Lonnie Smith Trio & o chapante tributo de Foxy Lady

Hammond B3. Se um cara aparece falando que toca um negócio desse, bom, na maioria das vezes significa que ele come as teclas com farofa. Ninguém em sã consciência senta no cockpit de um Hammond se não for pra mostrar talento.

É muita responsabilidade seguir com um legado desse tamanho. O marfim fica até mais pesado, mas se o músico sabe o que está fazendo e honra as calças do orgão, devo salientar que aí sim nós estamos bem acompanhados.


Se for um Lonnie Smith então, ai a viagem está garantida. O único trabalho que você vai ter é procurar os discos, por que depois do play, o negrão faz o Diabo com as teclas que um dia emanaram a paixão pelo Gospel.

Munido de um estilo e uma longevidade produtiva-criativa que desafia o tempo e o espaço, Lonnie é de longe um dos maiores nomes que já ousaram comprar um B3 pra colocar o copo de whisky no apoio.

Com um vocabulário musical dos mais assustadores, Dr. Lonnie chega de turbante e coloca seu cabelo em pé com uma fusão de Jazz & Soul que é capaz de converter qualquer tipo de som para sua cozinha, e se você duvida, rapaz, o senhor mal sabe o perrengue que esse seu questionamento pode lhe proporcionar.

Line Up:
Lonnie Smith (Hammond B-3)
John Abercrombie (guitarra)
Marvin ''Smitty'' Smith (bateria)



Track List:
''Foxy Lady''
''Castles Made Of Sand - Star Spangled Banner''
''Third Stone From The Sun''
''Jimi Meets Miles''


Nunca duvide do doutor Lonnie Smith. Na prática ele não é um ''Doctor'' por que não tem formação musical, mas quem ousa duvidar da alcunha que abençoa este nobre reverendo com a classe de uma bengala Real?

Isso mesmo, ninguém que tenha juízo! Por isso, muito cuidado quando começar a perambular pela faraônica discografia do mestre, pois é bem provável que a cada disco, você abra portas que nem sempre estavam ali para serem utilizadas naquele momento. E o Mogno que me levou à ''Foxy Lady'', um dos discos que Lonnie fez em prol da guitarra Hendrixiana, é um dos exemplos disso.


Insanidade pura. Talvez nem isso descreva o que Smith e seu trio fizeram com o repertório de Jimi nesse disco. O selo que lançou um petardo desse porte devia ter colocado todos os avisos possíveis para preparar o ouvinte antes da audição, até por que o conteúdo dessa gravação originou um dos tributos mais acachapantes que alguém se prestou a fazer para o Cherokee.

A questão não é nem de onde ele tirou essa ideia, o negócio é a criatividade e a visão estética que Lonnie & Cia conseguiram colocar no mesmo raio de convergência. E se você ousa voltar a duvidar desse experimento, em 1995 (um ano depois de lançar esse disco), o americano voltou com mais um projeto de covers e desconstruiu mais um pouco da Fender do senhor Strato Black Power, dessa vez com o exuberante ''Purple Haze'', mais um registro lançado via Music Masters.


Mas sem deixar o groove cair como se fosse uma peteca, retornemos ao ''Foxy Lady'', disco tema dessa resenha. Não se engane pelo track list curto, apesar de ter apenas 4 faixas no recheio, o CD beira 60 minutos de piração psicodélica e o baque é voraz.

Sinuoso desde a abertura com a faixa título, chegando com classe até o feeling cadenciado de ''Castles Made Of Sand'' e ainda repatriando uma versão de Jimi para o saudoso hino nacional norte americano. Lonnie cria um repertório realmente digno de nos fazer ficar de pé e fritar com a mão no peito.

A guitarra de John Abercombrie plana num trimbre venonosíssimo. Nunca sai do tom, mas fica desafiando os limites do Jazz com passagens cruas, dedilhados sublimes e algumas pirotecnias que além de relembrar o legado do mestre, ainda somam no groove com algo próprio do senhor Abercombrie, haja coragem!


Lonnie é o manda chuva no som durante a maior parte do tempo, mas é muito interessante perceber como ele entra e sai de cena sem impactar no som. A grandiosidade é compartilhada durante esse registro e os brilhos individuais são muito bem divididos, sem esse mimimi de superstar e com muito groove nas baterias quase Free Jazzeadas de Marvin Smith, o baquetas man responsável por acompanhar tamanho arregaço instrumental.

Mas a cada tema os caras parecem se reinventar, e é com a versão de ''Third Stone From The Sun'' que a banda se consagra, sempre em meio à tempos dos mais amalucados. Demonstrando uma fluência retumbante e um domínio de repertório com exatidão estética que é a receita base do único som autoral do disco, o tema que finaliza o inquérito Funkeado com uma faixa que tenta emular algo épico e que infelizmente jamais aconteceu, o encontro de Miles Davis & Jimi Hendrix.

''Jimi Meets Miles'' é um som tão inventivo que nos faz pensar que essa jam realmente foi parar em disco, mas ai depois de mais de 56 minutos de fritação, voltamos ao normal e percebemos o óbvio: boa música pode levar a alucinações. Dr. Lonnie não é Doutor sem motivo meu caro!

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