Johnny Winter & seu abuso de poder Live At Rockpalast

O ano era 1979 e o lugar foi mais um especial da Rockpalast. Dessa vez o convidado era Johnny Winter, e mesmo com a casa completamente apinhada, duvido (e muito) que a plateia poderia imaginar o estrago que um dos maiores mestres do Blues com gasolina & Rock 'N' Roll, estava prestes a equalizar quando chegou nas dependências do recinto.

O impacto foi tanto que esse show foi além, deixou de ser apenas um especial de TV e virou disco ao vivo (''Rockpalast: Blues Rock Legends Vol.3, lançado em 2011) e DVD. Uma caixinha bem da vagabunda, confesso, mas que de maneira importada, atravessou o ocenano de balsa e chegou aqui em casa pra comprovar o quanto esse cara se doava no palco e, em trio então, rapaz, recomendo que você assista essa dichavação sentado.


Johnny Winter (vocal/guitarra/baixo)
Jon Paris (baixo/guitarra/gaita/vocal)
Bob Torello (bateria)



Track List:
''Hideaway''
''Messin' With The Kid''
''Walking By Myself''
''Mississippi Blues''
''Divin' Duck''
''Suzie Q''
''I'm Ready''
''Rockabilly Boogie''
''Medley''
''Jumpin' Jack Flash''


Duas horas de show. Duas horas de um dos maiores shows que esse digníssimo albinão fez na vida. A pegada... Johnny era muito isso, ele é a pegada personificada. Veja que confundi passado e futuro na frase anterior, mas foi tudo meramente proposital, pois Johnny é capaz de estar aqui e ali ao mesmo tempo.

Sua guitarra vai e volta. Sobe e desce com a mesma detreza, seja na descida ou numa rotatória na encruzilhada do Blues. E quando esse cara pega a dedeira... Seu Blues é único por que é talvez o mais selvagem que existe, mas mesmo no seco e sem massagem, o feeling entrava na jogada e transformava um slide numa arma branca. 


Slide + Firebird = incêndio


Veja só a equação acima. Foi essa fórmula básica que fez com que a vida de Winter fosse tão caótica e unha & carne com o Blues, mesmo aos trancos e barrancos. Agora olha esse sequência: 

''Progressive Blues Experiment'' (saiu em 1968 pela Sonobeat e foi relançado em 69 pela Imperial)
''Johnny Winter'' (1969)
''Second Winter'' (1969)
 ''Johnny Winter And'' (1970)
 ''Still Alive And Well'' (1973)
''Saints And Sinners'' (1974)
''John Dawson Winter III'' (1974)
''Nothin' but the Blues'' (1977)
''White Hot And Blue (1978)


Foi com essa sequência que o Johnny Winter chegou pra fazer esse show. Qual seria a motivação de um cara que aos 35 anos, depois de 8 discos fantásticos, dezenas de shows com lotação máxima, milhares de LP's vendidos e todo e qualquer tipo de adoração, teria ao levantar da cama?

Se tratando de um dos guitarristas mais apaixonados que existem, devo dizer que Winter deve ter feito essa pergunta a si mesmo, ainda no backstage do Rockpalast, não soube responder, olhou pra Firebird e deu um sorrizinho com o canto da boca.


Talvez o lance seja esse. O Blues não tem motivação, você tem que sentir o negócio bem nas entranhas, e acho que pra começar, basta sentir, e isso Johnny fazia até dormindo. E para os que acham que a popularidade do maestro estava caindo pela falta de clássicos, esse DVD chega para calar sua boca e mostrar um gênio no topo de seu jogo, em trio, com um som que lhe pega pelo pescoço sem dó nem piedade.

O whisky já desce queimando com ''Hideaway''. Freddie King logo de cara. Depois rola umas pitadas de Junior Wells com uma endiabrada versão de ''Messin' With The Kid'', e uma dose de Jimmy Rodgers pra encerrar a primeira trinca da apresentação com a classe de Walkin' By Myself''.

Mas o Texano não fica só em Chicaco não, Johnny B. Good chega junto no Delta também como os cavernosos 17 minutos de ''Mississippi Blues'', mais um cover, só que dessa vez de Willie Brown. Mas não é só o guitarrista que brilha nessa noitassa.


Jon Paris arrebenta no baixo, deixa o som com mais caldo o tempo todo e ainda tem a moral de querer tocar guitarra em ''I'm Ready'', enquanto Johnny mostra que com ele não tem tempo ruim. É só o instrumento ter corda que vai ter Blues, e enquanto a bateria de Bob Torello segue imparável, Jon ainda aproveita pra mostrar que não tem asma na gaita. Brincadeira pouca é bobagem.

Mais do que só mandar covers, sempre que Winter toca, seu som nos mostra como o Blues é a base de tudo, tanto é que ele compunha bem pouco e sempre baseou sua vida em covers. Só que aí é que está a mina de ouro, a profundidade dessas mensagens é tão grande que ele viveu sua vida para entender esse enigma chamado Blues e, bom, mesmo que ele não tenha deixado nada por escrito, seus registros no vinil são a prova viva de como ele sabia o que estava fazendo, perdão, sentindo.

Sola mestre.

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