Ginger Baker - Hellraiser: The Autobiography Of The World's Greatest Drummer

Atualmente o mercado Brasileiro parece ter (finalmente) entendido que uma boa parcela da nossa população não sofre com o bendito ''emburrecimento musical''. As editoras finalmente começaram a trazer muitos títulos sobre música e, com isso, nós (fãs do groove literário) finalmente podemos ter acesso a uma grande gama de informação, que mesmo atrasada, chega para acrescentar repertório.

O problema é que ainda falta bastante coisa e nós ainda ficamos bastante dependentes do mercado americano, o que de certa forma é uma vantagem para as pessoas que conseguem ler em Inglês (ou em qualquer outro idioma), afinal de contas o livro é mais barato. O problema é fazer ele chegar aqui. E depois de muita esperar, consegui alguém para me servir de mula, logo, finalmente pude ler um dos grandes livros que ainda não chegaram ao nosso país, a autobiografia do Ginger Baker - Hellraiser: The Autobiography Of The World's Greatest Drummer, liberada em 2010.


Esse livro era para ter saído bem antes, aliás a narração começa relatanto este fato, e já neste pequeno comentário, notamos que assim como tudo na vida do baterista,, reunir essas memórias foi um caos. Primeiro ele começou a escrever e perdeu as páginas, depois desencanou, mas voltou atrás e refez tudo com um jornalista oportunista que chegou a publicar o livro sem seu consentimento! E o pior, mesmo sem a publicação efetiva das cópias, o britânico ainda teve que pagar uma grana preta para não ter essa mentira veiculada.

Mas no fim das contas tudo acabou dando acerto, Baker encontrou os registros e recomeçou a história junto de sua filha na parte escrita e lançou o registro em 2000 e dez, portanto, agora o Cream está completo em livros também, pois Jack Bruce tem uma autobiografia, Clapton também não perdeu tempo, e agora o Sr. Ginger. 

Agora, voltando para a resenha, declaro que só tenho elogios a tecer. Baker conta sobre sua infância no pós guerra, sua vida como participante de gangues e seu começo nas baquetas. Notamos que sua paixão pelo ritmo é instatânea e que daí pra frente surge a narração completa de seu tempo com a GBO (The Graham Bond Organization) seu reconhecimento com a banda, a fase Cream, Blind Faith, Air Force, Gurvitz Army e, para meu espanto, uma bela e detalhada cobertura sobre sua carreira solo e outros perrengues variados, além de sua paixão por cavalos, cachorros e 23 tentativas de largar a heroína.


Antes de ler esse livro sempre idolatrei o músico Ginger Baker, mas depois de ler as pouco mais de 290 folhas dessas memórias, notei como minha admiração será restritamente musical daqui pra frente, pois ao folear 5 páginas percebe-se como o cidadão é uma pessoa difícil e por vezes até cruel, calculista e sem caráter.

O cara simplesmente largou sua família e foi para a África (numa das várias vezes que isso ocorreu) e se estabeleceu com uma nova família. E o mais estranho disso tudo é como ele narra esses diferentes momentos no livro; ele vai citando e passando por tudo isso com uma frieza que chega a dar nojo e, no final, geralmente todas as pessoas são um bando de estúpidos e suas baquetas sempre foram vítima das circunstâncias. 


No fim do livro parece que a única coisa que ele assume é que de fato era viciado em heroina, porém, em nenhum momento, sua consciência demonstra um décimo de arrependimento por ter largado sua mulher e seus três filhos sem nenhum dinheiro, ou por ter brigado com meio mundo dentro da música e deixado dezenas de oportunidades passarem.

Baker de fato é brilhante, genial e tudo o mais, mas ler este livro foi um choque. Aliás, meu pai fez uma observação esses dias que exemplifica muito bem o conteúdo das páginas. Foi algo mais ou menos assim. ''O Jack Bruce tocou com meio mundo dentro da indústria, podemos citar Robin Trower, Rory Gallagher, Frank Zappa, Leslie West, Gary Moore e por aí vai, Baker tocou com o Cream e depois com Fela Kuti e o Gary Moore... E você ainda acha que o louco era o Bruce? 

Esse posiconamento não defende nenhum dos dois, mas mostra como Baker era cabeça dura e como ele fez tudo SEMPRE do seu jeito, mesmo sabendo que ia dar merda. É um grande trabalho, mas revela um lado asqueroso de um cara brilhante e que está sendo esquecido em decorrência de seus próprios flashbacks existenciais... Uma pena.

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Pegue seu skate (um baseado) e um capacete: esse mês o The Shrine encosta em São Paulo

Para mostrar ao público paulista que o som pesado não pode ser feito por bibelôs de cabelo espetado, tampouco por maricas com voz de loucutor de loja de cosméticos, que a Abraxas veio com tudo para firmar sua programação de rolês em sampa para o mês de julho.

Arte: Vivi Leitão Bergè

Primeiro, para não fugir à regra, a produtora montou mais um trio de atrações interessantíssimas para massacrar o placo do Inferno Club no dia 30 de julho. Para inaugurar o front, vai rolar show da Monstro Amigo (talvez uma das bandas mais chapadas e originais que surgiram na cena recentemente), uma leve podreira com os kamikazes da Bandanos e muita, mas muita porrada, pra ver o Hard bêbado e maconheiro do The Shrine.  

Arte: Cezar Berger

E logo no dia seguinte, pra nem dar tempo de você querer voltar pra casa no sábado, rola a primeira edição do Abraxas Skate Jam, a mais nova série de eventos que que a produtora criou. A matemática é simples: Skate + Hellhound Syndicate + Lo-Fi Punkrock = Rock 'N' Roll. Sim, é isso mesmo que você entendeu, enquanto os carrinhos voam no CavePool, as bandas arregaçam no volume e fecham o rolê no esquema de riff's por flips.

Pegue seu capacete, não esquece do baseado e caso o senhor ainda aprecie um peão de board, jogue o carrinho na mochila, pois a caravana será longa. 48 horas de som, skate e barulho. Onde está o seu Deus agora?

Data: dia 30 de julho
Horário: 18:00-22:30
Endereço: Rua Augusta, 501
Ingressos Online: clique aqui
Na hora: 70,00 (meia) e 140,00 (inteira)

Serviço 2: Abraxas Skate Jam
Data: dia 31 de julho
Horário: 16:20-22:00
Endereço: Avenida Eliseu de Almeida, 984
Ingressos online: clique aqui
Na hora: 50,00

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Roy Buchanan: a metamorfose do Blues espacial

Existem muitos discos que não deram certo e o insucesso pode ser creditado à diversos fatores. Em alguns casos, o estopim partiu de brigas internas causadas por puro desgaste, dinheiro curto ou algum tipo de perrengue com o orçamento do selo. Todas essas variáveis são enquadradas na categoria de falha humana, mas fora isso, ainda existe outra categoria, esta, por sinal, bem triste.

Alguns CD's simplesmente não são ''compreendidos''. E mesmo que anos depois estes sejam considerados grandes registros, nada pode apagar o começo negligenciado dos mesmos. Aquelas bolachas que mudaram a diretriz de todo um estilo... Chega até a entristecer o ouvinte, como o ''You're Not Alone'' não fez sucesso? Como o Roy Buchanan não explodiu?


Seu Blues era (e ainda é) fantástico em todos os discos que deixou para a posteridade. O rei da Telecaster não tem UM disco ruim. Definitivamente, o melhor guitarrista desconhecido do mundo foi um gênio mal compreendido e, acredite se quiser, nem todo o lamento do universo pode reparar essa insurreição.

A guitarra deste disco é inspiração pura. Estabelece um grau de conexão com o ouvinte que beira o surrealismo. É uma coqueluche de sensações intransferíveis. É lindo e repleto de feeling. É Blues, e este trabalho foi um dos grandes avanços para o gênero, pena que para o Roy os resultados foram fatídicos.

Line Up:
Alfa Anderson (vocal)
Willie Weeks (baixo)
Luther Vandross (vocal)
Andy Newmark (bateria)
Gary St. Clair (vocal)
Ray Gomez (guitarra/violão)
Krystal Davis (vocal)
Roy Buchanan (guitarra/vocal)
David Lasley (vocal)



Track List:
''The Opening... Miles From Earth''
''Turn To Stone''
''Fly... Night Bird''
''1841 Shuffle''
''Down By The River''
''Supernova''
''You're Not Alone''


Essa gravação rompeu com tudo que Buchanan tinha criado em sua carreira, e esta mudança foi sentida pelos críticos, assim que eles ouviram esta pérola lançada em 1978. A única coisa que não mudou foi a opinião dos ditos entendedores, que pra variar, malharam o Judas no disco do Blues Man, e deram uma bela contribuição para o baixíssimo número de vendas do LP, que de tão baixo, fez com que Roy ficasse um tempo meio off e só voltasse a lançar alguma coisa dois anos mais tarde, já em 1980.

Diferentemente do habitual, essa bolacha marca o fim (mesmo que temporário) do Blues rasgado, swingado e elegante do dono da Nancy (nome de sua Telecaster favorita) e mostra uma abordagem mais panorâmica de sua persona. Eis o que temos aqui: um Roy ávido para experimentações dentro de um Blues espacial e serenamente Groovy.

Trazendo a tona uma sonoridade expandida, chapada, com guitarras que criam camadas e mais camadas a cada bend, entorpecendo ouvintes com leveza e notas cirurgicamente calculadas, Buchanan providencia uma viagem deliciosa. E pensar que alguns ousaram se referir a este disco como uma ''chatice espacial'' (!)


Esqueçam a crítica, apertem play e já se ambientem com a atmosfera deste trabalho, por que ''The Opening... Miles From Earth'' consegue mostrar quase tudo que teremos por aqui. Note como o som frágil da Telecaster se torna paradoxalmente robusto nas mãos do mestre. Roy dominava a Nancy de uma forma que nenhuma Tele já sonhou, e esbanjando técnica, suas linhas surgem absolutamente livres e com um Gospel finíssimo... Rapaz, preste atenção em ''Turn To Stone''.

''Fly... Night Bird'' arrepia! O disco todo, as linhas são bastante emotivas. Parecem evocar alguma coisa no interior de nossos corpos, algo que acontece com pouquíssimos temas, uma conexão quase que espiritual.

Você escuta e entra em numa imersão profunda, tentando captar cada detalhe. Por que acredite, por mais minucioso que seja, o maior presente desse trabalho é sentir como uma guitarra pode ser tão pura. Seu cérebro congela, mas sua mente nunca ficou tão livre.



Sem notas desperdiçadas. Um estilo econômico talvez, mas só no estilo, por que o feeling desse cidadão é impressionante. Repare nas pinceladas suaves na mudança do tempos nos solos mais lentos, na alquimia dos bends e no controle para extrair o máximo de cada nota.

Em ''1841 Shuffle'' ele massacra, mas é na última, na faixa título, que a experiência atinge o apogeu. ''You're Not Alone'' traduz outro patamar de música, acredite, você vai ouvir mil vezes e no fim vai ficar igual o final deste texto: sem resposta alguma.

A precisão desse disco vai além de uma mudança abrupta após um conceito Funkeado que deu muito certo no antecessor desse LP, o também excelente ''A Street Called Straight'' (1976), mas o que fica, além de uma abordagem única em sua discografia, é uma precisão retumbante, aliada a uma classe e um sentimento que juntos, chegam a doer.

Roy mudou toda sua backing banda para registrar esse trabalho. Tudo estava fresco em sua mente, as ideias surgiam e o conceito de fluência musical é algo que apesar de inexplicável, posssui nesse disco, um porto seguro que beira até o Jazz. É vero, existe vida fora do planeta Terra.

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Jonas Hellborg & sua Little Wing

Quando ouvi ''Little Wing'' pela primeira vez, foi como se o tempo tivesse parado de passar. Tudo parou para que eu assimilar tais acordes, sequências de notas insulares que, para essa faixa em especial, é um dos movimentos mais lindos que já escutei.

Talvez mais enigmático do que o sorriso da Monalisa, Jimi Hendrix eternizou um tilintar de sonho-e-realidade que ecoa de sua Fender com o impacto de uma verdade absoluta. O sentimento é supremo, os bends do mestre nos levam para vários planos. Nós apenas vamos e voltamos e, ao meu ver, nosso destino sensorial sempre muda, mas o senhor do tempo é sempre o mesmo, o universo harmônico do Sr. Woodstock..


Tocar Jimi é impossível, muitos fazem mas praticamente ninguém capta a essência. É plenamente possível contar nos dedos de uma mão (a sua escolha, claro) os covers dignos do mestre, e o motivo? Bom, não se explica, tal qual Hendrix em sua essência. Além da guitarra dionisíaca, a voz do Cherokee também era singular, e a forma como o discurso fluia em sua lírica desleixadamente banal, irradiava muito brilho dentro de sua Via Láctea psicodélica.

Porém ainda é possível tocar algumas faixas do membro da dinastia Marshall com certo capricho e destreza, só que nenhuma transcrição vai lhe ajudar, Vale lembrar que Jimi não sabia ler música, logo, se você o fizer, já está começando errado, e mesmo se eu soubesse tocar algo de seu espólio, jamais o faria, pois errar uma cópia é triste, e na minha mente, o americano apenas acordou, pegou sua Strato e tocou ''Little Wing'' toda, sem nem falar, apenas a colocando pra fora de sua mente, corpo e alma.


''Little Wing'' sim é impossível de ser tocada, pelo menos na guitarra nunca achei nada que chegasse perto do transe... Nunca ouvi nada que me fizesse ficar quieto, uma versão que tentasse emanar o equilíbrio, aquele sentimento de satisfação que depois do play desliga nosso cérebro tal qual a versão de quatro cordas de Jonas Hellborg, para o carpe diem das guitarras.

O baixo desse Suéco é deveras virtuoso, e sua linha para tirar esse som com as notas graves é belíssima, bate mais profundo pelo peso das cordas e deixa o ouvinte perplexo pela proximidade com o tema original e seu retumbante feeling. Aliás para os interessados, essa versão saiu em um disco solo do baixista, falo de ''Elegant Punk'', seu segundo trabalho lançado em 1984.

E você aí achando que não existia segunda opção...

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Perpetual Gateways: o groove cerebral do Ed Motta

É impressionante como a música evolui. Tem hora que simplesmente não tem como ignorar as metamorfoses que alguns músicos passam entre uma gravação e outra, mas em certos momentos o baque é tanto que é digno de uma epifania.

E foi justamente numa dessas ondas de recapitulação, que eu topei com o décimo segundo disco de estúdio do Ed Motta e, mais uma vez, pude relembrar, com direito a ótimos timbres e tons, o quão bom é ser desconcertado por um belo registro.


Não é só o fato de suceder ''AOR'' (gravação de 2013 que antecede esse trabalho), a questão é como o carioca elevou o padrão e voltou ainda mais inspirado. É vero senhores, o refinamento desse Jazz/R&B é ainda mais sinuoso e sofisticada. É notável como  o CD carrega um frescor que apenas uma nova produção, banda e ares criativos, poderiam levar para um cara que está com a confiança no Boogie lá no teto.


Track List:
''Captain's Refusal''
''Hypochondriac's Fun''
''Good Intentions''
''Reader's Choice''
''Heritage Deja Vu''
''Forgotten Nickname''
''The Owner''
''A Town In Flames''
''I Remember Julie''
''Overweight And Overblown''


''Perpetual Gateways'' é a primeira gravação de Ed nos Estados Unidos, apenas o seu segundo trabalho com outro produtor que não ele mesmo (Kamay Kenyatta que produziu esse aqui, aliás, você deve lembrar do rapaz dos tempos de Gregory Porter) e, musicalmente falando, não estou exagerando quando digo que na ficha técnica só tem a nata dos músicos de sessão.

Gravado em Los Angeles depois de 5 dias de experimentos, ''Perpetual Gateways'' evidencia como este é o melhor momento da carreira do arranjador, multi instrumentista e produtor de 44 anos. E também pudera, trabalhando com um time de músicos que além de contar com o próprio Motta, ainda recebeu Patrice Rushen nas teclas, Marvin ''Smitty'' Smith (bateria), Tony Dumas e Cecil McBee (baixo), Rickey Woodard e Curtis Taylor nos metais... Bom, o resultado só poderia fazer o que fez, esbanjar classe.

O que tmeos aqui é um prazeroso passeio de ''Kamakiriad'' pelas orlas de West Coast. Um clima AOR no ambiente. Ventos alísios provenientes da massa de ar do bom gosto que nos remetem aos mais azeitados R&B que se tem notícia e muito detalhe nas diversas belas passagens instrumentais que formam esse trabalho.


Groove racional. Notas lapidadas até a ponta da navalha. Aquele balanço com pedigree no Funk, Blues, Jazz. Eis aqui uma coqueluche de vertentes apaixonantes que nessa cozinha versão 2016, segue estabelencendo novos padrões de excelência para o bem da música contemporânea quando o assunto é feeling nos arranjos e exploração minimalista de sons que, no fim do dia, impossibilitam rótulos e desconcertam o ouvinte.

Preste atenção no loop dos metais na abertura com a classe de ''Captains Refusal''. Aaquela pegada no melhor estilo Steely Dan... Ed surge destilando um Pop perfeito que é o mais puro veneno. ''Hypochondriac'S Fun'' chega na sequência com uma letra que poderia muito bem ter sido escrita pelo próprio Donald Fagen, e ainda apresenta uma perícia no swing que nos remete ao melhor material do Stevie Wonder, fora que o solo de piano do Patrice Rushen deixa o bouquet da jam ainda mais irresistível.

É aquele lance, grandes discos surgem depois que o criador absorve grandes referências. O que dizer da cadência na bateria e do néctar cristalino do baixo de ''Good Intentions''? A referência ao mestre Groover Washinton Jr. o ''Mister Magic'', é o toque que faltava, se é que pode-se dizer que faltou alguma coisa aqui.


A versatilidade também se destaca. Parece que o trabalho foi dividido em dois momentos. A primeira parte, até ''Reader's Choice'', mostra um som mais malandro, só que de ''Heritage Déjà Vu'' pra frente, o tom do por do sol se altera e aí o Jazz toma conta.

Rola de tudo, até um lindo solo de flauta de Hubert Laws em ''Forgotten Nickname''. Aliás, a maneira como os arranjos de cada faixa se complementam é digna de nota. O fluxo de notas em ''A Town In Flames'', por exemplo, revela um time de músicos compenetrados, precisos e a par do que fazer para que nenhuma nota ouse reverberar em vão.

Com ''Perpetual Gateways'', Ed Motta atinge o seu pico criativo. Aqui ele consegue fazer de tudo, desde apresentar um groovezinho de rachar o assoalho, até levar sua mente no banho maria com passagens finas e cheias de ramificações, como o tema mais longo e complexo do disco, ''Overblown And Overwieght'', por exemplo.

A profundidade das composições é bastantes palatável, a perícia dos músicos envolvidos blinda o som com uma simplicidade que chega a ser absurda e, pra variar, o Ed Motta nos deu mais um workshop gratuito sobre como é possível ser cool sem perder a acidez. Excelente.

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Scar Tissue: Anthony Kiedis - A vida alucinada do vocalista do Red Hot Chili Peppers

Uma das autobiografias sonoras que mais me pegou pelo pé está fora de catálogo. Lançada em 2004, a autobiografia do vocalista do Red Hot Chili Peppers, vulgo Anthony Kiedis, é um trabalho indispensável para você que é fã não só do Anthony, mas do Red Hot Chili Peppers como um todo.

Escrito com a ajuda de Larry Sloman, ''Scar Tissue'' é um dos registros mais viscerais que um dia já esteve disponível no mercado. E além disso, trata-se de uma prova viva de como a memória deste senhor de 53 anos ainda é excelente, já que apesar de ter passado sua vida toda chapado, os detalhes ainda são cristalizados neste registro.


O interessante é que quando se fala em abuso de drogas, ninguém cita o americano, e meu amigo, após ler isso aqui você perceberá que tem muita gente que não chega nem perto do oriundo de Michigan quando o assunto é chapação.

O frontman chegou a procurar agulhas em bueiros, tomar pico debaixo da ponte, esconder seringa no cabelo, fumar, cheirar comer com farofa.... Tudo o que você pensar Anthony já fez, e o mais impressiona (além de saber que ele ainda vive), é ver a mudança pela qual o compositor passou após superar tudo isso.

Hoje o Kiedis é todo natureba, não come isso nem aquilo, faz meditação... Quando o livro acaba você não acredita nessas coisas. A maneira como ele escreve é um convite a ler o depoimento numa tacada só.

Não sobra pedra sobre pedra. Rola de tudo, desde passagens citando seu pai, o ator e traficante Blakie, individuo que o apresentou às drogas quando Anthony tinha apenas 11 anos de idade (!) até as várias ex-namoradas do futuro astro, viagens de ácidos na época de faculdade, algumas recaídas, enquanto a história do Red Hot é construída e narrada desde a morte de Slovak até a fase Junkie do Frusciante.


Durante o relato ele vai ''ilustrando'' seus péssimos momentos com algumas das letras mais famosas do grupo, e quando você vê já está escutando as faixas enquanto lê o livro. Um experimento que deixa claro que, além de um exímio letrista, a coisa estava tão feia que refletia até nas composições.

É de fato alucinante, assim como está no título do livro. Em alguns momentos você percebe que Anthony está por um fio de sair da banda, mas era sempre salvo por Flea. E você pensava que o baixista que era o lunático da banda, não é mesmo?

Eis aqui um relato nada linear e assustador. O manual prático de como um aluno prodígio na UCLA, se transformou num usuário de Crack. Essa é a vida de Anthony Kiedis, um flash tão revelador que até ele diz abertamente que se arrependeu de algumas declarações. Fulminante, impetuoso e quase fatal. Prepare-se para conhecer o verdadeiro vocalista da sua banda preferida (ou não).

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