O manual da Criolescência: ideologia como revolução filosófica

A teoria do caos em Nietzsche. Fragmentos de poesia em hiperlink. A força de 400 budas eletrizados em polos positivos e negativos. O bagulho foi louco tio, a equação foi simples e o resultado eliminou tantas incógnitas, que no fim do verso a vista panorâmica de todo o perrengue do mundo em chamas, só não deu luz a um apocalipse, por que o Criolo, o bombeiro da Babilônia, estava no palco.

O séquito do guerrilheiro Lion Man estava sem banda. A proposta era outra. O esquema foi cru, do jeito que só o verdadeiro Rap de essência, aquele controlado pelas riscas do vinil, pode soar. A gênesis em trio, com Dan Dan e DJ Marco foi épica. Ao fundo um painel de LED nos guiava rumo a utopia em Grajauex e, para a base, o flow saia como um especial do Raiden, depois que você aplica o ''FINISH HIM'' no Mortal Kombat, é claro. 


Segundo o site da Audio Club, a casa comporta 3.000 pessoas. Duvido muito que a superlotação do recinto não tenha sido corrompida. Quem chegou logo que as portas se abriram mostrou visão, pois perto das 23:00 o lugar já estava apinhado. Quando deu 00:45 então, hora em que o complexo explodiu como num Black Friday de muamba em Bogotá... Seloco, vish maria.

Rapaz, se você tivesse uma faquinha daquelas que vem no rocambole que você compra por cinco conto na padaria, dava pra cortar a energia dessa noite em blocos de fumaça. Foram mais de duas horas de evangelho Criolêz. Mais de 120 minutos de pregação messiânica que conseguiu, mais uma vez, equalizar todas as ideologias do núcleo de fiéis presentes, em prol de um nirvana que em tempos de Brasil, é quase uma sádica miragem de suicídios.


O transe da plateia. A conexão entre Dan Dan, DJ Marco e o próprio senhor Kléber Cavalcante Gomes... É impossível mensurar o quanto que esse cidadão faz bem para a música. É notável como ele consegue dialogar com todos os públicos, fora que o repertório dessa nova turnê é especialíssimo e foi lindo ver o renovado interesse com que seu fãs receberam o retorno do fantástico ''Ainda Há Tempo'', um disco atemporal que em 2016 celebra 10 proféticos anos de existência.

É engraçado que dentro da discografia do xamã, esse foi o disco que menos fez barulho na cena. Suas ideias explodiram mesmo só em 2009, com o excelente e elogiadíssimo ''Nó Na Orelha'', e mesmo depois que o ''Convoque Seu Buda'' chegou em 2014 com a mesma sutileza de um coquetel molotov, o pessoal queria mesmo era a volta do Criolo Doido.


E o tempo pra isso não poderia ser melhor. Quando o Criolo pede ajuda aos dreadlókis do Dan Dan e liberta seu espírito com os dizeres: ''as pessoas não são más mano, elas só estão perdidas''... Perceba o teor de gás lacrimogêneo presente nessa frase. 

Sair de casa para esse encontro, frente a um dos músicos que mais valoriza essa troca de valores com os braços que pulsam no ar como num mar de caranguejos no mangue, vai muito além dos 3,80 que as pessoas pagam pela lotação pra chegar ao evento de Rap.


Não é só um show. Chamar essa elevação de show chega a ser até uma ofensa. Quem vai ver esse ser iluminado busca um norte e, por mais louco que pareça, creio que seja evidente para todos os corpos que colaram na Audio Club, que se você chegou perdido na vida para este rolê, depois do fim do espetáculo, o seu GPS encontrou o fio de prumo da meada.

Se você tá pra ver o mundo aqui sucumbir, demorô, mas fique sabendo que o expresso da sabedoria de ébano pretende alterar a sua percepção e seu pensamento, além de captar a sua atenção e reposicioná-la perante um novo momento. Pra quem duvidava da importância desse disco, trate de colocá-lo pra girar e concluir que o caos já estava sendo anunciado com 10 anos de adiantamento na função, tudo sem juros e sem entrada. Sentimento é isso.


Não adianta querer chegar no sapatinho agora. o Rap é forte e o verdadeiro teste está nas ruas. Na viela de grafites gritantes, dentro das duas buchas de cinco do seu traficante freguês da meia noite e junto com o pacote de sucrilhos que a aeromoça lhe servirá nesse plano de voo rumo a utopia.

E aí, ainda tem a moral de duvidar que ainda há tempo? Nada nunca termina.

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