Um raio cai duas vezes no mesmo lugar: conheça Purple Haze, o segundo tributo Hendrixiano do Lonnie Smith Trio

''Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar''. Quantas vezes você já não ouviu essa frase? Sua avó profetiza essa mentira das brabas pelo menos duas vezes por semana, mas antes que você me xingue, peço um minuto para me justificar, pois posso garantir que a sua coroa só fala isso por que nunca falaram pra ela que o Lonnie Smith gostava de Jimi Hendrix.


Sei que pode parecer muito louco falar da sua avó, de um dos maiores mestres do Hammond e do Hendrix, tudo no mesmo parágrafo, mas as coisas vão se encaixando na medida em que o seu dedo atinge o play.


Em 1994, o Dr. Lonnie Smith teve uma ideia no mínimo mirabolante: gravar um disco só de versões dos clássicos de Jimi Hendrix, colocando tudo sob a perspectiva Jazzística de seu órgão B-3. O ''problema'' é que tudo deu tão certo com seu trio que no ano seguinte ele resolveu repetir a dose e veio com ''Purple Haze'', o segundo tributo que finalizou as experimentações com o legado do apreciador de crepúsculos psicodélicos.

Line Up:
Lonnie Smith (Hammond B-3)
John Abercrombie (guitarra)
Marvin ''Smitty'' Smith (bateria)



Track List:
''Voodoo Chile''
''Up From The Skies''
''Gypsy Eyes''
''Purple Haze-Star Spangled Banner''


Repetindo o mesmo time do outro tributo e apostando em temas bastante interessante para sair do óbvio, Lonnie chega quente para esse segundo disco e mantém o mesmo número de Jams. A única diferença é que dessa vez não tem nada autoral. É tudo em nome do pai.

E para comprovar que a imersão foi completa e irrestrita, Lonnie já entra com ''Voodoo Chile'' e nos ofereceu o lado mais Jazzístico da lua como moeda de troca. Orientado pelo feeling das lágrimas do B-3, o compasso da guitarra se alterna entre o primeiro e o segundo plano com a mesma fluência com que a bateria preenche os espaços.

Considero esse disco superior em relação ao primeiro, pois a impressão que você, como ouvinte, terá após o fim do CD, é que a banda está mais azeitada. Dois discos nesse molde possibilitaram um maior entendimento e entrosamento dentro de um universo totalmente novo, e creio que essas doses etílicas de alquimia sonora fizeram muito bem para todos os envolvidos. Deve ter sido muito prazeroso encerrar um ciclo e recomeçar a pensar em novas composições depois dessa fase ''Hey Joe''.


Como dá gosto de ver que esses caras mataram tamanha responsabilidade no peito e ainda oferecerem um olhar completamente fresco, para uma música que dentro do referencial dos fãs, já tinha atingido o infinito dentro das possibilidades de mudança.

É brilhante observar como a cada composição, tudo parece mudar como numa pintura cubista. O referencial segue no Jimi, mas a cada suíte, seja ela com os quase 10 minutos de ''Up From The Skies'' ou os mais de 16 ao som de ''Gypsy Eyes''... Rapaz, o espólio do senhor James Marshall é torcido com a maior classe e visto de todos os ângulos da batuta Jazzística.

O sentimento é absurdo, o magnetismo quase xamânico. Depois que a Haze fica Purple no arroxeado de partituras da última jam, ''Purple Haze-Star Spangled Banner'' conclui algo de suma importância: não importância o referencial, a música do senhor Jimi Hendrix é tão poderosa que ela possui o poder de se renovar na mente dos melhores criadores. Fé em Jimi que ele é Hendrix. Obrigado Lonnie Smith & Trio, vocês entenderam o recado!

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Emily's D+Evolution: aqui Jazz Esperanza Spalding

A Esperanza Spalding faz o universo crer em novas dádivas para o mundo da música. Como da gosto ver essa moça trabalhar, como é reconfortante saber que dentro dessa nova geração de músicos da modernidade, ainda existam um bocado de mentes inquietas como a dessa bela senhora.

Acompanhar sua carreira é um deleite. É ótimo estar vivo, respirando e ocupando o mesmo espaço/tempo que essa distinta musicista utiliza como plano de fundo para suas ideias. É de uma beleza sem prescedentes ver o bem que ela faz, não só para o Jazz, mas a para a música de maneira geral.


Desde 2006 com o singular ''Junjo'', passando por ''Esperanza'' (2008) e a badaladíssima dupla ''Chamber Music Society'' (2010) e ''Radio Music Society'' (2012), que a Esperanza conseguiu atingir a massa Jazzística, mas também conseguiu sair um pouco desse polo ''erudito'' e atingir outros públicos também.

Tudo isso graças à excelentes colaborações com outros músicos, que surpreendendo também pelo ecletismo - vale lembrar que a sinhá já gravou até com o mestre Milton Nascimento - evidenciam como o grave da senhorita Spalding busca criar, priorizando apenas sua liberdade criativa.


Mas ainda assim, depois de tudo isso que já foi acrescentado, creio que foi só agora, em 2016, com seu quinto trabalho de inéditas (o exuberante ''Emily's D+Evolution''), que ela se escancara para o mundo todo. Por isso, antes do play, vista seu terninho psicodélico e entre nesse baião em Jazz.

Line Up:
Esperanza Spalding (baixo/piano/sintetizadores/vocal)
Katriz Trinidad (vocal)
Matthew Stevens (guitarra)
Fred Martin (vocal)
Karriem Riggins (bateria)
Emily Elbert (vocal)
Corey King (teclados/trombone/sintetizadores/vocal)
Celeste Butler (vocal)
Justin Tyson (bateria)
Nadia Washington (vocal)



Track List:
''Good Lava''
''Unconditional Love''
''Judas''
''Earth To Heaven''
''One''
''Rest In Pleasure''
''Ebony And Ivy''
''Noble Nobles''
''Farewell Dolly''
''Elevate Or Operate''
''Funk The Fear''
''I Want It Now''
''Change Us'' - Bônius
''Unconditional Love (Alternate Version)'' Bônus


''Emily's D+Evolution'' é um disco de um artista plena, uma alma que visa mais do que o lado estético das artes. Um excelente trabalho que mais do que músicos comprometidos, carrega a assinatura de um talento raro. O talento que fica pra sempre no tempo, o feeling de quem faz música por paixão. Música pela música, como deveria ser em todas as ocasiões.

E aqui, se você contar as duas faixas bônus da versão Deluxe, temos 12 excelentíssimas ocasiões. Grandes passagens que, plenamente produzidas pela própria Esperanza, junto ao incansável Tony Visconti, chegam para desconstruir todo o seu vocabulário musical, a ponto de originar um novo conceito que até agora não sei classificar, e rapaz, como é bom ouvir algo inclassificável!


Em cada tema Esperanza & banda tiveram o talento de cumprir a principal missão que a concepção desse trabalho teve: criar um universo particular em cada um dos temas. É interessante que todas as faixas são bem compactas (nenhuma delas supera a marca dos cinco minutos), mas em todas as oportunidades, elas são tomadas por uma grandeza que explora todas as possibilidades dentro de cada contexto.

Antes do lançamento desse disco (8 meses atrás), a americana que canta ''Ponta de Areia'' participou de mais uma session patrocinada pelo Skype. Esse foi o primeiro contato com a nova persona que gravou esse CD, e acredito que o impacto tenha sido impressionante.


Realmente, tudo mudou. O baixo trampa como baixo, mas faz estágio num som que as vezes entra muito mais como percussão do que como a espinha dorsal da jam. A bateria é bastante beneficiada pelo formato em trio e consegue segurar o ímpeto da Telecaster em nome dos experimentos quase sinfônicos em alguns momentos.

A harmonia foi o elemento que cunhou esse trabalho. Com uma banda montada só para este novo começo, alguns dos insights Progressivos que aparecem aqui com uma voz angelical na cobertura, jamais seriam possíveis sem Karriem Riggins na bateria e Matthew Stevens na guitarra. Acredite, essa dupla (junto com a Esperanza), parecem brincar com os tempos de todos os sons, o tempo todo.

O time de backing vocals que complementa a banda com Corey King nos metais, teclados, sintetizadores e voz, também faz um trabalho sublime. Com novas camadas de vozes, Spalding consegue trabalhar com a sua lírica nos microfones de uma maneira também inédita.


É engraçado como algumas pessoas ficaram chocadas com esse lançamento. Antes da data ninguém entendia nada. Todos estavam impressionados com a nova música e o novo visual, mas poucos souberam diluir os fatos.

Emily é o nome do meio de Esperanza. O conceito desse disco surgiu de um sonho onde a criadora desse universo particular se viu em 11 retratos. O fio condutor é pegar Emily, uma criança, como referência, e caminhar nesse campo rumo a um maior auto conhecimento dentro dos campos da vida, amor, sexo e processo criativo.


E o melhor de tudo é ver como todos esses climas  conspiraram a favor de um LP que exala originalidade. Em sons como ''Good Lava'' e ''Funk The Fear'' a baixista nos mostra que seu conservatório foi Rock 'N Roll. Com ''Ebony And Ivy'' temos um poema musicado que comprova sua nova abordagem com a voz, numa pegada que deixaria Gil Scott-Heron muito orgulhoso.

Mas é ao som da belíssima ''Unconditional Love'' que o ouvinte já se apaixona. Aquele bom e velho baixo cristalino. Ondas de Jaco Pastorius. Guitarras jugulares na medida de um McLaughlin solando em ''Judas'', com uma conexão em ''Earth To Heaven'' e ''One'', que só foram possíveis graças ao vigor técnico de uma batera que ouviu bastante Alphonse Mouzon.

A Esperanza sempre foi todo esse estardalhaço. A diferença é que agora ela regularizou a situação no cartório. Muito obrigado Emily, aqui Jazz Esperanza Spalding e sua poesia, toda trabalhada em vossa contemporaneidade.

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Pat Metheny e o brilho insular de Bright Size Life

Toda vez que me deparo com algum músico gosto de saber sua idade. Não que ache que exista uma idade certa para começar ou que considere inapropriado usufruir de meu tempo com músicos da nova safra, mas não gosto de ouvir caras jovens demais.

Sempre parti do princípio que o exagero é a alma do negócio, às vezes o cara nem é tudo isso, mas o fato dele já possuir conteúdo gravado, com tão pouca idade, a ''mídia especializada'' acaba subindo a qualidade do material. A crítica acaba corrompendo o tempo de gestação para poder de fato avaliar a qualidade de um disco da maneira adequada.


Por isso que nessas horas me abstenho da crítica e tento elaborar hipóteses por mim mesmo, pois existem vários registros de músicos que atualmente são considerados geniais e que na época de certas gravações não tinham nem 20 anos.

É algo bem relativo, por isso, não se guie pela crítica, use-a a seu favor, veja por exemplo ''Bright Size Life'' (lançado em 1976), a estréia do brilhante Pat Metheny ao lado de nada mais nada menos que Jaco Pastorious.

O cidadão tinha 21 anos de idade quando esse disco se tornou público e o amadurecimento dos temas é simplesmente inacreditável, a técnica, as composições, a qualidade de fato magnífica de seu Jazz e o estrago de Jaco no baixo é um detalhe que torna qualquer tipo de comentário, absolutamente denecessário. 

Line Up:
Pat Metheny (guitarra)
Jaco Pastorius (baixo)
Bob Moses (bateria)



Track List:
''Bright Size Life''
''Sirabhorn''
''Unity Village''
''Missouri Uncompromised''
''Midwestern Nights Dream''
''Unquity Road''
''Omaha Celebration''
''Round Trip/Broadway Blues'' - Ornett Coleman


Pat Metheny foi um dos primeiros guitarristas de Jazz que conheci e como se não bastasse este fato, o americano ainda foi um dos primeiros caras que me mostraram a beleza de uma bela guitarra semi acústica. 

Aliás, até hoje esse cidadão e o George Benson são meus nortes neste campo, afinal com uma dessas não tem conversa ou indivíduo toca muito ou não toca nada. Nessa aresta da música o som é limpo, cristalino, 100% guitarra, sem essa de efeitos, tudo no feeling, assim como o Jazz desse grande baluarte.


Essa foi a estréia do guitarrista e a audácia do projeto já algo a se considerar, não só pelo fato de termos o baixo fretless do inconfundível de Pastorius, mas também por que o baixista concordou em tocar em um disco de estréia de um cara que, apesar de jovem espantava por seu talento desde muito cedo. 

E fazer uma Jam dessas em forma de trio é muita responsa. Bob Moses é pouquíssimo citado, mas o cidadão arrebenta nas baquetas. São cerca de quarenta minutos de um som primoroso, o único tilintar grooveado de um bom e raro fretless solando sob uma fabulosa semi acústica sob camadas leves e sinuosas de uma inspiradíssima bateria. 


Eis aqui um daqueles discos que impressionam não só pela qualidade, mas também pelo fato de mostrar um músico total e absolutamente pronto. Mas cuidado com interpretação, isso não quer dizer que Pat não tenha evoluído! Hoje o cabeludo toca muito mais, porém, desde o primeiro disco, ele mostrou a que veio com um domínio avassalador, algo que apenas os grandes conseguem. 

Grande Pat, escutem sem medo, a fluência desse trabalho é deliciosa, o cover do Ornett Coleman (''Round Trip/Broadway Blues'') é lindíssimo. Vamos manter o tom de surpresa e deixar que seus ouvidos solucionem outros mistérios sobre esses 37 minutos de perdição sonora. Pode me agradecer nos comentários hahaha!

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Lonnie Smith Trio & o chapante tributo de Foxy Lady

Hammond B3. Se um cara aparece falando que toca um negócio desse, bom, na maioria das vezes significa que ele come as teclas com farofa. Ninguém em sã consciência senta no cockpit de um Hammond se não for pra mostrar talento.

É muita responsabilidade seguir com um legado desse tamanho. O marfim fica até mais pesado, mas se o músico sabe o que está fazendo e honra as calças do orgão, devo salientar que aí sim nós estamos bem acompanhados.


Se for um Lonnie Smith então, ai a viagem está garantida. O único trabalho que você vai ter é procurar os discos, por que depois do play, o negrão faz o Diabo com as teclas que um dia emanaram a paixão pelo Gospel.

Munido de um estilo e uma longevidade produtiva-criativa que desafia o tempo e o espaço, Lonnie é de longe um dos maiores nomes que já ousaram comprar um B3 pra colocar o copo de whisky no apoio.

Com um vocabulário musical dos mais assustadores, Dr. Lonnie chega de turbante e coloca seu cabelo em pé com uma fusão de Jazz & Soul que é capaz de converter qualquer tipo de som para sua cozinha, e se você duvida, rapaz, o senhor mal sabe o perrengue que esse seu questionamento pode lhe proporcionar.

Line Up:
Lonnie Smith (Hammond B-3)
John Abercrombie (guitarra)
Marvin ''Smitty'' Smith (bateria)



Track List:
''Foxy Lady''
''Castles Made Of Sand - Star Spangled Banner''
''Third Stone From The Sun''
''Jimi Meets Miles''


Nunca duvide do doutor Lonnie Smith. Na prática ele não é um ''Doctor'' por que não tem formação musical, mas quem ousa duvidar da alcunha que abençoa este nobre reverendo com a classe de uma bengala Real?

Isso mesmo, ninguém que tenha juízo! Por isso, muito cuidado quando começar a perambular pela faraônica discografia do mestre, pois é bem provável que a cada disco, você abra portas que nem sempre estavam ali para serem utilizadas naquele momento. E o Mogno que me levou à ''Foxy Lady'', um dos discos que Lonnie fez em prol da guitarra Hendrixiana, é um dos exemplos disso.


Insanidade pura. Talvez nem isso descreva o que Smith e seu trio fizeram com o repertório de Jimi nesse disco. O selo que lançou um petardo desse porte devia ter colocado todos os avisos possíveis para preparar o ouvinte antes da audição, até por que o conteúdo dessa gravação originou um dos tributos mais acachapantes que alguém se prestou a fazer para o Cherokee.

A questão não é nem de onde ele tirou essa ideia, o negócio é a criatividade e a visão estética que Lonnie & Cia conseguiram colocar no mesmo raio de convergência. E se você ousa voltar a duvidar desse experimento, em 1995 (um ano depois de lançar esse disco), o americano voltou com mais um projeto de covers e desconstruiu mais um pouco da Fender do senhor Strato Black Power, dessa vez com o exuberante ''Purple Haze'', mais um registro lançado via Music Masters.


Mas sem deixar o groove cair como se fosse uma peteca, retornemos ao ''Foxy Lady'', disco tema dessa resenha. Não se engane pelo track list curto, apesar de ter apenas 4 faixas no recheio, o CD beira 60 minutos de piração psicodélica e o baque é voraz.

Sinuoso desde a abertura com a faixa título, chegando com classe até o feeling cadenciado de ''Castles Made Of Sand'' e ainda repatriando uma versão de Jimi para o saudoso hino nacional norte americano. Lonnie cria um repertório realmente digno de nos fazer ficar de pé e fritar com a mão no peito.

A guitarra de John Abercombrie plana num trimbre venonosíssimo. Nunca sai do tom, mas fica desafiando os limites do Jazz com passagens cruas, dedilhados sublimes e algumas pirotecnias que além de relembrar o legado do mestre, ainda somam no groove com algo próprio do senhor Abercombrie, haja coragem!


Lonnie é o manda chuva no som durante a maior parte do tempo, mas é muito interessante perceber como ele entra e sai de cena sem impactar no som. A grandiosidade é compartilhada durante esse registro e os brilhos individuais são muito bem divididos, sem esse mimimi de superstar e com muito groove nas baterias quase Free Jazzeadas de Marvin Smith, o baquetas man responsável por acompanhar tamanho arregaço instrumental.

Mas a cada tema os caras parecem se reinventar, e é com a versão de ''Third Stone From The Sun'' que a banda se consagra, sempre em meio à tempos dos mais amalucados. Demonstrando uma fluência retumbante e um domínio de repertório com exatidão estética que é a receita base do único som autoral do disco, o tema que finaliza o inquérito Funkeado com uma faixa que tenta emular algo épico e que infelizmente jamais aconteceu, o encontro de Miles Davis & Jimi Hendrix.

''Jimi Meets Miles'' é um som tão inventivo que nos faz pensar que essa jam realmente foi parar em disco, mas ai depois de mais de 56 minutos de fritação, voltamos ao normal e percebemos o óbvio: boa música pode levar a alucinações. Dr. Lonnie não é Doutor sem motivo meu caro!

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Marco Nalesso e A Fundação: 11 de abril no Sesc Consolação

O Brasil segue pulsando. Todas as veias e artérias se mostram livres para voltar aos bons tempos do livre trânsito sonoro. Uma liberdade criativa que elimina barreiras e consegue absorver a música sem nenhuma ideia delimitada, originando a pura e absoluta desconstrução.

Uma ruptura que é o gene responsável por criar algo novo e, se tratando da programação do Sesc Consolação (tendo em mente o mês de abril), creio que a síntese de todos os tópicos abordados nesses dois primeiros parágrafos poderia ser definida pelo combo do Marco Nalesso e A Fundação.


Com mais uma noite pelo projeto Sesc Instrumental, a bola da vez agora é um dos grupos mais interessantes dentro do cenário atual, não somente dentro do contexto instrumental, mas é ainda mais gratificante observar toda a atenção que esta aresta da música voltou a receber.

Por isso, na segunda feira, às 19:00 horas em ponto, não marque bobeira e confira um dos grupos mais peculiares do rico cenário do ABC paulista. Haja Free-Jazz para tanta fritação e ambientação sonora, frente a um dos trabalhos mais audaciosos que o nossa terra deu luz. Busca sua essência na ambientação de ''Seuva'' e apenas aguarde pelas saudações!

Serviço:
O que: Marco Nalesso e A Fundação
Onde: Sesc Consolação: Rua Dr. Vila Nova, 245
Quando: 11/04/16
Quanto: grátis


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Johnny Winter & seu abuso de poder Live At Rockpalast

O ano era 1979 e o lugar foi mais um especial da Rockpalast. Dessa vez o convidado era Johnny Winter, e mesmo com a casa completamente apinhada, duvido (e muito) que a plateia poderia imaginar o estrago que um dos maiores mestres do Blues com gasolina & Rock 'N' Roll, estava prestes a equalizar quando chegou nas dependências do recinto.

O impacto foi tanto que esse show foi além, deixou de ser apenas um especial de TV e virou disco ao vivo (''Rockpalast: Blues Rock Legends Vol.3, lançado em 2011) e DVD. Uma caixinha bem da vagabunda, confesso, mas que de maneira importada, atravessou o ocenano de balsa e chegou aqui em casa pra comprovar o quanto esse cara se doava no palco e, em trio então, rapaz, recomendo que você assista essa dichavação sentado.


Johnny Winter (vocal/guitarra/baixo)
Jon Paris (baixo/guitarra/gaita/vocal)
Bob Torello (bateria)



Track List:
''Hideaway''
''Messin' With The Kid''
''Walking By Myself''
''Mississippi Blues''
''Divin' Duck''
''Suzie Q''
''I'm Ready''
''Rockabilly Boogie''
''Medley''
''Jumpin' Jack Flash''


Duas horas de show. Duas horas de um dos maiores shows que esse digníssimo albinão fez na vida. A pegada... Johnny era muito isso, ele é a pegada personificada. Veja que confundi passado e futuro na frase anterior, mas foi tudo meramente proposital, pois Johnny é capaz de estar aqui e ali ao mesmo tempo.

Sua guitarra vai e volta. Sobe e desce com a mesma detreza, seja na descida ou numa rotatória na encruzilhada do Blues. E quando esse cara pega a dedeira... Seu Blues é único por que é talvez o mais selvagem que existe, mas mesmo no seco e sem massagem, o feeling entrava na jogada e transformava um slide numa arma branca. 


Slide + Firebird = incêndio


Veja só a equação acima. Foi essa fórmula básica que fez com que a vida de Winter fosse tão caótica e unha & carne com o Blues, mesmo aos trancos e barrancos. Agora olha esse sequência: 

''Progressive Blues Experiment'' (saiu em 1968 pela Sonobeat e foi relançado em 69 pela Imperial)
''Johnny Winter'' (1969)
''Second Winter'' (1969)
 ''Johnny Winter And'' (1970)
 ''Still Alive And Well'' (1973)
''Saints And Sinners'' (1974)
''John Dawson Winter III'' (1974)
''Nothin' but the Blues'' (1977)
''White Hot And Blue (1978)


Foi com essa sequência que o Johnny Winter chegou pra fazer esse show. Qual seria a motivação de um cara que aos 35 anos, depois de 8 discos fantásticos, dezenas de shows com lotação máxima, milhares de LP's vendidos e todo e qualquer tipo de adoração, teria ao levantar da cama?

Se tratando de um dos guitarristas mais apaixonados que existem, devo dizer que Winter deve ter feito essa pergunta a si mesmo, ainda no backstage do Rockpalast, não soube responder, olhou pra Firebird e deu um sorrizinho com o canto da boca.


Talvez o lance seja esse. O Blues não tem motivação, você tem que sentir o negócio bem nas entranhas, e acho que pra começar, basta sentir, e isso Johnny fazia até dormindo. E para os que acham que a popularidade do maestro estava caindo pela falta de clássicos, esse DVD chega para calar sua boca e mostrar um gênio no topo de seu jogo, em trio, com um som que lhe pega pelo pescoço sem dó nem piedade.

O whisky já desce queimando com ''Hideaway''. Freddie King logo de cara. Depois rola umas pitadas de Junior Wells com uma endiabrada versão de ''Messin' With The Kid'', e uma dose de Jimmy Rodgers pra encerrar a primeira trinca da apresentação com a classe de Walkin' By Myself''.

Mas o Texano não fica só em Chicaco não, Johnny B. Good chega junto no Delta também como os cavernosos 17 minutos de ''Mississippi Blues'', mais um cover, só que dessa vez de Willie Brown. Mas não é só o guitarrista que brilha nessa noitassa.


Jon Paris arrebenta no baixo, deixa o som com mais caldo o tempo todo e ainda tem a moral de querer tocar guitarra em ''I'm Ready'', enquanto Johnny mostra que com ele não tem tempo ruim. É só o instrumento ter corda que vai ter Blues, e enquanto a bateria de Bob Torello segue imparável, Jon ainda aproveita pra mostrar que não tem asma na gaita. Brincadeira pouca é bobagem.

Mais do que só mandar covers, sempre que Winter toca, seu som nos mostra como o Blues é a base de tudo, tanto é que ele compunha bem pouco e sempre baseou sua vida em covers. Só que aí é que está a mina de ouro, a profundidade dessas mensagens é tão grande que ele viveu sua vida para entender esse enigma chamado Blues e, bom, mesmo que ele não tenha deixado nada por escrito, seus registros no vinil são a prova viva de como ele sabia o que estava fazendo, perdão, sentindo.

Sola mestre.

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O manual da Criolescência: ideologia como revolução filosófica

A teoria do caos em Nietzsche. Fragmentos de poesia em hiperlink. A força de 400 budas eletrizados em polos positivos e negativos. O bagulho foi louco tio, a equação foi simples e o resultado eliminou tantas incógnitas, que no fim do verso a vista panorâmica de todo o perrengue do mundo em chamas, só não deu luz a um apocalipse, por que o Criolo, o bombeiro da Babilônia, estava no palco.

O séquito do guerrilheiro Lion Man estava sem banda. A proposta era outra. O esquema foi cru, do jeito que só o verdadeiro Rap de essência, aquele controlado pelas riscas do vinil, pode soar. A gênesis em trio, com Dan Dan e DJ Marco foi épica. Ao fundo um painel de LED nos guiava rumo a utopia em Grajauex e, para a base, o flow saia como um especial do Raiden, depois que você aplica o ''FINISH HIM'' no Mortal Kombat, é claro. 


Segundo o site da Audio Club, a casa comporta 3.000 pessoas. Duvido muito que a superlotação do recinto não tenha sido corrompida. Quem chegou logo que as portas se abriram mostrou visão, pois perto das 23:00 o lugar já estava apinhado. Quando deu 00:45 então, hora em que o complexo explodiu como num Black Friday de muamba em Bogotá... Seloco, vish maria.

Rapaz, se você tivesse uma faquinha daquelas que vem no rocambole que você compra por cinco conto na padaria, dava pra cortar a energia dessa noite em blocos de fumaça. Foram mais de duas horas de evangelho Criolêz. Mais de 120 minutos de pregação messiânica que conseguiu, mais uma vez, equalizar todas as ideologias do núcleo de fiéis presentes, em prol de um nirvana que em tempos de Brasil, é quase uma sádica miragem de suicídios.


O transe da plateia. A conexão entre Dan Dan, DJ Marco e o próprio senhor Kléber Cavalcante Gomes... É impossível mensurar o quanto que esse cidadão faz bem para a música. É notável como ele consegue dialogar com todos os públicos, fora que o repertório dessa nova turnê é especialíssimo e foi lindo ver o renovado interesse com que seu fãs receberam o retorno do fantástico ''Ainda Há Tempo'', um disco atemporal que em 2016 celebra 10 proféticos anos de existência.

É engraçado que dentro da discografia do xamã, esse foi o disco que menos fez barulho na cena. Suas ideias explodiram mesmo só em 2009, com o excelente e elogiadíssimo ''Nó Na Orelha'', e mesmo depois que o ''Convoque Seu Buda'' chegou em 2014 com a mesma sutileza de um coquetel molotov, o pessoal queria mesmo era a volta do Criolo Doido.


E o tempo pra isso não poderia ser melhor. Quando o Criolo pede ajuda aos dreadlókis do Dan Dan e liberta seu espírito com os dizeres: ''as pessoas não são más mano, elas só estão perdidas''... Perceba o teor de gás lacrimogêneo presente nessa frase. 

Sair de casa para esse encontro, frente a um dos músicos que mais valoriza essa troca de valores com os braços que pulsam no ar como num mar de caranguejos no mangue, vai muito além dos 3,80 que as pessoas pagam pela lotação pra chegar ao evento de Rap.


Não é só um show. Chamar essa elevação de show chega a ser até uma ofensa. Quem vai ver esse ser iluminado busca um norte e, por mais louco que pareça, creio que seja evidente para todos os corpos que colaram na Audio Club, que se você chegou perdido na vida para este rolê, depois do fim do espetáculo, o seu GPS encontrou o fio de prumo da meada.

Se você tá pra ver o mundo aqui sucumbir, demorô, mas fique sabendo que o expresso da sabedoria de ébano pretende alterar a sua percepção e seu pensamento, além de captar a sua atenção e reposicioná-la perante um novo momento. Pra quem duvidava da importância desse disco, trate de colocá-lo pra girar e concluir que o caos já estava sendo anunciado com 10 anos de adiantamento na função, tudo sem juros e sem entrada. Sentimento é isso.


Não adianta querer chegar no sapatinho agora. o Rap é forte e o verdadeiro teste está nas ruas. Na viela de grafites gritantes, dentro das duas buchas de cinco do seu traficante freguês da meia noite e junto com o pacote de sucrilhos que a aeromoça lhe servirá nesse plano de voo rumo a utopia.

E aí, ainda tem a moral de duvidar que ainda há tempo? Nada nunca termina.

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