Roy Buchanan: a metamorfose do Blues espacial

Existem muitos discos que não deram certo e o insucesso pode ser creditado à diversos fatores. Em alguns casos, o estopim partiu de brigas internas causadas por puro desgaste, dinheiro curto ou algum tipo de perrengue com o orçamento do selo. Todas essas variáveis são enquadradas na categoria de falha humana, mas fora isso, ainda existe outra categoria, esta, por sinal, bem triste.

Alguns CD's simplesmente não são ''compreendidos''. E mesmo que anos depois estes sejam considerados grandes registros, nada pode apagar o começo negligenciado dos mesmos. Aquelas bolachas que mudaram a diretriz de todo um estilo... Chega até a entristecer o ouvinte, como o ''You're Not Alone'' não fez sucesso? Como o Roy Buchanan não explodiu?


Seu Blues era (e ainda é) fantástico em todos os discos que deixou para a posteridade. O rei da Telecaster não tem UM disco ruim. Definitivamente, o melhor guitarrista desconhecido do mundo foi um gênio mal compreendido e, acredite se quiser, nem todo o lamento do universo pode reparar essa insurreição.

A guitarra deste disco é inspiração pura. Estabelece um grau de conexão com o ouvinte que beira o surrealismo. É uma coqueluche de sensações intransferíveis. É lindo e repleto de feeling. É Blues, e este trabalho foi um dos grandes avanços para o gênero, pena que para o Roy os resultados foram fatídicos.

Line Up:
Alfa Anderson (vocal)
Willie Weeks (baixo)
Luther Vandross (vocal)
Andy Newmark (bateria)
Gary St. Clair (vocal)
Ray Gomez (guitarra/violão)
Krystal Davis (vocal)
Roy Buchanan (guitarra/vocal)
David Lasley (vocal)



Track List:
''The Opening... Miles From Earth''
''Turn To Stone''
''Fly... Night Bird''
''1841 Shuffle''
''Down By The River''
''Supernova''
''You're Not Alone''


Essa gravação rompeu com tudo que Buchanan tinha criado em sua carreira, e esta mudança foi sentida pelos críticos, assim que eles ouviram esta pérola lançada em 1978. A única coisa que não mudou foi a opinião dos ditos entendedores, que pra variar, malharam o Judas no disco do Blues Man, e deram uma bela contribuição para o baixíssimo número de vendas do LP, que de tão baixo, fez com que Roy ficasse um tempo meio off e só voltasse a lançar alguma coisa dois anos mais tarde, já em 1980.

Diferentemente do habitual, essa bolacha marca o fim (mesmo que temporário) do Blues rasgado, swingado e elegante do dono da Nancy (nome de sua Telecaster favorita) e mostra uma abordagem mais panorâmica de sua persona. Eis o que temos aqui: um Roy ávido para experimentações dentro de um Blues espacial e serenamente Groovy.

Trazendo a tona uma sonoridade expandida, chapada, com guitarras que criam camadas e mais camadas a cada bend, entorpecendo ouvintes com leveza e notas cirurgicamente calculadas, Buchanan providencia uma viagem deliciosa. E pensar que alguns ousaram se referir a este disco como uma ''chatice espacial'' (!)


Esqueçam a crítica, apertem play e já se ambientem com a atmosfera deste trabalho, por que ''The Opening... Miles From Earth'' consegue mostrar quase tudo que teremos por aqui. Note como o som frágil da Telecaster se torna paradoxalmente robusto nas mãos do mestre. Roy dominava a Nancy de uma forma que nenhuma Tele já sonhou, e esbanjando técnica, suas linhas surgem absolutamente livres e com um Gospel finíssimo... Rapaz, preste atenção em ''Turn To Stone''.

''Fly... Night Bird'' arrepia! O disco todo, as linhas são bastante emotivas. Parecem evocar alguma coisa no interior de nossos corpos, algo que acontece com pouquíssimos temas, uma conexão quase que espiritual.

Você escuta e entra em numa imersão profunda, tentando captar cada detalhe. Por que acredite, por mais minucioso que seja, o maior presente desse trabalho é sentir como uma guitarra pode ser tão pura. Seu cérebro congela, mas sua mente nunca ficou tão livre.



Sem notas desperdiçadas. Um estilo econômico talvez, mas só no estilo, por que o feeling desse cidadão é impressionante. Repare nas pinceladas suaves na mudança do tempos nos solos mais lentos, na alquimia dos bends e no controle para extrair o máximo de cada nota.

Em ''1841 Shuffle'' ele massacra, mas é na última, na faixa título, que a experiência atinge o apogeu. ''You're Not Alone'' traduz outro patamar de música, acredite, você vai ouvir mil vezes e no fim vai ficar igual o final deste texto: sem resposta alguma.

A precisão desse disco vai além de uma mudança abrupta após um conceito Funkeado que deu muito certo no antecessor desse LP, o também excelente ''A Street Called Straight'' (1976), mas o que fica, além de uma abordagem única em sua discografia, é uma precisão retumbante, aliada a uma classe e um sentimento que juntos, chegam a doer.

Roy mudou toda sua backing banda para registrar esse trabalho. Tudo estava fresco em sua mente, as ideias surgiam e o conceito de fluência musical é algo que apesar de inexplicável, posssui nesse disco, um porto seguro que beira até o Jazz. É vero, existe vida fora do planeta Terra.

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