crueldade, promete passar pelo Estúdio Superfuzz para a gravação do próximo disco de estúdio da banda.

Serão 7 shows em território nacional e mais uma vez vale ressaltar a abertura dos eixos. Vai ter jam em Minas, Goiânia, Rio, São Paulo... É meu caro, a cada dia será mais difícil perder um rolê da Abraxas, por isso, se ligue nas datas da tour logo abaixo, escolha o dia de acordo com sua posição geográfica e vá fritar sem maiores frescuras.

18 - Goiânia
19 - Brasília

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Os versos de John Frusciante: o recomeço de Before The Beginning

A música fala com você
Absorvendo sua energia 
Sentindo seu calor

Soprando no vento de Dylan
Dissipando sua dor
Testando até a acústica do Arpoador

O som despressuriza corpo e mente
Fazendo-lhe sentir nem o que os Deus sentem, por meio da simbiose de uma Strato

Ah, o feeling de uma guitarra!
Essa onda sim
Leva todos os males, como numa enxurrada

E os fones são a base da elevação
E a sensação de renascimento
É um coquetel da mais pura sensação de libertação

Parece que um novo eco se restabelece
Que um novo pulso cresce
E que a vida sem música
Se transforma num verdadeiro pedido de renúncia


Durante uma entrevista na década de 80
Stevie Ray Vaughan disse que toda vez que solava
Era como se ele estivesse tentando fugir da cadeia

Um bend é uma dádiva
A doce Telecaster de Roy Buchanan
A Gibson de Eddie Hazel
O céu arroxeado de Hendrix
E a sabedoria de Frank Zappa
Junto com o suor de Alvin Lee


No fim, não importa
Escolha sua trilha
Cada um de nós possui seu próprio código
E quando uma música hackeia o seu banco de dados
Ah, como nos faz bem ficar sem defesa

Isso não tem preço
Não importa se for quente
Frio
Feliz
Intenso
Lento
ou
Dolosoro

Você sempre terá aquela paradoxal Kriptonita que lhe faz tão bem
E a que inspirou e serviu de base para este devaneio 
É o lamento Fruscianteano de ''Before The Beginning''
Um tema que foi inspirado na mítica Maggot Brain

Uma passagem que nos faz sentir algo
Você está vivo
O infinito é só um detalhe
E eu sei que seus olhos estão fechados

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