Truckfighters em São Paulo: a insanidade é uma arte

A música é capaz de despertar os sentimentos mais primitivos no ser humano. Parece que o peso das caixas consegue elevar o corpo das pessoas para um latente estado de ebulição, liberando uma toxina das mais benéficas para o comportamento quase mundano, que é o que norteia a existência dos maiores fritadores.

E o cenário underground é o topo dessa cadeia de absurdos. O pico de criatividade que faz com que uma nação inteira de capitães caverna consiga rumar para a utopia da ignorância. Falta de modus operandi, que para quem estava presente do festival mais recente organizado pela Rock City, foi uma benção das mais tremendas.

Afinal de contas não é todo dia que você tromba o Monte Resina, nem o Macaco Bong, tampouco o Truckfighters no mesmo rolê. Um salve pra galera da Rock City, sem eles a segunda passagem dos suécos talvez nem saísse do papel.

Fora que depois que a banda passou como um tiro pelo país (durante o longínquo ano de 2012),  o mito em relação ao trio só cresceu. E o show foi tão contagiante quanto um vírus. Um shot de loucura pra lá de etílico que só começou a bater, depois que o Monte Resina mostrou para o público de bêbados calhordas de São Paulo, com quantos riffs de Iommi, é possível dançar um Fu Manchu.


Com uma performance coesa, sem excessos e bastante precisa, o trio de Florianópolis gastou, como dizem na gíria. Demonstrando um belo domínio de repertório, o instrumental da banda se expandia em jams intensas, dúzias de quebras e uma unidade instrumental intrínseca, sempre comandada pelas timbagens guitarristicas de Paulo Douglas.

O show foi uma simulação que nos mostrou o que acontece com os ouvintes mais calejados, depois que o play no único trabalho da banda, o compacto (EP) auto intitulado que saiu em 2014, é libertado. O instrumental passa zunindo como um projétil, a quarta faixa dessa interessante gravação.

A cena instrumental brasileira esteve em peso, seus admirados então, nem se fala. Depois que o Monte Resina saiu, as raspas do bong deixaram a plateia do Inferno Club completamente letárgica, mas logo depois o Macaco (dono do) Bong já entrou em cena. Munido de um set mais curto, porém igualmente impactante e minimalista dentro do que o conceito de dois baixos proporciona para a dinâmica do som, o (também) trio de Macumbeiros Afrociméticos, saciou seus devotos.


Evidenciando o peculiar trabalho do quase Punk Daniel Fumega e a interessante visão dos grooves de Bruno Kayapy e do estreante Daniel Hortides, o Macaco Bong fez um belo show, mas creio que seja importante frisar que, em virtude do atraso, o cronograma da banda foi encurtado para que o Truckfighters subisse ao palco mais cedo e fodesse a mente dos presentes com tempo hábil o suficiente para pagar a integração do metrô e dos ônibus. Se bem que depois do show vi muitos corpos vagarem perdidos. Bom, a produtora fez o seu trabalho.

Acredito que muitos estejam esperando a próxima cartada da banda, e pelo nível de entrosamento, parece-me bastante lógico prever que a experimentação com os timbres seguirá como o norte criativo, buscando alcançar novos níveis de insanidade com uma mistura que coloca o Dead Kennedys e o Morphine num lugar comum que é o mais puro veneno.

Mas aí entrou o Truckfighters e tudo caiu por terra. Foi quase como uma convenção de uma montadora de carros japoneses. A plateia estava consternada e a única coisa que consegui pensar foi: ''caralho, mal posso ver seus movimentos''. Colocando aquele sonar flamejante em prática, o também trio fez um show fantástico.



Mostrando toda a soberba técnica dos músicos suécos, Ozo, Dango e El Dano mostraram por que o bom e velho Stoner parece glicose quando bate na veia. Com um set list bem variado, dando atenção ao quarto (e mais recente disco dos caras, o competente ''Universe'', lançado em 2014), a banda promoveu um passeio alucinante que, entre intensos insights do clássico ''Gravity X'', do excelente ''Phi'' e do coquetel de Fuzz (vulgo terceiro disco, ''Mania''), promoveram uma emocionante simulação de fuga de um prédio em chamas.

Que banda meus amigos. É importante ressaltar que o Truckfighters não é só um combo de caminhoneiros brigões sem fundamento, a técnica dos envolvidos é absolutamente grandiosa. A bateria do imparável El Dano é a força motriz do som.

E enquanto a voz e o baixo de Ozo endossam bases e pontes quase jazzísticas em alguns momentos, toda a eloquência dentro de um todo que busca apenas enlouquecer o ouvinte, é movida com uma paixão enérgica pelo vândalo guitarrista Niklas Kallgren e sua inexorável presença de palco.


Foi formidável presenciar esse momento. Melhor do que isso foi ver a precisão que sempre vi nos discos, ali, na minha frente, sendo improvisada em sua mais pura e rica paleta de nuances chapadas, sempre ressaltando os épicos que formaram o peculiar ''Mind Control'' e suas timbragens que me fizeram pular como uma criança na loja de brinquedos.

Parecia um open bar no Coliseu. O palco nem estava preparado pra receber aquilo. A banda se consagrava a cada faixa e as ondas magnéticas que eram trocadas entre o elo banda-público, apenas mostraram o quanto a psicodelia desses caras consegue elevar o status da vadiagem, porres homéricos e do bom e velho Rock 'N' Roll feito com raça, sem o mimimi transviado do mainstream, com a mesma sutileza de um choconhaque pela manhã. Foi louco. Amanhã começo as aulas práticas no meu caminhão.

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