A Modernidade dos grooves de Bombay

A música é uma linha. Um traçado infinito que as vezes se quebra, sem perder a junção, e pode virar uma linha tracejada. Um loop infinito. Uma tênue divisão invisível entre o tempo e a distância da modernidade. 

A música não é uma linha, mas creio que ao se apoderar desta (que para esse texto) foi uma verdade absoluta, a teoria de converter notas em segmentos de reta foi um bom começo para se traçar um promissor raciocínio.

Ao dizer que a música é uma linha, o ideal de cronologia, de tempo, no sentido mais leviano da palavra, se torna absolutamente palpável. Dessa forma, é possível compreender que as reverberações são, também, um sinônimo de continuidade rumo ao mergulho sonoro na jam do milênio contemporâneo.
Existe é uma evolução na tecnologia que antes era do vinil e que hoje é touch screen no Spotify. O Fusion que antes viveu seu mais alto ponto de ebulição com a Eleventh House do Larry Coryell, ou o Prog que viajou em seu auge com o Emerson, Lake & Palmer... Rapaz, tudo isso mudou.   

Hoje o Fusion é Funkeado com uma timbragem diferente. O som da década de 70 ainda pode ser emulado, mas as características analógicas de outrora não são o que definem o gene da música atual. Por isso que algumas bandas, na tentativa de não soarem datadas, optam por experimentar, e aí o resultado são discos que devem muito ao passado, mas que contribuirão e muito para um próspero futuro.
O segundo disco de estúdio da Bombay Groovy, o sublime ''Dandy do Dendê'', é um grande exemplo de como é possível buscar referências no passado e mesmo assim, criar um som que consiga conversar com o futuro, e não apenas com um velho prog.

Com um registro à altura do que a banda faz em seus shows, esse trabalho chega também para evidenciar o lado mais negro da lua Fusion & Progressiva do trio. Com um tempero bem abrasileirado durante os 3 primeiros sons do CD (''Slip Disc '72'' ''Pavão Andaluz'' e Chakal'' respectivamente), a banda homenageia a baianidade cósmico de Danniel Costa com uma trinca de baiões indianos quentíssimos.

Com um frescor quase amazônico, é notável também observar a evolução no papel de cada um dos músicos envolvidos, além da latente presença de groove, Groovy, no caso desses senhores. Aquele caráter ácido que adiciona peso no som, mas que também sabe swingar.

Arte: Vanessa Deborah

Ao ouvir temas sinuosos e ricos, como ''Pavão Andaluz'', por exemplo, é nítida a precisão nas baquetas de Leonardo Nascimento. A maneira como ele sustenta o peso e varia suas linhas entre algo mais tribal, Funkeado e puramente Jazzístico... A unidade é um elemento primordial nesse novo som.

As teclas de Jimmy Pappon são o meu principal destaque. Em trio o ás do marfim malhado toca o baixo com uma mão e o Hammond com outra. Em quarteto, sua mente pode ser ainda mais caleidoscópica e pintar aquarelas vertiginosas, mas o Jimmy do ''Dandy do Dendê'' é um tecladista malandro. Um bon vivant que se apaixonou pela timbragem classuda de uma boa e velha clavineta e começou a emular slaps para o bem das viagens.

Rodrigo Bourganos, por sua vez, pode enfim abrir todo o seu laque de pirotecnias e se mostrar, também, bastante inventivo. Volto a salientar o sitar que o indivíduo opera como se fosse uma guitarra. Seus arpejos acústicos no bouzouki, na craviola e na guitarra são bastante livres, serenos e vale pontuar que até o baixo foi assinado por sua pessoa.


É impressionante como esses 3 músicos são fluentes. Em cada um dos vários dialetos sonoros presentes nessa gravação, o sentimento de todos aflora por toda a épica jornada que é esse novo trabalho. Durante o lançamento oficial do disco, no Sesc Belenzinho, a exatidão do repertório foi absurda.

A plateia que ocupava (um lotado teatro), se mantinha perplexa, faixa após faixa, perante um núcleo de músicos (que neste dia contava com o bass de Erico Jônis) e linkava um som no outro como se fosse a coisa mais fácil do planeta. Comia um ''Kebab à Pigalle'' para recuperar o fôlego, rodava a baiana com a faixa título ou pegava um táxi funkeado com ''Paul's Funky Cab''.

Tem de tudo por aqui. Se você quiser um pouco de Jazz Manouche, aprecie ''Django Lo-Ba''. Caso seus ouvidos estejam à procura de um bouquet acústico emoldurando um progressivo, a melhor escolha é a quase barroca ''Pre-Raphaelite Brotherhood''. Mas caso a preferência seja um Fusion étnico, aguarde pela classe de ''Scandale'', sem se esquecer do Blues indiano de ''Moksha Blues''.

''Bolero de Lilith'' e ''St. Olga'', essas são as novas auroras de Bombay. E digo mais, fico feliz de ter presenciado essa evolução. Nem sei o que eles vão fazer daqui pra frente, minha única certeza é a de que enquanto o instrumental seguir nesse nível, sempre acompanhado de tanto sentimento, bom, aí meu caro, o nosso único trabalho vai ser esperar por novas composições. Um brinde aos novos sons dos novos tempos. Haja psicodelia.

4 comentários:

  1. Então optaram por manter-se em trio. O Pappon é fera no Hammond mas não sei se segura mandar um baixo com a mão esquerda. Pode perder muitas nuances com isso. Bem, vou conferir mais tarde pra encontrar estas respostas.

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  2. Não sei, mas acho que não é preciso ouvir o som dos caras para saber que é bom, principalmente para quem ouviu o primeiro, esse é para colocar, dar o play e viajar, tiveram nuances super boas, o sitar, a bateria e o Hammond tem um encaixe próprio, o baixo não apareceu nas músicas que ouvi Pavão Andaluz e Lunar Toth.

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    1. Hey Vinicius! Fico feliz que tenha curtido o som da banda! Quanto ao baixo, Pavão Andaluz é do segundo disco e Lunar Toth é do primeiro, mas ambas possuem linhas de baixo muito presentes (inclusive tendo sido compostas nele mesmo). Talvez se você realçar os graves na sua EQ, ele pinte mais!

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  3. Edson, nesse disco o Bourganos gravou o baixo, no show no sesc teve baixista, mas quando em trio, o Jimmy segura e muito, a bucha de fazer os 2 instrumentos. Ficou fino!

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