O primeiro disco da Augustine Azul é um banho de estilhaços psicodélicos

Você já atravessou um box de vidro temperado correndo? Sentir o sangue pulsar e correr pelas vísceras. É, com certeza isso sim é ser e viver ao extremo, numa das maiores situações de explosão que posso imaginar.

Essa será a única reação palpável que você encontrará para descrever o que o primeiro full lengh da Augustine Azul fará com você. É intenso e sinuoso, bote fé. Seis composições azeitadíssimas corroboram para gerar o DNA de um dos sons mais originais que a cena brasuca já criou.

É um fato, esse meandro do Stoner-Psicodélico brasileiro vai bem demais, e dentro desse contexto instrumental, a perícia da Augustine Azul é singular. Depois de explodir para o cenário underground com um dos melhores lançamentos de 2015, graças ao primeiro EP (homônimo) da história do trio paraibano, que esse celeiro psicodélico formado por João Yor (guitarra), Jonathan Beltrão (baixo) e Edgard Moreira (bateria), pode finalmente se alongar no tempo e eternizar climas ácidos e pesados num disco cavernoso.

Foto: Rádio Layback

Line Up:
João Yor (guitarra)
Jonathan Beltrão (baixo)
Edgard Júnior (bateria)


Arte - Inácio EugênioCrowl

Track List:
''Amônia''
''Jurubeba''
''Cogumelo''
''Mamatica''
''Pixo''
''Intéra''


A versatilidade dos músicos é notável. A bateria do Edgard é capaz de acompanhar de tudo. Desde uma sessão de reboque em ''Jurubeba'', até os tempos quebrados e cheios de mudanças de peso e cadência gravados em ''Amônia''.

O baixo do Jonathan Beltrão também cumpre uma difícil tarefa nesse front. São as 4 cordas do rapaz que selam a cama rítmica com o Edgard, mas além disso, é a criatividade presente em seus riffs e a dinâmica que seu groove possui com as guitarras de João Yor, que nutrem o som com um química instrumental quase telepática.


A interação entre os três é muito peculiar. Cada um parece rumar pra um canto da jam, mas no fim as faixas carregam uma fluência e uma unidade que definitivamente facilitam na audição de todos os instrumentos envolvidos. E o resultado de tais experimentos são insights chapantes como o da terceira faixa, ''Cogumelo'', um take que realmente tira o ouvinte de órbita e o ainda o faz com um tinhoso boogie funkeado.

O trabalho de guitarras é muito interessante. Em alguns momentos João parece ter o melhor emprego do mundo. Sua lírica é muito livre e por vezes parece que suas passagens são eternos solos. Na real que todos os três tocam como se o disco fosse um eterno improviso. Um verdadeiro fluxo de consciência.

Foto: Rádio Layback

A naturalidade, o sentimento,  o grooove e a fusão de ritmos e vertentes faz o resto. Rola até um Blues com uma chorosa guitarra do Yor em ''Mamatica''. Repare na pegada Paul Kossoff na construção da melodia... Tudo flui numa síncope finíssima.

E quando você percebe já se passaram 30 minutos, o play foi embora e você entrou de peito num mar de estilhaços de riffs imersos em Wah's Wah's, ecos, solos de baixo, guitarra, Funk, Hard, Prog, L.S.D. e Blues embebido nas timbragens Stoner de ''Pixo''.

''Lombramorfose''. Vá pensando que esse nome é por acaso. Depois do fim do trampo você estará igual o fantástico retrato da arte da capa. Vidro temperado é um veneno e esse disco são as gotas de limão que faltavam. Peso e leveza... Os fones vão zunir na sua orelha. Prepare-se para um shot tinhoso de Fuzz orgasmático. Bote sua ''Intéra'' pra comprar o disco que saiu via More Fuzz Records e saque o brainstorming que nós fizemos com o trio.



Entrevista:


1) O que mudou quando o ''Lombramorfose'' começou a ser gravado? A concepção de tempo e espaço foi alterada quando vocês saíram do modelo EP para o full, como foi essa transição?


Na nossa experiência gravando, o que mais mudou foi ter tempo e planejamento pra produzir o material e lançá-lo. Também sentimos que a gente atingiu um grau de se autoanalisar mais complexo, que acabou refletindo no som de alguma maneira. Com certeza foi uma experiência que somou bastante coisa boa pra nossa música e performance.

2) Na parte estética fica bem claro que as composições desse trabalho são mais progressivas que a do EP. O processo criativo mudou para moldar essa nova faceta?


Foi mais uma continuação aprimorada do que nós já estávamos tocando que de fato uma mudança, pois já tínhamos alguns temas compostos, junto com outras frases e tal. As composições foram tomando forma naturalmente, basicamente no mesmo processo em que estávamos compondo na época do EP, a maior diferença desses dois materiais foi o tempo disponível que a gente tinha e a qualidade dos recursos.


3) Notei que a guitarra do João Yor beira o Free Jazz em alguns momentos. Como que essa mudança de abordagem mudou o papel do baixo e da bateria?


Acredito que a mudança fez com que todos nós tirássemos novos sons dos nossos instrumentos, procurando texturas e ambientações não exploradas antes, no EP. A mudança de um ingrediente faz com que a receita final saia totalmente nova, isso que foi mais bacana no Lombramorfose, percebemos isso quando terminamos de gravar e escutamos algumas vezes.

4) Lembro que no primeiro EP a gravação aconteceu graças a muita correria por parte banda e também em função da ajuda de parceiros do grupo, já com o ''Lombramorfose'', rolou uma estrutura muito melhor pra se trabalhar. Como que foi o processo, desde o início até a conclusão, e como que foi a sensação de poder trabalhar com foco apenas na música e nada mais?


Foi sensacional ter uma estrutura melhor que a disponível pra gente anteriormente durante a produção do EP. Entramos em estúdio gravando com equipamentos muito bacanas, tanto a guitarra quanto o baixo foram captados com duas fontes sonoras distintas e o som da sala era muito bacana, dá pra sentir bem na bateria.

Se preocupar só com a música durante a hora da gravação foi muito libertador e permitiu que nós rendêssemos bem, mas ainda sim acompanhamos o trabalho de edição, mixagem e masterização de perto, participando ativamente com o pessoal do estúdio.


5) O grande lance do som de vocês é a energia de disco ao vivo. Quem escuta tanto o EP, quanto esse full, acha que vocês estão tocando na sala de casa e não nos fones de ouvido. Como que é esse processo de deixar o som o mais puro possível?


A gente, especialmente no Lombramorfose, gravou ao vivo na maior parte do material. Acho que isso contribui para que essa energia seja passada. Também prezamos muito em tocar exatamente o que podemos fazer ao vivo, sem nos apoiarmos tanto nas possibilidades que o registro multipista nos oferece, claro que aproveitamos, tanto no EP quanto no full, para fazer overdubs, dobras e outras ferramentas. Mas acredito que seja justamente tocar dentro do que pode ser feito entre nós três, exclusivamente.

6) E sobre a improvisação, que barreiras que vocês acham que foram quebradas criativamente com esse registro?


Foi só no Lombramorfose que tivemos takes onde nós três improvisávamos ao mesmo tempo. No EP claro que tiveram momentos de improviso, mas eles ficaram menos concentrados, até porque as composições tinham menos espaço para improvisação.

A improvisação é tão forte que ao vivo, vários temas soam de forma totalmente nova, pois além de não soarmos estritamente igual à gravação, o espaço aberto para improvisação nos permite interpretar um mesmo tema de infinitas maneiras diferentes.

7) Em composições como ''Jurubeba'', nota-se uma abordagem muito mais cerebral por parte de vocês. O esmero é muito grande, são vários detalhes que não passaram batido e é bastante desafiador imaginar como essas composições começaram a sair. Vocês levaram muita coisa para o estúdio ou o disco foi nascendo no improviso do primeiro take?


A gente chegou no estúdio pra gravar com todas os arranjos das músicas fechadas, tudo já estava completamente produzidos quando entramos em estúdio. Dessa maneira, gravamos as seis faixas em apenas dois dias de captação, na sua maior parte ao vivo.

O que construímos dentro do estúdio foram as partes dos solos, frases de ligação entre os temas das músicas, as viradas, os timbres... Experimentamos bastante no estúdio, mas dentro do que já sabíamos que iríamos tocar.

4 comentários:

  1. http://noisey.vice.com/pt_br/blog/augustine-azul-lombramorfose-disco?utm_source

    A galera do vice disponibiliza aqui pra ouvir em primeira mão, online, free.
    Mas entendam como incentivo para comprar o material e apoiar os caras ein? Sonzera atômica!

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  2. Entrevista muito maneira! sobre o som, dispensa comentários...vcs já falaram tudo e eu assino embaixo.
    Abraço,
    Ronaldo

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  3. Entrevista muito maneira! sobre o som, dispensa comentários...vcs já falaram tudo e eu assino embaixo.
    Abraço,
    Ronaldo

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  4. Nos resta apenas fritar meu caro! haha

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