Abraxas: mais uma session 3x3 na Augusta

O mês de março está inspiradíssimo. Para alguns a terceira contagem mensal já passou foi dos limites. Todos os grandes artístas da cena atual (e outros mais antigos) estão passando por São Paulo, só que a grade de eventos chegou num nível que pra marcar presença em tudo é quase que vital possuir uma dupla personalidade.

Show de segunda, terça, quarta, quinta, sexta... Sábado e domingo nem preciso falar, esses aí são dias em que a sonzeira é implícita, de classe e sem hora pra acabar. Também é aquele negócio, quem foi que disse que vida de fã de boa música é fácil?


Há quem diga que frequentar eventos sonoros seja uma atividade física. Rapaz, como eu concordo com essa frase. A caravana segue viagem, o seu trabalho ou as aulas da faculdade até podem perder o pique, mas você, meu amigo, seus ouvidos JAMAIS podem largar os fones! 

E depois de peregrinar por mais uma sonoríssima semana, atravesseei a segunda no groove, cheguei na terça tretando no mosh, cai na quarta com o volume no talo e pedi arrego na quinta, depois de sair surdo do Inferno Club, após mais um rolê da Abraxas.

Arte: Santi Pozzi

Foi com a Grindhouse Hotel no front, isso sem falar dos caras da Cosmo Drah e do The Flying Eyes, que mais uma noite de surdez foi equacionada com sucesso. E foi exatamente na mesma ordem que está retratada neste relato que os eventos se desenrolaram.

Primerio surgiu a Grindhouse e o Stoner preencheu cada centímetro da casa. Com um som poderosíssimo, bastante improvisado e denso, a banda mostra-se bastante azeitada rumo a um futuro que se estiver com a mesma pegada da bateria do José Mônaco, rapaz...

É interessante que na maioria das bandas que buscam essa sonoridade pesada com insights mais deturpados, para aí sim blindar o som com aquele ar chapado, que a bateria fica num marasmo muito repetitivo.

Mas aqui não, com a Grindhouse o esquema é exatamente o contrário, os sons são bombeados à partir da bateria e com isso a glicose se transforma numa volta de Harley depois de meia dúzia de Irish Car Bomb's na cabeça. É massa, pode crer.


Logo na sequência apareceu a Cosmo Drah e ai a cozinha já caminhou para outros cômodos. No lugar do Stoner entrou um Hard calcado num Blues que foi o mais puro veneno, e enquanto a banda gastava muito feeling em excelentes devaneios de improviso (que em alguns momentos beiraram o Prog), foi um barato ficar pescando as influências do segundo quarteto da noite.

Pescado Rabioso, Grand Funk... A paleta de cores da banda é bastante interessante e o entrosamento que interliga todos os intrumentos muito preciso, mas ainda assim a fórmula não conta apenas com um belo instrumental, pois como se não bastasse a eloquência dos irmãos Renato (bateria) e Elton Amorim (baixo), a conta da jam só fecha quando o groove passa pelas guitarras do inventivo Anderson Ziemmer e pela voz (e as belas letras) que Rubem Yanelli entoa com tanta classe.


Foram 2 sets bastante diversos entre si, mas creio que algo se manteve: a paxião pelo barulho e o peso do DNA psicodélico, um elemento que com certeza está na receita da banda que teve a missão de encerrar mais uma escala de tour em São Paulo, o The Flying Eyes.

O som dos oriundos de Baltimore, terrinha do Frank Zappa, é um dos mais inventos dentro desse novo contexto da cena psicodélica contemporânea. A ideia é fresca, se beneficia de músicos excelentes e de influências bastante diversas para entregar um show selvagem, mas assustadoramente bem organizado.


Na primeira passagem da banda pelo Brasil o show de São Paulo teve de tudo, desde um drink com o Will Kelly, até jams que deixaram o baixista, Mac Hewitt, tão energizado, que ele fez questão de caminhar no meio da platéia.

Mas apesar do último show do dia 17 ter sido menos insano, em termos de qualidade de som foi muito mais interessante. Vale lembrar que a banda está trabalhando num disco novo que será gravado no Rio de Janeiro, no Estúdio Superfuzz, sob a tutela do Gabriel Zander, por isso, novos temas entraram no repertório e o controle que a banda demonstrou foi absurdo.


A semi acústico do Will chegou endiabrada. O bass do Mac Hewitt estava sempre preenchendo os espaços enquanto Elias Schutzman quicava na bateria com um vigor assustador, e ainda acompanhava tudo, até o malandro slide que Adam Bufano deslizou com tanto feeling.

É bastante peculiar notar como um show desses caras se desenvolve. Em vários momentos Will voltava para o vocal, desistia de cantar e entrava num solo, fechava os olhos e seguia viajando... Pra que a pressa, certo? Teve uma hora que o microfone caiu, ele ajoelhou, tentou cantar, viu o desespero da platéia pra tentar arrumar o pedestal para não prejudicar o número, mas o cara nem se abalou, levantou outra vez e foi solar do lado do Mac, dando risada, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.


É bom saber que a música ainda conta com caras assim. É bom sacar que o público também está se ligando nessa sinergia e segue colando em peso... É tudo muito bem equalizado, e enquanto a Abraxas seguir mandando eventos pra Sampa, bom, não interessa o dia da semana, a massa seguirá aparecendo, por que se tem uma certeza nessa vida é que (além do buzão não ter troco depois das 23:00), vale a pena passar perrengue no retorno para sua residência se o show contar com bandas deste calibre. Viva a cena. Viva o som. Rumo à Psicodelização Racional.

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