Perpetual Gateways: o groove cerebral do Ed Motta

É impressionante como a música evolui. Tem hora que simplesmente não tem como ignorar as metamorfoses que alguns músicos passam entre uma gravação e outra, mas em certos momentos o baque é tanto que é digno de uma epifania.

E foi justamente numa dessas ondas de recapitulação, que eu topei com o décimo segundo disco de estúdio do Ed Motta e, mais uma vez, pude relembrar, com direito a ótimos timbres e tons, o quão bom é ser desconcertado por um belo registro.


Não é só o fato de suceder ''AOR'' (gravação de 2013 que antecede esse trabalho), a questão é como o carioca elevou o padrão e voltou ainda mais inspirado. É vero senhores, o refinamento desse Jazz/R&B é ainda mais sinuoso e sofisticada. É notável como  o CD carrega um frescor que apenas uma nova produção, banda e ares criativos, poderiam levar para um cara que está com a confiança no Boogie lá no teto.


Track List:
''Captain's Refusal''
''Hypochondriac's Fun''
''Good Intentions''
''Reader's Choice''
''Heritage Deja Vu''
''Forgotten Nickname''
''The Owner''
''A Town In Flames''
''I Remember Julie''
''Overweight And Overblown''


''Perpetual Gateways'' é a primeira gravação de Ed nos Estados Unidos, apenas o seu segundo trabalho com outro produtor que não ele mesmo (Kamay Kenyatta que produziu esse aqui, aliás, você deve lembrar do rapaz dos tempos de Gregory Porter) e, musicalmente falando, não estou exagerando quando digo que na ficha técnica só tem a nata dos músicos de sessão.

Gravado em Los Angeles depois de 5 dias de experimentos, ''Perpetual Gateways'' evidencia como este é o melhor momento da carreira do arranjador, multi instrumentista e produtor de 44 anos. E também pudera, trabalhando com um time de músicos que além de contar com o próprio Motta, ainda recebeu Patrice Rushen nas teclas, Marvin ''Smitty'' Smith (bateria), Tony Dumas e Cecil McBee (baixo), Rickey Woodard e Curtis Taylor nos metais... Bom, o resultado só poderia fazer o que fez, esbanjar classe.

O que tmeos aqui é um prazeroso passeio de ''Kamakiriad'' pelas orlas de West Coast. Um clima AOR no ambiente. Ventos alísios provenientes da massa de ar do bom gosto que nos remetem aos mais azeitados R&B que se tem notícia e muito detalhe nas diversas belas passagens instrumentais que formam esse trabalho.


Groove racional. Notas lapidadas até a ponta da navalha. Aquele balanço com pedigree no Funk, Blues, Jazz. Eis aqui uma coqueluche de vertentes apaixonantes que nessa cozinha versão 2016, segue estabelencendo novos padrões de excelência para o bem da música contemporânea quando o assunto é feeling nos arranjos e exploração minimalista de sons que, no fim do dia, impossibilitam rótulos e desconcertam o ouvinte.

Preste atenção no loop dos metais na abertura com a classe de ''Captains Refusal''. Aaquela pegada no melhor estilo Steely Dan... Ed surge destilando um Pop perfeito que é o mais puro veneno. ''Hypochondriac'S Fun'' chega na sequência com uma letra que poderia muito bem ter sido escrita pelo próprio Donald Fagen, e ainda apresenta uma perícia no swing que nos remete ao melhor material do Stevie Wonder, fora que o solo de piano do Patrice Rushen deixa o bouquet da jam ainda mais irresistível.

É aquele lance, grandes discos surgem depois que o criador absorve grandes referências. O que dizer da cadência na bateria e do néctar cristalino do baixo de ''Good Intentions''? A referência ao mestre Groover Washinton Jr. o ''Mister Magic'', é o toque que faltava, se é que pode-se dizer que faltou alguma coisa aqui.


A versatilidade também se destaca. Parece que o trabalho foi dividido em dois momentos. A primeira parte, até ''Reader's Choice'', mostra um som mais malandro, só que de ''Heritage Déjà Vu'' pra frente, o tom do por do sol se altera e aí o Jazz toma conta.

Rola de tudo, até um lindo solo de flauta de Hubert Laws em ''Forgotten Nickname''. Aliás, a maneira como os arranjos de cada faixa se complementam é digna de nota. O fluxo de notas em ''A Town In Flames'', por exemplo, revela um time de músicos compenetrados, precisos e a par do que fazer para que nenhuma nota ouse reverberar em vão.

Com ''Perpetual Gateways'', Ed Motta atinge o seu pico criativo. Aqui ele consegue fazer de tudo, desde apresentar um groovezinho de rachar o assoalho, até levar sua mente no banho maria com passagens finas e cheias de ramificações, como o tema mais longo e complexo do disco, ''Overblown And Overwieght'', por exemplo.

A profundidade das composições é bastantes palatável, a perícia dos músicos envolvidos blinda o som com uma simplicidade que chega a ser absurda e, pra variar, o Ed Motta nos deu mais um workshop gratuito sobre como é possível ser cool sem perder a acidez. Excelente.

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