Gentle Zappa 3 a missão: Gentle Zappa & Giant Steps malhando o avant prog no Café Piu Piu

Você por acaso ouviu esse barulho? Em algum lugar do mundo, enquanto digito essas linhas, um disco do Zappa está sendo colocado para girar em seu próprio eixo. Pode crer. Veja, aconteceu outra vez e daqui exatos 30 segundos a fila andará para que o próximo disco mantenha o mundo girando. 


O que será que sustenta o nível de paixão dos antigos fãs? O que estimula novos admiradores à mergulharem neste planeta ainda não reconhecido? Essas são algumas das perguntas que gostaria que o Globo Repórter respondesse, mas enquanto o Sergio Chapelin ainda ignora os meus questionamentos, a única solução foi buscar respostas sem o auxílio da TV Globo.


É graças à atos como a Let's Zappalin' e a Giant Steps que a chama nunca se apaga. A primeira serve de modelo para os Zappeiros, já a segunda, faz a conexão com os cérebros mais progressivos, enquanto o projeto Gentle Zappa como um todo, equaliza todos os fãs envolvidos nesse legado de incontáveis gerações que será sediado mais uma vez no Café Piu Piu.

Por isso, fique ligado no evento do Facebook e prepara-se para ouvir ''Inca Roads'' e ''Time To Kill'' na mesma noite que o evento mais bigodudo de São Paulo, festeja sua terceira edição.

Serviço:
O que: Gentle Zappa
Quando: 30 de junho às 22:00
Onde: Café Piu Piu
Quanto: R$ 25,00 cascalhos Gentle-Zappeanos


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Isaac Hayes & o gratino de Hot Buttered Soul

Engraçado como certas coisas dão errado, mas no fim acabam dando certo. Muitos músicos possuem histórias engraçadas sobre seus primeiros trabalhos, desde tretas relacionadas com um baixo número de vendas, até problemas com os críticos que falaram mal de discos (que anos depois viraram clássicos)... São diversos relatos, mas nunca vi nenhum tão intenso como o background que envolveu o segundo disco do Isaac Hayes. O fantástico e exuberante ''Hot Buttered Soul'' (lançado em 1969), quase não viu a luz do dia.

Line Up:
Isaac Hayes (vocal/teclado)
Willie Hall (bateria)
James Alexander (baixo)
Michael Toles (guitarra)



Track List:
''Walk On By'' - Burt Bacharach/Hal Davis
''Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic''
''One Woman'' - Charles Chalmers/Sandra Rhodes
''By The Time I Get To Phoenix'' - Jimmy Webb


Quem escuta esse disco hoje em dia (ou até mesmo na época), mal sabe os apuros que nosso herói teve que passar para registrá-lo. Tudo teve início quando Isaac lançou seu primeiro disco, o competente ''Presenting Isaac Hayes'', um ano antes. O trabalho vendeu tão mal que o pianista pensou até em largar seu cargo de front man nos palcos e voltar para o backstage como produtor! 

Mas graças a deus que a Stax perdeu todo o catálogo do label (sabe-se lá como) e, como isso, Hayes teve mais uma oportunidade, pois segundo consta nos relatos, o material que sumiu era uma grande gama de grooves.

Notas quentes que se foram durante a divisão com a Atlantic Records, e o executivo da Stax na época, Al Bell, decidiu chegar para todos os artistas que a companhia tutelava e requisitar material inédito para poder relançar todo um novo catálogo.

E assim sendo, nomes como o do próprio Hayes e do guitarrista Steve Cropper, por exemplo, foram encorajados a gravar mais alguns takes e o resultado foi fantástico. Mesmo na estréia o som de Hayes já era muito bom, foi falta de sorte mesmo, mas no fim valeu a pena o sofrimento.


Temos aqui um marco do Soul, até mesmo do Funk (e do Jazz), por ter influenciado muitas bandas do estilo e futuramente do Hip Hop. São apenas quatro faixas, mas como resultado final, temos 45 minutos de uma música de excelente qualidade e duas suítes absolutamente formidáveis: os doze minutos do cover ''Walk On By'' de Burt Bacharach (que acabou ficou tão famoso com Hayes que muitos até pensam ser composição do americano) e os quase 20 de ''By The Time I Get To Phoenix'', outro cover, desta vez de Jimmy Webb.

Aqui que o som de Hayes, aquele Soul rico sempre fundamentado em sua voz poderosa, camadas de guitarras, metais e grandes trabalhos de piano e órgão seria definido. Esse trabalho, além de ser um clássico, é um marco criativo e quem gosta da longa obra que o músico nos deixou, conhece a força de suas longas jams.

''Walk On By'' estabelece um clima, o wah wah da guitarra é talvez um dos momentos mais conhecidos da música. ''Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic'' além de um nome que chama muito atenção, aparece com a receita mais ácida do disco e a única composição de Hayes para este LP.

As notas parecem simplesmente escorrer pelas mãos do mestre. Parece tudo obra de uma fabuloso e longuíssimo primeiro take. Aperte play em ''One Woman'' e sinta a liberdade, escute a paixão. Considero que essa beleza seja um dos discos mais bem produzidos de todos os tempos. Um pedaço grandioso de Opera Soul, se é que esse termo existe. ''By The Time I Get To Phoenix''  é uma das maiores músicas de todos os tempos, abaixe o vidro aí e sinta o vento batendo no rosto enquanto o a goma corre solta.

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Mahmundi comprova: não somos de açúcar!

Como lidar com aquele domingo que já começa com duas poças chafurdadas com o mesmo pé canhoto? O que pensar? Bom, ainda bem que sou destro. Atravessar a Avenida Paulista, rumo ao Mirante 9 de Julho foi complicado...

Fotos: Luis Sontachi

Talvez um dos maiores chichês ''resenhístiscos'' - citar uma jornada sob um péssimo panorama meteorológico - mas galego, valeu a peleja do Diabo com o dono do céu, já dizia Zé Ramalho. Melhor ainda foi chegar e topar o mirante muito bem povoado pra ver a Mahmundi.

A vista estava apinhada de guarda chuvas e, tão logo chegaram as 15:00 horas pelo horário de Brasília, o DJ Yugo mandou um risca faca finíssimo pra fazer o relógio marcar 16:30 como se fosse questão de 15 minutinhos.

Fotos: Luiz Sontachi
Daí pra frente só deu Mahmundi. Ela foi chegando na calma, dando os últimos ajustes no som e, depois da primeira faixa, já embalou. Enquanto isso, a vista das costas do Masp se misturava ao quê panorâmico da estrutura do Mirante, e o Neo-Groovy da carioca fazia o resto, tudo com direito a uma singela percussão do Sr. São Pedro.

Fotos: Luiz Sontachi

Quando o Ed Motta dedicou um post para essa sinuosa mucisista, creio que o fã mor de Steely Dan foi elementar quando salientou a abordagem de sua criatividade. Mais do que habitar os meandros do Pop, Marcela Vale mostra como ainda é possível evoluir e criar momentos tão leves e ricos, sem ao mesmo tempo compactuar com aquele mimimi monossilábico, sem feeling e ousadia, que caracteriza o perfil do que é feito no cenário atualmente. 

Sua música é fresca, genuína, orgânica, tem bom gosto e pulsa nos arranjos. Deixa o céu domingueiro azul, como num eterno verão. Deságua versos poéticos na batida dos hits do seu coração, e mostra que se o clima for leve, vale a pena até sair na chuva e confirmar que não somos de açúcar.

Fotos: Luiz Sontachi
Somos de groove. E o tilintar de orvalhos reverberando nos guarda chuvas valeu até um bis pra quem foi prestigiar a moça e seu inspirado trio. Climas profundos, minimalistas e aquele DNA que olha pra frente... Podem suspirar aliviados, as gotas já pararam de dançar, mas basta apertar play pra relembrar os 60 minutos de alquimia que os presentes observaram no domingo. É como dizem: ''Enquanto o dia vai, a gente se distrai''.

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Canned Heat & Clarence ''Gatemouth'' Brown em Montreux: a intimação do Boogie tinhoso

O Canned Heat é uma das bandas que melhor compreendem o Blues. Um dos atos mais cavernosas da história do Boogie, e em seu auge, um núcleo insano que só tinha os maiores entendedores da arte dos campos de algodão.

O Heat era tão foda que todo mundo que levava a escola do som de B.B. King à sério, tocou ou queria muito dividir o palco com Bob Hite & cia. Aliás, Hite não era apenas um gigante barbudo com uma traquéia avantajada e muito feeling na gaita, não, Bob, ''The Bear'', como era chamado, também foi um dos maiores colecionadores de compactos de Blues em todos os tempos.


Com uma coleção de discos de Blues que começou a se formar ainda quando Robert Ernest Hite tinha apenas 5 anos de idade, em 1948, o músico que trocava brinquedos por LP's cresceu e, junto dele, além de uma bela barriga, deu-se também a criação de um acervo que definitivamente fez frente à sua considerável circunfrência abdominal.

Só pra se ter uma ideia, por volta de 1980, cerca de um ano antes de sua morte, sua coleção contava com inacreditáveis 78 MIL discos de 45 e 75 rotações. O problema que naquela época, infelizmente, o vocalista precisou vender algumas perólas para quitar algumas dívidas.

E depois de nos deixar, vítima de um dos casos de overdose mais estúpidos de todos os tempos (ofereceram-lhe uma garrafa com um canudo durante um dos intervalos de um show em Hollywood, e o grandão, pensando que era cocaína, deu uma bela enxugada no conteúdo, mas ai quando falaram que era heroína o estrago já estava feito, o californiano ficou azul e disse adeus para este plano), um dos maiores Q.G's sonoros  da história começou a ruir.


Sua coleção sofreu bastante. Grande parte foi vendida por sua família, outra parte foi roubada, até mesmo dizimada e o pouco que sobrou, está sob a batuta de seu ex companheiro, o baterista Fito De La Parra.

Aliás, vale lembrar que a coleção de Hite foi tão grande, que esta serviu de base para que duas importantíssimas compilações saíssem. Através do selo belga Sub Rosa, ''Rarities From The Bob Hite Vault'' e ''Bear Traces: Nuggets From Bob's Bard'' (''Bob Hite Vaults Volume 2), vieram ao mundo e brindaram dezenas de historiadores com faixas que nunca tinham visto a luz do dia!

Só que mais do que um ávido conhecedor do estilo, Bob ajudou muitos dos maiores mestres do Blues dentro dos meandros cruéis do Business no Boogie. A banda do grandão gravou dois LP's com John Lee Hooker, falo sobre ''Hooker 'n Heat'' de 71 e ''Hooker 'n Heat: Live At The Fox Venice Theatre'', lançado em 1981.

Discos que ajudaram John a entrar nas paradas de sucesso pela primeira vez, ''favor'' que foi retribuido em 1989, ano em que o Bluesman voltou à ativa com ''The Healer'', um disco recheado de participações, sendo uma delas do próprio Heat.


Mas não foi só John Lee Hooker que teve a sorte de encontrar esses caras. Em 1968, Alan Wilson, Bob Hite e Fito De La Parra pegaram um taxi e perceberam algo estranho. O motorista do veículo era nada mais nada menos que Sunnyland Slim, um dos maiores pianistas da história do Blues.

Na hora em que todos perceberam que no lugar de manipular as teclas, Sunny estava gastando seus dedos na fricção de um volante, todos trataram de convencer o americano do Delta do Mississippi a voltar aos estúdios por uma subsidiária do próprio selo da banda na época, a Liberty Records.


E o resultado de toda essas desventuras, além de concretizar o retorno de um filho pródigo ao piano com um excelente registro (''Slim's Got His Thing Goin' On'', lançado em 68 e que conta com Mick Taylor nas guitarras), ainda rendeu uma bela parceria para o Heat com ''Turpine Moan'', tema que conta com as notas quentes de Sunny, recheando o também excelente ''Boogie With Canned Heat'', segundo disco da banda, também datado de 1968.


Acha que acabou? Como você é ingênuo pequeno gafanhoto! Sabe quem é esse senhor no primeiro plano da capa do décimo primeiro registro da banda? Muito bem trajado por sinal, o cidadão de blazer é Memphis Slim, outro grande pilar do piano Blueseiro. 

Memphis foi outro mestre esquecido que cruzou seu caminho com o do Heat. O ano foi 1970 e o CEP foi a lindíssima Paris, terra que recebeu uma das sessões de estúdio mais pesadas de todos os tempos. É bem verdade que demorou pra sair, mas quatro anos depois, em 1974, essas sessões se tornaram o exuberante ''Memphis Heat',' e com ele, Memphis Slim ganhou novo fôlego para seguir na batalha.


Mas ainda tem mais. Em 1968 Albert Collins estava tocando num pulgueiro qualquer e deu sorte de ter o Canned Heat no meio do público. A banda não só cantou a pedra para o guitarrista, apontando que o caminho para o seu Blues era Los Angeles, como também tratou de apresentá-lo para os executivos da United Artists e ainda arrumaram um empresário decente para o texano.

Não sei o que seria da carreira de Collins sem essa ajudinha do Canned, mas o que posso afirmar é que depois que seu segundo disco (o primeiro via United Artists), saiu, ''Love Can Be Found Anywhere'' (trecho extraído de um tema do Canned Heat, ''Fried Hockey Boogie''), isso não só o recolou no caminho de Robert Johnson, como também deu toda a visibilidade que o debutante do mestre, o pontual ''The Cool Sounds Of Albert Collins'', não conseguiu.


Então antes de falar mal sobre esses caras, por favor, veja que o trabalho deles vai muito além da paixão pelo Boogie. Ao cruzar e ajudar nomes como os dos citados acima, a banda conseguiu se aproximar de seus ídolos e com toda a certeza aprendeu muito. E já que estamos no clima das colaborações, deixei a melhor delas para o final.

Line Up:
Bob ''The Bear'' Hite (vocal/gaita/baixo)
Ed Beyer (teclado/piano)
Henry Vestine (guitarra)
Fito De La Parra (bateria)
Richard Hite (baixo/vocal)
James Shane (guitarra/vocal)
Clarence ''Gatemouth'' Brown (guitarra/gaita/violino/vocal)



Track List:
''On The Road Again''
''Please Mr. Nixon''
''Worried Life Blues''
''About My Oo Poo Pa Doo''
''Funky''
''Night Time Is The Right Time''
''Let's Work Together''
''Rock And Roll Music''
''Lookin' For My Rainbow''
''Shake 'N Boogie''


Na mesma época da colaboração do Canned Heat com Memphis Slim, Clarence Brown também gravou com a banda, mas a sinergia foi tanta que além de um disco de estúdio para registrar essa colaboração (''Gate's On The Heat'' de 74), Clarence voltou a tocar com a banda no tradicionalíssimo Montreux Jazz Festival (em 73) e deu no que deu, o show foi tão bom que virou DVD.


E que registro! Com o Boogie de uma das maiores bandas de Blues brancas em todos os tempos vivendo um de seus picos criativos, a participação de Clarence foi o termômetro para que ouvidos não iniciados no Blues conseguissem pulsar perante o conhecimento quase enciclopédico que Bob Hite e os outros músicos possuiam.

Na realidade o Sr. Gatemouth só participa de 4 temas, mas de ''Please Mr. Nixon'' até o groove ácido de ''Funky'', o reverendo gasta seu talento com muita classe, feeling e bom humor. A perícia no violino é um deleite, os solos na guitarra absolutamente inventivos e seus lamentos na gaita são tão contundentes que ele nem precisaria ter um vozeirão para chamar a responsa no gogó, mas ele tinha!

Além de resgatar um dos nomes mais subestimados do pré Rock 'N' Roll, o Canned Heat fez um showzaço antes e depois que Brown deixou o palco. Com uma banda azeitada, duas guitarras, piano e um bass encorpadíssimo, dá até gosto de ver o que essa nata de branquelos fez pelo Blues.

Mais do que ter paixão pelo slide, esse núcleo de mestres mostra que o sentimento é a base de tudo, e que até para sentir, é necessário conhecer a história desse gênero que apesar de surrado, nunca irá nos deixar. Sempre com aquele ar revitalizado, as pentatônicas estavam com tudo nessa noite, a plateia cumpriu seu papel de ficar perplexa por cerca de 80 minutos e o Blues, bom, ele segue dando um rolê por aí!

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