Gentle Zappalização Racional: Operação Café Piu Piu 10/03/15

Num mar de detritos cósmicos, a música se estabelece como uma palavra de ordem até para os mais inquietos visionários. Alguns ensinamentos são profundos a ponto de seguirem como um messias em peregrinação eterna, só para que certos mandamentos sigam em voga nos compactos de vinil.

A música, quando admirada dentro de uma perspectiva de 360 graus, possui grupos que mesmo depois de anos após o seu fim, ainda se renovam através dos ouvidos das gerações que passaram a mensagem com o passar das linhagens.

Quando era moleque lembro de chegar da escola e sentar na mesa pra fazer, ou pelo menos fingir, que tinha alguma tarefa. Em várias dessas tardes, meu pai chegava em solo sagrado e colocava algo no play. Dezenas de trilhas que sem eu saber, fizeram a música de fundo para que pelo menos alguma matéria fosse de meu domínio.


Não deu com Matemática & Física, mas rapaz, eu mandava bem no Frank Zappa e no Gentle Giant desde meus 10 anos de idade. Aparentemente não foi só meu pai que soube fazer a lição de casa. Em várias residências espalhadas por São Paulo, foi fácil perceber que o legado do Gigante Gentil ainda segue com a mesma classe de outrora, e que o bigode Zappástico também permanece como a última moda do verão em Sheik Yerbouti. 

''Mas como você sabe disso''. Essa é a pergunta que sai de sua cabeça enquanto passa os olhos por essas palavras, certo? Bom, se o senhor está em dúvida, vejo claramente que sua persona não estava presente na segunda edição do projeto Gentle Zappa no Café Piu Piu. Amadores... 

Foi difícil atravessar umas das noites mais chuvosas do ano, mas valeu a pena pegar até uma gripe para ver o que a Giant Steps e a Let's Zappalin' tiraram de seus respectivos instrumentos. Em mais de 3 horas de puro absurdo sonoro, os dois quintetos colocaram a casa no bolso e destilaram uma música que só depois dessa noite de gala, já garantiu, no mínimo, mais duas gerações de Zappeiros e apreciadores de Rock Progressivo.


Minhas memórias ficaram guardadas como um coquetel de estilhaços. Em alguns insights reparo na perfeição de temas belíssimos, como ''Nothing At All'' e ''Time To Kill'', já em outros sou interrompido pela fantástica participação do Cássio Poletto (Terreno Baldio) e seu violino que tinha de tudo, até Wah-Wah. 

Mais do que contar com músicos absurdos, o grande lance em noites como essa é ver a profundidade do legado dessas bandas. A mescla de música erudita do Gentle Giant é tão profunda que faz com que outros músicos embarquem nessa viagem de descobertas que a própria banda, infelizmente, precisou encerrar.

Os tempos de temas como ''So Sincere'' e ''The Face'' são intrincados, belíssimos, absolutamente sublimes, mas muito sinuosos. E é exatamente nessa paradoxal instabilidade que o quinteto formado por Caio Fabbri na guitarra e voz, Carlos Silva na bateria, Francisco Muniz nos teclados e voz, Renato Muniz nos graves e Roger Troyjo no vocal principal, se sente tão bem.

Todos os 10 músicos envolvidos nessa celebração podem confirmar essa tese, pois independente da banda que eles façam parte, uma coisa é certa: seja de bigodes ou com sinfonias, é fácil perceber o impacto eterno que esses sons possuem, e será sempre um prazer viajar com as composições do ''Acquiring The Taste'', ''Three Friends'' e por aí vai!


Set List Giant Steps:
''Prologue''
''Time to Kill''
''Experience''
''Pantagruel's Nativity''
''Playing the Game''
''So Sincere''
''Nothing at All''
''The Boys in the Band''
''The Face''
''Plain Truth''
''Peel the Paint''


Já no front Zappeano a história foi um pouco diferente, se bem que como era aniversário do Rainer, ele até deu uma canja pra fechar o set da Giant Steps com ''Peel The Paint'', para ai sim entrar aquecido no universo paralelo de Frank Zappa.



Mantendo a soberba qualidade sonora e nitidez que permeou todos o show da Giant Steps, a Let's Zappallin' manteve o mesmo nível da classe britânica do grupo anterior, para ai sim adicionar pitadas e mais pitadas de pura insanidade no repertório.

Com temas que caminharam com a mesma graça de um Bobby Brown durante as mais diversas fases e períodos aristoZappásticos, foi muito bom ver a casa cheia para dois excelentes shows. E o que o aniversariante do dia fez em ''Watermelon In Easter Hay''?

Os bends vinham do fundo da alma, a inspiração definitivamente pediu passagem, e entre temas como ''Purple Lagoon'' e ''Zomby Woof'', os presentes se deleitaram com um mar de notas precisas no Hammond, um belo bass e muito sentimento na voz e no kit de baquetas.

E quee saber, no fim do dia essa é a base de tudo. Sem feeling você pode até tocar algumas das linhas que o Carlos Silva mandou no set da Giant Steps, mas quem disse que o resultado será o mesmo?

É necessário possuir um domínio técnico bem acentuado para fazer o que esses caras fizeram, mas além disso, existe algo que o Fred Barley, Roger Troyjo, Jimmy Pappon, Erico Jônis, enfim, algo que todos os envolvidos possuem: amor pela causa e respeito por algo que apesar de todos dominarem, é ainda maior do que eles mesmos, e isso vale o ingresso para ver a Let's Zappalin' e a Giant Steps toda semana!

Set List Let's Zappalin':
''Regyptian Strut''
''Inca Roads''
''Purple Lagoon''
''Carolina Hardcore Ecstasy''
''Fifty-Fifty''
''Watermelon In Easter Hay''
''Village Of The Sun + Echidna's Arf (Of You)''
''Don't You Ever Wash That Thing?''
''San Ber'dino''
''Sinister Footwear 2nd movement''
''Black Page #2''
''Dirty Love'' 


Bis:
''Zomby Woof''



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